O Reino do Dragão de Ouro

Isabel Allende · Capítulo 18 de 19

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O Reino do Dragão de Ouro

Capítulo 18

A batalha

 

No mosteiro de Chenthan Dzong, levava-se a cabo a última parte do plano do Especialista. Quando o helicóptero pousou na pequena plataforma coberta de neve, formada noutros tempos por uma avalancha, foi recebido com entusiasmo porque se tratava de uma verdadeira proeza. Tex Armadillo tinha marcado o local da aterragem com uma cruz vermelha, traçada com pó de morango para refrescos, tal como lhe dissera o seu chefe. Do ar, a cruz via-se como uma moeda de vinte e cinco centavos, mas ao aproximar-se era um sinal bastante nítido. Além do tamanho reduzido do campo, que obrigava a manobrar com destreza para que a hélice não se esmagasse contra a montanha, o piloto tinha de navegar entre correntes de vento. Naquele sítio, os picos formavam um funil onde o vento circulava como um remoinho.

O piloto era um herói da Força Aérea do Nepal, um homem de comprovada coragem e integridade, a quem tinham oferecido uma pequena fortuna para recolher aí um «pacote» e duas pessoas. Não sabia em que consistia a carga e não sentia particular curiosidade em averiguá-lo. Bastava-lhe saber que não se tratava de drogas nem de armas. O agente que o contactara apresentara-se como membro de uma equipa internacional de cientistas, que estudavam amostras de rochas da região. As duas pessoas e o «pacote» deviam ser transportados de Chenthan Dzong para um destino desconhecido no Norte da índia, onde o piloto receberia a outra metade do seu pagamento.

O aspecto dos homens que o ajudaram a descer do helicóptero não lhe agradou. Não eram os cientistas estrangeiros que esperava, mas uns nómadas com a pele azul e expressão criminosa, com meia dúzia de punhais de diferentes formas e tamanhos à cintura. Atrás apareceu um americano com olhos azul-celeste, frios como um glaciar, que lhe deu as boas-vindas e o convidou a tomar uma chávena de café no mosteiro, enquanto os outros colocavam o «pacote» no helicóptero. Era um volume pesado, de forma estranha, envolto em lona e fortemente amarrado com cordas, que teve de ser içado por vários homens. O piloto calculou que se tratava de amostras de rochas.

O americano levou-o através de várias salas completamente em ruínas. Os tectos mal se sustinham, a maior parte das paredes tinha caído, o chão estava levantado devido ao terramoto e às raízes que foram aparecendo durante os anos de abandono. Uma erva seca e dura surgia entre as gretas. Por toda a parte havia excrementos de animais, possivelmente de tigres e cabras-monteses. O americano explicou ao piloto que, na pressa de fugirem ao cataclismo, os monges-guerreiros que moravam no mosteiro tinham deixado para trás armas, utensílios e alguns objectos de arte. O vento e outros tremores de terra tinham derrubado as estátuas religiosas, que jaziam aos pedaços pelo chão. Era difícil avançar entre os escombros e, quando o piloto tentou desviar-se, o americano agarrou-o por um braço e, de uma forma amável mas firme, levou-o até ao local onde tinham improvisado uma pequena cozinha com café instantâneo, leite condensado e bolachas.

O herói do Nepal viu grupos de homens com a pele tingida de um negro-azulado, mas não viu uma rapariga magra, toda cor de mel, que passou muito perto dele, deslizando como um espírito entre as ruínas do antigo mosteiro. Perguntou a si próprio quem seriam estes tipos de má catadura, com turbantes e túnicas, e que relação teriam com os supostos cientistas que o tinham contratado. Não estava a gostar do cariz que aquele trabalho estava a tomar. Desconfiava de que o assunto talvez não fosse assim tão legal e limpo como o tinham colocado.

- Temos de partir rapidamente porque, depois das quatro da tarde o vento aumenta - avisou o piloto.

- Não demoraremos muito. Por favor não saia daqui. O edifício está prestes a ruir e é perigoso - replicou Tex Armadillo, deixando-o com a chávena na mão e vigiado de perto pelos homens dos punhais.

No outro extremo do mosteiro, passando por inúmeras salas cobertas de escombros, estavam o Rei e Judit Kinski, sozinhos, sem cordas nem mordaças, porque, tal como disse Tex Armadillo, fugir era impossível; o isolamento do mosteiro não o permitia e a Seita do Escorpião vigiava. Nadia foi contando os bandidos à medida que avançava. Viu que as paredes exteriores de pedra estavam tão destruídas como as paredes internas; a neve amontoava-se nos cantos e havia pegadas recentes de animais selvagens, que tinham ali os seus covis e que, com certeza, tinham fugido devido à presença dos homens. «Falando com o coração», transmitiu a Tensing as suas observações. Quando chegou ao local onde estavam o Rei e Judit Kinski, avisou o lama de que estavam vivos. Nessa altura, fele decidiu que tinha chegado o momento de agir.

Tex Armadillo tinha dado ao Rei outra droga para lhe baixar as defesas e anular a vontade, mas graças ao controlo que o monarca tinha sobre o corpo e a mente, conseguiu manter-se num silêncio obstinado durante o interrogatório. Armadillo estava furioso. Não podia dar por terminada a sua missão sem averiguar o código do Dragão de Ouro. Fora esse o acordo efectuado com o cliente. Sabia que a estátua «cantava», mas de nada serviriam ao Coleccionador esses sons sem a fórmula para os interpretar. Perante os escassos resultados obtidos com a droga, com ameaças e com pancada, o americano informou o seu prisioneiro que torturaria Judit Kinski até ele revelar o segredo ou até matá-la, se fosse necessário, pesando, nesse caso, na consciência e no karma do Rei a sua morte. No entanto, quando se preparava para o fazer, chegou o helicóptero.

- Lamento profundamente que, por minha causa, você esteja nesta situação, Judit - murmurou o Rei, enfraquecido pelas drogas.

- A culpa não é sua - disse ela para o tranquilizar, mas ele achou-a realmente assustada.

- Não posso permitir que a magoem, mas também não confio nestes desalmados. Julgo que nos matarão da mesma forma, mesmo que lhes dê o código.

- Na verdade não temo a morte, Majestade, mas a tortura.

- O meu nome é Dorji. Ninguém me trata pelo nome desde que a minha mulher morreu, há muitos anos - sussurrou ele.

- Dorji... o que quer dizer o seu nome?

- Significa raio ou luz verdadeira. O raio simboliza a mente iluminada, mas eu estou muito longe de ter atingido esse estádio.

