O Reino do Dragão de Ouro

Isabel Allende · Capítulo 17 de 19

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O Reino do Dragão de Ouro

Capítulo 17

O mosteiro fortificado

 

Tex Armadillo preferia o plano inicial para a retirada de Tunkhala com o Rei e com o Dragão de Ouro, que consistia num helicóptero provido de uma metralhadora, que no momento preciso desceria nos jardins do palácio. Ninguém teria podido detê-los. A força aérea daquele país compunha-se de quatro aviões antiquados adquiridos na Alemanha há mais de vinte anos e que só voavam pelo Ano Novo, atirando pássaros de papel sobre a capital para alegria das crianças. Pô-los em acção para os perseguir levaria horas, possibilitando ao helicóptero tempo de sobra para chegar a um local seguro. No entanto, o Especialista mudou de plano à última hora sem dar grandes explicações. Limitou-se a dizer que não convinha chamar a atenção e, menos ainda, metralhar os pacíficos habitantes do Reino Proibido, porque isso provocaria um escândalo internacional. O seu cliente, o Coleccionador, exigia discrição.

De modo que Armadillo teve de aceitar o segundo plano, em sua opinião muito menos expedito e seguro que o primeiro. Assim que deitou a luva ao Rei no Recinto Sagrado, fechou-lhe a boca com fita-cola e deu-lhe uma injecção no braço que, em cinco segundos, o deixou anestesiado. As instruções eram para não o magoar, porque o monarca tinha de chegar vivo e saudável ao mosteiro, onde deviam extrair-lhe a informação necessária para decifrar as mensagens da estátua.

Cuidado, o Rei sabe artes marciais, pode defender-se. Mas aviso-vos que, se o ferirem, pagarão caro - dissera o Especialista.

Tex Armadillo começava a perder a paciência com o chefe, mas não havia tempo para ruminar o seu descontentamento.

Os quatro bandidos estavam assustados e impacientes, mas isso não os impediu de roubar alguns candelabros e perfumadores de ouro. Estavam prontos para arrancar o precioso metal das paredes com os punhais, quando o americano lhes ladrou as ordens.

Dois deles agarraram no corpo inerte do Rei pelos ombros e pelos tornozelos, enquanto os restantes retiravam a pesada estátua de ouro do pedestal de pedra negra, onde tinha permanecido durante dezoito séculos. Ainda se sentia na sala o eco do cântico e dos estranhos sons do dragão. Tex Armadillo não podia parar para examiná-lo, mas calculou que devia ser como um instrumento musical. Não acreditava que conseguisse prever o futuro, essa era uma patranha para ignorantes, mas, de facto, isso não o interessava: o valor intrínseco do objecto era incalculável. Quanto ganharia o Especialista com esta missão? Muitos milhões de dólares, certamente. E a ele, quanto lhe cabia? Em comparação, apenas uma gorjeta, pensava.

Dois dos homens azuis passaram umas cilhas de cavalo sob a estátua e levantaram-na desta forma, com enorme esforço. Nessa altura, Armadillo compreendeu por que razão o Especialista tinha exigido que levasse seis bandidos. Agora faziam-lhe falta os dois que tinham morrido nas armadilhas do palácio.

A volta não foi mais fácil, apesar de já conhecerem o caminho e poderem evitar vários dos obstáculos, porque levavam o Rei e a estátua, que lhes retardavam os movimentos. Depressa se deu conta, no entanto, de que ao fazer o caminho inverso as armadilhas não se activavam. Isso tranquilizou-o, mas não se apressou nem baixou as defesas porque receava que aquele palácio albergasse muitas surpresas desagradáveis. No entanto, chegaram à Última Porta sem imprevistos. Ao atravessarem o umbral, viram no chão os corpos dos guardas reais apunhalados tal como os tinham deixado. Nenhum deles se apercebeu de que um dos jovens soldados ainda respirava.

Recorrendo ao GPS, os foragidos percorreram o labirinto de salas com várias portas e chegaram finalmente ao jardim do palácio ainda na sombra, onde os esperava o resto do bando. Tinham aprisionado Judit Kinski. De acordo com as ordens, ela não devia ser adormecida com injecções como tinham feito ao Rei, e também não a podiam maltratar. Os bandidos, que nunca tinham visto a mulher, não percebiam qual era o objectivo de a levarem com eles e Tex Armadillo não deu explicações.

