O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 5 de 6 · parte 3/3

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Reunião de família IV

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Tio Bicho toca-lhe o braço.

— Olha quem vem lá...

Floriano avista Irmão Zeca e Eduardo, um vestido de preto e o outro de branco. Caminham lado a lado ao longo de um dos passeios da praça. Agora param, ficam frente a frente, parecem discutir, o marista sacode negativamente a cabeça. Edu ergue o jornal que tem na mão, bate nele como para mostrar alguma coisa.

O outro encolhe os ombros. Retomam a marcha, atravessam a rua, entram no café e sentam-se à mesa de Floriano e Bandeira. Este último toma o jornal das mãos de Eduardo. É o Correio do Povo de hoje, chegado pelo avião da manhã.

— Ouçam esta... — diz o Tio Bicho, com o jornal aberto diante dos olhos. — A Liga Eleitoral Católica recomenda a seu eleitorado os nomes do general Dutra e do brigadeiro Eduardo Gomes para presidente da República, e declara que nenhum católico deve votar no candidato dos comunistas. Que é que vocês tomam? Um guaraná, Zeca?

O marista apalpa distraído o crucifixo que lhe pende do pescoço.

— Guaraná coisa nenhuma! — diz. — Uma cerveja gelada.

— Esse é dos meus! — exclama Tio Bicho, dando uma palmada nas costas do rapaz e fazendo desprender-se da batina uma tênue nuvem de poeira. Volta-se para Eduardo: — E tu, camarada?

— O mesmo.

Floriano chama o garçom e pede as bebidas. Tio Bicho continua a folhear o jornal.

— Esta é boa. Escutem. O Comitê Pró-Fiuza analisa os candidatos à presidência da República. Dutra: candidato dos integralistas, espiões e criminosos que avisaram os submarinos do Eixo da saída de nossos pacíficos navios mercantes, mandando à morte milhares de patrícios. Agora o Eduardo Gomes. Candidato dos velhos politiqueiros, da alta aristocracia e dos agentes do capitalismo estrangeiro colonizador.

Sempre de olhos baixos, a manipular seu crucifixo, Irmão Zeca sacode a cabeça murmurando:

— Nada disso tem sentido.

O garçom põe sobre a mesa duas garrafas de cerveja e dois copos. Os recém-chegados servem-se e começam a beber com o entusiasmo da sede. Tio Bicho continua a ler:

— Disse em discurso não precisar do voto dos marmiteiros. (Marmiteiros são os trabalhadores pobres que conduzem suas marmitas para fazer suas refeições nos locais de trabalho.)

O marista alça vivamente a cabeça:

— Vocês acreditam que o brigadeiro tenha mesmo dito isso? Que achas, Bandeira?

— Pode ser uma intriga, como a das famosas cartas do Bernardes em 1922. E o fato da intriga ser agora contra o Zé Povinho e não contra o Exército é um sinal dos tempos... E um bom sinal.

— Se o brigadeiro não disse isso — opina Eduardo —, pelo menos pensou, porque essa é a atitude mental de sua classe. Seja como for, ele é o candidato dos americanos. Ninguém ignora que o golpe de 45 foi encorajado por um discurso do embaixador dos Estados Unidos.

A voz descomunal do locutor da Rádio Anunciadora engolfa o largo, anunciando o filme que o cinema do Calgembrino vai exibir esta noite. Depois a música repenicada dum choro começa a jorrar dos alto-falantes, metálica e distorcida. O café se vai enchendo aos poucos de gente. À maioria das mesas discute-se política. Fazem-se apostas em torno das eleições de amanhã, dizem-se bravatas. Floriano avista o cel. Laco Madruga, que passa na calçada, encurvado, envelhecido e murcho, arrastando os pés e o inseparável bengalão. E dizer-se que a figura desse bandido assombrou tantas horas da minha meninice!

Um automóvel estaca à frente da Prefeitura e de dentro dele salta, lépido e atlético, José Kern, o rosto e o cachaço luzidio dum vermelho de lagosta, os cabelos louros já desbotados pela idade. É candidato a deputado pelo Partido de Representação Popular. Floriano lembra-se de que viu e ouviu um dia Kern num comício integralista, aqui nesta mesma praça, erguendo no ar o dedão profético e ameaçando todos aqueles que se recusavam a colaborar com os camisas-verdes. Agora proclama-se democrata nos milhares de cartazes em tricromia espalhados por todo o município, pedindo o voto de todos os cristãos “que queiram livrar a nossa Pátria da influência de nefastas doutrinas exóticas”.

Roque Bandeira solta uma gargalhada. E, como os outros querem saber onde está a graça, Tio Bicho lhes mostra numa das páginas do jornal um clichê no qual o gen. Eurico Gaspar Dutra aparece em uniforme de gala a receber algo das mãos dum cavalheiro solenemente vestido de fraque e calças listadas. Ao lado da fotografia, a seguinte legenda, que Bandeira lê com gosto:

Esta condecoração não foi recebida do Papa. Dutra recebeu-a de Hitler, por intermédio

do Embaixador Kurt Prueffer “por serviços de excepcional relevância”, a 25 de abril de

1940, já em plena guerra. É a Cruz de Ferro, Heil, Hitler! E ainda não foi devolvida...

Quem votará neste democrata?

— Não deviam usar esses métodos... — diz o marista. — Eu vinha dizendo ao Edu, sou contra o vale-tudo.

Eduardo volta-se para o amigo:

— Mas vocês aceitam o vale-tudo quando se trata de combater o comunismo. Valeu tudo para destruir o Harry Berger, para manter o Prestes nove anos na cadeia, para perseguir, torturar e assassinar membros do Partido Comunista. Que diabo de ética é essa?

Mais uma vez Floriano alarma-se ante a seriedade do irmão. Não tem um pingo de senso de humor — reflete. — Palavra, esse menino me assusta.