- Julgo que merece esse nome, Dorji. Nunca conheci ninguém como você. Carece totalmente de vaidade, apesar de ser o homem mais poderoso deste país - disse ela.

- Talvez esta seja a minha única oportunidade de dizer, Judit, que, antes destes infelizes acontecimentos, ponderava a possibilidade de você me acompanhar na missão de cuidar do meu povo...

- O que significa isso, exactamente?

- Pensava pedir-lhe que fosse a rainha deste modesto país. - Por outras palavras, que me casasse consigo...

- Compreendo que é absurdo falar disso agora, quando estamos prestes a morrer, mas essa era a minha intenção. Meditei muito sobre isso. Sinto que estamos destinados a fazer alguma coisa juntos. Não sei o quê, mas sinto que é o nosso karma. Não poderemos fazê-lo nesta vida, possivelmente será noutra reencarnação - disse o Rei, sem se atrever a tocá-la.

- Noutra vida? Quando?

- Dentro de cem, de mil anos, não importa, de qualquer forma a vida do espírito é uma só. A vida do corpo, pelo contrário, decorre como um sonho efémero, é pura ilusão - respondeu o Rei.

Judit voltou-lhe as costas, olhando fixamente para a parede, de modo que o Rei não conseguia ver-lhe o rosto. O monarca calculou que ela estava perturbada, tal como ele.

- Você não me conhece, não sabe como sou - acabou ela por murmurar.

- Não consigo ler a sua aura nem a sua mente como desejaria, Judit, mas posso apreciar a sua inteligência clara, a sua grande cultura, o seu respeito pela natureza...

- Mas não me pode ver por dentro!

- No seu íntimo só pode haver beleza e lealdade - assegurou-lhe o monarca.

- A inscrição do seu medalhão sugere que a mudança é possível. Você acredita realmente nisso, Dorji? Podemos transformar-nos totalmente? -perguntou Judit, olhando-o nos olhos.

- A única coisa verdadeira é que, neste mundo, tudo muda constan-temente, Judit. A mudança é inevitável, uma vez que tudo é temporário. No entanto, custa-nos muito, aos seres humanos, modificar a nossa essência e evoluir para um estádio superior de consciência. Nós, budistas, acreditamos poder mudar por vontade própria se estivermos convencidos de uma verdade, mas ninguém pode obrigar-nos a fazê-lo. Foi isso que aconteceu a Sidarta Gautama. Era um príncipe mimado que, ao ver a miséria do povo, se transformou em Buda - replicou o Rei.

- Eu acho que é muito difícil mudar... Porque confia em mim?

- Confio tanto em si, que estou disposto a dizer-lhe qual o código do Dragão de Ouro. Não suporto a ideia de que sofra, muito menos por minha causa. Não devo ser eu a decidir quanto sofrimento você consegue suportar, essa é uma decisão sua. Por isso o segredo dos reis do meu país deve ficar nas suas mãos. Entregue-o a estes malfeitores em troca da sua vida, mas, por favor, faça-o depois da minha morte - ofereceu o soberano.

- Não se atreveriam a matá-lo! - exclamou ela.

- Isso não acontecerá, Judit. Eu próprio porei fim à minha vida, porque não desejo que a minha morte pese na consciência de outros. O meu tempo aqui terminou. Não se preocupe, será sem violência, deixarei apenas de respirar - explicou-lhe o Rei.

- Oiça atentamente, Judit, dar-lhe-ei o código e você deve memorizá-lo- disse o Rei. - Quando a interrogarem, explique que o Dragão de Ouro emite sete sons. Cada combinação de quatro sons representa um dos 840 ideogramas de uma linguagem desaparecida, a linguagem dos yetis.

- Refere-se ao abominável homem das neves? Existem realmente esses seres? - perguntou ela, incrédula.

- Restam muito poucos e degeneraram, agora são como animais e comunicam com muito poucas palavras; no entanto, há três mil anos tiveram uma linguagem e uma certa forma de civilização.

- Essa linguagem está escrita nalgum lado?

- É preservada na memória de quatro lamas em quatro mosteiros diferentes. Ninguém, excepto o meu filho Dil Bahadur e eu, conhece o código completo. Estava escrito num pergaminho, mas os chineses roubaram-no quando invadiram o Tibete.

- De modo que a pessoa que tiver o pergaminho pode decifrar as profecias... - disse ela.

- O pergaminho está escrito em sânscrito mas, se for molhado com leite de iaque, aparece um dicionário numa outra cor, onde cada ideograma está traduzido na combinação dos quatro sons que o representam. Compreende, Judit?

- Perfeitamente! - interrompeu Tex Armadillo, com uma expressão de triunfo e uma pistola na mão.

- Toda a gente tem o seu calcanhar de Aquiles, Majestade. Já vê que obtivemos o código, no fim de contas. Admito que estava um pouco preocupado, pensei que levaria o segredo para a tumba, mas o meu chefe acabou por ser muito mais astuto que você - acrescentou.

- O que significa isto? - perguntou o monarca, confuso.

- Nunca suspeitou dela, homem de Deus? Nunca se interrogou como e por que razão entrou Judit Kinski na sua vida, precisamente agora? Não consigo entender como não investigou o passado da paisagista especialista em túlipas antes de a trazer para o seu palácio. Como você é ingénuo! Olhe para ela. A mulher pela qual pensava morrer é minha chefe, o Especialista. Ela é o cérebro por detrás de toda esta operação - anunciou o americano.

- É verdade o que diz este homem, Judit? - perguntou o Rei, incrédulo.

- Como julga que roubámos o seu Dragão de Ouro? Ela descobriu como entrar no Recinto Sagrado, colocando uma máquina de filmar no seu medalhão. E, para o fazer, teve de conquistar a sua confiança - disse Tex Armadillo.

- Você usou os meus sentimentos... - murmurou o monarca, pálido como cinza, com os olhos cravados em Judit Kinski, que não foi capaz de suportar o seu olhar.

- Não me diga que até se apaixonou por ela! Que coisa mais ridícula! -exclamou o americano, dando uma gargalhada seca.

- Basta, Armadillo! - ordenou-lhe Judit.

- Ela tinha a certeza de que não conseguiríamos arrancar-lhe o segredo recorrendo à força, por isso se lembrou da ameaça de a torturarmos a ela. É tão profissional, que pensava cumpri-la, só para o assustar e obrigá-lo a confessar - explicou Tex Armadillo.

