Ora Bolas: O Humor de Mario Quintana
Jekyll, Hyde e Wong ⠀䔀渀猀愀椀漀 戀椀漀ⴀ戀椀戀氀椀漀最爀昀椀挀漀)
ENSAIO BIO-BIBLIOGRÁFICO
JEKYLL, HYDE E WONG
Ernani Ssó[2]
O ESTRANHO CASO DE MISTER WONG
Além do controlado Dr. Jekyll e do desrecalcado Mister Hyde, há também um chinês dentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll, muito compenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na platéia...
Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong!
MARIO QUINTANA, EM Sapato Florido.
MARIO QUINTANA nasceu em Alegrete, RS, “filho do Freud com a rainha Vitória”, segundo ele mesmo disse, com a proverbial síntese e graça. O fato, acontecido num “solar de leões”, com sótão, porão, corredores e escadarias, mais assustador do que o mundo, foi comemorado pelos irmãos com a compra de duas rapaduras de quatro vinténs. Começava a noite de 30 de julho de 1906. Fazia um grau abaixo de zero.
Não foi menino de brincar na rua. Tímido, mimado, doente, cresceu “por trás de uma vidraça – um menino de aquário”. Aprendeu a ler com a ajuda dos pais. Aos sete, sabia um pouco de francês, porque era a língua que a família usava para não se expor aos empregados. Aos nove, foi para a escola. Aos treze, entrou para o internato do Colégio Militar, em Porto Alegre. Não foi um aluno muito aplicado. Tinha interesse apenas por Português, Francês e História. Assinava as provas de Matemática sem ler. Daí que acabou voltando para casa, em 1924, para trabalhar na farmácia com o pai, que o queria doutor, não simplesmente poeta. Pena que o pai morreu em 1927, um ano depois da mulher, sem ter idéia de que o filho não foi simplesmente poeta, mas poeta adjetivado: grande, delicioso. Mais: dos poucos que, além de admiração, causam amor.
Mesmo depois de 1929, quando foi para Porto Alegre fazer o que sabia e gostava, escrever, andou meio perdido. Como naquele tempo “se nascia maragato”, entrou para o jornal de Raul Pilla, O Estado do Rio Grande. Na revolução de 30, teve “um ataque de patriotismo” e se alistou como voluntário. Ficou seis meses no Rio, vigiando o Mangue, zona de prostituição. Tinha ido para ser herói. Voltou, continuando em O Estado do Rio Grande até 1932, quando o jornal foi fechado por Flores da Cunha porque tinha apoiado o levante paulista contra Getúlio Vargas. Na rua, Quintana pegou sua primeira tradução na Editora Globo, Palavras e sangue, de Papini, que saiu em 1934. Começava assim, segundo muita gente exigente, como Ivan Lessa, a carreira do maior tradutor brasileiro, que lembrava apenas do elogio que recebeu pela tradução que fez de Voltaire: Paulo Rónai a leu e disse que era preciso apenas acertar a ortografia.
Voltou para o Rio em 1935, onde “se encostou” na Gazeta de Notícias. Tornou-se amigo de Cecília Meireles, por quem, como Egydio Squeff, era apaixonado. Amor ingênuo, romântico, disse. Parece que a própria Cecília nunca ficou sabendo. Um dia, convidados pela musa para um chá, foram de bar em bar para se encorajar. Quando enfim chegaram à valentia, estavam bêbados demais para aparecer na casa da poeta, que era uma dama.
Quando a Gazeta fechou, Mansueto Bernardi ofereceu um emprego de pesador de ouro na Casa da Moeda para Quintana. Disse que se assustou: muito distraído, podia pesar mais ou menos, ou botar um lingote no bolso pensando que era o maço de cigarros. Desconversa. Na farmácia do pai, Quintana lidava com remédios que precisavam estar nas doses certas, coisa mais perigosa que uns gramas de ouro. Em outra ocasião, ele disse que seu cuidado com as palavras, sua mania pela precisão, talvez tivesse nascido aí, no laboratório. Por que seria diferente com o ouro? Há quem garanta que Quintana não ficou no Rio porque se sentia perdido entre tantos grupinhos intelectuais. Em Porto Alegre todo mundo se conhecia e ele conhecia todo mundo. Será? No Rio, Quintana conhecia gente suficiente. Enfim, o certo é que, no desespero, pediu socorro a Erico Verissimo, na Editora Globo. Erico mandou um bilhete: “Podes vir, mermão”.
