O Reino do Dragão de Ouro

Isabel Allende · Capítulo 1 de 19

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O Reino do Dragão de Ouro

Página de Rosto

À minha amiga Tabra Tunoa,

 

viajante incansável, que me levou aos Himalaias

e me falou do dragão de ouro.

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CAPÍTULO 1

O Vale dos Yetis

 

Tensing, o monge budista, e o seu discípulo, o príncipe Dil Bahadur, tinham escalado durante dias os altos cumes ao norte da cordilheira dos Himalaias, a região dos gelos eternos, onde só alguns lamas puseram os pés ao longo da história. Nenhum dos dois reparava nas horas, porque o tempo não lhes interessava. O calendário é uma invenção humana; a nível espiritual, o tempo não existe, ensinara o mestre ao seu aluno.

Para eles o que importava era a travessia, que o jovem efectuava pela primeira vez. O monge recordava tê-la feito numa vida anterior, mas essas lembranças eram um pouco confusas. Guiavam-se pelas indicações de um pergaminho e orientavam-se pelas estrelas, num terreno onde, mesmo no Verão, imperavam condições muito duras. A temperatura, vários graus abaixo de zero, era suportável apenas durante alguns meses por ano, quando as tempestades fatídicas deixavam de fustigar aquela região.

Mesmo sob o céu limpo, o frio era intenso. Vestiam túnicas de lã e capas ásperas de pele de iaque. Cobriam os pés com botas de couro do mesmo animal, com o pêlo para dentro e o exterior impermeabilizado com gordura. Cada passo era dado com cuidado, porque uma escorregadela no gelo significava que podiam rolar centenas de metros pelos precipícios profundos que, como machadadas de Deus, cortavam os montes.

Contra o céu de um azul intenso, sobressaíam os picos luminosos e cobertos de neve dos montes, por onde os viajantes avançavam sem pressa, porque, àquela altitude, não tinham oxigénio suficiente. Descansavam com frequência, para os pulmões se irem habituando. Doía-lhes o peito, os ouvidos e a cabeça, sofriam de náuseas e de fadiga, mas nenhum dos dois mencionava essas debilidades do corpo; limitavam-se a controlar a respiração, para tirar o máximo proveito de cada golfada de ar.

Iam em busca daquelas plantas raras que só se encontram no gélido Vale dos Yetis e que eram fundamentais para preparar loções e bálsamos medicinais. Caso sobrevivessem aos perigos da viagem, podiam considerar-se iniciados, pois o seu carácter temperar-se-ia como aço. A vontade e a coragem eram muitas vezes postas à prova durante essa travessia. O discípulo necessitaria de ambas as virtudes, vontade e coragem, para cumprir a tarefa que o esperava na vida. Por isso o seu nome era Dil Bahadur, que quer dizer «coração valente», na língua do Reino Proibido. A viagem até ao Vale dos Yetis era uma das últimas fases do treino rigoroso que o príncipe recebera durante doze anos.

O jovem não conhecia a verdadeira razão da viagem, que era mais importante que as plantas medicinais ou que a sua iniciação como lama superior. O seu mestre não podia revelar-lha, tal como não podia falar-lhe de muitas outras coisas. O seu papel era guiar o príncipe em cada fase da sua longa aprendizagem; fortalecer o seu corpo e o seu carácter; cultivar a sua mente e pôr à prova, uma e outra vez, a qualidade do seu espírito. Dil Bahadur descobriria a razão da viagem ao Vale dos Yetis mais tarde, quando se encontrasse diante da prodigiosa estátua do Dragão de Ouro.

Tensing e Dil Bahadur carregavam às costas fardos com as mantas, o cereal e a manteiga de iaque indispensáveis à sua sobrevivência. Enroladas à cintura, levavam cordas de pêlo de iaque, que lhes serviam para escalar e, na mão, um bordão grande e forte, como uma pértiga, que usavam para se apoiar, para se defender, no caso de serem atacados, e para montar, à noite, uma tenda improvisada. Usavam-no, também, para testar a profundidade e a firmeza do terreno antes de pisarem aqueles sítios onde, de acordo com a sua experiência, a neve fresca costumava cobrir buracos profundos. Enfrentavam com frequência fendas que, se não conseguissem saltar, os obrigavam a fazer longos desvios. Às vezes, para evitar horas de caminho, colocavam o bordão de um lado a outro do precipício e, tendo a certeza de que se aguentava com firmeza em ambas as extremidades, arriscavam-se a pisá-lo e a pular para o outro lado, nunca mais de um passo, porque as possibilidades de cair para o vazio eram muitas. Faziam-no sem pensar, com a mente em branco, confiando na habilidade dos seus corpos, no instinto e na sorte, porque, caso se detivessem a calcular os movimentos, não conseguiriam fazê-lo. Quando a fenda era mais larga do que o comprimento do pau, prendiam uma corda a uma rocha alta, depois um dos dois amarrava a outra ponta da corda à cintura, tomava impulso e saltava, oscilando como um pêndulo, até atingir a outra margem. O jovem discípulo, que possuía uma enorme resistência e coragem diante do perigo, vacilava sempre no momento de utilizar qualquer um destes métodos.

Tinham chegado a um desses barrancos e o lama estava à procura do sítio mais adequado para atravessar. O jovem fechou os olhos por um instante, elevando uma prece.

- Tens receio de morrer, Dil Bahadur? - perguntou Tensing, sorrindo.

- Não, honorável mestre. O momento da minha morte está escrito no meu destino antes do meu nascimento. Morrerei quando tiver concluído o meu trabalho nesta reencarnação e o meu espírito estiver pronto para voar; mas receio partir todos os ossos e ficar vivo lá em baixo - replicou o jovem apontando para o precipício impressionante que se abria aos seus pés...

- É possível que isso fosse um inconveniente... - admitiu o lama de bom humor. - Se abrires a mente e o coração, isto parecer-te-á mais fácil -acrescentou.

- O que faria se eu caísse no barranco?

- Se isso acontecesse, talvez tivesse de pensar. Por agora, os meus pensamentos estão ocupados com outras coisas.

