O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)
Reunião de família IV
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
-lhes o peso específico. Sim, esta luz de ouro novo que agora entra alegre pelas janelas, parece ter a capacidade de atravessar as pessoas e as coisas, deixando-as transparentes e vazias de conteúdo dramático.
— Mas não estou arrependido de ter vindo — diz em voz alta. — Afinal de contas um congresso de família é sempre interessante...
Ia quase dizendo edificante, o que tornaria o sarcasmo (involuntário?) ainda maior.
— Fresco congresso — murmura Rodrigo, apanhando a chaleira para tornar a encher a cuia.
Vozes humanas vêm da praça, em frases ou gritos. São como dardos soltos na grande manhã luminosa. Rodrigo faz menção de entregar a cuia ao filho, mas não completa o gesto.
— Ia esquecendo que não tomas mate.
— Pecado mortal segundo a teologia gaúcha, não?
— Pecado venial. Os mortais são outros.
Contemplando o filho com uma mistura de afeto e impaciência, Rodrigo pensa: “Pecado mortal é ter um corpo como o teu e não usá-lo inteiro. Pecado mortal é viver a vida que levas. Qualquer dia ainda vou te dizer estas coisas na cara. Agora não. Estou cansado. Mas quem me dera os teus trinta e quatro anos!”.
Floriano contempla o pai, esforçando-se para não deixar transparecer na fisionomia a pena que sente dele.
Este rapaz terá alguma coisa a me dizer? — pergunta-se Rodrigo a si mesmo. Decerto quer me falar sobre a Sônia, me pedir que mande embora a rapariga. Sempre foi do lado da mãe. Não o censuro, é natural. Mas por que não desembucha logo?
Pigarreia, mete a mão por dentro da camisa, apalpa o tórax à altura do coração. Floriano percebe por entre a cabelama do peito do velho o lampejo de alumínio duma medalhinha oval com a imagem duma santa.
— Como está se sentindo?
— Pior que rato em guampa. O Dante quer me empulhar com suas falsas esperanças. Pensa que esqueci toda a medicina que me ensinaram.
— Mas a crise aguda não passou? Agora não é apenas...?
Rodrigo interrompe-o com um gesto de impaciência.
— Qual nada! É o que vocês literatos chamam de “mentira piedosa”. Eu sei que pode sobrevir uma recidiva repentina e violenta... e adeus, tia Chica! Não me iludo, meu filho, os meus infartos foram relativamente benignos, com repouso e dieta séria eu podia ir longe. Mas depois deste edema pulmonar agudo, estou condenado. É questão de tempo.
À noite me seria fácil acreditar que ele vai morrer mesmo — reflete Floriano. — Agora não. Há muita esperança na manhã. Muita beleza nessa cabeça tocada de sol. Muito apetite de vida nesses olhos.
— E sabes como é que vou acabar? Pois eu te digo. Tenho uma insuficiência ventricular esquerda. Vou morrer de assistolia. Para falar ainda mais claro: vou morrer asfixiado. Quando eu era menino, a história que mais me apavorava era a do homem que tinha sido enterrado vivo. Tu vês, essa morte foi escolhida a dedo pra mim...
Agora devo me levantar — pensa Floriano —, pousar a mão no ombro dele e dizer, jovial: “Acabar coisa nenhuma. Não se entregue. O senhor vai aos oitenta”. E por que continuo aqui sentado e silencioso? Porque estou mesmo convencido de que ele vai morrer? Porque sei que ele não acreditará nas minhas palavras? Ou porque tudo pareceria teatral, convencional ou piegas? Ou será porque já descrevi uma situação como esta num de meus romances? Por quê? Por quê? Vamos, ainda é tempo! Amanhã, depois que ele se for, sentirei remorso por não ter feito o gesto.
— Às vezes — continua Rodrigo —, quando estou aqui sozinho, pensando na morte, pergunto a mim mesmo se não seria melhor meter uma bala nos miolos e acabar logo esta agonia.
Floriano olha instintivamente para a mesinha de cabeceira em cuja gaveta Rodrigo guarda o revólver. Imagina-se entrando no quarto na calada da noite, na ponta dos pés, para roubar a arma. E só de pensar no que essa cena tem de melodramático, ele sente nas faces e nas orelhas um calorão formigante de vergonha.
Rodrigo espera e deseja do filho um gesto de amor. Por que está ele ali de olhos baixos, calado, com as mãos segurando os joelhos, como um réu?... Sim, é curioso, Floriano tem um permanente ar de réu. É incrível que meu filho não tenha nenhuma intimidade comigo. Talvez o culpado disso seja eu. Mas não, deve ser o sangue dos Terras. Para ser justo não devo esquecer que às vezes eu também tinha ar de réu na frente do velho Licurgo. Agora aqui estou como pai. Não tenho nenhuma vocação para o papel.
Torna a encher a cuia, que aperta com uma das mãos, sentindo-a quente, com algo de humano — seio ou nádega de mulher.
— Ah! — exclama. — Tive um sonho engraçado a noite passada. Vou ver se me lembro direito...
Feliz por ver a conversação tomar outro rumo, Floriano anima-se:
— Somos uma família de sonhadores. Eu sonho tanto, que às vezes desperto cansado com a impressão de haver passado a noite em claro.
Rodrigo fica por um instante a pescar imagens nas águas turvas do sonho, tal como esse lhe ficou na memória.
— Bom... Eu estava sentado, não sei bem onde, se aqui ou no Rio... Só sei que era uma roda de chimarrão. Enchi a cuia e passei-a à pessoa que estava mais perto de mim, dizendo: “Muito cuidado, que ela está rachada”. Mas senti que essa pessoa não estava acreditando muito no que eu dizia. Fiquei preocupado, respirando com dificuldade, porque sabia que se alguém apertasse a cuia com mais força ou a deixasse cair eu ia sentir todas essas coisas no corpo... Não me lembro do que aconteceu depois... Ah! Eu estava encalistrado porque a cuia não tinha bomba... Os outros percebiam isso mas não diziam nada, para não me ferir, e eu passei agoniado todo o tempo que a cuia corria a roda... e já estava até meio brabo, querendo brigar. Não é engraçado?