Tinham roubado um camião do palácio, que esperava na rua, junto dos cavalos dos bandidos. Tex Armadillo evitou olhar de frente para Judit Kinski, que se mantinha bastante tranquila, dadas as circunstâncias, e mandou os seus homens colocarem-na no veículo junto do Rei e da estátua, cobertos com uma lona. Pôs-se ao volante, porque mais ninguém sabia conduzir, acompanhado pelo chefe dos guerreiros azuis e outro dos bandidos. Enquanto o camião se dirigia para o estreito caminho das montanhas, os outros dispersaram-se. Reunir-se-iam mais tarde num local do Bosque dos Tigres, como ordenara o Especialista e, daí, empreenderiam a marcha até Chenthan Dzong.

Tal como estava previsto, o camião teve de parar à saída de Tunkhala, onde o general Myar Kunglung tinha colocado uma patrulha para controlar o caminho. Foi uma brincadeira de crianças para Tex Armadillo e para os bandidos colocar fora de combate os três homens que faziam guarda e vestir os seus uniformes. O camião estava pintado com os emblemas da casa real, de modo que puderam passar pelos restantes controlos sem serem incomodados e chegar assim ao Bosque dos Tigres.

O imenso bosque tinha sido originalmente a coutada de caça dos reis, mas há vários séculos que ninguém se dedicava a esse cruel desporto. O imenso parque convertera-se numa reserva natural, onde proliferavam as espécies de plantas e de animais mais raros do Reino Proibido. Na Primavera os tigres fêmea iam para lá ter as suas crias. O clima único do país que, consoante as estações, oscilava entre a humidade temperada dos trópicos e o frio invernoso das alturas montanhosas, dava origem a uma flora e fauna extraordinárias, um verdadeiro paraíso para os ecologistas. A beleza do lugar, com as suas árvores milenares, os seus regatos cristalinos, as suas orquídeas, rododendros e aves coloridas, não teve qualquer efeito em Tex Armadillo ou nos bandidos. A única coisa que lhes interessava era não atrair os tigres e sair dali o mais depressa possível.

O americano libertou Judit Kinski.

- O que está a fazer?! - exclamou o chefe dos bandidos, ameaçadora-mente.

- Não pode fugir. Para onde iria? - disse o outro, em jeito de explicação.

Em silêncio, a mulher esfregou os pulsos e os tornozelos, onde as cordas tinham deixado marcas vermelhas. Os olhos dela observavam o local, seguiam cada movimento dos seus raptores e voltavam sempre a Tex Armadillo, que continuava a desviar os olhos como se não resistisse ao olhar dela. Sem pedir licença, Judit aproximou-se do Rei e, com delicadeza, para não o magoar nos lábios, foi tirando aos poucos a fita-cola que o amordaçava. Inclinou-se e colocou-lhe o ouvido no peito.

- Depressa passará o efeito da injecção - comentou Armadillo.

- Não lhe dêem mais que o coração pode falhar-lhe - disse ela, num tom de voz que não parecia uma súplica, mas uma ordem, cravando as suas pupilas castanhas em Tex Armadillo.

- Não será necessário. Além do mais ele terá de montar um cavalo, de modo que é melhor ir despertando - replicou ele, voltando-lhe as costas.

Quando os primeiros raios de sol atravessaram as copas cerradas, a luz irrompeu dourada, como mel espesso, acordando os macacos e os pássaros num coro alvoroçado. Do chão evaporava-se o orvalho da noite, envolvendo a paisagem numa bruma amarela que esfumava os contornos das árvores gigantescas. Um casal de ursos panda baloiçava-se num dos ramos por cima das suas cabeças. Já amanhecia quando o bando do Escorpião finalmente se reuniu. Assim que a luz se tornou suficiente, Armadillo dedicou-se a tirar fotografias da estátua com uma máquina Polaroid, depois deu ordens para a cobrirem com a mesma lona que tinham usado no camião e amarrarem-na com cordas.

Tinham de abandonar o veículo e continuar, montanha acima, no lombo dos cavalos, por veredas quase intransitáveis que ninguém usava desde que o terramoto mudara a geografia do sítio e Chenthan Dzong, bem como outros mosteiros da região, foi abandonado. Os guerreiros azuis, que passavam a vida em cima dos cavalos e estavam habituados a todo o tipo de terrenos, eram certamente os únicos capazes de lá chegar. Conheciam bem as montanhas e sabiam que, uma vez paga a sua recompensa em dinheiro e armas, poderiam chegar ao norte da índia em três ou quatro dias. Por outro lado, Tex Armadillo contava com o helicóptero, que devia recolhê-lo no mosteiro juntamente com o saque.

