Ora Bolas: O Humor de Mario Quintana
Hein?
PAREDES
O PINTOR Waldeny Elias atende à campainha de seu ateliê na Rua General Vitorino e lá está Mario Quintana. Viera agradecer pelo presente, uma pintura de bolso”, de 6cm x 4cm. Levava-a, contou com um sorriso português, “na algibeira do fato domingueiro”. Retribuiu presenteando o velho amigo, a quem chamava de Pinta-Mundos, com o recém-lançado livro Do Caderno H.
Na dedicatória, justificou por que não havia aceito um quadro grande que o pintor lhe oferecera.
– Elias, me desculpe e acredite. Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes...
IN-DECISÕES
EM 1984 a Editora Globo convidou-o para ir ao Rio de Janeiro revisar as provas da reedição do livro infantil O Batalhão das Letras, que seria lançada 43 anos depois da edição original. A sobrinha e secretária Elena Quintana foi junto. Hospedaram-se no Hotel Glória e a editora combinou que, no dia seguinte, alguém passaria lá para pegar as provas corrigidas.
Desde a manhã Mario trancou-se na dúvida entre um “e” e uma vírgula em determinado poema. Botava o “e” e tirava a vírgula, tirava a vírgula e botava o “e”, pedia a opinião de Elena, desistia do “e” e voltava à vírgula. Ainda estava nessa quando por volta das seis da tarde o telefone tocou informando que chegara o mensageiro da editora.
– Tio, o homem está aí. Te decide.
– Pois é... O que achas?
– Eu acho que é “e”.
– Então tá: põe vírgula.
O MAPA DO CÉU
FERNANDO SAMPAIO, autor de livros sobre discos voadores e sobre o continente perdido de Atlântida, era o responsável pela edição do mapa astronômico, com as posições das estrelas e das constelações, publicado semanalmente no Correio do Povo. Mario acompanhava o trabalho do amigo, até que um dia não resistiu e deixou escapar, para outro:
– Não é que eu não ache válido, mas há anos ando pela noite toda e nunca vi ninguém conferindo esse mapa...
O MELHOR POETA
EM CERTA época, Mario Quintana e Athos Damasceno Ferreira moravam na Rua do Rosário – a atual Vigário José Inácio. E um provocava o outro, se dizendo “o melhor poeta da rua”. Até o dia em que Quintana chegou para Athos e concedeu:
– Olha, cheguei à conclusão de que tu és o melhor poeta da Rua do Rosário.
Athos ficou sério, e em seguida elogiou a honestidade e a humildade do poeta rival.
– Não é nada disso – debochou Quintana – é que acabo de me mudar para a Riachuelo...
CANSAÇO
CLÁUDIO LEVITAN, que se reparte (ou concentra) nas aptidões de músico, arquiteto e desenhista, foi convidado em 1986 para quadrinizar o livro Pé de Pilão para a editora L&PM. Uma responsabilidade, pois a edição original do clássico infantil de Mario Quintana tem desenhos de Edgar Koetz, grande ilustrador, que foi o principal capista da Editora Globo nos anos 50. Originais debaixo do braço, Levitan dirigiu-se ao hotel Porto Alegre Residence para mostrá-los ao poeta.
Na verdade iria mostrar não só os quadrinhos como também as músicas que ele, Nico Nicolaievsky e Vitor Ramil tinham feito para os versos de Pé de Pilão (vinte anos depois o musical permanece inédito). Noite acidentada. Faltou luz e Levitan resolveu comprar umas velas para enfrentar, no escuro, os oito andares até o apartamento de Quintana. Na subida, ia pensando na cegueira de Jorge Luis Borges.
No oitavo andar, seguiu pelo corredor e ouviu uma conversa saindo de uma porta. Depois de escutar um pouco, identificou as vozes de Quintana e Elena. Ela dizia coisas como “mas tio, tens que tomar este remédio, porque etc. e tal, e a saúde, e o que vão dizer de ti...”.
Alguns segundos de silêncio e Levitan ouviu, antes de bater na porta:
– A eternidade me dá um cansaço!...
A PLACA!
LOGO DEPOIS do almoço, Mario atravessa a Rua Caldas Júnior para ir à redação do Correio do Povo buscar a correspondência e tomar o habitual cafezinho. Distraído, não vê o Chevette que dá marcha a ré para sair do estacionamento, nem é notado pelo motorista.
