Ora Bolas: O Humor de Mario Quintana

Juarez Fonseca · Capítulo 4 de 5

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Ora Bolas: O Humor de Mario Quintana

Tá?

DE FININHO

 

UMA GRANDE empresa escolheu Mario Quintana e duas outras personalidades do Rio Grande do Sul para homenagear. A solenidade, com discursos e entrega de placas, se daria no Hotel Plaza São Rafael, em elegante recepção.

Ele não gostava de ambientes afetados, mas resolveu ir com Elena. Já na chegada sentiram o clima: muito perfume, muito casaco de pele, vozerio, centenas de pessoas disputando o seu meio metro quadrado. Depois do coquetel seria servido o jantar.

Num breve intervalo entre os cumprimentos, Mario se vira para Elena:

– Vamos fugir.

– Mas como? Os diretores da empresa estão na porta recebendo os convidados, o que vamos dizer?

– A gente diz que vai comprar cigarros e sai.

Foi o que fizeram. Na Avenida Alberto Bins, respirou aliviado.

$ PRO CIGARRO

 

O Correio do Povo deixara de circular em junho de 1984 e ele ficara sem salário mensal, sem plano de saúde, sem nada, morando “de favor” no Hotel Royal, do ex-craque Falcão.

Em setembro, recebe um convite para ir a São Paulo. Teriam tudo pago, mas Elena pondera que estavam com muito pouco dinheiro, que a situação era difícil e que talvez fosse melhor não viajar.

Ele não se dá por vencido:

– Tens dinheiro pro teu cigarro?

– Tenho – diz ela.

– E eu tenho pro meu, então vamos.

Esta é uma das tantas histórias que desmentem aquelas de que Mario não gostava de viajar. E abre a chance para Elena comentar que, ao contrário do que outros também gostam de dizer, ele não guardou uma criança interior: “Guardou foi o adolescente”.

HISTÓRIAS TERRÍVEIS

 

A TARDE de autógrafos do livro “infantil” Pé de Pilão, em 13 de junho de 1975, na Livraria do Globo, foi um acontecimento que virou noite de autógrafos. Teve até o cardeal Dom Vicente Scherer furando a fila, que saía da Rua da Praia, dobrava descendo a Avenida Borges e ameaça voltar à Globo... pelos fundos. Mario assinou uns 800 livros e teve seu primeiro contato real não com as crianças mas com o, digamos, “público infantil”. Ouviu coisas como “mãe, ele até não é tão velhinho como eu pensava”.

Ao lado da fila, a repórter Ise Mara Silveira, de Zero Hora, quis sua opinião sobre as histórias infantis clássicas: “Eram muito sádicas. A da Gata Borralheira, por exemplo, é uma história terrível!”.

AS TIAS

 

O CRÍTICO baiano James Amado, irmão de Jorge, publicou na revista Província de São Pedro um artigo em que voltava baterias contra Quintana. Criticava o seu lirismo, o seu intimismo, numa época em que a situação do mundo, em plena Segunda Guerra, exigia engajamento.

Na biografia de Quintana, que escreveu em 1985 para a coleção “Esses Gaúchos”, da editora Tchê! e da RBS, a jornalista Néa Castro reproduziu esta preciosidade que é a carta-resposta, publicada no número seguinte da revista, em junho de 1946. O trecho inicial:

“Meu caro James:

Li com espanto e apreço o ensaio que V. remeteu para a Província de São Pedro e no qual tem a bondade de avisar-me de que tomei o bonde errado em poesia. Apressei-me então em ver o que têm feito os poetas que, segundo V., tomaram o bonde certo. Eis dom Pablo Neruda: publica ele, numa revista nossa, uma ode à sra. mãe de Luiz Carlos Prestes. Abro outra revista e surge-me o sr. Camilo Jesus com um ‘poema para Anita Leocádia’, filhinha do sr. Luiz Carlos Prestes. Desconsolo-me. Vejo que cheguei tarde, muito tarde. Agora, só me restam as tias do sr. Luiz Carlos Prestes.”