- Está bem, Armadillo, isto está acabado. Não é necessário magoar o Rei, já podemos partir - ordenou-lhe Judit Kinski.

- Não tão depressa, chefe. Agora é a minha vez. Não julga que vou entregar-lhe a estátua, não é verdade? Porque faria isso? Vale muito mais que o seu peso em ouro e penso negociar directamente com o cliente.

- Enlouqueceu, Armadillo? - ladrou a mulher, mas não pôde continuar porque ele a interrompeu, colocando-lhe a pistola à frente da cara.

- Dê-me o gravador ou estoiro-lhe os miolos, senhora - ameaçou-a Armadillo.

Por um segundo, as pupilas sempre alerta de Judit Kinski dirigiram-se para a sua carteira, que estava no chão. Foi apenas um pestanejar, mas isso deu a solução a Armadillo. O homem inclinou-se para apanhar a carteira, sem deixar de apontar para ela, e esvaziou o seu conteúdo no chão. Apareceu uma combinação de artigos femininos, uma pistola, algumas fotografias e alguns aparelhos electrónicos que o Rei nunca tinha visto. Várias fitas gravadas, num formato minúsculo, caíram também. O americano deu-lhes um pontapé, porque não eram essas que procurava. Só lhe interessava aquela que ainda estava no gravador.

- Onde está o gravador? - gritou, furioso.

Enquanto, com uma mão, mantinha a pistola contra o peito de Judit Kinski, com a outra, revistava-a de cima a baixo. Por fim, ordenou-lhe que tirasse o cinto e as botas, sem encontrar nada. De súbito reparou na bracelete larga, de osso talhado, que lhe enfeitava o braço.

- Tire-a! - ordenou-lhe, num tom de voz que não admitia demoras.

Contrafeita, a mulher tirou o adorno e entregou-o. O americano retrocedeu alguns passos para o examinar à luz e deu um grito de triunfo. Ali escondia-se um minúsculo gravador, que teria feito as delícias do mais sofisticado espião. Em matéria de tecnologia, a Especialista estava na vanguarda.

- Vai-se arrepender disto, Armadillo, juro. Ninguém brinca comigo -rosnou Judit, desfigurada pela raiva.

- Nem você nem este velho patético viverão para se vingar! Cansei-me de obedecer a ordens. Você já passou à história, chefe. Tenho a estátua, o código e o helicóptero, não preciso de mais nada. O Coleccionador ficará muito satisfeito - replicou ele.

Um instante antes de Tex Armadillo apertar o gatilho, o Rei empurrou violentamente Judit Kinski, protegendo-a com o seu corpo. Abala que lhe estava destinada acertou-lhe a meio do peito. A segunda bala arrancou faíscas na parede de pedra, porque Nadia Santos tinha corrido como um bólide, chocando com todas as suas forças contra o americano e atirando-o ao chão.

Armadillo levantou-se de um salto, com a agilidade que lhe davam muitos anos de treino em artes marciais. Afastou Nadia com um murro e deu um salto de felino, caindo junto da pistola, que tinha ficado a alguma distância. Judit Kinski também correu na mesma direcção, mas o homem foi mais rápido e adiantou-se-lhe.

Tensing irrompeu com os yetis na outra extremidade do mosteiro, onde a maior parte dos homens azuis aguardava, enquanto Alexander seguia Dil Bahadur em busca do Rei, orientando-se pelas imagens que Nadia enviara mentalmente. Embora Dil Bahadur tivesse lá estado anteriormente, não se lembrava bem da planta do edifício e, além disso, era-lhe difícil orientar-se entre os montes de escombros e de outros obstáculos espalhados por toda a parte. Ia à frente com o arco preparado, seguido por Alexander, armado precariamente com o bordão que o príncipe lhe emprestara.

Os jovens tentaram evitar os bandidos, mas de repente viram-se frente a dois deles que, ao vê-los, ficaram paralisados de surpresa por um instante. Essa hesitação foi suficiente para dar tempo ao príncipe de lançar uma flecha dirigida à perna de um dos seus adversários. De acordo com os seus princípios, não podia atirar a matar, mas devia imobilizá-lo. O homem caiu ao chão com um grito visceral, mas o outro já tinha dois punhais na mão, que partiram disparados contra Dil Bahadur.

A acção foi tão rápida, que Alexander ficou sem perceber como as coisas tinham acontecido. Ele nunca teria conseguido esquivar-se dos punhais, mas o príncipe moveu-se um pouco, como se executasse um discreto passo de dança, e as afiadas lâminas de aço roçaram-no apenas, sem o ferir. O inimigo não conseguiu empunhar outro punhal, porque uma flecha se lhe cravou no peito, com prodigiosa precisão, a poucos centímetros do coração, sob a clavícula, sem tocar nenhum órgão vital.

Alexander aproveitou esse momento para dar uma bordoada no primeiro bandido que, no chão e sangrando da perna, já se preparava para utilizar outro dos seus numerosos punhais. Fê-lo sem pensar, levado pelo desespero e pela urgência, mas no instante em que aquele pau grosso entrou em contacto com o crânio do outro, Alexander ouviu o ruído de uma noz ao ser partida. Isso fê-lo recuperar a razão e aperceber-se da brutalidade do seu acto. Uma onda de mal-estar invadiu-o. Ficou coberto de suores frios, a boca encheu-se-lhe de saliva e julgou que ia vomitar, mas Dil Bahadur já começara a correr e ele teve de ultrapassar a sua fraqueza e segui-lo.

O príncipe não receava as armas dos bandidos, porque se julgava protegido pelo amuleto mágico que lhe dera Tensing e que trazia ao pescoço: o excremento petrificado de dragão. Muito mais tarde, quando Alexander contou à avó Kate o que se passara, esta comentou que não fora isso mas sim o treino em Tao-shu que salvara Dil Bahadur dos punhais, permitindo-lhe esquivar-se.

- Não importa o que foi, a verdade é que funciona - replicou o neto.

Dil Bahadur e Alexander irromperam na sala onde estava o Rei, no mesmo instante em que a mão de Tex Armadillo agarrava na pistola, ultrapassando Judit Kinski num milésimo de segundo. No espaço de tempo que o americano demorou a levar o dedo ao gatilho, o príncipe lançou a sua terceira flecha, que lhe atravessou o antebraço. Um grito terrível saiu do peito de Armadillo, mas este não soltou a arma. A pistola continuou entre os seus dedos, embora fosse pouco provável que tivesse forças para apontar ou disparar.