Socorrido por dois homens, imediatamente é colocado no carro, que segue rápido para o Hospital de Pronto Socorro. Depois de acender um cigarro, segurando a perna que doía e sem perceber que o automóvel que o levava era o mesmo que o atropelara, Mario pergunta ao preocupado condutor:
– Anotaram o número da placa?
E justifica:
– É para jogar na loto.
A placa era IQ 1002, de Caxias do Sul. Mario imaginava combinar esse número com os da data daquele dia, 6 de maio de 1985. Duas horas depois, entrando na ambulância que o levaria para o Hospital da PUC, acende outro cigarro e determina a Elena:
– Não te esquece de jogar!
RIMAS
NO ATROPELAMENTO, Quintana quebrara o fêmur esquerdo e deveria submeter-se a uma cirurgia para colocação de prótese. Os médicos preocupavam-se com a idade dele, 79 anos, e anteciparam que a recuperação poderia ser lenta. Ele permaneceria alguns dias no hospital.
Paciência, ora bolas.
– Lá vou ter bastante tempo para trabalhar. Só que agora meus poemas vão sair de pé-quebrado...
E ao saber que a prótese seria de platina:
– Ah! Agora sim, vou ser um poeta de valor...
INTERVALO
PARA COMEMORAR os 60 anos do poeta, em 1966 a Editora do Autor, do Rio de Janeiro, lançou a Antologia Poética de Mario Quintana, na coleção em que já publicara Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes.
Dias antes da tarde de autógrafos do lançamento, Quintana foi homenageado em sessão especial da Academia Brasileira de Letras, sendo saudado por seu conterrâneo Augusto Meyer e por Manuel Bandeira. Para a ocasião Bandeira fez o poema que se tornaria célebre, “A Mario Quintana”, aquele dos Quintanares, e escreveu a carta convidando o gaúcho a ir ao Rio para a homenagem.
Quintana respondeu que não era um convite e sim uma ordem. E acrescentou: “Mas você não imagina como sou chato no intervalo dos poemas”.
É dessa época a famosa fotografia em que aparecem juntos, pela primeira e única vez, Quintana, Drummond, Bandeira, Vinicius e o organizador da antologia, Paulo Mendes Campos.
A FRANÇA INTERIOR
O BAR do edifício Ouvidor, que permanece impávido na Rua da Praia, era freqüentado por meia redação do velho Correio do Povo e por um bom pedaço da redação da extinta Folha da Tarde. Foi lá, em um início de noite de mil novecentos e setenta e poucos, que Mario Quintana confidenciou a seu colega de redação Liberato Vieira da Cunha, mais tarde cronista de Zero Hora e autor de livros de crônica e romances, que, finalmente, ele tinha condições de viajar à Europa. A França em especial. Mas:
– Sabes? É um projeto que já não me atrai. A França inteira está aqui – disse, apontando para a cabeça. – E se vou lá e não a encontro como está aqui?
TATUAGENS
EM 1956 chegou a Porto Alegre o filme A Rosa Tatuada, com Ana Magnani e Burt Lancaster. Quintana foi assistir na sessão da tarde, depois passou em um bar. Voltou à redação já meio alto e relativamente indignado com o título. Ou relativamente alto e meio indignado, como se preferir. O título estava incorreto, e ele queria saber a quem se dirigir para mudá-lo.
– Não pode ser A Rosa Tatuada. Como é que vão tatuar uma rosa? A rosa seria destruída! Tem que ficar claro que é uma tatuagem de rosa em alguém, ora bolas!
O PRISIONEIRO
ERA LIDO onde menos se imaginava. Um hóspede do presídio de Porto Alegre escreveu querendo saber se o poeta não conseguiria para ele um radinho de pilha. Mario foi consultar Eldes Schenini Mesquita, colega da redação e delegado de polícia, a quem costumava recorrer para driblar burocracias relativas à área, como fazer carteira de identidade e pedir certidão de bons antecedentes. Devia ou não devia dar o rádio?
Eldes ponderou que era um problema dele. Não havia nada que o impedisse de dar o rádio. Pelo contrário, estaria fazendo um presidiário feliz.
