O Reino do Dragão de Ouro
Capítulo 2
Três ovos fabulosos
Entretanto, no outro lado do mundo, Alexander Cold chegava a Nova Iorque acompanhado pela avó, Kate. O rapaz americano tinha adquirido uma cor de madeira devido ao sol do Amazonas. Tinha um corte de cabelo feito pelos índios, com uma calva circular a meio da cabeça, onde luzia uma cicatriz recente. Levava às costas a sua mochila imunda e, na mão, uma garrafa com um líquido leitoso. Kate Cold, tão bronzeada como ele, ia vestida com os seus habituais calções caqui e sapatorras enlameadas. O seu cabelo grisalho, que ela própria cortava sem olhar para o espelho, dava-lhe um aspecto de índio moicano acabado de acordar. Estava cansada, mas os olhos brilhavam-lhe atrás dos óculos partidos, presos com fita-cola. A bagagem era composta por um tubo de quase três metros de comprimento e outros dois pacotes com um tamanho e uma forma pouco habituais.
- Têm alguma coisa a declarar? - perguntou o funcionário da imigração, lançando um olhar de reprovação para o estranho penteado de Alex e para o aspecto da avó.
Eram cinco da manhã e o homem estava tão cansado como os passageiros do avião que acabava de chegar do Brasil.
- Nada. Somos repórteres da International Geographic. Tudo o que trazemos é material de trabalho respondeu Kate Cold.
- Fruta, vegetais, alimentos?
- Só a água da saúde para curar a minha mãe... - disse Alex, mostrando a garrafa que trouxera na mão durante toda a viagem.
- Não ligue, senhor guarda, este rapaz tem muita imaginação -interrompeu-o Kate.
- O que é isto? - perguntou o funcionário, apontando para o tubo.
- Uma zarabatana.
- O quê?
- É uma espécie de cana oca que os índios do amazonas utilizam para disparar dardos envenenados com... - começou Alexander a explicar, mas a avó fê-lo calar com um pontapé.
O homem estava distraído e não continuou com as perguntas, de modo que não foi informado sobre a aljava com os dardos ou sobre a cabaça com o veneno mortal, curare, que vinha noutro dos pacotes.
- Mais alguma coisa? Alexander Cold meteu a mão nos bolsos do blusão e tirou três bolas de vidro.
- O que é isso?
- Julgo que são diamantes - disse o rapaz e, imediatamente, recebeu outro pontapé da avó.
- Diamantes! Que engraçado! O que estiveste a fumar, rapaz? -exclamou o oficial com uma gargalhada, carimbando os passa-portes e mandando-os seguir. Ao abrir a porta do apartamento de Nova Iorque, Kate e Alexander foram atingidos na cara por uma lufada de ar fétido.
A escritora deu uma palmada na testa. Não era a primeira vez que ia de viagem e se esquecia do lixo na cozinha. Entraram a cambalear, tapando o nariz. Enquanto Kate se encarregava da bagagem, o neto abriu as janelas e foi despejar o lixo, que já tinha desenvolvido flora e fauna. Quando, finalmente, conseguiram meter o tubo com a zarabatana no minúsculo apartamento, Kate, com um suspiro, caiu escarranchada no sofá. Sentia que os anos começavam a pesar-lhe.
Alexander tirou as bolas do seu blusão e colocou-as em cima da mesa. Ela deitou-lhes um olhar indiferente. Pareciam aqueles pisa-papéis de vidro que os turistas costumam comprar.
- São diamantes, Kate - informou-a o rapaz.
- Claro! E eu sou Marilyn Monroe... - respondeu a velha escritora.
- Quem?
- Bah! - grunhiu ela, espantada com o abismo de gerações que a separava do neto.
- Deve ser alguém da tua época - sugeriu Alexander.
- Esta é a minha época! Esta época é mais minha do que tua. Eu, pelo menos, não vivo na lua como tu - resmungou a avó.