— A cuia é evidentemente a imagem de seu coração... veja a semelhança na forma. E não preciso dizer-lhe o que a bomba simbolizava...
— Não me venhas com as tuas interpretações.
— O senhor se lembra de quem estava nessa roda de chimarrão?
— Não — mente Rodrigo, negando ao filho elementos para prolongar o assunto.
Lembra-se bem de que eram mulheres... mulheres cujas feições ele não podia distinguir direito, mas cuja identidade misteriosamente adivinhava...
Não posso continuar nesta posição — reflete Floriano. — Preciso fazer alguma coisa.
Ergue-se, aproxima-se da janela e fica a olhar para a fachada da velha Matriz, lembrando-se das muitas vezes em que essa imagem, fundida ou alternada com a do Sobrado e a do mausoléu dos Cambarás, lhe assombrou a memória, durante o tempo em que viveu no estrangeiro: a casa onde nascera, a casa onde fora batizado e onde seu cadáver possivelmente seria encomendado, e a “última morada”.
Há entre esses “abrigos” uma certa identidade — reflete. — Os três estão de certo modo ligados à ideia de nascer e morrer: símbolos maternos, portanto. Zeca poderia dizer que entre o berço e a vida terrena representados pelo Sobrado e a morte do corpo simbolizada pelo jazigo perpétuo da família, a igreja ali estava como uma promessa de vida eterna... Ah! Se eu pudesse acreditar nisso — mas acreditar intensamente, não só com o cérebro mas com todo o corpo —, tudo estaria resolvido...
No coreto da praça um homem experimenta o microfone dizendo num tom monocórdio: um... dois... três... quatro... cinco... seis...
— Daqui a pouco — queixa-se Rodrigo — vou ter que ouvir o bestialógico do comandante da Guarnição Federal e o do representante do prefeito... A pústula do Amintas vai também deitar falação. Se eu não estivesse tão esculhambado era capaz de sair daqui e ir dizer a esses calhordas uma meia dúzia de verdades.
— Por exemplo...
— Ora, diria a esse povo o que representou a participação da Força Expedicionária Brasileira na Guerra, do ponto de vista moral. E aproveitaria a ocasião para mostrar o que o Brasil deve ao governo do Getulio. Isso como prelúdio... Depois entrava na história dos Carés, começando na Guerra do Paraguai, em que um antepassado do Laurito salvou meu tio Florêncio, que estava ferido, carregando-o nas costas... Passaria pelas revoluções de 93, 23 e 30, para finalmente chegar a 1945.
Torna a encher a cuia, dá um chupão na bomba, faz uma careta e grita:
— Enfermeiro!
Recusa-se a pronunciar o nome Erotildes, que lhe parece indigno de homem. O ex-sargento surge à porta, perfilado.
— Me traga mais água quente.
O homenzarrão apanha a chaleira e retira-se. Rodrigo prossegue:
— Li a ordem do dia em que o Laurito foi citado. Foi numa das tentativas de nossa gente para tomar Monte Castelo. O rapaz saiu com uma patrulha de reconhecimento, a patrulha caiu numa emboscada, o tenente que a comandava ordenou a seus homens que se retirassem, pois eram em número menor que o do inimigo, e estavam numa posição desvantajosa. O cabo Caré recusou obedecer à ordem, ficou para trás, sentou joelho em terra, abriu fogo contra os nazistas e ali se plantou, protegendo a retirada dos companheiros, que conseguiram salvar-se. Só encontraram o cadáver do rapaz duas semanas mais tarde, coberto de neve e abraçado ao seu fuzil-metralhadora. Tinha sete balaços no corpo.
— As sete dores de Nossa Senhora. Os sete pecados mortais. O senhor sabe duma coisa? Temos aí elementos para uma canonização ou pelo menos para uma beatificação.
— Não seja cínico, Floriano. Sei que esse não é o teu feitio. Por que é que vocês intelectuais vivem posando de cépticos, fingindo que não são sentimentais, que não acreditam em patriotismo nem em civismo? É impossível que a façanha do Laurito não te entusiasme. Se o velho Licurgo fosse vivo, aposto como estaria rebentando de orgulho do neto, embora sua cara de pedra não revelasse nada. Era fechado como um Terra. Tu, além de Terra, és Quadros. Tens vergonha de teus próprios sentimentos.
— Está claro que a proeza do Lauro Caré me comove, me entusiasma. Não sou diferente dos outros. Ainda hoje, quando ouço um dobrado marcial, sinto arrepios cívicos. Quando tocam o Hino Nacional tenho ímpetos de invadir o Paraguai ou a Argentina e de matar castelhanos (É isso que o senhor quer?) e de morrer abraçado ao auriverde pendão. Está satisfeito?
Rodrigo solta uma risada. Sua mão treme, a erva úmida lhe cai da cuia sobre o peito da camisa, manchando-o de verde.
— És um caso perdido! — exclama, sacudindo a cabeça.
— Mas acontece — prossegue Floriano — que tudo isso é irracional, uma deformação, um reflexo condicionado, um resultado da educação defeituosa que tivemos e que nos prepara para a aceitação passiva da guerra como uma fatalidade. Há duas ideias muito convenientes às classes dominantes: uma é a de que pobres sempre os haverá (e nisto elas contam com o testemunho das Escrituras) e a outra é a de que as guerras são inevitáveis. Vocês todos estão encantados com a ideia do Laurito herói. Pois eu penso no Laurito agonizando, esvaindo-se em sangue, com sete balas no corpo, morrendo sozinho, numa montanha da Itália... Não seria preferível que ele estivesse vivo, em Santa Fé, a manejar o seu torno, a exercer o seu artesanato?
Rodrigo ergue o braço e aponta para o filho um dedo acusador.
— Se esse menino e centenas de milhares de outros não tivessem sacrificado suas vidas na luta contra a tirania nazista, hoje os beleguins do Hitler nos estavam dando ordens e pontapés no traseiro. Gostarias disso?
— Está claro que não.
