Ora Bolas: O Humor de Mario Quintana
Ah?
DECLAMADORA
ENTRE os, digamos, perseguidores de Mario Quintana, havia uma senhora que não dava trégua. Era muito nhém-nhém-nhém, muito tia velha. E ele fugia, espavorido. Pediu aos porteiros da Caldas Júnior para alertá-lo sempre que ela chegasse.
Sabendo disso, Ivo Stigger, seu jovem colega de redação, mete o bedelho, debochado:
– Estás sendo injusto. Essa senhora te considera o maior dos poetas. Gosta tanto de ti que de vez em quando faz um recital com teus poemas.
E ele:
– Esse é o problema. Um dia ela conseguiu me arrastar para um recital no Theatro São Pedro e fiquei constrangido. Declamava os meus poemas de forma tão melosa, que as pessoas devem ter achado que eu sou fresco...
SORTE
ERA UM JOGADOR inveterado. Jogo do bicho, loto, sena, loteria – certamente seria “cliente” dos futuros bingos. Tinha até assinatura de bilhetes em uma tabacaria e agência lotérica da Rua Marechal Floriano. Acabou fazendo amizade com a balconista da tabacaria, Mara.
Algum tempo depois do atropelamento, precisou de alguém para cuidar dele o dia todo. Lembrou de Mara. Elena Quintana foi sondá-la, pois afinal seria um trabalho completamente diferente. Mas Mara topou na hora, e permaneceu ao lado do poeta durante mais de dez anos.
Ele costumava apresentá-la aos outros com a seguinte informação:
– Essa foi a única coisa que eu ganhei na loteria...
NO ESCURO
NOS ÚLTIMOS tempos gostava de ficar deitado no escuro, quieto, e queria que sempre alguém ficasse com ele. Um dia Elena protestou:
– Mas tio, o que que eu vou ficar fazendo aqui, nesta escuridão?
– Senta aí e simplesmente me adora...
ELE/ELA
EM 1980 viajou a São Paulo para ser entrevistado no programa “Canal Livre”, da TV Bandeirantes. Perguntas impertinentes, provocativas, pessoais, engraçadinhas. Aquela baboseira do bom velhinho, que ele detestava, tentando explorar suas tiradas surpreendentes. Entre as entrevistadoras, uma pessoa que Mario contou só ter identificado como rapaz pela voz. Ao final da chateação, pediram que se despedisse.
E ele, para vingar-se, ora bolas:
– Olha, a mais bonita de vocês aqui é ele!
PALAVRÃO
EM OUTRA visita a São Paulo é levado a conhecer uma livraria muito especial, repleta de obras raras e dirigida por uma senhora culta e elegante. Vaidosa e envaidecida, ela recebe o poeta gaúcho entre elogios e rapapés. Faz sua propaganda:
– Meu caro poeta, temos aqui incunábulos legítimos, a sua disposição.
Quintana:
– Meu Deus, uma senhora tão distinta fazendo essa proposta tão estranha...
(Para quem não sabe, “incunábulos” são as obras impressas nos primeiros tempos, logo após a invenção da imprensa.)
FLEUR
QUEM LEMBRA de A Saga dos Forsyte, de John Galsworthy? Mario e Liberato Vieira da Cunha resolveram repartir a leitura da série. Saía mais em conta: Mario comprava um volume, Liberato, o outro. Geralmente compravam na Livraria do Globo que, lembra Liberato, quando Porto Alegre tinha um centro digno do nome, lá por 1970, permanecia aberta até pelo menos as nove da noite.
Nessa leitura em sociedade havia o ganho extra de eles comentarem as passagens, tentando antecipar o que poderia acontecer no restante da imensa trama. Lá pelas tantas apareceu uma personagem de nome Fleur. Quintana alertou Liberato:
– Com esse nome, ela ainda vai aprontar...
Quem conhece A Saga dos Forsyte sabe que não deu outra.
PLAYBOY
O POETA e sua secretária, Mara, caminham pela Avenida Salgado Filho. Ele pára em uma banca de revistas e compra a Playboy, com uma moça de seios de fora na capa. Sobre a moça, fala-se em Sônia Braga ou Luiza Brunet. Certamente não era Bruna Lombardi. Mario pede a Mara que leve a revista. Ela não gosta, mostra cara de desagrado.
