Os Demônios de Loudun
Capítulo V
E então Grandier foi acusado de feitiçaria, e as ursulinas, de estarem possuídas pelos demônios. Lemos
essas declarações e sorrimos; mas antes que o sorriso se alargue ou estoure numa gargalhada, deixem-nos
tentar descobrir o significado atribuído a essas palavras na primeira metade do século xvii. E, uma vez
que nessa época a feitiçaria era um crime por toda parte, comecemos pelos aspectos legais do problema.
Sir Edward Coke, o mais notável advogado inglês do final da época elisabetana e do início do
reinado de Jaime i, definia um feiticeiro como “uma pessoa que tivesse entrevista com o diabo, para
consultá-lo ou para realizar qualquer ato”. Pelo Estatuto de 1563, a feitiçaria era punida com a morte
somente quando se podia provar que o bruxo havia tentado contra a vida de alguém. Mas, no primeiro
ano do reinado de Jaime, esse estatuto foi substituído por uma nova lei, mais rigorosa. Após 1603, o
crime capital não era mais o assassinato por meios sobrenaturais, mas o simples fato de ser declarado
feiticeiro. O ato praticado pelo acusado podia ser inofensivo, como no caso da adivinhação, ou mesmo
benéfico, como no caso de curas através de sortilégios e magias. Se houvesse prova de que fora
realizado através de “entrevista com o diabo” ou por processos mágicos realmente diabólicos, o ato era
criminoso e seu executor, condenado à morte.
Essa era uma lei inglesa e protestante; mas estava em pleno acordo com a lei canônica e a prática
católica. Kramer e Sprenger, os sábios autores dominicanos de Malleus maleficarum (por quase dois
séculos, o manual e vade mecum de todos os caçadores de bruxos, luteranos e calvinistas não menos que
os católicos), citam várias autoridades a fim de provar que a pena adequada para a feitiçaria,
quiromancia ou a prática de qualquer espécie de habilidade mágica, é a morte. “Porque bruxaria é alta
traição contra a majestade de Deus. E então os acusados devem ser torturados para que confessem.
Qualquer pessoa, seja qual for sua posição social, deve ser posta sob tortura a tal acusação. E, se for
considerado culpado, mesmo que confesse o crime, levem-no ao cavalete, que sofra todas as outras
torturas prescritas pela lei, para que sofra a punição adequada à sua ofensa.”[53]
Por detrás dessas leis, pairavam uma antiquíssima tradição de intervenção demoníaca em assuntos
humanos e, mais especificamente, as verdades reveladas de que o demônio é o soberano do mundo e
inimigo jurado de Deus e de Seus filhos. Algumas vezes o diabo trabalha por conta própria; outras vezes,
pratica suas maldades usando os seres humanos como instrumento. “E, se for indagado se o diabo tem
mais capacidade de prejudicar os homens e os animais por si mesmo ou através de um feiticeiro, deve
ser dito que não há termo de comparação entre os dois casos. Porque ele tem muito maiores
possibilidades de fazer o mal através da atuação de um bruxo. Em primeiro lugar, porque assim ele
ofende muito mais a Deus, apropriando-se de uma criatura a Ele destinada. Segundo, porque quando Deus
está mais magoado, permite a ele um maior poder para causar dano ao homem. E, em terceiro lugar, para
seu próprio proveito, que ele coloca na perdição das almas.”[54]
Em meio à cristandade da época medieval e do início da Idade Moderna, a situação dos feiticeiros e
seus clientes era quase que exatamente igual à dos judeus sob o jugo de Hitler, dos capitalistas durante o
governo de Stálin, dos comunistas e seus simpatizantes nos Estados Unidos. Eles eram olhados como
agentes de uma força estrangeira, no melhor das hipóteses impatrióticos e, na pior, traidores, hereges,
inimigos do povo. Morte era a pena imposta a esses quisling [55] do passado, e na maior parte do mundo
contemporâneo morte é a pena que espera os adoradores do demônio, leigos e políticos conhecidos aqui
como vermelhos, lá como reacionários. No século xix, brevemente liberal, homens como Michelet
encontraram dificuldade não somente em perdoar, mas até mesmo em entender a selvageria com que os
feiticeiros haviam sido tratados. Muito severos em relação ao passado, eram ao mesmo tempo bastante
complacentes em relação ao seu tempo e otimistas demais com respeito ao futuro — a nós! Eram
racionalistas que ingenuamente imaginavam que a decadência da religião tradicional poria um fim a
crueldades tais como a perseguição aos hereges, torturas e o lançar das bruxas à fogueira, Tantum religio
potuit suadere malorum.[56] Entretanto, olhando para o passado e para diante de nosso ponto
privilegiado do percurso descendente da história moderna, podemos agora perceber que todos os males
da religião podem medrar sem nenhuma crença no sobrenatural, que materialistas convictos estão
dispostos a adorar suas próprias criações sem fundamento como se fossem o Absoluto, e que pretensos
humanistas perseguirão seus adversários com toda a veemência dos inquisidores, exterminando os
devotos de um Satã particular e transcendente. Tais modelos de comportamento antecederam e
sobreviveram às crenças que num dado momento pareciam motivá-los. Poucas pessoas hoje em dia
acreditam no diabo; mas muitas gostam de proceder como seus ancestrais faziam na época em que o
demônio era uma realidade tão inquestionável quanto seu Oposto. Com o objetivo de justificar seu
comportamento, transformam suas teorias em dogmas, seus regulamentos em verdades fundamentais, seus
chefes políticos em deuses e todos aqueles que deles discordam em demônios encarnados. Essa
transformação idólatra do relativo em Absoluto e do inteiramente humano em divino torna-lhes possível
serem indulgentes em relação às suas mais revoltantes paixões com a consciência limpa e na certeza de
que estão trabalhando pelo supremo bem. E, quando as crenças em voga passam por sua vez a parecer
tolas, uma nova tendência será inventada, de forma que a antiquíssima loucura prossiga usando seu
disfarce habitual de legalidade, idealismo e verdadeira religião.