- Não se mexa! - gritou Alexander, quase histérico, sem saber como poderia evitá-lo, uma vez que o seu bordão de nada servia contra as balas do americano.

Longe de lhe obedecer, Tex Armadillo agarrou em Nadia com o seu braço são e levantou-a como se ela fosse uma boneca, protegendo-se com o corpo dela. Borobá, que tinha seguido Dil Bahadur e Alexander, correu a pendurar-se na perna da sua dona, guinchando desesperado, mas um pontapé do americano atirou-o para longe. Embora estivesse um pouco atordoada com a pancada, a rapariga tentou defender-se debilmente, mas o braço de ferro de Armadillo não lhe permitiu fazer o mais pequeno movimento.

O príncipe avaliou as suas possibilidades. Confiava cegamente na sua pontaria, mas o risco de que o homem disparasse contra Nadia era muito grande. Impotente, viu Tex Armadillo retroceder até à saída, arrastando a rapariga inerte, na direcção do pequeno campo onde o helicóptero aguardava sobre uma fina camada de neve.

Judit Kinski aproveitou a confusão para fugir, correndo na direcção contrária e desaparecendo entre as sinuosidades do mosteiro.

Enquanto tudo isto acontecia numa das extremidades do edifício, no lado contrário também se desenrolava uma cena violenta. A maior parte dos homens azuis tinha-se concentrado nos arredores da improvisada cozinha, bebendo dos seus cantis, mastigando betei e discutindo em voz baixa a possibilidade de traírem Tex Armadillo. Ignoravam, evidentemente, que Judit Kinski era realmente quem dava as ordens, julgavam-na uma refém, tal como o Rei. O americano pagara-lhes o combinado em dinheiro sonante e sabiam que, na índia, as armas e os cavalos que completavam o acordo estavam à sua espera. Mas, depois de verem a estátua de ouro coberta de pedras preciosas, achavam que lhes era devido muito mais. Não lhes agradava a ideia de o tesouro estar fora do seu alcance, colocado no helicóptero, embora compreendessem que era a única forma de o tirar do país.

- É preciso raptar o piloto - propôs o chefe entre dentes, olhando de soslaio para o herói nepalês que, a um canto, bebia a sua chávena de café com leite condensado.

- Quem irá com ele? - perguntou um dos bandidos.

- Eu irei - decidiu o chefe.

- E quem nos garante que tu não vais ficar com o saque? - intimou-o outro dos seus homens.

O chefe, indignado, levou a mão a um dos seus punhais, mas não pôde completar o gesto, porque Tensing, seguido pelos yetis, entrou como um tornado pela ala sul de Chenthan Dzong. O pequeno destacamento era verdadeiramente aterrador. À frente ia o monge, armado com dois paus unidos por uma corrente, que encontrou entre as ruínas do que antigamente fora a sala de armas dos célebres monges-guerreiros que moravam no mosteiro fortificado. Pela forma como brandia os paus e movia o corpo, qualquer pessoa podia adivinhar que era um especialista em artes marciais. Atrás iam os dez yetis, que normalmente já tinham um aspecto bastante aterrador e que, naquela ocasião, pareciam monstros fugidos do pior pesadelo. Pareciam ter-se multiplicado por dois, provocando o alvoroço de uma horda. Armados de cacetes e pedras, com as suas couraças de couro e os seus capacetes pavorosos de cornos ensanguentados, nada tinham de humano. Gritavam e pulavam como orangotangos enlouquecidos, contentes com a oportunidade de distribuir cacetadas e, porque não, de as receber também, uma vez que isso fazia parte da diversão. Tensing mandou-os atacar, resignando-se ao facto de não conseguir controlá-los. Antes de irromper no mosteiro, elevou uma rápida oração pedindo ao céu que não houvesse mortos no confronto, porque lhe pesariam na consciência. Os yetis não eram responsáveis pelos seus actos; uma vez liberta a sua agressividade, perdiam o pouco uso da razão que tinham.

Os supersticiosos homens azuis julgaram-se vítimas da maldição do Dragão de Ouro que enviava um exército de demónios para se vingar do sacrilégio cometido. Podiam enfrentar os piores inimigos, mas a ideia de se verem diante de forças do inferno aterrorizou-os. Desataram a correr como gamos, seguidos de perto pelos yetis, perante o pavor do piloto, que se encostara à parede para os deixar passar, ainda com a chávena na mão, sem saber o que estava a acontecer à sua volta. Supostamente, tinha ido buscar alguns cientistas e, em vez disso, deu consigo a meio de um horda de bárbaros tingidos de azul, de símios extra-terrestres e de um monge gigantesco, armado como nos filmes chineses de kung-fu.

Passada a correria de bandidos e yetis, o lama e o piloto encontraram-se, subitamente, sozinhos.

- Namasté - cumprimentou o piloto, quando recuperou a voz, porque não lhe ocorreu mais nada.

- Tachu kachi - cumprimentou Tensing na língua dele, inclinando-se um pouco, como se fosse uma reunião social.

- Que diacho se passa aqui? - perguntou o primeiro.

- Talvez seja um pouco difícil de explicar. Os que usam capacetes com cornos são os meus amigos yetis. Os outros roubaram o Dragão de Ouro e sequestraram o Rei - informou-o Tensing.

- Refere-se ao lendário Dragão de Ouro? Então foi isso que puseram no meu helicóptero! - gritou o herói do Nepal, e saiu disparado na direcção da pista de aterragem.

Tensing seguiu-o. A situação parecia-lhe algo cómica, porque ainda não sabia que o Rei estava ferido. Por um buraco da parede viu os aterrorizados membros da Seita do Escorpião correndo montanha abaixo, perseguidos pelos yetis. Em vão tentou chamá-los com a sua força mental. Os guerreiros de Grr-ympr estavam a divertir-se demasiado para fazer caso disso. Os seus arrepiantes gritos de batalha tinham-se transformado em guinchos de prazer antecipado, como se fossem crianças a brincar. Tensing rezou uma vez mais para que os yetis não apanhassem nenhum bandido, pois não desejava continuar a conspurcar o seu karma com mais actos de violência.

O bom humor de Tensing alterou-se assim que saiu do mosteiro e viu a cena que se desenrolava diante dos seus olhos. Um estrangeiro, que identificou como sendo o americano ao comando dos homens azuis, de acordo com o que Nadia lhe contara, estava junto do helicóptero. Tinha um braço atravessado de lado a lado por uma flecha, mas isso não o impedia de brandir uma pistola. Com o outro braço levava Nadia praticamente suspensa no ar, apertada contra si, de modo a servir-lhe de escudo.

