O que é Marketing
A título de recapitulação citemos um breve exemplo: imaginemos que
A FUNÇÃO ATIVAÇÃO
A título de recapitulação citemos um breve exemplo: imaginemos que
alguém o incumbiu de montar um programa de Marketing para uma empresa a partir do conceito dos 4 As. Imaginemos ainda que, durante uma fase inicial, a sua preocupação concentrou-se em reavaliar a linha de produtos da empresa à luz de informações objetivas colhidas no mercado (Análise) e que isto o levou a reformular esta linha para melhor adequá-la às mudanças observadas na demanda (Adaptação). Suponhamos, finalmente, que, em consequência deste trabalho, a empresa conseguiu tornar a sua oferta bem mais competitiva e adequada aos desejos dos seus compradores potenciais. Mas isto não bastaria para completar o ciclo mercadológico. Falta ainda, como próximo passo, reavaliar e possivelmente [pág. 63] reestruturar os meios de comunicação da empresa. Esta função é que denominamos Ativação.
Dentro de uma visão algo mais genérica e abstrata podemos dizer que
a Ativação abrange todas as atividades que visam à satisfação das utilidades de tempo, local e posse de um produto ou serviço.
Enquanto a Adaptação está primordialmente preocupada em aumentar
a utilidade de forma de um produto, a Ativação se concentra na criação ou no refinamento de outros tipos de utilidades, como tempo e local, visando colocar o produto à disposição do comprador na hora e no lugar em que este mais o deseja. Por exemplo: uma caixa de fósforos só adquire utilidade de forma a partir do momento em que as suas matérias-primas foram transformadas em palitos facilmente incandescentes. No entanto, a utilidade de forma de um fósforo torna-se praticamente nula se esse não está disponível em um grande número de pontos de venda de fácil acesso para o comprador. Em maior ou menor grau, esta condição de fácil e rápido acesso se aplica à totalidade dos bens e serviços oferecidos numa economia de livre iniciativa.
Finalmente, mesmo um alto grau de utilidade de forma, tempo e local,
associado a um bem, não é suficiente para que esse seja adquirido regularmente. O fumante que prefere acender o seu cigarro com um isqueiro não comprará fósforos. Quanto mais intenso for o desejo do [pág. 64] consumidor de usufruir do domínio de um determinado produto — ou quanto maior for a utilidade de posse associada a esse bem — tanto mais propenso ele estará a atribuir-lhe um valor ou preço elevado, ou desviar-se do seu caminho “normal” para procurá-lo.
O status que hoje é mencionado com tanta frequência, como um
elemento dinamizante da demanda, é uma das expressões mais representa-tivas da utilidade de posse. Por exemplo, quantos fumantes utilizam isqueiros não tanto porque lhes parece ser a forma mais racional e conveniente de acender cigarros, mas primordialmente porque o isqueiro tem para eles uma conotação afetiva, inconsciente talvez, representada por valores como o machismo, o poder ou o status social? Somos todos mais ou menos vítimas desses valores não necessariamente aparentes e facilmente explicáveis em termos de argumentos racionais. O bom mercadólogo sabe descobrir e explorar esses valores em benefício da sua empresa.
Reportando-nos mais uma vez à Figura 2, lembramos que a Ativação é
exercida através de um instrumental que é denominado composto de comunicação e que faz parte do conceito mais amplo do Marketing Mix.
Os elementos básicos desse composto são a distribuição, a logística, a
venda pessoal e a publicidade, que podemos definir como sendo: a) distribuição: é a escolha, o atendimento e o [pág. 65] controle dos
intermediários que conduzem os produtos do produtor ao consumidor; b) logística: é a escolha e entrega de lotes econômicos de suprimentos
(matérias-primas, produtos, etc.) em localizações pré-determinadas
(como depósitos, armazéns, lojas, fábricas, etc.) nas quantidades,
épocas e condições desejadas pelo intermediário ou usuário; c) venda pessoal: é o preparo e a organização dos recursos humanos que
se dedicam regularmente à oferta de idéias, bens e/ou serviços com o
intuito de realizar trocas através de contatos pessoais; d) publicidade: é a comunicação, através de meios impessoais (impressos e
eletrônicos), destinada a informar, divulgar e promover a oferta de idéias,
bens e/ou serviços por parte de um patrocinador identificado.
A principal tarefa e “arte” da função ativacional consiste em conjugar
elementos selecionados destas quatro funções básicas para formar um conjunto econômico de coordenação voltado à satisfação contínua das utilidades de tempo, local e posse dos compradores de uma dada linha de produtos. A tarefa de se aproximar à otimização do composto de comunicação é extremamente trabalhosa face às incontáveis alternativas de combinação aplicáveis a uma dada situação real. Ela torna-se ainda mais complexa porque as suas variáveis exógenas — ou seja, a linha de produtos [pág. 66] e o mercado — estão sujeitas a constantes flutuações.
Uma forma racional para enfrentar este problema na prática consiste
em desenvolver um composto entre si para, com o tempo, formar uma unidade racional mais complexa e integrada.
Não temos a pretensão de entrar nas minúcias de um projeto de
criação do composto de comunicações, pois para isto não haveria espaço. Ao invés, o que pretendemos fazer é levantar algumas das questões-chave que costumam surgir na prática administrativa quando uma equipe de Marketing é incumbida de montar ou de racionalizar um sistema de comunicações. Dividiremos estas questões em três partes referentes: (1) à distribuição e logística; (2) à venda pessoal; e (3) à publicidade.
As nossas respostas às questões levantadas serão sumárias e, ao
menos em parte, consciente-mente provocativas. Não é nosso intuito tentar esgotar cada um dos assuntos, mas sensibilizar os nossos leitores para as questões e motivá-los a procurarem fontes adicionais que lhes dêem respostas mais minuciosas, sobretudo quanto à utilização de técnicas e métodos que vêm de encontro à solução dos problemas levantados.
