Obesidade e saúde pública

Luiz Antonio dos Anjos · Capítulo 3 de 7

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Obesidade e saúde pública

2 - Agravos à saúde e epidemiologia da obesidade

2 - Agravos à saúde e epidemiologia

da obesidade

 

Segundo o Relatório sobre a Saúde Mundial da OMS de 2002, as doenças crônicas não transmissíveis (diabetes tipo 2, câncer e doenças cardiovasculares) são responsáveis por aproximadamente 60% da mortalidade mundial e 47% da carga de doença, e esses números são previstos de aumentar para 73% e 60%, respectivamente, pelo ano 2020.

Dados do Ministério da Saúde brasileiro, em sua publicação de 2005, "Vigilância em Saúde: dados e indicadores selecionados", baseada nos dados de 2003, indicam que a mortalidade proporcional (% do total de óbitos por causa definida) por doenças cerebrovasculares (27,3%) e neoplasias (13,4%) ainda são bastante altas. Entretanto, as taxas de mortalidade (por 100 mil, ajustadas para a população de 2000) pelas doenças crônicas não transmissíveis mostram tendências diferentes desde 1980: são declinantes para as doenças cerebrovasculares (50,6 em 2003) e doenças isquêmicas do coração (47,2 em 2003) enquanto são ascendentes, apesar de uma certa estabilização nos últimos dez anos, para o câncer de mama (104,4 em 2003). A taxa de mortalidade por diabetes foi de 21,3 por 100 mil pessoas em 2003. Estima-se que o Brasil gaste 1,5 bilhão de reais por ano com internações hospitalares, consultas médicas e remédios para o tratamento do excesso de massa corporal e doenças associadas (600 milhões vêm do Sistema Único de Saúde – SUS – o equivalente a 12% do orçamento do governo gasto com todas as outras doenças). Esses dados demonstram a importância das doenças crônicas não transmissíveis no país.

O sobrepeso e a obesidade aumentam o risco para todas essas doenças, particularmente a doença coronariana, o acidente vascular cerebral, a osteoartrite e o câncer do endométrio, da mama, da próstata e do cólon. As alterações metabólicas principais associadas à obesidade são: 1) dislipidemia; 2) hipertensão arterial; 3) resistência à insulina e intolerância à glicose; e 4) alterações no sistema de coagulação. Segundo a OMS, aproximadamente 58% do diabetes, 21% da doença isquêmica do coração e de 8 a 42% de certos tipos de câncer poderiam ser atribuídos a IMC maior do que 21 kg/m 2. Há alguns poucos anos, diabetes do tipo 2 não era observado em crianças, mas com o aumento na prevalência da obesidade em crianças e adolescentes já se começa a observar, e em alguns segmentos com uma incidência bastante grande, esse agravo em crianças e adolescentes.

A presença desses fatores de risco é comum nos indivíduos que apresentam doença coronariana antes dos 65 anos de idade. Presume-se que esse quadro tenha como fonte a resistência à ação da insulina e alguns autores chegam a chamar o conjunto desses fatores de risco como 'síndrome de resistência à insulina'. Outros consideram que as alterações metabólicas associadas à obesidade são causadas por um conjunto de alterações e não somente à resistência à insulina e sugerem o uso do termo 'síndrome metabólica' para a condição em que alguns desses fatores de risco estão presentes.

Os mecanismos pelos quais a obesidade predispõe os indivíduos à síndrome metabólica não são totalmente conhecidos, mas sabe-se que a gordura depositada no abdômen tem um papel importante no processo. Tanto assim que a Federação Internacional de Diabetes (IDF, sigla em inglês) estabeleceu, recentemente, uma nova definição mundial para a síndrome metabólica. Segundo a nova definição, uma pessoa será considerada como portadora da síndrome quando tiver obesidade central (definida, para a população caucasiana, como perímetro da cintura igual a 94 cm em homens e 80 cm em mulheres) e mais duas quaisquer dentre as seguintes condições: 1) triglicérides acima de 150 mg/dL (1,7 mmol/L) ou se estiver em tratamento específico para essa dislipidemia; 2) HDL colesterol menor do que 40 mg/dL (1,03 mmol/L) no caso de homens e menor do que 50 mg/dL (1,29 mmol/L) no caso de mulheres ou se estiver em tratamento para essa condição; 3) hipertensão arterial (pressão arterial sistólica acima de 130 mm Hg ou diastólica acima de 85 mm Hg) ou se estiver em tratamento para hipertensão; e 4) glicemia de jejum acima de 100 mg/dL (5,6 mmol/L) ou se tiver diabetes tipo 2 diagnosticado.

Estima-se que um quarto da população mundial adulta tenha a síndrome metabólica e que 200 milhões tenham diabetes. Desse grupo 80% irão morrer de doença cardiovascular, o que coloca a síndrome metabólica, em associação com o diabetes, como causa de morbidade e mortalidade muito superior à Aids, embora o problema não seja devidamente reconhecido pela população em geral. Segundo estimativas para a população americana, a obesidade (IMC maior do que 30 kg/m2) estava associada a um excesso de 112 mil mortes para o ano 2000. Estima-se que as condições associadas a dietas não saudáveis e a inatividade física superem, brevemente, o tabagismo como o maior causador de doenças na população americana.