– O que vão dizer as pessoas?
– Ora, vão dizer que és uma moça muito sabida.
MEIAS DE LÃ
DONA MAFALDA Verissimo, viúva de Erico, mãe de Luis Fernando, era uma grande tricotadora. Mario freqüentava a casa deles, como um dia disse Erico, “sempre que queria”. Uma especialidade de Dona Mafalda: meias de lã. Fazia muitas e volta e meia dava de presente a Mario. Estava certa: homem solteiro, morando em hotel, sempre é vítima de uma das piores coisas do inverno gaúcho, que são os pés gelados. Quem consegue pegar no sono com os pés gelados? Maternal, ela enchia Mario de meias, de todas as cores. Até o dia em que ficou sabendo de um comentário dele, feito para mais de uma pessoa:
– Essa Mafalda tem cada uma... Deve estar pensando que eu sou uma centopéia...
CRAVOS & FERRADURAS
UMA DAS facetas pouco públicas de Quintana era a de emérito galanteador. Fazia respeitosos galanteios a mulheres de amigos, com especial predileção, nestes casos, pelo trocadilho. A jornalista Alba Faedrich (aquela a quem costumava chamar de Albaurora), colega de redação, certa vez pediu-lhe que traduzisse alguns versos em francês e antecipou o agradecimento pela ajuda deixando um cravo vermelho sobre o teclado da máquina de escrever de Quintana.
Cheio de culpa por não ter feito a tradução, no dia seguinte ele deixou um bilhete sobre a máquina dela, em versos:
O cravo que tu me deste
num momento de loucura
é para usar na lapela
ou usar na ferradura?
De repente começou a chamar Cleusa, mulher do amigo poeta Armindo Trevisan, de “Cleúza”. Era Cleúza pra cá, Cleúza pra lá.
– Tu sabes que eu não sou Cleúza – ela acabou por reagir um dia.
Ao que Mario olhou divertido para Armindo:
– Se é Cleúza é tua musa, se é Cleuza é tua deusa...
O PROBLEMA
DEPOIS de construir a fama de recluso e avesso a exposições, por volta dos 70 ele se deixou descobrir explicitamente. Virou atração turística, como avalia o jornalista Ivo Stigger. “Sou a falta de assunto predileta das professoras de Português da Grande Porto Alegre”, divertia-se. Quando não podia fugir, desaparecendo nos corredores do prédio da Caldas Júnior ou enfiando-se num cinema, aceitava o sacrifício estoicamente.
Naquela tarde, um bando de normalistas do Instituto de Educação (ainda usavam o uniforme tradicional, saia plissada azul-marinho, blusa listrada em vermelho e branco, gravatinha) invadiu a redação e foi direto à mesa do poeta, tema involuntário de um trabalho em grupo.
Apegando-se ao fato de que ele sempre vivera sozinho, uma magrelinha loira faz a primeira pergunta:
– O senhor poderia falar sobre o problema da solidão?
Ele, dirigindo-se ao grupo:
– O maior problema da solidão, minhas filhas, é preservá-la.
COMO É MESMO?
EM 1992 Caetano Veloso veio a Porto Alegre com o show Circuladô e a fotógrafa Dulce Helfer resolveu convidá-lo para visitar o poeta. Caetano vibrou com a idéia e depois do show, à uma da manhã, chegaram ao quarto de Mario no Hotel Porto Alegre Residence. Caetano entrou daquele jeito baiano, falando baixinho, todo respeitoso. Uma das “anjas da guarda” de Quintana, Dulce avisou:
– Olha, fala mais alto porque ele se recusa a usar aparelho de surdez e não admite que é surdo.
Ele ficou uma fera:
– Não dá bola pra ela! Não é verdade, eu ouço bem, ela pensa que é minha mãe!
Caetano começou a contar que conhecia Mario desde sua juventude em Santo Amaro da Purificação, lendo as traduções de Em Busca do Tempo Perdido feitas por ele, e tal. E a toda hora Mario botava a mão no ouvido e se virava para Dulce, pedindo ajuda:
– Hein? O que é que ele está dizendo?