- Posso saber com quê, mestre?

- Com a beleza da vista - replicou, apontando para a interminável cadeia de montanhas, para a brancura imaculada da neve, para o céu resplandecente.

- É como a paisagem da lua - observou o jovem.

- Talvez... Em que parte da lua estiveste, Dil Bahadur? - perguntou o lama, disfarçando outro sorriso.

- Ainda não cheguei tão longe, mestre, mas imagino-a assim.

- Na lua o céu é negro e não há montanhas como estas. Também não há neve, é tudo rocha e pó cinzento.

- Talvez, algum dia, eu possa fazer uma viagem astral à lua, como o meu honorável mestre - admitiu o discípulo.

- Talvez...

Depois de o lama ter prendido o bordão, tiraram ambos as túnicas e os mantos que os impediam de mover-se com total liberdade, e amarraram os seus pertences em quatro pacotes. O lama tinha o aspecto de um atleta. As suas costas e braços eram só músculos, o pescoço tinha a largura de uma coxa de um homem normal e as suas pernas pareciam troncos de árvore. Aquele magnífico corpo de guerreiro contrastava de uma forma notável com o rosto sereno, os olhos doces e a boca delicada, quase feminina, sempre sorridente. Tensing agarrou nos pacotes um a um, tomou impulso girando o braço como a pá de um moinho, e lançou-os para o outro lado do barranco.

- O medo não é real, Dil Bahadur, existe apenas na tua mente, como tudo o resto. Os nossos pensamentos criam o que julgamos ser a realidade -disse.

- Neste momento a minha mente está a criar um buraco bastante profundo, mestre - murmurou o príncipe.

- E a minha mente está a criar uma ponte bastante segura replicou o lama.

Fez um sinal de despedida ao jovem, que esperava sobre a neve, depois deu um passo sobre o vazio, colocando o pé direito no centro do bordão de madeira e numa fracção de segundo impeliu-se para a frente, atingindo com o pé esquerdo a outra berma. Dil Bahadur imitou-o com menos graciosidade e destreza, mas sem uma única expressão que traísse o seu nervosismo. O mestre reparou que a pele dele brilhava, húmida de transpiração. Vestiram-se rapidamente e puseram-se a caminho.

- Falta muito? - quis saber Dil Bahadur.

- Talvez.

- Seria uma imprudência pedir-lhe que não me respondesse sempre talvez, mestre?

- Talvez fosse - disse Tensing, sorrindo. E, depois de uma pausa, acrescentou que, segundo as instruções do pergaminho, tinham de continuar para norte. Faltava ainda a parte mais árdua do caminho.

- Já viu os yetis, mestre?

- São como dragões, sai-lhes fogo pelas orelhas e têm quatro pares de braços.

- Que extraordinário! - exclamou o jovem.

- Quantas vezes te disse para não acreditares em tudo o que ouves? Procura a tua própria verdade - disse o lama, rindo-se.

- Mestre, não estamos a estudar os ensinamentos de Buda, mas apenas a conversar... - suspirou o discípulo, aborrecido.

- Não vi os yetis nesta vida, mas lembro-me deles de uma vida anterior. Têm a mesma origem que nós e há vários milhares de anos tinham uma civilização quase tão desenvolvida como a humana, mas agora são muito primitivos e de inteligência limitada.

- O que lhes aconteceu?

- São muito agressivos. Mataram-se uns aos outros e destruíram tudo o que tinham, incluindo a terra. Os sobreviventes fugiram para os cumes dos Himalaias e ali a sua raça começou a degenerar. Agora são como animais -explicou o lama.

- São muitos?

- Tudo é relativo. Parecerão muitos se nos atacarem, e poucos se forem amistosos. Em todo o caso, têm uma vida curta mas reproduzem-se com facilidade, de modo que imagino que existirão vários no Vale. Moram num lugar inacessível, onde ninguém consegue encontrá-los, mas às vezes um deles sai à procura de alimento e perde-se. É essa, possivelmente, a causa das pegadas que se atribuem ao abominável homem das neves, como o denominam - aventurou o lama.

- As pegadas são enormes. Devem ser gigantes. Serão ainda muito agressivos?

- Fazes muitas perguntas para as quais não tenho respostas, Dil Bahadur - replicou o mestre.

Tensing conduziu o seu discípulo pelos cumes dos montes, saltando precipícios, escalando encostas verticais, escorregando por veredas estreitas cortadas nas rochas. Existiam antigas pontes suspensas, mas estavam em muito mau estado e era necessário usá-las com prudência. Quando o vento soprava ou caía granizo, procuravam refúgio e esperavam. Uma vez por dia comiam tsampa, uma mistura de farinha de cevada torrada, ervas secas, gordura de iaque e sal. Água havia em abundância sob as crostas de gelo. Em certas ocasiões o jovem Dil Bahadur tinha a impressão de que andavam em círculos, porque a paisagem parecia sempre igual, mas não manifestava as suas dúvidas. Seria uma falta de cortesia para com o seu mestre.

Ao cair da tarde procuravam refúgio para passar a noite. Às vezes bastava alguma fenda, onde podiam instalar-se protegidos do vento, noutras noites encontravam alguma gruta, mas de vez em quando não tinham outro remédio senão dormir ao relento, protegidos apenas com as peles de iaque. Depois de montado o seu austero acampamento, sentavam-se de frente para o sol-poente, com as pernas cruzadas e salmodiavam o mantra essencial de Buda, repetindo sucessivamente Om manipadme hum, Salve, Jóia Preciosa no Coração do Lotus. O eco repetia o cântico, multiplicando-o até ao infinito entre os altos cumes dos Himalaias.

Durante a marcha juntavam pauzinhos e erva seca que metiam nos sacos, para fazerem fogueiras à noite e preparar a comida. Depois do jantar, meditavam durante uma hora. Nessa altura, o frio costumava pô-los rígidos como estátuas de gelo, mas eles mal o sentiam. Estavam habituados à imobilidade, que lhes proporcionava calma e paz. Na sua prática budista, o mestre e o estudante sentavam-se em total descontracção, mas alerta. Desligavam-se das distracções e dos valores do mundo, embora não se esquecessem do sofrimento, que existe em toda a parte.

