O Reino do Dragão de Ouro

Isabel Allende · Capítulo 16 de 19

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O Reino do Dragão de Ouro

Capítulo 16

Os guerreiros yetis

 

Assim que se certificaram de que Perna e as outras raparigas iam em direcção ao vale, o lama, o príncipe, Alexander, Nadia e Borobá, iniciaram a marcha montanha acima. À medida que subiam sentiam mais o frio. Algumas vezes tiveram de utilizar os longos bordões dos monges para atravessar precipícios estreitos. Aquelas pontes improvisadas acabaram por ser mais seguras e firmes do que pareciam à primeira vista. Alexander, habituado a balançar-se a grandes altitudes quando praticava montanhismo com o pai, não tinha dificuldades em dar um passo sobre os bordões e saltar para o outro lado, onde o esperava a mão firme de Tensing, que ia à frente, mas Nadia não se teria atrevido a fazê-lo de boa saúde e menos ainda com um ombro deslocado. Dil Bahadur e Alexander esticavam uma corda, segurando-a um de cada lado da fenda, enquanto Tensing efectuava a proeza de atravessar com Nadia debaixo do braço, como um embrulho. A ideia era a corda poder dar-lhe alguma segurança no caso de escorregar, mas era tanta a sua experiência que os jovens nem sentiam o esticão quando passava, porque a mão do monge quase nem roçava a corda. Tensing balançava-se sobre os bordões apenas um instante, como se flutuasse e, antes de Nadia sucumbir ao pânico, já estava do outro lado.

- Talvez esteja enganado, honorável mestre, mas não me parece que esta seja a direcção de Chenthan Dzong - disse o príncipe passadas algumas horas, quando se sentaram um pouco para descansar e preparar um chá.

- Possivelmente, pela rota habitual demoraríamos vários dias e os bandidos levam-nos um grande avanço. Talvez não seja má ideia tomarmos um atalho... - replicou Tensing.

- O túnel dos yetis! - exclamou Dil Bahadur.

- Creio que necessitaremos de alguma ajuda para enfrentar a Seita do Escorpião.

- O meu honorável mestre pensa pedi-la aos yetis? -Talvez...

- Com todo o respeito, mestre, creio que os yetis têm tanto raciocínio como este macaco - replicou o príncipe.

- Nesse caso estamos bem, porque Borobá tem tanto raciocínio como tu - interrompeu Nadia, ofendida.

Alexander tentava seguir a conversa e captar as imagens que se forma-vam, por telepatia, na sua mente, mas não tinha a certeza do que falavam.

- Percebi bem? Referem-se ao yeti? Ao abominável homem das neves?- perguntou.

Tensing concordou.

- O professor Ludovic Leblanc procurou-o durante anos nos Himalaias e concluiu que não existe, que é só uma lenda - disse Alexander.

- Quem é esse professor? - quis saber Dil Bahadur.

- Um inimigo da minha avó Kate.

- Talvez não tivesse procurado onde devia... - sugeriu Tensing. Para Nadia e Alexander, a perspectiva de ver um yeti pareceu-lhes tão fascinante como o seu encontro extraordinário com as Bestas na prodigiosa cidade dourada do Amazonas. Aqueles animais pré-históricos tinham sido compa-rados com o abominável homem das neves, devido às suas pegadas e ao seu comportamento sigiloso. Daquelas Bestas também se dizia serem apenas uma lenda, mas eles tinham comprovado a sua existência.

- A minha avó vai ter um enfarte quando souber que vimos um yeti e não tirámos fotografias - suspirou Alexander, pensando que tinha colocado tudo na sua mochila menos uma máquina fotográfica.

Continuaram a marcha em silêncio, porque cada palavra lhes cortava a respiração. Nadia e Alexander sofriam mais com a falta de oxigénio, porque não estavam habituados àquelas altitudes. Doía-lhes a cabeça, estavam enjoados e, ao entardecer, encontravam-se ambos no limite das suas forças. De repente, Nadia começou a sangrar do nariz, dobrou-se e vomitou. Tensing procurou um sítio protegido e decidiu que descansariam aí. Enquanto Dil Bahadur preparava tsampa e fervia água para um chá medicinal, o lama aliviou o mal-estar das alturas de Nadia e de Alexander com as suas agulhas de acupunctura.