Eis, portanto, as questões: [pág. 67]
Problemas de distribuição e logística
1) O que é uma via de distribuição e que tipos de vias existem? Uma via ou
um canal de distribuição é um conjunto de instituições interligadas entre
si que conduzem os fluxos de movimentação física dos produtos, bem
como os fluxos de serviços, de informações, de promoção e de
pagamentos entre os produtores e usuários ou consumidores finais
desses produtos ou serviços.
Distinguem-se dois tipos de vias num determinado sentido: o direto e o
indireto. No primeiro caso, o próprio produtor se encarrega do contato
com o seu mercado potencial, podendo, para isso, usar de meios de
comunicação pessoal ou impessoal, conforme demonstra a Figura 7 na
sua parte superior. Na parte inferior dessa figura mencionamos as
formas mais comuns de via indireta que envolvem apenas dois ou três
tipos de intermediários, dentre os quais se destacam agentes (que
podem ou não assumir o título da transação), atacadistas ou
distribuidores (que lidam com grandes volumes que são redistribuídos a
um número menor de varejistas). Estes, por sua vez, expõem e oferecem
os produtos em seus pontos de venda diretamente aos consumidores
finais. Há muitos outros tipos de intermediários, como representantes,
[pág. 68] concessionários, cooperativas, brokers, corretores, lojas de
desconto, lojas de departamento, empresas que operam com Marketing
direto, grupos voluntários (ou associações de varejistas que congregam
funções de interesse comum) e alguns outros. Por vezes um produtor
pode utilizar sistemas mistos de distribuição, por exemplo, quando se
utiliza de filiais regionais que atendem a varejistas e diretamente a
determinados consumidores nas regiões sob seu controle.
2) Qual é a melhor via: direta ou a indireta? A escolha depende de uma
série de fatores interdependentes. Normalmente, o produtor prefere uma
via muito curta ou até venda direta quando prevalecem as seguintes
condições: (1) o poder aquisitivo de cada comprador individual, bem
como o vulto de suas encomendas médias, é elevado; (2) um número
substancial de visitas resultam em vendas efetivas; (3) há a conveniência
ou até necessidade de demonstrações pessoais por parte de vendedores
especialmente treinados para esta função; (4) os compradores potenciais
estão localizados próximos entre si; (5) os clientes necessitam de
serviços diretos para poderem utilizar os produtos adequadamente
(como, por exemplo, a instalação e manutenção de máquinas); e (6) o
produto precisa estar disponível rapidamente para poder ser [pág. 70]
vendido. Quanto mais as condições de mercado se afastam destas
condições tanto mais indireta e longa tende ser a via.
Evidentemente, para o produtor a maior vantagem do uso de vias diretas
é a possibilidade de exercer um maior grau de influência e controle sobre
a venda e tudo que a acompanha, como o uso de materiais promocionais
ou até a política de preços. Em contrapartida, a via direta é de longe a
mais onerosa. Face a esses prós e contras ela é utilizada
primordialmente na venda de bens industriais e de serviços caros, mas
há exceções, como o famoso exemplo da Avon, que distribui produtos
cosméticos de porta em porta.
3) Quando a empresa opta pela distribuição indireta, quais costumam ser os
principais critérios de seleção quanto aos tipos de intermediários? Esta é
uma pergunta de múltiplas implicações, entre as quais convém destacar
os dois aspectos seguintes:
a) a questão da intensidade de distribuição. Existem, em tese, três
modalidades, a saber: (1) a distribuição intensiva, que se utiliza de um máximo de pontos de venda (típico para os chamados bens de conveniência que são adquiridos com frequência por um grande número de compradores); (2) o seu oposto, ou seja, a distribuição exclusiva, realizada [pág. 71] através de contratos de exclusividade
entre produtores e intermediários (como, no caso, os concessionários da indústria automobilística); e (3) situações intermediárias denominadas distribuição seletiva, onde apenas alguns intermediários dentro dos possíveis são escolhidos para representar as marcas dos produtores (como no caso de eletrodomésticos ou de móveis). Ê importante que a empresa se defina em termos de diretrizes quanto a essas três modalidades a partir de considerações como cobertura geográfica a ser atingida, tipos de estabelecimento disponíveis nas diversas áreas geográficas, sistemas utilizados pela concorrência e evidentemente os custos relativos de cada sistema para atingir as suas metas de vendas;
b) a questão da prioridade por um dado sistema operacional de
distribuição que, por sua vez, abre muitas perspectivas e que Kotler (1967) aborda sob os três aspectos seguintes que resumem muito bem as múltiplas opções: (1) a determinação dos objetivos e das limitações dos canais, que inclui uma análise das características dos clientes em termos de números, dispersão geográfica, frequência de compras e outros fatores; das características dos produtos, como volumes a serem transportados, possibilidades [pág. 72] de padronização, perecibilidade e valor unitário; das características dos intermediários, sobretudo quanto às forças e fraquezas de diversos tipos de intermediários preparados para lidar com os produtos em questão; das características da concorrência a partir da política de enfrentá-la diretamente ou, ao contrário, evitar um confronto direto nas vias; das características da própria empresa, que inclui o seu tamanho, seu poder econômico e financeiro, o Mix de produtos e a natureza da combinação da sua oferta, experiências passadas e as diretrizes de Marketing de uma maneira geral; das características do ambiente como condições econômicas, ecológicas e as determinações legais; (2) o levantamento das principais alternativas de escolha dos canais, que inclui primordialmente a análise dos tipos de intermediários desejáveis, do número de pontos de venda a serem
atingidos e das funções e responsabilidades a serem assumidas formalmente pelos vários tipos de membros das vias escolhidas; (3) a avaliação das principais alternativas disponíveis, que envolve a análise de critérios econômicos de controle e de adaptação, dos quais a primeira evidentemente é a mais importante. Ela necessariamente deve tentar determinar quais são as melhores relações entre volume esperado de vendas [pág. 73] e seus custos para os diversos tipos de vias sob consideração.