 

Epidemiologia da obesidade

No mundo

O IOTF mantém um banco de dados sobre a situação do sobrepeso e da obesidade em adultos e crianças de 141 países. Os dados de prevalência do sobrepeso + obesidade (IMC maior do que 25 kg/m2) nos adultos (idade maior ou igual a 18 anos) varia muito entre países, indo desde 5% na Índia até quase 80% na Papua Nova

Guiné para homens e mulheres (Gráfico 3). Observa-se que a prevalência do excesso de massa corporal pode ser bastante diferente entre homens e mulheres no mesmo país. O Brasil se situa numa escala intermediária, com aproximadamente 40% e os dados são de 1997, provavelmente da PPV (ver mais à frente).

Gráfico 3 – Prevalência de sobrepeso + obesidade de adultos em

vários países do mundo

 

Fonte: Dados disponíveis no site da Força Tarefa Internacional

sobre Obesidade (maio de 2006).

Existem menos informações para crianças e adolescentes (5 a 17 anos de idade) no banco de dados do IOTF e a idade varia muito de

país para país (Gráfico 4). Em alguns países existem dados de uma única idade e para outros existem dados de crianças e adolescentes. Os dados do Brasil são de 2002 e de crianças entre 7 e 10 anos. Da mesma forma do que em adultos, não existe associação direta entre a prevalência de sobrepeso/ obesidade nos meninos e meninas.

Gráfico 4 – Prevalência de sobrepeso + obesidade de crianças e

adolescentes em vários países do mundo

 

Fonte: Dados disponíveis no site da Força Tarefa Internacional

sobre Obesidade (maio de 2006).

No Brasil

O Brasil tem conseguido realizar inquéritos antropométricos nacionais ou regionais com intervalos de tempo relativamente curtos, o que permite o acompanhamento da situação nutricional da população. Os dados vêm do Estudo Nacional da Despesa Familiar (Endef) realizado em 1974-1975, da Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN), realizada em 1989, e da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada em 20022003 (IBGE, 2006). Existem dados, ainda, da PPV, desenvolvida em 1997, mas que só investigou amostras da população das regiões Nordeste e Sudeste.

Os dados revelam uma redução expressiva na prevalência de desnutrição em crianças e um aumento importante do sobrepeso e da obesidade. Nos países em que este quadro tem ocorrido, comenta-se que os mesmos atravessam um período de 'transição nutricional', em alusão às transformações epidemiológicas ocorridas de prevalências altas de doenças transmissíveis para as de doenças crônicas não transmissíveis. Nesse aspecto, o Brasil aproxima-se mais de um quadro de polarização epidemiológica, já que tanto as prevalências de doenças crônicas não transmissíveis como as de algumas doenças transmissíveis são altas. Da mesma forma, apesar da prevalência relativamente alta de sobrepeso/obesidade encontrada, ainda existe um percentual alto da população brasileira (40%) com insegurança alimentar como evidenciado na análise da mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2004.

• Adultos (idade > 20 anos)

No Brasil como um todo, os dados disponíveis até o momento indicam redução na prevalência de baixo peso (IMC < 18,5 kg/m 2) com os valores de 2003 (3% e 5% para homens e mulheres, respectivamente), chegando à metade dos valores observados na

década de 1970 (Gráfico 5). No mesmo período, a prevalência de sobrepeso dobrou e a de obesidade triplicou nos homens.

Gráfico 5 – Evolução do estado nutricional da população adulta brasileira nos inquéritos nacionais realizados entre 1975 e 2003

 

Fonte: Dados publicados pelo IBGE (2004).

A comparação do estado nutricional da população adulta das regiões Nordeste e Sudeste indica que, com exceção da obesidade nas mulheres para quem, aparentemente, existe uma estagnação nos percentuais entre 1989 e 2003 após aumentos substancias entre 1975 e 1989, existe uma clara tendência de aumento nas

prevalências de sobrepeso e obesidade (Gráfico 6). Pode-se notar que a prevalência de sobrepeso continua a aumentar em homens e voltou a aumentar em mulheres na pesquisa mais recente.

Gráfico 6 – Evolução do estado nutricional da população adulta do

Nordeste e Sudeste nos inquéritos nacionais realizados entre 1975

e 2003

 

Fonte: Os dados da PPV foram calculados partir dos microdados das pesquisas disponibilizadas pelo IBGE, e os dados dos outros

inquéritos foram copiados da publicação do IBGE (e 2004)

A estabilização nas prevalências de obesidade encontrada para mulheres do Sudeste ocorreu também nas regiões Sul e Centro-Oeste. Já na região Norte o padrão é o mesmo do que o encontrado na região Nordeste, ou seja, aumento na prevalência do sobrepeso e da obesidade.

