O Reino do Dragão de Ouro

Isabel Allende · Capítulo 8 de 19

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O Reino do Dragão de Ouro

Capítulo 8

Sequestradas

 

O Coleccionador acordou sobressaltado com a campainha do telefone privado, que tinha em cima da mesa-de-cabeceira. Eram duas da manhã. Três pessoas apenas conheciam aquele número: o seu médico, o chefe dos seus guarda-costas e a sua mãe. Há meses que aquele telefone não tocava. O Coleccionador não tinha precisado do seu médico ou do seu chefe de segurança. Quanto à sua mãe, nesse momento andava pela Antárctica fotografando pinguins. A senhora passara os últimos anos como passageira de cruzeiros de luxo, que a levavam de um lado para o outro numa viagem interminável. Ao chegar a um porto, era recebida por um empregado que levava na mão a passagem do seu próximo cruzeiro. O filho tinha descoberto que, dessa forma, ela ficava entretida e ele não tinha de a ver.

- Como descobriu este número? - perguntou, indignado, o segundo homem mais rico do mundo, assim que reconheceu o seu interlocutor, apesar do dispositivo que lhe alterava a voz.

- Descobrir segredos faz parte do meu trabalho - replicou o Especialista.

- Que notícias tem?

- Rapidamente terá em seu poder o que combinámos.

- Nesse caso, porque me incomoda?

- Para dizer-lhe que de nada lhe servirá o dragão de ouro se não souber usá-lo - explicou o Especialista.

- Foi para isso que mandei traduzir o pergaminho, aquele que comprei ao general chinês - esclareceu o Coleccionador.

- Você acha que uma coisa tão importante e tão secreta estaria exposta num único pedaço de pergaminho? A tradução está em código.

- Arranje o código! Para isso foi contratado.

- Não. Você contratou-me para conseguir um objecto, nada mais. Isto não está abrangido pelo contrato - esclareceu friamente a voz, deformada, ao telefone.

- O dragão não me interessa sem as instruções, entendeu? Consiga-as ou não verá os seus milhões de dólares!! - gritou o cliente.

- Não reconsidero nunca os termos de uma negociação. Nós combinámos uma coisa. Entregar-lhe-ei a estátua dentro de duas semanas e cobrarei o combinado ou você sofrerá um prejuízo irreparável.

O cliente percebeu a ameaça e deu-se conta de que arriscava a vida. Por uma vez, o segundo homem mais rico do planeta assustou-se.

- Tem razão. Um acordo é um acordo. Pagar-lhe-ei à parte o código para decifrar esse pergaminho. Acha que o pode obter num prazo aceitável? Como sabe, este assunto é bastante urgente. Estou disposto a pagar o que for necessário, o dinheiro não é problema disse o cliente, num tom conciliador.

- Neste caso não se trata de uma questão de preço.

- Toda a gente tem um preço.

- Engana-se - replicou o Especialista.

- Você não me disse que era capaz de conseguir qualquer coisa? -perguntou o cliente, angustiado.

- Um dos meus agentes entrará proximamente em contacto consigo -replicou a voz e a comunicação foi cortada.

O multibilionário não conseguiu voltar a adormecer. Passou o resto da noite a estudar a sua incomensurável fortuna no escritório, que ocupava a maior parte da casa, onde tinha meia centena de computadores. Dia e noite, os seus empregados mantinham-se ligados aos mais importantes mercados de valores do mundo. No entanto, por muito que o Coleccionador revisse os números e gritasse aos seus subalternos, não conseguia alterar o facto de haver outro homem mais rico do que ele. Isto arrasava-lhe os nervos.

Depois de percorrer a encantadora cidade de Tunkhala, com as suas casas com tectos em forma de pagode, as suas stupas ou cúpulas religiosas, templos, e dezenas de mosteiros empoleirados nas encostas das montanhas, a meio de uma natureza exuberante de árvores e flores, Wandgi ofereceu-se para os levar à universidade. O campus era um parque natural, com cascatas de água e milhares de pássaros, onde se erguiam vários edifícios. Os tectos de pagode, as imagens de Buda pintadas nas paredes e as bandeiras de oração, davam à universidade o aspecto de um conjunto de mosteiros. Pela vereda do parque viram estudantes em grupo, a conversar, e chamou-lhes a atenção a sua formalidade, tão diferente do ar descontraído dos jovens no Ocidente.

Foram recebidos pelo reitor, que pediu a Kate Cold para se dirigir aos alunos, falando-lhes da revista International Geographic, que muitos deles liam regularmente na biblioteca.

- Temos muito poucas oportunidades de receber visitantes ilustres na nossa humilde universidade - disse, inclinando-se profusamente diante dela.

E foi assim que a escritora, os fotógrafos, Alexander e Nadia se viram instalados numa sala, diante dos cento e noventa estudantes da universidade e dos seus professores. Quase todos falavam um pouco de inglês, porque era a disciplina preferida dos jovens, mas Wandgi teve de traduzir muitas vezes. A primeira meia hora decorreu com muita compostura.