4) Quais são as principais componentes de um sistema de logística voltado
à produtividade mercadológica? O núcleo de um sistema logístico é
composto de cinco elementos, a saber: decisões referentes à
localização, ao transporte, aos estoques, à comunicação nas vias e ao
movimento de materiais. É a partir desses cinco elementos que um dos
seus especialistas mais reconhecidos, D. Bowersox (1972), desenvolveu
o seu sistema.
Problemas referentes à venda pessoal
A venda pessoal, como vimos, abrange todas as responsabilidades da
organização e equipe de vendas incumbida de “fechar negócios”. Algumas de suas questões operacionais mais prementes costumam ser as seguintes: 1) Quais são as principais medidas que uma empresa deve tomar para
montar uma equipe eficaz de vendedores? A maioria dos textos que lida
com esta pergunta (e são muitos!) cita as seguintes variáveis como
cruciais: (1) uma definição clara dos objetivos de Marketing e da
contribuição que a força de vendas pode e deve dar para atingi-los; (2)
dados objetivos sobre a relação entre produtos e os segmentos [pág. 74]
geográficos do mercado que devem ser atingidos e que permitem
determinar o tamanho ideal da força de vendas; (3) descrições sumárias,
mas bastante explícitas, das funções básicas dos diversos membros da
equipe (como vendedores, supervisores, promotores e suas relações
para com a gerência); (4) o recrutamento ou a procura cautelosa de
candidatos às posições a serem preenchidas através de contatos com
agências especializadas, anúncios em jornais, entrevistas em faculdades
e outros meios; (5) a seleção dos candidatos através de entrevistas e
testes; (6) bons programas de treinamento de vendas com o intuito de
familiarizar os vendedores com a empresa, seus objetivos, seus
produtos, suas maneiras de agir e as principais características dos seus
clientes e concorrentes, além de prepará-los para se tornarem cada vez
mais eficientes e motivados, seja na apresentação, seja no fechamento e
acompanhamento do ato de venda; (7) um método de remuneração que
seja justo e motive a equipe a manter um alto padrão de desempenho;
(8) um mecanismo de supervisão e motivação contínuo, intimamente
ligado aos programas de treinamento; e (9) um sistema de controles
integrado ao SIM e à auditoria mercadológica (que discutiremos no
capítulo 7).
2) Por que gastar dinheiro com o treinamento de vendas? A não ser que
seja mal preparado [pág. 75] e executado, um programa de treinamento
se faz pagar rapidamente, não só porque fortalece a posição e portanto a
eficácia do vendedor perante o cliente, graças ao seu melhor conheci-
mento de causa, mas também porque o treinamento gera e reforça uma
série de aspectos motivacionais como segurança, autoconfiança,
lealdade e a capacidade do vendedor de avaliar seus clientes potenciais
com maior precisão, o que lhe facilita moldar a sua argumentação de
venda à luz desses conhecimentos. Talvez o principal pré-requisito para
poder tirar maior proveito do treinamento, em muitas das nossas
empresas, consista no abandono da ficção de que os bons vendedores
são “natos” e não precisam de muitos apoios para serem bem sucedidos.
A prática demonstra que essas duas premissas são quase sempre
falsas. É Como afirma José Lemos (1980), um homem de muita
experiência na área: “Há pouquíssimos vendedores muito bons, há
alguns bons e predominam os regulares” (p. 71). E ao que Ronald de
Carvalho (1980) acrescenta: “O vendedor carrega o nome da empresa”
(p. 83).
3) O que é um bom vendedor? Genericamente falando, é um homem que
domina o instrumental abreviado como AIDAS, que consiste em:
assegurar ATENÇÃO, provocar INTERESSE, gerar DESEJO, induzir à
AÇÃO e levar o cliente à SATISFAÇÃO. Há um consenso [pág. 76]
também no sentido de que o bom vendedor reúne duas qualidades
centrais, a saber: (1) empatia, ou a habilidade de se identificar com os
sentimentos do cliente; e (2) impulso do ego, ou a sensação de
necessidade pessoal de fechar o negócio, não apenas pelo dinheiro a
ser ganho.
As características de temperamento e aptidão que conduzem a essas
qualidades são controvertidas e não muito claras, se bem que provavel-
mente não fujam muito dos seguintes seis fatores citados por Staud e
Taylor (1965): experiência anterior, amabilidade e capacidade de
comunicação, maturidade, capacidade de liderança, aparência e
treinamento.
4) Quais são os fatores que mais motivam os vendedores? A remuneração
é o motivo mais frequentemente citado e discutido entre nós. Ela é
claramente essencial para atingir um determinado nível de satisfação,
mas, acima desse nível, ela ocupa uma posição motivacional cada vez
mais reduzida. Uma escala de motivação amplamente aceita é a de
Maslow (1954), apesar de não ser nem nova, nem voltada
exclusivamente ao vendedor. Para Maslow existe uma hierarquia de
necessidades humanas que se substituem à medida que estão sendo
satisfeitas, ao longo da seguinte progressão: necessidades fisiológicas
básicas, segurança ou a liberdade de preocupações quanto a incertezas,
[pág. 77] a sensação de “pertencer” e ter relações sociais, estima e auto-
respeito, sensação de realização (achievement), conhecimento e
compreensão, e finalmente beleza ou estética. Uma discussão desses
fatores (além de incontáveis outros aspectos sobre a administração da
força de vendas) pode ser encontrada no livro de Still e Cundiff (1969). 5) Qual é a melhor maneira para remunerar os vendedores? Em termos
absolutos, esta maneira em si não existe. O que se pode afirmar,
todavia, é que cada um dos sistemas conhecidos tem o condão de atingir
em maior ou menor grau os objetivos centrais da administração de
vendas, seja do ponto de vista do vendedor (que procura salário,
estabilidade, segurança e genericamente os fatores de Maslow acima
citados), seja da empresa (que visa eficácia, baixos índices de rotação,
um sistema de fácil administração, integração e lealdade do corpo de
vendas, etc.). Nogueira Cobra (1981), que analisou esse fenômeno em
termos da realidade brasileira, afirma, por exemplo, que o sistema puro
de salários fixos é recomendável apenas em situações de venda fácil ou
de demanda reprimida, enquanto que o simples pagamento de comis-
sões é aconselhável primordialmente às pequenas e médias empresas
de baixo volume de vendas ou para a abertura de territórios, bem como
para vendedores sem vínculos empregatícios. [pág. 78] Já a
combinação de salários fixos com a comissão sobre vendas se justifica
sobretudo em empresas que possuam desafios de vendas e a
necessidade de ter vendedores estáveis. Cobra não a recomenda para
empresas com altos desafios de Marketing, para os quais ele aconselha
antes uma combinação entre salários fixos e um sistema de pontos atri-
buídos a determinadas funções e/ou resultados esperados, como
cobrança, abertura de novas contas, economias de custos e a superação
das cotas pré-estabelecidas.