- Julgo que Perna e as outras raparigas já estão a salvo. Isso talvez signifique que o general Myar Kunglung depressa saberá que o Rei está no mosteiro... - disse Tensing.

- Como sabe, honorável mestre? - perguntou Alexander.

- A mente de Perna já não transmite tanta ansiedade. A sua energia está diferente.

- Já tinha ouvido falar de telepatia, mestre, mas nunca imaginei que funcionasse como um telemóvel.

O lama sorriu amavelmente. Não sabia o que era um telemóvel.

Os jovens instalaram-se entre as pedras, o mais abrigados que puderam, enquanto Tensing descansava a mente e o corpo, mas vigiava com um sexto sentido, porque aqueles picos eram o território dos grandes tigres brancos. A noite tornou-se, para eles, muito longa e muito fria.

Os viajantes chegaram à entrada do longo túnel natural que dava para o vale secreto dos yetis. Nessa altura, Nadia e Alexander estavam exaustos, tinham a pele queimada pelo reflexo do sol na neve e crostas nos lábios secos e gretados. O túnel era tão estreito e o cheiro a enxofre tão intenso, que Nadia julgou que iam morrer sufocados, mas para Alexander, que tinha penetrado nas entranhas da terra na Cidade dos Deuses Selvagens, não passou de um passeio. Por outro lado, Tensing, que media dois metros, mal conseguia passar nalguns sítios, mas como já tinha percorrido aquele caminho, avançava com confiança.

A surpresa de Nadía e de Alexander quando, finalmente, entraram no Vale dos Yetis foi enorme. Não estavam preparados para encontrar encravado nos cumes gelados dos Himalaias um lugar banhado de vapor quente, onde crescia uma vegetação inexistente no resto do mundo. Em poucos minutos o calor que não sentiam há dias voltou-lhes ao corpo, e puderam tirar os casacos. Borobá, que tinha viajado entorpecido sob a roupa de Nadia, colado ao corpo dela, deitou a cabeça de fora e, ao sentir o ar quente recuperou o seu bom humor habitual: estava no seu ambiente.

Se não estavam preparados para as altas colunas de vapor, para os charcos de águas sulfurosas e para a névoa quente do vale, para as flores roxas e carnudas e para os rebanhos de chegnos que vagueavam devorando o pasto duro e seco do vale, muito menos estavam para os yetis que, um pouco mais tarde, vieram ao seu encontro.

Uma horda de machos, armados de cacetes, enfrentou-os, gritando e dando saltos como energúmenos. Dil Bahadur preparou o arco, porque compreendeu que, vestido como estava com as roupas do bandido, os yetis podiam não o reconhecer. Instintivamente, Nadia e Alexander, que nunca imaginaram os yetis com aquele aspecto horrendo, colocaram-se atrás de Tensing. Este, pelo contrário, avançou confiante e, juntando as mãos diante da cara, inclinou-se e cumprimentou-os com energia mental e com as poucas palavras que conhecia no idioma deles.

Passaram dois ou três minutos eternos, antes de os cérebros primitivos dos yetis recordarem a visita do lama, efectuada há vários meses. Não se tornaram mais amáveis depois de os reconhecerem, mas deixaram, pelo menos, de brandir os cacetes a poucos centímetros dos crânios dos viajantes.

- Onde está Grr-ympr? - perguntou Tensing.

Sem deixar de grunhir e de os vigiar de perto, levaram-nos até à aldeia. Contente, o lama verificou que, contrariamente ao que vira há meses, os guerreiros estavam cheios de energia e na aldeia havia fêmeas e crias com aspecto saudável. Reparou que nenhum deles tinha a língua roxa e que o pêlo esbranquiçado, que os cobria totalmente da nuca aos pés, já não era uma pasta impenetrável de porcaria. Algumas fêmeas não só estavam mais ou menos limpas, como parecia terem também penteado o pêlo, o que o intrigou sobremaneira, porque ele ignorava tudo acerca da vaidade feminina.

A aldeia não tinha mudado, continuava a ser um monte de covis e de cavernas subterrâneas sob a crosta de lava petrificada que formava a maior parte do terreno. Sobre essa crosta havia uma fina camada de terra que, graças ao calor e à humidade do vale, era mais ou menos fértil e fornecia alimento aos yetis e aos seus únicos animais domésticos, os chegnos. Levaram-nos directamente à presença de Grr-ympr.