A uns trinta metros viu Dil Bahadur com o arco tenso e a flecha pronta, acompanhado por Alexander, apalermado e paralisado.

- Largue o arco! Afastem-se ou mato a rapariga! - ameaçou Tex Armadillo e nenhum deles duvidou de que o faria.

O príncipe largou a arma e os dois jovens retrocederam até às ruínas do edifício, enquanto Tex Armadillo tentava entrar no helicóptero arrastando Nadia, que atirou para dentro com uma força brutal.

- Espere! Não conseguirá sair daqui sem mim! - gritou, nesse momento, o piloto, adiantando-se, mas o outro já tinha posto o motor em marcha e a hélice começava a girar.

Para Tensing era a oportunidade de exercitar os seus poderes psíquicos sobrenaturais. Aprova máxima de um tulku consistia em alterar o comportamento da natureza. Tinha de se concentrar e de invocar o vento, para que este impedisse o americano de fugir com o tesouro sagrado da sua nação. No entanto, se o helicóptero fosse apanhado por um remoinho de vento em pleno voo, Nadia morreria também. A mente do lama avaliou rapidamente as suas possibilidades e decidiu que não podia arriscar, porque uma vida humana era mais importante que todo o ouro do mundo.

Dil Bahadur tornou a pegar no arco, mas era inútil atacar aquela máquina metálica com flechas. Alexander compreendeu que aquele desalmado levava Nadia e começou a gritar o nome da amiga. A jovem não conseguia ouvi-lo, mas o rugido do motor e a ventania da hélice conseguiram arrancá-la do seu atordoamento. Tinha caído como um saco de batatas em cima do banco, empurrada pelo seu raptor. No instante em que o aparelho começava a subir, Nadia aproveitou o facto de Tex Armadillo estar ocupado com os controlos, que tinha de manejar com uma só mão, enquanto o braço ferido pendia inerte, e escorregou até à porta, abriu-a e, sem olhar para baixo e sem pensar duas vezes, saltou para o vazio.

Alexander correu na sua direcção, sem querer saber do helicóptero, que balançava sobre a sua cabeça. Nadia tinha caído de mais de dois metros de altura, mas a neve amortizou a queda, caso contrário poderia ter morrido.

- Águia, estás bem? - gritou Alexander, aterrado.

Ela viu-o aproximar-se e fez-lhe um sinal, mais surpreendida que assustada com a sua proeza. O ruído do helicóptero no ar abafou as vozes.

Tensing aproximou-se também, mas a Dil Bahadur bastou-lhe saber que ela estava viva e voltou a correr para a sala onde tinha deixado o pai trespassado por uma bala de Tex Armadillo. Quando Tensing se inclinou sobre ela, Nadia gritou-lhe que o Rei estava gravemente ferido e indicou-lhe que fosse ter com ele. O monge precipitou-se para o mosteiro, seguindo o príncipe, enquanto Alexander tentava pôr a amiga mais cómoda, colocando-lhe o seu casaco sob a cabeça, a meio daquela ventania e da poeirada de neve solta que o helicóptero tinha levantado. Nadia estava bastante magoada pela queda, mas o ombro que deslocara estava no sítio.

- Parece que não vou morrer tão jovem - comentou Nadia, reunindo coragem para se levantar. Tinha a boca e o nariz cheios de sangue do murro que Armadillo lhe dera.

- Não te mexas até Tensing voltar ordenou-lhe Alexander, que não estava para brincadeiras.

Da sua posição, de costas no chão, Nadia viu o helicóptero subir como um grande insecto de prata contra o azul profundo do céu. Passou roçando a parede da montanha e subiu bamboleando-se pelo funil que os picos dos Himalaias formavam nesse sítio. Durante longos minutos pareceu que diminuía no firmamento, afastando-se cada vez mais. Nadia empurrou Alexander, que teimava em mantê-la deitada na neve, e levantou-se com grande esforço. Pôs um punhado de neve na boca, cuspindo-o a seguir, rosado de sangue. A cara começava a inchar-lhe.

- Olhem! - gritou subitamente o piloto, que não afastava os olhos do aparelho.

A máquina oscilava no ar, como uma mosca travada em pleno voo. O herói do Nepal sabia exactamente o que estava a acontecer: um remoinho de vento rodeara-o e as pás da hélice vibravam perigosamente. Começou a gesticular desesperado, gritando instruções que, evidentemente, Armadillo não conseguia ouvir. A única possibilidade de sair do remoinho era voar com ele em espiral ascendente. Alexander pensou que devia ser como o surf, era preciso apanhar a onda no momento exacto e aproveitar o impulso, caso contrário a força do mar obrigava-o a rebolar.

Tex Armadillo tinha muitas horas de voo, era um requisito indispensável na sua área de trabalho, e tinha pilotado todo o tipo de aviões, avionetas, planadores, helicópteros e até um balão. Dessa forma atravessava fronteiras sem ser visto, traficando armas, drogas e objectos roubados. Considerava-se um especialista, mas nada o tinha preparado para o que aconteceu.

Justamente quando a máquina emergia do funil e ele dava gritos de entusiasmo, como quando domava potros no seu longínquo rancho do Oeste americano, sentiu a vibração imensa que a sacudia. Compreendeu que não conseguiria controlá-la e esta começou às voltas, cada vez mais rapidamente, como se estivesse dentro de um liquidificador. Ao ruído atroador do motor e da hélice, juntou-se o rugido do vento. Tentou raciocinar, fazendo apelo aos seus nervos de aço e à experiência acumulada, mas nada do que tentou deu resultado. O helicóptero continuou a girar enlouquecido, preso pelo remoinho. De repente, um ruído ensurdecedor e uma pancada violenta fizeram Armadillo aperceber-se de que a hélice tinha partido. Manteve-se no ar durante mais uns minutos suportado pela força do vento até que este, subitamente, mudou de curso. Por alguns instantes houve um silêncio e Tex Armadillo teve a fugaz esperança de ainda conseguir manobrar, mas imediatamente começou a queda vertical.

Mais tarde, Alexander perguntou a si próprio se o homem se teria dado conta do que estava a acontecer ou se a morte o terá atingido como um raio, sem lhe dar tempo de a sentir chegar. Do sítio onde se encontrava, o rapaz não viu onde caía o helicóptero, mas todos ouviram a violenta explosão, seguida por uma coluna de fumo negro e espesso, que subia até ao céu.