Em princípio, como vimos, a lei em relação à bruxaria era excessivamente simples. Qualquer pessoa
que deliberadamente tivesse relações com o diabo era culpada de crime capital. Na prática, explicar
como essa lei era aplicada exigiria muito mais espaço que este do qual dispomos. Basta dizer que,
enquanto alguns juízes assumiam uma posição claramente preconceituosa, muitos faziam o que podiam
para proporcionar ao acusado um julgamento justo. Mas até mesmo um julgamento justo era, de acordo
com nossos atuais padrões ocidentais, uma caricatura monstruosa da justiça. “As leis”, lemos no Malleus
maleficarum, “permitem que qualquer testemunha seja admitida como prova contra eles.” E não só toda a
gente, incluindo crianças e seus inimigos mortais, era aceita como testemunha; toda espécie de prova era
também admitida — boatos, mexericos, deduções, sonhos recordados, declarações feitas por possuídos.
Sempre de acordo com os regulamentos, a tortura era frequentemente (embora com algumas exceções)
utilizada para obter confissões. E com a tortura vinham as falsas promessas em relação à sentença final.
No Malleus,[57] essa questão das falsas promessas é discutida com a argúcia e meticulosidade habituais aos autores. Há três alternativas possíveis. Se o juiz escolhe a primeira, pode prometer à bruxa conservar
sua vida (sob a condição, é claro, de que ela revele os nomes das outras bruxas) e pode pretender manter
a promessa. A única fraude que pratica é levar a crer ao acusado que a pena de morte será comutada para
alguma punição leve, tal como o exílio, quando em seu íntimo já decidiu condená-la à prisão perpétua em
solitária a pão e água.
Uma segunda alternativa é preferida por aqueles que pensam que, “após ser colocada na prisão
nessas condições, a promessa de poupar sua vida pode ser mantida por algum tempo, mas que depois de
um determinado período ela será queimada”.
“Uma terceira opinião é de que o juiz pode prometer sem risco a vida à acusada, mas de tal modo
que depois poderá renunciar à obrigação de proferir a sentença, incumbindo outro juiz em seu lugar.”
(Que riqueza de significado nesta pequena expressão, “sem risco”! O hábito de mentir coloca a alma
do mentiroso em situação um tanto perigosa. Ergo, se acha conveniente mentir, não se esqueça de fazer as
restrições mentais que servirão para que você se sinta — senão os outros, ou Deus que certamente não
será iludido — um digno candidato ao paraíso).
Aos olhos ocidentais contemporâneos, o aspecto mais absurdo, como também o mais injusto, de um
julgamento de bruxas na época medieval ou no início da Idade Moderna, era o fato de que quase qualquer
acontecimento estranho ou calamitoso do cotidiano podia legalmente ser tratado como resultado da
intervenção diabólica levada a efeito pelas artes mágicas de um feiticeiro. Aqui temos, por exemplo, um
componente do depoimento segundo o qual uma das duas bruxas julgadas em 1664, em Bury St. Edmunds,
diante do futuro presidente do Supremo Tribunal de Justiça, sir Matthew Hale, foi condenada à forca.
Durante uma discussão, a acusada amaldiçoara e ameaçara um de seus vizinhos. Depois disso, o homem
asseverou, “tão logo suas porcas deram cria, os bacorinhos saltaram e fizeram cabriolas, caindo mortos
em seguida”. E isso não era tudo. Um pouco depois, viu-se “atormentado por uma praga de piolhos de
tamanho extraordinário”. Contra tais insetos sobrenaturais os métodos correntes de assepsia eram inúteis,
e a testemunha não teve alternativa senão jogar ao fogo dois de seus melhores trajes. Matthew Hale era
um juiz imparcial, partidário da moderação, um homem de grandes conhecimentos, tanto científicos como
literários e jurídicos. Que levasse a sério tal tipo de prova agora nos parece quase inacreditável.
Contudo, é fato consumado que assim agiu. O motivo deve ser procurado, presumivelmente, no fato de
Hale ser excessivamente devoto, como todos os demais. Mas, numa época fundamentalista, a devoção
compreendia a crença num demônio particular e no dever de dizimar as bruxas que eram suas servas.
