Os Demônios de Loudun
Capítulo I
Foi em 1605 que Joseph Hall, o satirista e futuro bispo, fez sua primeira visita a Flandres. “Ao longo de
nossa jornada, quantas igrejas vimos demolidas; nada restou senão escombros, revelando ao viajante que
ali coabitaram devoção e hostilidade. Oh, os lamentáveis vestígios da guerra! [...] No entanto (o que me
surpreendeu), igrejas desmoronam e colégios de jesuítas erguem-se por toda parte. Não há uma cidade
onde tais colégios não estejam surgindo. Qual a origem disso? Será porque a devoção não é tão
indispensável quanto a política? Esses homens (tal qual dizemos da raposa) melhor se saem quando mais
odiados. Ninguém tão desprezado entre os seus, tão detestado por todos, tão combatido pelos nossos; e
contudo essas ervas daninhas multiplicam-se.”
Expandiam-se por uma razão muito simples: o povo precisava deles. Para os próprios jesuítas,
“política”, como Hall e toda a sua geração sabiam muito bem, tinha importância fundamental. As escolas
eram criadas com o objetivo de fortalecer a Igreja Romana contra seus inimigos: os livres-pensadores e
os protestantes. A esperança dos piedosos padres era criar, através de seus ensinamentos, uma classe de
leigos inteiramente devotada aos interesses da Igreja. Nas palavras de Cerutti — palavras que levaram
Michelet ao auge da indignação —, “assim como enfaixamos os membros de um infante no berço, a fim
de que adquiram as devidas proporções, do mesmo modo faz-se necessário, desde a mais tenra
juventude, enfaixar, por assim dizer, sua vontade, para que conserve através de sua existência uma
oportuna e salutar submissão”. O espírito da dominação era forte o bastante, mas o cerne do método
evangelizador era fraco. Apesar das restrições à sua liberdade, alguns dos melhores alunos dos jesuítas
deixaram a escola para se tornar livres-pensadores ou mesmo, como Jean Labadie, protestantes. Até onde
dizia respeito à “política”, o sistema jamais resultou tão eficiente quanto esperavam seus criadores. Mas
o povo não estava interessado em política; o que o povo queria eram boas escolas onde seus filhos
pudessem aprender tudo que um cavalheiro precisava saber. Melhor que a maioria dos educadores, os
jesuítas atendiam às necessidades. “O que observei durante os sete anos que passei sob o teto dos
jesuítas? Uma vida plena de temperança, diligência e método. Eles devotavam todas as horas do dia à
nossa educação ou ao estrito cumprimento de seus votos. Como prova disso, invoco o testemunho dos
milhares que, como eu, foram por eles educados.” Assim escreveu Voltaire. Suas palavras comprovam a
superioridade dos métodos de educação dos jesuítas. Ao mesmo tempo, e com maior ênfase, toda a sua
existência testemunha o fracasso dessa “política”, à qual os métodos de ensino se propunham servir.
Quando Voltaire iniciou seus estudos, os colégios dos jesuítas apresentavam as características
comuns ao sistema educacional vigente. No século anterior sua orientação afigurara-se completamente
revolucionária. Numa época em que a maior parte dos mestres era de diletantes em tudo, menos no
manejo da vara, seus métodos disciplinares eram relativamente humanitários e seus professores,
cuidadosamente selecionados e sistematicamente treinados. Ensinavam um latim particularmente elegante e o que havia de mais avançado em matéria de óptica, geografia e matemática, bem como “arte
dramática” (suas representações teatrais ao fim do período letivo eram famosas), civilidade, respeito à
Igreja e (na França ao menos, após a conversão de Henrique iv) obediência à autoridade do rei. Por tais
motivos, os colégios dos jesuítas mereciam a confiança de todos os representantes da classe alta — da
mãe extremosa que não podia suportar a ideia de seu queridinho sendo submetido aos tormentos de uma
educação antiquada; do tio clérigo erudito voltado para a doutrina ortodoxa e o estilo eloquente; e
finalmente do pai que, como servidor patriota favorável aos princípios monarquistas e como um prudente
burguês, contava com a influência indireta da Companhia, ajudando seu aluno a conseguir um emprego,
uma situação na Corte, um benefício eclesiástico. Consideremos aqui, como exemplo, um casal
importante: sr. Corneille de Rouen, Avocat du Roy à la Table de Marbre du Palais, e sua esposa, Marthe
le Pesant. O filho Pierre é um rapaz tão promissor que decidem enviá-lo para os jesuítas. Temos o sr.
Joachim Descartes, Conselheiro do Parlamento de Rennes. Em 1604 leva seu filho mais novo, um garoto
inteligente de oito anos chamado René, para o colégio dos jesuítas de La Flèche, fundado recentemente e
subsidiado pela Coroa. Temos também, mais ou menos na mesma época, o sábio cônego Grandier, de
Saintes. Ele tem um sobrinho, filho de outro jurista não tão rico e aristocrático quanto o sr. Descartes ou
o sr. Corneille, contudo bastante respeitável. O jovem, de nome Urbain, tem agora catorze anos e possui
incrível talento. Faz jus a que lhe seja proporcionada a melhor educação possível, educação esta que, nas
adjacências de Saintes, é adquirida no colégio jesuíta de Bordeaux.
Esse célebre local de erudição constava de uma escola secundária para rapazes, uma academia de
estudos liberais, um seminário e uma escola de estudos avançados para pós-graduados que tivessem
recebido as ordens eclesiásticas. Aí o precocemente talentoso Urbain Grandier passou mais de dez anos;
a princípio como colegial, mais tarde como universitário, estudante de teologia e, após sua ordenação em
1615, noviço jesuíta. Não que fosse sua intenção ingressar na Companhia, uma vez que não sentia
vocação para se sujeitar a tão rígida disciplina. Não, sua carreira não se faria em uma ordem religiosa,
mas como padre secular. Nesse ofício, um homem com sua capacidade inata, estimulado e protegido pela
mais poderosa organização dentro da Igreja, poderia esperar muito da vida. Viria a ser, quem sabe,
capelão de um poderoso fidalgo, tutor de algum futuro marechal da França, um cardeal em potencial.
Talvez recebesse convites para exibir sua notável eloquência diante de bispos ou princesas de alta
estirpe, ou mesmo diante da própria rainha. Poderia conseguir missões diplomáticas, nomeações para
altos cargos administrativos, esplêndidas sinecuras, vantajosos acúmulos de cargos. Talvez — embora
isso fosse pouco provável, considerando-se o fato de não ser nobre de nascimento— pudesse conseguir
um magnífico bispado para iluminar e animar sua velhice.
No início de sua carreira, as circunstâncias pareciam permitir as mais otimistas expectativas. Aos
vinte e sete anos, após dois anos de estudos adicionais de teologia e filosofia, o jovem padre Grandier
recebeu sua recompensa pelos longos semestres de aplicação e boa conduta. Através da Companhia de
Jesus, sob cuja proteção se encontrava, foi apresentado para relevante benefício eclesiástico na igreja
Saint-Pierre-du-Marché, em Loudun. Simultaneamente e graças aos mesmos benfeitores, foi nomeado
cônego da igreja colegiada de Sainte-Croix. Já se encontrava com o pé na escada; tudo que tinha a fazer
agora era galgá-la.
Loudun, enquanto seu novo pároco cavalgava lentamente para seu destino, surgia como uma pequena cidade sobre uma colina dominada por duas altas torres: o campanário da igreja de Saint-Pierre e a torre
medieval do grande castelo. Como um símbolo, um hieróglifo que pretendia retratar a sociedade local, o
horizonte de Loudun estava um tanto desatualizado. Embora o campanário ainda projetasse seu contorno
gótico sobre a cidade, grande parte dos habitantes eram huguenotes que odiavam a Igreja a que ele
pertencia. Quanto à imensa torre construída pelos condes de Poitiers, era ainda uma praça de guerra
sólida, mas Richelieu logo tomaria o poder, e os dias de autonomia regional e fortalezas provinciais
estavam contados. Inocente, o pároco cavalgava em direção ao último ato de uma guerra sectária, para o
prólogo de uma revolução nacionalista.
Às portas da cidade, um ou dois cadáveres putrefatos pendiam do patíbulo municipal. No interior
das muralhas, as costumeiras ruas imundas com a gama rotineira de odores: da fumaça do bosque ao
excremento, dos gansos ao incenso, do pão no forno aos cavalos, suínos e homens da plebe.
Os pobres — camponeses, artesãos, operários e criados — compunham a maioria menosprezada e
anônima dos quatorze mil habitantes da cidade. Um pouco acima desses, os donos de lojas, os mestres-
artesãos, os pequenos funcionários apinhavam-se em condições precárias no degrau social mais baixo da
burguesia. Num nível superior — totalmente dependentes de seus inferiores, mas gozando de
indiscutíveis privilégios e governando-os por direito divino — ficavam os comerciantes ricos, os
profissionais gabaritados e as castas, em seu sistema hierárquico: a pequena nobreza, os grandes
proprietários rurais, os senhores feudais e os nobres prelados. Dispersos pela cidade, podia-se encontrar
alguns pequenos redutos de cultura e inteligência. Fora desses oásis, a atmosfera era sufocantemente
provinciana. Entre os ricos observava-se uma preocupação excessiva e crônica com dinheiro e
propriedade, direitos e privilégios. Para os dois ou três mil, no máximo, com recursos para abrir
processos ou requerer assistência jurídica, havia em Loudun nada menos que vinte advogados, dezoito
solicitadores, dezoito meirinhos e oito notários.
