O Reino do Dragão de Ouro

Isabel Allende · Capítulo 15 de 19

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O Reino do Dragão de Ouro

Capítulo 15

O despenhadeiro

 

Tensing decidiu que tinham de comer alguma coisa e descansar antes de planear a descida das raparigas até ao vale. Dil Bahadur comentou que a farinha e a manteiga que tinham não chegava para todos, mas ofereceu as suas escassas provisões a Perna e às raparigas, que não comiam há muitas horas. Tensing mandou-o fazer uma fogueira para ferver água para o chá e derreter a banha de iaque. Assim que isto ficou pronto, o monge meteu as mãos nas pregas da sua túnica, onde habitualmente levava o seu saco de mendicante, e começou a tirar, como um mago, punhados de cereais, alhos, vegetais secos e outros alimentos para preparar o jantar, perante a surpresa de todos.

- Isto é como a multiplicação dos pães e dos peixes por Jesus Cristo, que lemos no Novo Testamento - comentou Alexander, maravilhado.

- O meu mestre é muito santo. Não é a primeira vez que o vejo fazer milagres - disse o príncipe, inclinando-se com profundo respeito diante do lama.

- Talvez o teu mestre não seja tão santo como rápido de mãos, Dil Bahadur. Na caverna dos bandidos sobravam provisões que não podiam perder-se - replicou o lama, inclinando-se também.

- O meu mestre roubou-as! - exclamou o discípulo, incrédulo.

- Digamos que talvez o teu mestre as tenha trazido emprestadas... -disse Tensing.

Os jovens trocaram um olhar de perplexidade e depois desataram a rir-se. Aquela explosão de alegria foi como abrir uma válvula por onde saiu a tremenda ansiedade e o medo em que tinham vivido durante dias. O riso tornou-se contagiante e depressa estavam todos no chão, sacudidos por gargalhadas incontroláveis, enquanto o lama mexia a panela de tsampa e servia amavelmente o chá sem alterar minimamente a serenidade do seu rosto.

Finalmente os jovens acalmaram-se um pouco, mas assim que o mestre lhes serviu o austero jantar, desataram novamente a rir-se.

- Talvez quando recuperarem a sensatez, queiram ouvir o meu plano...- sugeriu Tensing, sem perder a paciência.

O plano fê-los parar de rir imediatamente. O que o lama sugeria era, nem mais nem menos, fazer descer as raparigas pelo despenhadeiro. Foram até à beira espreitar e retrocederam desencorajados: eram mais ou menos oitenta metros de declive vertical.

- Mestre, nunca ninguém desceu por ali - disse Dil Bahadur.

- Talvez tenha chegado o momento de alguém ser o primeiro - replicou Tensing.

As raparigas puseram-se a chorar, à excepção de Perna que, desde o início, dera um exemplo de força às outras, e de Nadia, que decidiu ali mesmo preferir morrer às mãos dos bandidos ou gelada de frio num glaciar dos cumes, que descer por aquele precipício. Tensing explicou que, se usassem esse atalho, as raparigas poderiam chegar a uma aldeia do vale e pedir socorro antes que a noite caísse. De outro modo ficariam retidos cá em cima, com o perigo de que o restante bando do Escorpião os encontrasse. Tinham de devolver as raparigas às suas casas e avisar o general Myar Kunglung para que este resgatasse o Rei do mosteiro fortificado antes que o matassem. Quanto a ele e a Dil Bahadur, tomariam a dianteira para chegar a Chenthan Dzong o mais rapidamente possível.

Alexander não participou na discussão, mas pôs-se, em vez disso, a estudar o assunto. O que faria o pai nesta situação? Com certeza, John Cold encontraria uma maneira não apenas de descer, mas também de subir. O pai tinha escalado montes mais escarpados que aquele e fizera-o durante o Inverno, às vezes por desporto, outras vezes para ajudar pessoas que se feriam ou ficavam presas. John Cold era um homem prudente e metódico, mas não retrocedia perante qualquer perigo quando se tratava de salvar uma vida.

- Com o meu equipamento de rapel acho que consigo descer - disse.

- Quantos metros de altura terá isto? - perguntou Nadia, sem olhar para baixo.

- Muitos. As minhas cordas não chegam, mas há algumas saliências, alguns terraços, que nos permitem escalonar a descida - explicou Alex.

- Talvez seja possível - replicou Tensing, que tinha idealizado este plano audacioso depois de o ver resgatar Nadia do buraco para onde tinha caído.

- É bastante arriscado e com sorte consigo fazê-lo; mas como poderão descer estas raparigas, que não têm experiência de montanhismo? -perguntou Alexander.