— Então? Continuas achando que o Laurito morreu em vão?
— Precisamos aprender a analisar a guerra sem ilusões românticas, sem o tamborzinho inglês ou o estudante alsaciano. Temos de ver todo o problema e não apenas parte dele. Essas centenas de milhares de soldados morreram convencidos de que estavam defendendo suas pátrias e salvando o mundo da tirania. A curto prazo estavam mesmo. Mas não devemos esquecer certas contradições monstruosas. As armas e as balas que mataram os soldados aliados foram em parte financiadas por capitais ingleses e americanos, pelos grupos que ajudaram a Alemanha nazista a armar-se, com a esperança de que ela se lançasse sobre a Rússia. Muitos desses nobres motivos que levam os homens à guerra não passam às vezes de sórdidas intrigas mercantis. O resto é neurose coletiva estimulada pela propaganda.
— Parece até que estás te convertendo às ideias do teu irmão comunista... Mas esqueces que as causas das guerras não são apenas econômicas. É preciso levar em conta também o instinto agressivo do homem...
— De acordo, mas esse instinto agressivo pode ser dirigido num bom sentido construtivo, tanto no plano individual como no social. Pelo menos devemos tentar isso.
Por alguns instantes ficam ambos em silêncio. Depois, mexendo a bomba de prata com ar distraído, Rodrigo diz:
— Queres então dizer que os atos de bravura de homens como o cabo Lauro Caré e tantos outros para ti não têm valor nenhum...
— Claro que têm! Um imenso valor, mesmo na gratuidade e no absurdo. Valem em si mesmos numa afirmação do homem como homem, na sua capacidade de enfrentar o perigo, de dominar o medo, de lutar e arriscar-se pelo que lhe parece justo e bom. Eu não perco a esperança de que um dia esses heróis possam atingir um bom senso tão grande quanto a sua coragem física.
Rodrigo olha para o filho fixamente, por alguns segundos, silencioso e sério, e depois explode:
— Queres saber duma coisa? Vai-te à merda! E me dá um cigarro.
Floriano sorri.
— O senhor sabe que não fumo.
— Não fumas, não bebes, não jogas... Que é que fazes?
— Faço o resto, que não é pouco.
Quando esse filho da mãe cair em si — reflete Rodrigo — vai ser tarde. Estará velho, feio e impotente.
— Senta — diz em voz alta. — Quero te contar umas cenas que estive recordando hoje.
Floriano torna a sentar-se. Rodrigo aponta para a janela, que emoldura um quadro: o céu límpido, as copas das árvores da praça, as torres da Matriz, a cúpula do edifício da Prefeitura...
— Hoje quando acordei fiquei pensando nas voltas que a vida dá... Parece mentira que eu, Rodrigo Cambará, já fui intendente municipal deste burgo podre. Te lembras? O culpado foi o Getulio. Insistiu para que eu aceitasse a minha candidatura. Tinha sido eleito presidente do estado, disse que precisava de mim. Não tive outro remédio.
— Sempre quis saber que foi que o senhor sentiu ao ver-se dentro do gabinete que o coronel Madruga ocupou por tanto tempo.
— Nojo. Mandei imediatamente fazer uma limpeza geral no edifício, desinfetar as salas com formol, pintar de novo as paredes, tirar enfim aquele cheiro de sangue, suor e mijo, aquele bodum de várias gerações de sacripantas e bandidos.
Erotildes entra com a chaleira, que repõe sobre a mesinha.
— Mais alguma coisa, doutor?
— Não. Pode ir embora. E feche a porta.
Rodrigo segue com o olhar o enfermeiro que se retira. Depois de ver a porta fechar-se, diz:
— E tu ainda me vens com teus sonhos de igualdade... Mas, como eu ia dizendo... Vinte dias depois da minha posse, quase duzentos e cinquenta operários estavam abrindo valas nas ruas de Santa Fé...
Enche a cuia, toma um gole prolongado, sorri e prossegue:
— ... e um trem com dez vagões cheios de tubos e outros materiais chegava à estação. O doutor Rodrigo Cambará cumpria a promessa que tinha feito ao eleitorado e a si mesmo: dar um serviço de água e esgotos a Santa Fé antes de terminar seu primeiro ano de governo! Que me dizes?
— Eu me lembro da reação popular.
— Engraçado! Te lembras apenas do aspecto negativo do problema. Natural! No princípio quase todos ficaram contra mim. Desandaram num falatório desenfreado, porque eu estava demolindo as finanças do município... porque aquilo era uma loucura... porque eu ia sacrificar várias gerações de santa-fezenses... porque a cidade não aguentava despesas daquele porte... e porque isto e porque aquilo. Chegaram até a insinuar que eu estava metendo a mão nos cofres municipais, quando na realidade eu tirava dinheiro de meu próprio bolso, me arruinava quase, para ajudar as obras. Te lembras daquele drama, O inimigo do povo? Claro que te lembras, pois eu te via sempre às voltas com o Ibsen. Pois é. Olha o que aconteceu ao doutor Stressmann ou Stockmann... ou coisa que o valha. O povo é inconsequente e ingrato.
Estende o indicador na direção de Floriano.
— E tu tens aí o resultado. Agora todo o mundo me aplaude, me dá razão. Fiz naquele tempo por um preço irrisório o que hoje custaria uma fortuna. O empréstimo que o município contraiu está pago e a vida da cidade melhorou. Mas... ah! Antes de reconhecer isso a canalha tinha de me difamar, de pedir a minha cabeça, de me crucificar...
Faz uma curta pausa em que fica pensativo, acariciando a cuia. Depois pergunta:
— Te lembras do meu plano para acabar com a pobreza de Santa Fé?