Mario espalhou o olhar naquele costumeiro infinito e logo retornou-o a Eldes, com uma ponta de dúvida:
– Pois é. Isso aí eu já lembrei. Tenho medo é da gratidão...
IMPOSTO DE RENDA
ANDAVA às voltas com a declaração do imposto de renda. Tinha o salário do Correio do Povo e até aí tudo bem. Para complicar, havia direitos autorais vindos de várias fontes. Mais burocracia do que dinheiro, como se sabe. Enfim, andava às voltas com os labirintos da declaração.
Mas sempre há uma alma caridosa. O colega Sílvio Braga, que se dividia entre a redação do Correio e uma repartição federal, ofereceu-se:
– Reúne a papelada e me passa, que eu faço tua declaração no computador.
Prometido e feito. Mario agradeceu pelos préstimos com um verso:
Sei que meu cálculo é infiel
Na mais inglória das lutas
Lido com pena e papel
E tu, ó Braga, computas.
LUIS FERNANDO
NO INÍCIO de 1983 ele gravava, no estúdio da ISAEC, em Porto Alegre, o álbum duplo Antologia Poética de Mario Quintana, na série que já tivera Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, lançada em álbuns luxuosos pela gravadora Philips.
– Quem vai tocar saxofone na faixa Cocktail Party é o Luis Fernando Verissimo – informa Geraldo Flach, autor da música incidental do álbum.
– Ah, que beleza, sensacional – diz Quintana. – Ele não gosta de falar, quase não fala.
Apelidado carinhosamente por Mario de “Grosseira Imitação”, o publicitário Jesus Iglesias, assistente de produção do disco, comenta:
– Em nosso penúltimo encontro o Luis Fernando bateu o recorde absoluto: disse “ai” na entrada, “tchau” na saída, e só.
Mario continua:
– Ah, mas eu ganhei dele, sabe? Um dia fomos de carro até a Riocell, aquela fábrica que tem mau cheiro. Eu sabia que ele não gostava de falar e então eu também não falei nada. Quando chegamos lá ele se queixou de meu silêncio. Foi uma grande vitória para mim.
ALTOS E BAIXOS
FALAVA-SE de poetas em um intervalo da gravação da Antologia Poética.
– E Castro Alves?
– Ah, o guri era genialzinho. Tinha coisas incríveis, como o Navio Negreiro. Dizia: “Existe um povo que a bandeira empresta para encobrir tanta infâmia e covardia”. Ora, ter a coragem de dizer isso... Mas ele também tem um verso que eu acho muito engraçado: “Sinto na fronte o borbulhar do gênio”. Rá, rá, rá. Borbulhar, imagine! Era muito irregular, está certo. Mas os altos dele eram altíssimos. O Victor Hugo também foi assim. Encheu o século XIX, mas quando dava baixas, eram baixas que era uma barbaridade...
ASTRONAUTAS
DOMINGO, 20 de julho de 1969. Como todos os lugares do mundo em que existia um aparelho de televisão, a redação do Correio do Povo está parada, assistindo à chegada do homem na Lua. Enquanto Neil Armstrong saltita, deixando marcas na superfície lunar e cravando lá a bandeira norte-americana, Mario Quintana rabisca a sua marca para a data, antecipando outros futuros. Escreve e mostra, para delícia do pessoal:
Todo astronauta que se preze
Há de trazer pelo menos
Um dos anéis de Saturno
E uma camisa de Vênus.
BARBUDINHOS
O POETA Nei Duclós, nascido em Uruguaiana, cidade-irmã do Alegrete de Mario, homenageou-o com um poema publicado em seu livro de estréia, Outubro, de 1975.
Olhem o antípoda
olhem o animal da palavra
É um dinossauro na cidade de vidro
borboleta branca na floresta queimada
Respeitem seu andar
e desconfiem com temor
da sua conversa fiada
Ele é o flagelo do Senhor
e vocês não sabem.
Perguntado sobre se lera os versos, Quintana confirmou, acrescentando que considerava um dos bons poemas escritos a seu respeito. Disse mais, que tinha vontade de dar um abraço em Nei. Mas havia uma dificuldade naqueles tempos hippies:
– Como vou reconhecê-lo no meio de todos esses barbudinhos?