Quintana costumava dizer que uma boa causa jamais salvou um mau poeta.

ARREPENDIMENTO

 

DONALDO Schüler, poeta, ensaísta e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi à redação do Correio do Povo agradecer uma citação a respeito dele, feita num dos “Caderno H”. Quintana:

– Já que vieste me agradecer, acho que até já me arrependi...

O GENERAL

 

EM 1967 Mario fez uma visita a Alegrete. Já se tornara um nome conhecido no Brasil inteiro, depois do lançamento da Antologia Poética pela Editora do Autor. Caminhando pelas ruas, se encontrou com um general, famoso na cidade pelas grosserias que costumava dizer.

O militar cumprimentou-o amistosamente e, procurando ser gentil, fez alusão ao tempo em que Mario bebia muito. Foi gentil como um boxeador:

– Então, Mario, quem te viu, quem te vê! Ontem as borracheiras, hoje um poeta nacional!

Levou o troco:

– Então, general, quem te viu e quem te vê: sempre a mesma coisa!

UM ESTRANHO

 

MARIO estava nas oficinas do Correio revisando sua coluna “Do Caderno H” quando entra, de visita, um grupo grande. Ao identificá-lo, um dos homens, sorridente e simpático, sai do grupo e se dirige a ele, estendendo a mão.

– Mas ô, poeta, que prazer! Leio sempre os seus versos.

Mario o cumprimenta frouxamente, levanta as sobrancelhas, passa os olhos pela turma na qual podem ser identificados, pelo jeito, alguns seguranças (capangas, como se dizia) e, voltando a fixar o homem por sobre os óculos, desculpa-se:

– Muito obrigado. Mas... o senhor, quem é?

Era Leonel de Moura Brizola, governador do Rio Grande do Sul.

OBRIGADINHO

 

AUTOGRAFA um de seus livros com a tranqüilidade costumeira, dizendo uma coisa ou outra para as crianças da fila, quando é apresentado a um ministro de Estado de passagem por Porto Alegre e que estava ali para cumprimentá-lo. Curvando o corpo o político confessa, tentando ser gentil:

– Gosto muito dos seus versinhos.

E Quintana, abrindo aquela sua expressão típica de incredulidade, revida no mesmo instante:

– Muito obrigado pela sua opiniãozinha.

DO POSTE

 

OS ENCONTROS de políticos com Mario Quintana eram quase sempre hilariantes – ou constrangedores, dependendo do ponto de vista. Aquele dia, na redação do Correio, foi cumprimentá-lo um candidato a deputado pela Arena.

Ele já se acostumara com a repetição da cena: “Nosso grande poeta, leio religiosamente o ‘Caderno H’, não perco nenhum de seus livros, etcétera e tal”.

– Ah, sim, conheço o senhor. Hoje mesmo vi seu retrato colado em um poste.

GENERAIS

 

OS JORNALISTAS políticos Marco Antonio Kraemer e José Barrionuevo especulavam sobre quem poderia ser o sucessor de Emilio Garrastazu Médici na presidência da República. Mario ouvindo. Na mesa ao lado, Ivo Stigger datilografa. Mario passa a ele uma lauda com uma frase escrita à mão:

– Olhaí, Alemãozinho do Cinema.

Stigger guarda o papel como relíquia. Está lá: “Era uma vez um general burro. Tão burro, que os outros generais notaram”.

TANCREDO

 

GOSTAVA de dizer-se maragato, foi revolucionário em 1930 e depois tornou-se admirador de Getúlio Vargas. Durante os vinte anos do regime militar implantado em 1964, achou melhor reservar suas opiniões políticas para os muito próximos. Com o fim da ditadura, apoiou Tancredo Neves nas eleições indiretas para a presidência da República. Em outubro de 1984 um repórter perguntou-lhe por que apoiava Tancredo. Sem mistério:

– Por que sou do Tancredo? Porque não sou do Maluf, ora bolas.