INTIMIDADES
RECITAL de poemas de Mario Quintana no belo Salão Mourisco da Biblioteca Pública do Estado, durante as comemorações pela passagem dos seus setenta 70 anos. Ele escolheu os poemas que seriam apresentados. O poeta Armindo Trevisan, velho amigo, e a professora Tânia Carvalhal, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foram convidados para comentar a leitura e a obra.
Finda a cerimônia, paparicações daqui e dali, uma senhora faz efusivas festas para Quintana. Ninguém a conhece. O poeta César Pereira (ainda injustamente pouco conhecido) quer saber quem é.
– Uma íntima desconhecida – esclarece Mario.
ICONOCLASTIA
ESTRELADO por Jeanne Moreau, o filme Les Amants, de Louis Malle, é o assunto de todas as rodas. E, Jeanne, a musa densa, sensual, enigmática e madura da nouvelle vague. Mas não faz a cabeça do homem de Alegrete.
– Para mim, ela parece estar sempre com dor de barriga. A vontade que eu tinha era de dizer, se ela me aparecesse: siga pelo corredor e dobre à esquerda, na primeira porta...
NEGRAS
SIMPLÍCIO Jacques Dornelles, um velho amigo, costumava alertá-lo:
– Olha, Mario, não mexe com as negras porque elas estão sempre com a boca cheia de mães...
Naquele dia em que ia saindo da Livraria do Globo com sua secretária, Mario esqueceu o conselho. Diante de uma moça negra que passava, vestindo uma blusa xadrez cheia de babadinhos e franjas, deixou escapar:
– Olha, ela resolveu vestir uma toalha de mesa.
A moça ouviu e:
– Aí ela botou a mão na cintura e começou com a ignorância, terminando com a mãe no meio. Resolvi sair de fininho.
REENCARNAÇÃO
COM A GUARDA aberta depois dos 70, passou a ouvir as perguntas mais estapafúrdias. Na maior parte das vezes recusava-se a respondê-las. Mas, se vinham de senhoritas, quase sempre considerava. Foi o caso de uma jovem jornalista, provavelmente adepta de Alan Kardec, que quis saber:
– O senhor acredita em reencarnação?
– Não sei, porque não acho graça nenhuma. A gente nunca sabe que reencarnou. É o mesmo que não saber que se está morto.
CHATOS METAF1SICOS
A CONVERSA continua e a moça, apoiada nos tantos poemas de Quintana sobre a morte, insiste em interrogá-lo sobre essas questões de céu, infinito, eternidade.
Ele aproveita:
– Acho que o céu deve ser muito chato, porque lá tem chatos de todos os séculos. Talvez seja melhor aqui, pois aqui a gente só agüenta os chatos da geração da gente.
PEITOS
A SEGUNDA versão do filme King Kong, com Jessica Lange, formava filas e filas no Cine Cacique, em 1976. Quintana relutava em ver, pois gostara muito da versão original com Fay Wray, um clássico dos anos 30, e temia decepcionar-se. O crítico Ivo Stigger, a quem chamava de “Alemãozinho do Cinema”, tanto insistiu que ele foi ver.
Voltou com os olhos brilhando:
– Fiquei tão erotizado!
– Já sei, poeta, te apaixonaste pela Jessica Lange.
– Que loirinha, que nada! Sensual é o gorilão. Ou não notaste que ele tem os peitos da Rachel Welch?!...
PERGUNTADEIRAS
ELE TINHA que o maior chato é o “chato perguntativo”. E apesar de toda a admiração que nutria pelas mulheres, às vezes nem elas escapavam dessa classificação. Carlos Nejar lembra do dia em que ambos foram a Bento Gonçalves para autografar seus livros e conversar com estudantes. No pergunta daqui, pergunta dali, uma universitária, bonita e espevitada, não resistiu e quis saber:
– Mario, por que não te casaste?
Deu uma de suas respostas feitas:
– Porque as mulheres são muito perguntadeiras.
BUROCRACIA
VIVIAM perguntando por que não havia se casado. Tanto, que tinha várias respostas prontas, como aquela de que nunca casou porque não gostava de pijamas.