Quatro anos depois Mario lembraria essa história no prefácio que escreveu para o segundo livro de Nei, No Meio da Rua, lançado em 1979 pela L&PM.
AS TRÊS
NO BAR DO ARI, situado no segundo andar da Companhia Jornalística Caldas Júnior, um acima da redação do Correio, alguém falava sobre a mudança dos costumes.
– Antigamente, se o sujeito queria dançar, só tinha o cabaré ou o baile do clube. Agora não, agora tem a boate, onde o cara pode ir com a amante ou com a mulher, pode levar até a mãe que tudo bem...
Mario, que ouvia quieto, não perdeu a oportunidade:
– O Édipo levaria todas no mesmo dia. A mulher, a amante e a mãe...
AÇÚCAR
ELE e o desenhista Nelson Boeira Faedrich eram amigos de muito tempo. Trabalharam juntos na Revista do Globo (da qual Nelson foi um dos grandes capistas) e depois no Correio do Povo. Mesmo assim, o poeta parecia sempre encontrar maneiras de renovar a afetividade. Nesse dia de 1970 ele chega no bar da Caldas Júnior, senta no banco alto e vê no outro lado do balcão em forma de “U” o velho e doce amigo, já de cabeça toda branca, comendo quindim e tomando cafezinho.
Aí brinca:
– Nelson, tu comendo quindim é pleonasmo...
VELHINHOS
DE ERICO Verissimo também era amigo desde os tempos mitológicos da Editora Globo, nos anos 40. Dessa época, há muitas histórias lembradas por José Otávio Bertaso em seu precioso livro A Globo da Rua da Praia, lançado em 1993. Vale a pena ler – até para uma comparação com o Rio Grande do Sul intelectual de hoje...
Mas isso não vem ao caso. Vem ao caso que, um dia, batendo papo com o poeta Armindo Trevisan, Mario recordou uma conversa entre ele e Erico, pouco antes da morte do escritor de O Tempo e o Vento, em 1975. Erico teria dito:
– Mario, te lembras daqueles velhinhos que caminhavam assim devagar, com suas bengalinhas, e de repente paravam, olhavam para um lado, e depois seguiam mais um pouco, e paravam, e olhavam para o outro lado, e comentavam alguma coisa, e seguiam devagarinho? Mario, nós somos aqueles velhinhos...
Trevisan foi saber se dona Mafalda Verissimo lembrava disso e ela respondeu que não. Trevisan suspeita que Mario é que teria sido o autor da história que atribuiu ao outro. Mas não tem importância. Ela tem o sabor dos dois.
DISTÂNCIAS
EM 1982 Mario viajou muito. Primeiro por “umas dezesseis cidadezinhas” do interior do Rio Grande do Sul, depois foi até Recife, depois Belém do Pará, com escala no Rio.
Mal chegado, foi convidado para ir a Capão da Canoa, a pouco mais de uma hora de distância de Porto Alegre. Recusou:
– Não. É muito longe!
CORES
MAIS um convite para ir ao Interior. Depois do sim do poeta, o satisfeitíssimo secretário municipal de Educação e Cultura combina detalhes da viagem e quer saber se ele tem preferência por alguma marca de automóvel.
– Marca não, a cor sim. Azul.
CESARIANA
MARIO e a turma de humoristas do livro QI 14, entre eles Fraga, Edgar Vasques, Santiago e Ernani Ssó, em 1975 foram a Caxias do Sul participar de uma feira do livro. O poeta era o patrono. Como sempre acontece nessas ocasiões, a viagem se transforma em uma correria. Todos querem agradar aos visitantes. Na manhã de sábado eles andaram pra lá e pra cá: redações de jornais, rádios, a tevê, o prefeito...
Depois do almoço, numa galeteria, os anfitriões quiseram mostrar a cidade. Monumento ao Imigrante, Igreja de São Pelegrino, Parque da Festa da Uva, vinícolas etc. Caxias é cheia de subidas e descidas. Lá pelas tantas o carro parou voltado para cima em uma rua íngreme que oferecia uma visão panorâmica. Os jovens humoristas saltaram e ficaram esperando por Mario, sentado no banco de trás, junto com Ernani.
