Os Demônios de Loudun

Aldous Huxley · Capítulo 7 de 14

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Os Demônios de Loudun

Capítulo VII

 

I

 

Em determinadas épocas e locais, certos pensamentos são inconcebíveis. Contudo, essa

característica radical de certos pensamentos não é acompanhada pela neutralização radical de certas

emoções ou pela impraticabilidade de realizar ações provocadas por tais emoções. Qualquer coisa pode

ser sentida e realizada mesmo que às vezes com grande dificuldade e em meio à desaprovação geral.

Mas, embora os indivíduos possam sempre sentir e fazer o que seu temperamento e caráter lhes

permitem, não podem refletir acerca de suas experiências a não ser dentro de um sistema de referências

que pareça lógico naquele determinado tempo e lugar. A interpretação concorda com o modelo de

pensamento dominante, o qual restringe até certo ponto a expressão de anseios e emoções, mas jamais

consegue inibi-la completamente. Por exemplo, uma firme crença na condenação eterna pode coexistir na

mente do fiel com o conhecimento de que se está cometendo pecado mortal. A esse respeito, permitam-

me citar as observações bastante acertadas de Bayle, inseridas num comentário sobre Thomas Sanchez,

aquele sábio jesuíta que em 1592 publicou um volume sobre o casamento que seus contemporâneos e

sucessores diretos consideraram o livro mais imoral que já fora escrito. “Não conhecemos a vida

particular doméstica dos antigos pagãos como conhecemos a daqueles países onde a confissão dita ao

ouvido é praticada; e portanto não podemos dizer se o casamento era tão brutalmente desonrado entre os

pagãos como o é entre os cristãos; mas ao menos é provável que os infiéis não suplantassem a esse

respeito muitas pessoas que acreditam na doutrina do Evangelho. Eles acreditam portanto no que as

Escrituras nos ensinam sobre o céu e o inferno, no purgatório e nas outras doutrinas da comunidade

católica; e, apesar disso, em meio a essas crenças podemos vê-los mergulhados em abomináveis

impurezas que não são próprias de serem chamadas pelo nome e que provocam severas censuras àqueles

autores que ousam mencioná-las. Faço essa observação para refutar aqueles que estão convencidos de

que os hábitos corruptos originam-se das dúvidas ou da ignorância dos homens acerca de uma nova vida

depois desta.” Em 1592 o comportamento sexual era bastante semelhante ao de nossos dias. A mudança

verificou-se apenas no que pensamos acerca desse comportamento. No início da época moderna os

pensamentos de um Havelock Ellis ou de um Krafft-Ebing seriam inconcebíveis. Contudo, as emoções e

ações descritas por estes sexólogos modernos eram tão possíveis e exequíveis num contexto mental

dominado pelo fogo do inferno, como o são nas sociedades seculares de nossa época.

Nos parágrafos que seguem, descreverei muito resumidamente o contexto segundo o qual os homens

do início do século xvii formavam seus julgamentos acerca da natureza humana. Esse referencial era tão

antigo e tão estreitamente associado à doutrina cristã que foi encarado universalmente como o modelo

das verdades irrefutáveis. Hoje em dia, embora ainda mais lamentavelmente ignorantes, sabemos o suficiente para nos sentirmos absolutamente certos de que, sob muitos aspectos, os mais antigos modelos

de pensamento eram inadequados para os fatos admitidos através da observação direta.

Como, podemos questionar, essa teoria tão claramente deficiente influenciaria o comportamento de

homens e mulheres quanto a seus pequenos problemas do cotidiano? A resposta poderia ser que, em

algumas situações, a influência seria praticamente nula, em outras, da maior importância.

Um homem pode ser um excelente psicólogo na prática, embora completamente alheio às teorias

psicológicas em voga. Ainda mais incrível é o fato de que um homem pode estar bastante familiarizado

com teorias psicológicas comprovadamente deficientes e no entanto continuar, graças à sua percepção

inata, um excelente psicólogo na prática.

Por outro lado, uma teoria falsa sobre a natureza humana (tal como a teoria que explica histeria sob

o aspecto de possessão diabólica) pode suscitar as piores paixões e justificar as crueldades mais

diabólicas. A teoria é simultaneamente pouco importante e na verdade importantíssima.

Qual era a teoria da natureza humana, sob que aspecto os contemporâneos de Grandier interpretavam

o comportamento cotidiano e os acontecimentos estranhos tais como aqueles que sucederam em Loudun?

As respostas para essa pergunta serão dadas, na maioria dos casos, com as palavras de Robert Burton,

cujos capítulos sobre a anatomia da alma contêm um resumo breve e notavelmente lúcido que todos, antes

da época de Descartes, aceitavam praticamente como um axioma.