Mas certa vez deu uma resposta original para uma simpática jornalista que havia conquistado sua confiança. Uma resposta e uma informação:
– Uma coisa que colaborou para que eu não casasse foi o secretário de Educação de 1940, 41. Eu tinha uma namorada que era funcionária pública e o secretário mudou-a de turno. Daí que me desencontrei dela, ora bolas...
BORBOLETAS E IDÉIAS
SÍLVIA e Dudu Guimaraens, netos do poeta simbolista Eduardo Guimaraens e filhos do jornalista Carlos Raphael Guimaraens, colega de Quintana no Correio do Povo durante anos, em uma tarde de 1968 vêm ver o pai na redação.
Mario resolve brincar com as crianças e diz para Sílvia, com seu tope de fita no cabelo:
– Meninas têm borboletas na cabeça...
Esperta, ela devolve:
– E o senhor, o que é que tem?
– Idéias – ele responde.
MALANDRAGEM
UM GRUPO de estudantes de Comunicação da PUC conseguiu convencer o poeta a dar uma entrevista para o jornalzinho da faculdade. A primeira moça, para queimar etapas, foi logo querendo que falasse, quem sabe, talvez, a respeito de um tema sobre o qual havia grande curiosidade: seus amores.
Acompanhando a pergunta com a mão sobre a orelha, certamente a pressentindo, examinou a perguntadora e provocou a gargalhada dos demais, fechando a questão:
– Minha vida pessoal é uma coisa que não interessa nem a mim.
Animado pela descontração, um rapaz pediu que ele falasse sobre os seus primeiros tempos. Quintana ergueu-se da cadeira e contrapôs, alto:
– O quê? Do início da minha vida?
E, voltando a sentar, com calma cheia de reticências, olhando para um grupo de outras mocinhas:
– Não havia tanta malandragem...
BRUNA
UM GRANDE assunto que chega à roda, num intervalo da gravação da Antologia Poética: Bruna Lombardi. Os olhos verdes, o rosto, a delicadeza, o tudo. Quintana define, sonhador:
– Ela é bonita por demais, aquilo é até covardia. E é portátil!
Logo a conversa passa a ser sobre Gilda Marinho, a jornalista que rompeu preconceitos e marcou época na vida social de Porto Alegre. Foram muito amigos. Mario diz que foi mesmo uma grande mulher, conta histórias. Até perguntarem se é verdade que tinham sido namorados.
– Não, não, porque ela não era portátil...
BRUNA
A SECRETARIA de Educação e Cultura promovia viagens culturais pelo interior gaúcho e numa delas Bruna Lombardi, lançando um livro de poemas, convidou Quintana para acompanhá-la. E todo mundo vinha falar com ele, paparicavam, seu Mario pra cá, seu Mario pra lá, uma maravilha. Bruna ao lado. Tempos depois:
– Agora há pouco eu fui a Bagé e o pessoal não me dava bola. Escrevi para a Bruna: “Olha, que desilusão. Fiz um baita sucesso da outra vez, mas é porque eu estava contigo...”
BRUNA
MARIO sempre na dele, distraído, sai do elevador todo alegre e cumprimenta efusivamente o porteiro do hotel. Não acostumado com tantas gentilezas, o rapaz pensa um pouco e comenta com um colega:
– A Bruna Lombardi deve estar na cidade...
Foi uma paixão dele. Mas havia maledicentes para os quais a atriz alimentava essa aproximação, o “namoro” platônico, também para abrir espaços à poesia dela. Nas vezes que Elena comentava isso com ele, dizia que a sobrinha tinha ciúmes.
Um dia, uma emissora de TV de São Paulo convidou Mario e Bruna para seu programa semanal de entrevistas. Quando no jornal chegou a informação de que a atriz recebera cachê para participar, e Mario não, um colega ficou indignado e disse que era uma injustiça, um desrespeito. Mas ele entendeu:
– Ora, as pernas dela são muito mais bonitas que as minhas...
BRUNA
O JORNALISTA Maurício Mello Jr., na época crítico literário do Correio Braziliense e bom conhecedor da literatura do Rio Grande do Sul (com a motivação extra de ser casado com uma gaúcha), esteve em Porto Alegre por volta de 1985 para entrevistar Quintana. Depois de muita conversa séria, deixou para o fim uma questão que sabia ser do interesse dos leitores.