O tempo e a energia que sobravam da preocupação com os bens eram dedicados às pequenas
trivialidades diárias, às sucessivas alegrias e tormentos da vida familiar, aos disse me disse acerca da
vizinhança, às cerimônias religiosas e, uma vez que Loudun era uma cidade dividida, aos inesgotáveis
excessos oratórios provocados pela controvérsia religiosa. Durante a gestão do pároco, não há registro
da existência de um sentimento religioso autêntico em Loudun. A preocupação comunitária com a vida
espiritual manifesta-se apenas em meio a criaturas excepcionais, que sabem por experiência própria que
Deus é espírito e em espírito deve ser adorado. Junto com um bom estoque de canalhas, Loudun possuía
sua cota de honestos e bem-intencionados, piedosos e mesmo beatos. Entretanto, não havia santos,
nenhum homem e nenhuma mulher cuja simples presença fosse a prova viva de um mais profundo
vislumbre da verdade eterna, de uma consonância íntima com o Princípio divino de todos os seres. Não
foi senão sessenta anos mais tarde que uma pessoa assim apareceu na cidade. Quando, após as mais
mortificantes experiências físicas e espirituais, Louise du Tronchay veio finalmente trabalhar no hospital
de Loudun, tornou-se imediatamente o centro de uma vida espiritual intensa e ardente. Pessoas de todas
as idades e classes sociais afluíam em multidão para que lhes falasse sobre Deus, para implorar por
conselho e ajuda. “Eles nos amam muito aqui”, escrevia Louise a seu velho confessor em Paris. “Eu me
sinto envergonhada com isso, pois quando falo de Deus as pessoas ficam tão comovidas que começam a
chorar. Receio estar contribuindo para a boa opinião que eles têm de mim.” Ansiava por fugir e se esconder, mas era cativa da devoção de uma cidade. Quando rezava, os doentes frequentemente ficavam
curados. Atribuíam a Louise essas curas, para sua vergonha e mortificação. “Se eu alguma vez fizesse um
milagre”, escreveu, “me consideraria amaldiçoada.” Depois de alguns anos, recebeu ordens de seus
superiores para deixar Loudun. Para o povo, não havia mais nenhum postigo aberto através do qual a Luz
pudesse brilhar. Em pouco tempo o fervor arrefeceu e dissipou-se o interesse na vida espiritual. Loudun
voltou à sua situação normal — a mesma de quando, duas gerações antes, Urbain Grandier chegou à
cidade.
Desde o princípio a opinião pública a respeito do novo pároco estava nitidamente dividida. A
maioria do sexo frágil, o mais devoto, aprovou-o. O último cura havia sido um decrépito joão-ninguém.
Seu sucessor era um homem no vigor da mocidade, alto, forte, com um ar de sóbria autoridade e até
mesmo (segundo um contemporâneo) majestático. Seus olhos eram grandes e negros, e sob seu barrete de
clérigo os cabelos abundantes eram pretos e ondulados; a fronte alta; nariz aquilino; lábios rubros, cheios
e expressivos. Uma elegante barba à Van Dyck adornava-lhe o queixo, e sobre o lábio superior o pároco
usava um bigode fino, aparado com esmero e engomado, de modo a que as pontas enroscadas se
confrontassem, de cada lado do nariz, como um par de galantes pontos de interrogação. Para olhos pós-
faustianos, seu retrato sugere Mefistófeles em trajes clericais, mais robusto, amistoso e um tanto menos
inteligente.
A essa aparência sedutora Grandier acrescentava as virtudes sociais da boa educação e palestra
agradável. Sabia fazer um elogio com espírito, e o olhar que acompanhava as palavras, se acontecia de a
dama ser atraente, era mais lisonjeiro que as próprias palavras. Era bastante óbvio que o novo padre
manifestava um interesse mais do que simplesmente pastoral por suas paroquianas.
Grandier viveu no alvorecer cinzento do período que poderia ser denominado Idade da Decência.
Durante toda a Idade Média e no início da Moderna, o abismo entre a doutrina católica oficial e a sua
execução prática pelos sacerdotes tinha sido enorme e, a julgar pelas aparências, intransponível. É difícil
encontrar algum escritor da Idade Média ou da Renascença que não tenha como certo que, do mais
poderoso prelado ao mais humilde frade, a maioria dos membros que compõem o clero é profundamente
libertina. A corrupção eclesiástica provocou a Reforma, que por sua vez gerou a Contrarreforma. Após o
Concílio de Trento, os papas de comportamento indecoroso tornaram-se cada vez menos comuns, até que
finalmente, pelos meados do século xvii, essa geração desapareceu. Até mesmo alguns bispos cuja única
qualificação para o cargo honorífico era o fato de serem os filhos mais jovens de nobres, passaram a
fazer certo esforço para se conduzirem melhor.
Entre o baixo clero, os abusos eram controlados por uma administração eclesiástica mais vigilante e
eficiente, de cima, e, de dentro, pelo zelo que se irradiava de organizações tais como a Companhia de
Jesus e a Congregação do Oratório. Na França, onde a monarquia estava se servindo da Igreja como um
instrumento para aumentar o poder central às custas dos protestantes, da alta nobreza e da tradição de
autonomia provincial, a respeitabilidade clerical era assunto de interesse real. As massas não renderão
culto a uma Igreja cujos ministros são culpados de conduta escandalosa. Entretanto, num país onde não só
l’État, mas também l’Église c’est Moi, desrespeito pela Igreja significa desrespeito pelo rei. “Recordo”,
escreve Bayle em uma das intermináveis notas de rodapé de seu volumoso Dictionary, “recordo que um
dia perguntei a um cavalheiro que me relatava inúmeras irregularidades do clero veneziano como veio a acontecer que o senado tolerasse tal situação, tão degradante para o bom nome da religião e do Estado.
Ele replicou que o bem-estar público forçava o soberano a proceder com essa indulgência; e, para
explicar esse enigma, ele acrescentou que o senado estava bastante satisfeito pelo fato de os padres e
monges tomarem-se profundamente desprezados pelo povo, uma vez que, assim, teriam menos
possibilidades de provocar uma insurreição popular. Uma das razões, afirma ele, por que os jesuítas são
desagradáveis ao príncipe, é por preservarem a decência de seu caráter; e por conseguinte, sendo os mais
respeitados pela plebe, são os mais aptos a incitar um levante.” Na França, durante todo o século xvii, a
política do Estado em relação às irregularidades clericais foi o exato contrário daquela adotada pelo
senado veneziano. Por temer a infiltração eclesiástica, ao último agradava ver seus clérigos conduzindo-
se como porcos, e ele tinha antipatia pelos respeitáveis jesuítas. Politicamente poderosa e
pronunciadamente nacionalista, a monarquia francesa não tinha motivo para temer o papa, e considerava
a Igreja um instrumento de repressão muito útil. Por essa, razão apoiava os jesuítas e desaprovava a
incontinência ou pelo menos a indiscrição clerical.[1] O novo pároco havia ingressado em sua carreira
numa época na qual os escândalos clericais, embora ainda frequentes, tornavam-se cada vez mais
desagradáveis àqueles que estavam no poder.
Em sua narrativa autobiográfica sobre uma infância e juventude no século xvii, Jean-Jacques
Bouchard, um contemporâneo mais jovem de Grandier, deixou-nos um documento tão cientificamente
objetivo, tão inteiramente isento de qualquer expressão de remorso, de qualquer espécie de julgamento
moral, que os estudiosos do século xix só puderam publicá-lo em tiragem privada e com comentários
enfáticos sobre a execrável depravação do autor. Para uma geração educada por Havelock Ellis e Krafft-
Ebing, por Hirschfeld e Kinsey, o livro de Bouchard não mais parece afrontoso. Mas, embora tenha
deixado de escandalizar, ele ainda surpreende. Porque quão espantoso não é encontrar um súdito de Luís
xiii escrevendo sobre as formas menos recomendáveis de atividade sexual, no estilo direto e prosaico de
uma estudante universitária moderna respondendo a um questionário de um antropólogo, ou um psiquiatra
anotando um relato clínico! Descartes era dez anos mais velho, mas muito antes de o filósofo haver
começado a dissecar aqueles títeres que se contorcem, aos quais o vulgo atribui os nomes de cachorro e
gato, Bouchard estava realizando uma série de experiências psíquico-químico-fisiológicas na criada de
quarto de sua mãe. A moça, quando primeiro reparou nela, era piedosa e quase hostil em sua castidade.
Com a perseverança e a perspicácia de um Pavlov, Bouchard recondicionou de tal forma esse produto da
fé irrestrita, que ela tornou-se finalmente uma devota da Filosofia Natural, tão pronta a ser observada e
submetida a experiências quanto a empreender pesquisas por iniciativa própria. Sobre a mesa ao lado da
cama de Jean-Jacques ficava empilhada meia dúzia de volumes in-fólio de anatomia e medicina. Entre
dois encontros, ou mesmo entre duas carícias experimentais, esse singular precursor de Ploss e Bartels
abriria seu De Generatione, seu Fernelius ou seu Ferandus, e consultaria o capítulo, parágrafo e tópico
pertinente. Mas, ao contrário da maioria de seus contemporâneos, não aceitaria nada como verdade
absoluta. Lemnius e Rodericus a Castro podiam dizer o que quisessem acerca das estranhas e alarmantes
propriedades do sangue menstrual; Jean-Jacques estava resolvido a ver por si mesmo se causava tudo
aquilo que diziam causar. Ajudado pela agora pressurosa camareira, realizou uma série de testes apenas
para descobrir que, desde tempos imemoriais, os doutores, os filósofos e os teólogos vinham dizendo
despropósitos. O sangue menstrual não destruía a grama, não embaciava os espelhos, não secava as sementes das vinhas, não dissolvia o asfalto e não produzia manchas indeléveis de ferrugem na lâmina de
uma faca. A biologia perdeu um de seus pesquisadores mais promissores quando, a fim de livrar-se de
casar com sua colaboradora e corpus vile, Bouchard deixou Paris subitamente para tentar a sorte na corte
papal. Tudo que desejava era um bispado in partibus,[2]ou mesmo, em caso de dificuldades, um
modesto benefício de seis ou sete mil libras por ano, na Bretanha — apenas isso. (Seis mil e quinhentas
libras era o rendimento atribuído a Descartes devido ao sensato investimento de seu patrimônio. Não era
principesco, mas ao menos permitia ao filósofo viver como um cavalheiro.) O pobre Bouchard jamais foi
beneficiado. Conhecido por seus contemporâneos apenas como o ridículo autor de uma Panglossia, ou
coleção de poesias em quarenta e seis línguas, incluindo o copta, o peruano e o japonês, morreu antes dos
quarenta.
O novo pároco de Loudun era bastante normal e tinha apetite demais para pensar em transformar sua
cama num laboratório. Contudo, como Bouchard, era o produto de uma respeitável família burguesa;
como Bouchard, tinha sido educado num internato pertencente à Igreja; como Bouchard, era inteligente,
erudito e ardoroso humanista; e, como Bouchard, ele pretendia uma brilhante carreira na Igreja. Social e
culturalmente, se não por temperamento, os dois homens tinham muito em comum. Por conseguinte, o que
Bouchard tem a dizer de sua infância, seus dias de escola, suas diversões durantes as férias em casa pode
ser considerado como indiretamente revelador em relação a Grandier.