Depois de escalarem montanhas por vários dias, subindo a altitudes gélidas, chegaram a Chenthan, o mosteiro fortificado dos antigos lamas que inventaram a forma de luta corpo a corpo chamada Tao-shu. No século xix, um terramoto destruiu o mosteiro, que teve de ser abandonado. Era uma construção de pedra, tijolo e madeira, com mais de cem quartos, que parecia colada à beira de um despenhadeiro impressionante. Durante centenas de anos, o mosteiro albergou aqueles monges, cujas vidas eram dedicadas à procura espiritual e ao aperfeiçoamento das artes marciais.

Nas suas origens, os monges Tao-shu eram médicos com conhecimentos extraordinários de anatomia. Na sua prática, descobriram os pontos vulneráveis do corpo que, sendo pressionados, insensibilizam ou paralisam, e combinaram-nos com as técnicas de luta conhecidas na Ásia. O seu objectivo era aperfeiçoarem-se espiritualmente, através do domínio da sua própria força e das suas emoções. Embora fossem invencíveis na luta corpo a corpo, não utilizavam o Tao-shu para fins violentos, mas como exercício físico e mental. Também não o ensinavam a qualquer pessoa, apenas a alguns homens e mulheres escolhidos. Tensing tinha aprendido Tao-shu com eles e ensinara-o ao seu discípulo Dil Bahadur.

O terramoto, a neve, o gelo e o decurso do tempo tinham desgastado uma grande parte do edifício, mas duas alas ainda estavam de pé, embora em ruínas. Chegava-se aí escalando uma escarpa, tão difícil e longínqua, que ninguém o tentava há quase meio século.

- Depressa chegarão ao mosteiro pelo ar - observou Tensing.

- Mestre, acha que, dos aviões, podem descobrir o Vale dos Yetis? -inquiriu o príncipe.

- Possivelmente.

- Imagine o esforço que poderíamos poupar! Conseguiríamos voar até lá em muito pouco tempo.

- Espero que isso não aconteça. Se descobrissem os yetis, convertê-los-iam em animais de feira ou em escravos - disse o lama.

Entraram em Chenthan Dzong para descansar e passar a noite abrigados. Nas ruínas do mosteiro ainda se viam tapetes coçados com imagens religiosas, quinquilharias e armas que os monges guerreiros sobreviventes ao terramoto não conseguiram levar consigo. Havia várias representações de Buda em diversas posições, incluindo uma estátua enorme do Iluminado, deitado de lado no chão. A pintura dourada tinha-se descascado, mas o resto estava intacto. Gelo e neve em pó cobriam quase tudo, dando ao lugar um aspecto particularmente belo, como se fosse um palácio de cristal. Atrás do edifício uma avalancha tinha criado a única superfície plana dos arredores, uma espécie de pátio do tamanho de um campo de basquetebol.

- Um avião conseguiria aterrar aqui, mestre? - perguntou Dil Bahadur, que não conseguia esconder o seu fascínio pelos poucos aparelhos modernos que conhecia.

- Nada sei sobre essas coisas, Dil Bahadur. Nunca vi um avião aterrar, mas julgo que isto é muito pequeno e, além disso, as montanhas formam um verdadeiro funil de ventos cruzados...

Na cozinha encontraram panelas e outros recipientes de ferro, velas, carvão, paus para fazer fogo e alguns cereais conservados pelo frio. Havia recipientes com óleo e um com mel, que o príncipe não conhecia. Tensing deu-lho a provar e o jovem sentiu pela primeira vez um sabor doce no paladar. A surpresa e o prazer quase o fizeram cair de costas. Prepararam fogo para cozinhar e acenderam velas diante das estátuas, em sinal de respeito. Nessa noite comeriam melhor e dormiriam sob um tecto. A ocasião merecia uma curta cerimónia especial de agradecimento.

Estavam a meditar em silêncio, quando ouviram um longo rugido que retumbou entre as ruínas do mosteiro. Abriram os olhos no instante em que entrava na sala um enorme tigre dos Himalaias, um monstro de meia tonelada de peso e pêlo branco, o animal mais feroz do mundo.

O príncipe recebeu por telepatia a ordem do seu mestre e tentou cumpri-la, embora a sua primeira reacção instintiva fosse recorrer ao Tao-shu e saltar em sua própria defesa. Se conseguisse pôr uma mão atrás das orelhas do tigre, podia paralisá-lo. No entanto, permaneceu imóvel, tentando respirar com calma, para que a fera não sentisse o cheiro do medo. O tigre aproximou-se lentamente dos monges. Apesar do perigo iminente em que se encontravam, o jovem não pôde deixar de admirar a beleza extraordinária do animal. O seu pêlo era da cor do marfim claro com riscas castanhas e tinha os olhos do azul de alguns glaciares dos Himalaias. Era um macho adulto, enorme e poderoso, um exemplar perfeito.

Tensing e Dil Bahadur, sentados na posição de lótus, com as pernas cruzadas e as mãos sobre os joelhos, viram o tigre avançar. Ambos sabiam que, se estivesse esfomeado, havia poucas possibilidades de o deterem. A esperança era que a fera tivesse comido, mas era pouco provável que, naqueles ermos, a caça fosse abundante.

Tensing possuía poderes psíquicos extraordinários, porque era um tulku, a reencarnação de um grande lama da Antiguidade. Concentrou esse poder como um raio, para penetrar na mente da fera.

Sentiram o hálito do grande felino na cara, uma baforada de ar quente e fétido que lhe saía das fauces. Outro rugido temível estremeceu o ambiente. O tigre aproximou-se a poucos centímetros dos homens e estes sentiram a picada dos seus duros bigodes. Durante vários segundos, que pareceram eternos, rondou-os, farejando-os e tacteando-os com a sua patorra enorme, mas sem os agredir. O mestre e o discípulo permaneceram completamente imóveis, abertos ao afecto e à compaixão. O tigre não sentiu neles temor ou agressão, apenas empatia e, uma vez satisfeita a sua curiosidade, retirou-se com a mesma dignidade solene com que tinha chegado.