O público fazia perguntas ingénuas, com muito respeito, cumprimen-tando com uma reverência antes de se dirigir aos estrangeiros. Aborrecido, Alexander levantou a mão.

- Nós também podemos fazer perguntas? Viemos de muito longe para aprender alguma coisa sobre o vosso país... - sugeriu.

Houve alguns momentos de silêncio, durante os quais os estudantes se entreolharam, confusos, porque era a primeira vez que um conferencista fazia uma proposta daquelas. Após algumas hesitações e cochichos entre os profes-sores, o reitor deu o seu consentimento. Na hora e meia seguinte, os visitantes averiguaram alguns dados interessantes sobre o Reino Proibido e os estu-dantes, libertos da estrita formalidade a que estavam habituados, atreveram-se a fazer perguntas sobre cinema, música, roupa, carros e milhares de outros assuntos sobre a América.

No fim, Timothy Bruce tirou uma cassete de rock n roll e Kate Cold colocou-a no seu leitor. O neto, habitualmente tímido, sentiu um impulso irresistível, saltou para a frente e fez uma demonstração de dança moderna, que deixou todos de boca aberta. Borobá, contagiado por aquela dança frenética, começou a imitá-lo na perfeição, no meio das risotas do público. Ao terminar a «conferência», os estudantes em peso acompanharam-nos até aos limites do campus, cantando e dançando tal como Alexander, enquanto os professores coçavam a cabeça, estupefactos.

Como conseguiram aprender a música americana, depois de a terem ouvido apenas uma vez? - perguntou Kate Cold, admirada.

- Circula entre os estudantes há muitos anos, avozinha. Nas suas casas, estes rapazes usam jeans, tal como vocês. Trazem-nos da índia, de contra-bando - replicou Wandgi, rindo-se.

Nessa altura, já Kate Cold tinha aceitado, resignada, que o guia a tratasse por «avozinha». Era um sinal de respeito, a forma educada de se dirigirem a uma pessoa mais velha. Por outro lado, Nadia e Alex deviam chamar «tio» a Wandgi e «prima» a Perna.

- Talvez os honoráveis visitantes, se não estiverem muito cansados, desejem provar a comida típica de Tunkhala... - sugeriu Wandgi, timidamente.

Os honoráveis visitantes estavam extenuados, mas não podiam perder esta oportunidade. Terminaram aquele dia de intensa actividade na casa do guia que, como muitas na capital, era de dois andares, de tijolo branco e madeiras pintadas com intrincados desenhos de flores e de pássaros, no mesmo estilo do palácio. Foi impossível averiguar quem pertencia à família directa de Wandgi, porque entravam e saíam dúzias de pessoas e todas elas eram apresentadas como tios, irmãos ou primos. Não existiam apelidos. Quando uma criança nascia, os pais davam-lhe dois ou três nomes, para a distinguir das restantes, mas cada pessoa podia trocar os seus nomes à vontade, várias vezes durante a vida. Os únicos que usavam apelido eram os membros da família real.

Perna, a mãe e várias tias e primas serviram a refeição. Sentaram-se todos no chão, em volta de uma mesa redonda, onde colocaram uma verdadeira montanha de arroz vermelho, cereais, e várias combinações de vegetais, temperados com especiarias e pimento picante. Depois, foram trazendo as delícias preparadas especialmente para honrar os estrangeiros: fígado de iaque, pulmão de ovelha, patas de porco, olhos de cabra e salsichas de sangue temperadas com tanta pimenta e paprica, que o simples aroma dos pratos já os fazia lacrimejar e provocou um ataque de tosse em Kate. Comia-se com a mão, formando bolinhas com os alimentos e a boa educação exigia que se oferecesse primeiro as bolinhas aos visitantes.

Ao levar o primeiro bocado à boca, Alexander e Nadia estiveram quase a dar um grito: nunca tinham provado nada tão picante. A boca ardia-lhes como se a tivessem queimado com carvões em brasa. Kate Cold avisou-os, entre acessos de tosse, que não deviam ofender os seus anfitriões, mas os nativos do Reino Proibido sabiam que os estrangeiros não eram capazes de comer a sua comida.

Enquanto as lágrimas corriam pelas faces dos dois jovens, os outros riam-se imenso, batendo no chão com as mãos e os pés.

Perna, também bastante divertida, trouxe-lhes chá para lavarem a boca e um prato com os mesmos vegetais, mas preparados sem picante. Alexander e Nadia trocaram um olhar de cumplicidade. No Amazonas tinham comido desde serpente assada até uma sopa feita com as cinzas de um índio morto. Sem dizerem uma palavra, decidiram simultaneamente que este não era o momento de retroceder. Agradeceram, inclinando-se com as mãos unidas diante da cara, e depois cada um preparou a sua bolinha de fogo e colocou-a corajosamente na boca.

No dia seguinte, celebrava-se um festival religioso, que coincidia com a lua cheia e com o aniversário do Rei. O país inteiro tinha-se preparado durante semanas para o acontecimento. Tunkhata em peso saiu para a rua e, das montanhas, vieram camponeses de aldeias longínquas, que tiveram de viajar a pé ou a cavalo durante dias. Depois das bênçãos dos lamas, vieram os músicos com os seus instrumentos e as cozinheiras, que colocaram grandes bancadas com comida, doces e jarros com licor de arroz. Nesta ocasião, tudo era grátis.