Q.I.

 

A NOVELA da entrada de Mario na Academia Brasileira de Letras rendeu laudas e laudas nos jornais. Vetando-o, a Academia não chegou a ficar exatamente menor, pois tem uma história cheinha de fisiologismos. Mas perdeu mais uma oportunidade de tornar-se maior. Embora, cá entre nós, deva-se reconhecer que Mario jamais participaria daquele salamaleque todo. Imagina se ele iria, de tempos em tempos, pegar um avião até o Rio de Janeiro para dedicar-se a chazinhos e discursos.

Costumava dizer que as academias são espécies de sociedades recreativas e funerárias. Se o tivesse ‘incorporado”, a ABL viveria em constante sobressalto. Exemplo: interrogado por outro repórter sobre suas chances de tornar-se um acadêmico, respondeu:

– Isso depende apenas de Q.I.

Provocado, o repórter concedeu:

– Nesse caso o senhor estaria lá há muito tempo.

Ao que Quintana contrapôs, modesto:

– É, depende de... Quem Indicou...

RAINHA DAS PISCINAS

 

DEPOIS da Academia tê-lo recusado pela segunda vez, virou moda lançá-lo candidato a qualquer coisa, como uma espécie de pedido de desculpas indevido. E às vezes eram eleições igualmente já decididas contra ele, nas quais entrava apenas para dar destaque ao vencedor.

Numa dessas, uma certa ala conservadora indicou-o para o Prêmio Juca Pato, concorrendo contra o jurista Dalmo Dallari, que recém havia sofrido uma série de constrangimentos, de parte do regime militar, por sua atuação em defesa dos direitos humanos.

Perdeu de novo. Elegante, enviou longo telegrama a Dallari, cumprimentando-o. Mas é claro que ficou chateado. Ivo Stigger percebeu e aproveitou para sugerir-lhe que desautorizasse qualquer pessoa, movimento ou instituição a lançá-lo, sem prévia consulta, candidato a qualquer coisa. Em tom de brincadeira, arrematou:

– Senão, um dia desses um grêmio literário qualquer te lança candidato a Rainha das Piscinas...

Mario olhou sério para o jovem colega – que, por segundos, imaginou ter ido longe demais. Mas logo colocou a mão em seu ombro e disse:

– Nesse caso, provavelmente iria perder de novo.

MALVINAS

 

NA ÚLTIMA vez em que se candidatou à Academia, em 1982, perdendo para o jornalista Carlos Castello Branco, Mario viajou com Elena ao Rio de Janeiro para cumprir a formalidade das visitas aos acadêmicos.

Foram umas quinze visitas, quase todas em finais de tarde. E em quase todas as esposas dos acadêmicos serviam um cafezinho. Para driblar questionários constrangedores (como aquele em que o acadêmico José Guilherme Merquior sentou-o sob um refletor e pediu, para seu espanto: “Fale-nos sobre Proust”), Mario trazia um assunto engatilhado: a guerra das Malvinas, que estava em pleno andamento.

Nunca falou sobre a Academia, nunca pediu um único voto. No avião de volta a Porto Alegre, comentou para Elena:

– A guerra das Malvinas me salvou...

IDENTIDADE

 

EM 1986, ano dos seus oitenta, ele caminhava bastante, por recomendação médica. Andava pela André da Rocha, a rua do Hotel Porto Alegre Residence, onde vivia, e pelas imediações. Nessas caminhadas simpatizou com uma arvorezinha plantada na calçada. Frágil e sem proteção, logo seria quebrada. Achou que alguém precisava cuidar da árvore e tanto fez que Elena resolveu ligar para a Secretaria Municipal do Meio-Ambiente.

Informado sobre o autor do pedido, o secretário determinou que providenciassem uma grade e aproveitou para promover uma cerimônia de inauguração, tendo Quintana como padrinho da árvore. Durante a solenidade, um repórter de TV quis testar os conhecimentos de botânica do poeta:

– Qual é o nome dessa árvore?