- A sério que são diamantes, Kate - insistiu ele.
- Está bem, Alexander, são diamantes.
- Poderias chamar-me Jaguar? É o meu animal totémico. Os diamantes não nos pertencem, Kate, são dos índios, do povo da neblina. Prometi à Nadia que os utilizaríamos para os proteger.
- Tá bem, tá bem, tá bem! - disse ela entre dentes, sem prestar muita atenção.
- Com isto poderemos financiar a fundação que pensavas fazer com o Professor Leblanc.
- Acho que a pancada que te deram no crânio te desatarraxou os parafusos do cérebro, filho - replicou ela, colocando distraidamente os ovos de cristal no bolso do seu casaco.
Nas semanas seguintes a escritora teria oportunidade de rever aquela opinião acerca do neto.
Kate teve os ovos de cristal em seu poder durante duas semanas sem nunca se lembrar deles, até que, ao tirar o casaco das costas de uma cadeira, um deles lhe caiu em cima do pé, esmagando-lhe os dedos. Nessa altura, o neto Alexander já estava de volta a casa dos pais, na Califórnia. A escritora andou vários dias com o pé dorido e com as pedras no bolso, brincando distraidamente com elas pela rua. Uma manhã foi tomar um café à esquina e, ao sair, esqueceu-se de um dos diamantes na mesa. O dono, um italiano que a conhecia há mais de vinte anos, correu atrás dela até à esquina.
- Kate! Deixaste a tua bola de vidro! - gritou-lhe, atirando-a sobre as cabeças dos outros transeuntes.
Ela agarrou-a no ar e continuou a andar, pensando que já era tempo de fazer alguma coisa a respeito daqueles ovos. Sem um plano definido, dirigiu-se para a rua dos joalheiros, onde estava situada a loja de um antigo apaixonado seu, Isaac Rosenblat. Tinham estado prestes a casar-se há cerca de quarenta anos, mas apareceu Joseph Cold que seduziu Kate tocando-lhe um concerto de flauta. Kate tinha a certeza de que a flauta era mágica. Passado pouco tempo, Joseph Cold converteu-se num dos músicos mais célebres do mundo. «Era a mesma flauta que o tonto do meu neto deixou esquecida no Amazonas!», pensou Kate, furiosa. Dera um bom puxão de orelhas a Alexander por ter perdido o magnífico instrumento musical do avô.
Isaac Rosenblat era um pilar da comunidade hebraica, rico, respeitado e pai de seis filhos. Era uma daquelas pessoas rectas, que cumprem o seu dever sem alardes e que têm a alma em paz; mas, quando viu Kate Cold entrar na sua loja, sentiu que se afundava num pântano de lembranças. Num instante voltou a ser o jovem tímido que tinha amado aquela mulher com o desespero do primeiro amor. Naquele tempo ela era uma jovem com pele de porcelana e indómito cabelo ruivo; agora ostentava mais rugas que um pergaminho e um cabelo grisalho cortado às tesouradas e espetado como os pêlos de um escovilhão.
- Kate! Estás na mesma, rapariga! Seria capaz de te reconhecer no meio de uma multidão... - murmurou, emocionado.
- Não mintas, velho desavergonhado - replicou ela, sorrindo lisonjeada, apesar de tudo, e largando a mochila que caiu no chão como um saco de batatas.
- Vieste dizer-me que te enganaste e pedir-me perdão por me teres deixado plantado e com o coração partido, não é verdade? troçou o joalheiro.
- É verdade, enganei-me, Isaac. Não sirvo para estar casada. O meu casamento com Joseph durou muito pouco tempo, mas pelo menos tivemos um filho, John. Agora tenho três netos.
- Soube que Joseph morreu. Lamento-o, a sério. Sempre tive ciúmes dele e nunca lhe perdoei ter-me roubado a namorada, mas comprava na mesma todos os seus discos. Tenho a colecção completa dos seus concertos. Era um génio... - disse o joalheiro, convidando Kate a sentar-se num sofá de cabedal escuro e sentando-se ao lado. - Então, agora estás viúva -acrescentou, olhando para ela com carinho.