A feiticeira tinha envelhecido bastante. Quando a conheceram já era bastante idosa, mas agora parecia milenar. Se os outros pareciam mais saudáveis e limpos que antes, ela, pelo contrário, convertera-se num feixe de ossos torcidos cobertos por um pêlo oleoso. Pelo seu rosto horrível escorriam secreções do nariz, dos olhos e das orelhas. O cheiro a sujidade e decompo-sição que exalava era tão repugnante que nem sequer Tensing, com a sua longa experiência médica, conseguia suportá-lo. Comunicaram por telepatia e utilizando os poucos vocábulos que partilhavam.

- Vejo que o teu povo está saudável, Grr-ympr.

-A água cor de lavanda: proibida. Ao que a bebe: cacetadas - replicou ela, sumariamente.

- O remédio parece ser pior que a doença - disse Tensing, sorrindo.

- Doença: não há - afirmou a velhota, impermeável à ironia do monge.

- Fico muito contente. Nasceram crianças?

Ela mostrou com os dedos que tinham nascido dois e acrescentou no seu idioma que eram saudáveis. Tensing compreendeu sem dificuldade as imagens que se formavam na mente dela.

- Os teus companheiros, quem são? - grunhiu ela.

- Este já conheces, é Dil Bahadur, o monge que descobriu o veneno na água cor de lavanda da fonte. Os outros também são amigos e vêm de muito longe, de outro mundo.

- Para quê?

- Vimos pedir-te, com todo o respeito, a tua ajuda, honorável Grr-ympr. Precisamos dos teus guerreiros para resgatar um Rei, que foi sequestrado por uns bandidos. Somos apenas três homens e uma rapariga, mas com os teus guerreiros talvez consigamos vencê-los.

Deste palavreado, a velhota entendeu menos de metade, mas adivinhou que o monge vinha cobrar o favor que lhes fizera antes. Pretendia usar os seus guerreiros. Haveria uma batalha. Não gostou da ideia, principalmente porque andava há décadas a tentar manter a tremenda agressividade dos yetis sob controlo.

- Guerreiros lutam: guerreiros morrem. Aldeia sem guerreiros: aldeia morre também - resumiu.

- É verdade, o que te peço é um favor muito grande, honorável Grr-ympr. Possivelmente haverá uma luta perigosa. Não posso garantir a segurança dos teus guerreiros.

- Grr-ympr morrendo - murmurou a velhota, batendo no peito.

- Eu sei, Grr-ympr - disse Tensing.

- Grr-ympr morta: muitos problemas. Tu curar Grr-ympr: tu levar guerreiros - ofereceu Grr-ympr.

- Não consigo curar-te da velhice, honorável Grr-ympr. O teu tempo neste mundo terminou, o teu corpo está cansado e o teu espírito deseja partir. Não há nisso nada de mau - explicou o monge.

- Nesse caso, não guerreiros - decidiu ela.

- Porque receias morrer, honorável anciã?

- Grr-ympr: necessária. Grr-ympr manda: yetis obedecem. Grr-ympr morta: yetis lutam. Yetis matam, yetis morrem: fim concluiu ela.

- Entendo, não podes partir deste mundo porque receias que o teu povo sofra. Não há quem possa substituir-te?

Ela negou, tristemente. Tensing compreendeu que a feiticeira temia que, depois da sua morte, os yetis, que agora estavam saudáveis e enérgicos, voltassem a matar-se uns aos outros, como tinham feito anteriormente, até desaparecerem completamente da face da terra. Aquelas criaturas semi-humanas tinham dependido da força e da sabedoria da feiticeira durante várias gerações. Ela era uma mãe severa, justa e sábia. Obedeciam-lhe cegamente porque a julgavam dotada de poderes sobrenaturais; sem ela a tribo ficaria à deriva. O lama fechou os olhos e durante vários minutos os dois permaneceram com a mente em branco. Quando voltou a abri-los, Tensing anunciou o seu plano em voz alta, para que também Nadia e Alexander compreendessem.