Floriano sacode afirmativamente a cabeça. Mal tomou posse do cargo, Rodrigo saiu a visitar comerciantes, fazendeiros e capitalistas do município para pedir-lhes o auxílio financeiro de que necessitava a fim de levar a cabo o seu grandioso projeto de liquidar os ranchos miseráveis e nauseabundos do Purgatório, do Barro Preto e da Sibéria, substituindo-os por casas de madeira, modestas mas limpas e razoavelmente confortáveis, que seriam entregues gratuitamente aos “desprotegidos da sorte”. Não fazia propriamente pedidos: dava ordens, impunha quantias, não aceitava negativas. Quase bateu na cara dum Spielvogel que recusou contribuir para o fundo, alegando que já pagava impostos altos ao município. Por fim, de posse duma importância considerável em dinheiro, mandou começar a construção das casas, mas da maneira como fazia todas as coisas: depressa, com paixão e sem plano. Quando viu terminado o primeiro grupo de moradas, erguidas em terras pertencentes à municipalidade, deu-lhe o nome de Vila Esperança e inaugurou-o festivamente com discursos, foguetório e banda de música. A mudança dos primeiros habitantes do Barro Preto convocados para povoar a vila processou-se sem maiores dificuldades. As famílias vinham de bom grado, trazendo a prole e os tarecos. Houve, porém, um caboclo que recusou mudar-se: Juca Cristo, assim chamado por causa da barba, da cabeleira longa, dos olhos doces e duma certa reputação de milagreiro. Morava com a mulher e cinco filhos num pardieiro construído em cima dum pântano e feito de taquaras, esterco e latas de querosene. As crianças, magras, macilentas, seminuas e cobertas de muquiranas, viviam em promiscuidade com cachorros e porcos. Daquele chão, daquele rancho e daquela gente despedia-se uma fedentina medonha. Mas por uma razão qualquer, sentimental ou supersticiosa, Juca Cristo negava-se a abandonar sua moradia. Rodrigo decidiu tratar do assunto pessoalmente. Numa fria manhã de agosto, encaminhou-se para o Barro Preto, parou a cinco metros da morada do caboclo e gritou por ele; Juca Cristo apareceu com toda a família. “Quero que se mudem hoje mesmo”, disse o senhor do Sobrado. O caboclo, molambento, encardido, descalço, pregou o olhar no chão e balbuciou: “Não carece, doutor. A gente está bem aqui”. Rodrigo tentou todos os meios suasórios, e quando viu que não conseguia nada, tornou-se ameaçador, falou em autoridade e em polícia. Mas Juca Cristo manteve-se irredutível. Sua arma agora era o silêncio. E o intendente de Santa Fé ali estava, furioso e ao mesmo tempo embaraçado, recendente a Chantecler, metido no seu sobretudo com gola de astracã — parado e impotente diante daquele pobre-diabo esquelético e esquálido, atrás do qual se enfileiravam a mulher de cor terrosa, com horríveis varizes nas pernas, e aquelas crianças opiladas e subnutridas, cujos molambos esfiapados se agitavam ao vento gélido da manhã.
— Estou pensando no caso do Juca Cristo... — diz agora Floriano.
— Tens uma memória infernal para as coisas negativas!
— O senhor não vai me dizer que não é uma grande história...
— Lá isso é! Te confesso que passei os piores momentos da minha vida no dia em que enfrentei o Juca Cristo e a família. Palavra, eu preferia estar diante dum pelotão de fuzilamento... Mas não podia ficar desmoralizado. Quando vi que não havia outro remédio, mandei um funcionário da Intendência atirar querosene no rancho e tocar fogo nele...
— Temos aí o eterno problema dos fins e dos meios.
— Minha consciência me dizia que eu estava procedendo bem. Mas assim mesmo a coisa foi dura. Ao ver o rancho em chamas, a família rompeu a gemer e a chorar, o Juca Cristo caiu de joelhos, ergueu os braços como um profeta e começou a gritar coisas para o céu. Me amaldiçoou, me rogou pragas, disse horrores... Eu já não sabia se lhe pedia desculpas ou se lhe dava um pontapé na cara. A mulher, essa parecia uma possessa, atirada no chão, rolava no barro, soltando guinchos. E os olhos daquelas crianças... Santo Deus! Estavam fitos em mim com uma expressão de pavor como se eu fosse um monstro, um incendiário! Aí tens outra prova de que o povo não sabe bem o que lhe convém. Ah! Meus inimigos naturalmente aproveitaram a oportunidade para me atacar. Imagina, só porque eu quis melhorar a vida duma família. Não vás me dizer que também achas que procedi mal.
— Está claro que não. Mas me parece que não se cura câncer com pomadinhas caseiras.
— Bolas! Nem com literatura.
— Não pense que não compreendo o seu gesto...
— Não se trata de compreender gestos. Olha a realidade, os fatos. Contribuí ou não contribuí para melhorar a vida da gente da minha terra?
— Contribuiu, não nego. O Bandeira vive a citar um filósofo segundo o qual a verdade só se revela na ação.
— Pois estou inteiramente de acordo com esse filósofo, seja ele quem for.
Faz-se um silêncio. Rodrigo tem um curto acesso de tosse e Floriano julga perceber em seus olhos uma sombra de susto. Mas acalma-se, pigarreia, passa os dedos pela garganta, respira fundo e depois, mais calmo, torna a despejar água quente na cuia e a chupar a bomba.
— A Intendência me deu muitos cabelos brancos — diz ele, sorrindo —, mas houve momentos cômicos. Ainda hoje de manhã estive me lembrando de um episódio, dos melhores... Tu sabes como a nossa gente é sem cerimônia, alivia a bexiga em qualquer parte. Se cachorro procura árvore ou poste, para nossos caboclos qualquer parede serve... Pois bem. Um mês depois que mandei pintar e desinfetar a Intendência já não se podia mais aguentar o cheiro de urina que vinha do pátio. É que todo o mundo, funcionários e pessoas de fora, usava a parte traseira do edifício como mictório. Mandei pregar boletins e cartazes em toda a parte, proibindo terminantemente o abuso e ameaçando os infratores com multas. Pois bem. Um belo dia eu entrava na Intendência pela porta dos fundos quando vi um gaúcho todo paramentado, botas, esporas, sombreiro e pala, encostado a uma parede, vertendo água. Não me contive. Avancei na direção dele e apliquei-lhe um bom pontapé no rabo. O homem deu um pulo, virou-se, assustado, já com a mão no revólver, mas quando me reconheceu ergueu os braços, começou a gaguejar: “Me desculpe, doutor, me desculpe...”, e a todas essas a esguichar urina como um chafariz, e eu recuando para não ser atingido pelos esguichos do homem, e já sem saber se me ria ou se ficava brabo... Foi uma cena grotesca. Nunca vi maior cábula numa cara. Era um subdelegado do interior do município e tinha vindo para me pedir uma audiência. Não teve coragem. Estava encafifado e ao mesmo tempo ofendido. Montou a cavalo e voltou para seu distrito no mesmo dia. Estás a ver que a história se espalhou (houve duas ou três testemunhas) e na Intendência não se falou noutra coisa durante dias.