- Não tenhas ilusões, não vim para me consolares. Também não vim para comprar jóias. Não combinam com o meu estilo replicou Kate.
- Estou a ver - comentou Isaac Rosenblat, olhando de soslaio para as calças engelhadas, para as botas de combate e para a bolsa de excursionista que estava no chão.
- Quero mostrar-te uns pedaços de vidro - disse ela, tirando os ovos do seu casaco.
Pela janela entrava a luz da manhã, que bateu em cheio nos objectos que a senhora segurava na palma das mãos. Um brilho inacreditável cegou Isaac Rosenblat por um instante, provocando-lhe um salto no coração. Provinha de uma família de joalheiros. Pelas mãos do seu avô tinham passado pedras preciosas das tumbas dos faraós egípcios; das mãos do seu pai tinham saído diademas para imperatrizes; as suas próprias mãos tinham desmontado os rubis e as esmeraldas dos czares da Rússia, assassinados durante a Revolução Bolchevique. Ninguém sabia tanto sobre jóias como ele e muito poucas pedras conseguiam perturbá-lo, mas tinha diante dos seus olhos uma coisa tão prodigiosa que se sentiu enjoado. Sem dizer uma palavra, agarrou nos ovos, levou-os até à sua secretária e examinou-os à lupa sob um candeeiro. Quando verificou que a sua primeira impressão era verdadeira, deu um suspiro profundo, tirou um lenço branco de cambraia e limpou a testa.
- Onde roubaste isto, rapariga? - perguntou com voz trémula.
- Vêm de um lugar distante chamado Cidade dos Deuses Selvagens.
- Estás a gozar comigo? - perguntou o joalheiro.
- Juro-te que não. Valem alguma coisa, Isaac?
- Valem alguma coisa, sim. Digamos que, com eles, podes comprar um pequeno país - murmurou o joalheiro.
- Tens a certeza?
- São os diamantes maiores e mais perfeitos que já vi. Onde estavam? É impossível que um tesouro como este tenha passado despercebido. Conheço todas as pedras importantes que existem, mas nunca ouvi falar destas, Kate.
- Pede que nos tragam café e um gole de vodca, Isaac. Agora, instala-te confortavelmente, porque te vou contar uma história interessante -replicou Kate Cold.
Desta forma o bom homem ficou a conhecer a adolescente brasileira que subiu a uma misteriosa montanha do Alto Orenoco, guiada por um sonho e por um feiticeiro nu, onde encontrou as pedras num ninho de águias. Kate contou-lhe como a rapariga entregara aquela fortuna a Alexander, seu neto, encarregando-o da missão de as usar para ajudar uma certa tribo de índios, o povo da neblina, que ainda vivia na Idade da Pedra. Isaac Rosenblat ouviu educadamente, sem acreditar numa única palavra daquela história despropositada. Nem um louco rematado conseguiria engolir semelhantes fantasias, concluiu. Com certeza a sua antiga namorada estava envolvida nalgum negócio muito escuro ou descobrira uma mina fabulosa. Sabia que Kate nunca o confessaria. Era lá com ela, estava no seu direito, pensou, suspirando novamente.
- Estou a ver que não acreditas em mim, Isaac - resmungou a extravagante escritora, metendo à garganta outro gole de vodca para acalmar um acesso de tosse.
- Suponho que estás de acordo comigo em que esta é uma história pouco comum, Kate...
- E isso antes de te ter falado das Bestas, uns gigantes peludos e hediondos que...
- Está bem, Kate, julgo que não necessito de mais pormenores -interrompeu-a o joalheiro, extenuado.
- Tenho de transformar estes calhaus em capital para uma fundação. Prometi ao meu neto que os usaria para proteger o povo da neblina, assim se chamam os índios invisíveis e...
- Invisíveis?