O mundo revelado pelas Confessions é muito semelhante àquele que nos é relatado pelos sexólogos
modernos. Mas, se há alguma diferença, é um pouco para mais então. Observamos a criançada
entregando-se a jogos sexuais — entregando-se a eles livre e frequentemente; porquanto, o que é curioso,
parece haver pouca interferência adulta em suas atividades. Na escola, sob os cuidados dos probos
padres, não há brincadeiras fatigantes, e os rapazes só conseguem dar vazão à energia excessiva através
da masturbação constante e da prática, durante os meio-feriados, da homossexualidade. Palestras
calorosas e eloquência sacra, confissão e prática piedosas são, de certo modo, influências
constrangedoras. Bouchard relata que, durante as quatro grandes festas da Igreja, ele se abstinha de suas
habituais práticas sexuais por um período de oito a dez dias seguidos. Entretanto, por mais que tentasse,
nunca conseguiu prolongar esses intervalos de castidade por toda uma quinzena, quoy que la dévotion le
gourmandast assez —[3] apesar de na realidade não ser nem um pouco reprimido pela devoção. Em
quaisquer circunstâncias, nosso procedimento real é representado pela diagonal de um paralelograma de
forças, que tem a sensualidade ou o interesse como sua base e, a prumo, nossos ideais morais ou
religiosos. No caso de Bouchard e, podemos supor, no dos outros rapazes que ele menciona como seus
companheiros no prazer, a vertical devocional era tão curta, que o ângulo entre a extensa base e a
diagonal do comportamento manifesto era de pouquíssimos graus.
Quando estava em casa de férias, os pais de Bouchard puseram-no para dormir no mesmo quarto
com uma camareira adolescente. Essa menina era extremamente virtuosa enquanto estava acordada, mas é
óbvio que não podia ser responsável pelo que acontecia enquanto dormia. E, segundo seu sistema pessoal
de casuística, não fazia diferença se estava realmente dormindo ou apenas fingindo. Mais tarde, quando
Jean-Jacques já não frequentava mais a escola, havia uma jovem camponesa que vigiava as vacas no
pomar. Por meia coroa estava disposta a prestar quaisquer favores que seu jovem senhor reclamasse.
Ainda outra criada, que fora embora porque o meio-irmão de Bouchard, o prior de Cassan, tentara seduzi-la, voltou então a trabalhar para a família, e em pouco tempo tornou-se cobaia e colaboradora de
Jean-Jacques nas experiências sexuais descritas na segunda metade das Confessions.
Entre Bouchard e o herdeiro do trono da França havia uma imensa distância. E, contudo, a atmosfera
moral na qual o futuro Luís xiii foi criado é semelhante em muitos aspectos àquela respirada por seu mais
modesto contemporâneo. No Diário do dr. Jean Héroard, médico do pequeno príncipe, encontramos um
registro longo e detalhado de uma infância do século xvii. Na verdade, o delfim era uma criança bastante
incomum — o primeiro filho nascido de um rei de França em mais de oitenta anos. Contudo, o próprio
valor inestimável desse filho único acentua ainda mais, a nosso ver, certas características extremamente
insólitas de sua educação. Se essa espécie de educação era bastante adequada a uma criança para a qual,
por definição, nada era suficientemente bom, então o que, podemos nos perguntar, era bastante adequado
para as crianças comuns? Para começar, o delfim foi criado com um grande número de filhos ilegítimos
de seu pai com três ou quatro mães diferentes. Alguns desses irmãos e irmãs duvidosos eram mais
velhos, outros mais novos que ele. Por volta dos três anos — e talvez mais cedo — sabia com bastante
clareza o que eram bastardos e como eram produzidos. A linguagem na qual esses esclarecimentos lhe
eram transmitidos era tão coerentemente grosseira que a criança muitas vezes se chocava. “Fi donc!”,
diria de sua governanta, mme. de Montglat, “como ela é nojenta!”
Henrique iv era um grande apreciador de canções obscenas, e seus cortesãos e servos conheciam um
grande número delas, as quais estavam sempre cantando enquanto circulavam pelo palácio em suas
atividades. E quando não estavam entoando suas obscenidades, os criados do príncipe, homens e
mulheres, gostavam de dizer gracejos imorais para a criança acerca dos bastardos de seu pai e de sua
própria futura esposa (porque ele já era praticamente noivo), a infanta Ana da Áustria. Além disso, a
educação sexual do delfim não era apenas verbal. À noite, a criança era frequentemente levada para as
camas das criadas — camas que elas repartiam (sem camisolas de dormir e sem pijamas) com outras
mulheres ou com seus maridos. Parece bastante provável que, na época em que tinha de quatro a cinco
anos, o garotinho já sabia de tudo sobre sexo, e sabia não somente por ouvir dizer, mas por conhecimento
próprio. Isso parece bastante verossímil, uma vez que um palácio do século xvii era totalmente destituído
de privacidade. Os arquitetos ainda não haviam inventado o corredor. Para ir de uma peça a outra,
simplesmente se andava através de uma série de quartos de outras pessoas, onde literalmente qualquer
coisa poderia estar acontecendo. E havia também a questão da etiqueta. Menos afortunado sob este
aspecto que seus inferiores, um membro da realeza nunca podia ficar sozinho. Quando de sangue azul,
nascia-se, morria-se, fazia-se as necessidades e às vezes até amor em meio a uma multidão. E a
arquitetura circundante era de tal espécie que dificilmente se poderia evitar o espetáculo de outros
nascendo, morrendo, defecando e fazendo amor. No fim da vida, Luís xiii mostrou uma nítida aversão
pelas mulheres, uma evidente embora provavelmente platônica inclinação pelos homens e uma forte
repugnância por qualquer espécie de deformidade física e doença. O comportamento de mme. de
Montglat e das outras damas da corte pode facilmente ser responsável pela primeira peculiaridade e,
também, por uma reação natural, pela segunda; quanto à terceira — quem sabe que seres repulsivos a
criança não deve ter encontrado casualmente nos promíscuos dormitórios de Saint-Germain-en-Laye?
Tal era então a espécie de mundo no qual o novo pároco fora criado — um mundo no qual os
tradicionais tabus sexuais tinham pouca influência sobre a maioria ignorante e necessitada e nem eram de demasiada importância para seus superiores; um mundo onde as duquesas faziam piadas como a ama de
Julieta, e a palestra das grandes damas era uma imitação mais grosseira e enfadonha da Mulher de Bath;
[4] onde um homem de posses e boa posição social podia (se não fosse excessivamente escrupuloso em
matéria de imundície e piolhos) satisfazer seus desejos quase ad libitum:[5] e onde, mesmo entre os
cultos e ponderados, os ensinamentos religiosos eram interpretados na maior parte das vezes com um
sentido esotérico, de modo que a distância entre a teoria e o comportamento manifesto, embora um pouco
menor que na medieval Idade da Fé, era ainda enorme. Produto dessa época, Urbain Grandier assumiu
sua paróquia com a intenção de tirar o máximo proveito dos dois mundos: o universo celeste e o
detestável abismo. Ronsard era seu poeta favorito, e escrevera Ronsard determinadas estrofes que
expressavam perfeitamente o ponto de vista do jovem pároco.
Quand au temple nous serons,
Agenouillés nous ferons
Les dévots selon la guise
De ceux qui, pour louer Dieu,
Humbles se courbent au lieu
Le plus secret de l’Église.
Mais quand au lit nous serons,
Entrelacés nous ferons
Les lascifs selon les guises
Des amants qui librement
Pratiquent folâtrement
Dans les draps cent mignardises.[6]
Era uma descrição da “vida bem vivida”, e era a vida que esse humanista jovem e saudável estava
decidido a levar. Entretanto, presume-se que a vida de um clérigo não deva ser dispersiva, mas sim
dirigida a um objetivo preciso — uma bússola, não uma ventoinha. A fim de manter sua vida voltada para
uma só direção, o padre assume determinadas obrigações, faz determinadas promessas. No caso de
Grandier, as obrigações tinham sido assumidas e os votos, pronunciados com uma restrição mental, que
ele tomaria pública — e, nessa ocasião, para um só leitor — num pequeno tratado sobre o celibato do
clero, escrito cerca de dez anos depois de sua chegada a Loudun.
Grandier faz uso de dois argumentos principais contra o celibato. O primeiro pode ser resumido no
seguinte silogismo: “Uma promessa para cumprir o impossível não é obrigatória. Para um homem jovem,
a castidade é impossível. Logo, nenhum voto requerendo tal castidade é obrigatório”. E, se isso não
basta, aqui está um segundo argumento fundamentado na máxima universalmente aceita de que não
estamos obrigados a promessas obtidas através de coação. “O sacerdote não adota o celibato por
apreciá-lo, mas somente para ser admitido nas ordens sacras.” Seu voto “não se origina de seu desejo,
mas lhe é imposto pela Igreja, que o obriga a contragosto a aceitar essa dura condição, sem a qual ele não
pode exercer o sacerdócio.” O resultado de tudo isso era que Grandier se sentia inteiramente livre para
até mesmo casar, e para, enquanto isso não acontecia, aproveitar a vida com qualquer mulher bonita que
estivesse disposta a cooperar.
Para as mulheres excessivamente pudicas de sua congregação, as inclinações amorosas do novo
pároco pareciam o pior dos escândalos; mas essas eram a minoria. Para as outras, mesmo aquelas que tinham a intenção de permanecer virtuosas, havia algo de agradavelmente excitante na gestão de um
homem com a aparência, os hábitos e a reputação de Grandier. Combina-se facilmente sexo com religião,
e sua mistura produz um daqueles sabores levemente repulsivos e contudo delicados e picantes, que
despertam subitamente o paladar como uma revelação — de quê? Esta é precisamente a questão.