- Possivelmente lembrar-nos-emos de alguma forma de as descer... -respondeu o lama, pedindo depois silêncio para rezar, porque estava há muitas horas sem o fazer.

Enquanto Tensing meditava sentado numa rocha com a cara voltada para o céu infinito, Alexander media a sua corda, contava os pitões que tinha, experimentava o arnês, calculava as possibilidades e discutia com o príncipe a melhor maneira de efectuar aquela manobra arriscada.

- Se ao menos tivéssemos um papagaio... - disse Dil Bahadur, suspirando.

Contou aos seus amigos estrangeiros que no Reino do Dragão de Ouro existia a antiga arte de fabricar papagaios de seda em forma de pássaro com asas duplas. Alguns eram tão grandes e fortes, que conseguiam suportar um homem de pé entre as asas. Tensing era especialista nesse desporto e ensinara-o ao seu discípulo.

O príncipe lembrava-se do seu primeiro voo, há alguns anos atrás, quando, ao visitar um mosteiro, passou de uma montanha para outra, utilizando as correntes de ar, que lhe permitiam dirigir o seu frágil veículo, enquanto seis monges seguravam na longa corda do papagaio.

- Muitos se devem ter matado assim... - imaginou Nadia.

- Não é tão difícil como parece - garantiu o príncipe.

- Deve ser como os planadores - comentou Alexander.

- Um avião com asas de seda... Acho que não gostaria de experimentar- disse Nadia, grata por não haver papagaios à mão.

Tensing rezava para que não houvesse vento, que os impediria de tentar a descida. Também rezava para que o rapaz americano tivesse a experiência e a determinação necessárias e para que aos restantes não lhes faltasse a coragem.

- É difícil calcular a altura daqui, mestre Tensing, mas se as minhas cordas chegarem até aquele terraço estreito que se vê lá em baixo, consigo fazê-lo - garantiu-lhe Alexander.

- E as raparigas?

- Desço-as uma a uma.

- Menos a mim - interrompeu Nadia, decididamente.

- Nadia e eu queremos ir consigo e com Dil Bahadur ao mosteiro -disse Alexander.

- E quem levará as raparigas até ao vale? - perguntou o lama.

- Talvez o honorável mestre me permita fazê-lo... - disse Perna.

- Cinco raparigas sozinhas? - interrompeu Dil Bahadur.

- Porque não?

- A decisão é tua, de mais ninguém, Perna - disse Tensing, observando, deleitado, a aura dourada da jovem.

- Possivelmente, qualquer um de vós pode fazê-lo melhor do que eu, mas se o mestre me autorizar e me apoiar com as suas orações, talvez eu possa cumprir a minha parte com honra - ofereceu-se a jovem.

Dil Bahadur estava pálido. Tinha decidido, com a certeza cega do primeiro amor, que Perna era a única mulher para ele neste mundo. O facto de não conhecer outras e de a sua experiência ser equivalente a zero, não entrava nos seus cálculos. Receava que ela caísse no fundo do despenhadeiro ou, no caso de chegar lá abaixo sã e salva, se perdesse ou enfrentasse outros riscos. Nesta região havia tigres e não podia esquecer-se da Seita do Escorpião.

- É muito perigoso - disse.

- Talvez o meu discípulo tenha decidido acompanhar as jovens... -sugeriu Tensing.

- Não, mestre, tenho de o ajudar a resgatar o Rei - murmurou o príncipe, baixando os olhos, envergonhado.

O lama levou-o à parte, onde os outros não pudessem ouvi-lo.

- Deves confiar nela. Tem um coração tão valente como o teu, Dil Bahadur. Se o vosso karma for juntar-se, isso acontecerá de qualquer forma. Se não for, nada do que fizeres mudará o curso da vida.

- Não disse que queria juntar-me a ela, mestre!

- Talvez não seja necessário dizê-lo - disse Tensing, sorrindo. Alexander decidiu aproveitar as horas de luz que restavam preparando o caminho para o dia seguinte. Primeiro que tudo tinha de se certificar de que, com as suas duas cordas de cinquenta metros cada, conseguiria fazê-lo. Passou meia hora explicando aos outros os princípios básicos do rapel, desde a colocação do arnês, no qual se descia sentado, até aos movimentos para alargar e esticar a corda. A segunda corda funcionava como uma segurança. Ele não precisava dela, mas era indispensável para as raparigas poderem descer.

- Agora vou descer até ao terraço e, daí, medirei a altura até ao fundo do despenhadeiro - anunciou, assim que prendeu a corda e colocou o arnês.