“A alma é imortal, criada do nada e introduzida na criança ou embrião no ventre de sua mãe seis

meses depois da concepção; não como nos animais que são ex traduce (passada dos pais para a prole) e

morrendo com eles, desvanecendo-se no vazio.” A alma é simples no sentido de que não pode ser

dividida ou desintegrada. No sentido etimológico da palavra, é um átomo psicológico — algo que não

pode ser dividido. Contudo, essa alma humana simples e indivisível se manifesta sob três formas. É uma

espécie de trindade na unidade, composta de uma alma vegetal, uma sensória e uma racional. A alma

vegetal é definida como “um verdadeiro instrumento de um corpo orgânico, através do qual ele se nutre,

cresce e gera outro semelhante dentro de si”. Nessa definição, três diferentes processos são

especificados — altrix, auctrix, procreatrix. O primeiro é a nutrição, cujo objetivo é a alimentação,

comida, bebida e assim por diante; seu órgão, o fígado em seres conscientes, nas plantas, a raiz ou a

seiva. “Sua finalidade é transformar o alimento na substância de sustento do corpo, o que realiza através

do calor natural. [...] Assim como essa função nutritiva serve para alimentar o corpo, a função de

crescimento (o segundo processo ou capacidade da função vegetal) o faz para o aumento em grandeza [...]

e para fazê-lo crescer até chegar às devidas proporções e à forma acabada.” A terceira função da alma

vegetal é a procriativa — a faculdade de reproduzir sua espécie.

Numa camada mais elevada temos a alma sensória, “que fica muito além da outra em dignidade,

porque prefere-se o animal à planta, possuindo inclusas aquelas faculdades dos vegetais. É definida

como ‘um instrumento do corpo orgânico pelo qual ela vive, possui sentidos, desejo, bom senso,

respiração e movimento’. [...] O órgão principal é o cérebro, do qual se derivam fundamentalmente as

ações conscientes. A alma sensória divide-se em duas partes: a perceptiva e a propulsora. [...] A

faculdade de percepção subdivide-se em duas partes: interna e externa. A externa é composta pelos cinco

sentidos: tato, audição, visão, olfato, paladar. [...] Na interna estão o senso comum, a imaginação e a

memória.” O senso comum analisa, compara e organiza as mensagens que recebe de determinados órgãos dos sentidos tais como os olhos e os ouvidos. A imaginação examina mais detalhadamente os dados do

senso comum “e conserva-os por mais tempo, recordando-os novamente ou reformulando-os dentro de

si”. A memória retém tudo que vem da imaginação e do senso comum e “guarda tudo em arquivos”.

No homem a imaginação “está sujeita e governada pela razão ou ao menos deveria estar; mas nos

animais não existe razão superior, apenas ratio brutorum, sua única razão”. A segunda faculdade da alma

sensória é a propulsora, que por sua vez é “dividida em duas faculdades, a capacidade de desejo e a de

mover-se de um lugar para o outro”.

E finalmente existe a alma racional, “que é definida pelos filósofos como sendo ‘a força mais

importante de um corpo natural, humano e orgânico, através da qual um homem vive, percebe e

compreende, possuindo livre-arbítrio e capacidade de escolha para agir’. Embora não incluídas nessa

definição, podemos acrescentar que essa alma racional inclui as faculdades e cumpre as obrigações das

outras duas, as quais se encontram nela contidas, e as três perfazem uma alma, que é por si inorgânica,

apesar de se encontrar em todas as partes (do corpo), e incorpórea, utilizando seus órgãos e operando

graças a eles. Divide-se em duas partes, que diferem apenas em função, mas não em essência: a

inteligência, que é a capacidade racional de compreensão, e o arbítrio, que é a capacidade racional de

propulsão, e a elas estão submetidas todas as demais capacidades racionais.”

Tal era a teoria de nossos ancestrais sobre si mesmos e com a qual tentavam explicar os processos

de conhecimento pessoal e comportamento humano. Por ser muito antigo e pelo fato de muitos de seus

componentes serem dogmas teológicos ou consequências de dogmas, a teoria parecia axiomaticamente

verdadeira. No entanto, se a teoria fosse verdadeira, então determinados conceitos que hoje parecem

irrefutáveis não poderiam ser levados em consideração e seriam inconcebíveis para qualquer objetivo

prático. Vejamos alguns exemplos concretos.

Temos aqui a srta. Beauchamp, jovem de uma inocência até doentia, cheia de princípios elevados,

inibições e ansiedades. De vez em quando ela deixava de lado seu temperamento e se comportava como

uma criança de dez anos travessa e tremendamente saudável. Interrogada quando sob hipnose, essa enfant

terrible insiste que não é a srta. Beauchamp, mas outra pessoa chamada Sally. Após algumas horas ou

dias, Sally desaparece e a srta. Beauchamp recobra a consciência — mas recobra apenas a sua própria

consciência, não em relação a Sally, uma vez que não se lembra de nada que foi feito em seu nome e sob

o comando de seu corpo enquanto a última dominava. Sally, pelo contrário, sabia de tudo que se passava

na mente da srta. Beauchamp e utilizava esse conhecimento para embaraçar e atormentar a outra ocupante

de seu corpo dividido. Pelo fato de poder encarar esses fatos estranhos sob o aspecto de uma teoria bem

fundamentada de atividade mental do subconsciente, e por estar familiarizado com as técnicas de

hipnose, o dr. Morton Prince, o psiquiatra encarregado desse caso famoso, foi capaz de solucionar os

problemas da srta. Beauchamp e deixá-la, pela primeira vez em muitos anos, num estado de perfeita

saúde física e mental.