A popularidade de Grandier com as mulheres bastava por si só para torná-lo extremamente
malquisto entre os homens. Desde o início, os pais e maridos de suas paroquianas desconfiavam muito
desse dândi jovem e esperto, possuidor de fina educação e do dom da palavra. E, mesmo que o novo
pároco tivesse sido um santo, por que tal preciosidade como o benefício eclesiástico da igreja de Saint-
Pierre deveria ir para um estrangeiro? O que havia de errado com os rapazes do lugar? Os dízimos de
Loudun deviam ficar com seus próprios filhos. E, para tornar as coisas piores, o estrangeiro não viera
sozinho. Trouxera com ele a mãe, três irmãos e uma irmã. Para um dos irmãos ele já havia arranjado um
emprego no gabinete do primeiro magistrado da cidade. O outro, que era padre, tinha sido nomeado
vigário principal da igreja de Saint-Pierre. O terceiro, também ordenado, embora não estivesse em cargo
oficial andava avidamente à espreita de eventuais ofícios clericais. Era uma invasão.
Entretanto, mesmo os descontentes tinham de reconhecer que o sr. Grandier sabia pregar um
excelente sermão e era um padre muito capaz, com bastante conhecimento sobre a doutrina ortodoxa e
mesmo a cultura leiga. Mas seus muitos méritos depunham contra ele. Por ser um homem de espírito e de
muita leitura, Grandier foi no início recebido pelas pessoas mais cultas e aristocráticas da cidade. Portas
que sempre tinham permanecido fechadas para os campônios ricos, os funcionários canhestros, os
palermas da nobreza, que constituíam a alta, mas não a nata da sociedade de Loudun, foram
imediatamente abertas para esse jovem pretensioso de outra província. Foi amargo o ressentimento das
pessoas eminentes excluídas quando souberam de sua intimidade, primeiro com Jean d’Armagnac, o
recentemente nomeado governador da cidade e do castelo, e depois com o mais famoso cidadão de
Loudon, o idoso Scévole de Sainte-Marthe, notável tanto como jurisconsulto e político quanto como
historiador e poeta. D’Armagnac tinha em tão alto conceito a habilidade e discrição do pároco que,
durante suas ausências na corte, confiava a Grandier a direção de todos os seus negócios. Para Sainte-
Marthe, o Curé [pároco] era o que mais se recomendava, como um humanista que conhecia os clássicos e
podia portanto dar o devido valor à obra-prima virgiliana do idoso cavalheiro, Paedotrophiae Libri Tres
— um poema didático sobre os cuidados e alimentação infantil, tão popular que nada menos que dez
edições foram solicitadas durante a vida do autor, e ao mesmo tempo em linguagem tão requintada, tão
correta, que Ronsard diria que “ele preferia o autor desses versos a todos os poetas de nossa época, e
sustentaria essa opinião por maior que fosse o desgosto que pudesse desse modo causar a Bembo,
Navagero e ao esplêndido Fracastoro”. Ah, quão transitória é a fama, quão total a inutilidade das
vaidades humanas! Para nós, o cardeal Bembo é apenas um nome, Andrea Navagero ainda menos, e a
imortalidade desfrutada por Fracastoro só lhe é atribuída por ele ter dado uma denominação mais
elegante para a sífilis, ao escrever, num latim impecável, uma écloga de caráter médico sobre o desditoso
príncipe Syphilus que, após muitos sofrimentos, livrou-se da morbus Gallicus por meio de copiosas
doses de cozimento de guaiaco. As línguas mortas tornaram-se mais mortas, e os três livros de
Paedotrophiae tratam de uma fase menos dramática do ciclo sexual do que os libri tres de Syphilid. Em
tempos passados lido por todos e considerado o melhor entre os gênios, Scévole de Sainte-Marthe desvaneceu-se na obscuridade. Entretanto, na época em que Grandier o conheceu, estava ainda no ocaso
de sua glória, o maior de todos os grandes mestres, uma espécie de monumento nacional. Ser recebido em
sua intimidade era como jantar com a Notre-Dame de Paris ou conversar com a Pont du Gard. Na
esplêndida casa para a qual este Idoso Homem de Estado e Decano das Letras Humanas tinha então se
retirado, Grandier conversava familiarmente com o grande homem e seus filhos e netos não muito menos
notáveis. E havia celebridades visitantes: o príncipe de Gales, incógnito; Théophraste Renaudot, médico
pouco ortodoxo, filantropo e pai do jornalismo francês; Ismaël Boulliau, o futuro autor da monumental
Astronomia philolaica e o primeiro observador a estabelecer com precisão a periodicidade de uma
estrela variável. A esses juntavam-se sumidades locais como Guillaume de Cerisay, o Bailli ou primeiro
magistrado de Loudun, e Louis Trincant, o promotor público, um homem religioso e culto que fora
companheiro de escola de Abel de Sainte-Marthe e compartilhava do gosto da família por literatura e
pesquisas arqueológicas.
Bastante menos gratificante que a amizade desses espíritos escolhidos era a hostilidade mostrada
por todos os demais, os que não faziam parte do grupo. Ser olhado com desconfiança pelos estúpidos por
ser tão inteligente, com inveja pelos incapazes por ser bem-sucedido, ser detestado pelos rudes pela sua
finura, pelos grosseirões pela sua educação, pelos sem atrativo por seu sucesso com as mulheres — que
tributo à sua superioridade geral! E o ódio não era unilateral. Grandier detestava seus inimigos tanto
quanto estes o detestavam. “A reprovação estimula, o louvor enfraquece.” Há muitas pessoas para as
quais o ódio e a violência têm um benefício imediato muito mais do que o amor. Congenitamente
agressivos, tornam-se logo viciados em adrenalina, entregando-se deliberadamente às suas mais torpes
paixões devido à “agradável excitação” que obtêm de suas glândulas endócrinas psiquicamente
estimuladas. Sabendo que uma atitude de autoafirmação acaba sempre por provocar outras atitudes hostis
de autoafirmação, cultivam continuamente sua violência. E é claro que muito em breve eles se encontram
no auge de uma disputa. E é isso que mais apreciam; pois enquanto estão brigando, sua química sanguínea
faz com que se sintam mais autênticos. “Sentindo-se bem”, eles naturalmente supõem que estão bem. O
vício da adrenalina é tomado como justa indignação, e finalmente, como o profeta Jonas, convencem-se
firmemente de que procedem bem ao se encolerizarem.
Desde praticamente o primeiro instante de sua chegada em Loudun, Grandier envolveu-se em uma
série de rixas inconvenientes, mas, em sua opinião, profundamente divertidas. Um cavalheiro até
desembainhou sua espada contra o pároco. Com outro, o Lieutenant Criminel [comissário de polícia],
que comandava a força policial da região, entregou-se a agressões verbais em público, o que em pouco
tempo degenerou em violência física. Em maior número, o pároco e seus acólitos ergueram barricadas na
capela do castelo. No dia seguinte, Grandier queixou-se à corte eclesiástica e o Lieutenant Criminel foi
severamente repreendido por sua participação no escandaloso caso. Para o Curé, foi um triunfo, que
contudo lhe custou caro. Um homem influente que sentia apenas uma antipatia gratuita por ele tomou-se
então um inimigo mortal e obstinado, à espera de uma oportunidade para se vingar.
Por uma questão de prudência elementar, não menos do que por princípios cristãos, o pároco deveria
ter-se empenhado ao máximo para se reconciliar com os inimigos que o cercavam. Contudo, apesar de
todos os anos com os jesuítas, Grandier estava ainda muito longe de ser um cristão; e, a despeito de todos
os bons conselhos que recebia de D’Armagnac e seus outros amigos, era incapaz de agir com prudência em situações onde estavam em causa suas paixões. Uma prolongada preparação religiosa não havia
eliminado ou mesmo abrandado seu amor-próprio; servira apenas para fornecer ao ego uma justificativa
teológica. O egoísta desenfreado quer apenas a sua vontade. Proporcione-se a ele uma educação
religiosa e passa a considerar como óbvio, axiomático, que o que ele quer é o que Deus quer, que a causa
que ele defende é também a causa do que quer que ele considere a verdadeira Igreja, e que qualquer
acordo é um Munique metafísico, um apaziguamento do pecado original. “Concorda com teu adversário
enquanto estiveres no mesmo caminho.” Para homens como Grandier, o conselho de Cristo parece um
convite blasfemo a fazer um pacto com Belzebu. Em vez de tentar chegar a um acordo com seus inimigos,
o pároco empenhava-se por todos os meios ao seu alcance em exacerbar suas hostilidades. E sua
capacidade para isso atingia quase a genialidade.
A Fada Madrinha, que visita os berços dos privilegiados, é frequentemente a Fada Má num evidente
disfarce. Ela chega carregada de presentes; mas sua generosidade muito frequentemente é funesta. Para
Urbain Grandier, por exemplo, a Fada Madrinha havia trazido, junto com legítimos dons naturais, a mais
deslumbrante e mais perigosa de todas as dádivas — a eloquência. Ditas por um bom ator — e todo
grande pregador, todo advogado e político de sucesso é, entre outras coisas, um ator consumado —, as
palavras podem exercer um poder quase mágico sobre seus ouvintes. Devido à irracionalidade intrínseca
desse poder, mesmo os oradores mais bem-intencionados talvez causem mais danos que bem. Quando um
orador, apenas com a magia da palavra e uma bela voz, persuade sua audiência da justeza de uma causa
indigna, ficamos profundamente chocados. Devíamos nos sentir da mesma forma sempre que nos
deparamos com os mesmos artifícios descabidos, utilizados para persuadir as pessoas quanto à justeza de
uma boa causa. A crença gerada pode ser desejável, mas os recursos mobilizados para isso estão
intrinsecamente errados, e aqueles que empregam os estratagemas da oratória a fim de incutir mesmo
crenças justas são culpados por se servir dos elementos menos recomendáveis da natureza humana.
Exercitando seu funesto dom da palavra, eles aprofundam o estupor semicataléptico no qual vive a
maioria dos seres humanos e do qual é intenção e finalidade de toda a verdadeira filosofia e de toda
religião verdadeiramente espiritual libertá-los. Além disso, não pode existir oratória brilhante sem
simplificação exagerada. Entretanto, não se pode simplificar demais sem distorcer os fatos. Mesmo
quando está fazendo todo o possível para não faltar com a verdade, o orador de sucesso é ipso facto um
mentiroso. E os oradores bem-sucedidos, nem é necessário acrescentar, não estão mesmo tentando dizer a
verdade; estão procurando despertar a simpatia de seus amigos e a aversão de seus inimigos. Grandier,
infelizmente, pertencia à maioria. Domingo após domingo, no púlpito da igreja de Saint-Pierre, ele fazia
suas famosas imitações de Jeremias e Ezequiel, de Demóstenes, de Savonarola, mesmo de Rabelais —
pois ele era tão bom na zombaria quanto na justa indignação, tanto na ironia quanto na ameaça
apocalíptica.