– Fale a respeito de sua amizade com Bruna Lombardi.
Mario pensou um pouco, bem pouco, e expôs o seu lado:
– Pois é... Não sei o que ela quer comigo. Mas eu estou cheio de más intenções...
SOPHIA
MAIS UMA da época da gravação do disco Antologia Poética. Assumindo a condição de piadista, já que tinha uma platéia disposta, Quintana deu a deixa:
– Outro dia desabou a minha cama no hotel...
– Mas como é que foi desabar a sua cama?
– Ora, eu sonhei com a Sophia Loren...
BICHO-PAPÃO
ALÉM de conterrâneo alegretense, o grande escritor Sergio Faraco tinha “a honra e o privilégio” de ser considerado por Mario um de seus “chatos prediletos”. Idas e vindas marcavam a camaradagem, “longos intervalos, seguidos de temporadas em que nos víamos com freqüência de noivos”, conta Faraco.
Uma das luas-de-mel se deu no verão de 1988, quando em todas as sextas-feiras Faraco pegava o amigo para um passeio de auto pela cidade, volta e meia incluindo um restaurante que servia ótimos pasteizinhos de camarão, saboreados por Mario junto com sua indefectível taça de café preto.
Em um dia ensolarado foram apreciar a placidez do Guaíba na ilha do clube Jangadeiros. Conversavam voltados para o horizonte quando uma senhora chegou com delicadeza e, curvando-se, surpreendentemente, beijou a mão do poeta, que reagiu:
– Não faça isso, eu não sou o papa!
E, de imediato:
– Sou o papão!
PEIXINHOS E PEIXÕES
NO MESMO dia do passeio no Jangadeiros, Mario foi assediado pelas crianças desde que chegou. A todo momento lá vinham elas, e ele estava em seu melhor humor. Até recitou para a gurizada poetas de sua infância, como Olegário Mariano, Júlio Dantas e Alberto de Oliveira.
Lá pelas cinco da tarde, lagarteando e filosofando no gramado próximo à piscina, eles vêem se aproximar uma garota loura de corpo escultural, bronzeada, “daquelas que são o orgulho da espécie”, na classificação de Faraco.
Em meio ao seu olhar em travelling, Mario deixou escapar:
– Finalmente...
– Finalmente o quê? – estranhou Faraco
– É que até agora, na minha rede, tinha dado só peixinho...
CARMEM DA SILVA
FAMOSA nos anos 60, titular de uma coluna e autora dos textos mais lidos de Cláudia, a revista da editora Abril que disse à mulher média brasileira haver algo mais do que fotonovelas, a jornalista Carmem da Silva chega a Porto Alegre. Prato cheio para a página feminina do Correio do Povo. Maria Abreu é escalada para entrevistá-la e Mario está atento ao frisson na redação. Maria retorna do vetusto Salão Nobre, reservado para visitas muito especiais, e ele quer saber:
– E aí, que tal é a Carmem da Silva?
– É uma mulher inteligente, gostei da conversa com ela.
Ele ouviu e pensou um pouco, antes de desembarcar de seu lado machista:
– Olha, Maria, eu sou capaz de admirar uma mulher que se emancipa. Mas a que faz questão de emancipar a outra é uma cretina.
SHAKESPEARE
A COLETÂNEA era um corredor ocupado por livros, revistas e jornais, em um ponto nobre da Rua da Praia, diante da Praça da Alfândega e ao lado do Largo dos Medeiros. Lugar de encontro de intelectuais e leitores que marcou época na Porto Alegre dos anos 60, tinha em Quintana um visitador diário.
Arnaldo Campos, o dono, um dos livreiros mais respeitados da cidade, colecionador de edições históricas, estava por perto no dia em que uma jovem senhora ficou radiante ao reconhecer Quintana como o ilustre folheador ao seu lado. Observou-o algum tempo, aproximou-se. Aparentemente sem saber de que forma fazer a melhor abordagem, identificou-se como professora e foi fundo:
– Poeta, o que devo ler para entender Shakespeare?