Sob determinados aspectos, o caso da irmã Jeanne era absolutamente semelhante ao da srta.

Beauchamp. Ela se descartava periodicamente de sua personalidade costumeira, e de uma freira

respeitável e de boa família transformava-se por algumas horas ou dias em uma virago selvagem,

blasfemadora e completamente sem-vergonha, que se intitulava ora Asmodeu, ora Balaão ou Leviatã.

Quando a prioresa recobrava a consciência, não se recordava do que esses outros haviam dito e feito em sua ausência. Tais eram os fatos. Como poderiam ser explicados? Alguns observadores atribuíam toda

aquela história deplorável a uma fraude deliberada; outros, à “melancolia” — um desarranjo do

equilíbrio humoral do corpo que provocava um transtorno mental. Para aqueles que não queriam ou não

conseguiam aceitar essas hipóteses, só restava uma explicação como alternativa — possessão diabólica.

Dada a teoria na qual baseavam-se para julgar, era-lhes impossível chegar a outra conclusão. Por uma

definição que era resultante de um dogma cristão, a alma — em outras palavras, a porção consciente e

individual da mente — era um átomo simples e indivisível. A noção moderna de personalidade dividida

era portanto implausível. Se dois ou mais eus apareciam ao mesmo tempo ou alternadamente para ocupar

o mesmo corpo, não podia ser como resultado da desintegração desse feixe não tão firmemente atado de

elementos psicofísicos a que chamamos de uma pessoa; não, deveria ser devido à expulsão temporária da

alma indivisível que saía do corpo e era temporariamente substituída por um ou mais dos inúmeros

espíritos sobre-humanos que (o que é um caso de verdade revelada) habitam o universo.

Nosso segundo exemplo é aquele de uma pessoa hipnotizada — qualquer pessoa hipnotizada — na

qual o hipnotizador provocou um estado de catalepsia. A natureza da hipnose e o modo pelo qual a

sugestão age sobre o sistema nervoso neurovegetativo ainda não foram perfeitamente compreendidos;

mas ao menos sabemos que é muito fácil colocar certas pessoas em transe e que, quando se encontram

nesse estado, alguma parte de seu subconsciente fará que seu corpo obedeça às sugestões dadas pelo

hipnotizador. Em Loudun, essa rigidez cataléptica a que qualquer hipnotizador competente pode induzir

um indivíduo suscetível era encarada pelos fiéis como obra de Satã. Tinha de ser necessariamente assim,

porque a natureza das teorias psicológicas da época era tal, que o fenômeno deveria ser devido ou a

fraude deliberada ou a intervenção sobrenatural. Pode-se pesquisar as obras de Aristóteles e Santo

Agostinho, de Galena e dos árabes; em nenhum deles se encontra a mais leve insinuação do que agora

denominamos de subconsciente. Para nossos ancestrais havia apenas a alma ou consciente de um lado, e

do outro lado Deus, os santos e um grande número de espíritos bons e maus. Nossa concepção de um

extenso mundo intermediário de atividade mental subconsciente, muito mais ampla e sob certos aspectos

mais efetiva que a atividade do eu consciente, era inconcebível. A teoria corrente sobre a natureza

humana não deixava lugar para isso; logo, até onde dizia respeito a nossos ancestrais, ela não existia. Os

fenômenos que hoje em dia explicamos em termos de atividade do subconsciente tinham de ser negados

de todo ou atribuídos à ação de espíritos não terrenos. Assim, a catalepsia era um embuste ou um sintoma

de invasão demoníaca. Quando assistia a um exorcismo no outono de 1635, o jovem Thomas Killigrew

foi convidado pelo frade encarregado do processo a apalpar as pernas enrijecidas da freira — apalpar,

admitir o poder do espírito maléfico e o poder ainda maior da Igreja Militante, e então, se fosse a

vontade de Deus, ser convertido da heresia como seu bom amigo Walter Montague o fora no ano anterior.