Tensing encontrou o Rei inerte no chão, com a cabeça sobre os joelhos do seu filho Dil Bahadur, que lhe acariciava o cabelo. O príncipe não via o pai desde os seis anos quando, uma noite, o arrancaram da cama para o colocarem nos braços de Tensing, mas conseguiu reconhecê-lo porque durante todos esses anos tinha guardado a sua imagem na memória.

- Pai, pai... - murmurava, impotente, perante o homem que se esvaía em sangue diante dos seus olhos.

- Majestade, sou eu, Tensing - disse o lama, inclinando-se, por sua vez, sobre o soberano.

O Rei ergueu os olhos, velados pela agonia. Ao focar o olhar, viu um jovem bem parecido que era a cara da sua falecida mulher. Por gestos, pediu-lhe que se aproximasse mais.

- Ouve-me, filho, tenho de te dizer uma coisa... - murmurou. Tensing afastou-se, dando-lhes um momento de privacidade.

- Vai imediatamente ao palácio, à sala do Dragão de Ouro - ordenou o monarca com dificuldade.

- Pai, roubaram a estátua - respondeu o príncipe.

- Vai, de qualquer forma.

- Como posso fazê-lo se não for comigo?

Desde tempos ancestrais, eram sempre os reis que acompanhavam o herdeiro a primeira vez, para o ensinar a evitar as armadilhas mortais que protegiam o Recinto Sagrado. Essa primeira visita do pai e do filho ao Dragão de Ouro era um ritual de iniciação e marcava o fim de um reinado e o início de outro.

- Terás de o fazer sozinho - ordenou-lhe o Rei e fechou os olhos. Tensing aproximou-se do seu discípulo e colocou-lhe uma mão no ombro.

- Talvez devas obedecer ao teu pai, Dil Bahadur - disse o lama. Nesse momento entraram na sala, Alexander, segurando Nadia por um braço, porque os joelhos desta fraquejavam, e o piloto do Nepal, que ainda não se recompusera da perda do helicóptero e do acumular de surpresas desta missão. Nadia e o piloto ficaram a uma distância prudente, sem se atreverem a interferir no drama que se desenrolava diante dos seus olhos, entre o Rei e o seu filho, enquanto Alexander se agachava para examinar o conteúdo da carteira de Judit Kinski, que ainda estava no chão.

- Deves ir ao Recinto do Dragão de Ouro, filho - repetiu o Rei.

- Pode o meu honorável mestre Tensing vir comigo? O meu treino é apenas teórico. Não conheço o palácio nem as armadilhas. Atrás da Última Porta espera-me a morte - alegou o príncipe.

- É inútil ir contigo, porque eu também não conheço o caminho, Dil Bahadur. Agora o meu lugar é junto do Rei - replicou tristemente o lama.

- Conseguirá salvar o meu pai, honorável mestre? - suplicou Dil Bahadur.

- Farei todos os possíveis.

Alexander aproximou-se do príncipe e entregou-lhe um pequeno aparelho, cuja utilidade este desconhecia.

- Isto pode ajudar-te a encontrar o caminho dentro do Recinto Sagrado. É um GPS - disse.

- Um quê? - perguntou o príncipe, perplexo.

- Digamos que é um mapa electrónico de orientação dentro do palácio. Desta forma podes chegar ao Dragão de Ouro, tal como o fizeram Tex Armadillo e os seus homens para roubarem a estátua - explicou-lhe o amigo.

- Como é possível? - perguntou Dil Bahadur.

- Calculo que alguém tenha filmado o percurso - sugeriu Alexander.

- Isso é impossível. Ninguém, excepto o meu pai, tem acesso a essa parte do palácio. Mais ninguém consegue abrir a Última Porta nem evitar as suas armadilhas.

- Armadillo fê-lo e deve ter usado este aparelho. Judit Kinski e ele eram cúmplices. Talvez o teu pai lhe tenha mostrado a ela o caminho... -insistiu Alexander.

- O medalhão! Armadillo disse alguma coisa sobre uma máquina de filmar escondida no medalhão do Rei! - exclamou Nadia, que tinha presenciado a cena entre o Especialista e Tex Armadillo antes de os seus amigos irromperem na sala.

Nadia desculpou-se pelo que ia fazer e, com todo o cuidado, começou a revistar o corpo prostrado do monarca até encontrar o medalhão real, que escorregara e estava entre o pescoço e o casaco do Rei. Pediu ao príncipe que o ajudasse a tirá-lo e este hesitou, porque esse gesto tinha um significado profundo, uma vez que o medalhão representava o poder real e, em caso algum, se atrevia a tirá-lo ao pai. Mas a urgência na voz da sua amiga Nadia obrigou-o a agir.

Alexander levou a jóia à luz e observou-a atentamente. Descobriu imediatamente a máquina de filmar em miniatura, dissimulada entre os adornos de coral. Mostrou-a a Dil Bahadur e aos outros.

- Com certeza Judit Kinski colocou-a aqui. Este aparelho, do tamanho de uma ervilha, filmou a trajectória do Rei dentro do Recinto Sagrado. Foi assim que Tex Armadillo e os guerreiros azuis puderam segui-lo. Todos os seus passos estão gravados no GPS.

- Essa mulher, porque o fez? - perguntou o príncipe horrorizado, uma vez que na sua mente não existia o conceito de traição ou de cobiça.

- Suponho que pela estátua, que é muito valiosa - aventurou Alexander.

- Ouviram a explosão? O helicóptero chocou e a estátua foi destruída -disse o piloto.

- Talvez seja melhor assim... - suspirou o Rei, sem abrir os olhos.

- Com a maior humildade, permito-me sugerir que os dois jovens estrangeiros acompanhem o príncipe ao palácio. Alexander-jaguar e Nadia-águia têm o coração puro, tal como o príncipe Dil Bahadur e, possivelmente, poderão ajudá-lo na sua missão, Majestade. O jovem Alexander sabe usar esse aparelho moderno e a menina Nadia sabe ver e ouvir com o coração - disse Tensing.

- Só o Rei e o seu herdeiro podem entrar aí - murmurou o monarca.

- Com todo o respeito, Majestade, atrevo-me a contradizê-lo. Talvez haja momentos em que se deve quebrar a tradição... - insistiu o lama.

Às palavras de Tensing seguiu-se um longo silêncio. Parecia que as forças do ferido tinham atingido o seu limite, mas de repente ouviu-se novamente a sua voz.