6) Como pode-se manter os custos de vendas dentro de padrões
econômicos e controláveis? A partir de um sistema que parte de fatores
exógenos que constituem parâmetros de comparação da eficácia das
vendas (como os potenciais relativos por território e zona), conjugados a
dados derivados da experiência. Como exemplo de um sistema eficaz
mencionamos o da Companhia Industrial e Comercial Brasileira de
Produtos Alimentares (NESTLÉ) que, de acordo com José Lemos (1980),
opera com um conjunto de cálculos de ponto de equilíbrio, cujos
principais insumos são: os custos de uma visita; os custos da
organização de venda, de distribuição e do faturamento; os custos dos
vendedores; o número de vendedores; o número médio de visitas por dia
e a contribuição marginal esperada de cada venda. [pág. 79] A fonte
citada na bibliografia exemplifica como esses fatores são combinados
para calcular diversos pontos de equilíbrio que constituem a base para a
avaliação dos desempenhos e da determinação de novas metas (pp.
73/74).
Problemas referentes à publicidade
A terceira componente vital de um bom composto de comunicações é
determinada pelos instrumentos da publicidade, que abrangem a propaganda (que se utiliza da mídia impressa e eletrônica), a promoção de vendas e as relações públicas.
Entre os problemas mais discutidos e controvertidos desta área,
destacamos os seguintes:
1) Quais são os principais objetivos da publicidade? Toda e qualquer
campanha de publicidade gira em torno de um objetivo ou uma
combinação dos três objetivos seguintes: (1) ampliar a demanda; (2)
tornar a demanda mais inelástica (ou menos sensível a aumentos de
preços); e (3) apoiar os esforços de venda pessoal. Esses objetivos se
aplicam tanto ao estímulo da demanda primária (referente a classes de
produtos como “chocolate é alimento”), quanto ao estímulo da demanda
seletiva (de marcas específicas como “dê um Sonho de Valsa da Lacta
para a sua namorada”). A partir destes [pág. 80] objetivos gerais, a
empresa pode e deve desenvolver mais específicos, tais como a idéia de
fortalecer a imagem de suas marcas, canalizar determinadas mensagens
a segmentos pré-determinados, reforçar certas atitudes dos
consumidores potenciais, combater a concorrência mais ou menos
diretamente, atrair pessoas a visitarem determinados locais (como feiras
ou exposições), reforçar as compras de impulso em pontos de vendas, e
inúmeros outros. Como em outras áreas da administração
mercadológica, aqui também vale ressaltar a importância da definição
clara de objetivos como primeiro mandamento de um plano de
publicidade econômico, eficaz e controlável.
2) Quais são as principais etapas de um plano publicitário e quem deve ser
responsável pela sua execução e seu controle? Um plano típico deve
abarcar, no mínimo, as seguintes quatro fases: (1) definição dos
objetivos à luz da estratégia de Marketing e das funções específicas da
comunicação impessoal dentro desta estratégia, que inclui aspectos
como determinação dos públicos-alvo, definição dos principais temas e
tipos de mensagem a serem usadas e escolha do tipo de mídia a ser
empregado; (2) a elaboração do plano de mídia, ou seja, do composto de
veículos publicitários impressos e/ou eletrônicos que mais se prestam
para atingir os objetivos; (3) a elaboração de um [pág. 81] orçamento
que especifica verbas por mídia, região e produtos; e (4) a determinação
dos meios de controle de avaliação dos resultados esperados.
Graças à existência de muitos profissionais competentes e o elevado
número de agências de publicidade profissionais no Brasil, a tarefa de
preparação técnica de um plano de publicidade não constitui mais
problema entre nós. Mais delicada é a questão quanto à respon-
sabilidade de execução e controle deste plano. Muitas empresas,
sobretudo aquelas que se sentem despreparadas para exercer funções
de Marketing sem auxílio externo, delegam esta função à sua agência,
determinando apenas as verbas. Ao proceder desta maneira, a empresa
corre o risco elevado de desintegrar as funções de comunicação de
Marketing, pois uma agência nem tem obrigação de elaborar, nem se
pode esperar dela que esteja em condições de elaborar, um plano
integrado de comunicações que atribua pesos adequados às funções de
venda pessoal ou mesmo de distribuição e/ou de logística. Portanto, no
nosso entender, a responsabilidade pela execução e o controle das
quatro fases acima resumidas é indelegável.
3) Quais são os melhores critérios para determinar as verbas de
publicidade? Inicialmente é preciso reconhecer que não existe um único
meio plenamente satisfatório, sobretudo devido à [pág. 82] dificuldade
de se avaliar os retornos da publicidade. Por conseguinte, a maioria das
empresas utiliza métodos empíricos que se baseiam em critérios como:
(1) uma percentagem fixa sobre as vendas passadas ou estimadas para
o período de apropriação; (2) um montante totalmente subjetivo alocado
em função daquilo que alguém com poderes julga ser necessário,
suficiente e economicamente justificável para ser atribuído à publicidade;
(3) o método da paridade competitiva, que se baseia nas taxas
“costumeiras” aplicadas na setor ou ramo de atividade e/ou entre os
principais concorrentes da empresa.