“Tenho de lhe dizer a verdade”, escreveu Killigrew numa carta em que narrava o acontecimento, “eu

senti apenas carne rija, braços e pernas fortes e mantidos rigidamente esticados”. (É de notar como as

freiras deixaram completamente de ser encaradas como seres humanos com direito a privacidade e

respeito. O piedoso padre que fazia o exorcismo comportava-se exatamente como o proprietário de um

show à parte numa feira de amostras. “Levantem-se, senhores e senhoras, levantem-se! Ver para crer, mas

se beliscarem as pernas robustas da menina verão a verdade nua e crua.” Essas esposas de Cristo haviam

sido transformadas em dançarinas de cabaré e monstros de circo.) “Mas outros”, continua Killigrew, “afirmam que ela estava toda rígida e pesada como ferro; contudo eles tinham mais fé que eu, e o milagre

parecia se evidenciar mais claramente para eles do que para mim.” Como é significativa esta palavra,

“milagre”! Se as freiras não estão simulando, então a rigidez cadavérica de seus membros deve ser

devida a causas sobrenaturais. Não existe outra explicação possível.

O advento de Descartes e a aceitação geral do que naquela época parecia uma teoria mais científica

da natureza humana não melhorou a situação; na verdade, sob certos aspectos fez os homens pensarem

acerca de si mesmos de forma menos realística do que como o faziam sob a mais antiga revelação. Os

diabos saíram de cena; mas junto com eles diluiu-se qualquer tipo de reflexão importante em relação aos

fenômenos antes atribuídos à intervenção diabólica. Os exorcistas tinham ao menos reconhecido tais fatos

como transe, catalepsia, personalidade dividida e percepção extrassensória. Os psicólogos que surgiram

depois de Descartes estavam propensos a rejeitar os fatos como não existentes ou explicá-los, se não

houvesse possibilidade de negá-los, como o produto de alguma coisa denominada imaginação. Os

fenômenos atribuídos a ela (tais como as curas realizadas por Mesmer durante o sono hipnótico) podiam

ser segura e adequadamente ignorados. O grande empenho de Descartes em refletir geometricamente

acerca da natureza humana levou sem dúvida à formulação de algumas ideias admiravelmente lúcidas.

Mas infelizmente essas ideias lúcidas só podiam ser alimentadas por aqueles que optaram por ignorar

uma série de fatos altamente significativos. Filósofos pré-cartesianos levaram em conta esses fatos e

foram compelidos por suas próprias teorias psicológicas a atribuir-lhes causas sobrenaturais. Hoje em

dia somos capazes de aceitar os fatos e explicá-los sem ter de recorrer aos demônios. Podemos pensar na

mente (em oposição a espírito, ou simples ego, ou Atman) como alguma coisa radicalmente diferente da

alma cartesiana e pré-cartesiana. A alma, segundo os mais antigos filósofos, era definida dogmaticamente

como simples, indivisível e imortal. Para nós é evidentemente um composto, cuja identidade, nas

palavras de Ribot, “é uma questão de quantidade”. Essa coleção de componentes pode ser desintegrada

e, embora provavelmente sobreviva à morte do corpo, ela o faz eventualmente como algo sujeito à

mudança e à dissolução final. A imortalidade não pertence à psique mas sim ao espírito com o qual ela

pode se identificar se assim o desejar. De acordo com Descartes, a essência das mentes é a consciência;

a mente e a matéria podem exercer ação mútua dentro de seu próprio corpo, mas não diretamente em

relação a outra matéria ou a outras mentes. Os pensadores pré-cartesianos teriam provavelmente

concordado com todas essas proposições, exceto com a primeira. Para eles a consciência era a essência

da alma racional; mas muitas atividades das almas sensórias e vegetais eram inconscientes. Descartes via

o corpo como um autômato autorregulado e portanto não tinha necessidade de pressupor a existência

dessas almas suplementares. Entre o eu consciente e o que poderemos chamar de inconsciente

fisiológico, inferimos agora a existência de uma ampla cadeia de forças mentais atuantes no

subconsciente. Além disso, temos de admitir, se aceitamos a evidência da percepção extrassensória e

psicocinética, que no nível subconsciente as mentes podem e agem diretamente sobre outras mentes e

sobre a matéria exterior ao seu próprio corpo. As ocorrências singulares que Descartes e seus seguidores

preferiram ignorar e que seus predecessores aceitaram como verdades, que no entanto só poderiam ser

explicadas em termos de invasão diabólica, são agora reconhecidas como relacionadas a atividades

naturais da mente, cujo alcance, poder e fraqueza são muito mais importantes do que uma pesquisa sobre

seu caráter consciente nos levaria a acreditar.

Vemos então que, se a ideia de fraude fosse excluída, a única explicação exclusivamente psicológica

do que estava acontecendo em Loudun era relacionada a feitiçaria e possessão. Mas havia muitos que

nunca pensaram no assunto em seu aspecto puramente psicológico. Para eles parecia óbvio que

fenômenos tais como os manifestados pela irmã Jeanne poderiam ser explicados sob o aspecto

fisiológico e tinham de ser tratados de acordo com isso. Os mais draconianos prescreviam a aplicação de

uma boa surra de vara sobre a pele nua. Tallemant relata que o marquês de Couldray-Montpensier

arrancou suas duas filhas das mãos dos exorcistas e “as manteve bem alimentadas e as chicoteou

bastante; o demônio abandonou-as rapidamente”. Mesmo em Loudun, durante os mais avançados estágios

de possessão o chicote foi recomendado com frequência crescente, e Surin relata que os demônios que

apenas riam-se dos ritos da Igreja foram frequentemente derrotados pela disciplina.