O Rei tinha acordado, mas o efeito da droga persistia, estava confuso e enjoado, sem saber o que tinha acontecido. Judit Kinski ajudou-o a sentar-se e explicou-lhe que tinham sido raptados e que os bandidos tinham roubado o Dragão de Ouro. Tirou um pequeno cantil da carteira, que por milagre não se perdera na aventura, e deu-lhe a beber um gole de uísque. O álcool reanimou-o e ele conseguiu sentar-se.

- O que significa isto?! - exclamou o Rei num tom de voz autoritário que ninguém ouvira anteriormente.

Ao ver que estavam a colocar a estátua numa plataforma metálica com rodas que seria puxada por cavalos, compreendeu a dimensão da desgraça.

- Isto é um sacrilégio! O Dragão de Ouro é o símbolo do nosso país. Existe uma maldição muito antiga contra quem profanar a estátua - avisou o Rei.

O chefe dos bandidos levantou o braço para o espancar, mas o americano afastou-o com um empurrão.

- Cale-se e obedeça, se não quiser mais problemas – ordenou ao monarca.

- Libertem a menina Kinski, ela é uma estrangeira, não tem nada a ver com este assunto - replicou o soberano com voz firme.

- Já me ouviu, cale-se ou ela pagará as consequências, entendido? -advertiu-o Armadillo.

Judit Kinski agarrou num braço do Rei e sussurrou-lhe que, por favor, ficasse quieto porque de momento não podiam fazer nada, mais valia esperar que surgisse uma oportunidade para agirem.

- Vamos, não percamos mais tempo - ordenou o chefe dos bandidos.

- O Rei ainda não pode montar - disse Judit Kinski, ao vê-lo vacilar como um ébrio.

- Montará com um dos meus homens até se recompor - decidiu o americano.

Armadillo lançou o camião numa ribanceira, onde ficou meio enterrado. Depois, taparam-no com ramos e, pouco depois, empreenderam a marcha em fila indiana em direcção à montanha. O dia estava claro, mas os cumes dos Himalaias desapareciam entre manchas de nuvens. Tinham de subir continuamente, passando por uma região de bosque semitropical, onde cresciam bananeiras, rododendros, magnolias, hibiscos e muitas outras espécies. Com a altitude, a paisagem mudava abruptamente, o bosque desaparecia e começavam os perigosos desfiladeiros de montanha, cortados frequentemente por penhascos que rolavam dos cumes ou por quedas de água, que transformavam o chão num lodaçal escorregadio. A subida era arriscada, mas o americano confiava na perícia dos homens azuis e na força extraordinária dos seus corcéis. Assim que chegassem às montanhas não conseguiriam alcançá-los, porque ninguém suspeitava onde se encontravam e, de qualquer forma, levavam um grande avanço.

Tex Armadillo nem suspeitava que, enquanto levava a cabo o roubo da estátua no palácio, a caverna dos bandidos tinha sido arrasada e que os seus ocupantes estavam amarrados dois a dois, esfomeados, com frio e cheios de medo de que aparecesse um tigre e os transformasse em jantar. Os prisioneiros tiveram sorte porque, antes de aparecerem as feras, tão abundantes naquela região, apareceu um destacamento de soldados reais. Perna indicara-lhes a localização do acampamento da Seita do Escorpião.

A jovem tinha conseguido chegar com as suas companheiras a uma estrada rural onde foram, finalmente, encontradas por um camponês que levava os seus vegetais para o mercado numa carroça puxada por cavalos. Primeiro julgou que eram monjas, devido às cabeças rapadas, mas chamou-lhe a atenção todas elas, excepto uma, estarem vestidas de festa. O homem não tinha acesso ao jornal ou à televisão, mas soubera pela rádio, como todos os outros habitantes do país, que seis jovens tinham sido sequestradas. Como não tinha visto as suas fotografias, não pôde reconhecê-las, mas bastou-lhe um olhar para se aperceber de que aquelas raparigas estavam em apuros. Perna postou-se a meio do caminho de braços abertos, obrigando-o a parar, e contou-lhe em poucas palavras a sua situação.