- Não são exactamente invisíveis, Isaac, mas parecem-no. É como um truque de magia. Nadia Santos diz que...
- Quem é Nadia Santos?
- A rapariga que encontrou os diamantes, já to disse. Ajudas-me, Isaac?
- Ajudo-te, desde que seja legal, Kate.
E foi assim que o honrado Isaac Rosenblat se converteu no guardião das três pedras maravilhosas; que se encarregou de as transformar em dinheiro sonante; que investiu o capital com sabedoria; e que assessorou Kate Cold na criação da Fundação Diamante. Aconselhou-a a nomear o antropólogo Ludovic Leblanc para presidente, mas a manter o controlo do dinheiro nas suas próprias mãos. Dessa forma reatou com ela também a sua amizade, adormecida durante quarenta anos.
- Sabes que eu também sou viúvo, Kate? - confessou-lhe nessa mesma noite, quando foram jantar juntos.
- Suponho que não pensarás declarar-te, Isaac. Há muito tempo que não lavo as peúgas de um marido e não penso começar agora - riu-se a escritora.
Brindaram pelos diamantes.
Alguns meses mais tarde Kate estava diante do computador, com o seu corpo seco coberto apenas por uma camisola cheia de orifícios que lhe chegava a meio das coxas e deixava à mostra os seus joelhos ossudos, as suas pernas cobertas de veias e cicatrizes e os seus pés firmes de caminhante. Sobre a cabeça giravam, como um zumbido de vespas, as pás de uma ventoinha, que não conseguiam aliviar o calor sufocante de Nova Iorque no Verão. Há já algum tempo - há dezasseis ou dezassete anos - que a escritora ponderava a possibilidade de instalar ar condicionado no apartamento, mas ainda não encontrara o momento certo para o fazer. O suor empapava-lhe o cabelo e escorria-lhe pelas costas, enquanto os dedos açoitavam furiosamente o teclado. Sabia que bastava roçar as teclas, mas ela era um animal de hábitos, por isso as esmagava, tal como fazia anteriormente na sua antiquada máquina de escrever.
Num dos lados do computador tinha um jarro de chá gelado com vodca, uma mistura explosiva de cuja invenção se sentia orgulhosa. No outro lado estava pousado o seu cachimbo de marinheiro, apagado. Resignara-se a fumar menos, porque a tosse não a largava, mas mantinha o cachimbo preparado para lhe fazer companhia. O cheiro do tabaco preto reconfortava-lhe a alma. «Aos sessenta e cinco anos não são muitos os vícios que uma bruxa como eu pode permitir-se», pensava. Não estava disposta a renunciar a nenhum dos seus vícios, mas, se não deixasse de fumar, os pulmões explodir-lhe-iam.
Há seis meses que Kate se dedicava a pôr de pé a Fundação Diamante, que criara com o famoso antropólogo Ludovic Leblanc, que, diga-se de passagem, considerava seu inimigo. Detestava aquele tipo de trabalho, mas se não o fizesse, o seu neto Alexander nunca lhe perdoaria. «Sou uma pessoa de acção, uma repórter de viagens e aventuras, não uma burocrata», dizia, suspirando, entre golinhos de chá com vodca.
Além de batalhar com o assunto da fundação, tivera de se deslocar duas vezes até Caracas para prestar declarações contra Mauro Carias e a doutora Omayra Torres, os responsáveis pela morte de centenas de índios infectados pela varíola. Mauro Carias não assistia ao julgamento, estava numa clínica privada, convertido num vegetal. Teria sido melhor que a bordoada dada pelos índios o tivesse despachado para o outro mundo.