Em muitos casos, a velha moda do chicote foi provavelmente tão eficaz quanto o tratamento moderno

com choques, e pela mesma razão: isto é, o subconsciente desenvolve um tal pavor às torturas preparadas

para seu corpo que, para não ser novamente submetido a elas, decide parar de portar-se como se fosse

louco.[70] Até o início do século xix, o tratamento de choque por chicote era habitualmente utilizado em

todos os casos de insanidade declarada.

 

In the bonny halls of Bedlam,

Ere I was one-and-twenty,

I had bracelets strong, sweet whips ding-dong,

And prayer and fasting plenty.

Now I do sing, “Any food, any feeding,

Feeding, drink or clothing?

Come dame, or maid, be not afraid,

Poor Tom will injure nothing”.[71]

 

O pobre Tom era um vassalo da rainha Elizabeth. Mas mesmo nos dias de George iii, duzentos anos

depois, as duas casas do Parlamento aprovaram uma lei autorizando os médicos da corte a açoitar o rei

lunático.

Para a simples neurose ou histeria o açoite não era o único tratamento. Essas doenças eram

causadas, de acordo com as teorias médicas correntes na época, por excesso de bílis negra no lugar

errado. “Galeno”, diz Robert Burton, “atribui tudo à coriza que é escura, e pensa que, sendo os espíritos

enegrecidos e a substância do cérebro, nebulosa e escura, todos os seus propósitos parecem terríveis, e a

própria mente permanece em contínua escuridão, temor e angústia devido a esses vapores que emanam

desses tumores negros.” Averroës e Hércules de Saxônia zombam das explicações de Galeno. Mas são

“incrivelmente censurados e refutados por Aelianus Montaltus, Ludovicus Mercatus, Altomarus,

Guianerius, Bright, Laurentius Valesius. ‘A perturbação’, concluem eles, ‘produz humores negros, a

escuridão obscurece o espírito e o espírito obscurecido causa pavor e angústia.’ Laurentius supõe que

esses vapores negros atingem principalmente o diafragma, músculo que separa o tórax do abdome, e

assim, consequentemente, a mente, que fica obscurecida como o sol por uma nuvem. Quase todos os

gregos e árabes, assim como os velhos e novos latinos, concordam com essa opinião de Galeno; da

mesma forma que as crianças se assustam no escuro, o mesmo ocorre aos melancólicos de todas as

épocas, porque possuem uma causa interna e carregam-na dentro de si para toda parte. Tais emanações negras, procedam elas do sangue escuro perto do coração (como julga Thomas Wright, um jesuíta, em seu

tratado sobre as paixões da mente), ou do estômago, baço, diafragma ou de todas as partes afetadas ao

mesmo tempo, são negativas; elas mantêm a mente eternamente encarcerada e oprimida por contínuos

temores, ansiedades, tristezas etc.”

O quadro fisiológico é uma espécie de fumaça ou neblina que se ergue do sangue infectado ou das

vísceras doentes e obscurece diretamente o cérebro e a mente ou de alguma forma obstrui os tubos (pois

os nervos eram considerados como tubos ocos) pelos quais presumia-se fluírem os humores naturais,

vitais e animais.

Quando lemos a literatura científica do início da época moderna, ficamos chocados com a mistura do

culto do sobrenatural mais apaixonado com o tipo mais grosseiro e ingênuo de materialismo. Esse

materialismo primitivo difere do materialismo moderno em dois aspectos importantes. Em primeiro

lugar, a matéria com a qual a teoria mais antiga lida é alguma coisa que não se presta (devido à natureza

dos termos descritivos utilizados) a uma correta avaliação. Ouvimos apenas acerca de calor e frio,

secura e umidade, leveza e peso. Não se tentou jamais esclarecer o significado dessas expressões

qualitativas em termos quantitativos. Em sua delicada estrutura, a matéria de nossos ancestrais não era

mensurável, e portanto não se podia fazer muita coisa com ela. E onde nada pode ser feito, bem pouco

pode ser compreendido.

O segundo ponto de divergência é não menos importante que o primeiro. Para nós, matéria significa

alguma coisa em constante movimento — alguma coisa cuja essência é na verdade nada mais que

movimento. Toda matéria está sempre fazendo alguma coisa, e de todas as formas de matéria os coloides

que compõem os corpos vivos são os mais freneticamente ativos — mas num tipo de agitação

maravilhosamente coordenada, de maneira que a atividade de uma parte do organismo regula e é por sua

vez regulada pela atividade das outras partes, numa maravilhosa dança de energias. Para os antigos,

assim como para os pensadores da Idade Média e dos inícios da Idade Moderna, a matéria era uma mera

substância, intrinsecamente inerte, até mesmo nos corpos vivos, onde as atividades eram atribuídas

exclusivamente às contrações involuntárias da alma vegetal nas plantas, da alma vegetal e sensória nos

irracionais, e, no homem, às daquela trindade contida na unidade, as almas vegetal, sensória e racional.