Com o dedo indicador preso no meio do livro que estava examinando, Quintana orientou, imperturbável e honestamente:
– Shakespeare, minha filha!
ETC
COMO já vimos, garotas de colégio eram uma constante na redação do Correio. Numa semana especialmente cheia (os professores deviam estar inspirados), depois da quarta ou quinta entrevista, Mario comentou com Maria Abreu:
– Já estou cansado de dizer onde é que eu nasci, e as meninas ainda não aprenderam que foi em Alegrete. Desse jeito, quando escreverem sobre os poetas do Rio Grande do Sul, vão mencionar uma porção deles e eu ficarei no etc.
OS OUTROS
EM 1981 Mario deu uma longa entrevista à jornalista e escritora Edla van Steen, publicada no livro de depoimentos Viver & Escrever, da L&PM. Em uma das respostas usou praticamente o mesmo mote da historinha anterior, embora com significado oposto.
– Antes, nas histórias da literatura, vinha assim: no Rio Grande do Sul, Erico Verissimo, Augusto Meyer, Alcides Maya, Eduardo Guimaraens e outros. Nesse “outros” eu me sentia orgulhosa e anonimamente incluído. Agora passei para os citados. Você não imagina a inveja que eu tenho de mim mesmo quando eu era os “outros”.
QUESTÃO RELEVANTE
MOROU LÁ durante 12 anos, e o Hotel Majestic iria fechar as portas. Além de todo o folclore, da tradição, o mais ilustre cliente, etcétera e tal, nem por isso se vá pensar que era homem de apegar-se doentiamente ao passado ou de lutar contra o irremediável. Mas o fechamento do hotel, e seu ‘desamparo”, eram um prato.
No dia em que desocupou o quarto, a imprensa estava toda lá. Bem orientada para dramatizar a situação, a jovem repórter da TV Gaúcha, hoje RBS TV, cumpriu a pauta.
– E agora, o que o senhor vai fazer?!
E ele, com aquela típica cara de espanto e olhar vago:
– Realmente, minha filha, trata-se de um grave problema nacional.
(Projetado em 1928 pelo arquiteto alemão Theo Wiederspahn, o prédio do antigo Hotel Majestic é um dos monumentos arquitetônicos de Porto Alegre. Já estava em decadência quando o poeta foi seu hóspede, de 1968 até fechar as portas, em 1980. Tombado como patrimônio histórico, em 1983 passou a denominar-se Casa de Cultura Mario Quintana. Mas o centro cultural só seria inaugurado em 1990, depois de profunda reforma.)
GAGÁ
FESTAS pelos setenta anos. A TV Globo mandou do Rio de Janeiro uma repórter para entrevistá-lo. Ingênua e desinformada, tratou-o como um velho gagá, cheia de diminutivos e perguntas bobas. Mario ficou uma fera. Mais tarde, conversando com a amiga Madalena Wagner, desabafou:
– Veio aqui hoje uma moça me entrevistar. Não entendeu que estou meio surdo mas que minha cabeça está ótima. E ela, em plena posse de suas faculdades mentais, nem desconfia que já nasceu morta...
BOATO
SAGUÃO do Hotel Presidente, na Avenida Salgado Filho, um dos tantos endereços do poeta. O dono do hotel encontra Mario com as mãos no bolso do paletó, parado daquele seu jeito, olhando sem olhar, à espera de nada. E resolve interferir com uma brincadeira.
– Seu Mario, me disseram que o senhor vive dando em cima das moças que se hospedam no hotel...
Foi o que bastou para animar-se o velho sorriso ao mesmo tempo malicioso e ingênuo, quase adolescente:
– Olha, Pedrinho, não é verdade. Mas pode espalhar.
QUEM É?
SE NELSON Rodrigues tinha as estagiárias da PUC, Mario tinha as jovens repórteres de TV.
Em 1978, o Planetário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul resolveu misturar poesia e astronomia. Os poemas de Quintana integravam o projeto e ele foi convidado para dar uma entrevista coletiva a respeito lá mesmo, no belo prédio futurista do planetário. Depois de toda a badalação dos 70 anos, já estava mais ou menos amaciado para essas coisas de entrevistas.