- O Rei está em perigo, tenho de conseguir ajuda imediatamente -concluiu.

O camponês deu meia volta e levou-as a trote até ao casario de onde vinha. Aí arranjaram um telefone e, enquanto Perna tentava estabelecer ligação com as autoridades, as suas companheiras recebiam os cuidados das mulheres da aldeia. As raparigas, que tinham dado mostras de muita coragem durante aqueles dias terríveis, foram-se abaixo ao saber-se a salvo e choravam, pedindo que as devolvessem o mais depressa possível às suas famílias. Mas Perna não pensava nisso, mas em Dil Bahadur e no Rei.

O general Myar Kunglung pôs-se ao telefone assim que o avisaram do sucedido e falou directamente com Perna. Ela repetiu o que sabia mas absteve-se de mencionar o Dragão de Ouro, primeiro, porque não tinha a certeza de que os bandidos o tivessem roubado e, segundo, porque percebeu instintivamente que, sendo assim, não convinha que o povo o soubesse. A estátua encarnava a alma da nação. Não lhe cabia a ela propagar uma notícia que podia ser falsa, decidiu.

Myar Kunglung deu instruções ao posto de guarda mais próximo, para que fossem buscar as raparigas à aldeia e as levassem para a capital. A meio caminho, ele próprio lhes saiu ao encontro, levando consigo Wandgi e Kate Cold. Ao ver o pai, Perna saltou do jipe onde viajava e correu para o abraçar. O pobre homem chorava como um bebé.

- O que te fizeram? - perguntava Wandgi, examinando a filha por todos os lados.

- Nada, papá, não me fizeram nada, juro-te; mas isso agora não importa, temos de resgatar o Rei, que corre um perigo mortal.

- Isso compete ao exército, não a ti. Tu voltas comigo para casa!

- Não posso, papá! O meu dever é ir a Chenthan Dzong!

- Porquê?

- Porque o prometi a Dil Bahadur - replicou ela, corando. Myar Kunglung trespassou a jovem com o seu olhar de raposa e alguma coisa deve ter interpretado na cor avermelhada das faces e no tremor dos lábios dela, porque se inclinou profundamente diante do guia, com as mãos diante da cara.

- Talvez o honorável Wandgi permita que a sua corajosa filha acompanhe este humilde general. Creio que será bem cuidada pelos meus soldados - pediu.

O guia compreendeu que, apesar da reverência e do tom de voz, o general não aceitaria um não por resposta. Teve de permitir que Perna partisse, pedindo ao céu que a trouxesse de volta sã e salva.

A boa nova de que as jovens tinham escapado às garras dos seus raptores, abalou o país. No Reino Proibido, as notícias circulavam de boca em boca com tanta rapidez que, quando quatro das raparigas apareceram na televisão contando as suas peripécias, com as cabeças cobertas por xailes de seda, já toda a gente sabia. As pessoas saíram à rua para festejar, levaram flores de magnolia às famílias das jovens e aglomeraram-se nos templos para fazer oferendas de agradecimento. As rodas e as bandeiras de oração elevavam no ar a alegria irreprimível daquela nação.

A única que não teve motivos para celebrar foi Kate Cold, que estava à beira de um colapso nervoso porque Nadia e Alexander continuavam ainda perdidos. Naquele momento ia cavalgando em direcção a Chenthan Dzong, juntamente com Perna e Myar Kunglung, à cabeça de um destacamento de soldados, por um caminho de curvas que serpenteava na direcção dos cumes. Perna contara-lhes o que ouvira da boca dos bandidos acerca do Dragão de Ouro. O general confirmou as suas suspeitas.

- Um dos guardas que vigiavam a Última Porta sobreviveu à punhalada e viu-os levarem o nosso amado Rei e o Dragão. Isto deve permanecer em segredo, Perna. Fizeste bem em não mencioná-lo pelo telefone. A estátua vale uma fortuna, mas não percebo porque levaram o Rei... - disse.

- O mestre Tensing, o seu discípulo e os dois jovens estrangeiros foram para o mosteiro. Levam-nos muitas horas de avanço. Possivelmente chegarão antes de nós - informou-o Perna.

- Essa pode ser uma grave imprudência, Perna. Se alguma coisa acontecer ao príncipe Dil Bahadur, quem ocupará o trono...? - perguntou o general, suspirando.

