O Que É Ciência, Afinal?

Alan Chalmers · Capítulo 12 de 17

Páginas do PDF

O Que É Ciência, Afinal?

9. Racionalismo versus Relativismo

 

Resumi nos dois capítulos anteriores duas análises contemporâneas da ciência que diferem em aspectos fundamentais. Lakatos e Kuhn oferecem distinções conflitantes entre a ciência e a não-ciência, ou pseudociência. O conflito entre os pontos de vista de Kuhn, por um lado, e bs de Lakatos e também de Popper, por outro, deu ocasião a um debate quanto às duas posições contrastantes associadas com os termos “racionalismo” e “relativismo” respectivamente. O debate diz respeito às questões de avaliação de teorias e sua escolha e a diferenciar a ciência da não-ciência. Neste capítulo começarei por caracterizar as duas posições que representam os extremos do debate, extremos a que me referirei respectivamente como racionalismo e relativismo. Discutirei, em seguida, a extensão em que Lakatos e Kuhn podem ser legitimamente caracterizados como racionalistas ou relativistas.

Na seção final começarei a colocar em dúvida os termos em que foi colocado o debate.

 

Racionalismo

 

O racionalista extremado afirma que há um critério único, atemporal e universal com referência ao qual se podem avaliar os méritos relativos de teorias rivais. Por exemplo, um indutivista pode aceitar como o seu critério universal o grau de corroboração indutiva que uma teoria recebe dos fatos aceitos, ao passo que um falsificacionista pode basear o seu critério no grau de falsificabilidade de teorias não falsificadas. Sejam quais forem os detalhes da formulação do critério por um racionalista, uma característica importante dela é sua universalidade e seu caráter não-histórico. O critério universal será invocado quando se julgar os méritos relativos da física de Aristóteles e de Demócrito, a astronomia ptolemaica e a copernicana, a psicologia freudiana e a behaviorista ou o big bang e as teorias do estado constante do universo. O racionalista extremado vê as decisões e as escolhas dos cientistas como sendo guiadas pelo critério universal. O cientista racional rejeitará as teorias que deixem de corresponder a ele, e, ao escolher entre duas teorias rivais, escolherá aquela que melhor corresponda a ele. O racionalista típico acreditará que as teorias que se conformam às exigências do critério universal são verdadeiras, ou aproximadamente verdadeiras, ou provavelmente verdadeiras. A citação na página 33 descreve como um cientista que seja “sobre-humano”, na medida em que age sempre racionalmente, operaria segundo um racionalista indutivista.

O racionalista acha a distinção entre a ciência e a não-ciência fácil de compreender. São científicas apenas aquelas teorias capazes de ser claramente avaliadas em termos do critério universal e que sobrevivem ao teste. É assim que um racionalista indutivista poderá decidir que a astrologia não é uma ciência por não ser derivada indutivamente dos fatos da observação, enquanto um falsificacionista poderá decidir que o marxismo não é científico por não ser falsificável. O racionalista típico aceitará como evidência que se deva dar um alto valor ao conhecimento desenvolvido segundo o critério universal. Ainda mais se compreender o processo como meio de se chegar à verdade. A verdade, a racionalidade e a ciência, portanto, são vistas como sendo intrinsecamente boas.

 

Relativismo

 

O relativista nega que haja um padrão de racionalidade universal não-histórico, em relação ao qual possa se julgar que uma teoria é melhor que outra. Aquilo que é considerado como melhor ou pior em relação às teorias científicas variará de indivíduo para indivíduo e de comunidade para comunidade. O objetivo da busca do conhecimento dependerá do que é importante ou daquilo que é valorizado pelo indivíduo ou comunidade em questão. Por exemplo, o controle material sobre a natureza receberá um alto status entre as sociedades capitalistas do Ocidente, tipicamente, mas receberá um status baixo numa cultura em que o conhecimento é projetado para produzir sentimentos de contentamento ou de paz.

O dito do velho filósofo grego Protágoras “o homem é a medida de todas as coisas” expressa um relativismo quanto aos indivíduos, ao passo que o comentário de Kuhn, de que “não há padrão mais alto que o assentimento da comunidade relevante”, expressa um relativismo em relação às comunidades. As caracterizações de progresso e as especificações de critérios para julgar os méritos das teorias serão sempre relativas ao indivíduo ou às comunidades que aderem a elas.