As trompetas, tambores e gongos dos mosteiros soaram desde muito cedo. Os fiéis e os peregrinos vindos de longe aglomeraram-se nos templos para fazer as suas oferendas, girar as rodas de oração e acender velas de banha de iaque. O cheiro rançoso da gordura e o fumo do incenso flutuavam pela cidade.

Antes da viagem, Alexander tinha recorrido à biblioteca da sua escola para se informar sobre o Reino Proibido, os seus costumes e a sua religião. Deu a Nadia, que nunca tinha ouvido falar de Buda, uma breve lição sobre budismo.

- No que é hoje o Sul do Nepal, nasceu 566 anos antes de Cristo um príncipe chamado Sidarta Gautama. Quando nasceu, um adivinho prognosticou que a criança reinaria sobre toda a terra, desde que fosse preservado da deterioração e da morte. Caso contrário, seria um grande mestre espiritual. O pai, que preferia a primeira hipótese, rodeou o palácio de muros altos, para que Sidarta tivesse uma vida magnífica, dedicada ao prazer e à beleza, sem nunca se deparar com o sofrimento. Até as folhas que caíam das árvores eram varridas rapidamente, para que ele não as visse murchar. O jovem casou-se e teve um filho sem nunca ter saído daquele paraíso. Tinha vinte e nove anos quando espreitou para fora do jardim e viu pela primeira vez doença, pobreza, dor, crueldade. Cortou o cabelo, despojou-se das suas jóias e das suas vestes de seda valiosa e foi à procura da Verdade. Durante seis anos estudou com mestres de ioga na índia e submeteu o seu corpo ao ascetismo mais rigoroso...

- O que é isso? - perguntou Nadia.

- Levava uma vida de privações. Dormia em cima de espinhos e comia apenas alguns grãos de arroz.

- Má ideia... - comentou Nadia.

- Isso mesmo concluiu Sidarta. Depois de passar do prazer absoluto no seu palácio ao sacrifício mais severo, compreendeu que O Caminho do Meio é o mais adequado - disse Alexander.

- Porque o chamam O Iluminado? - quis saber a sua amiga.

- Porque aos trinta e cinco anos se sentou, imóvel, debaixo de uma árvore durante seis dias e seis noites a meditar. Numa noite de lua, como a que este festival comemora, a sua mente e o seu espírito abriram-se e conseguiu compreender todos os princípios e processos da vida. Ou seja, converteu-se em Buda.

- Em sânscrito, Buda quer dizer acordado ou iluminado - esclareceu Kate Cold, que ouvia atentamente as explicações do neto.

- Buda não é um nome, mas um título e qualquer um se pode converter em Buda através de uma vida nobre e da prática espiritual acrescentou.

- A base do budismo é a compaixão por tudo o que vive ou existe. Diz que cada um deve procurar a verdade ou iluminação dentro de si próprio, não nos outros ou em coisas externas. Por isso os monges budistas não andam pregando, como os nossos missionários, passando, em vez disso, a maior parte das suas vidas em serena meditação, procurando a sua própria verdade. Possuem apenas as suas túnicas, as suas sandálias e as suas tigelas para mendigar comida. Não lhes interessam os bens materiais - disse Alexander.

Nadia, que possuía apenas um saquinho com a roupa indispensável e três penas de papagaio para o cabelo, achou perfeita essa parte do budismo.

De manhã realizaram-se os torneios de tiro ao alvo, a actividade mais concorrida do festival de Tunkhala. Os melhores arqueiros apareceram engalanados com as suas roupas vistosas, ostentando colares de flores que as raparigas lhes colocavam ao pescoço. Os arcos tinham quase dois metros de comprimento e eram bastante pesados.

Ofereceram um a Alexander, mas este viu-se em apuros para o levantar e nem por sombras conseguiu acertar no alvo. Esticou a corda com todas as suas forças, mas num descuido a flecha escapou-lhe por entre os dedos e saiu disparada na direcção de um elegante dignitário que se encontrava a vários metros do alvo. Horrorizado, Alexander viu-o cair de costas e pensou que o tinha matado, mas a sua vítima levantou-se rapidamente, bastante divertida. A flecha tinha-se espetado precisamente a meio do seu chapéu. Um coro de gargalhadas comemorou a falta de jeito do estrangeiro e o dignitário passeou-se o resto do dia com a flecha no chapéu, como um trofeu.

A população do Reino Proibido vestira-se com as suas melhores roupas e a maioria usava máscaras ou pintara a cara de amarelo, branco ou vermelho. Chapéus, pescoços, orelhas e braços ostentavam adornos de prata, ouro, corais antigos e turquesas.