Todos observaram as manobras com grande interesse, menos Nadia, que nem se atrevia a debruçar-se sobre o abismo. Para Tensing, que passara a vida escalando como uma cabra as montanhas dos Himalaias, a técnica de Alexander parecia-lhe fascinante. Examinou, assombrado, a corda resistente e leve, os ganchos metálicos, as cilhas de segurança, o engenhoso arnês. Maravilhado, viu-o fazer um gesto de despedida com a mão e lançar-se para o vazio sentado no arnês. Com os pés, separava-se da parede vertical de rocha e, com as mãos, ia alargando a corda, de modo a deslizar em quedas de três a cinco metros, sem esforço aparente. Em menos de cinco minutos chegou à beira do despenhadeiro. De cima parecia minúsculo. Esteve aí uma meia hora, medindo a altura até baixo com a segunda corda, que levava enrolada à cintura. Depois, trepou com muito mais esforço do que utilizara para descer, mas sem grandes dificuldades. Lá em cima foi recebido com aplausos e gritos de alegria.

- Pode fazer-se, mestre Tensing, o terraço é amplo e seguro, as cinco raparigas e eu cabemos lá. A corda chega até lá abaixo e creio que posso ensiná-las a usar o arnês. Mas há um problema - disse Alexander.

- Qual?

- No terraço precisarei de duas cordas, porque elas não conseguem fazê-lo sem uma corda de segurança. Usa-se uma delas para segurar o arnês e a segunda fixa-se às rochas com um aparelho especial, que já deixei colocado, e que me permite ajudar as raparigas a descer pouco a pouco. É uma medida de segurança indispensável, caso percam o controlo da primeira corda ou, por qualquer razão, o sistema falhar. Como não têm experiência, é impossível fazerem-no sem essa segunda corda.

- Entendo. Mas temos duas cordas; qual é o problema?

- Utilizamo-las para chegar ao terraço. Depois, vocês soltam-nas para que as fixe ali e faça descer as raparigas até à base do despenhadeiro. Mas, como subirei, quando as duas cordas estiverem no terraço? Não consigo escalar uma parede vertical sem ajuda. Um montanhista experiente demoraria muitas horas e eu não me julgo capaz de o fazer. Ou seja, precisamos de uma terceira corda - explicou Alexander.

- Ou então de um cordel que nos permita içar as cordas do terraço até aqui - disse Dil Bahadur.

- Exactamente.

Não dispunham de cinquenta metros de cordel. A primeira ideia foi, evidentemente, cortar tiras finas da roupa que usavam, mas compreenderam que não podiam ficar seminus naquele clima porque morreriam de frio. Nenhuma das raparigas levava mais do que o fino sarong de seda e um casaquinho. Tensing pensou nos rolos de cordel de pêlo de iaque que guardava na sua ermida, muito longe dali, mas não tinham tempo de os ir buscar.

Nessa altura, o Sol já se pusera e o céu começava a ficar azul-índigo.

- É muito tarde. Talvez tenha chegado a hora de nos prepararmos para passar a noite mais ou menos confortavelmente. Amanhã veremos que solução nos ocorrerá - disse o lama.

- Esse cordel de que necessitamos, não precisa de ser muito forte, não é verdade? - perguntou Perna.

- Não, mas tem de ser comprido. Usá-lo-emos apenas para içar uma das cordas - replicou Alexander.

- Talvez nós o possamos fazer... - sugeriu ela.

- Como? Com quê?

- Todas temos o cabelo comprido. Podemos cortá-lo e entrançá-lo.

Uma expressão de assombro percorreu todos os rostos. As raparigas levaram as mãos à cabeça e acariciaram as suas longas madeixas, que lhes chegavam à cintura. Nunca uma tesoura tocava no cabelo de uma mulher do Reino Proibido, considerado o maior atributo de beleza e feminilidade. As solteiras usavam-no solto e perfumavam-no com almíscar e jasmim; as casadas untavam-no com óleo de amêndoas e entrançavam-no, fazendo penteados elaborados que decoravam com pauzinhos de prata, turquesas, âmbar e corais. Só as monjas renunciavam aos seus cabelos e passavam a sua vida de cabeça rapada.

- Talvez consigamos fazer umas vinte tranças finas de cada uma. Multiplicando por cinco, são cem tranças. Se cada uma medir cinquenta centímetros, temos cinquenta metros de cabelo. Eu consigo, possivelmente, obter umas vinte e quatro do meu cabelo, de modo que nos sobraria explicou Perna.

- Eu também tenho cabelo - ofereceu-se Nadia.