Os processos fisiológicos eram explicados não em termos químicos, uma vez que a química como ciência

não existia; nem em termos de impulsos elétricos, já que tudo se ignorava sobre a eletricidade; nem em

termos de atividade celular, pois não existia microscópio e ninguém jamais observara uma célula; eram

então explicados (sem nenhum problema) sob o aspecto das funções específicas da alma sobre a matéria

inerte. Havia por exemplo a função do crescimento, da secreção e da nutrição — uma função para todo e

qualquer processo que pudesse ser observado. Para os filósofos era muito conveniente; no entanto,

quando os homens tentaram passar das palavras para as reais funções vitais do organismo, descobriram

que as funções específicas não tinham a menor utilidade prática.

A crueza do materialismo mais antigo é claramente expressa na fraseologia de seus representantes.

Os problemas fisiológicos são discutidos em metáforas inspiradas pelo que acontecia na cozinha, nas

fundições e nas latrinas. Há fervuras, chiados e tensões; purificações e extrações; putrefações, exalações

miasmáticas vindas da fossa sanitária e suas condensações pestilentas no andar de cima, no piano nobile.

Nesses termos, um pensamento produtivo acerca do organismo humano é muito difícil. Os bons médicos eram possuidores de dons naturais, que não permitiam que seus conhecimentos interferissem muito nos

diagnósticos intuitivos e em seu talento para ajudar a natureza a realizar o milagre da cura. Junto a muita

tolice inútil ou perigosa, há, na imensa compilação de Burton, bastante bom senso. A maioria das tolices

provém das teorias científicas em voga; a maior parte do bom senso, do empirismo acessível de homens

perspicazes e compassivos que amavam seus semelhantes, tinham um jeito especial com o doente e

confiavam na vis medicatrix Naturae.

Para detalhes sobre o tratamento estritamente médico da melancolia, tanto devida a causas naturais

como sobrenaturais, recomenda-se ao leitor o livro absurdo e fascinante de Burton. Para nossos objetivos

presentes é suficiente observar que, durante todo o tempo da possessão, a irmã Jeanne e suas

companheiras estavam sob constante supervisão médica. Em seus casos, infelizmente, nenhum dos

métodos mais coerentes de tratamento descritos por Burton foi jamais aplicado. Para elas não havia a

proposta de mudança de ar, de dieta ou de ocupação. As freiras eram apenas submetidas a sangrias e

purgantes e obrigadas a engolir pílulas e poções. Essa medicação era tão drástica que alguns dos

médicos independentes que as examinavam eram de opinião que sua doença se agravava (como acontece

ainda hoje com muitas doenças) pelos esforços exagerados para se chegar à cura. Descobriram que

estavam ministrando sistematicamente às freiras doses excessivas de antimônio. Talvez fosse essa a

causa de todos os seus problemas.

(Para avaliar toda a importância histórica desse diagnóstico, devemos ter em mente que, na época da

possessão, o que pode ser denominado de batalha do antimônio vinha se arrastando por três gerações e

ainda continuava em pleno vigor. Para os antigalenistas hereges, o metal e seus compostos eram como

drogas milagrosas que serviam para praticamente todas as aplicações. Sob pressão da facção ortodoxa

da classe médica, o Parlamento de Paris publicou um edital proibindo seu uso na França. Mas a lei

provou ser inexequível. Meio século depois de sua ratificação, um bom amigo de Grandier e o médico

mais famoso de Loudun, Théophraste Renaudot, proclamava entusiasticamente as virtudes do antimônio.

Seu jovem contemporâneo, Gui Patin, autor das famosas Lettres, era não menos ardoroso na defesa do

ponto de vista contrário. À luz da pesquisa moderna, podemos ver que Patin estava mais perto da

verdade que Renaudot e os outros antigalenistas. Determinados compostos do antimônio são específicos

no tratamento da doença tropical conhecida como “kala-azar”.[72] Na maior parte das outras doenças, o

uso do metal e seus compostos não valia os riscos que envolvia. Do ponto de vista médico, não havia

justificativa para o uso indiscriminado da droga do modo como foi feito durante os séculos xvi e xvii. Do

ponto de vista econômico, entretanto, havia justificativas de sobra. O sr. Adam e seus colegas boticários

vendiam pílulas eternas de antimônio metálico. Estas eram engolidas, irritavam a membrana mucosa ao

passar pelo intestino e então funcionavam como um purgante, e podiam ser recolhidas no urinol, lavadas

e usadas outra vez, e assim indefinidamente. Depois do primeiro investimento de capital, não haveria

mais necessidade de gastar dinheiro em purgativos. O dr. Patin podia condenar e o Parlamento proibir,

mas para a avarenta burguesia francesa o apelo do antimônio era irresistível. As pílulas eternas eram

tratadas como herança e depois de passarem por uma geração eram legadas à seguinte.)