De 1936 a 1955, traduziu para a Globo ninguém sabe quantos títulos. Nem ele mesmo. Com seu nome, há registro de quarenta livros. Assinou muitos com pseudônimos, criados na hora, que ninguém lembra. Suas línguas eram o francês e o espanhol. Mas, por vergonha de traduzir Lin Yutang de uma tradução castelhana, aprendeu inglês na marra. Encarou grandes autores, como Maupassant, Voltaire, Proust, Balzac, André Gide, George Simenon, Virginia Woolf, Graham Greene, Conrad, Somerset Maugham, Charles Morgan e Huxley. Levava uns seis meses pra traduzir um Proust, segundo disse em entrevistas. Um romance policial? Uma semana – mais tempo às vezes do que o próprio autor levou para escrever. O segredo do profissional: seguir o estilo do autor, não o do tradutor. Tudo parece simples quando Quintana mete a mão.
Em 1940, publicou pela Globo seu primeiro livro: A rua dos cata-ventos. Tinha 34 anos. Por que a demora? “Como eu disse, eu ia deixando, adiando… Erico Verissimo, então secretário da Editora Globo, pôs-me contra a parede. Meu irmão Milton disse-me que eu ia ficar como aquele personagem do Eça, muito gabado, muito louvado… e nada! Reynaldo Moura, poeta e amigo, pôs-me em brios: se você não publicar nada vão achar que você é um boêmio. Se publicar, dirão: é um escritor! Meio extravagante…
Apesar de vender muito pouco, novos livros aparecem: pela Globo, Canções (1946), Sapato florido (1948), O batalhão das letras (1948), Espelho mágico (1951); pela Fronteira, O aprendiz de feiticeiro (1950), livro predileto de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Também o predileto do crítico Paulo Hecker Filho, que, não só pagou a conta, como cuidou da edição.
Em junho de 1945, o grupo da Livraria do Globo lançou a revista trimestral Província de São Pedro, que saiu até 1967. Era bastante conhecida pelo mundo intelectual brasileiro. No primeiro número aparece o “Caderno H”, onde Quintana passou a publicar poemas em prosa, pequenas histórias e reflexões, como sempre com muito humor. Chamava-se assim porque era escrito na última hora, na hora H. As colaborações duraram sete números. O “Caderno H” voltaria a sair somente em 1953, mas daí durou até 1983, no Correio do Povo, no “Caderno de Sábado”. Depois, em 1984, saiu por um período na revista Istoé.
De toda a produção para essa coluna, Quintana selecionou material para vários livros. Numa entrevista de 1981, para o Correio do Povo, comentou: “Às vezes tenho a surpresa de achar um poema muito bom. Mas em outros momentos sacudo a cabeça e fico me indagando como é que fui escrever uma bobagem daquelas. Às vezes, corrijo, emendo, e alguns ficam irreconhecíveis. Mas outros são natimortos irrecuperáveis”.
Pé de pilão, seu livro infantil mais popular, foi escrito em 1948 e publicado pela Revista do Globo. Saiu em livro apenas em 1975, numa parceria da Editora Garatuja e do Instituto Estadual do Livro, com ilustrações de Edgar Koetz e prefácio de Erico Verissimo. A tarde de autógrafos virou noite: na Livraria do Globo, dia 13 de junho, Quintana autografou cerca de oitocentos exemplares, de modo ininterrupto, das 16 às 21 horas. Dizem que a fila saía da livraria, dobrava à direita na Avenida Borges de Medeiros e acabava na livraria de novo, pela porta dos fundos.
A crítica manteve silêncio ou o subestimou. Foi preciso que Fausto Cunha, em 1964, no livro A luta literária, no texto “Assassinemos o poeta”, derrubasse o papo de que Quintana era passadista, leve, menor: “Uma poesia difícil, porque intensamente alusiva e de um ‘humor’ sutil, irredutível. Uma clareza ilusória, porque de um instrumento multívoco”. Quintana, até então sempre citado entre os “outros” que terminavam a lista dos nomes da literatura gaúcha, passou a ser nomeado por extenso. Logo começaria a encabeçar a lista, onde ainda permanece, com todo o direito, diga-se. Quintana nunca fez nada pela fama, ao contrário. Sua poesia se virou sozinha. Como disse Monteiro Lobato, em carta ao poeta: “Que coisa bonita o verdadeiro talento! Como vence, como se impõe – como se alastra por mais escondido que comece…”.