- Já vês, Dil Bahadur, como às vezes a calma serve para alguma coisa... - foi o único comentário do lama. O príncipe não conseguiu responder porque a sua voz se tinha petrificado no peito.

Apesar daquela visita inesperada, decidiram ficar e passar a noite em Chenthan Dzong, mas tomaram a precaução de dormir ao pé de uma fogueira, mantendo à mão um par de lanças que encontraram entre as armas abandonadas pelos monges Tao-shu. O tigre não voltou, mas na manhã seguinte, quando retomaram novamente a marcha, viram as suas pegadas sobre a neve refulgente e ouviram ao longe o eco dos seus rugidos nos cumes.

Alguns dias depois, Tensing lançou uma exclamação de alegria e apontou para um desfiladeiro entre duas encostas verticais da montanha. Eram duas paredes de rocha negra, polidas por milhões de anos de erosão e de gelo. Entraram no desfiladeiro com grandes precauções, porque pisavam rochas soltas e havia buracos profundos. Antes de deslocarem um pé, tinham de verificar a firmeza do terreno com os seus bordões.

Tensing atirou uma pedra para um dos poços, mas este era tão fundo que não a ouviram bater. Por cima deles, o céu, como uma fita azul entre as paredes de rocha brilhantes, mal se via. Um coro de gemidos aterradores veio ao seu encontro.

- Felizmente não acreditamos em fantasmas nem em demónios, não é verdade? - comentou o lama.

- Será acaso a minha imaginação que me faz ouvir este alarido? -perguntou o jovem, com a pele arrepiada de pavor.

- Talvez seja o vento que passa por aqui tal como o ar passa por uma trombeta.

Tinham percorrido um trecho razoável quando foram assaltados por um cheiro fétido a ovos podres.

- Enxofre - explicou o mestre.

- Não consigo respirar - disse Dil Bahadur, com as mãos no nariz.

- Talvez convenha imaginar que é uma fragrância de flores - sugeriu Tensing.

- De todas as fragrâncias, a mais doce é a da virtude - recitou o jovem, sorrindo.

- Imagina, então, que esta é a doce fragrância da virtude - replicou o lama, rindo-se também.

A passagem tinha mais ou menos uma milha de comprimento, mas demoraram duas horas a atravessá-la. Nalguns sítios era tão estreita que tinham de avançar de lado entre as rochas, enjoados pelo ar rarefeito, mas não hesitaram, porque o pergaminho indicava claramente que existia uma saída. Viram nichos cavados nas paredes, onde havia caveiras e montes de ossos muito grandes, alguns com aparência humana.

- Deve ser o cemitério dos yetis - comentou Dil Bahadur. Um sopro de ar húmido e quente, como nunca tinham sentido, anunciou o fim do desfiladeiro.

Tensing foi o primeiro a sair, seguido de perto pelo seu discípulo. Quando Dil Bahadur viu a paisagem que tinha em frente, pareceu-lhe que era de outro planeta. Se não lhe pesasse tanto a fadiga do corpo e não tivesse o estômago tão revolto devido ao cheiro a enxofre, pensaria ter feito uma viagem astral.

- Aí o tens: o Vale dos Yetis - anunciou o lama.

Diante deles estendia-se um planalto vulcânico. Bocados de vegetação esverdeada, arbustos maciços e grandes cogumelos de várias formas e cores cresciam por toda a parte. Havia regatos e charcos de água borbulhante, estranhas formações rochosas e do chão surgiam altas colunas de fumo branco. Uma bruma delicada flutuava no ar, apagando os contornos à distância e dando ao vale o aspecto de uma ilusão. Os visitantes sentiram-se fora da realidade, como se tivessem entrado noutra dimensão. Depois de suportarem durante tantos dias o frio intenso da travessia pelas montanhas, aquele vapor tépido era uma verdadeira dádiva para os sentidos, apesar do cheiro nauseabundo que ainda persistia, embora menos intenso que no desfiladeiro.

- Antigamente, alguns lamas, cuidadosamente seleccionados pela sua resistência física e força espiritual, faziam esta viagem de vinte em vinte anos para colherem plantas medicinais, que não crescem em nenhum outro lugar - explicou Tensing.

Disse que, em 1950, o Tibete foi invadido pelos chineses, que destruíram mais de seis mil mosteiros e fecharam os restantes. A maior parte dos lamas partiu para o exílio noutros países, como a índia e o Nepal, levando os ensinamentos de Buda a toda a parte. Em vez de acabarem com o budismo, como pretendiam os invasores chineses, conseguiram exactamente o contrário: espalhá-lo pelo mundo inteiro. No entanto, muitos dos conhecimentos de medicina, bem como as práticas psíquicas dos lamas, estavam a desaparecer.

- As plantas eram secas, moídas e misturadas com outros ingredientes. Um grama desses pós pode ser mais precioso que todo o ouro do mundo, Dil Bahadur - disse o mestre.

- Não conseguiremos levar muitas plantas. Pena não termos trazido um iaque - comentou o jovem.

- Talvez nenhum iaque atravessasse voluntariamente os precipícios fazendo equilíbrio em cima de um bordão, Dil Bahadur. Levaremos o que pudermos.

Entraram no misterioso vale e, passado pouco tempo, viram formas que pareciam esqueletos. O lama informou o seu discípulo de que se tratava de ossos petrificados de animais anteriores ao dilúvio universal. Pôs-se de gatas e começou a vasculhar o chão até encontrar uma pedra escura com manchas vermelhas.

- Isto é excremento de dragão, Dil Bahadur. Tem propriedades mágicas.

- Não devo acreditar em tudo o que oiço, não é verdade, mestre? -replicou o jovem.

- É, mas talvez neste caso possas acreditar em mim - disse o lama, entregando-lhe a amostra.