Um quarto método empírico, e talvez o melhor deles, é o que Joel Dena
(1951) descreveu em sua obra clássica sobre economia administrativa e
que ele denominou “método de objetivos e tarefas” (pp. 370/72). Este
parte de metas de vendas por territórios e produtos e delega a função de
atribuir objetivos específicos de publicidade, bem como a tarefa de
levantamento da mídia e de seus custos, aos próprios executivos
responsáveis pela execução dos planos (como gerentes de produtos e
gerentes regionais). Essas estimativas são posteriormente comparadas,
refinadas e constituem a base para um plano final de execução
orçamentária. Para nós, este método pode oferecer excelentes
resultados, tanto operacionais [pág. 83] quanto motivacionais, sobretudo
quando é coordenado por um líder natural e quando parte de um
“breviário de diretrizes” que estabelece normas e padrões sem “amarrar”
os executivos a princípios inflexíveis.
Ao longo dos anos foram também desenvolvidos alguns métodos
quantitativos de determinação de verbas baseados, por exemplo, em
técnicas de programação linear, bayesiana e de simulação. A utilidade e
eficácia desses métodos não depende tanto das suas vantagens e
limitações metodológicas, mas muito mais dos dados de que as
empresas dispõem para poder aplicá-los. Portanto, aconselhamos à
empresa que procure desenvolver um ou dois desses métodos ao longo
dos anos, a partir do momento em que se sente suficientemente segura
em poder avaliar os riscos inerentes ao uso de métodos mais
sofisticados cujos custos, por sinal, tendem a cair rapidamente com a
evolução tecnológica na área de processamento de dados. 4) Existem critérios confiáveis para a composição racional da mídia
destinada a determinada campanha? O confronto direto entre várias
opções distintas de mídia (por exemplo, entre televisão e rádio), bem
como a escolha entre opções dentro de um determinado tipo de mídia
(custo por inserção em várias revistas) é viável até certo ponto e é
necessário que seja [pág. 84] feito. Existem alguns critérios que facilitam
essa tarefa, como a relação entre custo por mil e número de audientes, a
comparação entre os GRPs (gross rating points) de programas de TV, ou
o chamado “custo por mil”, que compara revistas distintas em função dos
custos de seus anúncios por página (ou fração) e a sua circulação. Até
lá, tudo bem. A coisa, no entanto, começa a se complicar quando o plano
procura avaliar fatores relacionados ao possível retorno das diferentes
mídias, particularmente em relação aos seguintes quatro fatores: (1) a
exposição de um anúncio (a mensagem pode ser vista ou ouvida?); (2) a
percepção (a mensagem será vista ou ouvida?); (3) a retenção (quanto
da mensagem será retido, quanto será esquecido?); e (4) o impacto (qual
será percentagem das mensagens retidas que causará reações
favoráveis por parte da audiência atingida?).
Aqui, mais ainda do que na pergunta anterior (por se tratar de uma tarefa
mais restrita), vale a sugestão de que a empresa se utilize de processos
eletrônicos para estimar a melhor composição da mídia (entre os quais
preferimos a simulação), não tanto para chegar a conclusões precisas e
incontestes, mas com o duplo intuito de tornar o composto de mídia mais
racional do que se fosse determinado por meios exclusivamente
subjetivos, e de aprender [pág. 85] a coletar informações para efeito de
controles posteriores e da montagem de campanhas futuras. 5) Como se compara a evolução da publicidade no Brasil frente à de outros
países, sobretudo os industrialmente avançados? A publicidade é
inegavelmente o instrumento de Marketing mais antigo que se utiliza no
Brasil com bastante regularidade.
Alguns dos principais traços da publicidade brasileira são os seguintes,
em confronto com os de outros países:
a) somente os EUA aplicam cerca de 2% do seu PNB em publicidade.
Na maioria dos outros países industrializados essa taxa gira em torno de (ou fica algo abaixo de) 1%. O Brasil se inclui nesta relação, sendo que a taxa cresceu consecutivamente de cerca de 0,6%, no início da década de 60, para atingir 1%, pela primeira vez, em 1978 e, desde então, tende a se estabilizar ou até mostrar uma ligeira tendência de declínio;
b) há no Brasil de 700 a 1000 agências que se dedicam à publicidade
(dependendo do critério que se aplica à definição de “agência”), mas menos de 50 dessas empresas tiveram uma receita individual, em 1979, de 1 milhão de dólares ou mais, sendo que a maior delas faturou 22,2 milhões de dólares. Esta mesma tendência de concentração se encontra em [pág. 86] outros países;
c) os ramos de atividade que mais costumam gastar em publicidade no
mundo inteiro costumam ser os produtores de bens alimentícios, de higiene e conservação, de bebidas (alcoólicas e/ou não), de fumo e de produtos farmacêuticos. As empresas que mais se utilizam da publicidade tendem a se repetir no mundo, contanto que sejam empresas multinacionais presentes em muitos países;
d) quanto à alocação das verbas de publicidade entre os diversos tipos
de mídia disponíveis, o padrão brasileiro desvia bastante dos modelos predominantes em outros países. Entre nós, de longe o principal veículo é a televisão (com 36 a 40% das verbas globais anuais), seguida pelos jornais (cerca de 25%), pelo rádio (em torno de 18%), pelas revistas (12%), o outdoor e cinemas (com baixas parcelas). Tanto nos EUA quanto na Europa predomina a imprensa, com 30 a 40% das verbas, dependendo do país e da época, seguida pela mídia eletrônica que, somada (TV e rádio), atinge o mesmo faturamento que a totalidade dos jornais, nos EUA, enquanto que na Europa representa muito menos. Em parte, a predominância da televisão no Brasil pode ser em parte atribuída à nossa estrutura sócio-econômica
distinta (como o baixo índice de leitura da população), [pág. 87] em parte também à maior agressividade das redes de televisão, mais protegidas pelas leis do que em outros países, associadas à predileção de muitas agências por esse veículo, mas em parte também à falta de planejamento e controle das próprias empresas. Uma das consequências desse problema é o baixo índice de exploração de veículos por vezes altamente eficazes em relação aos seus custos, como, sobretudo, a mala direta (que, nos EUA, ocupa o segundo lugar do faturamento global) e a promoção de vendas, que permitem um direcionamento mais direto e seguro para segmentos pré-determinados, mas exigem um trabalho intenso de planejamento, execução e controle bem menos rentável para as agências do que o uso de mídias mais prestigiosas.