- Príncipe? Que príncipe? - interrompeu Perna.

- Dil Bahadur é o príncipe herdeiro. Não sabias, rapariga?

- Ninguém mo disse. De qualquer forma, não acontecerá nada ao príncipe - afirmou ela, mas imediatamente se apercebeu de que tinha cometido uma falta de cortesia e corrigiu-a: - Quer dizer, possivelmente o karma do honorável príncipe é resgatar o nosso amado soberano e sobreviver ileso...

- Talvez... - acedeu o general, preocupado.

- Não pode enviar aviões ao mosteiro? - sugeriu Kate impaciente perante uma guerra levada a cabo a cavalo, como se tivessem retrocedido vários séculos.

- Não há onde aterrar. Talvez um helicóptero possa fazê-lo, mas é necessário um piloto bastante experiente, porque teria de descer num funil de correntes de ar - explicou-lhe o general.

- Possivelmente, o honorável general estará de acordo comigo em que é preciso tentá-lo... - rogou Perna, com os olhos brilhantes de lágrimas.

- Só há um piloto capaz de o fazer e vive no Nepal. É um herói, o mesmo que há alguns anos subiu de helicóptero ao Evereste para salvar alguns alpinistas.

- Lembro-me do caso, o homem é muito famoso, entrevistámo-lo para a International Geographic - comentou Kate.

- Talvez consigamos comunicar com ele e trazê-lo nas próximas horas- disse o general.

Myar Kunglung não desconfiava que esse piloto fora contratado com bastante antecedência pelo Especialista e, nesse mesmo dia, voava do Nepal para os cumes do Reino Proibido.

A coluna composta por Tensing, Dil Bahadur, Alexander, Nadia com Borobá ao ombro e os dez guerreiros yetis, aproximou-se do despenhadeiro onde se erguiam as ruínas de pedra de Chenthan Dzong. Os yetis, bastante excitados, grunhiam, empurravam-se e davam dentadas amistosas entre eles, preparando-se, felizes, para o prazer de uma batalha. Há muitos anos que esperavam por uma oportunidade de se divertir a sério como a que tinham agora. Tensing tinha de parar de vez em quando para os acalmar.

- Mestre, acho que finalmente me lembro onde já ouvi o idioma dos yetis: nos quatro mosteiros onde me ensinaram o código do Dragão de Ouro- sussurrou Dil Bahadur a Tensing.

- Talvez o meu discípulo também se lembre de que, na nossa visita ao Vale dos Yetis, lhe disse que havia uma razão importante pela qual lá fôramos - replicou o lama, no mesmo tom de voz.

- Tem a ver com a língua dos yetis?

- Possivelmente... - disse Tensing, sorrindo.

O espectáculo era surpreendente. Estavam rodeados por uma beleza impressionante: cumes cobertos de neve, rochas enormes, cascatas, precipícios cortados a pique nos montes, corredores de gelo. Ao ver aquela paisagem, Alexander Cold compreendeu por que razão os habitantes do Reino Proibido acreditavam que o pico mais alto do seu país, a sete mil metros de altura, era o mundo dos deuses. O jovem americano sentiu que o seu íntimo se enchia de luz e de ar limpo, que alguma coisa se abria na sua mente, que a cada minuto mudava, amadurecia, crescia. Pensou que seria muito triste deixar este país e regressar à falsamente denominada civilização.

Tensing interrompeu-lhes os pensamentos para lhe explicar que os dzongs, ou mosteiros fortificados, que existiam apenas no Butão e no Reino do Dragão de Ouro, eram uma fusão de convento de monges e caserna de soldados. Erguiam-se na confluência dos rios e nos vales, para proteger as povoações dos arredores. Construíam-se sem planos nem pregos, sempre de acordo com o mesmo desenho. O palácio real em Tunkhala fora, originalmente, um destes dzongs, até as necessidades do governo obrigarem a uma ampliação e modernização, convertendo-o num labirinto de mil aposentos.