Rodrigo inclina-se e põe a cuia do lado da chaleira.
— Aí tens uma cena para o teu próximo romance.
Floriano limita-se a sorrir. E o pai acrescenta:
— Está claro que não podes usá-la. Eu sei. Não é de bom gosto. Vocês romancistas costumam passar a realidade por um filtro purificador e o resultado é uma vida pasteurizada, expurgada, capada... E eu te pergunto se a vida real tem alguma consideração para com nossa sensibilidade e o nosso bom gosto. O velho Teixeira está no fundo duma cama comido pelo câncer, sabias? Eu estou aqui com o coração e o pulmão bichados. Compara aquele retrato lá embaixo com este original...
— Qual nada! O senhor está muito bem para um homem de sessenta anos.
— Cinquenta e nove.
— Pois parece cinquenta.
— Tenho espelho no quarto. Sei como me sinto. Mas grita ao enfermeiro que me traga o café. Estou com fome.
Floriano obedece.
— No fim do meu sexto mês de Intendência — diz-lhe o pai, quando ele retorna ao quarto — já andava enojado daquilo, louco para largar o cargo. Estava cansado da papelama, da rotina, da burocracia, dos pedintes, da adulação, da pequenez das pessoas e dos seus problemas... E também farto de Santa Fé, com uma vontade danada de fazer uma viagem a Paris.
— A campanha da Aliança Liberal foi então providencial.
— Chegou na hora exata. Eu me sentia neste fim de mundo como um parelheiro que precisa de cancha maior.
Floriano ouve mentalmente a voz de Eduardo: “O que o velho não conta é que em 1929 os negócios do Angico iam mal e ele encontrou na campanha política e mais tarde na revolução uma saída para as suas dificuldades financeiras. Esse foi o caso não apenas dele como também o de centenas de outros estancieiros e homens de negócios. O que prova que o marxismo está rigorosamente certo”. E em pensamento Floriano responde: “Tens apenas uma parte da verdade. O econômico não explica tudo. Houve também um poderoso fator psicológico. Esqueces que nosso pai em 29 tinha já entrado na casa dos quarenta, a idade em que o homem começa a fazer-se perguntas sobre si mesmo e sua vida, e a pensar no pouco tempo de mocidade que lhe resta. Não é natural que um homem da vitalidade do Velho se estivesse sentindo sufocado, maneado, dentro das limitações de Santa Fé?”.
— Foi uma grande campanha — diz Rodrigo, olhando para a janela. — Me atirei nela de corpo e alma, tu te lembras... Os rodeios estavam misturados, maragatos e republicanos faziam as pazes, velhos inimigos se reconciliavam à sombra da bandeira da Frente Única. O Liroca, esse andava transfigurado, como se estivesse presenciando um milagre. A mim me coube dirigir o movimento na Serra. O próprio Getulio me escreveu pedindo isso. Ah! Mas não foi fácil, tive de engolir uns caroços duros. Logo que se anunciou a nova frente política no estado, o Amintas me mandou um emissário: queria fazer as pazes comigo a todo o transe. Relutei, desconversei o quanto pude, mas tu sabes, não guardo rancor a ninguém, o homem insistiu e eu acabei dizendo que viesse. O filho da mãe se vestiu de preto, se perfumou de Jicky e veio me ver na Intendência, se desfez em elogios à minha pessoa. Se desculpou das infâmias que tinha dito e escrito a meu respeito, só faltou me beijar os pés. Me trouxe uma faca de prata de presente. Tive vontade de dizer: “Meta no rabo”. Mas aceitei, para não discutir. Dias depois apresentou-se o Madruga. Esse, mais discreto, se limitou a me apertar a mão, sem me olhar de frente. Puxou um pigarro, resmungou duas palavras e se foi. E agora me diz uma coisa, Floriano. Nesta hora em que eu podia estar na rua fazendo essa campanha e ajudando o Getulio, não é uma injustiça eu estar fechado aqui neste quarto, como um mutilado, um inválido?
Floriano sacode afirmativamente a cabeça.
— Mas tu não podes compreender isso direito — continua Rodrigo — porque não tens como eu a política no sangue. Puxaste pelo velho Babalo.
Erotildes entra com uma bandeja, que põe na mesinha ao lado da cama: café com leite e torradas secas.
— Querem me matar de fome?
E, como Erotildes esteja à sua frente, com o dente de platina a brilhar, Rodrigo grita:
— Está bem, pode ir embora!
Volta-se para Floriano:
— Tu vês, nem comer direito me deixam. Isto é vida?
— Tenha paciência.
— A paciência não é das minhas virtudes, tu sabes.
Rodrigo põe açúcar na xícara, mexe o café, mergulha nele uma torrada e põe-se a comê-la com uma voracidade sem gosto.
— Seu apetite é um bom sinal.
O pai encolhe os ombros, toma um gole de café.
— Eu me lembro muito bem das eleições de 30 — diz Floriano, passeando à toa pelo quarto.
— Uma farsa! — exclama Rodrigo, de boca cheia. — A situação recorreu à fraude. A máquina política do governo federal entrou em atividade. A revolução se impunha como um corretivo às urnas.
— Nós também fizemos a nossa fraudezinha...
— Como? — protesta Rodrigo, e uma partícula úmida de pão lhe salta dos lábios como um projétil.
— Então o senhor não se lembra?
— Não me lembro de coisa nenhuma.