Esperamos que as respostas às questões acima, sumárias que sejam,
ajudem os nossos leitores a avaliarem alguns dos problemas que o adminis-trador da prática administrativa enfrenta ao compor um composto de comunicação.
Sumário
Mesmo o mais útil dos produtos não se vende a não ser que o seu
produtor consiga “levá-lo” aos compradores em potencial e o torne atraente [pág. 88] através da comunicação. A função Ativação se encarrega desta dupla tarefa dentro do composto de Marketing. Vimos, no presente capitulo, que o exercício desta função é complexo, em parte porque o instrumental à disposição é vasto e variado, em parte também porque as possibilidades de combinação de suas componentes são ilimitadas.
Para nós, O melhor caminho para se aproximar de um composto ótimo
de comunicação consiste na preocupação constante da equipe de Marketing em “construir” parcelas ou módulos facilmente integráveis, para, aos poucos, refinar o sistema e intensificar a interligação entre as partes.
Como poderá funcionar isto na prática administrativa? Um caminho operacional simples seria o seguinte: alguém encarregado do planejamento e do controle de Marketing (como um setor interno de assessoria da presidência, ou uma equipe de consultores externos) desenvolve um modelo-padrão de programação e racionalização, a partir da realidade pesquisada da empresa (como seus pontos fortes e fracos, suas linhas, seus potenciais de mercado, etc.), e que tem por objetivo principal atingir uma integração gradativa das diversas unidades do modelo. A idéia não é tentar atingir esta integração de uma só vez, mas de manter peças operacionais estanques para cada uma das principais áreas de responsabilidade desde já, a partir de algumas normas e padrões [pág. 89] que, aos poucos, facilitem a sua interligação. As áreas de responsabilidade são as que conjugam recursos que, no dia-a-dia, trabalham juntos para alcançarem determinadas metas mercadológicas. Elas incluem, por exemplo: (1) a gerência e as equipes de venda; (2) as gerências de produto; (3) o setor de publicidade; (4) o setor encarregado da racionalização da distribuição e/ou da (5) logística. [pág. 90]
A FUNÇÃO AVALIAÇÃO
À última das quatro funções que compõem o sistema de Marketing
abordado neste livro denominamos Avaliação. Entendemos por ela a preocupação contínua do administrador mercadológico de melhorar a relação custo/benefício das atividades sob seu controle.
Procuramos dar uma conotação ampla ao conceito da Avaliação, que
não só inclui um “estado de alma” do homem de ação à busca de melhorias de desempenho das suas funções, mas que também abrange a elaboração sistemática de métodos e técnicas destinadas a mensurar os resultados de determinadas ações com o intuito de recomendar melhorias que contribuam para um maior grau de eficácia de futuros processos de mercadização.
O conceito de Avaliação é semelhante mas não [pág. 91] idêntico ao
de controle. Este é aplicável a qualquer setor administrativo da empresa, enquanto que a Avaliação se refere exclusivamente ao setor de Marketing. Dentro deste setor, todavia, ele é mais amplo do que a conotação comum dada ao controle nas empresas. Avaliação abrange obrigatoriamente: (1) a determinação de padrões de controle; (2) o acompanhamento sistemático dos desvios entre os resultados de certas ações mercadológicas e os seus padrões; e (3) a recomendação de ações corretivas, derivadas da observação dos desvios e que visam melhorias no desempenho de Marketing.
Referindo-nos mais uma vez à Figura 2, podemos constatar que a
função Avaliação é exercida através de um instrumental denominado auditoria mercadológica. Esta surgiu inicialmente nos EUA com o intuito de avaliar empresas em apuros, mas no decorrer dos anos foi-se ampliando para tornar-se aplicável a qualquer empresa. Apesar de ainda ser algo controvertida, podemos descrever a auditoria mercadológica como sendo o exame periódico, formal e imparcial de todas as operações de Marketing de uma empresa, a partir de seus objetivos e padrões de desempenho, e abrangendo todos os processos e métodos bem como as pessoas e estruturas envolvidas na implantação das diretrizes de Marketing.
Para atingir esta amplitude e regularidade no hábito do controle
mercadológico, a empresa [pág. 92] precisa preparar-se durante muitos anos.
As áreas de enfoque da avaliação
Para se chegar aos poucos a um Sistema de Auditoria Mercadológica
(e que denominaremos SAM), a empresa deverá proceder passo a passo, procurando desenvolver processos de avaliação que se referem a determinadas áreas, inicialmente as que oferecem os maiores problemas de desempenho. Todas estas tentativas parciais de avaliação podem conduzir a um sistema integrado ao longo do tempo, contanto que partam sempre dos objetivos e das diretrizes mercadológicas que norteiam o comportamento mercadológico da empresa como um todo.