Chenthan era uma excepção. Erguia-se sobre um terraço natural tão escarpado, que era difícil imaginar como levaram os materiais e construíram o edifício, que resistiu a tempestades de Inverno e a avalanchas durante séculos, até ter sido destruído pelo terramoto. Existia uma vereda estreita escavada na rocha, mas era pouco utilizada porque os monges tinham pouco contacto com o resto do mundo. Esse caminho, praticamente talhado na montanha, dispunha de várias pontes de madeira e cordas, suspensas sobre os precipícios. A rota não era utilizada desde o terramoto e as pontes estavam em muito mau estado, com as madeiras apodrecidas e metade das cordas cortadas, mas Tensing e o seu grupo não podiam levar esses perigos em consideração, porque não havia alternativa. Além disso, os yetis atravessa-vam-nas confiadamente porque, nas suas curtas incursões fora do vale à procura de alimento, tinham passado por ali. Ao ver os restos de um homem no fundo de uma quebrada, adivinharam que Tex Armadillo e os seus sequazes os tinham ultrapassado.

- A ponte não é segura, aquele homem caiu - disse Alexander, apontando para ele.

- Há pegadas de cavalos. Devem ter desmontado aqui e soltaram os animais. Continuaram a pé, levando o dragão numa padiola - observou Dil Bahadur.

- Não consigo imaginar como terão os cavalos chegado até aqui. Devem ser como cabras - disse Alexander.

- Possivelmente são corcéis tibetanos, treinados para subir, resistentes e ágeis e, por isso mesmo, muito valiosos. Os donos devem ter tido boas razões para os abandonar - aventurou Dil Bahadur.

- Temos de atravessar - interrompeu-os Nadia.

- Se os bandidos o fizeram arrastando o peso do Dragão de Ouro, nós também podemos fazê-lo - insinuou Dil Bahadur.

- Isso pode ter enfraquecido ainda mais a ponte. Talvez não fosse má ideia testá-la antes de nos pormos em cima - determinou Tensing.

O abismo não era muito largo, mas também não era suficientemente estreito para usar as varas ou bordões de madeira de Tensing e do príncipe. Nadia sugeriu que se amarrasse Borobá a uma corda e o mandassem testar a ponte, mas o macaco era demasiado leve de modo que, mesmo que ele a atravessasse, não havia quaisquer garantias de que os outros conseguissem fazer o mesmo. Dil Bahadur examinou o terreno e viu que, felizmente, no outro lado, havia uma raiz grossa. Alexander amarrou uma ponta da sua corda a uma flecha e o príncipe disparou-a com a precisão habitual, cravando-a fortemente na raiz. Alexander amarrou a outra corda à cintura e, suportado por Tensing, aventurou-se lentamente a atravessar a ponte, testando cada pedaço de madeira com cuidado antes de pôr o seu peso em cima.

Se a ponte cedesse, a primeira corda podia segurá-lo por algum tempo. Não sabiam se a flecha suportaria o peso, mas não sendo assim, a segunda corda podia impedir que caísse no vazio. Nesse caso, o mais importante era não se esmagar como um insecto contra as paredes laterais de rocha. Esperava que a sua experiência como alpinista o ajudasse.

Passo a passo, Alexander atravessou a ponte. Ia a meio quando duas tábuas se partiram e ele escorregou. Um grito de Nadia ressoou nos cumes, devolvido pelo eco. Durante alguns minutos intermináveis ninguém se mexeu, até ter parado o balanço da ponte e o jovem ter recuperado o equilíbrio. Muito lentamente, Alexander puxou a perna que ficara pendurada no buraco entre as tábuas partidas, depois atirou-se para trás preso pela primeira corda, até ter conseguido pôr-se novamente de pé. Estava a avaliar se devia continuar ou retroceder, quando ouviram um ruído estranho, como se a terra roncasse. A primeira suspeita foi de que se tratava de um tremor de terra como tantos outros que havia nessas regiões, mas depois viram que rolavam pedras e neve do cume da montanha. O grito de Nadia provocara uma avalancha.

Impotentes, os amigos e os yetis viram um rio mortal de penhascos precipitar-se sobre Alexander e a frágil ponte. Não era possível fazer nada, era impossível retroceder ou avançar.

Tensing e Dil Bahadur concentraram-se automaticamente, enviando energia ao rapaz. Noutras circunstâncias, Tensing teria tentado a prova máxima de um tulku como ele, reencarnação de um grande lama: alterar a vontade da natureza. Em momentos de verdadeira necessidade, alguns tulkus conseguiam fazer parar o vento, desviar tempestades, evitar inundações em tempos de chuva e impedir geadas, mas Tensing nunca tivera de o fazer. Não era uma coisa que se pudesse praticar, como as viagens astrais. Agora era tarde para tentar mudar o rumo da avalancha e salvar o rapaz americano. Tensing utilizou os seus poderes mentais, transferindo para ele a imensa força do seu próprio corpo.