Desta vez o Rei chegou com um toucado espectacular na cabeça: a coroa do Reino Proibido. Era de seda bordada com incrustações de ouro e pejada de pedras preciosas. A meio, sobre a testa, tinha um grande rubi. Ao peito levava o medalhão real. Com a sua eterna expressão de calma e optimismo, o Rei passeava-se sem escolta entre os seus súbditos que, evidentemente, o adoravam. O seu séquito compunha-se apenas do seu inseparável Tschewang, o leopardo, e da sua convidada de honra, Judit Kinski, vestida com o traje típico do país, mas sempre com a sua carteira ao ombro.

À tarde houve representações teatrais de actores com máscaras, acroba-tas, jograis e malabaristas. Grupos de raparigas ofereceram uma demons-tração de danças tradicionais, enquanto os melhores atletas competiram em simulacros de lutas com espadas e num tipo de artes marciais que os estrangeiros nunca tinham visto. Davam saltos mortais e deslocavam-se com uma rapidez tão espantosa que pareciam voar por cima das cabeças dos seus adversários. Nenhum deles conseguiu vencer um jovem magro e bonito, que tinha a agilidade e a valentia de uma pantera. Wandgi informou os estrangeiros de que este era um dos filhos do Rei, mas não o escolhido para ocupar um dia o trono. Tinha índole de guerreiro, adorava ganhar e ser aplaudido, era impaciente e voluntarioso. Definitivamente, acrescentou o guia, não tinha fibra para ser um governante sábio.

Ao pôr do Sol, os grilos começaram a cantar, juntando-se ao ruído da festa. Acenderam-se milhares de archotes e lâmpadas de papel.

Na multidão entusiasta viam-se muitos mascarados. As máscaras eram verdadeiras obras de arte, todas diferentes, pintadas de dourado e de cores brilhantes. A Nadia chamou-lhe a atenção o facto de, sob algumas máscaras, espreitarem barbas pretas, porque os homens do Reino Proibido se barbeavam cuidadosamente. Nunca se via um homem com pêlos no rosto, por ser considerado uma falta de higiene. Durante algum tempo observou a multidão, até se ter apercebido de que os indivíduos barbudos não participavam nas festividades como todos os outros. Ia comentar estas observações com Alexander, quando este se aproximou com uma expressão preocupada.

- Repara naquele homem que está ali, Águia - disse-lhe.

- Onde?

- Atrás do malabarista que atira archotes ao ar. O que tem o gorro tibetano de pele.

- O que tem ele? - perguntou Nadia.

- Aproximemo-nos disfarçadamente para o vermos de perto - disse Alexander.

Quando conseguiram fazê-lo, viram através da máscara duas pupilas claras e inexpressivas: os olhos inesquecíveis de Tex Armadillo.

- Como chegou ele aqui? Não veio connosco no avião e o próximo voo é dentro de cinco dias - comentou Alexander depois, quando se afastaram um pouco.

- Julgo que ele não está só, Jaguar. Aqueles mascarados barbudos podem ser da Seita do Escorpião. Estive a observá-los e parece-me que estão a tramar alguma coisa.

- Se virmos algo suspeito, avisamos Kate. Por agora, não os percamos de vista - disse Alexander.

Da China, tinha vindo para o festival uma família de especialistas em fogos-de-artifício. Assim que o Sol se escondeu atrás dos montes, a noite caiu bruscamente e a temperatura desceu, mas a festa continuou. Rapidamente o céu se iluminou e a multidão nas ruas festejou com gritos de espanto cada explosão das luzes maravilhosas dos chineses.

Estava tanta gente que era difícil deslocar-se na confusão. Nadia, habituada ao clima tropical da sua aldeia, Santa Maria de la Lluvia, tiritava com frio. Perna ofereceu-se para acompanhá-la ao hotel e trazerem roupa mais quente. Partiram ambas com Borobá, que ficara histérico com o ruído dos fogos, enquanto Alexander, de longe, vigiava Tex Armadillo.

Nadia agradeceu intimamente a Kate Cold esta ter tido a ideia brilhante de lhe comprar roupa de montanha. Tremiam-lhe os dentes tanto quanto a Borobá. Primeiro, colocou ao macaco o blusão de bebé e depois vestiu umas calças compridas, meias grossas, botas e um casaco, enquanto Perna a observava, divertida. Ela sentia-se muito confortável com o seu sarong leve de seda.

- Vamos! Estamos a perder o melhor da festa! - exclamou a jovem.

Saíram a correr para a rua. A lua e as cascatas de estrelas multicores dos chineses iluminaram a noite.

- Onde estão Perna e Nadia? - perguntou Alexander, calculando que não as via há mais de uma hora.

- Não as vi - replicou Kate.

- Foram ao hotel porque Nadia precisava de um casaco, mas já deviam ter voltado. É melhor ir procurá-las - decidiu Alex.

- Devem estar a chegar, aqui não se podem perder - disse-lhe a avó.

Alexander não encontrou as raparigas no hotel. Duas horas depois estavam todos preocupados, porque ninguém as vira na confusão do festival há já muito tempo. O guia, Wandgi, conseguiu uma bicicleta emprestada e foi até sua casa, pensando que Perna poderia ter levado Nadia para lá, mas pouco depois regressou, alterado.