A natureza tem horror ao vácuo, até o mental. Hoje em dia, o vazio angustiante do tédio é preenchido
e constantemente renovado pelo cinema, pelo rádio, pela televisão e pelas histórias em quadrinhos. Mais
afortunados que nós (ou quem sabe menos?), nossos ancestrais dependiam, como sedativo do seu tédio,
das performances semanais do padre de sua paróquia, às quais se somavam de vez em quando os sermões
dos capuchinhos visitantes ou de jesuítas em trânsito. A pregação é uma arte, e nesta, como em todas as
outras artes, os maus artistas são em número muito maior que os bons. Os paroquianos de Saint-Pierre podiam se congratular na praça por dispor do reverendo Grandier, um extraordinário virtuose, pronto e
apto a improvisar de maneira interessante sobre o mais sublime mistério cristão tão bem quanto sobre o
assunto mais melindroso, o mais difícil e escabroso da paróquia. Quão severamente denunciava os
abusos, quão sem temor reprovava mesmo àqueles situados nos altos cargos! A maioria cronicamente
entediada se deleitava. Sua aprovação servia apenas para aumentar a fúria daqueles que haviam se
tornado vítimas da eloquência do pároco.
Entre essas vítimas achavam-se os monges de várias ordens, que desde o término das hostilidades
ostensivas entre católicos e huguenotes haviam estabelecido mosteiros na cidade que um dia fora
protestante. O principal motivo de Grandier não gostar dos monges era por ser um sacerdote secular tão
fiel à sua classe quanto o bom soldado a seu regimento, o estudante aplicado à sua escola, o comunista ou
nazista convicto ao seu partido. Fidelidade à organização A sempre traz como consequência certo grau de
suspeita, desprezo ou uma declarada aversão às organizações B, C, D e todas as demais. E isso é
verdadeiro até em relação a grupos subordinados a uma organização maior. A história eclesiástica revela
uma hierarquia de ódios de ordem para ordem, escola para escola, província para província e teologia
para teologia.
“Seria bom”, escreveu são Francisco de Sales em 1612, “seria bom, através da mediação de
prelados prudentes e piedosos, efetuar-se a união e a compreensão mútua entre a Sorbonne e os padres
jesuítas. Se na França os bispos, a Sorbonne e as ordens fossem profundamente unidos, em dez anos não
haveria mais heresia”.[7] A heresia acabaria porque, como o santo diz em outro trecho, “todo aquele que
prega com amor, já exorta bastante contra a heresia, ainda que não emita sequer uma palavra de
contestação”.[8] Uma Igreja dividida por ódios internos não pode sistematicamente praticar o amor e
pregá-lo, sem evidente hipocrisia. Contudo, em vez de união havia dissensões contínuas; em vez de amor,
o odium theologicum e o patriotismo agressivo de casta, escola e ordem. À rixa entre os jesuítas e a
Sorbonne, brevemente acrescentou-se a contenda entre os jansenistas e uma aliança dos jesuítas e
salesianos. E, depois disso, a batalha prolongada e não decidida contra o quietismo e o amor
desinteressado. Finalmente as disputas internas e externas da Igreja galicana chegaram ao seu termo não
por amor ou credo, mas por ordem oficial. Para os hereges havia as dragonnades[9]e finalmente a
revogação do Edito de Nantes. Para as altercações eclesiásticas havia as bulas papais e ameaças de
excomunhão. A ordem foi restaurada, mas da maneira menos edificante possível, através dos meios mais
grosseiramente materiais, menos religiosos e humanos.
A fidelidade partidária é socialmente desastrosa; contudo, pode ser altamente compensadora se
considerada individualmente — mais compensadora em muitos casos do que mesmo a concupiscência ou
a avareza. Os devassos e os gananciosos dificilmente sentem-se orgulhosos de suas atividades. No
entanto, o sectarismo é uma paixão complexa que permite àqueles que a ela se entregam usufruir o
máximo dos dois mundos. Porque agem no interesse do grupo, que é por definição bom e até mesmo
sagrado, eles podem admirar a si mesmos e detestar seus semelhantes, podem buscar poder e riqueza,
podem gozar os prazeres da agressão e crueldade, não apenas sem sentimento de culpa, mas como um
indiscutível exemplo de virtude. Fidelidade ao grupo transforma esses vícios agradáveis em atos de
heroísmo. Os sectários consideram-se não pecadores ou criminosos, mas altruístas e idealistas. E isso é
o que são na realidade, com algumas exceções. O único problema é que seu altruísmo é apenas egoísmo sob certos aspectos, e que o ideal pelo qual estão dispostos muitas vezes a sacrificar suas vidas nada
mais é que a racionalização dos interesses do grupo e das paixões partidárias.
Quando Grandier criticava os monges de Loudun, podemos estar certos de que era com um senso de
justo fervor, com a consciência de quem serve a Deus. Porquanto Deus, nem seria preciso dizer, estava
do lado do clero secular e dos bons amigos de Grandier, os jesuítas. Os carmelitas e capuchinhos
estavam muito bem dentro de seus conventos ou dirigindo missões em aldeias distantes. Entretanto, não
tinham o direito de se intrometer nos assuntos da burguesia da cidade. Deus havia ordenado que os ricos
e respeitáveis fossem guiados pelo clero secular com uma pequena colaboração, talvez, dos bons padres
da Companhia de Jesus. Um dos primeiros gestos do novo pároco foi anunciar do púlpito que os fiéis
tinham o dever de se confessar com o pároco do lugar, não com um estranho. As mulheres, as que mais se
confessavam, estavam prontas a obedecer. Seu pároco agora era um jovem erudito, distinto e de boa
aparência, um perfeito cavalheiro. Não se poderia dizer o mesmo do guia espiritual típico dos
capuchinhos ou carmelitas. Quase da noite para o dia, os monges perderam a maioria de seus fiéis
penitentes e, com eles, praticamente toda a sua autoridade moral sobre a cidade. Grandier reforçou esse
primeiro ataque com uma sucessão de referências desabonatórias à principal fonte de renda dos
carmelitas — a imagem milagrosa de Notre-Dame de Recouvrance. Houve época na qual um setor da
cidade era inteiramente ocupado por hospedarias e pensões destinadas a acomodar os peregrinos que
vinham rogar à imagem por saúde, um marido, um herdeiro ou melhor sorte. Agora, porém, Notre-Dame
de Recouvrance tinha uma temível rival em Notre-Dame des Ardilliers, cuja igreja ficava em Saumur, a
poucas léguas de Loudun. Assim como há tratamentos médicos e chapéus femininos que estão na moda, o
mesmo acontece com os santos. Toda igreja famosa tem uma história de imagens que adquirem súbita
notoriedade, de relíquias chegadas de fora, substituindo impiedosamente as relíquias milagrosas mais
antigas, somente para perderem, por sua vez, o lugar na preferência pública para um fazedor de milagres
mais moderno e momentaneamente mais atraente. Por que Notre-Dame des Ardilliers veio a parecer tão
superior a Notre-Dame de Recouvrance quase que de um dia para o outro? A mais evidente das
certamente inúmeras razões era que Notre-Dame des Ardilliers estava a cargo dos oratorianos, e, como
observa Aubin, primeiro biógrafo de Grandier, “toda a gente concorda que os Padres do Oratório são
homens capazes e mais hábeis que os carmelitas”. Os oratorianos, devemos relembrar, eram padres
seculares. Talvez isso ajude a explicar a indiferença cética de Grandier em relação à Notre-Dame de
Recouvrance. A fidelidade à sua casta o levava a trabalhar para benefício e glória do clero secular e
para o descrédito e a ruína dos monges. Notre-Dame de Recouvrance teria certamente caído no
esquecimento mesmo que Grandier jamais houvesse vindo para Loudun. Contudo, os carmelitas viam a
situação sob outro prisma. É difícil e emocionalmente desgastante analisar realisticamente os fatos em
função de suas causas múltiplas. Como é mais fácil e mais agradável atribuir cada efeito a uma causa
única e se possível pessoal! À ilusão do conhecimento se somará, nesse caso, se as circunstâncias forem
favoráveis, o prazer do culto do herói, ou, se desfavoráveis, o prazer até mesmo maior de atormentar a
um bode expiatório.
Além desses inimigos de pouca importância, Grandier logo adquiriu outro capaz de lhe causar danos
de proporções muito maiores. No início de 1618, em uma convenção religiosa a que compareceram todos
os dignatários eclesiásticos da região, Grandier deu-se ao trabalho de ofender o prior de Coussay, exigindo grosseiramente precedência sobre ele numa procissão solene pelas ruas de Loudun. A atitude do
pároco era inatacável sob o ponto de vista legal. Em uma procissão saindo de sua própria igreja, um
cônego de Sainte-Croix tinha o direito de caminhar na frente do prior de Coussay. E esse direito
permanecia válido mesmo quando, como era o caso, o prior era, ao mesmo tempo, bispo. Contudo, existe
uma coisa que se chama cortesia, e outra que é a circunspeção. O prior de Coussin era o bispo de Luçon,
e o bispo de Luçon era Armand-Jean du Plessis de Richelieu.
Nessa ocasião — e essa era mais uma razão para agir com generosa polidez —, Richelieu caíra em
desgraça. Em 1617, seu protetor, o bandido italiano Concini, havia sido assassinado. Esse coup d’état
fora planejado por Luynes e aprovado pelo jovem rei. Richelieu foi afastado do poder e expulso da corte
bruscamente. Mas havia algum motivo para se supor que esse exílio seria eterno? Absolutamente nenhum.
E, de fato, um ano depois, após um breve desterro em Avignon, o indispensável bispo de Luçon foi
chamado de volta a Paris. Em 1622, ele era o primeiro-ministro do rei e cardeal.