Alexander ouviu o rugido da avalancha de pedras e viu a nuvem de neve que se levantou, cegando-o. Soube que ia morrer e a descarga de adrenalina foi como uma enorme descarga de electricidade, apagando qualquer pensamento da sua mente e deixando-o apenas à mercê do instinto. Uma energia sobrenatural arrebatou-o e, num milésimo de segundo, o seu corpo transformou-se no jaguar negro do Amazonas. Com um rugido terrível e um salto formidável chegou ao outro lado do precipício aterrando nas suas quatro patas de felino, enquanto as pedras caíam ruidosamente atrás de si.

Os amigos não souberam que se tinha salvado milagrosamente, porque a neve e a terra pulverizadas pelos penhascos os impediram. Nenhum deles, excepto Nadia, viu o rapaz até a derrocada ter assentado. No momento da morte, quando julgou que Alexander estava perdido, ela teve a mesma reacção que ele, a mesma poderosa descarga de energia, a mesma fantástica transformação. Borobá ficou estirado no chão enquanto ela se elevava, transformada em águia branca. E, da altura do seu elegante voo, pôde ver o jaguar negro aferrado com as suas garras à terra firme.

 

***

 

Assim que passou o perigo iminente, Alexander recuperou o seu aspecto habitual. O único vestígio da sua experiência mágica, eram os dedos ensanguentados e a expressão do rosto, com os lábios arreganhados e os dentes expostos numa careta feroz. Também sentiu o cheiro forte do jaguar colado à sua pele, um cheiro de fera carnívora. A avalancha fez cair um pedaço daquele caminho estreito e destruiu a maior parte das madeiras da ponte, mas as cordas antigas e as de Alexander ficaram intactas. O jovem prendeu-as fortemente num dos lados, enquanto Tensing o fazia do outro e, dessa forma, conseguiram atravessar. Os yetis tinham uma agilidade de macaco e estavam habituados a este tipo de terreno, de modo que não tiveram dificuldades em passar, pendurados numa corda. Dil Bahadur pensou que, se antes recorria a um bordão, podia muito bem usar agora uma corda bamba, como o fez o seu mestre com tanta graciosidade. Tensing não precisou de levar Nadia, apenas Borobá, uma vez que a águia continuava a voar por cima das suas cabeças. Alexander perguntou-lhe porque não pudera Nadia transformar-se no seu animal totémico quando partiu o ombro e teve de enviar uma projecção mental para pedir socorro. O lama explicou-lhe que a dor e o esgotamento a mantiveram retida na sua forma física.

Foi o grande pássaro branco que os avisou de que Chenthan Dzong se erguia alguns metros à frente, depois de um cotovelo da montanha. Os cavalos amarrados no exterior indicavam a presença dos foragidos, mas não se via ninguém de guarda. Era evidente que não estavam à espera de visitas.

Tensing, por telepatia, recebeu a mensagem da águia e reuniu os seus para decidirem qual a melhor maneira de actuar. Os yetis não entendiam nada de estratégia, a sua forma de lutar era simplesmente atirar-se para a frente, brandindo os seus cacetes e gritando como demónios, o que também poderia ser bastante eficaz, desde que não fossem recebidos por uma saraivada de balas. Primeiro, tinham de averiguar exactamente quantos homens estavam no mosteiro e como estavam distribuídos, com que armas contavam, onde tinham o Rei e o Dragão de Ouro.

De repente, Nadia apareceu a meio deles com naturalidade, como se nunca tivesse estado a voar em forma de ave. Nenhum deles fez qualquer comentário.

- Se o meu honorável mestre me permitir, eu irei à frente pediu Dil Bahadur.

- Talvez esse não seja o plano mais acertado. Tu és o futuro rei. Se acontecer alguma coisa ao teu pai, a nação conta apenas contigo - replicou o lama.

- Se o honorável mestre o permitir, irei eu - disse Alexander.

- Se o honorável mestre o permitir, creio que é melhor ir eu, que tenho o poder da invisibilidade - interrompeu Nadia.

- De maneira nenhuma - exclamou Alexander.

- Porquê? Não confias em mim, Jaguar?

- É muito perigoso.