O marista, com ar pensativo, começa a raspar com a unha o rótulo duma das garrafas.

— Tu sabes, Edu, que nunca aprovei esses métodos. São contra a minha maneira de sentir, de pensar, de viver...

— Está bem. Não vou cometer a injustiça de te julgar capaz de recomendar a tortura e a crueldade. Mas essa tua deformação profissional, vamos dizer assim, te faz torcer todos os argumentos para enquadrá-los na filosofia escolástica. Metes santo Tomás de Aquino onde ele não cabe, não pode caber. Nenhuma filosofia funciona quando se trata de problemas reais, sentidos e sofridos por pessoas que estão vivas aqui e agora.

Tio Bicho dobra o jornal, põe-no sobre a mesa, toma um gole de cerveja, que lhe desce pela gorja com um glu-glu alegre:

— Há um território vago de valores transcendentes cuja entrada está completamente vedada à maioria das criaturas humanas. Sempre digo que precisamos duma filosofia do homem total, de algo prático, militante, existencial, que funcione no plano da realidade cotidiana.

Floriano sorri, pensando: lá vem o Tio Bicho com seus filósofos de colis postaux... Os dedos de Zeca tamborilam no mármore da mesa ao compasso do choro.

— O homem total? — reflete Eduardo, encarando Bandeira. — Está claro que essa noção existe, e é de Karl Marx. Não se trata duma definição filosófica e abstrata do homem, dessa safada escamoteação teológica que transfere as dificuldades humanas do plano do tempo histórico para o da eternidade, fugindo à solução dos problemas que todos os dias nos esbofeteiam a cara.

Tio Bicho e Irmão Toríbio entreolham-se. O primeiro pisca um olho. Mas Eduardo continua:

— É muito fácil mandar o padre Josué apascentar suas ovelhinhas da Sibéria, do Barro Preto e do Purgatório, dizer a esses miseráveis que aguentem com paciência e em silêncio a sua desgraça, porque a verdadeira felicidade está no Céu e não aqui, neste “vale de lágrimas”, e que os que sofrem nesta vida serão automaticamente recompensados na outra. É uma operação puramente retórica, que tem a vantagem de ser conveniente à Igreja e ao mesmo tempo de não custar nada à burguesia apatacada, que o clero prestigia e defende...

Enquanto Eduardo fala, Floriano observa Zeca, procurando descobrir nele algo de Cambará. Troncudo como o pai, tem no entanto esse marista de menos de trinta anos uma expressão de cordura que Floriano não se lembra de jamais ter visto no rosto de Toríbio Cambará, cujas proezas caudilhescas e eróticas são talvez o elemento mais rico e colorido do folclore do Sobrado e do Angico. Nem sempre, porém, consegue o irmão reprimir certos impulsos e paixões, que Tio Bicho classifica como o “potro interior”. Há momentos em que o animal se liberta, empina-se, nitre, solta um par de coices e foge a todo o galope... Entretanto essas explosões — na maioria das vezes puramente verbais — são de curta duração. O marista consegue de novo laçar o potro, prendê-lo na soga, e tudo nele volta à habitual aparência de calma. O animal daí por diante se limita a espiar para fora, de quando em quando, pela janela desses olhos escuros e intensos.

Tio Bicho pousa a mão gorda e pequena, sarapintada de manchas pardas, no ombro de Eduardo:

— Até certo ponto estou contigo — diz. — Essa história de quererem pôr dum lado a natureza com todas as suas leis e do outro o homem com sua liberdade, me parece um truque besta, um dualismo falso. Acho que a liberdade humana é uma coisa que se conquista, e que se afirma na nossa capacidade de domínio sobre a natureza. — Volta-se para Floriano. — Que tal, romancista? Estás comigo?

Floriano encolhe os ombros, vago. Sabe que agora vão resvalar para uma discussão interminável, como tem acontecido tantas vezes nestes últimos dias. Eduardo não perde oportunidade para doutriná-lo, e o curioso é que faz isso com uma seriedade tão sem malícia e às vezes tão agressiva, que dá a impressão de que na verdade ele se está doutrinando a si mesmo, mais que aos outros. E como é difícil discutir ideias num café barulhento, numa tarde barulhenta, numa época barulhenta! E esta bebida requentada, negríssima e meio azeda, não melhora em nada a situação.

— Não foi Marx o primeiro nem o único a tentar essa teoria do homem total — diz Zeca.

E Edu replica:

— Não estou me referindo à totalidade cósmica, metafísica e abstrata, mas sim à totalidade humana. O homem é um produto da própria atividade. Ele conquistou a sua liberdade no plano social e no plano da história. Estudando o desenvolvimento social do ser humano, Marx descobriu um conjunto de fatos em que a história natural do homem coincidia com a sua história social.

Tio Bicho interrompe-o para dizer com fingida solenidade:

— Neste ponto nos despedimos. Passe bem e faça boa viagem!

— Tu falas em conquista da liberdade — intervém Floriano, dirigindo-se ao irmão. — Achas que na Rússia soviética o homem é livre?

— O homem novo da nova Rússia está em formação. Não representa ainda o homem total, mas sim uma etapa rumo desse objetivo. A técnica moderna vai acabar desenvolvendo todas as possibilidades do homem soviético para que então seja possível a sociedade comunista.

— A técnica! — exclama o Irmão Zeca. — Os comunistas enchem a boca com essa palavra. Censuram os católicos por acreditarem em absolutos e num Deus único e no entanto adoram centenas de deuses e de absolutos.

— Na minha opinião — diz Floriano — o grande perigo que estamos correndo hoje é o da desumanização do homem, que se perde cada vez mais numa floresta de máquinas. Estamos correndo o risco de acabar sendo uma coletividade de robôs. Está claro que não me refiro ao nosso mundo latino-americano nem aos países subdesenvolvidos em geral, mas sim àqueles em que existe ou começa a existir uma superindústria e uma supertécnica.