- Desapareceram - anunciou aos gritos.

- Não lhes pode ter acontecido nada de mal. Você disse que este era o país mais seguro do mundo! - exclamou Kate.

Àquela hora restavam poucas pessoas na rua, apenas alguns estudantes que se deixaram ficar para trás e algumas mulheres que limpavam o lixo e os restos de comida das mesas. O ar cheirava a uma mistura de flores e pólvora.

- Podem ter ido com alguns estudantes da universidade... - sugeriu Timothy Bruce.

Wandgi garantiu-lhes que isso era impossível. Perna nunca faria isso. Nenhuma rapariga respeitável saía de noite sozinha e sem licença dos pais, disse. Decidiram ir ao posto da polícia, onde foram atendidos com cortesia por dois oficiais extenuados, que tinham trabalhado desde a madrugada e não pareciam dispostos a sair à caça de duas raparigas que, com certeza, estariam com amigos ou parentes. Kate Cold pespegou-se diante deles brandindo o seu passaporte e o seu cartão de jornalista, reclamando com o seu pior vozeirão de comando, mas não conseguiu abalá-los.

- Estas pessoas receberam um convite especial do nosso amado Rei -disse Wandgi, e isso pôs os polícias imediatamente em acção.

O resto da noite passou-se procurando Perna e Nadia por toda a parte. Ao amanhecer toda a força policial - dezanove funcionários - estava em estado de alerta, porque tinham participado o desaparecimento de outras quatro adolescentes em Tunkhala.

Alexander comunicou à avó as suas suspeitas de estarem guerreiros azuis misturados na multidão e acrescentou ter visto Tex Armadillo disfarçado de pastor tibetano. Tinha tentado segui-lo, mas este com certeza apercebera-se de que fora reconhecido e desapareceu entre a multidão. Kate informou a polícia, que a avisou de que não convinha semear o pânico sem provas.

Durante as primeiras horas da manhã, propagou-se a notícia atroz de que várias raparigas tinham sido sequestradas. Quase todas as lojas permaneceram fechadas e as portas das casas abertas, enquanto os habitantes da aprazível capital saíam para as ruas comentando o sucedido. Grupos de voluntários foram percorrer os arredores, mas o trabalho era desesperante, porque o terreno irregular e coberto de vegetação impenetrável dificultava as buscas. Depressa começou a circular um boato que foi aumentando até se converter num rio imparável de pânico que envolveu a cidade: os escorpiões! Os escorpiões!

Dois camponeses, que não tinham assistido ao festival, garantiram ter visto vários cavaleiros dirigindo-se, a galope, na direcção das montanhas. Os cascos dos cavalos arrancavam faíscas das pedras, as capas pretas ondulavam ao vento e, à luz fantástica dos fogos artificiais, pareciam demónios, disseram os aterrados camponeses. Pouco depois, uma família que regressava à sua aldeia encontrou no caminho um cantil de couro bastante gasto e cheio de álcool e foi entregá-lo à polícia. Tinha um escorpião gravado.

Wandgi estava fora de si. Acocorado no chão, gemia, com a cara entre as mãos, enquanto a sua mulher se mantinha em silêncio e sem lágrimas, completamente aniquilada.

- Referem-se à Seita do Escorpião, a mesma da índia? - perguntou Alexander Cold.

- Os guerreiros azuis\ Nunca mais verei a minha Perna! - chorava o guia.

Pouco a pouco, os expedicionários da International Geographic foram obtendo mais pormenores. Aqueles nómadas sanguinários movimentavam-se pelo Norte da índia, onde costumavam atacar aldeias indefesas para raptar raparigas, que convertiam em escravas. Para eles, as mulheres tinham menos valor que uma faca, tratavam-nas pior que animais e mantinham-nas aterrorizadas, escondidas em grutas.

As meninas que nasciam eram mortas de imediato, mas deixavam viver os rapazes, que eram separados das mães e treinados para lutar desde os três anos. Para os imunizarem contra o veneno, faziam-nos picar por escorpiões, de forma que, ao atingirem a adolescência, podiam suportar mordeduras de répteis e de insectos que, caso contrário, seriam fatais.

Passado muito pouco tempo, as escravas morriam de doença, maus tratos ou eram assassinadas, mas as poucas que chegavam aos vinte anos eram consideradas imprestáveis e abandonadas, sendo substituídas por novas raparigas roubadas. Desta maneira, o ciclo repetia-se. Pelos caminhos rurais da índia costumavam ver-se as figuras lamentáveis dessas mulheres, loucas, em farrapos, pedindo esmola. Ninguém se aproximava delas com receio da Seita do Escorpião.

- E a polícia não faz nada? - perguntou Alexander, horrorizado.