- É muito curto, não creio que sirva - comentou Perna. Uma das raparigas pôs-se a chorar desconsoladamente. Cortar o cabelo era um sacrifício demasiado grande, não podiam pedir-lhe isso, disse. Perna sentou-se junto dela e tratou de convencê-la, com suavidade, de que o cabelo era menos importante que as vidas de todos eles e que a segurança do Rei. E, de qualquer forma, voltaria a crescer-lhes.

- E enquanto não cresce, como posso aparecer em público? - perguntou a rapariga, a soluçar.

- Com imenso orgulho, porque terás contribuído para salvar o nosso país da Seita do Escorpião - replicou Perna.

Enquanto o príncipe e Alexander procuravam raízes e bosta seca de animais para acender uma pequena fogueira que os mantivesse aquecidos durante a noite, Tensing resolveu examinar Nadia e ajustar-lhe as ligaduras... Mostrou-se bastante satisfeito: o ombro ainda estava um pouco magoado, mas são, e Nadia não tinha dores.

Perna usou o canivete suíço de Alexander para cortar o cabelo. Dil Bahadur não conseguiu olhar, sentia-se perturbado; parecia-lhe um acto demasiado íntimo, quase doloroso. À medida que aqueles cabelos sedosos caíam e revelavam o pescoço esguio e a nuca frágil da jovem, a sua beleza transformava-se e Perna ficou parecida com um rapazinho.

- Agora posso mendigar como uma monja - riu-se, apontando para a túnica do príncipe, que. tinha vestida, e para a cabeça, onde se erguiam algumas madeixas entre as peladas.

As outras raparigas agarraram no canivete e começaram a rapar-se umas às outras. Depois sentaram-se em círculo a entrançar uma corda fina, negra e brilhante, com cheiro de almíscar e jasmim.

Descansaram o melhor que as circunstâncias permitiam no apertado refúgio de rocha. No Reino do Dragão de Ouro não era comum o contacto físico entre pessoas de sexos diferentes, excepto no caso das crianças, mas nessa noite tiveram de o fazer, porque o frio era muito e não dispunham de mais agasalhos além da roupa que traziam no corpo e duas peles de iaque. Tensing e Dil Bahadur tinham vivido nos picos e resistiam ao clima muito melhor que os restantes. Também estavam habituados a passar por privações, de modo que cederam as peles e a maior parte dos alimentos às raparigas. Para não ficar atrás dos outros dois homens, Alexander imitou-os, embora as suas tripas reclamassem com fome. Também repartiu em pedacinhos minúsculos uma tablete de chocolate que encontrou esmagada no fundo da mochila.

Como dispunham de muito pouco combustível, tinham de manter o fogo muito baixo, mas aquelas chamas fracas ofereciam-lhes alguma segurança. Pelo menos afastariam os tigres e os leopardos das neves, que habitavam esses montes. Numa tigela aqueceram água e prepararam chá com manteiga e sal, que os ajudou a suportar os rigores da noite.

Dormiram amontoados como uma ninhada, transmitindo calor uns aos outros, protegidos do vento na gruta onde se encontravam.

Dil Bahadur não se atreveu a ficar perto de Perna, como desejava, porque receou o olhar trocista do mestre. Apercebeu-se de que tinha evitado informá-la de que o Rei era seu pai e que ele não era um monge comum. Pareceu-lhe que não era o momento de o fazer, mas por outro lado sentia que essa omissão era tão grave como enganá-la. Alexander, Nadia e Borobá ajeitaram-se num abraço estreito e adormeceram profundamente, até o primeiro raio da aurora se insinuar no horizonte.

Tensing dirigiu a primeira oração da manhã e recitaram em coro Om manepadme hum várias vezes. Não adoravam uma divindade, uma vez que Buda era apenas um ser humano que tinha atingido a «iluminação» ou compreensão suprema. Enviavam as suas orações como raios de energia positiva para o espaço infinito e para o espírito que reina em tudo o que existe. Alexander, que crescera numa família de agnósticos que não praticavam nenhuma religião, maravilhava-se ao ver que no Reino Proibido até os actos mais quotidianos estavam impregnados de um sentido divino. A religião naquele país era uma forma de vida; cada pessoa cuidava do Buda que tinha dentro de si. Surpreendeu-se recitando o mantra sagrado com verdadeiro entusiasmo.

O lama abençoou os alimentos e repartiu-os, enquanto Nadia fazia circular as tigelas com chá quente.

- Possivelmente, este será um bonito dia, soalheiro e sem vento -anunciou Tensing, perscrutando o céu.

- Talvez se o honorável mestre o ordenasse, pudéssemos começar o mais depressa possível, porque o caminho até ao vale será longo - sugeriu Perna.