Isto implica obrigatoriamente as seguintes premissas: (1) a empresa
precisa definir o que ela pretende controlar e avaliar (como desempenho da força de vendas, relações entre potenciais e cotas, etc.); (2) é preciso ter decorrido um período mínimo em que as funções a serem avaliadas possam se desenrolar para serem controladas; (3) para este período e sua avaliação é preciso ter padrões de controle que sirvam como base de confronto entre “o planejado e o executado” (como metas de venda, número de visitas, verbas, etc.); (4) a empresa precisa dispor de meios (pessoas, técnicas e possivelmente equipamentos) [pág. 93] para poder confrontar as expectativas com os resultados do desempenho ao longo do período; (5) a empresa deve estabelecer normas quanto aos desvios aceitáveis entre o esperado e o realizado (porque uma concordância total entre os dois quase nunca é atingida, nem isso é recomendável na maioria dos casos); (6) o grau dos desvios entre o planejado e o realizado deve oferecer um indício quanto às funções que merecem ser investigadas com maior ou menor minúcia, a fim de (7) detectar as causas de eventuais falhas ocorridas ao longo do sistema que sirvam de base para (8) formular recomendações.
Convém ressaltar que a natureza dessas recomendações não
necessariamente se restringe a “ações corretivas”, mas pode perfeitamente envolver sugestões voltadas à manutenção ou até ao fortalecimento de determinadas funções, pois um bom SAM não revelará apenas os fracos, mas também os fortes da ação mercadológica.
Três são as áreas que merecem especial atenção pelos responsáveis
da montagem de um SAM. São elas: (1) a avaliação do desempenho do SIM; (2) a avaliação do desempenho da organização de vendas e de seus componentes humanos; e (3) a avaliação da produtividade mercadológica ou da relação entre insumos e resultados mensuráveis de algumas das funções de Marketing.
Para se poder avaliar um SAM é preciso ter um SAM. A idéia central
consiste em focalizar [pág. 94] eventuais pontos frágeis do SIM, submetê-los a um teste e formular recomendações. Assim, por exemplo, partindo da nossa Figura 4 (do capítulo 4), as seguintes questões poderiam ser levantadas e investigadas formalmente: que tipos de dados a empresa levantou nesses últimos anos sobre os subsistemas ambientais, que fontes ela utilizou, que métodos ela empregou para torná-los úteis à organização e que resultados ela atingiu em termos de oportunidades e/ou ameaças detectadas e de tendências projetadas? Quantas pesquisas foram conduzidas no ano passado, com que objetivos em mente e quais foram os seus usos, benefícios e desperdícios para a empresa? Dos sistemas de controles contínuos de que nós dispomos, quais têm sido aqueles que mais contribuíram para a melhoria dos nossos planos de ação e quais deveriam ser reformulados, ampliados ou delimitados?
Desse tipo de pergunta podemos inferir que existe uma íntima relação
entre o SIM e o SAM. Em boa parte, eles utilizam o mesmo banco de dados, mas os seus objetivos primordiais são distintos. Enquanto o SIM é primordialmente voltado à prestação de informações voltadas ao planejamento e a novas conquistas de mercado, o SAM se propõe a aumentar a eficácia e evitar o desperdício de recursos.
A segunda área de interesse especial para o SAM é a própria
organização de vendas ou de [pág. 95] uma parte dela, como, por exemplo, uma gerência regional. Ao se voltarem a aspectos estruturais da empresa, os auditores de Marketing exercem funções mais de aconselhamento do que de auditoria no sentido mais restrito da expressão (e que necessariamente envolve o processamento de muitos dados). Como conselheiros, os auditores conduzem entrevistas e, por vezes, se envolvem em programas de treinamento, por exemplo para reduzir conflitos em áreas particularmente sensíveis da administração, como os frequentes desentendimentos entre representantes da área de Marketing e da engenharia de produtos, quando do lançamento de inovações no mercado. Uma outra área fértil para o auditor é a reavaliação das funções dos gerentes de produto, que, por vezes, pode conduzir a importantes modificações, sobretudo as que visam a reduzir a tão discutida discrepância entre as múltiplas responsabilidades de um gerente de produto e o grau limitado de autoridade que frequentemente lhe é permitido exercer.
Talvez a tarefa mais delicada e importante que pode ser exercida por
um auditor de Marketing na área de organização consista em levar a “mensagem” do Marketing aos homens de venda. Muito frequentemente estes resistem à idéia de aceitar os métodos de trabalho e a própria filosofia de Marketing. Claramente, a melhor forma para se tentar transpor esse tipo [pág. 96] de obstáculo é o treinamento e este pode, com algumas vantagens, ser conduzido pelos homens que “mexem” em todas as áreas do Marketing e que tipicamente são os auditores, sejam eles funcionários da empresa ou consultores contratados.
Regras do jogo de auditoria
Ao se introduzir um sistema integrado de controles na empresa, convém observar algumas regras empíricas, como as seguintes: a) não há controle adequado sem a definição prévia de objetivos e metas
mercadológicas, bem como a determinação de padrões de desempenho
a serem atingidos ao longo de períodos pré-especificados e dentro de
desvios mínimos e máximos aceitáveis para a administração; b) a escolha desses padrões é uma função das metas mercadológicas da
empresa, pois o que deve ser controlado não são quaisquer variáveis
quantificáveis ou não, mas exclusivamente a relação entre o que se
planejou e o que se realizou;
c) determinados tipos de variáveis praticamente se impõem à maioria das
empresas como padrões (como a relação entre receitas e despesas de
venda), outros são menos óbvios (como talvez o controle das despesas
de vendas por km [pág. 97] rodado). O importante na escolha não é ter
muitos critérios de controle, mas o número necessário para poder avaliar
o desempenho das principais funções operacionais, em relação aos
principais objetivos;
d) além das variáveis “óbvias”, a escolha dos padrões depende, em parte,
do tipo de negócio a que se dedica a empresa. Por exemplo, no varejo
variáveis como a rotação de estoques, as margens unitárias por tipos de
produtos e o aproveitamento do espaço nas prateleiras dos pontos de
venda são mais importantes do que na indústria, que antes enfatiza
variáveis como as discutidas ao longo do presente capítulo; e) além da escolha das variáveis em si, o mais importante critério de triagem
é a possibilidade de conjugá-las e combiná-las entre si, porque os
indícios quanto às possíveis causas de desempenhos insatisfatórios (ou
mesmo satisfatórios) surgem com muito mais clareza quando da
combinação de variáveis do que quando se analisa um fator após o
outro, isoladamente;
f) o principal ponto de referência para avaliar o desempenho são os desvios
(ou as variações) que se constata entre as metas planejadas e seus
padrões e o realizado durante períodos pré-determinados (como um ano,
meses, ou mesmo semanas). Esses desvios nos indicam com clareza
[pág. 98] quais foram as áreas mais afetadas e em que medida houve
mudanças no desempenho, mas nada nos dizem diretamente sobre as
possíveis causas desses desvios;
g) a finalidade precípua da função Avaliação não é apenas exercer controles
mais ou menos rígidos, ou mesmo montar um SAM, mas usar o
instrumental de controle para reavaliar e possivelmente reformular
diretrizes mercadológicas que se justificam a partir da investigação
contínua dos desempenhos das principais áreas de Marketing. Para tal é
preciso descobrir as possíveis causas dos desvios constatados. Isto
pode ser feito através de uma multiplicidade de métodos e meios, desde
a realização de pesquisas de campo, até o simples contato com pessoas
que têm algo a informar sobre os processos em andamento.