- Isto passa-se em regiões bastante isoladas, em aldeias indefesas e miseráveis. Ninguém se atreve a enfrentar os bandidos, têm-lhes pavor, julgam que possuem poderes diabólicos, que conseguem enviar uma praga de escorpiões e acabar com toda a gente de uma aldeia. Não há pior destino para uma rapariga que cair nas mãos dos homens azuis. Levará uma vida de animal durante alguns anos, verá matarem as suas filhas, tirar-lhe-ão os filhos e, se não morrer, acabará como uma mendiga - explicou-lhes o guia, acrescentando que a Seita do Escorpião era um bando de ladrões e de assassinos, que conhecia todas as passagens dos Himalaias, atravessava as fronteiras a seu bel-prazer e atacava sempre de noite. Eram silenciosos como sombras.

- Já tinham entrado anteriormente no Reino Proibido? - perguntou Alexander, em cuja mente começava a tomar forma uma suspeita terrível.

- Até agora nunca o tinham feito. Agiam apenas na índia e no Nepal -replicou o guia.

- Porque terão vindo tão longe? É muito estranho terem-se atrevido a vir até uma cidade como Tunkhala. E mais estranho ainda é terem decidido fazê-lo justamente durante um festival, quando o povo estava na rua e a polícia vigiava - reparou Alexander.

- Iremos imediatamente falar com o Rei. É preciso mobilizar todos os recursos possíveis - determinou Kate.

O seu neto estava a pensar em Tex Armadillo e nas personagens medonhas que tinha visto nos subterrâneos do Forte Vermelho. Que papel tinha aquele homem neste assunto? O que significava o mapa que estavam a observar?

Não sabia por onde devia começar a procurar Águia, mas estava disposto a percorrer os Himalaias de uma ponta a outra atrás dela. Imaginava os perigos que a sua amiga corria nesse momento. Cada minuto era precioso. Tinha de encontrá-la antes que fosse demasiado tarde. Precisava mais do que nunca do instinto de caçador do jaguar, mas estava tão nervoso que não conseguia concentrar-se o suficiente para o invocar. O suor corria-lhe pela testa e pelas costas, empapando-lhe a camisa.

Nadia e Perna não chegaram a ver os seus atacantes. Duas capas escuras caíram-lhes em cima, envolvendo-as, depois amarraram-nas com cordas, como se fossem embrulhos e levantaram-nas no ar. Nadia gritou e tentou defender-se, dando pontapés para o ar, mas uma pancada seca na cabeça aturdiu-a. Perna, pelo contrário, entregou-se à sua sorte, calculando que era inútil lutar nesse momento; devia reservar as suas energias para mais tarde. Os sequestradores colocaram as raparigas atravessadas sobre os cavalos e montaram atrás, prendendo-as com mãos de ferro. A sua única sela era um cobertor dobrado e conduziam as montadas com a pressão dos joelhos. Eram cavaleiros formidáveis.

Passados alguns minutos, Nadia recuperou a consciência e, assim que a sua mente clareou um pouco, fez um inventário da situação. Apercebeu-se imediatamente de que ia a galope num cavalo, apesar de nunca ter montado. Sentia retumbar cada passada do animal no seu estômago e no seu peito, tinha dificuldade em respirar debaixo do cobertor e sentia nas costas a pressão de uma mão grande e forte, como uma garra, que a prendia.

O cheiro do cavalo suado e das roupas do homem era penetrante, mas foi justamente isso que lhe devolveu a clareza e lhe permitiu pensar. Habituada a viver em contacto com a natureza e com os animais, tinha uma grande memória olfactiva. O seu sequestrador não tinha o mesmo cheiro das pessoas que conhecera no Reino Proibido, que eram extremamente asseadas. O aroma natural dos tecidos de seda, algodão e lã, misturava-se com o das especiarias que utilizavam para cozinhar e com o óleo de amêndoas, que toda a gente usava para dar brilho ao cabelo. Nadia conseguia reconhecer um habitante do Reino Proibido de olhos fechados. O homem que a segurava era sujo, como se a sua roupa nunca fosse lavada, e a pele exalava um cheiro amargo de alho, carvão e pólvora. Era, sem dúvida, um estrangeiro nesta terra.

Nadia ouviu com atenção e conseguiu calcular que, além dos dois cavalos onde Perna e ela seguiam, havia pelo menos mais quatro, talvez cinco. Apercebeu-se de que iam sempre a subir. Quando a passada do cavalo mudou, compreendeu que não iam por nenhuma vereda mas atravessando o campo. Conseguia ouvir os cascos contra as pedras e sentia o esforço que o animal fazia ao trepar. Às vezes escorregava, relinchando, e a voz do cavaleiro animava-o a continuar num idioma desconhecido.

A rapariga sentia os ossos moídos pelo balanço, mas não conseguia arranjar uma posição mais confortável porque as cordas a imobilizavam. A pressão no peito era tão forte que receava que lhe partissem as costelas. Como poderia deixar alguma pista para que a pudessem encontrar? Tinha a certeza de que Jaguar tentaria fazê-lo, mas aquelas montanhas eram um labirinto de picos e precipícios. Se ao menos conseguisse deixar cair um sapato... Mas isso era impossível porque tinha as botas amarradas.