- Está bem, que vão os três - aceitou, por fim, o soberano.

- Talvez não fosse de todo inútil, Majestade, eu dar uma vista de olhos à sua ferida - sugeriu Tensing.

- Para quê, Tensing? Já temos outro Rei. O meu tempo acabou.

- Possivelmente não teremos outro Rei até o príncipe provar que pode sê-lo - replicou o lama, levantando o ferido nos seus poderosos braços.

O herói do Nepal encontrou um saco-cama, que Tex Armadillo tinha deixado num canto, para improvisar uma cama onde Tensing colocou o Rei. O lama abriu o casaco ensanguentado do ferido e começou a lavar o peito para o examinar. A bala trespassara-o, deixando uma perfuração brutal com saída pelas costas. Pelo aspecto e localização da ferida e pela cor do sangue, Tensing compreendeu que os pulmões estavam comprometidos; não havia nada que ele pudesse fazer; toda a sua capacidade para curar e os seus poderes mentais de pouco serviam num caso como este. O moribundo também o sabia, mas precisava de mais algum tempo para tomar as suas últimas decisões. O lama deteve a hemorragia, ligou o tronco com força e pediu ao piloto que trouxesse água a ferver da cozinha improvisada para fazer um chá medicinal. Uma hora mais tarde, o monarca tinha recuperado o conhecimento e a lucidez, embora estivesse muito fraco.

- Filho, deverás ser melhor Rei do que eu - disse a Dil Bahadur, pedindo-lhe que pendurasse o medalhão ao pescoço.

- Pai, isso é impossível...

- Ouve-me porque não tenho muito tempo. Estas são as minhas instruções. Primeiro: casa-te rapidamente com uma mulher tão forte como tu. Ela deve ser a mãe do nosso povo e tu o pai. Segundo: preserva a natureza e as tradições do nosso reino; desconfia do que vem de fora. Terceiro: não castigues Judit Kinski, a mulher europeia. Não desejo que passe o resto da vida na prisão. Ela cometeu faltas muito graves, mas não nos compete limpar o seu karma. Terá de voltar noutra reencarnação para aprender o que não aprendeu nesta.

Só nessa altura se lembraram da mulher que fora responsável pela tragédia ocorrida. Calcularam que não iria longe. Não conhecia a região, ia desarmada, sem provisões, sem agasalhos e aparentemente descalça, uma vez que Armadillo a obrigara a tirar as botas. Mas Alexander pensou que, se tinha sido capaz de roubar o dragão daquela forma espectacular, também seria capaz de escapar ao próprio inferno.

- Não me sinto preparado para governar, pai - gemeu o príncipe, com a cabeça baixa.

- Não tens escolha, filho. Foste bem treinado, és valente e de coração puro. Pede conselho ao Dragão de Ouro.

- Foi destruído!

- Aproxima-te, tenho um segredo para te contar.

Os outros recuaram alguns passos, para os deixar a sós, enquanto Dil Bahadur encostava o ouvido à boca do Rei. O príncipe ouviu atentamente o segredo mais bem guardado do reino, o segredo que, durante dezoito séculos, só os monarcas coroados sabiam.

- Talvez seja hora de te despedires, Dil Bahadur... - sugeriu Tensing.

- Posso ficar com o meu pai até ao fim...?

- Não, filho, deves partir agora mesmo... - murmurou o soberano.

Dil Bahadur beijou o pai na testa e recuou. Tensing cingiu o seu discípulo num forte abraço. Despediam-se por muito tempo, talvez para sempre. O príncipe tinha de enfrentar a sua prova de iniciação e podia não regressar vivo; por outro lado, o lama tinha de cumprir a promessa feita a Grr-ympr, substituindo-a por seis anos no Vale dos Yetis. Pela primeira vez na sua vida, Tensing sentiu-se derrotado pela emoção. Amava aquele rapaz como um filho, mais que a si próprio, e separar-se dele doía-lhe como uma queimadura. O lama tentou manter distância e acalmar a ansiedade do seu coração. Observou o processo da sua própria mente, respirou fundo, tomando nota dos seus sentimentos desenfreados e do facto de ainda lhe faltar um longo caminho para atingir o desprendimento absoluto dos assuntos terrenos, incluindo os afectos. Sabia que no plano espiritual não existe a separação. Lembrou-se de que ele mesmo tinha ensinado ao príncipe que cada ser faz parte de uma só unidade, que tudo está ligado. Dil Bahadur e ele próprio estariam eternamente entrelaçados, nesta e noutras reencarnações. Sendo assim, porque sentia essa angústia?

- Serei capaz de chegar ao Recinto Sagrado, honorável mestre? -perguntou o jovem, interrompendo-lhe os pensamentos.

- Lembra-te que deves ser como o tigre dos Himalaias: ouve a voz da intuição e do instinto. Confia nas virtudes do teu coração - replicou o monge.

O príncipe, Nadia e Alexander iniciaram a viagem de regresso à capital. Como já conheciam a rota, iam preparados para os obstáculos. Usaram o atalho pelo Vale dos Yetis, de modo que não se cruzaram com o destacamento de soldados do general Myar Kunglung, que nesse momento subia a vereda escarpada da montanha, acompanhado por Kate Cold e Perna.

Os homens azuis, pelo contrário, não conseguiram evitar Kunglung. Tinham corrido monte abaixo, à velocidade máxima que o terreno abrupto permitia, fugindo dos demónios horripilantes que os perseguiam. Os yetis não conseguiram alcançá-los porque não se atreveram a descer para além dos seus limites habituais. Aquelas criaturas tinham gravada na memória genética a sua lei fundamental: manter-se isolados. Raras vezes abandonavam o seu vale secreto e, se o faziam, era apenas para procurar alimento nos picos mais inacessíveis, longe dos seres humanos. Isso salvou a Seita do Escorpião, porque o instinto de preservação dos yetis foi mais forte que o desejo de agarrar os seus inimigos. Houve uma altura em que decidiram parar. Não o fizeram de boa vontade porque, renunciar a uma luta apetitosa, talvez a única com que se deparariam em muitos anos, foi um sacrifício enorme. Ficaram muito tempo uivando de frustração, distribuíram algumas cacetadas entre si, para se consolarem, e depois empreenderam, cabisbaixos, o regresso às suas paragens.

Os guerreiros do Escorpião não perceberam por que razão os diabos de capacetes ensanguentados abandonavam a perseguição, mas deram graças à deusa Kali por isso. Estavam tão assustados, que a ideia de regressar para se apoderarem da estátua, como tinham planeado, nem lhes passou pela cabeça. Continuaram a descer pela única vereda possível e, inevitavelmente, encontraram-se frente a frente com os soldados do Reino Proibido.