As coisas complicavam-se para Kate Cold, porque a revista International Geographic a encarregara de escrever uma reportagem sobre o Reino do Dragão de Ouro. Não lhe convinha continuar a adiar a viagem, porque podiam entregá-la a outro repórter, mas antes de partir tinha de curar a tosse. Aquele pequeno país ficava incrustado nos cumes dos Himalaias, onde o clima era muito traiçoeiro; a temperatura podia variar trinta graus em poucas horas. A ideia de consultar um médico nem lhe passava pela cabeça, evidentemente. Nunca o fizera na vida e não ia começar agora. Tinha uma péssima opinião dos profissionais que ganham à hora. Ela cobrava à palavra. Parecia-lhe óbvio que não convinha a nenhum médico que o paciente sarasse, por isso preferia remédios caseiros. Depositara a sua fé numa casca de árvore trazida do Amazonas, que lhe deixaria os pulmões como novos. Um xamã centenário chamado Walimai garantira-lhe que a casca servia para as doenças do nariz e da boca. Kate pulverizava-a no liquidificador e diluía-a no seu chá com vodca, para disfarçar o sabor amargo, e bebia-o ao longo do dia com grande determinação. O remédio ainda não tinha dado resultados, explicava nesse mesmo momento ao professor Ludovic Leblanc, através do correio electrónico.
Nada fazia Cold e Leblanc mais felizes do que odiar-se mutuamente e não perdiam uma oportunidade de o demonstrar. Não lhes faltavam pretextos, porque estavam irremediavelmente unidos pela Fundação Diamante, cujo presidente era ele, enquanto ela governava o dinheiro. O trabalho comum para a fundação obrigava-os a comunicar um com o outro quase diariamente e faziam-no por correio electrónico para não terem de ouvir as suas respectivas vozes pelo telefone. Procuravam ver-se o menos possível.
A Fundação Diamante tinha sido criada para proteger as tribos do Amazonas em geral e o povo da neblina em particular, tal como Alexander tinha exigido. O professor Ludovic Leblanc estava a escrever um pesado calhamaço académico sobre a tribo e o seu próprio papel nessa aventura, embora na verdade os índios tenham sido salvos, milagrosamente, do genocídio por Alexander Cold e pela sua amiga brasileira Nadia Santos, e não por Leblanc. Ao recordar aquelas semanas na selva, Kate não conseguia evitar um sorriso. Quando partiram de viagem para o Amazonas o seu neto era um rapazinho mimado e, quando regressaram, pouco mais tarde, tinha-se convertido num homem. Alexander - ou Jaguar, como se lhe metera na cabeça que devia chamá-lo - portara-se como um valente, era justo reconhecê-lo. Estava orgulhosa dele. A fundação existia graças a Alex e a Nadia; sem eles o projecto teria ficado pelas intenções: eles é que o tinham financiado.
No início, o professor pretendia que a organização se chamasse Fundação Ludovic Leblanc, porque tinha a certeza de que o seu nome atrairia a imprensa e possíveis benfeitores, mas Kate não o deixou acabar a frase.
- Terá de passar sobre o meu cadáver para conseguir que ponha o dinheiro conseguido pelo meu próprio neto em seu nome, Leblanc -interrompeu-o.
O antropólogo teve de se resignar, porque ela dispunha dos três fabulosos diamantes do Amazonas. Tal como o joalheiro Rosenblat, Ludovic Leblanc também não acreditava numa palavra da história daquelas pedras extraordinárias. Diamantes num ninho de águias? Está bem...! Suspeitava que o guia César Santos, pai de Nadia, tinha acesso a uma mina secreta em plena selva, onde a rapariga tinha obtido as pedras. Acalentava a fantasia de regressar ao Amazonas e de convencer o guia a partilhar com ele essas riquezas. Era um sonho disparatado, porque estava a ficar velho, doíam-lhe as articulações e já não tinha energia para viajar para sítios sem ar condicionado. Além disso, estava muito ocupado a escrever a sua obra-prima.