Gratuitamente, pelo mero prazer de fazer-se valer, Grandier ofendera um homem que em pouco
tempo se tomaria o soberano absoluto da França. Mais tarde, o pároco teria ocasião de se arrepender de
sua descortesia. Enquanto isso, a lembrança de sua façanha dava-lhe uma satisfação infantil. Um plebeu,
um humilde pároco, tinha humilhado um protegido da rainha, um bispo, um aristocrata. Sentia-se feliz
como um menino que fez malcriações para o professor e escapou impune.
Anos depois, o próprio Richelieu obteve prazer idêntico ao comportar-se diante de príncipes de
sangue real da mesma maneira que Urbain Grandier portara-se diante dele. “Pensar”, dizia seu velho tio
enquanto observava o cardeal se antecipando ao duque de Saboia, “pensar que eu viveria para ver o neto
do advogado Laporte entrando num quarto antes do neto de Carlos vi”. Outro garoto terrível, que
escapara impune e triunfante.
Por essa ocasião, o esquema de vida de Grandier em Loudun já estava montado. Ele cumpria seus
deveres religiosos e nos intervalos frequentava discretamente as mais belas viúvas, passava alegres
serões nas casas de seus amigos intelectuais e brigava com um número cada vez maior de inimigos. Era
uma existência profundamente agradável, que satisfazia indistintamente à cabeça e ao coração, às
gônadas e às suprarrenais, à persona social e ao próprio ego. Ainda não experimentara uma grande
adversidade em sua vida. Podia ainda supor que seus divertimentos eram gratuitos, que podia desejar
impunemente e odiar sem consequências. Na verdade, é certo que o destino já começara a cobrar suas
dívidas, mas discretamente. Não havia sentido ainda a dor do sofrimento, apenas uma vulgarização e um
endurecimento graduais, um obscurecer progressivo do espírito, um retraimento da alma em face das
verdades eternas. Para um homem com o temperamento de Grandier — colérico-sanguíneo, de acordo
com a medicina natural da época — ainda parecia evidente que tudo ia bem com o mundo. E, sendo
assim, Deus devia estar no seu paraíso. O pároco era feliz. Ou, para ser mais preciso, em seus diferentes
estados de espírito, era o maníaco que ainda predominava.
Na primavera de 1623, adiantado em anos e coberto de honrarias, morreu Scévole de Sainte-Marthe
e foi enterrado com toda a devida pompa na igreja de Saint-Pierre-du-Marché. Seis meses depois, numa
cerimônia em memória do morto assistida por todas as pessoas eminentes de Loudun e Châtellerault, de
Chinon e Poitiers, Grandier disse a oração fúnebre para o grande homem. Foi uma oração longa e esplêndida, à maneira (ainda em voga, pois a primeira edição das epístolas estilisticamente
revolucionárias de Balzac só apareceria no ano seguinte) dos “humanistas devotos”. As frases
rebuscadas ostentavam citações dos clássicos e da Bíblia. Uma erudição pomposa e excessiva exibia-se
vaidosamente a cada expressão. A linguagem retórica retumbava num clamor artificial. Para aqueles que
gostavam de composições literárias desse gênero — e, em 1623, quem não gostava? —, aquele era
certamente o tipo ideal. A oração de Grandier foi recebida com aplausos gerais. Abel de Sainte-Marthe
ficou tão comovido com a eloquência do pároco que escreveu e publicou um epigrama em latim sobre o
assunto. Não menos lisonjeiros foram os versos que o sr. Trincant, o promotor público, escreveu em
vernáculo.
Ce n’est pas sans grande raison
Qu’on a choisi ce personnage
Pour entreprendre l’oraison
Du plus grand homme de son âge;
Il fallait véritablement
Une éloquence sans faconde
Pour louer celuy dignement
Qui m’eut point de second au monde.[10]
Pobre sr. Trincant! Sua paixão pelas Musas era sincera, mas sem esperanças. Embora ele as amasse,
era evidente que o amor não era recíproco. Entretanto, se não podia escrever poesia, podia ao menos
discorrer sobre ela. Após 1623, a sala de visitas do promotor público tornou-se o centro da vida
intelectual de Loudun. Esta ficara bastante medíocre a esse tempo, quando Sainte-Marthe não mais
existia. Trincant era um homem culto, mas a maioria de seus parentes e amigos não o era. Impedidos de
entrar no palácio de Sainte-Marthe, essas pessoas infelizmente tinham como habitual privilégio serem
convidadas do promotor público. Entretanto, quando entravam pela porta, a cultura e a palestra
interessante fugiam pela janela. Como poderia ser de outro modo com aqueles grupos de mulheres
tagarelas, aqueles advogados que não entendiam de nada a não ser de leis e processos, aqueles senhores
rurais que só se interessavam por cachorros e cavalos? E para completar havia o sr. Adam, o boticário
narigudo, e o sr. Mannoury, o médico de rosto rechonchudo e pançudo. Com a gravidade própria de
doutores de Sorbonne, pregavam sobre a eficácia do antimônio e da sangria, a importância do sabão nos
clisteres e a cauterização no tratamento de ferimentos à bala. Depois, abaixando a voz, falavam (sempre
de forma estritamente confidencial, é claro) da sífilis da marquesa, do segundo aborto da esposa do
conselheiro do rei, da clorose[11] da jovem filha da irmã de Baillif. Absurdos e pretensiosos, graves e
grotescos ao mesmo tempo, o boticário e o médico estavam fadados a ser alvo de ridículo. Eles eram um
convite ao sarcasmo, às farpas da ironia. Com a crueldade implacável do homem inteligente que tudo fará
pelo prazer de uma risada, o pároco deu-lhes o que pediram. Em pouco tempo adquirira dois novos
inimigos.
E, enquanto isso, estava criando outro. O promotor público era um viúvo de meia-idade com duas
filhas em época de casar, das quais a mais velha era tão linda que, durante todo o inverno de 1623, o
pároco viu-se cada vez mais frequentemente pensando nela.
Observando a moça enquanto se movimentava entre os convidados de seu pai, comparava-a vantajosamente com a imagem mental da jovem viúva fogosa a quem estava então consolando, todas as
tardes de terça-feira, da morte prematura de seu pobre e querido marido, o taberneiro. Ninon era
ignorante, mal conseguia assinar o próprio nome. Mas, sob o desconsolado negro de seu luto de viúva, a
carne plenamente desabrochada ainda se encontrava bastante rija. Ali havia tesouros de ardor e candura,
uma reserva inexaurível de sensualidade, a um só tempo experiente e exaltada, violenta e ainda assim
admiravelmente submissa e bem orientada. E, graças a Deus, não tinha havido barreiras de recato
excessivo a serem penosamente demolidas, nem foi preciso se submeter a cansativos preâmbulos de
idealização platônica e galanteios petrarquianos! No terceiro encontro, atreveu-se a citar os versos
iniciais de um de seus poemas favoritos:
Souvent j’ai menti les ébats
Des nuits, t’ayant entre mes bras
Folâtre toute nue;
Mais telle jouissance, hélas!
Encor m’est inconnue.[12]
Não houvera objeção, somente o riso mais aberto e um olhar de soslaio, rápido mas inequívoco. No
fim de sua quinta visita, já se encontrava em situação de citar Tahureau outra vez.
Adieu, ma petite maîtresse,
Adieu, ma gorgette et mon sein,
Adieu, ma délicate main,
Adieu, donc, mon téton d’albâtre,
Adieu, ma cuissette folâtre,
Adieu, mon oeil, adieu, mon coeur,
Adieu, ma friande douceur!
Mais avant que je me départe,
Avant que plus loin je m’écarte,
Que je tâte encore ce flanc
Et le rond de ce marbre blanc.[13]
Adeus, mas só até depois do dia seguinte quando ela fosse a Saint-Pierre para sua confissão
semanal — ele era um defensor obstinado das confissões semanais — e da penitência usual. E, entre esse
dia e a terça-feira seguinte, teria pregado o sermão que estava preparando para a festa da Purificação da
Santa Virgem — sua mais bela obra desde a oração fúnebre para o sr. Sainte-Marthe. Que eloquência,
que apurado e profundo saber, que sutil e contudo eminentemente bem fundada teologia! Aplausos,
felicitações! O Lieutenant Criminel ficaria furioso, os monges, verdes de inveja. “Sr. Curé, o senhor
superou a si mesmo, Vossa Reverência é inigualável.” Iria para seu próximo encontro amoroso exultante
de orgulho, e, como um prêmio ao vencedor, ela o envolveria em seus braços e o recompensaria com
aqueles beijos, aquelas carícias, aquele final divino no êxtase de seu abraço. Deixem os carmelitas falar
de seus enlevos, de suas celestiais sensações, de suas graças extraordinárias e núpcias espirituais! Ele
tinha sua Ninon, e Ninon era o bastante. Mas olhando novamente para Philippe, ele perguntou-se se,
afinal, ela era suficiente. Viúvas eram um grande conforto, e ele não via razão para desistir de suas
terças-feiras; entretanto, o mais importante é que as viúvas não eram virgens, eram experientes demais e
estavam começando a engordar. Ao passo que Philippe ainda tinha os braços finos e delicados de uma menina, os seios rijos e redondos e o pescoço liso e esguio de uma adolescente. E quão encantadora era
essa mistura de graça e falta de jeito própria dos jovens! Quão comoventes e ao mesmo tempo
provocadoras, excitantes eram as transições de um coquetismo ousado e até mesmo temerário para um
pânico imprevisto! Representando com exagero o papel de Cleópatra, convidava cada homem a se
converter em um Marco Antônio. Contudo, se algum homem manifestasse indícios de aceitar o convite, a
rainha do Egito desaparecia, e restava em seu lugar uma criança assustada pedindo perdão. E depois,
logo que lhe era concedido o perdão, retornava a Sereia, seduzindo com palavras, acenando com o fruto
proibido, com um atrevimento do qual só são capazes os inteiramente depravados ou os completamente
inocentes. Inocência, pureza — que esplêndida peroração havia escrito sobre esse mais sublime dos
temas! As mulheres chorariam quando a proferisse — ora em altos brados, ora no mais suave murmúrio
— do púlpito de sua igreja. Até mesmo os homens se comoveriam. A pureza do lírio úmido de orvalho, a
inocência dos cordeirinhos e das criancinhas. Sim, os monges ficariam doentes de inveja. No entanto, a
não ser nos sermões e no céu, todos os lírios se corrompem e apodrecem mais cedo ou mais tarde; a
cordeira está predestinada primeiro ao infatigável e lascivo carneiro, depois ao açougueiro; e, no
inferno, o condenado anda sobre um calçamento vivo, coberto com os minúsculos cadáveres dos bebês
não batizados. Desde a queda, a absoluta inocência tem sido identificada para todos os efeitos com a
depravação total. Cada menina é a mais falada das viúvas em potencial, e, graças ao pecado original,
toda impureza virtual já está praticamente efetivada, mesmo no mais inocente. Ajudar a completar o
processo, observar o botão ainda virginal desabrochar em luxuriante e corrompida flor — esse seria um
prazer não só dos sentidos como também do intelecto e da vontade. Seria uma moral e, por assim dizer,
metafísica sensualidade.