Além disso, conferindo veracidade a tudo que constava da tradição judaico-cristã, havia uma
probabilidade de que, se precedidas por uma maldição de uma mulher velha, a morte dos bacorinhos e a
praga de piolhos fossem acontecimentos sobrenaturais, devido à intervenção de Satã em benefício de um
de seus adoradores.
Às tradições bíblicas de demônios e bruxas haviam sido somadas inúmeras superstições populares
que chegaram finalmente a ser tratadas com a mesma veneração devida às verdades reveladas da
Escritura. Como exemplo, temos, até o final do século xvii, todos os inquisidores e a maioria dos
magistrados civis aceitando sem questionar a validade do que podemos chamar de teste físico de
bruxaria. O corpo do acusado exibia marcas incomuns? Poderia se encontrar em alguma mancha
insensibilidade à espetada de uma agulha? Haveria, acima de tudo, alguma daquelas “pequenas tetas” ou mamilos excedentes, onde algum demônio familiar — sapo ou gato — pudesse sugar e engordar? Nesse
caso, o suspeito era sem dúvida um feiticeiro; porque segundo a tradição esses eram os estigmas e
símbolos com os quais o diabo marcava seus seguidores. (Uma vez que nove por cento de todos os
machos e um pouco menos de cinco por cento de todas as fêmeas nascem com mamilos extras, jamais
houve escassez de vítimas predestinadas. A natureza cumpria meticulosamente a sua parte; os juízes, com
seus postulados irretorquíveis e verdades fundamentais, faziam o resto.)
Entre as outras superstições populares que se solidificaram em axiomas, há três que merecem ao
menos uma breve menção devido aos tremendos sofrimentos que acarretaram. São as crenças de que,
evocando a ajuda do diabo, as bruxas podem causar tempestades, doenças e impotência sexual. No
Malleus, Kramer e Sprenger tratam esses conceitos como verdades comprovadas, estabelecidas não
apenas pelo senso comum mas também pela autoridade dos maiores sábios. “São Tomás, em seu
comentário sobre Jó, diz o seguinte: Temos de admitir que, com a permissão de Deus, os demônios
podem alterar a atmosfera, provocar ventanias e fazer relâmpagos caírem do céu. Porque, embora no
tocante a tomar várias formas, a natureza corpórea não esteja sob as ordens de nenhum anjo, bom ou mau,
mas apenas sob a de Deus o Criador, ainda assim tem de obedecer à natureza espiritual. [...] Contudo os
ventos, a chuva e outros fenômenos semelhantes da atmosfera podem ser causados pelo mero movimento
dos vapores que emanam da terra e da água; portanto, os poderes naturais do demônio são suficientes
para provocar tais coisas. Assim fala são Tomás.”[58]
Em relação às doenças, “não existe enfermidade, nem mesmo a lepra ou a epilepsia, que não possa
ser causada pelas bruxas, com a permissão de Deus. E isso fica provado pelo fato de que nenhum tipo de
enfermidade é rejeitada pelos doutores”.[59]
A autoridade dos médicos é confirmada pelas observações pessoais de nosso homem de letras.
“Porque muitas vezes descobrimos que algumas pessoas foram acometidas de epilepsia ou ‘mal caduco’
através de ovos que haviam sido enterrados juntamente com cadáveres, especialmente os de feiticeiros
[...] principalmente quando foram servidos na comida ou bebida.”[60]
Em relação à impotência, nossos autores fazem uma clara distinção entre o tipo comum e o
sobrenatural. A impotência comum é a incapacidade de ter relações sexuais com qualquer membro do
sexo oposto. A sobrenatural, causada por feitiços e demônios, é a incapacidade de relação com apenas
uma pessoa (principalmente marido ou mulher), permanecendo a potência inalterável em relação a todos
os outros membros do sexo oposto. Devemos observar, dizem os autores, que Deus permite que sejam
realizados mais feitiços em relação às funções reprodutivas do que em qualquer outro setor da vida
humana, e o motivo é que, desde a queda, existe em tudo que diz respeito ao sexo “uma sedução maior do
que no caso de outras atividades humanas”.
Tempestades devastadoras não são pouco comuns, impotência com relação a determinadas pessoas
afeta a maioria dos homens uma vez ou outra, e a doença nunca falta. Num mundo onde a lei, a teologia e
a superstição popular concordam em atribuir aos feiticeiros a responsabilidade por essas ocorrências
diárias, as justificativas para espionar e as oportunidades para a delação e a perseguição eram
inumeráveis. No auge da caça às bruxas no século xvi, a vida social em determinadas regiões da
Alemanha deve ter sido muito semelhante àquela sob o domínio nazista ou num país recentemente
dominado pelos comunistas.