Ernani abriu a porta, saiu, e o poeta, cansado de tanta caminhada, fez a primeira tentativa. O impulso do corpo não foi suficiente, caiu de volta ao banco. Segunda tentativa, resultado idêntico. O carro estava muito inclinado, ele não conseguia vencer a força da gravidade. Ernani voltou para ajudá-lo. Mario justificou:
– Eu só consigo sair com cesariana.
MESAS DE MÁRMORE
VETADO três vezes pelos acadêmicos da Academia Brasileira de Letras, que sempre acham lugar para um José Ribamar Sarney, um general Lira Tavares ou um Roberto Marinho, Mario confessou depois que tivera uma vaidade passageira com essa candidatura, que aliás não fora uma idéia sua. Comentou poeticamente com as jornalistas Jussara Porto e Teresa Cardoso, de Zero Hora, que foram conversar com ele:
– Nunca fui falante, nunca fui de badalações. Eu tenho inveja de mim mesmo, do tempo em que escrevia anonimamente nos mármores dos cafés. Os garçons reclamavam: “Esse aí passa a noite inteira bebendo cachaça e sujando o mármore das mesas”. Pois agora deixei de beber e as mesas não são mais de mármore...
FEIJOADA
INDEPENDENTE do fato de não acreditar em reencarnação, e de achar que o céu deve ser um lugar chato, como se verá mais adiante, Mario podia perfeitamente contradizer-se diante de um materialista convicto. No caso, Dyonélio Machado. Autor de Os Ratos, apontado como um dos dez melhores romances gaúchos de todos os tempos e clássico da literatura brasileira engajada, com dezenas de edições nacionais, Dyonélio deparou-se em um dia de 1977 com a proverbial iconoclastia do amigo poeta.
Estavam em animada conversa no escritório da Editora Garatuja, dirigida pela escritora Mery Weiss e pela qual Dyonélio lançara no ano anterior a segunda edição (“Correta, aumentada e com variantes”) de seu romance Deuses Econômicos. Lá pelas tantas o assunto passa a ser a morte.
Dyonélio:
– Morreu, acabou. Não tem mais nada!
Provocativo, Quintana sai em defesa do Além:
– Não posso acreditar nisso. Se acreditasse, seria admitir que a vida é como a gente esperando para comer uma gostosa feijoada, preparada lentamente, com toucinho, charque, lingüiça... E quando chegasse o meio-dia, na hora de comer, o cozinheiro atirasse a feijoada pela janela...
DOR DE DENTE
TRÊS DIAS antes de morrer, no Hospital Moinhos de Vento, ele achou inspiração para escrever uma frase e dá-la de presente às enfermeiras. Ao contrário da letra grande e quase ilegível dos últimos meses, mesmo tremida desta vez ela está miúda e nítida: “A maior dor do mundo é pente com dor de dentes”.
ONTEM
DEPOIS de ter feito na Clínica Pinel o tratamento contra o alcoolismo, no início dos anos 50, Mario nunca mais bebeu. Certa vez, lembrando os velhos tempos, disse que na verdade não bebia, havia tomado apenas um porre. E que este porre durara 25 anos.
Durante o tal porre, numa manhã Nelson Boeira Faedrich se dirigia à redação da Revista do Globo quando viu o amigo entornando o copo num bar da Rua da Praia. Acercou-se e, cuidando para que não parecesse censura, indagou, em tom protetor:
– Mario! Já bebendo?
– Já não, ainda.
NOMES FEIOS
INÍCIO de mais uma madrugada. Mario chega à pensão em que morava, na Barros Cassal, perto da Avenida Independência, e é mal recebido pelos cachorros do vizinho. Reage aos latidos enfáticos com todos os palavrões disponíveis.
Na calçada, os pintores Waldeny Elias e Gastão Hofstaetter, que passaram a noite bebendo com ele e vieram deixá-lo em casa, assistem à cena.
Em meio à gritaria, abre-se a janela e surge a dona da pensão:
– Mas o que é isso, seu Mario! O senhor, um homem tão culto, um poeta reconhecido, dizendo essas barbaridades!
Ao que ele se defende:
– E a senhora, por acaso, sabe os nomes feios que estes cachorros estão me dizendo?