– Eu não sei. Mas em compensação ela também não sabe o meu...

Dias depois Quintana deu um nome à afilhada: Gabriela.

DÍVIDA

 

COM O fechamento do velho Correião, em 1984, ele passou a publicar o “Caderno H” na Istoé. O correspondente da revista no Rio Grande do Sul, Carlos Urbim, dublê de jornalista e escritor de livros infantis, como O Guri Daltônico, foi um dia ouvir a opinião de Mario para uma reportagem.

Na hora combinada com Elena, administradora da agenda, Urbim chegou ao Porto Alegre Residence acompanhado da fotógrafa Eneida Serrano. Apresentou-se:

– Somos colegas da Istoé.

Ao saber disso, Quintana fechou-se:

– Da Istoé? Para a Istoé eu não falo! Estão me devendo e não me pagam.

GUERRA É GUERRA

 

A SEGUNDA Guerra é o assunto de todos. Henrique Bertaso e um conhecido cidadão, do qual o filho José Otávio Bertaso cavalheirescamente omite o nome, entram no elevador da Livraria do Globo, onde já se encontrava Quintana. Falam sobre determinada batalha na frente oriental vencida pelas tropas aliadas. O cidadão vira-se para Mario e em seguida se dirige a Bertaso, com um sorriso condescendente:

– Vamos mudar de assunto porque o nosso poeta não entende de guerras.

Pediu e levou:

– É. Posso não entender de guerras. Mas não sou burro como tu.

DESVANTAGEM

 

QUASE MEIA-NOITE de um dia de inverno, chuva fininha lá fora, e naquele tempo não havia essa preocupação com crachás, nem seguranças pedindo identidades de visitantes. Mario ainda está na redação quando irrompe um rapaz, de capa de náilon – daquelas que se dobravam até ficarem do tamanho de um envelope.

Pingando água, foi direto à mesa de Mario, deu boa-noite e abriu a capa, tirando um bolo de folhas de papel almaço já meio respingadas. Eram sonetos manuscritos. Esclareceu o motivo da visita àquela hora:

– Seu Mario, vim trocar algumas idéias com o senhor.

Impávido, o poeta reagiu:

– Não aceito! Certamente vou sair perdendo...

Mas deu sua gargalhada característica e ficou lá, conversando com o sonetista.

MENOS É MAIS

 

NOUTRO DIA, outro jovem poeta. Da Fronteira. Acampado no quarto de um conterrâneo na Casa do Estudante da UFRGS, aproveitava a Feira do Livro para visitar a capital, antecipando o gosto do vestibular que faria em seguida. Primeiro endereço na agenda: redação do Correio do Povo, pois não perdia um “Caderno H”.

Entre tímido e sorrateiro, segue Quintana da Praça da Alfândega ao prédio da Caldas Junior, chegando como uma sombra à mesa do poeta enquanto ele ainda se acomoda na cadeira. Traz um caderno em espiral de duzentas folhas recheado de versos manuscritos com Bic.

Escaldado, Mario nem toca no caderno. Mas olhando o volume, acha que deve dizer algo ao jovem admirador (mais tarde um conhecido jornalista):

– Meu conselho é que em vez de escrever duzentos poemas, escrevas dez.

NÁUFRAGOS

 

ERAM INCONTÁVEIS os que o procuravam dizendo-se poetas. Não gostava nada disso, mas embora tivesse a fama de seco e mal-humorado, não há registro de alguma estupidez para com eles. Disse uma vez, e isso colabora para que se entenda sua paciência: “Os poetas novos são natimortos; os editores só querem publicar medalhões, como eu”.

Tinham uma vantagem, no entanto:

– Os poetas de agora não são filiados a nenhuma escola, e isso vem da falta de cultura deles. A compensação está justamente aí: não se filiam a ninguém e metem as caras. Como não embarcam na mesma canoa, não correm o risco de naufragarem todos ao mesmo tempo...