Sob tortura, movido por um sentimento de dever ou sob alguma compulsão histérica, um homem
denunciaria sua mulher, uma mulher, a suas melhores amigas, uma criança, a seus pais, um criado, ao seu
amo. Esses não eram os únicos males a serem encontrados numa sociedade obcecada pelo diabo. As
incessantes sugestões de feitiçaria e as advertências diárias contra o demônio tinham um efeito
desastroso sobre muitos indivíduos. Alguns dos mais assustadiços enlouqueciam, outros chegavam
mesmo a morrer devido ao medo obsedante. Quanto aos ambiciosos e rancorosos, esse constante falar
sobre os perigos do sobrenatural tinha efeito completamente oposto. Com o objetivo de conseguir as
vantagens que cobiçavam com sofreguidão, homens como Bothwell, mulheres como a sra. de Montespan,
estavam dispostos a aproveitar os recursos da magia negra para seus fins criminosos. E se alguém sentia-
se oprimido ou frustrado, se alguém guardava algum ressentimento contra a sociedade em geral ou um
vizinho em particular, o que haveria de mais natural do que apelar para aqueles que, de acordo com são
Tomás e os outros, eram capazes de causar estragos tão grandes? Pelo fato de darem tão grande
importância ao demônio e por tratarem a feitiçaria como o mais hediondo dos crimes, os teólogos e os
inquisidores na verdade difundiram as crenças e estimularam as práticas que tentavam reprimir de forma
tão implacável. No início do século xviii, a feitiçaria havia cessado de ser um problema social sério. Ela
foi esquecida, entre outras razões, porque quase ninguém então se lembrava de reprimi-la. Quanto menos
reprimida, menos difundida. A atenção se deslocara do sobrenatural para o natural. De 1700 até os dias
de hoje, todas as perseguições no Ocidente têm sido leigas e, pode-se dizer, humanísticas. Para nós, o
mal radical deixou de ser metafísico e tornou-se político ou econômico. E aquele mal radical não se
personifica em bruxos e mágicos (pois gostamos de nos definir como positivistas), mas nos
representantes de uma classe ou nação odiada. Os agentes provocadores das ações e a maneira de
encará-los sofreram certa mudança, mas os ódios que daí decorrem e as atrocidades cometidas em seu
nome são todos bastante conhecidos.
A Igreja, como temos visto, ensinava que a feitiçaria era uma realidade terrível e onipresente, e a lei
aquiesceu a esses ensinamentos com a devida desumanidade. Até que ponto a opinião pública estava de
acordo com o ponto de vista oficial acerca do assunto? O modo de ver da maioria não atuante e
analfabeta só pode ser inferido através de suas ações relatadas e das observações dos instruídos.
Em seu capítulo dedicado ao enfeitiçamento de animais, o Malleus lança luz sobre um aspecto
curioso da vida numa aldeia medieval, da qual os sentimentalistas, cujo desgosto do presente os cega
para os horrores menores do passado, ainda guardam nostálgica saudade. “Não existe”, lemos, “uma
fazenda, por menor que seja, onde as mulheres não prejudiquem as vacas das outras fazendo secar seu
leite (por meio de feitiços) e matando-as frequentemente.” Passadas quatro gerações, encontramos nos
escritos de dois teólogos ingleses, George Gifford e Samuel Harsnett, narrativas absolutamente
semelhantes sobre a vida rural numa sociedade perseguida pelo demônio. “Uma mulher”, escreve
Gifford, “briga encarniçadamente com seu vizinho; daí se segue algum grande prejuízo. [...] Cria-se um
clima de suspeita. Alguns anos depois, ela entra em conflito com outro. Este também é amaldiçoado. O
caso espalha-se com alarde. A tia W é uma bruxa. [...] Bem, a tia W começara a ser muito desagradável e
ameaçadora para várias pessoas, seus vizinhos não ousavam dizer nada, mas em seu íntimo desejavam
que ela fosse enforcada. Logo depois outro caiu doente e começou a definhar. Os vizinhos iam visitá-lo.
“Ora, vizinho”, disse um, “você não suspeita de nenhuma conduta maldosa? Você nunca irritou a tia W?”
“Na verdade, vizinho”, respondeu o outro,“há muito tempo que não vou com a cara dessa mulher. Não sei
como eu poderia ter aborrecido a ela, a não ser no outro dia em que eu e minha mulher pedimos que
deixasse as galinhas dela fora do nosso jardim. [...] Eu acho mesmo que ela me enfeitiçou.” Todo mundo
já dizia então que a tia W era mesmo uma bruxa. [...] Não havia mais dúvida, pois houve quem visse uma
doninha correndo do pátio da casa dela para o quintal do doente pouco antes deste cair de cama. O
doente morre e antes do desfecho jura que sua morte é obra de feitiçaria. Tia W é então detida e levada à
prisão; é chamada a juízo e condenada, já no patíbulo jura, antes de morrer, que é inocente.”[61] E aqui
temos o que Harsnett escreve em sua Declaration of egregious popish impostures: “Ora essa, então
tomem cuidado, olhem a sua volta, meus vizinhos! Se algum de vocês tem um carneiro doente com
cenurose, ou um porco sofrendo de parotidite, ou um cavalo com encefalite, ou um garoto safado na
escola, ou uma menina indolente para o trabalho, ou uma jovem rameira mal-humorada que não tem
gordura suficiente para o caldo, nem seu pai e sua mãe, manteiga bastante para seu pão, [...] e além disso
a velha tia Nobs chamou-a por acaso de “jovem vagabunda” ou mandou o diabo arranhá-la, então não
existe dúvida de que a tia Nobs é uma bruxa.”[62] Esses retratos das comunidades rurais solidamente
fundamentadas na superstição, temor e maldade coletiva são singularmente depressivos ainda mais por
serem tão recentes, tão comuns e atualizados. Eles nos fazem recordar forçosamente certas páginas de A
vigésima quinta hora e 1984 — páginas nas quais o romeno descreve os acontecimentos de pesadelo do
presente e de um passado próximo, o inglês antecipa um futuro ainda mais diabólico.