O príncipe hesitou. A ideia de tocar naquilo não o seduzia.

- Está petrificado - riu-se Tensing. - Pode curar ossos partidos em poucos minutos. Um pedacinho disto, moído e dissolvido em aguardente de arroz pode transportar-te a qualquer uma das estrelas que há no firmamento.

O pedacinho que Tensing tinha descoberto tinha um pequeno orifício, por onde o lama passou um cordel, pendurando-o ao pescoço de Dil Bahadur.

- Isto é como uma couraça, tem o poder de desviar certos metais. Flechas, facas e outras armas cortantes não poderão ferir-te.

- Mas talvez baste um dente infectado, um tropeção no gelo ou uma pedrada na cabeça para matar-me... - disse o jovem, rindo-se.

- Que todos iremos morrer é a nossa única certeza, Dil Bahadur.

O lama e o príncipe instalaram-se perto de uma fumarola, dispostos a passar uma noite cómoda pela primeira vez em vários dias, uma vez que a grossa coluna de vapor os mantinha abrigados.

Tinham feito chá com a água de uma fonte termal próxima. A água saía a ferver e ao desaparecerem as borbulhas adquiria uma pálida cor de lavanda. A fonte alimentava um regato fumegante, em cujas margens cresciam flores roxas e carnudas.

O monge raras vezes dormia. Sentava-se na posição de lótus, com os olhos semicerrados, e assim descansava e repunha a sua energia. Tinha a capacidade de permanecer absolutamente imóvel, controlando com a mente a respiração, a pressão sanguínea, as pulsações do coração e a temperatura, de modo que o seu corpo entrava num estado de hibernação. Com a mesma facilidade com que entrava em repouso absoluto, perante uma emergência conseguia saltar à velocidade de um tiro, com todos os seus poderosos músculos prontos para a defesa. Dil Bahadur tinha tentado imitá-lo durante anos sem o conseguir. Rendido de fadiga, adormeceu assim que colocou a cabeça no chão.

O príncipe acordou a meio de um coro de grunhidos aterradores. Assim que abriu os olhos e viu quem os rodeava, levantou-se como uma mola, aterrando de pé, com os joelhos dobrados e os braços estendidos em posição de ataque. A voz tranquila do mestre paralisou-o no momento em que se preparava para bater.

- Calma. São os yetis. Envia-lhes afecto e compaixão, como ao tigre -murmurou o lama.

Estavam no meio de uma horda de seres repelentes, de um metro e meio de altura, inteiramente cobertos por um pêlo branco, emaranhado e imundo, com braços longos e pernas curtas e arqueadas, terminadas em enormes patas de macacos. Dil Bahadur calculou que a origem da lenda eram as pegadas daqueles grandes pés. Mas, nesse caso, de quem eram os longos ossos e as caveiras gigantescas que tinham visto no túnel?

O pequeno tamanho daqueles seres em nada diminuía a ferocidade do seu aspecto. Os rostos achatados e peludos eram quase humanos, mas de expressão bestial; os olhos eram pequenos e avermelhados; as orelhas pontiagudas como as dos cães e os dentes afiados e compridos. Entre grunhido e grunhido, mostravam as línguas, que se enroscavam na ponta como as dos répteis, mas que eram de um azul-arroxeado intenso. Tinham o peito coberto com couraças de couro, manchadas de sangue seco, amarradas nos ombros e na cintura. Brandiam cacetes ameaçadores e rochas afiadas, mas, apesar das suas armas e de os superarem largamente em número, mantinham-se a uma distância prudente. Começava a amanhecer e a luz da madrugada dava à cena, envolta numa bruma espessa, um aspecto de pesadelo.

Tensing levantou-se lentamente, para não provocar uma reacção nos seus atacantes. Comparados com aquele gigante, os yetis pareciam ainda mais baixos e encurvados. A aura do mestre não tinha mudado, continuava a ser branca e dourada, o que indicava a sua completa serenidade, enquanto a aura da maior parte daqueles seres não tinha brilho, era vacilante, em tons terrosos, indicando doença e medo.

O príncipe adivinhou o motivo por que não os tinham atacado de imediato: pareciam esperar alguém. Passados alguns minutos viu avançar uma figura muito mais alta que os outros, apesar de estar encurvada pela idade. Era da mesma espécie dos yetis, mas meio corpo mais alta. Caso conseguisse endireitar-se teria o tamanho de Tensing, mas à idade avançada somava-se uma corcunda que lhe deformava as costas e a obrigava a andar com o tronco paralelo ao chão. Ao contrário dos outros yetis, cobertos apenas pelos seus pêlos longos e imundos e pelas couraças, ela enfeitava-se com colares de dentes e ossos, tinha uma coçada capa de pele de tigre e um bordão retorcido na mão.

Aquela criatura não podia chamar-se mulher, embora fosse do sexo feminino; também não era humana, embora não fosse exactamente um animal. O seu pêlo era ralo e tinha caído em vários sítios, revelando uma pele escamosa e rosada, como a cauda de uma ratazana. Estava revestida por uma crosta impenetrável de gordura, sangue seco, barro e porcaria, que exalava um cheiro insuportável.

As unhas eram garras pretas e os poucos dentes que tinha na boca estavam soltos e dançavam a cada sopro que emitia. Pelo nariz pingava-lhe um ranho verde. Os olhos remelosos brilhavam no meio das madeixas de pêlos eriçados que lhe cobriam o rosto. À sua passagem, os yetis afastaram-se respeitosamente. Era evidente a sua autoridade, devia ser a rainha ou a feiticeira da tribo.

Surpreendido, Dil Bahadur viu que o seu mestre se punha de joelhos diante da sinistra criatura, juntava as mãos diante da cara e recitava o cumprimento habitual do Reino Proibido: «a felicidade esteja consigo».

- Tampo kachi - disse.

- Grr-ympr - rugiu ela, salpicando-o de saliva.