TELEFONE

 

TARDE de verão, abafada, ventiladores da redação a mil. O humor dele não está lá essas coisas e eis que chega um daqueles. E acompanhado de uma pasta cheia de poesias. Mario atende, procura ser gentil, mas quem o conhece, como o colega Jayme Copstein, sabe que quer se livrar rápido do visitante. Recomenda que deixe a pasta, que vai dar uma olhada assim que tiver tempo.

– Era isso, né? Tá?

O outro ainda quer conversa, põe as mãos na mesa, fala, faz perguntas, enquanto Mario, impaciente, põe uma lauda na máquina, abre e fecha gavetas, mexe nos papéis. Nem olha mais para o sujeito, esperando que dê o fora.

Mesmo sem ouvir o que o outro dizia, Copstein prepara-se para a reação. E toda a redação do Correio ouve a familiar voz entredentes, mas alta:

– Eu não sei o número do meu telefone! Eu nunca telefonei pra mim!

MEMÓRIA

 

O LANÇAMENTO do disco Antologia Poética, em 1983, foi cercado de entrevistas e rememorações. Para um repórter de televisão, Quintana recitou, inteiro, aquele que considerava seu primeiro poema, feito em 1923, um soneto que começa assim:

“Que linda estavas, Maria, no dia da comunhão...”

O repórter mostrou espanto:

– Essa poesia tem sessenta anos! Como é que o senhor consegue se lembrar?

– É que minha memória também tem sessenta anos...

CHATEAÇÕEZINHAS

 

NA MAIOR parte das vezes que andou em hospitais, Mario dividia o quarto com alguém. Desta vez, ao lado dele estava outro velhinho, quer dizer, outro senhor entrado em anos. A enfermeira irrompia no quarto:

– Hora do seu remedinho...

Pouco depois:

– Hora de sua sopinha...

Mais tarde:

– Vamos arrumar essas cobertinhas...

Sempre os tais diminutivos que ele odiava. Virou-se para o companheiro:

– Daqui a pouco ela vai entrar aqui e dizer: “Olha como eles estão agonizantezinhos”...

RECITAL

 

A PRIMAVERA de 1975 começou quente, ensolarada e ventosa. Numa daquelas tardes, com o cabelo arrepiado e passo lento, Quintana atravessa a Praça da Alfândega, cheia de ipês em flor, quando subitamente pára diante dele um rapaz de roupas coloridas, calça boca-de-sino, bolsa a tiracolo, cabelo black power, diminutos óculos de sombra redondos. Tirado dos seus pensamentos, a primeira reação foi de espanto:

– Meu Deus, onde é que eu fui me meter?

O rapaz então explica o motivo do atraque: com um grupo de amigos, estava preparando um recital de poetas gaúchos e Quintana era um dos que teriam lidos os seus poemas. Queria uma sugestão de nome para o recital. Refeito do susto, Quintana sugere:

– Que tal... Inominável?

QUE BELEZA

 

O POETA está de ótimo astral no dia em que o produtor de discos Roberto Santana, responsável pela gravação da Antologia Poética, apresenta a ele sua bela namorada baiana:

– Ela faz poesia...

Quintana, simpático:

– Ah, que beleza. Acho que todo mundo devia fazer versos, né? Desde que não viesse me mostrar.

PREFÁCIO

 

EM SEU escritório na Editora Sulina, o editor Sérgio Lüdtke recebe um poeta bageense. Quer que a Sulina promova o lançamento e a distribuição de seu livro, já pronto, em edição pessoal. Um dos argumentos para convencer Sérgio a abraçar a causa é o prefácio, mencionado com enorme orgulho e estampado, como se diz, em chamada de capa: “Prefácio de Mario Quintana”. Sérgio foi conferir:

“A vida me ensinou que a gente só gosta de quem é parecido com a gente. Lendo os versos de Fulano de Tal, vejo que somos muito diferentes. Talvez esteja aí o seu grande valor. Mario Quintana”.