O fenômeno observado para as mulheres brasileiras do Sudeste, Sul e Centro-Oeste é raro de se observar no mundo, onde, na grande maioria dos estudos, se encontra aumento progressivo nas prevalências. Tomando-se o Brasil como um todo, o aumento nas prevalências de sobrepeso e obesidade só ocorreu nas mulheres mais pobres, nas famílias com rendimento mensal até meio salário mínimo por pessoa.

Considerando-se a escolaridade, observa-se que há aumento na prevalência de obesidade conforme o aumento no número de anos de estudo completados em cada uma das pesquisas. Comparativamente entre os inquéritos, observa-se que do Endef (1975) para a PPV (1997) o número de homens adultos obesos aumentou cinco vezes para os que não tinham freqüentado escola formal e somente metade disso (2,5 vezes) para os homens que cursaram universidade.

Já para as mulheres adultas, em todos os inquéritos, a relação entre o número de anos de estudo é inversa à prevalência de obesidade, ou seja, a prevalência de obesidade diminui com o aumento do número de anos cursados. Entre as mulheres que não freqüentaram escola, a prevalência de obesidade aumentou aproximadamente três vezes entre o Endef e a PPV. Já para as mulheres que cursaram universidade, o aumento na prevalência da obesidade entre os inquéritos não chegou a dobrar (1,9 vez).

Não existe uma explicação definitiva para esses achados, mas, por algum motivo, as mulheres brasileiras adultas das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e as mulheres mais ricas e de maior escolaridade pararam (ou diminuíram) o ritmo de aumento na relação massa corporal/estatura. De qualquer modo, os dados indicam que a prevalência de sobrepeso em adultos está em franca ascensão no país. Aproximadamente 50% da população brasileira, em seu conjunto, apresenta algum grau de excesso de massa corporal (sobrepeso + obesidade) segundo o IMC, o que coloca essa situação como o problema mais sério nutricional da população adulta atualmente no Brasil.

• Crianças e adolescentes

Os valores de sobrepeso nas crianças e, particularmente, nos adolescentes, vão depender dos critérios usados para sua identificação. Usando as recomendações da OMS para sobrepeso em crianças e risco de sobrepeso para adolescentes, pode-se observar valores ainda relativamente baixos para a população brasileira masculina. Para as adolescentes, parece já ocorrer

sobrepeso em um nível preocupante no ano de 1989 (Tabela 1).

Tabela 1 – Prevalência (%) de sobrepeso em crianças e

adolescentes brasileiros no Endef (1975) e na PNSN (1989)

 

Idade Endef PNSN

(Anos) Homens Mulheres Homens Mulheres

2 - 3 2,4 2,8 2,9 2,9 3 - 4 3,7 2,4 2,1 3,2 4 - 5 4,0 3,6 2,6 5,0 5 - 6 3,0 3,0 5,0 4,9 6 - 7 3,8 3,9 3,4 4,1 7 - 8 2,8 3,4 3,4 2,1 8 - 9 2,6 3,3 3,7 2,0 9 - 10 2,6 2,3 2,7 3,7 10 - 11 3,4 3,5 6,5 8,4 11 - 12 3,9 3,5 6,6 11,2 12 - 13 2,5 4,3 8,5 9,4 13 - 14 2,2 4,2 6,2 9,8 14 - 15 2,4 5,0 5,6 12,9 15 - 16 2,0 7,7 4,9 7,5 16 - 17 2,0 7,1 4,4 4,4 17 - 18 1,6 5,4 1,9 10,0 18 - 19 1,9 6,6 4,0 12,9 19 - 20 2,8 6,9 5,8 14,2

Fonte: Dados calculados pelo autor.

Os resultados da avaliação nutricional antropométrica de crianças e adolescentes brasileiros avaliados na mais recente POF (2002-2003) foram disponibilizados em junho de 2006. Infelizmente optou-se por um procedimento diferente do recomendado pela OMS, o que não permite comparações adequadas com dados anteriores. Por possíveis problemas metodológicos não se avaliou o quadro de obesidade em crianças com menos de 10 anos. As estimativas (%) de sobrepeso e obesidade para adolescentes em função da faixa

etária são apresentadas na Tabela 2. Fica evidente que há uma tendência de maiores prevalências de sobrepeso e obesidade no início da adolescência.

Tabela 2 – Prevalência (%) de sobrepeso e obesidade em

adolescentes brasileiros na POF (2002-2003)

Idade (anos) Total Homens Mulheres

Sobrepeso

Total 12,3 10,4 14,4 10 - 11 17,7 16,9 18,5 12 - 14 14,3 10,4 18,4 15 - 17 9,4 7,1 11,9 18 - 19 8,3 9,2 7,4

Obesidade

Total 2,3 1,8 2,9 10 - 11 3,7 2,4 5,0 12 - 14 2,4 1,7 3,2 15 - 17 1,8 1,5 2,2 18 - 19 1,6 1,8 1,4

Fonte: IBGE (2006)