Ora Bolas: O Humor de Mario Quintana
As besteirinhas do seu Mario
FOI ASSIM: eu estava preparando uma edição especial do suplemento “Cultura”, de Zero Hora, sobre os 88 anos que Mario Quintana completaria em 30 de julho de 1994. Fui conferir o que o jornal publicara na ocasião dos 80 e, mais atrás, dos 70 anos. Nesta, encontrei uma página de “anedotas”, editada por mim. Resolvi reescrever algumas, começando pela historinha “Faroeste”, adaptada de uma brincadeira do poeta durante uma entrevista que fiz com ele em 1977. De observações e bisbilhotices pessoais tirei mais duas ou três.
A nova reunião de “anedotas” recordou-me outras tantas e logo os amigos ficaram lembrando mais. É como desenrolar um novelo. Então pensei: que tal um livro que reunisse esse lado de Mario Quintana? Porque esse lado tinha a cara dele. Era um genial piadista, dono de fantástica presença de espírito. As frases que escrevia no “Caderno H” eram muitas vezes a lapidação das tiradas espontâneas. Como: “Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”.
Sérgio Lüdtke, da editora Artes e Ofícios, topou na hora a proposta do livro, cujo título se impôs em meio às entrevistas que eu fazia com pessoas que conviveram ou tiveram contato com Quintana. Reuni 113 historinhas. Ora Bolas acabou ficando em segundo lugar na lista dos mais vendidos em não-ficção na Feira do Livro de Porto Alegre em 1994 – o primeiro foi Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Morais. No mesmo ano saiu uma segunda edição e, em 1996, a terceira, ampliada para 121 historinhas. Para esta quarta edição, com sabor de primeira, que a L&PM lança nacionalmente em meio às comemorações do centenário de nascimento do poeta, o texto foi revisto e além de inúmeras historinhas terem sido reescritas, agora são 130.
ORA BOLAS, para mim, é um livro de humor. Em 1976, pleno boom do novo humorismo gaúcho, amplos espaços abertos no caderno “Guia”, de Zero Hora e no “Quadrão” da Folha da Manhã, editei com Guaraci Fraga a antologia de humor 14 Bis – que se seguia ao livro QI 14, com outros quatorze humoristas, lançado pela Editora Garatuja um ano antes. Quintana foi convidado para entrar na antologia como homenageado especial e natural. Aceitou na hora, quis selecionar seu material. O que quer dizer que também se via como um humorista. Às vezes ele próprio se surpreendia com a piada que brotava, tal a velocidade do raciocínio. Mas havia muitas guardadas na manga, e essas se podia reconhecer pela expressão que assumia, aguardando o riso em volta.
Os humoristas fazem humor para que se ria, óbvio, seja um riso escancarado, um riso de puro deleite, um riso amarelo ou um riso constrangido. Mario Quintana cultivava todas essas modalidades. Tinha o timing da piada e gostava de seu lado clown. Tanto, que chegava a promovê-lo. Achava engraçadíssima e se divertia contando aos amigos, por exemplo, a história do porteiro do Hotel Presidente que um dia deu este conselho à sobrinha Elena Quintana: “A senhora tem que anotar essas besteirinhas que o seu Mario diz, isso é tudo poesia”.
O porteiro sabia. Com Quintana vivo, muitas historinhas, ou anedotas, ou causos, circulavam contados por amigos – mas quase sempre sob a capa do folclore em torno dele. E é claro que a cada dia ele se encarregava de aumentar o estoque. Isso foi até quase o dia da morte, como se verá. Com Quintana no céu, alguns velhos amigos passaram a imaginar que a reunião dos causos, ou anedotas, ou historinhas, em um livro como este, poderia diminuir a imagem do poeta, enfatizando a do clown. Como se não a imagem, mas o poeta, corresse algum risco.
Mario Quintana é um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Sua significação só tem aumentado e continuará a aumentar. Poderá ser lido séculos à frente, se existirem séculos, porque sua poesia é rigorosamente universal e atemporal. E sua obra está toda aí, disponível. Não aparecerão poemas inéditos, como costuma ocorrer, porque seu testamento informal proibiu: nada de edições póstumas. E para ser radical, ainda recomendou a Elena que estivesse alerta: “Se aparecer alguma coisa psicografada por mim, não fui eu quem psicografou”.
ESSE NÃO É o caso das historinhas. O livro que eu imaginava lá em 1994 poderia ampliar o entendimento do poeta e do homem. Acho que a repercussão ajudou nisso. As historinhas têm sido teatralizadas, reproduzidas na imprensa, usadas em escolas no Rio Grande do Sul. A imensa maioria baseia-se em relatos orais, o que dá a elas um especial sabor de causo. Algumas pessoas me contaram a mesma história com variações. E cada vez que eu as ouvia mais me deliciava com a maravilha que é a transmissão do conhecimento, o uso de tantos caminhos particulares para se chegar ao mesmo lugar. Ou ao mesmo homem.
O piadista do cotidiano era o mesmo poeta compenetrado dos livros e o jornalista/poeta que brincava de surpreender os leitores com textos fulminantes do tipo “O fantasma é um exibicionista póstumo”. Ou quase eróticos: “Um dia, por dever de ofício, fui a um desses concursos de robustez infantil. Havia cada mãezinha...”. A propósito, a propalada assexualidade de Quintana é posta à prova neste livro, embora eu deva reconhecer que não se chega a nenhuma conclusão. Mas é o que menos importa, pois ele também ensina que ninguém deve ficar se metendo na vida dos outros. Fora ser profético em frases do “Caderno H” como “O que há de mais admirável nas democracias é a facilidade com que qualquer pessoa pode passar da crônica policial para a crônica social”. Ou vice-versa, como talvez escrevesse hoje.
O leitor verá que as narrativas oscilam entre passados e presentes. Até cogitei padronizar isso, obedecer aos verbos. Depois achei que não, pois quem conta um causo, uma historinha, uma anedota, conta do seu jeito. Com o seu próprio feeling, seu próprio suspense. Daí que apenas adaptei, com uma caprichada nos cenários, uma ficçãozinha aqui e outra ali, situando a época ou não. E despreocupei-me com a ordem cronológica. Então, este livro vem para as pessoas se divertirem, conhecendo um lado de Mario Quintana que ficou mais ou menos reservado. Mas que é, definitivamente, muito revelador.
O INCENTIVO de Sônia Azambuja Fonseca foi (e continua sendo) fundamental. Agradeço especialmente a Elena Quintana, Ernani Ssó, Luis Fernando Verissimo e Santiago. E à presença de Alba Faedrich, Angela Moreira Flach, Armindo Trevisan, Carlos Urbim, Claudia Laitano, Claudinho Pereira, Claudio Levitan, Dinah Gastal, Dudu Guimaraens, Dulce Helfer, Edgar Vasques, Eldes Schenini Mesquita, Geraldo Flach, Guaraci Fraga, Ivan Pinheiro Machado, Ivo Stigger, Jayme Copstein, José Otávio Bertaso, Jussara Porto, Liberato Vieira da Cunha, Mara Leite Garcia, Luís Augusto Fischer, Moisés Mendes, Nilson Souza, Nydia Guimarães, Olga Reverbel, Sergio Faraco, Sérgio Lüdtke, Tânia Carvalhal e Waldeny Elias.
Nos agradecimentos da primeira edição estavam amigos queridos que depois foram ao encontro de Quintana sabe-se lá em que dimensão: Maria Abreu, Mery Weiss, Carlos Reverbel, Jesus Iglésias, P.F. Gastal e Sampaulo.
Juarez Fonseca[1]