As decisões e as escolhas feitas por cientistas ou grupos de cientistas serão governadas por aquilo a que aqueles indivíduos ou grupos atribuem valor. Em uma dada situação não há um critério universal que dite uma decisão logicamente convincente para o cientista “racional”. Uma compreensão das escolhas feitas por um cientista específico requererá uma compreensão daquilo que o cientista valoriza e envolverá uma investigação psicológica, enquanto as escolhas feitas por uma comunidade dependerão daquilo que ela valoriza e uma compreensão destas escolhas envolverá uma investigação sociológica. O relato de Boris Hessen da adoção da física newtoniana no século XVII como uma resposta às necessidades tecnológicas da época pode ser lido como um relato relativista com relação às comunidades, enquanto a afirmação de Feverabend, de que é a “ligação interna de todas as partes do sistema (copernicano) juntamente com sua crença na natureza básica do movimento circular que faz com que Copérnico diga que o movimento da terra é real”, é um comentário coerente com um relativismo em relação aos indivíduos.

Visto que para o relativista os critérios para julgar os méritos das teorias dependerão dos valores ou dos interesses do indivíduo ou da comunidade que os nutre, a distinção entre a ciência e a não-ciência variará de acordo com eles. Dessa forma, uma teoria das marés baseada na atração da lua constituía boa ciência para os newtonianos mas beirava o misticismo ocultista para Galileu, enquanto na sociedade contemporânea a teoria de Marx da mudança histórica é boa ciência para alguns e propaganda para outros. Para o relativista extremado a relação entre ciência e não-ciência torna-se muito mais arbitrária e menos importante do que o é para o racionalista. Um relativista negará a existência de uma categoria única, a “ciência”, que é intrinsecamente superior a outras formas de conhecimento, embora muito possivelmente aconteça que indivíduos ou comunidades deem alto valor àquilo a que geralmente se conhece como ciência. Se a “ciência” (o relativista pode muito bem estar inclinado a usar aspas) é altamente respeitada em nossa sociedade, isto deve então ser compreendido analisando-se a nossa sociedade, e não simplesmente analisando a natureza da ciência.

Tomando estas caricaturas de racionalismo e relativismo como ponto de referência, consideremos agora, onde, na descrição, se encaixam Lakatos e Kuhn.

 

Lakatos como Racionalista

 

Alguns dos escritos de Lakatos indicam que ele desejava defender uma posição semelhante àquela que chamei de racionalismo, e que ele via com horror a posição que rotulei de relativismo, uma versão da qual ele atribuiu a Kuhn. Segundo Lakatos, o debate “tem a ver com nossos valores intelectuais centrais”. Lakatos declarou explicitamente que o “problema central da filosofia da ciência é... o problema de explicitar condições universais sob as quais uma teoria seja científica”, um problema que é “ligado intimamente ao problema da racionalidade da ciência” e cuja solução “deveria nos oferecer orientação quanto a quando é ou não racional a aceitação de uma teoria científica”. Do ponto de vista de Lakatos, uma posição relativista, segundo a qual não há padrão mais alto que o da comunidade relevante, não nos permite criticar aquele padrão. Se não há “maneira alguma de julgar uma teoria a não ser avaliando o número, fé e energia vocal de seus partidários”, então a verdade se encontra no poder, a mudança científica se transforma numa questão de “psicologia das multidões” e o progresso científico é, em sua essência, um “efeito de adesão aos vitoriosos”. Na ausência de critérios racionais que guiem a escolha de teorias, sua mudança aproxima-se da conversão religiosa.

A retórica de Lakatos não deixa, portanto, muito espaço para a dúvida quanto ao fato de que ele desejava defender uma posição racionalista e deplorava a posição relativista. Façamos uma avaliação cuidadosa da extensão em que teve sucesso ao defender a posição racionalista.