SEM FANATISMO

 

OS TRADICIONALISTAS, essa turma que acha que inventou o cavalo e o campo, nunca conseguiram cooptar Mario Quintana. Temendo suas tiradas mortais, sempre se mantiveram a uma distância respeitosa. Mas ele não tinha por que pagar imposto ao altar da tradição e escrevia coisas do tipo: “Lembro que certa vez me encontrei com seu Zé na rua. Como bons gaúchos, paramos, relinchamo-nos, abraçamo-nos...”

Mesmo assim, não faltavam incautos que vinham cobrar posições. Em um dia de boa paciência, Mario deu a um deles uma explicação sociológica:

– Eu não sou gaúcho fanático. Não sou porque meu pai nasceu no Mato Grosso, estudou no Rio de Janeiro, era farmacêutico e, para ele, o mate de boca em boca era uma coisa anti-higiênica.

SEM FANATISMO II

 

LEONEL Brizola era governador do Rio de Janeiro, em 1984, quando o poeta foi convidado para autografar seus livros em uma dessas feiras de divulgação do Rio Grande do Sul no centro do país. Na fila, enoooorme, a sobrinha Elena Quintana lembra que estavam até o líder comunista Luiz Carlos Prestes e o “tremendão” da Jovem Guarda Erasmo Carlos.

De repente, quebra o ritmo da fila um homem oferecendo a Mario uma cuia de chimarrão. Ele agradece mas recusa:

– Sou gaúcho mas não sou fanático.

O tipo insiste, diz alguma coisa, mostra uma máquina fotográfica. Suspirante, Mario olha para o primeiro da fila já com o livro à sua frente, solta a caneta na mesa, pega a cuia e avisa, com certo volume de voz:

– Mas só pra tirar a foto!

GAÚCHO SENTADO

 

COM A POPULARIZAÇÃO do tradicionalismo, muitos achavam que ele, nascido “no” Alegrete, terra de centauros, talvez devesse dedicar um lado de sua poesia a tal “vertente”.

A professora Lígia Chiappini de Moraes Leite, da Universidade de São Paulo, que em 1970 e 1971 entrevistou Athos Damasceno Ferreira, Augusto Meyer, Erico Verissimo, Raul Bopp, Theodomiro Tostes, Moysés Vellinho e, entre outros, Quintana, para sua pesquisa sobre regionalismo e modernidade, ouviu dele uma dessas definições definitivas, que brinca com o “gaúcho a pé” de Cyro Martins e parece ainda mais atual nos anos 2000:

– Sou um gaúcho sentado, o que me afasta da tradição.

MATE COM CACHAÇA

 

ERA SEM dúvida um iconoclasta aquele colega de pensão de Quintana que gostava de tomar mate com cachaça – dentro da cuia, claro. Hábito, aliás, que não prosperou pelo inusitado. Mas, enfim, há gosto para tudo. Mario nunca esqueceu da figura:

– A única função dele, na pensão, era acertar o relógio. E ele sempre acertava errado, porque ficava na porta da pensão o dia todo, tomando mate com cachaça e mexendo com as mulatas...

ROCIO

 

INÍCIO dos anos 50. Na casa do escultor Xico Stockinger, Mario Quintana, Nydia e Josué Guimarães, mais alguns intelectuais, recepcionam o poeta e diplomata Décio Escobar, gaúcho radicado em Minas Gerais, que passava por Porto Alegre. No meio da noite, Escobar, inspirado pela agradável conversa e pelo vinho, rabisca poemas. Lê um em voz alta. Em determinado momento, interrompe e se dirige a Quintana com uma dúvida:

– É rócio ou rocio?

E Quintana, alto nos dois sentidos:

– Tanto faz. Só um imbecil para usar uma palavra dessas num poema.