Eduardo sorri um sorriso superior.

— Esse perigo — diz — só pode existir nos países capitalistas de produção desordenada, onde imperam os trustes, cujo objetivo primordial é o lucro, e onde a economia anda às cegas, sem plano, dominada por grupos que se entredevoram e periodicamente provocam as guerras. Mas nos países socialistas as máquinas não escravizam os seres humanos porque estão nas mãos do Estado. Na Rússia a técnica é usada a favor do homem e não contra ele. Mas me deixem continuar a exposição...

Através da janela Floriano vê na praça o mudo e rápido desenrolar-se duma cena que o diverte. Um velhote aproxima-se do japonês, compra-lhe um balão vermelho e encosta nele a ponta do cigarro aceso, fazendo-o estourar. Depois atira fora o pedaço de borracha que lhe ficou na mão e continua, muito sério, seu caminho.

— Segundo a noção do homem total — está dizendo Eduardo —, seus órgãos, suas funções naturais se transformam no decurso de seu desenvolvimento social e histórico. Tu negas isto, Zeca?

O marista hesita: o potro dentro dele parece escarvar-lhe o peito.

— A vida social do homem — continua o mais jovem dos Cambarás — e sua história na face da Terra têm a força de transformar suas funções naturais, seus sentidos, o tato, o gosto, o olfato, a visão, o ato de comer, de beber, de procriar. A essa transformação Marx chama apropriação pelo homem da Natureza e de sua própria natureza.

“O Baixinho vai ganhar de rebenque erguido!”, grita alguém com voz estrídula na mesa próxima, soltando em seguida uma risadinha. Os quatro amigos voltam instintivamente a cabeça. Um garçom passa com uma bandeja cheia de canecões de chope. A música dum paso doble enche agora o largo, dando-lhe um vago ar entre festivo e dramático de praça de touros.

— E aqui chegamos ao ponto nevrálgico da questão — prossegue Eduardo, depois de tomar um gole de cerveja. — Existem milhões de criaturas humanas no mundo inteiro que estão excluídas desta ou daquela atividade social, deste ou daquele privilégio ou poder. As massas não vivem: vegetam.

— É o que o teu chefe chama de “alienação do homem” — acrescenta Tio Bicho.

Eduardo olha para Floriano:

— Tu mesmo falavas outro dia lá em casa nessa alienação, só que raciocinavas dentro dum psicologismo estreito, sem te preocupares com os aspectos concretos e imediatos dessa alienação. Tu és desses que em face duma lâmpada acesa querem estudar o fenômeno da luz em si mesmo, sem jamais procurar saber nada da lâmpada que produz a luz, dos fios a ela ligados, da corrente elétrica que passa por esses fios, e do dínamo que produz essa corrente.

— E assim por diante até Karl Marx — sorri Bandeira.

— Até Deus — corrige-o Zeca.

Eduardo está ainda a olhar intensamente para o irmão:

— Tu te refugias num vago humanismo estético ou poético, feito, eu não duvido, de boas intenções... vagamente religioso (apesar de teu agnosticismo) mas absolutamente inoperante, contemplativo e cretino.

Floriano sorri e pergunta a si mesmo: por que os silêncios e os olhares críticos de Jango sempre me irritam mais que a agressividade verbal do Eduardo?

Este se recosta no respaldo da cadeira, passa a mão pela cabeça, lança para a praça um olhar vazio, e continua:

— O sistema capitalista reduziu todas as necessidades humanas a uma necessidade única: a do dinheiro, seu valor máximo. Tu mesmo, Floriano, vives a proclamar isso... E qual é a técnica do homem de negócios capitalista senão a de criar necessidades nas outras pessoas a fim de forçá-las a uma nova dependência? Como resultado disso, todo o mundo vive de crédito, no regime inflacionário da prestação, hipoteca o seu futuro, perde a identidade e a liberdade... Quanto maior for o número de artigos produzidos pela indústria no sistema capitalista, maior será o reino das coisas alheias que escravizam o homem...

Floriano pensa agora numa noite de tempestade da sua infância. Os relâmpagos, visíveis através das bandeirolas do quarto, de quando em quando clareavam a treva interior. As trovoadas faziam estremecer as vidraças do casarão. Sem poder dormir, ele esperava que o temporal se desfizesse em chuva, pois sabia que só assim ele se aliviaria daquele peso opressivo no peito, daquela sensação de fim de mundo. Foi então que viu um vulto à luz dum relâmpago. Reconheceu Eduardo, que entrava no quarto, corria para sua cama, metia-se debaixo das cobertas, achegava-se a ele e lhe murmurava junto da orelha: “Tou com medo”. Abraçou o irmão mais moço, cochichando: “Não é nada. Dorme, isso logo passa”. E seu medo desapareceu dissolvido no medo maior do outro, cujo coração batia acelerado de encontro ao seu. Dentro de alguns minutos cessaram os trovões e os relâmpagos, a chuva começou a cair. Eduardo dormia sereno em seus braços.

— A técnica — prossegue este último, e Floriano de novo sorri da seriedade didática do irmão —, dando ao homem o domínio sobre a Natureza, tornou possível a felicidade social. No nosso mundo ocidental essa felicidade é privilégio duns poucos. O comunismo despertou as massas, deu-lhes a consciência de seus direitos, para que elas reclamem a sua parte nesse progresso e nesse bem-estar.

Inclina-se, apoiando ambos os braços sobre a mesa, e prossegue, incisivo:

— O Roque se engana quando afirma que não existe uma ideia militante adequada à nossa época e à nossa realidade cotidiana. Ela existe, e é a que acabo de expor: a noção marxista do homem total. Em vez de usar o falso trampolim duma definição abstrata, acadêmica, partimos do exame concreto dos acontecimentos históricos e procuramos fazer que o homem supere, ultrapasse por atos e não por pensamentos todos os seus conflitos, oposições, separações, desencontros e contradições... Vocês vivem a perguntar: “Que é o homem? De onde vem?”. Ora, nós os marxistas preferimos pensar no que o homem pode vir a ser, e em até que ponto ele pode ser o arquiteto de si mesmo.