As narrativas precedentes, feitas por homens cultos sobre a opinião pública não articulada, são
suficientemente esclarecedoras. Contudo os fatos falam ainda mais alto que as palavras, e uma sociedade
que periodicamente condena seus feiticeiros à morte, declara abertamente sua fé na magia e seu medo do
diabo. Aqui temos um exemplo retirado da história francesa, e quase contemporâneo aos eventos
narrados neste livro. No verão de 1644, após uma tempestade violenta e destrutiva acompanhada de
granizo, os habitantes de várias aldeias próximas a Beaune reuniram-se em bando a fim de se vingarem
dos demônios revestidos de forma humana que haviam então impiedosamente arruinado suas colheitas.
Sob a liderança de um garoto de dezessete anos que afirmava ter um faro infalível para descobrir bruxas,
agarraram um grupo de mulheres e espancaram-nas até a morte. Outros suspeitos foram queimados com
pás em brasa, lançados a fornos de olaria ou atirados de cabeça para baixo de grandes alturas. Com o
objetivo de pôr um fim a esse horrível reinado do terror, o Parlamento de Dijon teve de enviar
comissários especiais à frente de um forte choque de polícia.
Observamos então que a opinião pública inarticulada estava de pleno acordo com os teólogos e os
homens da lei. Entre os esclarecidos, porém, não havia tanta unanimidade de opinião. Kramer e Sprenger
escrevem com indignação sobre aqueles — e no fim do século xv já eram bastante numerosos — que
duvidam da veracidade da feitiçaria. Ressaltam que todos os teólogos e professores de direito canônico
são unânimes em condenar o erro “daqueles que dizem não existir feitiçaria no mundo, a não ser na
imaginação dos homens que, por seu desconhecimento das causas ocultas, as quais nenhum homem ainda
conseguiu compreender, atribuem à feitiçaria determinados resultados, como se não fossem
consequências de causas ocultas, mas de obras de demônio feitas por eles mesmos ou em comunhão com
bruxas. E, embora todos os outros doutores condenem esse erro como simples impostura, são Tomás o
combate com mais energia e o classifica como verdadeira heresia, dizendo que provem fundamentalmente
da infidelidade.”[63]
Essa conclusão teórica levanta um problema prático. Pergunta-se se as pessoas que afirmam que não
existem bruxas devem ser vistas como hereges manifestos ou como seriamente suspeitos de terem
opiniões heréticas. Parece que a primeira ideia é a correta. Mas, embora todas as pessoas
“declaradamente culpadas de tão perniciosa crença” mereçam excomunhão com todas as punições que
daí decorrem, “devemos levar em consideração o grande número de pessoas que devido à sua ignorância
cometerão tal erro. E, uma vez que o erro é tão frequente, o rigor da justiça deve ser abrandado pela
misericórdia.” Por outro lado, “nenhum homem deve pensar que pode se salvar alegando ignorância. Pois
aqueles que enveredaram pelo mau caminho devido a esse tipo de ignorância podem ser julgados como
tendo pecado gravemente.”
Em suma, a posição oficial da Igreja era tal que, embora desacreditar em bruxaria fosse sem dúvida
uma heresia, o incrédulo não estava em perigo de castigo imediato. Permanecia contudo sob grave
suspeita e, se persistisse em sua falsa doutrina após ter conhecimento da verdade católica, podia se
envolver em sérias dificuldades. Daí a cautela demonstrada por Montaigne no décimo primeiro capítulo
de seu Terceiro Livro. “As bruxas de minha vizinhança ficam em perigo de vida quando alguém traz
testemunho novo sobre a realidade de suas visões. Para conciliar os exemplos que a Sagrada Escritura
nos dá de tais coisas — os mais dignos de confiança e irrefutáveis — e compará-los com aqueles que
acontecem nos tempos atuais, desde que não podemos compreender nem as razões nem os meios pelos
quais aconteceram, seria necessária uma ingenuidade maior que a nossa.” Talvez só Deus possa nos
esclarecer o que é ou não é um milagre. Devemos crer em Deus; mas temos de acreditar num simples
homem, “um de nós que deve forçosamente estar atônito, se não estiver fora de seu juízo”. E Montaigne
conclui com uma daquelas sentenças excelentes que merecem ser gravadas sobre o altar de cada igreja,
sobre o assento de cada juiz, nas paredes de cada salão de conferências, cada Senado e Parlamento, cada
gabinete governamental e câmara administrativa. “Afinal” (escreva as palavras em néon, escreva em
letras do tamanho de homens!) “afinal, é dar um valor muito exagerado às nossas conjeturas a ponto de
queimar um homem vivo baseando-nos nelas.”