Vale a pena observar, fazendo um parêntese, que Paracelso, o maior entre os primeiros

antigalenistas, devia seu entusiasmo pelo antimônio a uma falsa analogia. “Assim como o antimônio

purifica o ouro e não deixa escória, da mesma maneira ele purifica o corpo humano.”[73]

A mesma espécie de falsa analogia entre o ofício do metalúrgico e o do alquimista, por um lado, e da

ciência do médico e do dieteta, do outro, levava a crer que o valor da alimentação crescia quanto maior o

seu requinte — que o pão de trigo era melhor que o pão de centeio, que caldo de carne com legumes bem

cozido era superior aos vegetais e carnes não concentrados dos quais se compunha. Supunha-se que

comida “grosseira” tornava grosseiras as pessoas que a comiam. “Queijo, leite e bolo de aveia”, diz

Paracelso, “não podem proporcionar a ninguém um temperamento delicado.” Foi só com o isolamento

das vitaminas na geração passada que as velhas falsas analogias da alquimia deixaram de arruinar nossas

teorias dietéticas.

A existência de um tratamento médico bem planejado para a “melancolia” não era de forma alguma

incompatível com a crença generalizada, mesmo entre os doutores, na possessão e na invasão diabólica.

Algumas pessoas, escreve Burton, “riem de tais histórias”. Mas do lado oposto está “a maioria dos

advogados, teólogos, médicos e filósofos”. Ben Jonson, em The Devil is an Ass, deixou-nos uma nítida

descrição da mentalidade do século xvii, dividida entre a credulidade e o ceticismo, entre uma confiança

no sobrenatural (principalmente em seus aspectos menos recomendáveis), e uma confiança arrogante nos

poderes recém-descobertos da ciência aplicada. Na peça, Fitzdottrel é apresentado como um diletante

nas artes da bruxaria que anseia encontrar-se com um demônio, porque os demônios conhecem os locais

onde se escondem os tesouros. Mas a essa crença na mágica e no poder de Satã junta-se outra não menos

poderosa, a dos planos semirracionais e pseudocientíficos daqueles falsos inventores e projetistas a

quem nossos pais chamavam de “aventureiros”. Quando Fitzdottrel conta à sua esposa que seu projetista

arquitetara um plano que lhe dará infalivelmente dezoito milhões de libras e lhe assegurará um ducado,

ela balança a cabeça e diz que ele não deve acreditar muito “nesses falsos espíritos”. “Espíritos!’’, brada

Fitzdottrel,

 

Spirits! O no such thing, wife; wit, mere wit.

This man defies the Devil and all his works.

He does’t by engine and devices, he!

He has his winged ploughs that go with sails,

Will plough you forty acres at once! and mills

Will spout you water ten miles off.[74]

 

Por mais burlesca que pareça a figura, Fitzdottrel não deixa de ser verdadeiramente um homem-

símbolo. Ele representa toda uma época cuja vida intelectual oscilava instavelmente entre dois mundos.

Que tentou tirar o pior desses mundos ao invés do melhor, infelizmente é também típico da época. Para os

incorrigíveis, ocultismo e “planos mirabolantes” eram muito mais atraentes que a ciência pura e o amar a

Deus em espírito.

No livro de Burton, como na história das freiras de Loudun, esses dois mundos coexistem e são

aceitos como verdade absoluta. Há a melancolia e um tratamento médico aprovado para ela. Ao mesmo

tempo sabe-se bem que a magia e a possessão são causas comuns de doença, tanto da mente quanto do

corpo. E não é de surpreender! Pois “não há nem mesmo o espaço de um fio de cabelo vazio no céu, na

terra ou na água, acima ou abaixo da terra. O ar não fica tão repleto de moscas no verão como, durante

todas as estações, se encontra tomado por demônios invisíveis; isto é rigorosamente confirmado por

Paracelso, como o fato de cada um deles possuir vários espaços de caos”. O número desses espíritos deve ser infinito; “porque se for verdade o que alguns de nossos matemáticos dizem: se uma pedra

pudesse cair do céu estrelado ou da oitava esfera, mesmo que viajasse cem milhas por hora, levaria

sessenta e cinto anos ou mais até atingir a terra, devido à grande distância entre o céu e a terra, que é,

segundo alguns, de cento e setenta milhões e oitocentos e três milhas [...] quantos espíritos poderá

conter?” Em tais circunstâncias, o que verdadeiramente surpreende não são possessões ocasionais, mas

sim o da maioria das pessoas poder passar pela vida sem se tornar endemoniadas.