Inclina-se ainda mais, fica quase a tocar com a boca o gargalo de uma garrafa. Floriano lembra-se do tempo em que o Edu de seis anos lhe vinha dar “concertos”, soprando muito compenetrado num garrafão de vinho vazio, procurando tocar uma música que mentalmente ele devia estar ouvindo em toda a sua riqueza melódica, mas que na sua reprodução se reduzia a duas notas.

Tio Bicho fita em Eduardo seus olhos claros e diz:

— Até certo ponto somos correligionários, menino. O que me impede de ir mais longe contigo é que, assim como não acredito na capacidade do homem de fazer-se santo, como proclama a fé religiosa, não confio na sua habilidade para conseguir a felicidade terrena ou social como a tua fé, Edu, apregoa.

— Tu sabes que não tenho nenhuma fé.

— Como não? Vocês comunistas se sacrificam a ponto de estarem dispostos a morrer pela causa do proletariado, da fraternidade universal e quejandas besteiras. Por outro lado não acreditam em recompensas numa outra vida, e, se morrem, nada ganharão também nesta... Assim sendo, o que leva vocês a esses sacrifícios é inescapavelmente uma fé que transcende a dialética marxista. Logo, comunismo é religião.

Por um instante o que Floriano lê no rosto do irmão é uma expressão de indignada perplexidade. E, antes que ele reaja, Bandeira torna a falar.

— Tanto para o comunista como para o cristão (talvez eu devesse dizer especificamente “o católico”), o fim justifica os meios...

— Não me venhas outra vez com essa cantiga... — replica Eduardo. — Olhem, o que posso dizer é que se os meios da Rússia marxista são às vezes violentos, é preciso não esquecer que eles são apenas meios, isto é, processos transitórios, ao passo que os fins do capitalismo são permanentes: a injustiça social, a busca do lucro por uma minoria com o sacrifício da maioria. A decantada “civilização ocidental e cristã” tem estado sempre a serviço de grupos financeiros e econômicos como a DuPont, a Standard Oil, a Krupp... E agora, com a bomba atômica, os Estados Unidos poderão defender com mais eficiência a dignidade e a integridade da pessoa humana, como ficou provado com a destruição de Hiroshima e Nagasaki. Claro, é preciso esclarecer que japonês não é bem “gente”. Nem negro. Nem mexicano. E (não nos iludamos) nem nós sul-americanos...

— Não é bem assim, Edu! — protesta o marista. — Os fins que os comunistas visam são imanentes e históricos, e portanto os meios de que eles se servem terão de ser fatalmente humanos e materiais. Explica-se desse modo o fato de terem seus líderes de recorrer frequentemente à violência. Agora, nós os católicos vivemos em relações íntimas com o sobrenatural, de sorte que nossos meios serão sempre sobrenaturais e espirituais. Jamais exercemos a violência, quer física quer espiritual, sobre o homem. A Igreja o deseja livre, com a liberdade de escolher entre o Bem e o Mal.

— Vocês não descobriram ainda — sorri Tio Bicho — que o diabo é subvencionado pelas igrejas cristãs? (E a católica é a que paga a quota maior.) Sem Pero Botelho o “negócio” religioso não funcionaria. O fim do diabo bem poderia ser o fim de Deus.

— É através do reconhecimento da transcendência — prossegue o marista, sem dar maior atenção às palavras de Bandeira — que o homem se libera. A negação dela o transforma num escravo. A falta de transcendência leva vocês comunistas a essa brutalidade de linguagem e de atos que elimina desde o início qualquer possibilidade de diálogo. — Sorri e, por um instante, Floriano julga ver a expressão pícara de Toríbio Cambará no rosto do filho. — E se hoje dialogas conosco é porque estás aqui em minoria. No dia em que o comunismo triunfar (que Deus nos acuda!) e tu fores feito comissário, estaremos todos perdidos.

Agora é Rodrigo Cambará quem surge repentino em Edu, quando este agarra o jornal dobrado e trata de atingir com ele o marista, entre as pernas, exclamando: “Nesse dia eu te capo, ordinário!”.

E os quatro desatam a rir.

— Como vamos nos entender — continua Zeca, de novo sério —, se estás preocupado apenas com a salvação do homem na Terra e não acreditas na existência duma alma que transcende o corpo? O homem é uma criação de Deus, o centro do universo. O dogma da queda e da redenção, que tanto ridicularizas (talvez porque no fundo ele te preocupe mais do que desejarias), dá ao ser humano a certeza de que dele depende a salvação ou a perdição de sua vida.

— Vocês falam, por exemplo, na “pessoa humana” — replica Eduardo — como se ela não passasse duma abstração, duma entidade estática. O marxista, pelo contrário, vê no indivíduo uma realidade complexa. O homem é um núcleo, um centro de relações ativas em contínuo processo de transformação.

Tio Bicho faz com a cabeça um sinal de assentimento.

— Tu vives a afirmar — diz o marista — que a Igreja não se preocupa com a miséria das massas. Não é verdade. Péguy escreveu, e eu estou apaixonadamente de acordo com ele, que é necessário fazer uma revolução temporal para conseguir a salvação eterna da humanidade, pois é insensato deixar que os homens continuem no inferno da miséria. É indispensável fazê-los transpor a linha que os separa da pobreza, que já é um purgatório em si mesma. Nossa obrigação de cristãos é a de estar presentes em todos os esforços do mundo no sentido de construir uma sociedade mais humana. O verdadeiro cristão não terá de ser necessariamente contemplativo, mas militante. E se pensas, Edu, que na hora em que a tua revolução estiver nas ruas eu vou me esconder atrás do altar, estás muito enganado. Saio para enfrentar vocês de homem para homem, com batina ou sem batina.