Falou com repórteres de jornais e agora, pacientemente, esperava que a equipe da TV Gaúcha se organizasse para gravar com ele. Teste daqui, luz dali, liga, desliga, microfone, contraplano, ok?, e ele olhando, quieto.
Lançada no Brasil pela TV Globo, estava na moda aquela história de o repórter encostar o microfone na boca do entrevistado e perguntar: “Quem é o Fulano de Tal?”. E o Fulano respondia: “Sou um ator, um homem do povo, que compra em supermercado, entra em ônibus, acredita no mundo novo, patati, patatá”. Deu pra lembrar? A repórter da TV Gaúcha precisava estar na onda e foi de primeira:
– Quem é Mario Quintana?
Surpreso, quase incrédulo diante da pergunta, ele só achou uma saída:
– Sou eu, minha filha.
FÃZINHA
UMA PROFESSORA primária ligou para Quintana. Tinha uma aluninha que queria muito conhecê-lo. Será que poderia levá-la para vê-lo na redação do Correio? Claro que sim. Apareceram as duas.
– Esse é o Mario Quintana – apresentou a professora.
Feitos os cumprimentos, a menina ficou quieta, olhando para o poeta, que soltava baforadas do cigarro para o alto, fazia algum comentário bobo, às vezes parecendo que saía do ar. E foram embora.
Algumas horas depois, liga a professora, com uma história que Mario gostava de contar, às gargalhadas:
– Quer saber o que a menina disse a seu respeito? “Ele é bonito, mas parece meio pateta.”
BURRICE
ENCARREGADA de pegar Quintana no Hotel Majestic, Ângela Moreira chegou antes das oito da manhã. Dali iriam para o estúdio da ISAEC, na Rua Senhor dos Passos, onde estava sendo gravada a Antologia Poética. No carro, depois de um longo silêncio e um bocejo, o poeta pede desculpas:
– Eu sempre acordo meio burro...
Ângela rebate, elétrica:
– Eu não! Eu já me acordo a mil.
E ele, com sedutora condescendência:
– Ah!... O problema é que pessoas assim ficam burras o dia inteiro.
CARTOMANTE
NA JUVENTUDE, em Alegrete, foi consultar uma cartomante. Ela pediu-lhe que olhasse fixamente para o centro da bola de cristal e se concentrasse. Bons segundos depois, perguntou o que ele estava vendo.
– A ponta do meu nariz.
Mais tarde, bem mais tarde, Mario contou para Dulce Helfer que, naquela consulta, a cartomante dissera que aos 60 anos ele ficaria famoso. E exatamente no ano dos 60, em 1966, foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras e o cronista Paulo Mendes Campos publicou na revista O Cruzeiro a primeira grande reportagem sobre ele, tornando-o nacionalmente conhecido. Mistérios...
ORGULHO E VAIDADE
ÀS VEZES era impiedoso até com os amigos, como em 1966 pôde comprovar Maria Abreu, jornalista, pianista e crítica de música que durante anos concentrou sua inteligência no Correio do Povo e depois escreveria para o caderno “Cultura”, de Zero Hora.
Naquele dia ela não estava muito inspirada ao fazer a primeira pergunta da entrevista que o jornal publicaria para marcar os sessenta anos de Quintana. Começou:
– Falam tanto na sua modéstia, no seu horror a ser entrevistado que, por isso, nem sei o que lhe perguntar. Não quero afligi-lo.
E ele:
– O que me deixa aflito são as perguntas ociosas ou tolas.
Mas consertando:
– Eu a conheço bem para saber que não pode ser esse o seu caso, Maria. Aliás, essa história da minha modéstia é uma lenda, o que acontece é que sou muito orgulhoso para ter vaidades...
LINHA IMAGINÁRIA
NA MESMA entrevista a Maria Abreu disse não apenas não saber apontar seus melhores poemas, como ter “até um fraco por certos versos pobres de pé quebrado, incuráveis”.
– E como se sente na passagem dos sessenta anos? – ela perguntou.
– Não sinto nada. A linha dos sessenta, como a dos cinqüenta ou dos quarenta anos, é uma linha imaginária, como a do Equador: o navio não dá o mínimo solavanco quando a gente a atravessa.