Meio século depois, Selden mostrou-se menos cauteloso, mas também menos complacente. “A lei
contra as bruxas não prova que elas existem; mas castiga a intenção criminosa daquelas pessoas que usam
de tais recursos para tirar a vida de seus semelhantes. Se alguém declara que, com o girar o chapéu três
vezes e o grito de “Buzz”, poderia ceifar uma vida humana, mesmo que na verdade não pudesse fazer tal
coisa, seria contudo uma lei justa criada pelo Estado que, quem quer que fosse que girasse seu chapéu
três vezes e gritasse “Buzz” com a intenção de tirar a vida de um homem, fosse executado.” Selden era
suficientemente cético para desaprovar a promoção das conjeturas à categoria de dogmas; mas ao mesmo
tempo tinha bastante de um jurista para julgar que queimar um homem vivo pelo fato de imaginá-lo um
feiticeiro era justo e adequado. Montaigne fora também criado para advogado; contudo, sua mente se
recusara obstinadamente a aceitar o estigma legalístico. Quando pensava em bruxas, punha-se a levar em
conta não sua maldade merecedora de punição, mas sua doença talvez não incurável. “Em consciência”,
escreve, “eu lhes receitaria heléboro” (uma droga que supunham ser eficiente para afastar a melancolia e
portanto para curar a loucura) “em vez de cicuta”.
Os primeiros ataques sistemáticos contra a prática de caça às bruxas e a teoria da intervenção diabólica veio do médico holandês Johann Weyer, em 1563, e de Reginald Scot, o principal proprietário
de Kentish, que publicou sua Discoverie of Witchcraft em 1584. O não conformista Gifford e o anglicano
Harsnett compartilhavam do ceticismo de Scot em relação aos casos contemporâneos de feitiçaria, mas
não puderam ir tão longe quanto ele ao questionar as referências bíblicas à possessão, magia e pactos
com o diabo.
Em oposição aos céticos, encontramos uma notável sucessão de crentes. Primeiro em relação tanto à
sua importância quanto à época, encontra-se Jean Bodin, que nos conta que escreveu seu De la
démonomanie des sorciers, entre outras razões, “para servir como resposta para aqueles que tentaram de
todas as formas em seus livros isentar de culpa os feiticeiros; a tal ponto que pareciam estar eles
próprios sob a influência do diabo ao publicarem aqueles livros rebuscados”. Tais céticos, reflete Bodin,
merecem ser condenados a morrer na fogueira junto com as bruxas que com suas objeções protegem e
justificam.
Em sua Daemonologie, Jaime i assume a mesma atitude. O racionalista Weier, diz ele, faz a apologia
dos feiticeiros e, através de seu livro, “ele se trai mostrando ser um dos que praticaram aqueles rituais”.
Entre os contemporâneos ilustres de Jaime i, sir Walter Raleigh e sir Francis Bacon parece que
ficaram do lado dos que acreditavam. Mais tarde, no mesmo século, vamos encontrar a questão da
feitiçaria sendo discutida na Inglaterra por filósofos como Henry More e Cudworth, por médicos ilustres
e homens de estudo tais como sir Thomas Browne e Glanvill, e por advogados de grande capacidade
como sir Matthew Hale e sir George Mackenzie.
Na França do século xvii, todos os teólogos aceitavam a feitiçaria como realidade; mas nem todo o
clero praticava a caça às bruxas. Para muitos, tudo aquilo parecia extremamente indecoroso e uma
ameaça à ordem das coisas e à tranquilidade pública. Censuravam o empenho de seus colegas mais
fanáticos e faziam tudo o que podiam para refreá-los. Entre os advogados a situação era semelhante.
Alguns deles ficavam felicíssimos em queimar uma mulher “pour avoir, en pissant dans un trou,
composé une nuée de grêle qui ravagea le territoire de son village” [64] (esse lançamento à fogueira
aconteceu em Dôle em 1610); mas havia outros, os moderados, que sem dúvida acreditavam no conceito
sobre as bruxas, mas na prática não se mostravam dispostos a agir contra elas.
Entretanto, numa monarquia absoluta, o parecer decisivo cabe ao rei. Luís xiii estava muito
preocupado com o demônio, mas o mesmo não acontecia com seu filho. Em 1672, Luís xiv ordenou que
todas as pessoas que haviam sido recentemente condenadas por bruxaria pelo Parlamento de Rouen
deveriam ter suas sentenças comutadas para o exílio. O Parlamento protestou; contudo seus argumentos,
tanto teológicos quanto jurídicos, não comoveram o monarca. Não queria que aquelas bruxas fossem
queimadas e isso era tudo.