Bandeira, que tem estado a fumar cigarro sobre cigarro, desata numa risada convulsiva que se emenda com um acesso de tosse. Ergue-se e, dobrado sobre si mesmo, faz uma volta convulsiva ao redor da mesa, e depois, mais calmo, torna a sentar-se. O potro volta à soga. Irmão Toríbio prossegue:

— Não é só o pecado de Adão a causa dos sofrimentos da humanidade. São os pecados que os homens continuam a cometer dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. A ambição desmedida, a falta de verdadeiro amor ao próximo, a ausência duma tábua de valores morais rígida, a libertação dos instintos, tudo isso conduz ao crime, à guerra, às revoluções, às desigualdades sociais, às crises econômicas e a todas as outras.

— Ainda estás no domínio das palavras e das boas intenções — replica Eduardo. — Como diz Emmanuel Mounier, que por sinal é anticomunista: “A palavra separada do engagement resvala para a eloquência, e o farisaísmo está, ainda que imperceptivelmente, no âmago de toda a eloquência moral”.

Floriano vê o japonês atravessar a rua: vendeu todos os balões, leva nas mãos apenas uma ventoinha que o vento faz girar. O sol da tarde acentua-lhe o amarelo do rosto.

— Não é verdade também — diz Irmão Toríbio — que a Igreja aprove o sistema semifeudal que existe em países como o nosso. Chamamos ao latifúndio “terras de injustiça”.

— Mas não é isso que o nosso vigário prega em seus sermões — intervém Tio Bicho. — Segundo ele, a propriedade é um direito divino.

— O vigário é uma besta! — relincha o potro. Mas em seguida, percebendo que se excedeu, o marista procura corrigir-se. — O padre Josué, coitadinho, é um santo homem, mas um tanto ingênuo. Em matéria de literatura, além do Livro de Horas, acho que só lê as Vozes de Petrópolis.

Agora quem ri é Eduardo. Mas nem por isso deixa de voltar ao ataque:

— Só um inocente pode acreditar na santidade duma Igreja como a católica, cujo passado não está absolutamente isento de atos de violência, crueldade e injustiça.

— A Igreja — explica Zeca, escandindo bem as sílabas — é santa na sua estrutura divina, mas é também humana porque seus sacerdotes são homens que todos os dias precisam pedir perdão a Deus pelos seus erros e pecados. A Igreja é transcendente no tempo pela sua mensagem de ressurreição, mas não pode ficar indiferente às formas que assumem as sociedades humanas. Não vou negar que temos tido bispos e arcebispos e cardeais demasiadamente políticos e até politiqueiros, que se portaram como se a missão da Igreja fosse apenas a de sobreviver no tempo e na Terra. E outra coisa! É um engano também pensar que o católico despreza o corpo. Não senhor. O corpo para nós também é importante. E o admirável é que a Graça pode salvar não somente a alma como também a carne.

— Não acredito na alma — diz Roque — e não tenho o menor interesse em salvar este corpo.

— Um dia destes — continua o marista — o Floriano me dizia que na sua opinião a Igreja se fortaleceria espiritualmente se voltasse às catacumbas. Eu respondi que essa era uma ideia romântica e ultrapassada. E, seja como for, em certos países hoje em dia a Igreja foi obrigada a voltar mesmo às catacumbas. Vocês precisam compreender que a fé cristã não é uma ideologia ou um mito social, político ou econômico. É uma transcendência. Mas nem por isso nós os católicos deixamos de nos interessar pelos problemas e pelas dores do homem na Terra, no famoso plano histórico a que o Eduardo dá tanta importância. Estamos sempre do lado das forças da justiça e do amor, pois só há uma maneira de o cristão provar que ama a Deus: é amando seus semelhantes.

Eduardo faz uma careta de cepticismo. Floriano olha na direção do Sobrado e pensa simultaneamente em Sílvia e no pai. O marista continua com a palavra:

— E depois, sejamos sinceros, não sou daqueles que acreditam na possibilidade de qualquer pessoa, nem mesmo num sacerdote, passar pela vida com as mãos imaculadas...

— Diz isso ao Floriano — atalha-o Eduardo, olhando provocadoramente para o irmão. — Ele é o grande discípulo de Pôncio Pilatos.

— Há pouco — diz o marista — li uma frase que muito me agradou. É mais ou menos assim: “Devemos lutar como se tudo dependesse de nós e pormo-nos de joelhos como se tudo dependesse de Deus”. Repito que não é possível deixar de sujar as mãos em assuntos terrenos. Só um neutralismo absoluto nos poderia manter de mãos limpas. E, nesta hora, na minha opinião a neutralidade é uma covardia. Quando nos negamos à luta, estamos condenando milhares de seres humanos à desgraça. Estamos pecando por omissão.

— Entendo — interrompe-o Eduardo — que com toda essa conversa estás procurando justificar também a Inquisição...

— Não é precisamente isso. Mas ouve o que vou te dizer. A Inquisição cometeu crimes injustificáveis e horrendos pelos quais nós nos penitenciamos e oramos. Mas, seja como for, as suas vítimas eram postas, em última instância, nas mãos de Deus, o Supremo Juiz. Por isso afirmamos que mesmo quando a autoridade (que segundo santo Tomás de Aquino é um mal necessário e uma consequência do pecado, bem como a propriedade), mesmo quando a autoridade comete erros, tais erros não são irremediáveis, porque Deus terá a última palavra, e os inocentes serão redimidos.

— É monstruoso! — exclama Eduardo. — Como pode uma pessoa que pensa dizer uma coisa dessas?

Tio Bicho ergue-se lentamente, depois de calçar os sapatos, e põe o chapéu na cabeçorra.