- É tão perigoso para mim como para ti. Não vejo qualquer diferença.

- Talvez a menina-águia tenha razão. Cada um oferece o que tem. Neste caso, é muito conveniente ser invisível. Tu, Alexander, coração de gato negro, deverás lutar ao lado de Dil Bahadur. Os yetis irão comigo. Receio ser o único aqui que consegue comunicar com eles e controlá-los. Assim que se aperceberem de que estão perto dos inimigos, ficarão como loucos - replicou Tensing.

- Agora é que precisávamos de tecnologia moderna. Um walkie-talkie viria mesmo a calhar. Como nos avisará Águia de que poderemos avançar? -perguntou Alexander.

- Possivelmente da mesma forma que nos comunicamos agora... -sugeriu Tensing e Alex começou-se a rir, porque se deu conta de que estavam há algum tempo a trocar ideias sem palavras.

- Tenta não ficar assustada, Nadia, porque isso confunde as ideias. Não duvides do método, porque isso também impede a recepção. Concentra-te numa única imagem de cada vez - aconselhou-a o príncipe.

- Não te preocupes. A telepatia é como falar com o coração disse ela, tranquilizando-o.

- Talvez a nossa única vantagem seja a surpresa - advertiu o lama.

- Se o honorável mestre me permitir uma sugestão, creio que seria mais conveniente que, quando se dirigisse aos yetis, fosse mais directo -disse Alexander, com ironia, imitando a forma educada de falar no Reino Proibido.

- Talvez o jovem estrangeiro devesse ter um pouco mais de confiança no meu mestre - interrompeu Dil Bahadur, testando a tensão do arco e contando as flechas.

- Boa sorte - despediu-se Nadia, dando um beijo rápido na cara de Alexander.

Libertou-se de Borobá, que foi a correr encavalitar-se na nuca de Alexander, agarrando-se com força às orelhas dele, como costumava fazer na ausência da dona.

Nesse momento, um ruído semelhante à avalancha anterior, paralisou-o. Só os yetis compreenderam imediatamente que se tratava de outra coisa. Alguma coisa aterradora que nunca tinham ouvido. Atiraram-se para o chão, escondendo a cabeça com os braços, tremendo, com os cacetes esquecidos e toda a sua ferocidade substituída por uma lamúria de crias assustadas.

- Parece que é um helicóptero - disse Alexander, fazendo sinais para se entrincheirarem nas fendas e sombras da montanha, de modo a não serem vistos do ar.

- O que é aquilo? - perguntou o príncipe.

- Um aparelho semelhante ao avião. E um avião é como um papagaio com motor - respondeu o americano, sem conseguir acreditar que, em pleno século xxi, houvesse gente a viver como na Idade Média.

- Eu sei o que é um avião, vejo-os passar todas as semanas em direcção a Tunkhala - disse Dil Bahadur, sem se aborrecer com o tom de voz do seu novo amigo.

No outro lado do edifício, aparecia agora no céu um aparelho metálico. Tensing tentou acalmar os yetis, mas os cérebros daqueles seres não concebiam a ideia de uma máquina voadora.

- É uma ave que obedece a ordens. Não precisamos de temê-la somos mais ferozes - explicou-lhes, por fim, o lama, calculando que isto conseguiriam compreender.

- Isso significa que há lugar para o aparelho aterrar. Agora percebo porque se deram ao trabalho de vir até aqui e como pretendem fugir com a estátua para fora do país - concluiu Alexander.

- Ataquemos antes que fujam, se o meu honorável mestre estiver de acordo - propôs o príncipe.

Tensing fez sinal de que deviam esperar. Passou quase uma hora, até o aparelho conseguir aterrar. Não conseguiam ver a manobra do sítio onde se encontravam, mas calcularam que devia ser bastante complicada, porque o piloto fez várias tentativas, tornando a subir, dando voltas e descendo novamente, até, finalmente, ter desaparecido o ruído do motor. No silêncio primitivo daqueles cumes ouviram vozes humanas próximas e calcularam que deviam ser dos bandidos. Quando também as vozes se calaram, Tensing decidiu que tinha chegado o momento de se aproximarem.

Nadia concentrou-se até se tornar transparente como o ar e encaminhou-se para o mosteiro. Alexander ficou a tremer por ela. As batidas de tambor do seu coração eram tão fortes que receou serem audíveis pelos seus inimigos, trezentos metros à frente.

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