Tensing, de joelhos, ficava à mesma altura da encurvada anciã e, dessa forma, podiam olhar-se nos olhos. Dil Bahadur imitou o lama, apesar de, nessa posição, não poder defender-se dos yetis, que continuavam brandindo os seus cacetes. Olhando de soslaio, calculou que havia uns dez ou doze à sua volta e quem sabe quantos mais nas proximidades.

A chefe da tribo emitiu uma série de ruídos guturais e agudos que, combinados, pareciam uma linguagem. Dil Bahadur teve a sensação de já a ter ouvido anteriormente, mas não sabia onde. Não compreendia uma única palavra, apesar dos sons lhe serem familiares. De imediato, todos os yetis se puseram também de joelhos e começaram a bater com a testa no chão, mas sem largarem as armas, oscilando entre aquele cumprimento cerimonioso e o impulso de os massacrarem com os seus cacetes.

A velha yeti mantinha os outros apaziguados, enquanto repetia o grunhido que soava como Grr-ympr. Os visitantes calcularam que devia ser o nome dela. Tensing ouvia-a com muita atenção, enquanto Dil Bahadur fazia um esforço para captar, por telepatia, o que pensavam aquelas criaturas, mas as suas mentes eram um emaranhado de visões incompreensíveis. Prestou atenção ao que a feiticeira, que era sem dúvida mais evoluída do que os outros, tentava transmitir. Várias imagens formaram-se no seu cérebro. Viu uns animaizinhos peludos, como coelhos brancos, agitar-se em convulsões e depois ficarem rígidos. Viu cadáveres e ossadas; viu vários yetis que empurravam outro para as fumarolas ferventes; viu sangue, morte, brutalidade e terror.

- Cuidado, mestre, são bastante selvagens - balbuciou o jovem.

- Possivelmente estão mais assustados do que nós, Dil Bahadur -respondeu o lama.

Grr-ympr fez um gesto aos outros yetis que, finalmente, baixaram os cacetes, enquanto ela avançava, chamando por gestos o príncipe e o seu mestre. Eles seguiram-na, ladeados pelos yetis, por entre as altas colunas de vapor e as águas termais, na direcção de uns buracos naturais que se abriam no chão vulcânico. Pelo caminho viram outros yetis, todos sentados ou deitados no chão, que não fizeram tenção de aproximar-se.

A lava ardente de alguma erupção vulcânica muito antiga tinha arrefecido à superfície, em contacto com o gelo e com a neve, mas continuou a avançar em estado líquido no subsolo durante muito tempo. Assim se formaram cavernas e túneis subterrâneos, nos quais os yetis fizeram as suas casas. Nalguns sítios, a crosta de lava quebrara-se e entrava luz pelos buracos. Essas grutas eram, na sua maior parte, tão baixas e estreitas que Tensing não cabia, mas mantinham uma temperatura agradável, porque a lembrança do calor da lava permanecia nas suas paredes e as águas quentes das fumarolas passavam pelo subsolo. Era assim que os yetis se defendiam do clima. De outra forma, ser-lhes-ia impossível resistir ao Inverno.

Não havia objectos de espécie alguma nas grutas, apenas peles fétidas, com pedaços de carne seca ainda pegados. Com horror, Dil Bahadur compreendeu que algumas das peles eram dos próprios yetis, certamente tiradas dos cadáveres. As outras eram de chegnos, animais desconhecidos no resto do mundo, que os yetis mantinham em currais feitos de rochas e de neve. Os chegnos eram mais pequenos que os iaques e tinham cornos retorcidos, como o carneiro. Os yetis aproveitavam a carne, a gordura, a pele e também o excremento seco, que usavam como combustível. Sem esses úteis animais, que comiam muito pouco e resistiam às temperaturas mais baixas, os yetis não conseguiriam sobreviver.

- Ficaremos aqui alguns dias, Dil Bahadur. Trata de aprender a linguagem dos yetis - disse o lama.

- Para quê, mestre? Nunca mais teremos oportunidade de a usar.

- Eu, possivelmente, não; mas tu talvez - replicou Tensing. Pouco a pouco familiarizaram-se com os sons que aquelas criaturas emitiam. Com as palavras aprendidas e lendo a mente de Grr-ympr, Tensing e Dil Bahadur ficaram a par da tragédia sofrida por aqueles seres: nasciam cada vez menos crianças e muito poucas sobreviviam. A sorte dos adultos não era muito melhor. Cada geração era mais baixa e fraca que a anterior, o seu tempo de vida diminuíra drasticamente e apenas alguns indivíduos tinham força para efectuar as tarefas necessárias, como criar os chegnos, apanhar plantas e caçar para comer. Tratava-se de um castigo dos deuses ou dos demónios que vivem nas montanhas, garantiu-lhes Grr-ympr. Disse que os yetis tentaram apaziguá-los com sacrifícios, mas a morte de várias vítimas, que foram despedaçadas ou lançadas à água fervente das fumarolas, não tinha posto fim ao malefício divino.

Grr-ympr tinha vivido muito. A sua autoridade provinha da sua memória e experiência, que mais ninguém possuía. A tribo atribuía-lhe poderes sobrenaturais e durante duas gerações tinha esperado que ela se entendesse com os deuses, mas a sua magia não tinha servido para anular o feitiço e salvar o seu povo de uma extinção próxima. Grr-ympr declarou que tinha invocado os deuses vezes sem conta e agora, finalmente, eles apareciam. Assim que vira Tensing e Dil Bahadur, soube que eram eles. Por isso os yetis não os tinham atacado.

Tudo isto comunicou aos visitantes a mente da atribulada anciã.

- Quando estes seres souberem que não somos deuses, mas simples humanos, não creio que fiquem muito contentes - observou o príncipe.

- Talvez... Mas, comparados com eles, somos semideuses, apesar das nossas infinitas debilidades - disse o lama a sorrir.

Grr-ympr lembrava-se do tempo em que os yetis eram altos, pesados e estavam cobertos por um pêlo tão espesso, que podiam sobreviver às intempéries na região mais alta e fria do planeta. Os ossos que os visitantes tinham visto no desfiladeiro eram dos seus antepassados, os yetis gigantes. Conservavam-nos aí com respeito, embora já só ela se lembrasse deles. Grr-ympr era uma criança quando a sua tribo descobriu o vale das águas quentes, onde a temperatura era suportável e a existência mais fácil, porque crescia alguma vegetação e havia alguns animais para caçar, como ratos e cabras, além dos chegnos.