— O Zeca acaba de falar não apenas em nome da Igreja como também do Partido Comunista. Substitua-se a expressão “Deus, Supremo Juiz” por “Presidium do Soviete Supremo”, e teremos também justificados os expurgos e todos os outros crimes do comunismo. Vamos sair e tomar um pouco de ar!

Floriano chama o garçom e pede a nota.

— Não! — exclama Tio Bicho. — O nosso proletário que pague a despesa. No fim de contas o show foi dele...

 

Acham-se os quatro amigos há já algum tempo a andar à toa na praça agora quase deserta. Os alto-falantes da Anunciadora estão mudos. O sol escondeu-se por trás da Matriz, cuja sombra se projeta sobre a rua, atingindo os primeiros canteiros. Vem de algum quintal próximo a fumaça aromática e evocativa de ramos de jacarandá queimados.

Olhando para o busto de Lauro Caré, Bandeira pensa em voz alta:

— Não é mesmo estranho que esse piá, que pouco ou nada sabia de geografia e história, acabasse morrendo na Itália, numa guerra que decerto nunca chegou a compreender direito?

— O destino dos Carés — glosa Eduardo — foi sempre lutar na “guerra dos outros”, sem nenhum proveito para o seu clã. Esse bem podia ser também um monumento ao Alienado Social.

Num cartaz colado à base do coreto, vê-se o retrato dum homem jovem de cara larga, expressão simpática mas um tanto palerma, acima deste letreiro: Vote em LINO LUNARDI, candidato de GETULIO.

— O filho do Marco, candidato à deputação pelo Partido Trabalhista... — murmura o Tio Bicho. — Positivamente, este mundo velho está de patas para o ar. — Acende outro cigarro. — Tomem nota: vai ser eleito. Tem todas as qualidades para vencer. É analfabeto e filho de pai rico. O Marco está gastando uma fortuna com a propaganda desse bambinão.

Sentam-se os quatro num banco e ficam longo tempo em silêncio a olhar para o busto. Eu gostaria — pensa Floriano — de fazer uma experiência: chamar a atenção do Eduardo para esta doce hora do entardecer em que as sombras vão ficando cor de violeta, a luz se faz mais branda e dourada, dando à paisagem não só mais dignidade como também uma espécie de quarta dimensão, impossível quando o sol está alto. Qual seria a reação dele? Claro, acharia que apreciar a tarde pela tarde é algo assim como fazer arte pela arte — um fútil e inútil passatempo pequeno-burguês... Não, mas talvez eu me engane. E se ele estiver agora pensando romanticamente na companheira que deixou no Rio, na sua “Passionária do Leblon” com quem parece estar mantendo uma correspondência tão ativa? E por onde andará o pensamento do filho de Toríbio Cambará? Desta vez quem vai quebrar o silêncio sou eu.

— Estive há pouco imaginando uma fábula moderna — diz. — Prestem atenção. Mr. Smith, cidadão americano, luta na Primeira Guerra Mundial para “to make the world safe for democracy”. É ferido em ação e, quando a guerra termina, volta para suas atividades comerciais, esforça-se à melhor maneira ianque para obter seu lugar ao sol e acaba ficando rico. Vem a Segunda Guerra Mundial e o filho de Mr. Smith alista-se na Força Aérea de seu país, é mandado em várias missões de bombardeio sobre a Alemanha, e as bombas de seu avião, financiadas com o dinheiro dos impostos de homens como seu pai, destroem algumas fábricas, pontes, represas e ramais ferroviários... Na volta de uma dessas tarefas, seu aparelho é abatido pela artilharia alemã e o jovem Smith perde a vida. Pois bem. Terminou a guerra, firmou-se a paz e agora tudo indica que os Estados Unidos vão dar ajuda financeira à Alemanha para que ela se reerga. Teremos então o nosso Mr. Smith a contribuir com altos impostos para reconstruir as fábricas, pontes, represas e ramais ferroviários destruídos pelo filho que ele perdeu e que ninguém jamais lhe poderá restituir. Não é uma farsa insensata e cruel?

Num pulo Eduardo ergue-se e posta-se na frente do irmão, batendo forte com o jornal contra a própria coxa:

— E esse Mr. Smith continua achando que a free enterprise, o sistema capitalista competitivo em que vive, é o regime ideal! Palavra, Floriano, eu não te compreendo. Vês claro o problema e no entanto te recusas a erguer um dedo para melhorar a situação. Só posso atribuir isso a um comodismo não apenas vergonhoso como também criminoso.

— Ó Edu, não me venhas outra vez com essa besteira. Qualquer psicólogo te dirá que o comodista é o homem normal. O outro, o que quer morrer, matar ou sacrificar-se por uma causa, esse é um masoquista ou um sadomasoquista.

Eduardo quase encosta o jornal no nariz do irmão quando lhe diz:

— Vocês intelectuais indecisos se refugiam na psicanálise e na semântica para escaparem à responsabilidade de tomar uma posição política definida.

Floriano rebate:

— Essa necessidade de extremismo, meu filho, não passa duma doença romântica e juvenil. Vocês parecem achar que só por ser extremista a posição política do comunista terá de ser necessariamente a melhor ou a única. Tenho verdadeiro horror a certos sujeitos que se levam demasiadamente a sério, fica tu sabendo. Essas ideias dogmáticas que andam por aí são camisas de força que eu me recuso a vestir. Vocês marxistas se colocam no ponto de vista da história para poderem apossar-se do futuro e em nome dele se avocarem o direito de sacrificar as gerações de hoje, em benefício das de amanhã. Ora, humanidade já é uma abstração. Humanidade do futuro é uma dupla abstração. Recuso dar aos comunistas ou a quem quer que seja essa carta branca. Vocês pedem ao mundo um perigoso crédito em tempo e em vidas humanas. É uma operação que o povo tem toda a razão de temer e à qual positivamente eu me nego.