E Philippe não era somente jovem e pura. Era também de boa família, educada na fé e muito
prendada. Linda como uma pintura, mas sabia seu catecismo; tocava o alaúde, mas ia regularmente à
igreja; tinha a aparência de uma dama elegante, mas gostava de ler e tinha até mesmo algum conhecimento
de latim. A captura de uma presa de tal espécie proporcionaria ao caçador uma agradável sensação de
autoestima, e todos que soubessem do fato o encarariam como uma façanha imensa e memorável.
Na sociedade aristocrática de alguns anos mais tarde, “as mulheres”, de acordo com Bussy-Rabutin,
“passaram a ser tidas em tão alta conta pelos homens quanto os feitos militares”. A conquista de uma
beldade famosa equivalia aproximadamente à conquista de uma província. Por seus triunfos no boudoir e
na cama, homens como Marsillac, Nemours e o Chevalier de Grammont gozaram de uma fama, quase
igual enquanto durou, à de Gustavo Adolfo ou Wallenstein. Na gíria em voga na época, “embarcava-se”
nessas gloriosas aventuras intencional e conscientemente com o objetivo explícito de obter mais prestígio
em sociedade. O sexo pode ser utilizado como autoafirmação ou para transcender ao próprio eu — para
fortalecer o ego e sublinhar a persona social através de um tipo de “caso” notável, de grande conquista,
ou para anular a persona e transcender o ego num secreto arroubo de sensualidade, num delírio de paixão
romântica ou, o que é mais provável, no amor cristão mútuo do casamento perfeito. O pároco podia
conseguir toda a autotranscendência que desejasse com suas jovens camponesas e suas viúvas da classe
média de poucos escrúpulos e muita sensualidade. Philippe Trincant oferecia então uma oportunidade
para o tipo mais agradável e convencional de autoafirmação — com a consequência lógica, após a
consumação da conquista, de um tipo de autotranscendência carnal extremamente raro e precioso.
Encantador devaneio! Entretanto, um obstáculo dos mais embaraçosos se interpunha à sua
realização. O pai de Philippe era Louis Trincant, e Louis Trincant era o melhor amigo do pároco, seu
aliado mais leal e resoluto contra os monges, o Lieutenant Criminel e o restante de seus adversários.
Louis Trincant depositava nele tamanha confiança que fez com que suas filhas desistissem de seu velho
confessor para se tornarem penitentes de Grandier. E teria o Curé a bondade de ler para elas uma
preleção especial sobre respeito filial e recato virginal? Ele não concordava que Guillaume Rogier não
era suficientemente bom para Philippe, mas que seria um ótimo partido para Françoise? E certamente
Philippe devia praticar seu latim. Ele poderia talvez arranjar um tempo para lhe dar uma aula de vez em
quando? Abusar de tal confiança seria o pior dos crimes. E contudo a própria sordidez do fato era uma
razão para cometê-lo. Em todos os planos de nosso ser, do muscular e sensorial ao moral e intelectual,
toda tendência gera seu próprio contrário. Olhamos para alguma coisa vermelha, e a indução visual
intensifica nossa percepção do verde e até mesmo, em certas circunstâncias, faz com que vejamos um
halo verde contornando o objeto vermelho, uma imagem persistente em verde depois de o objeto ser
removido. Nós tencionamos fazer um movimento; um conjunto de músculos é estimulado e,
automaticamente, por indução espinal, os músculos opostos se contraem. O mesmo princípio se aplica
aos mais altos níveis de consciência. Cada sim provoca um não correspondente. “Existe mais fé na
dúvida sincera que em todas as doutrinas.” E (como mostrou Butler há muito tempo, e como teremos
oportunidade de perceber no decorrer desta narrativa) mais dúvida na legítima doutrina religiosa que em
todos os Bradlaugh e compêndios marxistas. Em relação à educação moral, apresenta-se um problema
particularmente difícil. Se cada sim tende a suscitar por reflexo seu correspondente não, como podemos
inculcar o comportamento certo sem ao mesmo tempo inculcar por indução a conduta imoral que é o seu
oposto? Existem métodos para evitar a indução; no entanto, está suficientemente comprovada a sua
aplicação nem sempre eficiente pela existência de um grande número de crianças teimosas e “do contra”,
de adolescentes que estão constantemente contestando o governo, de adultos perversos e incoerentes. Até
mesmo os equilibrados e os controlados sentem às vezes uma tentação absurda de fazer exatamente o
oposto daquilo que sabem que devem fazer. Frequentemente é uma inclinação para o mal sem objetivo ou
proveito, para um ultraje gratuito e, por assim dizer, sem emoção, contra a decência e o senso comum.
Embora na maioria das vezes resista-se com sucesso a essas tentações induzidas, nem sempre isso
acontece. De vez em quando pessoas sensíveis e intrinsecamente decentes assumirão comportamentos que
elas mesmas são as primeiras a desaprovar. Nesses casos, o transgressor age como se estivesse possuído
de uma entidade perversamente hostil e diversa de seu próprio eu. Na verdade, ele é a vítima de um
mecanismo neutro, que (como não é raro acontecer com as máquinas) saiu fora do controle e passou de
senhor a amo. Philippe era extremamente atraente e “os mais firmes juramentos são como palha para o
fogo no sangue”. Mas assim como existe fogo no sangue, existe a indução no cérebro. Trincant era o
melhor amigo do pároco. O próprio fato de reconhecer que tal coisa seria monstruosa originava na mente
de Grandier um desejo perverso de traí-lo. Em vez de fazer um esforço supremo para resistir à tentação,
o pároco procurava encontrar justificativas para sucumbir. Repisava para si mesmo que o pai de um
petisco tão delicioso como Philippe não tinha o direito de comportar-se tão confiantemente. Era uma
rematada tolice — não, pior que tolice; era um crime que merecia um castigo à altura. Lições de latim,
deveras! Era toda a história de Heloísa e Abelardo que se repetia, com o promotor público como o tio Fulbert, convidando o violador a ingressar em sua casa. Só uma coisa estava faltando — o privilégio,
cedido tão generosamente ao tutor de Heloísa, de usar a palmatória. E talvez se ele o solicitasse, o
estúpido Trincant até mesmo isso concederia...
O tempo passava. A viúva continuava a se divertir às terças-feiras, mas na maioria dos outros dias
da semana Grandier podia ser encontrado na casa do promotor público. Françoise já se casara, mas
Philippe ainda permanecia em casa e fazendo enormes progressos em latim.
Omne adeo genus in terris hominumque ferarumque
et genus aequoreum, pecudes pictaeque volucres.
in furias, ignemque ruunt; amor omnibus idem.[14]
E até os vegetais sentem a doce paixão.
Nutant ad mutua palmae
foedera, populeo suspirat populus ictu,
et platani platanis, alnoque assibilat alnus.[15]
Philippe traduzia para ele, diligentemente, as passagens mais ternas dos poetas, os episódios mais
escabrosos da mitologia. Com um espírito de sacrifício que a viúva tomava mais fácil de pôr em prática,
o pároco abstinha-se de qualquer ataque à pureza de sua aluna, de qualquer coisa que pudesse ser
interpretada como proposta ou declaração. Fazia-se apenas atraente e encantador, dizia à moça algumas
vezes durante a semana que era a mulher mais inteligente que já conhecera e casualmente olhava-a de um
jeito que fazia Philippe baixar os olhos e corar. E, por felicidade, sempre havia Ninon, e além disso a
jovem não podia ler seus pensamentos.
Eles estavam na mesma sala, mas não no mesmo mundo. Não sendo mais uma criança nem ainda uma
mulher, Philippe habitava aquele limbo róseo da fantasia que fica entre a inocência e a experiência. Seu
lugar não era em Loudun entre essa gente deselegante, estúpida e grosseirona, mas com um deus num
paraíso privado, transfigurado pelo esplendor do amor que desabrocha em sexo sublime. Aqueles olhos
negros, seus bigodes, as mãos brancas e bem tratadas perseguiam-na, fazendo com que se sentisse
culpada. E que inteligência, que cultura! Um arcanjo, tão sábio quanto belo e gentil. E ele a considerava
inteligente, elogiava sua aplicação; e sobretudo tinha um jeito especial de olhar para ela. Seria possível
que ele...? Mas não, era até mesmo sacrilégio pensar em tais coisas, era pecado. Contudo, como poderia
confessar-lhe isso?
Philipe concentrava toda a sua atenção no latim.
Turpe senex miles, turpe senilis amor.[16]
Logo depois, era invadida por um desejo vago mas intenso. Em sua imaginação, lembranças de
prazeres incompletos encontravam-se subitamente associadas àqueles olhos penetrantes, àquelas mãos
brancas e cobertas de pelos. As letras oscilavam diante de seus olhos; ela hesitou, gaguejou. “O velho
soldado imundo”, falou finalmente. O pároco bateu-lhe levemente nos dedos com a régua e disse que
tinha sorte de não ser um rapaz, pois se um rapaz tivesse cometido esse tipo de engano, seria obrigado a
tomar medidas mais enérgicas. Exibiu a régua. Evidentemente muito mais enérgicas. Ela fitou-o e
rapidamente desviou o olhar. O sangue subiu-lhe às faces.
Já consolidada na felicidade prosaica e sem encanto de um casamento bem-sucedido, Françoise trouxe para sua irmã as notícias de primeira mão do front matrimonial. Philippe ouviu com interesse, mas
sabia que, no que lhe dizia respeito, tudo seria sempre completamente diferente. O devaneio prolongava-
se entrando em pormenores cada vez mais detalhados. Num certo momento, ela vivia na casa do pároco
como governanta. Noutro, ele tinha sido promovido a bispo de Poitiers e havia uma passagem
subterrânea entre o palácio episcopal e sua casa nas vizinhanças. Ou então ela herdara cem mil coroas,
em consequência disso ele abandonou a Igreja e passavam o tempo entre a corte e sua propriedade no
campo.