Ao considerarmos os acontecimentos que se sucederam em Loudun, devemos distinguir claramente
entre a alegada possessão das freiras e a razão declarada dessa possessão — as artes mágicas utilizadas
por Grandier. No que segue, tratarei essencialmente da questão da culpa de Grandier, deixando o
problema da possessão para ser discutido em um capítulo posterior.
O padre Tranquille, membro de um dos primeiros grupos de exorcistas, publicou em 1634 uma True
Relation of the Just Proceeding Observed in the Matter of the Possession of the Ursulines of Loudun
and in the Trial of Urbain Grandier. O título é enganador; pois o folheto não é um verdadeiro relato de coisa alguma, mas tão somente uma defesa polêmica e empolada dos exorcistas e dos juízes contra um
ceticismo evidentemente geral e uma desaprovação quase universal. É claro que em 1634 as pessoas
mais esclarecidas duvidavam da veracidade da possessão das freiras, estavam convencidas da inocência
de Grandier e sentiam-se escandalizadas e revoltadas com a forma injusta como fora conduzido seu
julgamento. O padre Tranquille apressou-se em recorrer à palavra impressa na esperança de que um
pouco de eloquência sacra levaria seus leitores a uma melhor disposição de espírito. Seus esforços não
foram bem-sucedidos. Na verdade, o rei e a rainha acreditavam firmemente; mas quase todos os seus
cortesãos não os acompanhavam na crença. Das pessoas pertencentes à nobreza que foram assistir aos
exorcismos, pouquíssimas acreditaram na veracidade da possessão — e certamente, se a possessão não
era verdadeira, então Grandier não podia ser culpado. A maioria dos médicos visitantes partiram com a
convicção de que os fenômenos aos quais haviam presenciado eram todos absolutamente naturais.
Ménage, Théophraste Renaudot, Ismaël Boulliau — todos os homens de letras que escreveram sobre
Grandier após sua morte defenderam obstinadamente sua inocência.
Do lado dos crentes estava a grande massa de católicos analfabetos. (Os analfabetos protestantes,
nem é preciso dizer, eram nessa questão unanimemente céticos.) Parece indiscutível que todos os
exorcistas acreditavam na autenticidade da possessão e na culpa de Grandier. Acreditavam até mesmo
quando, como Mignon, ajudaram a falsificar as provas que enviaram Grandier ao cadafalso. (A história
do espiritualismo deixa bastante claro que a fraude, especialmente a religiosa, é perfeitamente
compatível com a fé.) Sobre as opiniões do clero em sua totalidade, quase nada sabemos. Como
exorcistas profissionais, os membros das ordens religiosas estavam presumivelmente do lado de Mignon,
Barré e todos os demais. Mas e os padres seculares? Sentiriam-se inclinados a acreditar e a pregar que
um de seus membros havia vendido sua alma ao diabo e enfeitiçado dezessete ursulinas?
Sabemos pelo menos que entre o mais alto clero as opiniões estavam claramente divididas. O
arcebispo de Bordeaux estava convencido de que Grandier era inocente e que as freiras estavam
sofrendo de uma combinação do cônego Mignon com o furor uterinus. Por outro lado, o bispo de Poitiers
estava convencido da real possessão das freiras e de que Grandier era um feiticeiro. E quanto à suprema
autoridade eclesiástica, quanto ao cardeal-duque? Num determinado contexto, como veremos, Richelieu
era completamente cético; em outro, ele exibia a fé de um acendedor de fogueiras. A coisa era na verdade
uma mistificação; e contudo, num sentido esotérico, e até mesmo num sentido não esotérico, era tudo
perfeitamente verídico. Magia, fosse branca ou negra, era a ciência e arte de atingir os fins terrenos
através de meios sobrenaturais (embora não divinos). Todos os feiticeiros faziam uso de magia e dos
poderes dos espíritos maus, mas alguns deles eram também adeptos do que na Itália se chamava de la
vecchia religione.
“A fim de esclarecer a questão”, escreve a srta. Margaret Murray na introdução de sua valiosa
pesquisa, The Witch-Cult in Western Europe, “eu faço uma acentuada distinção entre a feitiçaria atuante
e a feitiçaria ritualística. Como feitiçaria atuante classifico todos os encantamentos e fórmulas mágicas
utilizadas ou por um feiticeiro declarado ou por um cristão professo, seja com boa ou má intenção, para
curar ou matar. Tais encantamentos e magias são comuns a todos os povos e países, e são postos em
prática por padres e pessoas de todas as religiões. São parte da herança comum da raça humana. [...] A
feitiçaria ritualística — ou, como a denominarei, o dianismo — inclui as crenças religiosas e os rituais das pessoas conhecidas no fim da época medieval como “bruxas”. Os dados demonstram que subjacente
à religião cristã havia um culto praticado por muitas camadas da sociedade, principalmente, entretanto,
pelos menos esclarecidos ou por aqueles que habitavam as regiões menos populosas do país. Suas
origens remetem à época antes de Cristo e parecem ser a antiga religião da Europa Ocidental.”