O critério universal de Lakatos para a avaliação de teorias segue-se de seu princípio de que “a metodologia dos programas de pesquisa científica é “mais adequada para a aproximação da verdade em nosso universo real que qualquer outra metodologia”. A ciência progride por meio da competição entre os programas de pesquisa. Um programa de pesquisa é melhor que um rival se for mais progressivo; a natureza progressiva de um programa depende de seu grau de coerência e a extensão em que ele tenha levado ao sucesso novas predições, como foi discutido no Capítulo VII. O objetivo da ciência é a verdade, e, segundo Lakatos, a metodologia dos programas de pesquisa fornece a melhor maneira de avaliar em que extensão tivemos sucesso em nos aproximar dela.

“Eu (Lakatos) dou critérios de progressão ou de estagnação dentro de um programa e também regras para a ‘eliminação’ de programas de pesquisas completos”. Com a definição de padrões de racionalidade “a metodologia dos programas de pesquisa pode nos ajudar a arquitetar leis para refrear... a poluição intelectual”. Comentários como este indicam que Lakatos tinha como objetivo propor um critério universal para julgar os programas de pesquisa, em especial, e o progresso científico, em geral.

Enquanto Lakatos realmente propôs algo que pretendia ser um critério universal da racionalidade ou cientificidade, ele não considerava este critério como uma consequência só da lógica, ou como tendo sido algum tipo de dádiva divina. Considerava-o como uma conjectura testável. A adequação da conjectura deveria ser testada confrontando-a com a história da ciência, ou, mais precisamente, dado o trabalho histórico realizado por Lakatos e seus seguidores, confrontando-a com a história da física. Grosso modo, a metodologia proposta (e sua caracterização associada ao que constitui o progresso) deve ser avaliada pela extensão em que é capaz de explicar a “boa” ciência e sua história. À primeira vista, este modo de procedimento parece circular. A metodologia determina aquelas teorias na história da física que constituem a boa física, enquanto exatamente contra aquelas boas teorias é que a metodologia deve ser testada. Dados os detalhes do relato de Lakatos e o esclarecimento que Worrall faz dele, entretanto, isso não acontece. Há maneiras genuínas nas quais os testes contra a história da física podem corroborar ou desacreditar a metodologia de Lakatos. A teoria de Lakatos ganha corroboração se pudermos demonstrar que episódios na história da ciência, que foram inexplicáveis em termos de metodologias rivais, são explicáveis nos termos da metodologia dos programas de pesquisa. Por exemplo, o estudo que Worrall faz da rejeição da teoria ondular da luz de Thomas Young e a retenção da teoria corpuscular de Newton no começo do século XIX apoiam Lakatos. A rejeição da teoria de Young, que apresenta problemas do ponto de vista das metodologias rivais e que havia sido explicada por teorias facilmente desacreditadas, como por um recurso a um culto ao herói por Newton; é demonstrada por Worrall como estando em completa harmonia com a metodologia de Lakatos. Uma segunda maneira pela qual a metodologia de Lakatos poderia ser concebivelmente corroborada é a seguinte: a metodologia pode servir para identificar um programa que recebeu um forte apoio da comunidade científica, mas que não se conforma com a metodologia dos programas de pesquisa e esta identificação pode levar, subsequentemente, a nova descoberta de alguma causa externa, tal como a intervenção de algum governo ou monopólio industrial. Se um episódio na história da ciência não se conforma com a metodologia de Lakatos, e se explicação alguma, externa, com corroboração independente, satisfatória pode ser encontrada, isto constituiria uma prova contra a metodologia, especialmente se uma metodologia rival é capaz de lidar com o exemplo histórico de uma forma superior.

Lakatos oferece então um critério universal de racionalidade conjectural e que deve ser testado na história da ciência. Mais ainda, afirma-se que seu critério passou por testes de episódios dos últimos duzentos e poucos anos da física de maneira superior aos critérios rivais que foram propostos. Os estudos de casos históricos levados a cabo por Likatos e seus seguidores certamente sustentara em certa medida esta afirmação.