Parecia-lhe impossível concentrar-se na sua importante missão com o seu reduzido salário de professor. O seu escritório era um buraco insalubre, num edifício decrépito, num quarto andar sem elevador, uma vergonha! Se ao menos Kate Cold fosse um pouco mais generosa com o orçamento... Que mulher desagradável!, pensava o arqueólogo. Era impossível relacionar-se com ela. O presidente da Fundação Diamante devia trabalhar com estilo. Precisava de uma secretária e de um escritório decente. Mas a forreta da Kate não largava um centavo a mais do estritamente necessário para as tribos. Nesse momento, precisamente, discutiam ambos por correio electrónico a propósito de um automóvel, que ele achava indispensável. Deslocar-se de metro era uma perda do seu precioso tempo, que seria melhor empregue ao serviço dos índios e dos bosques, explicava. No ecrã dela iam-se formando as frases de Leblanc: não peço nada de especial, Cold, não se trata de uma limusina com motorista, mas apenas de um pequeno descapotável...
Tocou o telefone e a escritora ignorou-o, porque não queria perder o fio dos contundentes argumentos com que planeava crivar Leblanc, mas a campainha continuou a tocar até fazê-la perder a paciência. Furiosa, agarrou no auscultador com uma pancada, resmungando contra o atrevido que a interrompia no seu trabalho intelectual.
- Olá, avó - cumprimentou alegremente, da Califórnia, a voz do seu neto mais velho.
- Alexander! - exclamou, encantada por ouvi-lo, mas imediatamente se controlou, não fosse o seu neto suspeitar que sentia a falta dele. - Não te disse milhares de vezes para não me chamares avó?
- Também combinámos que tu me chamarias Jaguar - replicou o rapaz, imperturbável.
- De jaguar não tens nem o bigode, és um pobre gato pelado.
- Tu, pelo contrário, és a mãe do meu pai, de modo que legalmente posso chamar-te avó.
- Recebeste o meu presente? - cortou ela.
- É maravilhoso, Kate!
E, na verdade, era-o. Alexander acabara de fazer dezasseis anos e recebeu pelo correio uma caixa enorme proveniente de Nova Iorque com o presente da avó. Kate Cold desfizera-se de uma das suas mais valiosas posses: a pele de um pitão de vários metros de cumprimento, o mesmo que engolira a sua máquina fotográfica na Malásia, há vários anos. Agora o trofeu estava pendurado, como única decoração, no quarto de Alexander. Há alguns meses, o rapaz tinha destruído os móveis num assomo de angústia devido à doença da mãe. Ficou apenas com um colchão semiesventrado para dormir e com uma lanterna para ler à noite.
- Como estão as tuas irmãs?
- Andrea não entra no meu quarto, porque tem pavor da pele da cobra, mas Nicole presta-se a ser minha escrava para que eu a deixe tocar-lhe. Ofereceu-me tudo o que tem em troca do pitão, mas nunca a darei a ninguém.
- Assim espero. E como está a tua mãe?
- Muito melhor, basta dizer que voltou aos pincéis e às pinturas. Sabes? Walimai, o xamã, disse-me que tenho o poder de curar e que o devo usar bem. Pensei que se calhar não vou ser músico, como tinha pensado, mas médico. O que achas? - perguntou Alex.
- Suponho que deves pensar ter curado a tua mãe... - riu-se a avó.
- Não fui eu quem a curou, mas a água da saúde e as plantas medicinais que trouxe do Amazonas...
- E a quimioterapia e a radioterapia também - interrompeu-o ela.
- Nunca saberemos o que a curou, Kate. Outros pacientes que receberam o mesmo tratamento no mesmo hospital já morreram e a minha mãe, pelo contrário, está em plena recuperação. Esta doença é muito traiçoeira e pode voltar a qualquer momento, mas creio que as plantas que me deu o xamã Walimai e a água maravilhosa poderão mantê-la saudável.
- Muito trabalho te custou consegui-las - comentou Kate.
- Quase perdi a vida...
- Isso não é nada. Deixaste a flauta do teu avô - cortou ela.
- A tua consideração pelo meu bem-estar é comovedora, Kate - troçou Alexander.