ACIDEZ
O CARTUNISTA Sampaulo tinha uma namorada no Bom Fim e costumava comprar bebidas no bar da esquina da Miguel Tostes com a Cabral. Naquele domingo, perto da hora do almoço, com surpresa encontrou lá Mario Quintana sentado em uma mesa, tomando um martelinho de cachaça e comendo uvas brancas.
Logo entraram dois rapazes e um deles pensou ter reconhecido o poeta. Mas ficou em dúvida. Sampaulo confirmou: era ele mesmo. Então o rapaz se dirigiu à mesa, respeitoso:
– Bom dia, seu Mario. Gosto muito de sua poesia. Mas essas uvas não estão verdes?
– Não, meu filho. A minha cara é assim mesmo...
INVENÇÕES
ANTIGAMENTE, na esquina da Praça Júlio de Castilhos com a Rua 24 de Outubro existia um bar. Um de seus freqüentadores eventuais era o escritor e psiquiatra Cyro Martins, morador de um dos edifícios em frente à praça e autor da série de romances realistas que passou à história da literatura gaúcha como fundadora do ciclo do “gaúcho a pé”.
Naquele dia, Cyro chegou e teve a surpresa de encontrar Mario Quintana bebericando em uma mesa. Sentou-se para conversar. Lá pelas tantas, o poeta foi acender um cigarro e o isqueiro não funcionou na primeira tentativa. Nem na segunda. Muito menos na terceira. Entre desconsolado e irônico, ele examinou o objeto e comentou com o amigo:
– Depois de inventarem o fósforo, foram inventar o isqueiro...
ENDEREÇOS
ALBA FAEDRICH, mulher do amigo Nelson Boeira Faedrich, vai fazer compras no Bom Fim e encontra o poeta saindo de um bar. Ele esboça um sorriso, mas ela não fica tão certa de que a reconhecera. Mario pergunta onde estão morando e tira do bolso seu caderninho de notas. Escreve: Nelson de tal, rua tal, telefone tal. Alba confere:
– Ah, mas não puseste o meu nome...
Ele faz um trocadilho, anotando “Albaurora”. E quando ela o convida para visitá-los, responde:
– Sempre reservo-me a surpresa a quem visitarei.
Vivia botando apelido em tudo. Esse caderno de notas, por exemplo, que usou durante anos, era o ‘Todamassadinho”. Um blusão de tricô ganho de presente era a ‘Baiana branca”. A estufa era o “Serafim”.
VALES
NA ÉPOCA em que trabalhava na Editora Globo ele andava sempre duro. Como o salário terminava antes do fim do mês, vivia pedindo vales de adiantamento. Até que um dia o caixa chiou:
– Mas seu Mario, o senhor já tem um monte de vales!
Quis saber, com aquele sorriso maroto:
– Afinal, são vales ou são montes?
REVERBÉIS
CARLOS REVERBEL era o editor do suplemento literário do Correio do Povo quando Mario Quintana passou a trabalhar na Cia. Jornalística Caldas Jr., no início dos anos 50. Foi nesse suplemento que ele continuou a publicar o Caderno H, iniciado em 1945 na revista Província de São Pedro, da Editora Globo, onde ambos se conheceram. Na época, Reverbel mantinha uma prudente distância do colega por causa dos temperamentos diferentes e das atitudes inconvenientes de Quintana, quando bêbado.
Mas parece que o poeta queria aproximar-se, como insinuou no dia em que se encontrou com Reverbel, Erico Verissimo e outros dois amigos no elevador da Globo. Entrou, olhou para Reverbel e cumprimentou a todos. Deixando de lado sua condição de gentleman, Reverbel não respondeu ao cumprimento. Mas ficou sabendo que o poeta sentira o escanteio.
Assim que Reverbel saiu do elevador, Quintana consultou os demais:
– Serão reversíveis os reverbéis?
MIRANDA
QUANDO Luiz de Miranda chegou a Porto Alegre nos anos 60, vindo de Uruguaiana, não conhecia ninguém. Uma de suas únicas referências era Mario Quintana e se encorajou a procurá-lo por alguns motivos: era também poeta, da mesma região, e queria trabalhar em jornalismo. Quintana poderia dar uma força, talvez avalizando seu pedido de emprego no Correio.