Alguns dos comentários de Lakatos sugerem que seu critério de racionalidade tinha a intenção de orientar a escolha de teorias. Isto é sugerido pelas citações colocadas anteriormente nesta seção, que indicam que Lakatos esperava dar regras para eliminar programas de pesquisa e opor-se à poluição intelectual. Contudo, apesar de conselhos como este, a metodologia de Lakatos não é capaz de fornecer conselhos aos cientistas, e Lakatos reconheceu isto. Especificamente, uma das consequências da metodologia de Lakatos não é que os cientistas devam adotar programas progressivos e abandonar programas degenerescentes. Sempre é possível que um programa degenerescente seja reabilitado. “Só se pode ser ‘esperto’ depois que as coisas acontecem... É preciso que se perceba que nosso adversário, mesmo se ficou muito para trás, pode ainda ensaiar um retorno. Vantagem alguma para um dos lados pode ser considerada como absolutamente conclusiva.” Consequentemente. “pode-se ater racionalmente a um programa degenerescente até que este seja ultrapassado por um rival, e mesmo depois”. Embora a metodologia de Lakatos incorpore uma definição do que consistiu o progresso na física moderna, ela não oferece orientação para aqueles que têm como objetivo conseguir um tal progresso. Sua metodologia “é antes um guia para o historiador da ciência do que para o cientista”. Lakatos fracassou ao oferecer um relato racionalista da ciência em que muitos de seus comentários indicavam que era sua intenção fazê-lo.

Segundo Lakatos, um campo de indagação é uma ciência caso se conforme à metodologia dos programas de pesquisa científicos e não o é se não se conforma, sempre tendo em mente que se trata de uma conjectura a ser testada na história da física. Está claro que Lakatos tinha como pressuposto que a física constitui o paradigma da racionalidade e da boa ciência. Ele supunha, sem argumento, que a ciência, tal como exemplificada na física, é superior às formas de conhecimento que não compartilham suas características metodológicas. Num momento ele considera a afirmação de que “a física possui uma verossimilhança maior que a astrologia” plausível e pergunta por que ela não deve ser aceita enquanto não for oferecida uma alternativa séria. E a atitude destaca uma séria fraqueza em sua filosofia. Lakatos apresentou sua metodologia como uma resposta ao problema de se fazer uma distinção entre a racionalidade e a irracionalidade, de deter a poluição intelectual e iluminar questões “de relevância social e política vital”, tais como o status do marxismo ou da pesquisa genética contemporânea. Aparentemente grande parte da resposta havia sido prevista por ele desde o início e sem argumento. Lakatos supôs que qualquer campo de indagação que não compartilhe das características principais da física não é uma ciência e é inferior a ela do ponto de vista da racionalidade.

 

Kuhn como Relativista

 

Kuhn menciona um certo número de critérios que podem ser usados para avaliar se uma teoria é melhor que uma teoria rival. Eles incluem “precisão de previsão, especialmente da previsão quantitativa; o equilíbrio entre os assuntos esotéricos e os cotidianos; o número de problemas diferentes resolvidos” e, também, embora não tão importantes, “simplicidade, escopo e compatibilidade com outras especialidades”. Critérios como estes constituem os valores da comunidade científica. Os meios pelos quais são especificados estes valores “devem, em última análise, ser psicológicos ou sociológicos. Isto é, devem ser uma descrição de um sistema de valores, de uma ideologia, juntamente com uma análise das instituições através das quais o sistema é transmitido e executado”. “Não há padrão mais alto que o assentimento da comunidade relevante” Estes aspectos da posição de Kuhn são correspondentes à minha caracterização do relativismo. Se uma teoria é ou não melhor que outra é um assunto a ser julgado em relação aos padrões da comunidade Apropriada, e os padrões variarão, tipicamente, com o cenário histórico e cultural da comunidade. O relativismo de Kuhn está enfatizado nas sentenças de conclusão do pós-escrito à Estrutura das Revoluções Científicas. “O conhecimento científico, como a linguagem, é intrinsecamente a propriedade comum de um grupo ou então não é nada. Para compreendê-lo será necessário que saibamos as características especiais dos grupos que a criam e usam.”