A feiticeira também se lembrava de ter visto os deuses, anteriormente, uma vez na sua vida. Deuses como Tensing e Dil Bahadur, que vieram ao vale à procura de plantas. Em troca das plantas que levaram, forneceram-lhes conhecimentos valiosos, que melhoraram as condições de vida dos yetis. Ensinaram-nos a domesticar os chegnos e a cozinhar a carne, embora já ninguém tivesse forças para esfregar pedras e fazer fogo. Devoravam cru tudo aquilo que conseguiam caçar e, se a fome fosse muita, como último recurso matavam chegnos ou comiam os cadáveres de outros yetis. Os lamas também os ensinaram a distinguir-se através de um nome próprio. Grr-ympr queria dizer mulher sábia, na língua dos yetis.

Há muito tempo que nenhum deus aparecia no vale, informou-os Grr-ympr, por telepatia. Tensing calculou que, pelo menos, há meio século, desde que a China invadira o Tibete, nenhuma expedição ali chegara à procura de plantas medicinais. Os yetis não tinham muito tempo de vida e nenhum deles, excepto a velha feiticeira, tinha visto seres humanos, mas na memória colectiva existia a lenda dos sábios lamas.

Tensing sentou-se numa gruta maior do que as outras, a única onde conseguiu entrar de gatas, e que, sem dúvida, servia de local de reunião, uma espécie de sala do conselho. Dil Bahadur e Grr-ympr sentaram-se ao seu lado e, pouco a pouco, foram chegando os yetis, alguns tão fracos, que mal conseguiam arrastar-se pelo chão. Aqueles que os tinham recebido brandindo pedras e cacetes eram os guerreiros daquele patético grupo e ficaram de fora montando guarda, sem largarem as armas.

Os yetis, uns vinte no total sem contar com a dúzia de guerreiros, desfilaram um por um. Eram quase todos fêmeas e, a avaliar pelo pêlo e pelos dentes, pareciam ser jovens, mas estavam bastante doentes. Tensing examinou cada uma delas com muito respeito, para não as assustar. As últimas cinco trouxeram os seus bebés, os únicos que restavam vivos. Não tinham o aspecto repugnante dos adultos, pareciam macaquinhos de pelúcia branca, desarticulados. Estavam fracos, não seguravam a cabeça nem os membros, mantinham os olhos fechados e quase não respiravam.

Comovido, Dil Bahadur viu que aqueles seres de aspecto bestial amavam as suas crias como qualquer mãe. Traziam-nas ao colo com ternura, farejavam-nas e lambiam-nas, punham-nas ao peito para alimentá-las e gritavam de angústia ao verificar que não reagiam.

- É muito triste, mestre. Estão a morrer - observou o jovem.

- A vida está cheia de sofrimento. A nossa missão é aliviá-lo, Dil Bahadur - replicou Tensing.

Havia tão pouca luz na gruta e o cheiro era tão insuportável, que o lama deu a entender que deveriam sair para o ar livre. Aí se reuniu a tribo. Grr-ympr deu uns passos de dança em volta dos bebés doentes, fazendo soar os seus colares de ossos e dentes e lançando gritos arrepiantes. Os yetis acompanharam-na com um coro de gemidos.

Sem fazer caso da algazarra de lamentos que havia à sua volta, Tensing inclinou-se sobre as crianças. Dil Bahadur viu transformar-se a expressão do seu mestre, como costumava acontecer quando activava os seus poderes de cura. O lama levantou um dos bebés mais pequenos, que cabia tranquilamente na palma da sua mão, e examinou-o com atenção. Depois aproximou-se de uma das mães fazendo gestos amistosos, para acalmá-la, e estudou algumas gotas do seu leite.

- O que se passa com as crianças? - perguntou o príncipe.

- Possivelmente estão a morrer de fome - disse Tensing.

- Fome? As mães não os alimentam?

Tensing explicou-lhe que o leite das yetis era um líquido amarelo e transparente. Depois chamou os guerreiros, que não quiseram aproximar-se até Grr-ympr lhes ter grunhido uma ordem, e o lama também os examinou, detendo-se especialmente nas línguas arroxeadas. A única que não tinha essa cor na língua acabou por ser a velha Grr-ympr. A boca dela era um buraco escuro e malcheiroso que não dava vontade de examinar de muito perto, mas Tensing não era homem para recuar diante dos obstáculos.

- Todos os yetis estão desnutridos, excepto Grr-ympr, que só apresenta sintomas de velhice. Calculo que deve ter cerca de cem anos - concluiu o lama.

- O que mudou no vale para que lhes falte comida? - perguntou o discípulo.

- Talvez não falte alimento, mas estejam doentes e não assimilem o que comem. Os bebés dependem do leite materno, que não serve para nutri-los, porque é como água, e por isso morrem passadas poucas semanas ou meses. Os adultos têm mais recursos, porque comem carne ou plantas, mas alguma coisa os enfraqueceu.

- Por isso o seu tamanho foi diminuindo e morrem jovens acrescentou Dil Bahadur.

- Talvez.

Dil Bahadur revirou os olhos. Às vezes o seu mestre era tão vago que o irritava.

Este é um problema das últimas duas gerações, porque Grr-ympr se lembra da época em que os yetis eram tão altos como ela. Por este andar, dentro de poucos anos terão desaparecido - disse o jovem.

- Talvez - respondeu pela centésima vez o lama, que estava a pensar noutra coisa, e acrescentou que Grr-ympr também se lembrava de quando se tinham mudado para este vale. Isso significava que havia alguma coisa daninha ali, alguma coisa que estava a destruir os yetis.

- Deve ser isso...! Consegue salvá-los, mestre?

- Talvez...