Estava certo. Solícito, o poeta falou com o chefe de redação a respeito. Mas foi como se não tivesse falado, e Miranda teve que bater em outra freguesia. Conseguiu emprego, perdeu emprego, conseguia emprego, perdia emprego, com Mario sempre informado sobre sua via crúcis.
E anos a fio, sempre que se encontravam, repetia a pergunta:
– Como é, já estás empregado?
EMPRÉSTIMO
EM ALGUMAS das tantas situações em que Luiz de Miranda passou pelo desconforto do desemprego, Mario Quintana o socorreu. Miranda conta que quando fazia menção de pagar, o outro recusava por razões mais do que convincentes:
– Mas eu não te emprestei dinheiro nenhum! Eu não costumo emprestar dinheiro.
Num desses dias de dureza, Miranda apareceu para conversar. Saíram da redação, andaram pela praça olhando os cartazes dos cinemas, bisbilhotaram sebos de livros, até que na entrada da noite Mario convidou o faminto amigo para jantar, animando-o com um “poderás pedir o que quiseres”.
E levou Miranda para o bar da Caldas Júnior, onde era servido um prato feito, o popular PF. No balcão.
ESQUECIMENTO
NO INÍCIO de 1947 a Editora Globo encomendou a tradução de alguns livros do Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, e ele decidiu se recolher à calma de Alegrete para começar o primeiro volume, No Caminho de Swann. Estava mergulhado no francês quando seu amigo Hélio Ricciardi, diretor da Gazeta de Alegrete, chega para visitá-lo e estranha vê-lo vestindo blusão de lã, casaco, boina.
– Mario, o que estás fazendo com essas roupas de inverno num dia de verão?
Quintana se olhou:
– É mesmo! Eu nem tinha percebido. Obrigado por me avisar, Hélio...
DE GRAÇA
O PRIMEIRO livro que Quintana traduziu para a Editora Globo foi Palavras e Sangue, de Giovanni Papini, no início dos anos 30. Depois seguiram-se traduções de Conrad, Maupassant, Virginia Woolf e tal, até a Globo, confiante, passar-lhe Balzac e Proust. Traduzia ao correr da pena, como lembrou em 1994 Carlos Reverbel, que dividia uma sala com ele. Era direto, praticamente sem ajuda de dicionário. Um dia, comentou com Erico Verissimo (ou teria sido Henrique Bertaso?):
– Estou gostando tanto de traduzir Proust que, se tivesse dinheiro, eu é que pagava para vocês...
CONTRATEMPO
A TRADUÇÃO de Em Busca do Tempo Perdido teve alguns sobressaltos. Numa manhã de 1949 Mario chegou cabisbaixo ao escritório da Globo, lá encontrando o editor Henrique Bertaso e seu braço direito Erico Verissimo. Comunicou:
– Seu Henrique, a fugitiva fugiu pela janela.
Os dois não entenderam nada, até Mario explicar que um vendaval levara as folhas datilografadas até aquele dia de sua tradução do sexto volume do romance de Proust, A Fugitiva.
Saíra para beber na noite, esquecera de fechar a janela da pensão e mais de duzentas laudas espalharam-se pelos quintais da vizinhança, como lembra José Otávio, filho de Henrique, no livro A Globo da Rua da Praia.
PLÁSTICA
NÃO ENTENDIA como é que as velhas gordas tinham coragem de botar maiô e ir para a beira do mar. Uma vez o convidaram para ir à praia e recusou com uma explicação:
– Obrigado. Eu não me orgulho das minhas formas.
AR FRESCO
EM 1983 ele foi uma das estrelas da Festa do Disco, realizada no Hotel Laje de Pedra, em Canela, que teve como uma das atrações o lançamento do LP com sua Antologia Poética. Caminhando pelos enormes corredores do hotel, acabou entrando em um salão onde o pessoal do MPB-4 jogava sinuca. Rui, um dos integrantes do grupo, adiantou-se para cumprimentá-lo e propôs ceder seu lugar. Mario recusou polidamente. Mas ficou por ali, conversando com o DJ e produtor musical Claudinho Pereira.
Como o ambiente estava abafado e enfumaçado, Claudinho resolveu abrir as janelas e a sala foi inundada pelo reconfortante ar fresco da serra.