Kuhn nega ser um relativista. Em resposta à acusação de ser, escreveu: “As teorias científicas mais recentes são melhores que as antigas para a resolução de enigmas nos ambientes frequentemente bastante diferentes em que são aplicadas. Esta não é a posição de uma relativista, e demonstra o sentido em que sou um crente convencido do progresso científico”. Isto faria parecer que Kuhn é um racionalista especificando um critério universal, em relação ao qual podem ser avaliados os méritos relativos das teorias, a saber, sua habilidade em resolver problemas. Não sou de opinião de que a afirmação de Kuhn de que sua posição não é relativista pode ser sustentada. Ele mesmo comenta que considerações baseadas na habilidade em resolver problemas “não são convincentes nem individual nem coletivamente” no que se refere aos méritos relativos dos paradigmas competitivos e que “considerações estéticas (segundo as quais pode-se dizer que a nova teoria é a mais ‘elegante’, ‘mais adequada’ ou ‘mais simples’ que a antiga) podem algumas vezes ser decisivas”. Isto nos traz de volta a uma posição relativista. Um problema adicional com o critério universal para o progresso baseado na habilidade de resolver problemas é a dificuldade de especificar esta noção de uma forma não-relativista. O relato da ciência do próprio Kuhn implica que o que deve ser considerado como um problema é dependente do paradigma ou da comunidade. Meu exemplo pessoal preferido refere-se aos pesos atômico e molecular dos elementos que ocorrem naturalmente e os compostos no século XIX. Na época, estas determinações precisas constituíam problemas importantes. Pode-se apreciar, do ponto de vista do século XX, que os compostos que ocorrem naturalmente contêm algo que, do ponto de vista da química teórica, é uma mistura de isótopos arbitrária e teoricamente desinteressante, de modo que, como comentou F. Soddy, o cuidadoso esforço dos químicos do século XIX “aparece como sendo de tão pouco interesse e significado quanto a determinação do peso médio de uma coleção de garrafas, algumas cheias e outras mais ou menos vazias”.

Enquanto Kuhn assegura que em algum sentido a ciência progride, ele nega, sem ambiguidades, que se possa dizer que ela progride em direção a uma verdade em qualquer sentido bem definido. No Capítulo XIII tentarei explicar por que concordo com ele neste aspecto.

A respeito da questão da escolha de teorias Kuhn insiste que não existem critérios de escolha que sejam logicamente convincentes. “Não há algoritmo neutro algum para a escolha de teorias, nenhum procedimento sistemático de decisões que, corretamente aplicado, deva levar cada indivíduo num grupo à mesma decisão.” Haverá, no interior de uma comunidade científica valores sancionados por esta comunidade que orientam as escolhas dos cientistas individuais, incluindo-se a precisão, escopo, simplicidade, fertilidade e coisas semelhantes. Cientistas que têm estes valores farão escolhas diferentes na mesma situação concreta. Isto se deve ao fato de que eles pedem atribuir pesos diferentes aos vários valores, e também podem aplicar diferentemente o mesmo critério na mesma situação concreta.

Para Kuhn, para um campo ser ou não ciência, dependerá dele se conformar ou não ao relato da ciência oferecido na Estrutura das Revoluções Científicas. A característica mais importante de um campo de indagação quanto à distinção entre a ciência e a não-ciência, afirma Kuhn, é a extensão em que o campo é capaz de sustentar uma tradição científica normal. Nas palavras de Kuhn: “é difícil encontrar um outro critério que proclame de maneira tão clara um campo como ciência.

O critério de demarcação de. Kuhn foi criticado: por Popper, com base no fato de que ele dá uma ênfase excessiva ao papel da crítica na ciência; por Lakatos porque, entre outras coisas, ele não trata da importância da competição entre programas de pesquisa (ou paradigmas); e por Feyerabend, com base no fato da distinção de que o crime organizado e a filosofia de Oxford qualificam-se como ciência.

Kuhn, como Lakatos, não argumenta que a ciência é superior a outros campos de indagação, mas supõe que o seja. Ele, na verdade, sugere que se uma teoria da racionalidade entrar em conflito com a ciência devemos mudar nossa teoria da racionalidade. “Supor, ao invés disso, que possuímos critérios de racionalidade independentes de nossa compreensão dos dados essenciais do progresso científico é abrir a porta ao reino da fantasia.” Esta alta consideração, não questionada, pela ciência como exemplar de racionalidade, que Kuhn compartilha com Lakatos, é, imagino, o único aspecto em que a posição de Kuhn difere do relativismo tal como o caracterizei.