Normalmente, a melhor combinação parece-me ser aquela que parte da
interpretação de dados estatísticos disponíveis, para depois formular
hipóteses quanto ás causas dos desvios, e que conduzem a sugestões
quanto a ações corretivas que são levadas a grupos de pessoas e/ou
indivíduos que podem fornecer informações para confirmar, modificar e
enriquecer as suposições. Geralmente, esses indivíduos são pessoas
ligadas ao “campo”, como gerente de produtos, supervisores de venda,
membros da própria equipe de vendedores, clientes e mesmo
concorrentes; [pág. 99]
h) a ação corretiva deve sempre partir de duas premissas básicas. Uma
delas aceita os padrões como válidos e aplica medidas a partir dos
desvios constatados. A outra coloca dúvida nos próprios padrões e se
concentra na melhoria de sua seleção, combinação e aplicação; i) ao se montar um sistema de controles integrados, finalmente destinados a
criar um SAM racional e operacional para a empresa, o principal objetivo
é claramente o controle. No entanto, a empresa jamais deve se esquecer
da íntima relação existente entre controle e planejamento. Isto implica a
alta conveniência de se integrar os elementos do SAM com o
instrumental à disposição voltado a outros objetivos. Entre eles
destacamos o SIM discutido no capítulo 4, mas também outros eventuais
instrumentais de planejamento, como o de produtos e linhas (por
exemplo, através da montagem de port-fólios), dos sistemas de logística
e de distribuição, e dos meios voltados ao incentivo das comunicações
pessoais e impessoais que abordamos no capítulo anterior.
Genericamente falando, podemos concluir que a Avaliação exerce o
papel de policiamento do setor de Marketing — mas, esperemos, num sentido construtivo, qual seja o de detectar e indicar caminhos para o aumento de produtividade. [pág. 100]
Sumário
Graças ao rapidíssimo desenvolvimento da tecnologia de levantamento
e processamento de dados a custos decrescentes — que envolve não só uma maquinaria cada vez mais simplificada, como também um software cada vez mais versátil — podemos perfeitamente imaginar uma era, não muito distante, em que as “pré-decisões” administrativas serão tomadas por computadores ou seus sucessores. A idéia não é tão remota assim se imaginarmos que, além do progresso tecnológico, haverá também um rápido avanço dos sistemas de informação. Isto gerará bancos de dados cada vez mais complexos e sobretudo confiáveis, que alimentarão sistemas e memórias que acumularão uma infinidade de opções de análise e que, um dia, serão capazes de formular “propostas” a executivos quanto a medidas a serem tomadas.
Não creio que a humanidade jamais chegue ao ponto de substituir o
processo de decisão criativa por qualquer máquina ou sistema. Mas a própria criatividade pode ser auxiliada por sistemas de seleção eletrônica que processarão muito mais dados do que a mente humana jamais seria capaz de coordenar racionalmente. Portanto, parece provável que, dentro em breve, teremos a tecnologia capaz de avaliar incontáveis opções táticas, ou mesmo estratégicas, a partir da combinação [pág. 101] de dados, todas elas ao menos aproximadamente racionais e que facilitarão as tarefas de prognósticos, decisões administrativas e seus controles.
Ao atingirmos este “admirável mundo novo” teremos condições de criar
SIMs, SAMs e outros bichos semelhantes voltados à integração das informações. Com isto não acabará a necessidade de tomada de decisões que envolvem riscos de consequências imprevisíveis, nem acabará a concorrência. Em sua essência, a única coisa que mudará será a capacidade de algumas empresas de tomarem decisões mais racionais do que outras dentro do seu ramo e setor. E isto lhes dará algumas vantagens bem substanciais.
Mas, antes de chegarmos a esta maravilhosa época em que
executivos deleguem uma parte de suas funções de investigação de alternativas à máquinas quebrantáveis mas nunca mal-humoradas, temos muito que andar. Até lá teremos que nos contentar com montar sistemas mais simples, a fim de não ficar nas últimas posições da corrida competitiva. Tecnicamente, isto implica a possibilidade, acessível a qualquer empresa, de montar, passo a passo, pequenos sistemas de informação que, no decorrer do tempo, se integrem em alguns poucos sistemas maiores, com finalidades mais amplas e sobretudo interligáveis, que, finalmente, desemboquem num sistema geral.
O presente capítulo partiu dessa premissa [pág. 102] de construção
gradativa de subsistemas, focalizando, para a área de controles mercadológicos. funções que nos parecem ser primordialmente úteis na busca e montagem desses modelos parciais. Acima e além de seus aspectos de ordem técnica ou mecânica, procuramos enfatizar a idéia de que a função Avaliação só tem utilidade para a empresa desde que ela nos ajude a encontrar meios para melhorar o desempenho de áreas especificas da ação mercadológica e com isso contribuir para o aumento da produtividade do Marketing Mix como um todo. [pág. 103]