— Se me provares — replica Eduardo — que o regime capitalista não mata gente aos milhões por omissão ou comissão, em guerras, revoluções ou então por absoluta falta de justiça social, se me provares isso eu me comprometo a tomar a primeira comunhão domingo que vem.

— E eu pago o véu! — diz Tio Bicho.

— Outra coisa — acrescenta Floriano. — Quando um homem, seja ele quem for, está disposto a tolher a liberdade de seus semelhantes, a torturá-los ou a assassiná-los em nome duma ideia política ou de qualquer outra “verdade”; quando se está compenetrado demais de seu papel de Regenerador, de Profeta ou de Vingador, enfim, quando sua paixão política ou religiosa se faz fanatismo, esse homem na minha opinião passa a ser um perigo social, está precisando urgentemente dum tratamento psiquiátrico.

— Já que te impressionam tanto os casos de psicopatologia — diz Eduardo —, o teu quietismo, a tua indiferença, a tua abulia não serão também uma neurose?

Floriano encolhe os ombros.

— Pois se forem... serão neuroses das quais não poderá vir nenhum mal social, me parece.

— E nenhum bem! Até o Zeca reconhece que nesta hora em que os bandidos são militantes, a neutralidade ou a indiferença dos homens de bem é, além duma covardia, um crime.

Tio Bicho, que se abana com o chapéu enquanto passa o lenço pela testa, murmura:

— Acho que vamos acabar chegando à cômica conclusão de que de nós quatro o único cristão puro é ainda aqui o nosso romancista...

Floriano avista de seu banco o velho Aderbal, que neste momento sai a cavalo pelo portão do Sobrado — teso em cima da sela, a cabeça erguida, a imagem viva do “monarca das coxilhas”, figura de retórica que o Amintas tantas vezes usou no seu discurso da manhã.

Eduardo caminha impaciente dum lado para outro, na frente do banco, passando as mãos perdidamente pelos cabelos.

— Houve um tempo — diz Floriano, sentindo uma preguiça boa que lhe vem da tarde — em que quase me deixei levar pelo canto de sereia do comunismo. Para ser mais exato, o que me empurrava para a extrema esquerda era menos a sedução do marxismo do que as contradições e injustiças do capitalismo. Este absurdo sentimento de culpa que nós os intelectuais (com o perdão da má palavra) carregamos, me levava a perguntar a mim mesmo se eu não estaria cometendo um erro, permanecendo à margem da luta social, e se não me devia atirar de olhos fechados nos braços de Papai Stálin, nem que fosse apenas como um protesto contra o regime em que vivemos. Ora, essa dúvida não durou muito, porque logo comecei a tomar consciência também das contradições e injustiças do regime comunista. Cheguei à conclusão de que o remédio marxista estava matando o paciente com a cura. Em outras palavras, vocês, Eduardo, estavam jogando fora o bebê com a água do banho!

Sem sequer voltar a cabeça para o lado do irmão, e sempre a andar dum lado para outro, Eduardo murmura:

— Com esse tipo de humor e de raciocínio, darias um excelente redator para a Time e para a Life.

O outro prossegue:

— Reconheço a grande dívida que a humanidade tem para com Karl Marx. Mas não devemos esquecer que os acontecimentos deste século não confirmaram em absoluto a convicção do Velho de haver descoberto as leis que governam a história. Acho a crítica marxista à sociedade capitalista do século XIX perfeita: não há nada a tirar ou a acrescentar. Mas acontece que o capitalismo se tem modificado. E a ideia de que a luta proletária seria definitiva, capaz de abolir o Estado e criar uma sociedade sem classes me parece baseada num desconhecimento quase completo da psicologia humana. A socialização dos meios de produção não suprimiu automaticamente a luta pela existência individual. Longe de conseguir a abolição das classes, o Estado soviético se transformou num instrumento de opressão sem precedentes, e acabou criando não só uma tremenda burocracia como também uma classe privilegiada.

Eduardo estaca na frente do irmão e pergunta:

— Quem te contou isso! Foste à Rússia? Leste a respeito da União Soviética outra literatura que não essa encomendada e divulgada pela Wall Street?

— O marxismo — continua Floriano, sem tomar conhecimento da interrupção — começou sendo um método científico, uma ideia dialética e acabou por transformar-se numa ideologia, numa mística, num dogma e finalmente numa religião secular, numa igreja militante, já com seu calendário de santos e mártires...

— Protesto contra a comparação — acode Zeca, entre sério e brincalhão.

— Eu te confesso — diz ainda Floriano — que a minha fé ou, se não gostares da palavra, o meu desejo de justiça social não vai tão longe a ponto de me fazer entregar voluntariamente ao comissário a minha liberdade pessoal...

— Essa famosa liberdade — completa Eduardo — que diariamente entregas a todos os tipos de pressão externa e interna, inclusive a que vem das notícias mundiais deformadas por agências como a Associated Press e a United Press, que fazem o jogo dos trustes, dos monopólios e dos cartéis.

— Mantendo a falácia da ditadura do proletariado — prossegue Floriano —, a Rússia soviética instituiu uma tirania estatal, um sistema supercapitalista, supernacionalista e militarista em que o homem deixa de ser um fim em si mesmo para se transformar num instrumento dos interesses desse gigante impessoal, dessa máquina econômica em que os meios de produção permanecem ainda nas mãos dum pequeno grupo.

Com o jornal debaixo do braço, Eduardo está agora parado de costas para o interlocutor, assobiando como para não ouvir o que ele diz.

— Não estou interessado em salvar o mundo capitalista nem em esconder suas tremendas deficiências e contradições — continua Floriano —, mas não vejo por que aceitar a solução soviética como a única alternativa. Na Rússia tudo é planificado implacavelmente, desde a economia até a literatura e a arte. Os kulaks que se negaram a aceitar a coletivização de suas terras foram deportados, presos ou executados. Trótski foi declarado fascista e Ivan, o Terrível, proclamado herói soviético. Ora, deves reconhecer que para engolir tudo isso é preciso ter muita fé ou então ser muito ingênuo...