- Se me emprestares alguns guerreiros, prometo que regressarei ao Vale dos Yetis e ficarei aqui durante seis anos. Com humildade, ofereço-me para te substituir, honorável Grr-ympr. Dessa forma podes partir em paz para o mundo dos espíritos. Cuidarei do teu povo, ensiná-lo-ei a viver o melhor possível, a não se matar entre si, a utilizar os recursos do vale. Treinarei o yeti mais capaz para que, passados seis anos, possa ser o chefe ou a chefe da tribo. É isto que ofereço...

Ao ouvir aquilo, Dil Bahadur pôs-se de pé de um salto e enfrentou o seu mestre, pálido de horror, mas o lama deteve-o com um gesto. Não podia perder a comunicação mental com a velhota.

Grr-ympr precisou de alguns minutos para assimilar o que o monge dissera.

- Sim - aceitou ela, com um enorme suspiro de alívio porque finalmente, estava livre para morrer.

Assim que tiveram um momento de privacidade, Dil Bahadur, com os olhos cheios de lágrimas, pediu uma explicação ao seu amado mestre. Como podia ter oferecido uma coisa daquelas à feiticeira? O Reino do Dragão de Ouro precisava muito mais dele que os yetis; ele não tinha concluído a sua educação, o mestre não podia abandoná-lo desta maneira, clamou.

- Possivelmente, serás rei antes do previsto, Dil Bahadur. Seis anos passam depressa. E, durante esse tempo, talvez possa ajudar um pouco os yetis.

- E eu? - clamou o jovem, incapaz de imaginar a vida sem o seu mentor.

- Talvez sejas mais forte e estejas mais bem preparado do que julgas... Dentro de seis anos penso deixar o Vale dos Yetis para educar o teu filho, o futuro monarca do Reino do Dragão de Ouro.

- Que filho, mestre? Não tenho nenhum.

- O que terás com Perna - replicou Tensing tranquilamente, enquanto o príncipe corava até às orelhas.

Nadia e Alexander seguiam a discussão com dificuldade, mas captaram o sentido e nenhum dos dois se manifestou admirado com a profecia de Tensing a respeito de Perna e Dil Bahadur ou com o seu plano de se converter em mentor dos yetis. Alexander pensou que há um ano teria qualificado tudo isto como demência, mas agora sabia como é misterioso o mundo.

Recorrendo à telepatia, às poucas palavras que aprendera no idioma do Reino Proibido, às que Dil Bahadur tinha aprendido em inglês e à incrível capacidade de Nadia para as línguas, Alexander conseguiu transmitir aos seus amigos que a avó tinha efectuado uma reportagem para a International Geographic sobre um tipo de puma que existia na Florida e que estava prestes a desaparecer. Estava confinado a uma região pequena e inacessível, não se cruzara e, reproduzindo-se sempre dentro da mesma família, enfraquecera e embrutecera. O seguro de vida de qualquer espécie é a diversidade. Como exemplo, explicou que se houvesse apenas um tipo de milho, rapidamente as pestes e as alterações do clima acabariam com ele, mas como existiam centenas de variedades, se uma perecia, as outras cresciam. A diversidade garantia a sobrevivência.

- O que aconteceu ao puma? - perguntou Nadia.

- Levaram para a Florida alguns especialistas que introduziram outros felinos semelhantes ao puma na região. Cruzaram-se e, em menos de dez anos, a raça tinha regenerado.

- Achas que isso acontece também com os yetis? - perguntou Dil Bahadur.

- Sim. Viveram demasiado tempo isolados, são muito poucos, cruzam-se apenas entre eles, por isso são tão fracos.

Tensing ficou a pensar no que dissera o rapaz estrangeiro. De qualquer forma, mesmo que os yetis saíssem do vale misterioso não teriam com quem cruzar-se porque, com certeza, não havia outros da sua espécie no mundo e nenhum ser humano estaria disposto a formar com eles uma família. Mas, mais cedo ou mais tarde, teriam de se integrar no mundo, era inevitável. Seria necessário fazê-lo com prudência, porque o contacto com as pessoas poderia ser-lhes fatal. Só no ambiente protegido do Reino do Dragão de Ouro isso seria possível.