— Pois a história está fresca na minha memória por ter representado o meu primeiro contato direto com o “processo democrático”. Eram cinco da tarde, no dia das eleições, e eu estava na praça lendo Le Jardin d’Épicure (por sinal era um livro com notas suas à margem), quando o Chiru se aproximou e disse: “Teu pai está te chamando”. Acompanhei-o até a Intendência, onde estavam instaladas várias das mesas eleitorais. O senhor me segurou o braço e murmurou (vou lhe repetir suas palavras textuais): “Meu filho, a esta hora os lacaios do Washington Luís em dezoito estados da União estão falsificando as atas e esbulhando a eleição. Se não fizermos o mesmo, estamos perdidos. A nossa causa é boa e o fim justifica os meios”. Foram estas exatamente as suas palavras. Lembra-se?
Os olhos postos no soalho, mastigando lentamente, Rodrigo parece consultar a memória.
— O senhor então me mostrou seus companheiros que estavam todos empenhados em assinar nas atas nomes de eleitores imaginários, para aumentar os votos para Getulio Vargas e João Pessoa. Em suma, queriam que eu também colaborasse... Minha relutância caiu diante da sua veemência. Ainda me segurando o braço com força, o senhor me puxou para uma mesa, fez-me sentar, me meteu uma caneta entre os dedos e me apresentou o livro de atas. E, com as orelhas ardendo, ali fiquei a assinar nele os nomes que me vinham à cabeça, em letra ora redonda ora angulosa ora caída para a direita ora para a esquerda...
— Repito que só tens memória para as coisas negativas.
— E sabe qual foi a maneira que encontrei de varrer a testada? Foi inventando e escrevendo nomes como Jérôme Coignard da Silva, João Gabriel Borkmann da Cunha, Dorian Gray de Almeida, Hendrik Ibsen de Oliveira. Era como se eu estivesse mandando uma mensagem cifrada à Posteridade nestes termos: “Forçado a me acumpliciar nesta fraude, submeto-me à comédia cum grano salis”. E enquanto eu escrevia, uma voz dentro de mim repetia um estribilho: “Isto então é democracia? Isto então é democracia?”.
Rodrigo olha para o filho e diz:
— Exatamente. Aquilo era democracia. Foi por essa e por outras que o Getulio compreendeu que nosso povo não estava e não está amadurecido para o regime democrático. Naturalmente não concordas.
— Não. Na minha opinião, que vai contra a sua e contra a do Eduardo, só há um caminho para uma boa democracia: é ainda uma democracia defeituosa como as que temos tido.
Faz-se um novo silêncio. Por alguns segundos o enfermo toma o seu café e come as suas torradas. Por fim, diz:
— Na tua opinião, a Revolução de 30 foi desnecessária...
Floriano encolhe os ombros. E no silêncio que de novo se faz, pai e filho pensam ao mesmo tempo naquela noite de 3 de outubro de 1930. E ambos têm na mente o mesmo fantasma: a imagem do ten. Bernardo Quaresma.
Às dez menos quinze, quando Neco Rosa entra no quarto de Rodrigo, encontra-o sozinho.
— Tratante! Estás atrasado. Fecha essa porta.
Neco obedece. Depois coloca o chapéu e a bolsa em cima duma cadeira.
— E que tal, chê, como vamos? — pergunta o barbeiro.
— Mal. Viste a Sônia?
— Vi.
— Como vai?
— Meio chateada. Contou que passa o dia fechada no quarto do hotel, lendo. Pediu que te agradecesse os livros que mandaste.
— Algum recado?
— Nada especial. Só diz que está com muita saudade.
— Neco, fala com toda a sinceridade. Alguém andou dando em cima da menina?
— Ninguém.
— Palavra de honra?
— Palavra de honra.
— Vamos duma vez com essa barba!
Neco Rosa tira os petrechos da maleta, despeja um pouco da água da chaleira na tigela de metal, onde deitou um pouco de sabão em pó, e mexe-a com o pincel, para fazer espuma. Amarra uma toalha ao redor do pescoço de Rodrigo e põe-se a ensaboar-lhe o rosto.
— As eleições amanhã... — começa.
Mas o outro interrompe-o:
— Neco, vou te pedir um grande favor.
— Diga.
— Preciso ver essa menina hoje, custe o que custar.
Neco para, com o pincel no ar, lançando para o amigo um olhar enviesado.
— Que é que estás arquitetando?
— Muito simples. Quando saíres daqui, vai ao hotel e diz à Sônia que hoje, estás ouvindo?, hoje, ali por volta das seis da tarde ela passe devagar pela calçada da praça, na frente do Sobrado...
Neco continua a mirar o amigo com o rabo dos olhos.
— Não estou te entendendo direito...
— Eu estarei com a cama perto da janela, para vê-la passar.
— Mas isso não é arriscado?
— Deixa o risco por minha conta.
— Às seis o dia ainda está claro!
— Se não estivesse eu não podia ver a cara dela, animal!
O movimento do pincel recomeça. Neco dá de ombros.
— Está bem. Sua alma, sua palma.
— Diz pra ela que também estou louco de saudade. Que faça mais esse sacrifício. Talvez seja o último...
Segura de repente com ambas as mãos as lapelas do casaco do barbeiro e exclama:
— Neco, eu vou morrer! Tu não compreendes? Eu vou morrer!
Seus olhos enevoam-se. Suas mãos caem. Neco abre a navalha e começa a passá-la freneticamente no assentador, como a preparar-se para degolar o amigo.
Agora os sons duma banda de música atroam os ares. É um dobrado: “El capitán”. Lágrimas brotam nos olhos do senhor do Sobrado.
Desconcertado, Neco aproxima-se da janela, olha a praça e, para fazer alguma coisa, começa a contar o que vê:
— Vai começar a festa... Quem diria, hein? O Laurito Caré feito herói nacional... Chii... O coreto está cheio de oficiais com crachás no peito. A praça toda embandeirada como clube de negro. Vem chegando uma companhia do Regimento de Infantaria... O busto está coberto com a bandeira brasileira.
— Me fazes ou não me fazes esta barba? — vocifera Rodrigo.