Quintana não deixou passar a chance de louvar a região e, ao mesmo tempo, criticar a excessiva calefação do hotel:
– É... aqui o ar-condicionado é lá fora...
SOPÃO
EM uma manhã da mesma Festa do Disco, um grupo de artistas curava a ressaca refestelando-se nos 32 graus da piscina térmica do Laje de Pedra, coberta por uma redoma de plástico transparente. Acompanhado pela cantora Diana Pequeno, com quem acabara de tomar café, o curioso Mario Quintana abre a porta da piscina e manifesta seu espanto, erguendo as sobrancelhas em meio ao vapor.
De dentro da água, alguém convida:
– Aí poeta, bota um calção e entra!
E ele, já de saída:
– Eu não! Isso aí parece sopa de gente...
FUTEBOL
PERGUNTARAM para que time ele torcia, se Grêmio ou Internacional. Escapou-se:
– Eu torço pelo Grenal.
Insistiram, com a irrefreável dualidade gaúcha:
– Você tem que ser Grêmio ou Inter!
Concedeu:
– Eu só torço quando estão jogando no estrangeiro, Santa Catarina, Rio. Não gosto é quando empatam...
PIADAS
OS HUMORISTAS que faziam o suplemento de humor “Quadrão”, em 1974 e 1975, época em que Ruy Carlos Ostermann era o diretor da Folha da Manhã, não perdiam oportunidade de puxar conversa com Quintana para divertir-se. E ele se divertia também. “Adorava ouvir uma piada nova”, lembra Santiago, pai do personagem Macanudo Taurino.
Um dia, Santiago encontrou o poeta sentado no balcão do Bar do Ari, comendo seu pastel com quindim, cafezinho e copo dágua. Sentou ao lado e começou:
– Conheces aquela do português que...
Mario o interrompeu:
– Senta deste outro lado, porque eu sou canhoto desse ouvido aí...
ESQUINA PERIGOSA
DEPOIS do almoço, Mario Quintana e o jornalista J. Prado Magalhães, da Folha da Tarde, fazem a digestão caminhando pela Rua da Praia. Ao chegarem à Rua da Ladeira, que até hoje ninguém entende por que continua com o nome de General Câmara, Mario tem sua atenção despertada por uma nova placa de trânsito colocada ali: “Esquina perigosa”. Num tom irônico, quase distante, observa:
– Como se a esquina pudesse ser perigosa. Perigosos são os motoristas, ora bolas...
PRIMO BORGES
UM AMIGO de Mario viajou para Buenos Aires e foi visitar Jorge Luis Borges na Biblioteca Nacional. Conversa vai, conversa vem, falaram no poeta brasileiro e Borges disse que já havia lido alguma coisa dele. O amigo mencionou o nome completo, Mario de Miranda Quintana. Borges interessou-se: “Então é meu parente, eu tenho Miranda na família”.
Quintana, claro, ficou sabendo da história. Quando Borges morreu, ele comentou com Sergio Faraco: “Morreu feliz, morreu pensando que era meu primo”.
INFLAÇÃO
ÉPOCA do governo José Ribamar Sarney, inflação de 80% ao mês – para começar. Come seu pastel com cafezinho no balcão de uma lancheria da Rua da Praia, sentado em um desses bancos altos e desconfortáveis. Como todo mundo faz, tem as pernas trançadas nas pernas do banco.
Na hora de pagar, ao tirar o dinheiro do bolso do paletó, uma nota cai no chão. Lá de cima o poeta a olha desconsolado e isso é o bastante para que um rapaz, sentado na mesa próxima, se abaixe, pegando a nota e alcançando-a a Quintana, que agradece:
– Muito obrigado! No tempo que eu levaria para desenroscar as pernas e descer deste banco, o dinheiro já teria perdido metade do valor...
VOCAÇÃO
QUANDO esteve pela primeira vez no Rio de Janeiro e em São Paulo, os repórteres perguntavam por que não tinha saído do Rio Grande do Sul. Respondia: “Não saio de lá pelo mesmo motivo que vocês não saem daqui”. Antes, bem antes disso, quiseram saber em Porto Alegre por que saíra de Alegrete.
– Lá quem não é estancieiro é boi. Como não tenho vocação para nenhuma das duas coisas, vim para Porto Alegre.