O monge fechou os olhos e rezou durante alguns minutos, pedindo inspiração para resolver o problema e humildade para compreender que o resultado não estava nas suas mãos. Faria o seu melhor, mas não controlava a vida ou a morte.

Terminada a sua curta meditação, Tensing lavou as mãos, dirigiu-se depois para um dos currais, escolheu um chegno fêmea e ordenhou-a. Encheu a sua tigela de leite morno e espumoso e levou-a para junto das crianças. Embebeu um trapo no leite e pô-lo na boca de uma delas. Ao princípio, esta não reagiu, mas passados poucos segundos o cheiro a leite reanimou-a, abriu os lábios e começou a sugar fracamente o trapo. Por gestos, o lama pediu às mães que o imitassem. O processo de ensinar os yetis a ordenhar os chegnos e a alimentar os bebés gota a gota foi demorado e enfadonho. Os yetis tinham muito pouca capacidade de raciocínio, mas conseguiam aprender por repetição. O mestre e o discípulo passaram o dia inteiro nisso, mas viram os resultados nessa mesma noite, quando três das crianças começaram a chorar pela primeira vez. No dia seguinte, os cinco choravam pedindo leite e rapidamente abriram os olhos e conseguiram mexer-se.

Dil Bahadur sentia-se tão vaidoso como se a solução tivesse sido ideia sua, mas Tensing não descansava. Tinha de encontrar uma explicação. Estudou todas as coisas que os yetis metiam na boca, sem descobrir a causa da doença, até que ele próprio e o seu discípulo começaram a sofrer de dores de barriga e a vomitar bílis. Eles só comiam tsampa, o seu alimento habitual de farinha de cevada, manteiga e água quente. Não provaram a carne de chegno que os yetis lhes ofereceram, porque eram vegetarianos.

- Qual foi a única coisa diferente que comemos, Dil Bahadur? -perguntou o mestre, enquanto preparava um chá digestivo para ambos.

- Nada, mestre - respondeu o jovem, pálido como um morto.

- Alguma coisa tem de ser - insistiu Tensing.

- Alimentámo-nos apenas de tsampa, nada mais... - murmurou o jovem.

Tensing passou-lhe a tigela com o chá e Dil Bahadur, dobrado de dores, levou-a à boca. Não chegou a beber o líquido. Cuspiu-o para a neve.

- A água, mestre! É a água quente!

Normalmente ferviam água ou neve para preparar o tsampa e o chá, mas no vale tinham utilizado a água fervente de uma das fontes termais que brotavam do chão.

- É isso que está a envenenar os yetis, mestre - insistiu o príncipe.

Tinham-nos visto utilizar a água cor de lavanda da fonte termal para fazerem uma sopa de cogumelos, ervas e flores roxas, a base da sua alimentação. Grr-ympr tinha perdido o apetite com os anos e só comia carne crua de dois ou de três em três dias e deitava punhados de neve na boca quando tinha sede. Aquela mesma água termal, que devia conter minerais tóxicos, tinha sido utilizada por eles para o chá. Nas horas seguintes evitaram-na completamente e o mal-estar que os apoquentava não se repetiu. Para se certificarem de que tinham descoberto a causa do problema, no dia seguinte Dil Bahadur fez chá com a água suspeita e bebeu-o. Depressa começou a vomitar, mas estava feliz por ter provado a sua teoria.

O lama e o seu discípulo informaram Grr-ympr com muita paciência de que a água cor de lavanda estava absolutamente proibida, bem como as flores roxas que cresciam nas margens do riacho. A água termal servia para se lavarem, não para prepararem comida, disse-lhe. Não se deram ao trabalho de lhe explicar que continha minerais prejudiciais, porque a velha yeti não teria compreendido; era suficiente que os yetis acatassem as suas instruções. Grr-ympr facilitou a sua tarefa. Reuniu os súbditos e notificou-os da nova lei: quem bebesse dessa água seria atirado às fumarolas, entendido? Todos entenderam.

A tribo ajudou Tensing e Dil Bahadur a recolher as plantas medicinais de que necessitavam. Durante a semana que permaneceram no Vale dos Yetis, os visitantes comprovaram que as crianças recuperavam de dia para dia e que os adultos se fortaleciam à medida que a cor arroxeada das línguas desaparecia.

Grr-ympr em pessoa acompanhou-os quando chegou o momento de partir. Viu-os encaminhar-se para o desfiladeiro por onde tinham chegado e, após algumas hesitações, porque receava revelar o segredo dos yeti até a estes deuses, pediu-lhes que a seguissem na direcção contrária. O lama e o príncipe foram atrás dela durante mais de uma hora, por uma vereda estreita que passava entre as colunas de vapor e as lagoas de água a ferver, até deixarem para trás a primitiva aldeia dos yetis.

A feiticeira levou-os até ao fim do planalto, apontou para uma abertura na montanha e disse-lhes que os yetis saíam por ali de vez em quando à procura de comida. Tensing conseguiu compreender o que ela lhes dizia: tratava-se de um túnel natural para encurtar caminho. O misterioso vale ficava muito mais perto da civilização do que todos supunham. O pergaminho em poder de Tensing mostrava a única rota conhecida pelos lamas, que era muito mais longa e cheia de obstáculos, mas também existia aquela passagem secreta.

 

Pela sua localização, Tensing compreendeu que o túnel descia directamente pelo interior da montanha e terminava antes de Chenthan Dzong, o mosteiro em ruínas. Isso fazia-os poupar dois terços do caminho.

Grr-ympr despediu-se deles com a única demonstração de afecto que conhecia: lambeu-lhes a cara e as mãos até os deixar cobertos de saliva e moncos.

Assim que a horrenda feiticeira deu meia volta, Dil Bahadur e Tensing rebolaram-se na neve para se limpar. O mestre ria-se, mas o discípulo quase não conseguia controlar o asco.

- O meu único consolo é que nunca mais voltaremos a ver esta boa senhora - comentou o jovem.

- Nunca é muito tempo, Dil Bahadur. Talvez a vida nos proporcione uma surpresa - replicou o lama, entrando decididamente no túnel estreito.

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