Floriano marcou um encontro com Roque Bandeira no Café Poncho Verde, onde está agora sentado a uma mesa junto da janela, a olhar para fora.
Se eu tivesse de descrever num romance esta praça neste exato momento... que faria? O problema mais sério não seria de espaço, mas de tempo. Como dar em palavras o quadro inteiro com a rapidez e a luminosa nitidez com que a retina o apanha? Impossível! O remédio é reproduzir um por um os elementos do quadro. Mas por onde começar? Do particular para o geral? Tomar, por exemplo, aquela menininha de vestido azul-turquesa que ali passa na calçada, lambendo um picolé tão rosado quanto sua própria língua? Ou partir do geral e descer ao particular? Nesse caso eu começaria pela abóbada celeste e me veria logo em dificuldades para definir a qualidade desse azul sem mancha — sem jaça, como se dizia no tempo do Bilac, quando os escritores tinham uma paixão carnal pelas palavras. Depois qualificaria a luz do sol — ouro? âmbar? mel? topázio? chá? Podia escrever simplesmente “a luz do sol das cinco horas duma tarde de dezembro”... e o leitor que se danasse! Está claro que viriam a seguir as árvores: cedros, plátanos, jacarandás, paineiras, cinamomos... O pintor frustrado que mora dentro de mim não poderia deixar de anotar o contraste entre o vermelho queimado dos passeios interiores da praça e o verde vivo e lustroso da relva dos canteiros. Mas que importância pode ter esse pormenor pictórico depois da destruição de Hiroshima? E por falar em Hiroshima, lá vai o Takeo Kamuro, o primeiro e o único residente japonês de Santa Fé, puxando por cordéis os balões que, como um enorme cacho de uvas amarelas, azuis, vermelhas e verdes, esvoaçam sobre sua cabeça. Leva também um cesto cheio de ventoinhas tricolores de papel de seda. No centro do redondel, cercado de crianças que erguem as mãos para os balões, o japonês parece um haicai vivo... Mas escrevendo tudo isso eu não ajudaria muito o leitor a visualizar o quadro. A cena toda tem um ar alegre e meio rústico de feira: homens, mulheres e crianças a passearem pelas calçadas ou sentados nos bancos: senhoras e senhores idosos debruçados às janelas de suas casas que dão para a praça. O vento faz esvoaçar (terei eu um dia a coragem de usar o verbo flabelar?) as bandeirinhas de papel — do Brasil e do Rio Grande — que os funcionários da Prefeitura laboriosamente colaram em extensos barbantes que, presos nos galhos das árvores, atravessam a praça em duas longas diagonais. E os cheiros? Grama, poeira ensolarada, pipoca, fumaça de cigarro, perfumes de todos os preços. E os sons? As vozes humanas... os alto-falantes da Rádio Anunciadora, um em cada esquina da praça, despejando no ar implacavelmente uma valsa vienense. A corneta fanhosa do sírio que vende picolés. Que mais? (Lá se vai o método!) Cachorros, passarinhos, uma pandorga rabuda no ar, longe... Uma criança correndo atrás duma bola em cima dum canteiro... Um gaúcho pobre passando na rua montado num bragado de olhos tristes... Os automóveis cruzando pela frente do café... O busto de Lauro Caré no centro da praça, frente a frente com o de d. Revocata Assunção, tendo a separá-los o redondel de cimento, onde moças e rapazes deslizam, sozinhos ou aos pares, nos seus patins de rodas...
Terminado o inventário, teria eu dado ao leitor uma ideia do quadro? Duvido. Neste particular a pintura, arte espacial, é mais feliz que a literatura. De resto, que importância real poderá ter a descrição duma paisagem numa história de seres e conflitos humanos? Talvez o melhor seja resumir tudo assim: Eram cinco da tarde, na Praça da Matriz, a essa hora cheia de gente que vinha ler a estátua do Cabo Lauro Caré, herói da Força Expedicionária Brasileira, inaugurada pela manhã.
— Falando sozinho?
Floriano volta a cabeça e vê Tio Bicho a seu lado.
— Ah! Estava pintando a praça.
Soltando um suspiro de alívio, o outro se acomoda na cadeira ao lado do amigo, tira a palheta da cabeça e coloca-a em cima da mesa. Passa o lenço pela carantonha reluzente de suor, chama o garçom, pede uma cerveja gelada, descalça os sapatos e fica a acariciar os joanetes.
— Como te foste de inauguração? — indaga.
— Ora... aguentei como pude.
— E os discursos... muito infectos?
— Um dos oradores me deu a impressão de que sem o auxílio do Brasil os Aliados jamais teriam derrotado a Alemanha. E o nosso inefável Amintas Camacho, que por sinal esteve sublime, afirmou que o Laurito Caré, ajudando a Itália a livrar-se do jugo nazista, tinha pago a dívida de honra e de gratidão que o Rio Grande contraiu com Giuseppe Garibaldi em 1835...
— Muita gente?
— Uma pequena multidão.
— A avó do busto compareceu?
— Sim, toda de preto, muito digna, como uma verdadeira dama.
— Dona Ismália é uma dama.
— Os pais do Laurito choraram durante todo o tempo da cerimônia, mas a avó ficou impassível, de cabeça erguida, os olhos secos e serenos.
— Deve ter sido uma cabocla bonita, porque o velho Licurgo teve um rabicho danado por ela.
— Sabes duma coisa? Às vezes sinto uma certa vontade de conversar com a velhinha, perguntar-lhe coisas sobre o meu avô. Acho que ela o conheceu melhor que ninguém.
— É possível que o coronel Licurgo fosse menos fechado e enigmático deitado do que de pé. E por falar em avô... aquele que lá vem não é o velho Aderbal?
Aponta na direção do Sobrado. Floriano olha, sorri e diz:
— Em carne e osso...
E Tio Bicho completa:
— ... com seus oitenta e pico na cacunda.