Naquele ano da graça de 1632, já haviam se passado mais de mil anos desde que a Europa se
“convertera ao cristianismo”; e contudo a antiga religião da fertilidade, consideravelmente corrompida
pelo fato de se encontrar permanentemente “contra o governo”, continuava atuante, ainda se gabava de
seus mártires heroicos que confessavam sua fé, ainda tinha uma ordem eclesiástica — idêntica, segundo
Cotton Mather, à de sua própria Igreja congregacional. O fato de a antiga crença sobreviver não é de
espantar tanto, quando lembramos que, após quatro séculos de esforços missionários, os índios da
Guatemala não são mais acentuadamente católicos hoje em dia do que o eram na primeira geração depois
da chegada de Alvarado.[65] Dentro de setecentos ou oitocentos anos a situação religiosa na América
Central pode vir a parecer talvez com aquela que prevaleceu no século xvii na Europa, em que uma
maioria de cristãos perseguiu implacavelmente uma minoria apegada à mais antiga fé.
(Em algumas regiões, os membros do dianismo e seus simpatizantes podem haver realmente
constituído a maioria da população. Rémy, Boguet e De Lancre deixaram anotações respectivamente
sobre Lorraine, Jura e a região basca, narrando como as encontraram no início do século xvii. A partir de
seus livros fica evidente que nesses lugares remotos a maioria das pessoas era, pelo menos até certo
ponto, da antiga religião. Garantindo-se dos dois lados, adoravam a Deus durante o dia e à noite, ao
diabo. Entre os bascos, muitos padres costumavam celebrar as duas espécies de missa, tanto a branca
quanto a negra. Lancre queimou três desses excêntricos sacerdotes, perdeu cinco que escaparam da cela a
que estavam confinados e tinha fortes suspeitas de uma série de outros.)
A cerimônia principal da feitiçaria ritualística era o denominado “sabá” — uma palavra de origem
desconhecida, sem relação com sua homônima hebraica. O sabá era celebrado quatro vezes por ano — na
Festa da Candeia, a 2 de fevereiro; no Dia da Missa da Cruz, a 3 de maio; na Festa de Colheita, a 1º de
agosto, e na véspera do Dia de Todos os Santos, a 31 de outubro. Eram grandes festejos, com frequência
assistidos por centenas de devotos que vinham de grandes distâncias. Entre os sabás havia “esbats”
semanais para pequenas congregações, nas aldeias onde a antiga religião ainda era praticada. Em todos
os sabás importantes o diabo estava sempre presente na pessoa de algum homem que houvesse herdado
ou adquirido a honra de ser a encarnação do deus bifronte do dianismo. Os adoradores prestavam
homenagem ao deus beijando sua face reversa — usando uma máscara, além de uma cauda de animal nas
costas do diabo. Ao menos entre algumas das devotas havia então uma cópula ritual com o deus, que era
equipado para isso com um falo artificial de chifre ou metal. Essa cerimônia era seguida por um
piquenique (porque os sabás eram celebrados ao ar livre, próximos a árvores ou pedras sagradas),
danças e finalmente uma orgia promíscua que originalmente fora, sem dúvida, um processo mágico para
aumentar a fertilidade dos animais de que os caçadores e pastores primitivos dependiam para a sua
sobrevivência. A atmosfera predominante nos sabás era de boa camaradagem e de alegria descuidada e
embrutecida. Quando presos e levados ao tribunal, muitos daqueles que haviam participado do sabá
recusavam-se terminantemente, mesmo sob tortura, mesmo no cadafalso, a abjurar a religião que lhes
proporcionara tanta felicidade.
Aos olhos da Igreja e dos juízes leigos, a qualidade de membro participante das festas diabólicas
era um agravante para o crime de feitiçaria. Uma bruxa que frequentara o sabá era mais culpada que outra
que se restringisse a práticas privadas.
Participar do sabá era declarar abertamente preferir o dianismo ao cristianismo. Além disso, a
confraria das bruxas era uma sociedade secreta que poderia ser utilizada por líderes ambiciosos para fins
políticos. Parece certo que Bothwell fez uso naquela época de covis de bruxas na Escócia. Ainda mais
verdadeiro é o fato de que Elizabeth e seu conselho privado estavam convencidos, com ou sem razão, de
que católicos nativos e estrangeiros estavam contratando bruxas e mágicos para tirarem a vida da rainha.
Na França, segundo Bodin, os feiticeiros constituíam uma espécie de máfia, com membros em todas as
camadas da sociedade e ramificações em cada cidade e aldeia.
Visando fazer seu crime parecer mais abominável, Grandier foi acusado durante o julgamento não só
de feitiçaria atuante, mas também de participação nos ritos do sabá como membro da diabólica Igreja.
O espetáculo então evocado de um aluno dos jesuítas renunciando formalmente ao seu batismo, de
um padre saindo apressado do altar para render homenagens ao demônio, de um sacerdote sério e
instruído dançando a giga com feiticeiros e deitando-se sobre o feno com um bando de bruxas, cabras e
íncubos, era algo bem calculado para aterrorizar os devotos, divertir os espectadores e trazer alegria aos
protestantes.