 

Muito tempo depois, quando as duas raparigas já estavam completamente doridas e quase inconscientes, os cavalos pararam. Nadia fez um esforço para se recuperar e prestou atenção. Os cavaleiros desmontaram e sentiu que voltavam a levantá-la, atirando-a para o chão como um saco. Caiu em cima de pedras. Ouviu Perna gemer e a seguir umas mãos desamarraram as cordas e arrancaram-lhe o cobertor. Respirou fundo e abriu os olhos.

A primeira coisa que viu foi a abóbada escura do céu e a Lua, depois os rostos negros e barbudos inclinados sobre ela. Como um murro, sentiu o hálito fétido dos homens, a alho, álcool e alguma coisa parecida a tabaco. Aqueles olhos malignos brilhavam nas cavidades fundas e riam-se trocistas. Faltavam-lhes vários dentes e os poucos que tinham estavam quase pretos. Nadia tinha visto gente na índia com os dentes assim e Kate Cold explicou-lhe que mastigavam betei. Apesar de estar bastante escuro, reconheceu o aspecto dos homens que tinha visto no Forte Vermelho, os temíveis guerreiros do Escorpião.

Com um safanão, os seus raptores puseram-na de pé, mas tiveram de a segurar, porque os joelhos lhe fraquejavam. Nadia viu Perna a poucos passos de distância, encolhida de dor. Com gestos e empurrões, os sequestradores indicaram às raparigas para avançarem. Um deles ficou com os cavalos e os outros subiram o monte levando as prisioneiras. Nadia tinha calculado bem: os cavaleiros eram cinco.

Tinham começado a subir há uns quinze minutos quando apareceu de súbito um grupo com vários homens, vestidos da mesma forma, escuros, barbudos e armados com punhais. Nadia tentou ultrapassar o medo e ouvir com o coração, tentando compreender aquele idioma, mas estava demasiado dorida e maltratada. Enquanto os homens discutiam, fechou os olhos e imaginou que era uma

Betei: ou noz-de-areca, oriunda e cultivada há muito tempo na índia e no Sudeste Asiático, é usada, com outros ingredientes, na preparação de uma pasta que, quando mastigada, provoca uma espécie de embriaguez e deixa a boca e os dentes escuros.

A águia, a rainha das alturas, a ave imperial, o seu animal totémico. Durante alguns segundos teve a sensação de elevar-se como um pássaro magnífico e pôde ver aos seus pés a cadeia de montanhas dos Himalaias e, muito ao longe, o vale onde ficava a cidade de Tunkhala. Um empurrão devolveu-a à terra.

Os guerreiros azuis acenderam uns archotes improvisados, feitos com estopa amarrada a um pau e embebida em gordura. Sob aquela luz vacilante conduziram as raparigas por um estreito desfiladeiro natural cavado na rocha. Iam colados à montanha, andando com imenso cuidado, porque sob os seus pés se abria um precipício profundo. Uma ventania gelada cortava a pele como navalhas. Havia bocados de neve e de gelo entre as pedras, apesar de ser Verão.

Nadia pensou que o Inverno naquela região devia ser pavoroso, se até no Verão fazia frio. Perna ia vestida de seda e calçava sandálias. Quis dar-lhe o seu casacão, mas assim que tentou tirá-lo deram-lhe um bofetão e obrigaram-na a continuar. A sua amiga ia no fim da fila e, de onde estava, não conseguia vê-la, mas calculou que estaria em piores condições do que ela. Felizmente não tiveram de escalar muito porque rapidamente se viram diante de uns arbustos espinhosos, que os homens afastaram. Os archotes iluminaram a entrada de uma caverna natural, muito bem disfarçada no terreno. Nadia sentiu-se desfalecer: a esperança de que Jaguar a encontrasse era cada vez mais ténue.

A caverna era ampla e tinha várias abóbadas ou salas. Viram pacotes, armas, arreios de cavalos, mantas, sacos de arroz, lentilhas, verduras secas, nozes e longas tranças de alhos. A julgar pelo aspecto do acampamento e pela quantidade de alimentos, era evidente que os seus agressores estavam ali há vários dias e pensavam ficar outros tantos.

Num lugar proeminente, tinham improvisado um altar arrepiante. Sobre um montinho de pedras erguia-se uma estátua da temível deusa Kali, rodeada de várias caveiras e ossos humanos, ratazanas, serpentes e outros répteis dissecados, recipientes com um líquido escuro, como sangue, e frascos com escorpiões pretos. Ao entrar, os guerreiros ajoelharam-se diante do altar, meteram os dedos nos recipientes e depois levaram-nos à boca. Nadia reparou que cada um deles levava uma colecção de punhais de diferentes formas e tamanhos na faixa que lhes envolvia a cintura.

As duas raparigas foram empurradas para o fundo da caverna, onde as recebeu uma mulherona coberta de farrapos e com uma capa de pele de cão, que lhe dava um aspecto de hiena. Tinha a pele tingida do mesmo tom azulado dos guerreiros, uma cicatriz horrenda na face direita, do olho ao queixo, como se tivesse levado uma facada, e um escorpião gravado a fogo na testa. Trazia um pequeno chicote na mão.