- São eles, os homens azuis. - gritou Perna, assim que os avistou ao longe.

O general Myar Kunglung não teve dificuldade em prendê-los, porque eles não tinham hipótese de fugir. Entregaram-se sem opor qualquer resistência. Um oficial encarregou-se de os levar até à capital, vigiados pela maior parte dos soldados, enquanto Perna, Kate, o general e vários dos seus melhores homens continuavam em direcção a Chenthan Dzong.

- O que farão àqueles bandidos? - perguntou Kate ao general.

- Talvez o caso deles seja estudado pelos lamas, deliberado pelos juizes, para mais tarde o Rei decidir o seu castigo. Pelo menos, assim se fez noutros casos, mas, na realidade, não temos muita prática a castigar criminosos.

- Nos Estados Unidos passariam, com certeza, o resto das suas vidas na prisão.

- E aí atingiriam a sabedoria? - perguntou o general.

As gargalhadas de Kate foram de tal ordem que esteve prestes a cair do cavalo.

- Duvido, general - replicou limpando as lágrimas quando, finalmente, recuperou o equilíbrio.

Myar Kunglung não percebeu o que provocava tanta hilaridade à velha escritora. Concluiu que os estrangeiros são pessoas um pouco estranhas, com maneiras incompreensíveis, e que mais valia não perder energia tentando analisá-los, era suficiente aceitá-los.

Nessa altura, a noite começava a cair e foi necessário parar e montar um pequeno acampamento, aproveitando um dos socalcos cortados na montanha. Estavam impacientes por chegar ao mosteiro, mas sabiam que escalar sem outra luz além das lanternas era um absurdo.

Kate estava extenuada. Ao esforço da viagem juntava-se a altitude, a que não estava habituada, e a tosse, que não a deixava em paz. Mantinham-na a sua vontade de ferro e a esperança de que, lá em cima, encontraria Alexander e Nadia.

- Talvez não se devesse preocupar, avozinha. O seu neto e Nadia estão seguros, porque com o príncipe e com Tensing nada lhes pode acontecer -tranquilizou-a Perna.

- Alguma coisa muito má deve ter acontecido lá em cima para que os bandidos fugissem daquela maneira - replicou Kate.

- Aqueles homens mencionaram qualquer coisa acerca da maldição do Dragão de Ouro e a perseguição de uns diabos. Você acha que nestas montanhas há demónios, avozinha? - perguntou a jovem.

- Não acredito nessas tontices, miúda - replicou Kate, que já se tinha resignado ao facto de toda a gente naquele país a tratar por avozinha.

A noite foi longa e ninguém conseguiu dormir descansado. Os soldados prepararam um pequeno-almoço simples de chá salgado com manteiga, arroz e uns vegetais secos com aspecto e sabor a sola de sapato e, depois, continuaram a marcha. Kate não se deixava ficar para trás, apesar dos seus sessenta e cinco anos e dos seus pulmões enfraquecidos pelo fumo do tabaco. O general Myar Kunglung não dizia nada nem olhava para ela, com receio de esbarrar com os seus penetrantes olhos azuis, mas no seu coração de guerreiro começava a surgir uma admiração inevitável. Ao princípio detestava-a e não via a hora de se ver livre dela, mas com o correr dos dias deixou de considerá-la uma velha impossível e começou a respeitá-la.

O resto da subida decorreu sem surpresas. Quando, por fim, chegaram ao mosteiro fortificado, julgaram que não estava lá ninguém. Um silêncio absoluto imperava nas antigas ruínas. Alerta, com as armas na mão, o general e os soldados entraram à frente, seguidos de perto pelas duas mulheres. Dessa forma percorreram, uma por uma, as salas amplas, até chegarem à última, em cujo umbral foram interceptados por um monge gigantesco, munido de dois paus unidos por uma corrente. Com um complicado passo de dança, este levantou a arma e, antes que o grupo pudesse reagir, enrolou a corrente à volta do pescoço do general. Os soldados imobilizaram-se, desconcertados, enquanto o seu chefe pontapeava o ar, suspenso pelos braços monumentais do monge.

- Honorável mestre Tensing! - exclamou Perna, encantada por vê-lo.

- Perna? - perguntou ele.

- Sou eu, honorável mestre! - disse ela, e acrescentou, apontando para o humilhado militar: - Talvez fosse prudente libertar o honorável general My ar Kunglung...

Tensing colocou-o no chão com delicadeza, tirou-lhe a corrente do pescoço e inclinou-se respeitosamente diante dele com as mãos unidas à altura da testa.

- Tampo kachi, honorável general - cumprimentou.

- Tampo kachi. Onde está o Rei? - replicou o general, tentando disfarçar a sua indignação e ajeitando o casaco do uniforme.

Tensing deixou-os passar e o grupo entrou num vasto aposento. Metade do tecto tinha desmoronado há anos e o restante mantinha-se de pé com dificuldade, havia um buraco enorme numa das paredes exteriores, por onde entrava a luz difusa do dia. Uma nuvem, presa no cimo da montanha, criava um ambiente nebuloso onde tudo parecia impreciso, como imagens de um sonho. Um tapete aos fiapos pendia entre as ruínas e uma elegante estátua de Buda reclinado, milagrosamente intacta, estava no chão, como que surpreendida em pleno descanso.

Sobre uma mesa improvisada jazia o corpo do Rei, rodeado de meia-dúzia de velas de banha acesas. Rajadas de ar frio como cristal faziam vacilar as chamas das velas na névoa dourada. O heróico piloto do Nepal, que velava junto do cadáver, não se mexeu com a irrupção dos militares.

Kate Cold julgou que presenciava uma filmagem. A cena era irreal: a sala em ruínas, envolta numa neblina esbranquiçada; restos de estátuas centenárias e de colunas partidas pelo chão; pedaços de neve e geada nas irregularidades do piso. As personagens eram tão teatrais como o cenário: o monge descomunal com corpo de guerreiro mongol e rosto de santo, sobre cujo ombro se baloiçava o macaquinho Borobá; o severo general Myar Kunglung, vários soldados e o piloto, todos de uniforme, como se tivessem caído ali por engano; e, finalmente, o Rei, que mesmo na morte se impunha com a sua presença serena e digna.

- Onde estão Alexander e Nadia? - perguntou a avó, vencida pela fadiga.

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