O uso que Lakatos faz de termos como pânico contagioso, com referência à caracterização de estados de crise por Kuhn e “psicologia das multidões”, com referência à sua caracterização das revoluções, é por demais extremo. Há neles, contudo, um elemento de verdade. No relato da ciência de Kuhn, os valores operativos no processo da ciência e que determinam a aceitação ou rejeição de teorias devem ser discernidos pela análise psicológica e sociológica da comunidade científica. Quando isto é tomado conjuntamente com a suposição de que a ciência contemporânea é o epítome do melhor da racionalidade, o que sobra é uma posição conservadora. A posição de Kuhn não deixa uma maneira de criticar as decisões e o modo de operações da comunidade científica. Enquanto a análise sociológica é básica dentro do relato de Kuhn, ela oferece pouca coisa à guisa de teoria sociológica e não oferece qualquer sugestão de como distinguir as formas aceitáveis e as inaceitáveis para se alcançar um consenso. Quanto a isso o relato de Lakatos é um pouco melhor, na medida em que oferece realmente meios para que se possa criticar algumas decisões da comunidade científica.

A discussão deste capítulo, até agora, poderia ser resumida notando-se que o objetivo de Lakatos era dar um relato nacionalista da ciência e que ele fracassou, enquanto Kuhn negou que seu objetivo era dar um relato relativista da ciência, mas que, contudo, ele nos deu.

 

Para uma Mudança dos Termos do Debate

 

Neste capítulo a discussão do nacionalismo e do relativismo tratou quase que exclusivamente de avaliações e julgamentos sobre aspectos do conhecimento. Consideramos várias análises do tipo de critérios que habilitam indivíduos ou grupos a julgar se uma teoria é melhor que uma teoria rival ou se um corpo de conhecimento específico é ou não científico. A propriedade desse tipo de questão para se compreender de forma fundamental a natureza da ciência é colocada em questão quando se chama a atenção para a existência do que parece ser uma distinção bastante direta entre alguns estados de coisas e julgamentos a respeito daquele estado de coisas feitos por indivíduos ou grupos. Não será possível, por exemplo; que alguma teoria seja melhor, no sentido de estar mais próxima da verdade, de ser melhor na resolução de problemas, ser um instrumento melhor de previsão ou seja lá o que for, do que uma teoria rival, embora nenhum indivíduo ou grupo assim a julgue? Não é verdade que indivíduos ou grupos podem estar errados em seus julgamentos sobre a natureza ou status de alguma teoria? A colocação deste tipo de pergunta sugere que pode muito bem haver uma maneira de analisar a ciência, seus objetivos e seu modo de progresso que se concentre nas características da própria ciência, sem levar em conta aquilo que possam pensar indivíduos ou grupos. No capítulo que se segue prepararei o caminho para uma análise deste tipo e, no Capítulo X1, proporei um relato da mudança de teoria na física que não depende do julgamento de indivíduos ou grupos.

 

Outras Leituras

 

A fonte clássica para o debate entre Kuhn por um lado e Popper e Lakatos por outro é I. Lakatos e A. Musgrave Criticism and the Growth of Knowledge (Cambridge: Cambridge University Press, 1979). A continuação desse volume é C. Radnitzky e C. Anderson, Progress and Rationality in Science (Dordrecht: Reidel Publishing Co., 1978). A posição de Lakatos é discutida e criticada em R. S. Cohen, P. K. Feyerabend e M. W. Wartofsky, Essays in Memory of Imre Lakatos (Dordrecht: Reidel Publishing Co., 1976). De interesse especial é o artigo de Alan Musgrave “Method or Madness?” nas pp. 457-91. A defesa da racionalidade por Lakatos é criticada por Feyerabend em Against Method (Londres: New Left Books,1975), Cap. 16 e em seu “On the Critique of Scientific Reason”, em C. Howson, ed., Method and Appraisal in the Physical Sciences (Cambridge: Cambridge University Press, 1976), pp. 309-39. Um relato claro e de fácil leitura de uma posição relativista semelhante à de Kuhn é o de Harold I. Brown, Perception, Theory and Commitment: The New Philosophy of Science (Chicago: University of Chicago Press, 1977). Um relato relativista da ciência na tradição da sociologia do conhecimento é o de D. Bloor, Knowledge and Social Imagery (Londres: Routledge and Kegan Paul, 1976). Uma tentativa útil de esclarecer algumas das questões do debate entre o raccionalísmo e o relativismo é a de Denise Russell, “Scepticism in Recent Epistemology”, Methodology and Science 14 (1981):139-54.