- Enfim... O assunto já não tem remédio. Suponho que devo perguntar pela tua família...
- Também é tua e não me parece que tenhas outra. Caso te interesse, estamos pouco a pouco a voltar à normalidade na família. À mãe está-lhe a nascer cabelo encaracolado e grisalho. Achava-se mais bonita careca -informou-a o neto.
- Fico feliz por Lisa estar a recuperar. Gosto dela, é boa pintora -admitiu Kate Cold.
- E boa mãe...
Houve uma pausa de alguns segundos na linha, durante a qual Alexander tentou ganhar coragem para expor o motivo do seu telefonema. Explicou que tinha poupado dinheiro, por ter trabalhado durante o semestre dando aulas de música e servindo numa pizaria. O seu objectivo tinha sido repor o que destruíra no quarto, mas depois mudara de ideias.
- Não tenho tempo para ouvir os teus planos financeiros. Vai directo ao assunto. O que é que queres? - intimou-o a avó.
- Estou de férias a partir de amanhã... - E?
- Pensei que, se pagasse a minha passagem, talvez pudesses levar-me contigo na tua próxima viagem. Não me disseste que ias aos Himalaias?
Outro silêncio glacial acolheu a pergunta. Kate Cold estava a fazer um esforço enorme para controlar a satisfação que a tolhia: estava tudo a sair de acordo com os seus planos. Se o tivesse convidado, o neto teria colocado uma série de entraves, tal como fizera quando se tratou de viajar até ao Amazonas, mas desta forma a iniciativa partia dele. Tinha tanta certeza de que Alexander iria com ela que lhe preparara uma surpresa.
- Estás aí, Kate? - perguntou Alexander, timidamente.
- Claro! Onde querias que estivesse?
- Podes, ao menos, pensar nisso?
- Ora! E eu que pensava que a juventude andava ocupada a fumar erva e a arranjar namorada através da Internet... - comentou ela entre dentes.
- Isso é um pouco mais tarde, Kate. Tenho dezasseis anos e o orçamento não me chega sequer para um encontro virtual - disse Alexander, rindo-se e acrescentando: - Julgo ter-te provado que sou um bom companheiro de viagem. Não te incomodarei com nada e posso ajudar-te. Já não tens idade para andar sozinha...
- Mas, o que estás a dizer, fedelho?!
- Refiro-me... bom, posso transportar a tua bagagem, por exemplo. Também posso tirar fotografias.
- Achas que a International Geographic publicaria as tuas fotografias? Timothy Bruce e Joel Gonzalez, os mesmos fotógrafos que foram connosco ao Amazonas, virão também.
- Gonzalez está curado?
- Curou as costelas partidas mas ainda está assustado. Timothy Bruce cuida dele como uma mãe.
- Eu também cuidarei de ti como uma mãe, Kate. Nos Himalaias podes ser pisada por uma manada de iaques. Além disso, há pouco oxigénio, pode dar-te algum ataque de coração - suplicou o neto.
- Não penso dar a Leblanc o prazer de morrer antes dele - resmungou ela entre dentes, e acrescentou: - mas vejo que sabes alguma coisa sobre aquela região.
- Nem imaginas o que li a respeito dela. Posso ir contigo? Por favor!
- Está bem, mas não vou esperar por ti nem um minuto. Encontramo-nos no aeroporto John F. Kennedy na próxima quinta-feira para embarcarmos às nove da noite para Londres e daí para Nova Deli. Percebeste?
- Lá estarei, prometo-te.
- Traz roupa quente. Quanto mais alto subirmos, mais frio haverá. Com certeza terás oportunidade de fazer montanhismo, de modo que podes trazer também o teu equipamento de alpinismo.
- Obrigado, obrigado, avó! - exclamou o rapaz, emocionado. CAPÍTULO 3
- Se tornas a chamar-me avó, não te levo a parte nenhuma! replicou Kate, desligando o telefone e desatando a rir com as suas gargalhadas de hiena.
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