PORTA-GATOS

 

ERA AMIGO de visitar diariamente Nydia e Josué, principalmente quando passaram a morar no Edifício Serrano, na Rua da Praia, em frente ao Hotel Majestic. Ia lá para conversar mas também para ficar quieto. Sentava sempre na mesma poltrona da sala e às vezes até tirava um cochilo. Era o momento em que Chaimite, a gata do casal, aproveitava para se instalar no colo dele.

– Ela adorava o colo do Mario – conta Nydia. Mas não era correspondida. Ele a enxotava sempre, protestando: “Não sou porta-gatos!”

MACACO SÁBIO

 

NAQUELA ÉPOCA tinham a mania de botar apelidos nas pessoas. Na Editora Globo, não havia quem não tivesse o seu. O de Mario era “Macaco Sábio”. Por quê?

– Eu não gostava de dar entrevistas e gostava menos ainda das fotos publicadas. Dizia: não sou macaco sábio para estarem me exibindo...

TÍTULOS

 

ELE E JAYME Copstein examinavam a fantástica vitrina do brique Ao Belchior, na Rua da Praia, ao lado do Cine Cacique, uma das relíquias que Porto Alegre perdeu – e aliás já perdeu também o cinema, com suas pinturas de Glauco Rodrigues nas paredes. Quintana ainda saboreava o título de Cidadão Honorário, que recebera naquela semana de 1967. De repente, são chamados à realidade por um grito feminino:

– Mario!

Voltam-se na direção da voz e vêem uma mulher que se dirige a eles, acompanhada de um rapagão com corpo de atleta.

– Não te lembras mais de mim, Mario? – inquire a mulher. – Não te lembras? Fomos colegas de escola no Alegrete!

Procurando se lembrar, constrangido com a euforia da conterrânea:

– Ah, sim, é verdade, estou me lembrando...

– Pois eu quero te apresentar o meu filho, Fulano de Tal, estudante universitário!

E ele, com calculada timidez, estendendo a mão:

– Muito prazer! Mario Quintana, poeta municipário.

Depois que mãe e filhotão foram embora, Jayme perguntou se ele não teria sido indelicado.

– O rapaz tem um título e eu tinha que retribuír, ora bolas!

CHATO NA PRAÇA

 

QUINTANA caminha pela Praça da Alfândega. Sentado em um banco, um gaiato não perde a oportunidade e se intromete:

– Passeando, poeta?

A resposta vem em tom quase sarcástico:

– Ué, é proibido?

DESANONIMATO

 

COMO já se contou, depois de todas as festas dos setenta anos ele foi ficando menos escorregadio com as interferências externas, mesmo que às vezes demonstrasse um certo espanto, como quem é acordado repentinamente. Naquele dia tomava um cafezinho no balcão da lancheria Rib’s da Rua da Praia, quando o inevitável se repete. Alguém que se aproxima em altos brados, saudando o poeta com intimidade, querendo conversa. Ultrapassada a situação, os que estavam próximos puderam ouvi-lo comentar com os seus botões:

– Puxa! Tô manjado...

CARA DE CAVALO

 

UM JORNALISTA do Correio do Povo tinha – e odiava – o apelido de Cara de Cavalo. E quanto mais ele se irritava, mais implicavam. Quintana nunca usou tal apelido, e o colega o admirava também por esse motivo.

Mas naquela noite, altas horas, coincidiu de o outro encontrá-lo mal das pernas em um bar. Recolheu-o, levou-o para o quarto do Hotel Majestic, fez café preto sem açúcar. Deixou-o pronto para dormir. Dever cumprido, está saindo quando Quintana abre os olhos, pisca, levanta a cabeça e, voltando a descansá-la no travesseiro, diz para o samaritano:

– Sabe que tu tens a cara parecida com a de um cavalo?

ÂNGULOS

 

GOSTAVA muito de cinema e fazia troça dos críticos dos jornais do centro do país e também de alguns jovens cinéfilos que seu amigo e editor P.F GastaI abrigava nas páginas do Correio do Povo e, principalmente, da Folha da Tarde. Era a “Geração Cahiers du Cinéma”. Adoravam interpretações e análises complicadas, muitas vezes confusas, embora “geniais”, examinando ângulos daqui e ângulos dali.