Aninhadas ao pé da fogueira, quatro raparigas cativas tremiam de frio e de terror. A carcereira deu um grunhido e apontou para Perna e Nadia, que se juntaram às outras. A única que vestia roupa de Inverno era Nadia, todas as outras vestiam os sarongs de seda que tinham usado para a comemoração do aniversário do Rei. Nadia compreendeu que tinham sido raptadas nas mesmas circunstâncias que elas e isso devolveu-lhe algumas esperanças, porque a polícia, sem dúvida, já devia estar a revolver céus e terra à procura delas.

Um coro de gemidos recebeu Nadia e Perna, mas a mulher aproximou-se com o chicote e as prisioneiras calaram-se, escondendo a cabeça entre os braços. As duas amigas tentaram permanecer juntas.

Num descuido da guardiã, Nadia cobriu Perna com o seu casaco e sussurrou-lhe ao ouvido que não desesperasse, que já encontrariam uma forma de sair daquele atoleiro. Perna tiritava, mas tinha conseguido acalmar-se. Os seus bonitos olhos negros, sempre sorridentes, reflectiam agora coragem e determinação. Nadia apertou-lhe a mão e as duas sentiram-se fortalecidas pela presença uma da outra.

Um dos homens do Escorpião não tirava os olhos de Perna, impressionado com a sua graça e dignidade. Aproximou-se do grupo de raparigas aterrorizadas e pespegou-se diante de Perna, com uma mão no punho da sua faca. Vestia a mesma túnica escura, o mesmo turbante gorduroso, a barba despenteada, a pele no estranho tom negro-azulado e os dentes negros de betei de todos os outros, mas a sua atitude emanava autoridade e os outros respeitavam-no. Parecia ser o chefe.

Perna levantou-se e suportou o olhar cruel do guerreiro. Ele estendeu a mão e agarrou no longo cabelo da rapariga, que deslizou como seda entre os seus dedos imundos. Um ténue perfume de jasmim libertou-se do cabelo. O homem pareceu desconcertado, quase comovido, como se nunca tivesse tocado em algo tão precioso. Perna fez um movimento brusco com a cabeça, libertando-se. Se tinha medo, não o manifestou. Pelo contrário, a sua expressão era tão desafiadora que a mulher da cicatriz, os outros bandidos e até as raparigas, se imobilizaram, certas de que o guerreiro espancaria a sua insolente prisioneira. Mas, perante a surpresa geral, este soltou uma risada seca e recuou um passo. Deu uma cuspidela para o chão, aos pés de Perna, depois regressou para junto dos seus companheiros, que estavam de cócoras perto do fogo. Bebiam goles dos seus cantis, mastigavam as nozes vermelhas de betei, cuspiam e falavam em volta de um mapa aberto no chão.

Nadia calculou que era o mesmo mapa ou um semelhante ao que tinha visto no Forte Vermelho. Não percebia o que diziam, porque os brutais acontecimentos das últimas horas tinham-na alterado de tal forma, que não conseguia ouvir com o coração. Perna disse-lhe ao ouvido que falavam num dialecto do Norte da índia e que ela conseguia entender algumas palavras: dragão, rotas, mosteiro, americano, rei.

Não conseguiram continuar a falar, porque a mulher da cicatriz, que as ouvira, se aproximou brandindo o chicote.

- Calem-se! - rugiu.

As raparigas começaram a gemer de medo, excepto Perna e Nadia, que se mantiveram impassíveis, mas baixaram os olhos para não a provocar. Quando a carcereira se distraiu, Perna contou ao ouvido de Nadia que as mulheres abandonadas pelos homens azuis tinham sempre um escorpião gravado a fogo na testa e muitas eram mudas, porque lhes tinham cortado a língua. Tremendo de horror, não voltaram a falar, mas comunicavam uma com a outra através de olhares.

As outras quatro raparigas, levadas para a caverna pouco antes, estavam num tal estado de pânico que Nadia imaginou saberem de alguma coisa que ela ignorava, mas nem se atreveu a perguntar. Deu-se conta de que Perna também sabia o que as esperava, mas era corajosa e estava disposta a lutar pela vida. Rapidamente a coragem de Perna contagiou as outras raparigas e, sem terem combinado, foram-se aproximando dela, à procura de protecção. Nadia foi invadida por uma mistura de admiração pela amiga e de angústia por não conseguir comunicar com as outras raparigas, que não falavam uma palavra de inglês. Lamentou ser tão diferente delas.

Um dos guerreiros azuis deu uma ordem e a mulher da cicatriz esqueceu as prisioneiras por um instante para obedecer. Serviu numas tigelas o conteúdo de uma panela preta que estava suspensa sobre a fogueira e passou-as aos homens. A outra ordem do chefe serviu as prisioneiras de má vontade.

Nadia recebeu uma caçarola de latão, onde fumegava uma mistela acinzentada. Um bafo a alho entrou-lhe pelo nariz e mal conseguiu conter as voltas do estômago. Tinha de se alimentar, decidiu, porque precisaria de todas as suas forças para fugir. Fez um sinal a Perna e levaram ambas o prato à boca. Nenhuma das duas tinha intenção de se resignar à sua sorte.

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