Mas sempre, mais cedo ou mais tarde, tinha de despertar outra vez para a triste realidade de que era
Philippe Trincant e ele, o sr. Curé; que, mesmo que ele a amasse (e não tinha nenhuma razão para supor
que sim), jamais poderia dizer-lhe, e mesmo se chegasse a dizê-lo seria sua obrigação não escutar.
Enquanto isso, porém, que felicidade era, inclinada sobre sua costura, livro ou bordado, imaginar o
impossível! E depois a alegria cruciante de ouvir sua batida à porta, seu passo, sua voz! A deliciosa
provação, o divino purgatório de sentar-se com ele na biblioteca de seu pai traduzindo Ovídio, errando
deliberadamente para que ele ameaçasse chicoteá-la, escutando aquela voz harmoniosa e sonora falar do
cardeal, dos protestantes revoltosos, da guerra na Alemanha, da posição dos jesuítas em relação à Graça
proveniente, de suas perspectivas de promoção. Se ao menos as coisas pudessem permanecer assim para
sempre! Entretanto, era como pedir (exatamente porque o término de um madrigal é tão bonito, a luz do
entardecer transforma tudo em que toca em algo incomparavelmente mais belo), era como pedir por uma
vida de crepúsculos de estio, pela definitiva extinção dos outonos. Embora percebesse que enganava a si
mesma, por algumas ditosas semanas foi capaz de acreditar, fechando os olhos da razão, que a vida fizera
uma parada no paraíso e jamais retomaria sua longa e penosa caminhada. Era como se o abismo entre a
fantasia e a realidade tivesse sido abolido. A vida real e seus devaneios se confundiam a todo momento.
Suas fantasias não eram mais a confortante negação da realidade, pois realidade e fantasia já se
misturavam. Era uma felicidade sem pecado, porque nada acontecera, era tudo puramente espiritual; uma
felicidade como que celestial, à qual podia entregar-se sem reservas, sem medo ou autocensura. E quanto
mais se abandonava a esse sentimento, mais forte ele se tornava, até que ficou impossível guardá-lo para
si mesma. Um dia falou sobre isso no confessionário — discretamente, é claro, sem dar a entender,
segundo supunha, que era o próprio confessor o motivo dessas emoções.
As confissões sucediam-se. O pároco ouvia com atenção e de vez em quando fazia uma pergunta que
demonstrava quão longe estava de suspeitar da verdade, como fora completamente enganado por sua
inocente simulação. Ganhando coragem, Philippe contou-lhe tudo, tudo nos mais íntimos detalhes. Sua
felicidade nesta época parecia ter atingido o limite do possível e era uma espécie de paroxismo
permanente, um arrebatamento intenso que ela podia reavivar quando desejasse e prosseguir num renovar
eterno. Para sempre, para sempre. E depois veio o dia em que se descuidou e, em vez de “ele”, disse
“você”, e então, ao tentar se retratar, confundiu-se e, às suas indagações, rompeu a chorar e confessou a
verdade.
“Finalmente”, pensou Grandier, “finalmente!”
E então a coisa toda ficara fácil — só uma questão de palavras e gestos cuidadosamente dosados, de
uma ternura que atravessava etapas imperceptíveis, da profissionalmente cristã para a petrarquiana, e
desta para a totalmente humana e para o transcendental ego animal. A queda é sempre fácil, e neste caso haveria excesso de sofisma para facilitar a descida e, depois que o fundo houvesse sido atingido, toda a
absolvição que uma jovem pudesse desejar.
Alguns meses mais tarde, o envolvimento se concretizou. Francamente, foi um tanto decepcionante.
Por que não se contentara com a viúva?
Enquanto isso, para Philippe a plácida felicidade interior fora substituída pela assustadora realidade
da paixão declarada e compartilhada, pelos intermináveis tormentos das batalhas morais, pelas preces
pedindo forças para resistir, pelos juramentos de que nunca se entregaria, e, finalmente, numa espécie de
desespero, como se estivesse se lançando sobre um penhasco, pela capitulação. Esta não lhe trouxera
nada do que imaginara. Trouxera sim a revelação de um demente bestial em seu arcanjo e a descoberta,
nas profundezas de seu próprio corpo e mente, da vítima predestinada, a princípio, da mártir sofredora e
portanto feliz, e então, de repente, da terrível presença de uma estranha, tão diferente dela mesma quanto
a cruel personificação da paixão que se apresentava sob a figura do eloquente pregador, o humanista
espirituoso e extraordinariamente bem-educado por quem havia se apaixonado. Contudo, ela agora
compreendia que se apaixonar não era o mesmo que amar. Uma vez que alguém se apaixonava através de
uma concepção imaginária, logo se apaixonava apenas por uma abstração. Quando alguém amava, era a
um ser completo, e assim fazia-o numa entrega total, de corpo e alma, do seu eu e desse outro novo e
estranho eu, que penetrava e ultrapassava todas as fronteiras do primeiro. Era toda amor e só amor. Além
do amor nada existia, nada.
Nada? Com uma risadinha quase audível o destino fez saltar a armadilha que Philippe preparara
para si mesma. E lá estava ela, irremediavelmente encurralada entre a fisiologia e a regra social —
grávida mas solteira, em irredimível desonra. O inconcebível tornou-se tangível; o que estava fora de
cogitação era agora realidade. A lua mostrou-se por inteiro, em todo o seu esplendor por alguns dias,
depois foi se desvanecendo pouco a pouco, como a última esperança, e desapareceu. Não havia nada a
fazer senão morrer em seus braços — morrer e, se isso fosse impossível, ao menos esquecer-se por
alguns momentos, abstrair-se de seu eu.
Alarmado com tamanha violência e tão descuidada entrega, o pároco tentava suavizar sua paixão
imprimindo-lhe um estilo mais frívolo e menos trágico. Acompanhava suas carícias com oportunas
citações dos autores clássicos mais realistas. Quantum et quale latus, quam juvenile femur! [17]Nas
pausas do amor, ele contava histórias imorais extraídas das Dames galantes de Brantôme, sussurrava a
seu ouvido algumas das barbaridades tão cuidadosamente catalogadas por Sanchez no seu volume sobre
o matrimônio. Entretanto, a expressão de sua fisionomia não mudava. Era como se fosse um rosto de
mármore sobre uma sepultura, duro, indiferente, desprovido de vida. E, quando finalmente ela abria seus
olhos, era como se o encarasse de outro mundo, de um mundo onde só houvera sofrimento e um desespero
permanente. O olhar perturbava-o; mas às suas apreensivas indagações a única resposta era agarrá-lo
pela espessa cabeleira negra e atraí-lo para sua boca, seu colo e seios expostos.
Certo dia, no meio da história acerca das taças do rei Francisco destinadas às debutantes — aquelas
com posturas amorosas gravadas em seu interior e que se revelavam gradualmente a cada gole do vinho
que as ocultava —, ela o interrompeu com a brusca notícia de que ia ter um filho, caindo em seguida num
incontrolável acesso de choro.
Deslocando sua mão do seio para a cabeça inclinada e mudando de tom, passando sem transição do obsceno para o clerical, o pároco disse-lhe que devia carregar sua cruz com resignação cristã. Em
seguida, lembrando-se da visita que prometera fazer à desditosa sra. de Brou, que tinha um câncer no
útero e precisava muito de consolo espiritual, partiu.
Depois disso, estava sempre muito ocupado para dar-lhe aulas. A não ser no confessionário, Phillipe
jamais o viu sozinho. E nessas ocasiões tentava dirigir-se a ele como a uma pessoa — como ao homem a
quem amava e que, segundo ainda acreditava, amara-a também —, mas defrontava-se apenas com o
pároco, o transubstanciador do pão e do vinho, o que dava a absolvição e a penitência. Com quanta
eloquência ele a exortava a arrepender-se e recorrer à misericórdia divina! E, quando Philippe
mencionava o amor do passado, ele a censurava com uma indignação assim como que de profeta,
comprazendo-se em chafurdar em sua desonra; quando ela lhe perguntava desesperada o que fazer,
respondia-lhe com afetada emoção que, como uma cristã, ela deveria não só se resignar à humilhação que
Deus a ela destinara, mas aceitá-la e desejá-la com ardor. De sua própria participação na desventura da
jovem o pároco não permitia que ela falasse. Cada alma devia suportar o peso de seus próprios erros. Os
pecados que outros podiam ou não ter cometido não eram desculpas para nossos próprios pecados. Se
ela se dirigia ao confessionário era para pedir perdão pelo que fizera e não para examinar a consciência
dos outros. E, com isso, desnorteada e aos prantos, seria despachada.
O espetáculo de sua infelicidade não lhe despertou nem piedade nem remorso, mas apenas uma
sensação de ressentimento. O cerco tinha sido cansativo, a captura, sem glória e o prazer que se seguiu,
apenas razoável. E agora, com aquela súbita e inoportuna fertilidade, ela estava ameaçando sua
reputação, sua própria existência. Um bastardozinho, além de todos os seus outros problemas — seria
sua ruína! Jamais havia gostado realmente da menina, agora detestava-a de fato. E já não era mais nem
mesmo bonita: a gravidez e a preocupação tinham contribuído para dar-lhe a expressão de um cão
açoitado e a compleição de uma criança com vermes. Aliada ao restante, sua temporária falta de atrativos
fez com que se sentisse não só sem obrigações posteriores em relação a ela, como também prejudicado e,
além do mais, insultado por haver sido posto em dúvida seu bom gosto. Foi com a consciência leve que
tomou a atitude que teria tomado mesmo que se sentisse culpado, uma vez que não existia outra
alternativa plausível. Decidiu enfrentar a situação cinicamente, negando tudo. Não só agiria e falaria,
como até mesmo pensaria e sentiria em seu íntimo como se nada daquilo houvesse ou pudesse mesmo ter
acontecido, como se apenas a ideia de uma ligação íntima com Philippe Trincant fosse absurda, grotesca,
completamente fora de cogitação.
Le cœur le mieux donné tient toujours à demi,
Chacun s’aime un peu mieux toujours que son ami.[18]