Em 1953, entrou para o Correio do Povo, ficando até o jornal fechar, em 1984 – é, ele só saía dos jornais quando eles fechavam. A Jorge Luis Borges associamos de imediato a imagem de uma biblioteca; a Vinicius de Moraes, a de um bar; a Quintana, a de uma redação – e, claro, a das ruas de Porto Alegre, a das andanças sem rumo, na caça de esquinas e entardeceres. Dizem que morou em infinitas pensões e hotéis, mas passou mais tempo no Correio, sozinho, muitas vezes sem que se soubesse exatamente o que andava fazendo. Como se viu neste livro, defendia sua privacidade com uma língua mais rápida que Billy the Kid – e não menos mortal.
Apenas em 1966 foi lançado nacionalmente. A Antologia poética (Editora do Autor) levou o Prêmio Fernando Chinaglia de melhor livro do ano e desatou novo surto de edições, como Caderno H (Globo, 1973), Apontamentos de História Sobrenatural (Globo, 1976, premiado com o Pen Club de Poesia Brasileira no ano seguinte), A vaca e o hipogrifo (Garatuja, 1977), Na volta da esquina (Globo, 1979). Depois vêm Esconderijos do tempo (L&PM, 1980), Lili Inventa o Mundo (Mercado Aberto, 1983), O sapo amarelo (Mercado Aberto, 1984), Baú de espantos (Globo, 1986), A cor do invisível (Globo, 1989), Velório sem defunto (Mercado Aberto, 1990) e Sapato Furado (FTD, 1994). A Academia Brasileira de Letras despertou por um momento, entre um chá e uma bajulaçãozinha aos poderosos, fazendo-lhe uma homenagem. Mais tarde, em 81, lhe deu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Quanto ao fardão, lhe negou três vezes.
Sempre arredio, Quintana garantia que era preferível ser alvo de um atentado do que de uma homenagem: era mais rápido e sem discurso. Com o tempo, se acostumou, até gostou, mas com a ironia costumeira disse que eram tantas que nem lhe sobrava tempo para morrer. É preciso notar que muitas dessas homenagens foram uma tentativa de institucionalizá-lo. Sob o rótulo de anjo, queriam-no doce e apenas doce. Mas Quintana uma vez disse que nele havia um anjo e um demônio e que, ao contrário do que se podia pensar, não brigavam entre si, conviviam. Na verdade havia ainda um terceiro elemento, o misterioso Mister Wong, aquele que num concerto – enquanto o doutor Jekyll ouvia compenetrado a música e Mister Hyde arriscava “um olho e a alma” nos seios das mulheres – descansadamente contava os carecas da platéia.
Mario Quintana morreu em 5 de maio de 1994. Seu enterro teve o aparato oficial esperável, com as lágrimas e as declarações de sempre. Mas teve festa também. Quintana manteve a compostura até o fim.
[1] JUAREZ FONSECA (Canguçu, RS, 1946) é jornalista e crítico de música com passagem pelos jornais Folha da Tarde e Zero Hora, de Porto Alegre. Desde 1996 mantém colunas de música no jornal ABC Domingo, de Novo Hamburgo, na revista Aplauso, de Porto Alegre, e na revista Sucesso, de São Paulo. É também conselheiro do Santander Cultural. Produziu shows e discos, publicou a biografia do trovador Gildo de Freitas (Tchê/RBS), participou dos livros Sombras e luzes – Um olhar sobre o século (Samrig/L&PM), Gaúchos – Líderes e vencedores do Século XX (Assembléia Legislativa/Federasul) e das antologias Nós, os gaúchos e Sobre Porto Alegre (ambas da Editora da Universidade).
[2] Ernani Ssó é escritor e tradutor
Este livro foi publicado em 1996 pela editora Artes e Ofícios.
Ilustrações: Santiago
Foto da capa e da página 75: Dulce Helfer
Layout da capa: Ivan Pinheiro M achado
Revisão: Jó Saldanha
CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
F744o
Fonseca, Juarez, 1946-
Ora bolas : o humor de M ario Quintana: 130 historinhas / compiladas e adaptadas por Juarez Fonseca. – rev. e aum.. – Porto Alegre, RS: L&PM , 2011. (Coleção L&PM POCKET ; v. 538)
“Incluindo texto biográfico por Ernani Ssó” – Anexo
ISBN 978-85-254-2286-6
1. Quintana, M ario, 1906-1994 - Humor, sátira, etc. I. Título. II. Série.
CDD 869.97
CDU 821.134.3(81)-7
© Juarez Fonseca, 2006
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