— Negas também — pergunta Eduardo — que tenha havido progresso social e econômico na Rússia depois da Revolução de Outubro? E que a União Soviética seja hoje uma potência mundial tão importante quanto os Estados Unidos?

— Não nego. E vou mais longe. Reconheço também que devemos à presença ativa da Rússia no mundo, e ao trabalho dos comunistas através de todos os outros países, essas mudanças que estão por assim dizer esquerdizando o capitalismo, obrigando-o a revisar sua política.

— Não me venhas com essa... — começa Eduardo, mas Floriano fala mais alto:

— Digo-te mais, rapaz: sem essa ação catalisadora da Rússia estaríamos marcando passo em matéria de política social... Mas por outro lado se o comunismo soviético vier a dominar o mundo, estaremos perdidos.

— Que propões então? A República de Platão?

— Confesso que me sinto um tanto ridículo expondo um programa político, social, econômico — olha o relógio — às seis da tarde, em plena praça de Santa Fé. Mas posso te adiantar que o regime ideal seria um socialismo humanista: o máximo de socialização com o máximo de liberdade individual. Nesse regime a terra e o capital seriam comuns, mas o governo, democrático. Numa palavra: esse sistema deveria não só conseguir uma democracia social como também preservar a democracia política, sem o que terá destruído exatamente aquilo que todos queremos salvar: a liberdade, a identidade e a dignidade do homem.

Tio Bicho, que parece despertar de sua modorra, diz:

— Bravo, muito bem, o orador foi vivamente cumprimentado. Mas nem só de ideias e sonhos vive o homem. Minha barriga já está roncando. Acho que podíamos começar a pensar em comer. Vocês jantam comigo?

Floriano aceita o convite. O marista diz que não pode. Eduardo não toma conhecimento dele, e torna a falar:

— Suponhamos que esse teu regime ideal seja possível (o que não creio), que estás tu fazendo para que esse mundo se torne real? Escrevendo poemas? Rezando? Vives acomodado, encaramujado, em permanente estado de contemplação. Teu socialismo é o do “bom moço” que quer apaziguar sua consciência de liberal e ao mesmo tempo não ficar de todo malvisto pela burguesia.

Floriano ergue-se, espreguiçando-se, e responde sem rancor:

— Queres saber o que estou fazendo? Estou resistindo a vocês como resisti e resisto aos fascistas, recusando-me a aceitar a escravidão do homem, a anulação da personalidade como o único caminho da salvação social. E olha que já não é pouco.

Começam os quatro a caminhar devagarinho na direção do Sobrado. Tio Bicho coloca-se entre os dois irmãos, tomando o braço de um e de outro.

— Vocês querem saber — pergunta — por que não levo a sério essas panaceias sociais? É porque não creio, repito, na bondade inata do homem, nessa coisa que o Zeca vive a proclamar. O homem está mais perto do animal do que ele próprio imagina. Tem ainda a marca da jungle. Essa história de amor cristão, altruísmo, et cetera, não passa de conversa fiada. O homem hipocritamente se atribui sentimentos e qualidades que na realidade não possui. Em matéria de espírito, vive muito além de suas posses reais. É, vamos dizer, um carreirista safado no plano moral. Saca contra o Banco da Decência e dos Sentimentos Nobres S. A., onde absolutamente não tem fundos, mesmo porque esse banco no final de contas é também uma fraude. Mas a verdade é que os cheques se descontam, têm valor, andam de mão em mão... e vocês sabem por quê? Porque todos somos falsários, estamos desonestamente no jogo. E assim a comédia continua.

O marista, que vem logo atrás do trio, sacode a cabeça e diz:

— Tu não acreditas nisso, Bandeira, sei que não acreditas. Não nego que a natureza animal do homem o empurre muitas vezes para o mal. Mas a noção da existência de Deus nos distingue dos irracionais. Essa ideia é a porta de nossa salvação não só espiritual como até mesmo corporal.

— Se fôssemos mais modestos — conclui Bandeira —, se tivéssemos uma opinião menos alta de nós mesmos e nos mantivéssemos no limite de nossas “contas bancárias espirituais”, talvez vivêssemos num mundo melhor, de menos enganos e erros.

Uma mulher caminha lentamente por uma das calçadas da praça. Reconhecendo-a, Floriano estaca instintivamente. Os outros também fazem alto, percebendo de imediato de quem se trata. Sônia Fraga, a amante de Rodrigo Cambará, está neste momento passando pela frente do Sobrado!

Vestida de branco, traz ainda na pele muito do sol de Copacabana. Óculos escuros escondem-lhe os olhos. Os cabelos, dum castanho-profundo, caem-lhe lustrosos sobre os ombros. Tem pernas longas, seios e nádegas empinados, e seu andar, a um tempo leve, ondulante e firme, sugere algo de garça e de gata.

O marista baixa os olhos, pigarreia, manipula o crucifixo. Eduardo põe-se a assobiar sua musiquinha sem melodia. Para disfarçar, Tio Bicho busca no bolso um cigarro, prende-o entre os dentes, risca um fósforo, que falha três vezes — e a todas essas continua de olhos postos na “visão”. Floriano segue a rapariga, fascinado, notando que ela mantém a cabeça todo o tempo voltada para o casarão. Na janela do quarto de Rodrigo divisam-se os contornos duma pessoa.

Sentado no leito, junto da janela, Rodrigo Cambará vê Sônia passar. Tem na mão o frasco de Fleurs de Rocaille, que mantém junto das narinas, aspirando-lhe o perfume para ter a ilusão de que está mais perto daquele corpo querido. O coração bate-lhe descompassado, uma ardência quase sufocante sobe-lhe pela garganta, lágrimas escorrem-lhe pelas faces.