– São uns angulistas – definia Mario.

INTERIOR

 

EM 1976, ao lado de Marco Aurélio, Uberti, Wilmarx, Reinaldo, Renato Pereira, Schröeder, Levitan e outros, ele estava em Caxias do Sul para o lançamento da antologia de humor 14 Bis, o segundo registro do boom de humoristas gaúchos dos anos 70 – o primeiro foi o livro QI 14, do ano anterior, também lançado pela Editora Garatuja. Mario participava do 14 Bis como convidado especialíssimo, fechando o livro.

Estão lá frases como “O que tem de bom numa galinha assada é que ela não cacareja”, ou “O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”, ou ainda a definição de autodidata: “Ignorante por conta própria”.

Naquele dia, um repórter de rádio veio entrevistá-lo e, depois de várias perguntas, ainda quis saber:

– O senhor conhece algum poeta do interior?

Respondeu com uma frase feita:

– Conheço os poetas do meu interior... Tá?

Sempre que queria terminar uma entrevista ou encerrar uma conversa, Mario começava a dizer ‘“tá?”.

FAROESTE

 

COQUETEL de lançamento do livro A Vaca e o Hipogrifo em Porto Alegre, 1977. Depois de esgotada a fila dos autógrafos, Quintana foi cercado por um grupo de conversadores. Papo vai, papo vem, o assunto cai no cinema. Ele só ouvia, até que um jornalista impertinente enfiou-se:

– Me disseram que tu gostas muito de filmes de faroeste, mocinho e bandido, essas coisas. É verdade?

A resposta veio séria, mas acompanhada do sorriso sarcástico de canto de boca:

– Não, não gosto de faroeste. Quero saber o nome da pessoa que inventou essa bobagem. Vou processá-la.

DR. QUINTANA

 

MARIO adorava contar histórias em forma de anedotas. O escritor Sergio Faraco registrou várias, contadas durante os passeios de automóvel sem rumo pelos bairros de Porto Alegre.

Uma delas tinha como personagem seu avô materno, o Dr. Quintana, mais tarde nome de rua em Alegrete. Médico e político, muito mulherengo, na época desta história o Dr. Quintana era prefeito da cidade. Estava em um palanque discursando, fazia calor e ele suava bastante. Enfiou a mão no bolso para tirar o lenço, e o que veio foi uma calcinha feminina.

Houve risos e constrangimentos entre os ouvintes, mas o Dr. Quintana, olhando a calcinha, logo se recompôs:

– Essas minhas filhas me fazem cada uma...

SIÁ BALBINA

 

OUTRA que ele contava tinha como personagem Siá Balbina, uma senhora negra que trabalhava para os Quintana em Alegrete. Figura da família, o tipo bonachão que a gente conhece, típico no interior de anos atrás.

Mario passava uma temporada em casa e um dia chegou para visitá-lo o poeta Ovídio Chaves, homem gentil e educado. Quando Ovídio foi embora, Siá Balbina comentou com Mario:

– Gostei muito do seu amigo, gostei mesmo. É uma pessoa muito distinta. Pena que tem nome de orelha.

CUJAS CANÇÕES

 

NO INÍCIO dos anos 40, já um jovem poeta respeitado em Porto Alegre, Quintana teve uma foto publicada na lidíssima coluna “Do Bric-a-Brac da Vida”, do Correio do Povo. A legenda, em duas linhas, identificava: “O poeta Mario Quintana, cujas canções...”, e seguia por aí. A edição fez sucesso em Alegrete. Siá Balbina não leu a continuação da legenda. Leu só a primeira linha e se deu por satisfeita com o que considerou um alto elogio.

Depois disso, na primeira vez que Quintana foi visitar a família, toda vez que passava por ele Siá Balbina o cutucava e dizia, orgulhosa:

– Aí, hein, cujas canções, hein?