Nas horas seguintes, os amigos comeram e descansaram um pouco para que os seus corpos esgotados recuperassem. Ao saber que havia luta pela frente todos os yetis queriam ir, mas Grr-ympr não permitiu porque a aldeia não podia ficar sem machos. Tensing avisou-os de que poderiam morrer, porque defrontariam uns seres humanos malvados chamados homens azuis, que eram muito fortes e tinham punhais e armas de fogo. Os yetis não sabiam o que eram essas coisas e Tensing explicou-lhes, o mais exageradamente que conseguiu, descrevendo o tipo de ferida que provocavam, os jorros de sangue e outros pormenores para entusiasmar os yetis. Isso renovou a frustração dos que tinham de permanecer no vale. Nenhum deles queria perder a oportunidade de se divertir lutando contra os humanos. Desfilaram, um por um, diante do lama, aos saltos, dando gritos arrepiantes e mostrando os dentes e os músculos, para o impressionar. Dessa forma, Tensing pôde seleccionar os dez que tinham pior carácter e a aura mais vermelha.

O lama examinou pessoalmente as couraças de couro dos yetis, que poderiam diminuir o efeito de uma punhalada, mas que eram ineficazes contra uma bala. Aquelas dez criaturas, apenas um pouco mais inteligentes que os chimpanzés, não conseguiriam vencer os homens do Escorpião, por mais ferozes que fossem, mas o lama contava com o elemento surpresa. Os homens azuis eram supersticiosos e, ainda que já tivessem ouvido falar do «abominável homem das neves», nunca tinham visto nenhum.

Por ordem de Grr-ympr, nessa tarde mataram um par de chegnos para dar as boas-vindas aos visitantes. Com bastante repugnância, porque não concebiam o sacrifício de nenhum ser vivo, Dil Bahadur e Tensing recolheram o sangue dos animais e pintaram o pêlo hirsuto dos guerreiros seleccionados. Utilizando tiras de pele, os cornos e os ossos mais compridos, fabricaram uns aterradores capacetes ensanguentados, que os yetis colocaram com guinchos de satisfação, enquanto as fêmeas e as crias pulavam de admiração. O mestre e o seu discípulo concluíram, contentes, que o aspecto dos yetis era de assustar o mais valente.

Os homens pretendiam que Nadia permanecesse na aldeia, mas foi inútil tentar convencê-la e acabaram por aceitar que ela fosse com eles. Alexander não a queria expor aos perigos que os aguardavam.

- É possível que nenhum de nós escape com vida, Águia... -argumentou.

- Nesse caso, eu teria de passar o resto da minha vida neste vale sem outra companhia além dos yetis. Não, obrigada. Irei com vocês, Jaguar -replicou ela.

- Aqui, pelo menos, estarias relativamente a salvo. Não sei o que iremos encontrar nesse mosteiro abandonado, mas com certeza não será nada agradável.

- Não me trates como se eu fosse uma miúda. Sei cuidar de mim, fi-lo durante treze anos e julgo que posso ser útil.

- Está bem, mas farás exactamente o que eu disser - decidiu Alex.

- Nem sonhes. Farei o que me parecer adequado. Tu não és um especialista, de lutas percebes tão pouco como eu - replicou Nadia, e ele teve de admitir que ela não deixava de ter razão.

- Talvez o melhor fosse partir esta noite. Assim chegaríamos ao amanhecer ao outro lado do túnel e aproveitaríamos a manhã para chegar a Chenthan Dzong - propôs Dil Bahadur e Tensing mostrou-se de acordo.

Depois de encherem a barriga com um jantar suculento, os yetis deitaram-se por terra a roncar, sem tirarem os novos elmos, que tinham adoptado como símbolo de coragem. Nadia e Alexander estavam tão esfomeados que devoraram a sua porção de carne assada de chegno, apesar do seu sabor amargo e dos pêlos chamuscados que ainda trazia. Tensing e Dil Bahadur prepararam a sua tsampa e o chá, depois sentaram-se a meditar voltados para a imensidão do firmamento, cujas estrelas não conseguiam ver. À noite, quando a temperatura nas montanhas baixava, o vapor das fumarolas transformava-se numa espessa neblina que cobria o vale como um manto de algodão. Os yetis nunca tinham visto as estrelas e, para eles, a Lua era uma auréola inexplicável de luz azul que às vezes rompia a névoa.

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