- Creio que, com um pouco de sorte, em menos de uma hora vocês estarão lá em baixo - disse Alexander, preparando o seu equipamento.

Pouco depois começou a descida. Alexander colocou o equipamento e desceu, em poucos minutos, como um insecto, até ao terraço que se destacava a meio da parede vertical do abismo. Perna declarou querer ser a primeira a segui-lo. Dil Bahadur recolheu a corda e colocou o arnês a Perna, explicando-lhe mais uma vez o mecanismo dos ganchos.

- Deves ir alargando pouco a pouco. Se houver um problema, não te assustes, porque eu te segurarei com a segunda corda até recuperares o ritmo, entendido? - perguntou.

- Talvez fosse conveniente não olhares para baixo. Apoiar-te-emos com os nossos pensamentos - acrescentou Tensing, afastando-se alguns passos para se concentrar e enviar energia mental a Perna.

Dil Bahadur passou pela sua cintura a corda, que estava fixa a uma fenda na rocha por um aparelho metálico, e fez sinal a Perna de que estava pronto. Ela aproximou-se do abismo e sorriu para disfarçar o pânico que a invadia.

- Espero que nos voltemos a ver - sussurrou Dil Bahadur, sem se atrever a dizer mais com receio de revelar o segredo de amor que o afogava desde que a vira pela primeira vez.

- Assim o espero também. Elevarei as minhas orações e farei oferendas para que consigam salvar o Rei... Tem cuidado - replicou ela, comovida.

Perna fechou os olhos por um instante, entregou a sua alma ao céu e atirou-se para o vazio. Caiu como uma pedra durante vários metros, até conseguir controlar o gancho que esticava a corda. Assim que aprendeu o mecanismo e adquiriu ritmo, pôde continuar a descida cada vez com mais segurança. Com as pernas, afastava-se das rochas e tomava impulso. A sua túnica flutuava no ar e, de cima, parecia um morcego. Antes do que esperava, ouviu a voz de Alexander dizendo-lhe que já faltava pouco.

- Perfeito! exclamou o rapaz quando a recebeu nos braços.

- É tudo? Acabou justamente quando eu começava a gostar - replicou ela.

O terraço era tão estreito e exposto que uma ventania tê-los-ia desequilibrado, mas tal como Tensing previra, o clima ajudava. De cima içaram o arnês e colocaram-no noutra das raparigas que estava aterrada e não tinha o carácter de Perna. Mas o lama cravou-lhe os seus olhos hipnóticos e conseguiu tranquilizá-la. Uma por uma desceram as quatro jovens sem grandes problemas porque, cada vez que ficavam presas ou se soltavam, Dil Bahadur as agarrava com a corda de segurança. Depois de estarem todas no rebordo estreito da montanha, tornava-se difícil mexer-se, porque o perigo de cair para o abismo era enorme. Alexander tinha previsto essa dificuldade e, no dia anterior, tinha colocado vários ganchos para que pudessem agarrar-se. Estavam prontos para iniciar a segunda parte da descida.

Dil Bahadur largou as cordas, que Alexander utilizou para repetir a mesma operação, desde o terraço até à base do precipício. Desta vez, Perna não tinha quem a recebesse em baixo, mas adquirira confiança e atirou-se sem vacilar. Pouco depois, as suas companheiras seguiram-na. CAPÍTULO 16

Alexander acenou-lhes, desejando com toda a sua alma que aquelas quatro raparigas de aspecto frágil, vestidas de festa e calçadas com sandálias douradas, guiadas por outra vestida de monja, conseguissem encontrar o caminho até à primeira aldeia. Viu-as afastar-se, encosta abaixo, na direcção do vale, até se transformarem em pontinhos minúsculos e, depois, desaparecerem. O Reino do Dragão de Ouro tinha muito poucas estradas para veículos e muitas delas ficavam intransitáveis durante as chuvas intensas ou as tempestades de neve, mas nesta época não havia problemas. Se as raparigas conseguissem chegar a uma estrada, certamente alguém as recolheria.

Alexander fez um sinal e Dil Bahadur soltou a longa trança de cabelo preto, com uma pedra amarrada na ponta. Depois de manobrar um pouco, de cima, para a orientar, esta caiu no terraço onde Alexander a apanhou. Enrolou uma corda e pendurou-a à cintura, depois amarrou a segunda à trança e pediu, por sinais, que a içassem. Dil Bahadur puxou a trança cuidadosamente, até ter a extremidade da corda no cume do desfiladeiro. Amarrou-a a um gancho e Alexander começou a subida.

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