No seu tranco de petiço maceta, tão conhecido em Santa Fé e arredores, Aderbal Quadros atravessa a rua palmeando fumo picado, com uma palha de cigarro especada atrás da orelha. As largas abas do chapéu campeiro sombreiam-lhe a cara emagrecida, onde as falripas brancas da barba e do bigode esvoaçam. Veste um casaco de riscado, bombachas da mesma fazenda, calça botas de fole e traz um lenço branco amarrado ao pescoço. Chegou há pouco do Sutil, deixou o cavalo no quintal do Sobrado e agora vem “dar uma olhada” no busto do cabo Caré.
Um grupo de curiosos cerca a herma, discutindo a parecença fisionômica. O trabalho foi feito meio às pressas pelo escultor duma casa de monumentos fúnebres de Porto Alegre, que teve como único modelo uma fotografia. Laurito Caré aqui está com um capacete de guerra na cabeça, o torso apertado no dólmã militar, uma medalha no peito.
Chico Pais, que hoje abandonou sua padaria muitas vezes para vir “espiar a estauta”, proclama que a esta só falta falar. E acrescenta: “O Laurito, quando era pequeno, foi meu empregado, me ajudava a tirar pão do forno”. Cuca Lopes, que em movimentos de piorra tem andado ao redor do monumento, examinando-o dos mais variados ângulos, profere agora sua sentença: “Não está parecido. O Laurito era mais magro e não tinha nariz tão grande”.
Quica Ventura olha obliquamente para a estátua, de longe, resmungando para o Calgembrino do cinema, que está a seu lado: “Muito corridão dei nesse moleque quando ele pulava a cerca lá de casa pra me roubar laranja. Agora está aí feito herói. Xô mico!”. Solta uma cusparada no chão.
Aderbal Quadros aperta os olhos, foca-os na figura de bronze e pensa: “A testa e a boca são do finado Licurgo”. Mas nada diz. Alguém lhe bate no ombro. Babalo volta-se.
— Olha quem está aqui! — exclama. — Como vai essa bizarria, Liroca?
Abraçam-se. José Lírio, enfarpelado na roupa domingueira de casimira preta, com a qual compareceu esta manhã à inauguração do busto, brinca com a libra esterlina que lhe pende da corrente do relógio. As pontas dum lenço maragato aparecem acima das bordas do bolso superior do casaco. Liroca acerca-se do monumento, tira respeitosamente o chapéu, e lê pela quinta vez a inscrição da placa:
AO CABO LAURO CARÉ, SOLDADO DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA, E QUE
MORREU COMO UM BRAVO NA ITÁLIA, NA DEFESA DA PÁTRIA E DA DEMOCRACIA —
A SUA CIDADE NATAL ORGULHOSA E GRATA.
— Quem diria! — murmura ele para Babalo. — Um piá que muita vez eu vi na rua de pé no chão, fazendo mandaletes. — Seu peito arfa ao ritmo duma respiração áspera e cansada. — Os Carés sempre pelearam em campo aberto, mas esse menino teve de brigar em montanha, como cabrito. Mas brigou lindo, como homem. Sangue não nega. Cambará misturado com Caré só podia dar isso...
Aderbal Quadros pita agora em calmo silêncio, a fumaça de seu cigarrão sobe no ar. Com passos incertos de bêbedo, Don Pepe García aproxima-se do busto, mira-o com seus olhos injetados, murmura: “Pútrida!” e continua seu caminho, vociferando contra a arte comercial e contra o capitalismo engendrador de guerras que matam a flor da mocidade. E, pisando nas flores dos canteiros, grita para o céu:
— Me cago en la leche de la madre de todos los héroes!
O dr. Carlo Carbone, todo vestido de linho branco, sai da sua Casa de Saúde de braço dado com a segunda esposa, e encaminha-se para o centro da praça, a cabeça descoberta, as barbas e os cabelos completamente brancos. O ex-coronel dos bersaglieri conserva, apesar da idade, uma postura rígida. Seus passos e gestos são vivos, e todos afirmam que suas mãos de cirurgião não perderam nada da antiga firmeza e habilidade.
— Olha só aquele velho desfrutável — ronrona Liroca ao ouvido de Babalo, tocando-o com o cotovelo. — Quando dona Santuzza bateu com a cola na cerca, ele ficou desesperado, inconsolável... Falou até em suicídio. No entanto um ano depois casou com essa gringa de Garibaldina, quase quarenta anos mais moça que ele. É ter muita vocação pra corno!
Babalo abstém-se de qualquer comentário.
O dr. Carbone mostra a herma à esposa e conta-lhe que um dia operou Laurito Caré dum quisto sebáceo. Desprende-se dela, dá dois passos e toca com o indicador o centro da testa da escultura: “Bem aqui”. Ela sorri. É alta, duma boniteza agreste de colona: seios abundantes, duas rosas naturais nas faces. O médico torna a agarrar-lhe o braço. Sua cabeça mal chega aos ombros da mocetona, que ele proclama “bella comme una pittura di Caravaggio”.
Ouve-se um grito lancinante. Liroca e Babalo voltam a cabeça. Uma criança chora aos berros no redondel, os braços erguidos para o balão amarelo que acaba de escapar-lhe das mãos e sobe, impelido pela brisa, quase toca no galo do cata-vento da Matriz e depois se vai, rumo do poente.
Sentado ainda à sua mesa de café, Floriano acompanha com o olhar o balão amarelo, pensando em Sílvia, desejando sair de mãos dadas com ela por esses campos ao sol (a ideia pode ser piegas mas a coisa em si seria boa) e caminhar, caminhar rumo de horizontes impossíveis, procurando no espaço uma solução que o tempo lhes nega. E, ao pensar essas coisas, beberica o horrendo café que acabam de servir-lhe. Tio Bicho toma um largo sorvo de cerveja, ficando com bigodes de espuma, que lambe voluptuosamente com a língua pontiaguda, dum róseo pardacento. O balão desaparece do campo de visão de Floriano, mas a imagem de Sílvia ainda continua em sua memória... Sílvia dançando nua na noite californiana, o balão amarelo sobre o sexo. E ele chega a ressentir na memória os odores daquele cabaré de Chinatown: comida chinesa, uísque e chá de jasmim.