 

II

 

Vimos que a plausibilidade da hipótese de possessão era exatamente proporcional à deficiência de

uma fisiologia sem conhecimentos da estrutura da célula e de química, e de uma psicologia que não

tomava praticamente conhecimento da atividade mental em níveis subconscientes. Universal em tempos

passados, a crença na possessão só é mantida nos dias de hoje pelos católicos romanos e pelos espíritas.

Os últimos explicam certos fenômenos que acontecem em sessões espíritas em termos de possessão

temporária do organismo do médium pelo espírito sobrevivente de algum ser humano falecido. Os

primeiros negam a possessão por almas desencarnadas, contudo explicam determinados casos de

problemas físicos e mentais em termos de possessão diabólica, e certos sintomas psicofisiológicos que

acompanham ou antecedem estados místicos sob o aspecto de possessão através de alguma intervenção

divina.

Não há nada, em minha opinião, de contraditório na ideia de possessão. O conceito não deve ser

rejeitado a priori, com o pretexto de que é “um remanescente de antiga superstição”. Deveria ser tratada

como mais uma hipótese de trabalho, que pode ser tomada em consideração com certa cautela em todos

os casos em que outros tipos de explicação parecem não se adequar aos fatos. Na prática, os exorcistas

modernos parecem concordar em que a maioria dos casos que levantam suspeitas de possessão devem-se

de fato à histeria, e eles podem ser melhor tratados pelos métodos convencionais da psiquiatria. Em

alguns casos, entretanto, eles encontram indício de algo mais que histeria e declaram que só o exorcismo

e a expulsão do espírito podem realizar a cura.

A possessão do organismo de um médium pelo espírito desencarnado, ou “fator psíquico”, de seres

humanos falecidos, tem sido evocada para explicar determinados fenômenos tais como escritas ou falas

probatórias que de outro modo seriam difíceis de explicar. As provas mais antigas de tal possessão

podem ser convenientemente pesquisadas em Human Personality and its Survival of Bodily Death, de F.

W. H. Myers, e as mais recentes, em The Personality of Man, do sr. G. N. M. Tyrell.

O professor Oesterreich, em sua pesquisa amplamente documentada sobre o assunto,[75] demonstrou

que, enquanto a crença na possessão diabólica declinou acentuadamente no século xix, a crença na

possessão por espíritos desencarnados tornou-se muito mais comum no mesmo período. Assim, os

neuróticos que em épocas anteriores teriam sua doença atribuída aos demônios ficaram inclinados,

depois da aparição das irmãs Fox, a pôr a culpa nas almas desencarnadas de homens e mulheres. Com os

recentes avanços da tecnologia, o conceito de possessão adquiriu uma nova configuração. Os pacientes

neuróticos reclamam frequentemente de que estão sendo influenciados, contra seu desejo, por um tipo

estranho de mensagem de rádio transmitida por seus inimigos. O magnetismo animal malicioso que perseguiu a imaginação da pobre sra. Eddy por tantos anos transformou-se atualmente em eletrônica

maliciosa.

No século xvii não existia rádio, e muito poucos acreditavam na possessão por espíritos

desencarnados. Burton menciona a ideia de que os diabos são apenas as almas dos mortos malévolos,

mas apenas com o intuito de observar que essa é uma “opinião absurda”. Para ele a possessão era uma

realidade, e era exclusivamente devida a demônios. (Para Myers, dois séculos e meio depois, a

possessão também era uma realidade, mas devida exclusivamente aos espíritos dos mortos.)

Os demônios existem? E, nesse caso, estavam presentes nos corpos da irmã Jeanne e das suas

companheiras freiras? Da mesma forma que em relação à ideia de possessão, não vejo nada de

intrinsecamente absurdo ou contraditório na crença de que possa haver espíritos desencarnados bons,

maus e indiferentes. Nada nos leva a crer que as únicas inteligências do universo pertencem aos seres

humanos e aos animais inferiores. Se for aceita a existência de clarividência, telepatia e previsão (e fica

cada vez mais difícil rejeitá-la), então temos de aceitar que existem processos mentais independentes de

espaço, tempo e matéria. E, se assim é, parece não haver motivo para negar a priori a existência de

inteligências não humanas ou já desencarnadas, ou senão associadas à energia cósmica de alguma forma

ainda por nós inteiramente ignorada. (A propósito, ainda somos ignorantes a respeito da forma como as

mentes humanas se associam a esse turbilhão de energia cósmica altamente organizado conhecido como

corpo. Que existe alguma ligação, não resta dúvida; mas de como a energia se transforma em processos

mentais e como estes a afetam, ainda não temos a menor ideia.)[76]

Os demônios têm desempenhado até bem pouco tempo um papel muito importante na religião cristã

— e isso desde seus primórdios. Porque, como observou o padre A. Lefèvre, “o diabo ocupa uma

posição muito irrelevante no Velho Testamento; seu poder supremo ainda não se revelou. O Novo

Testamento mostra-o como o chefe das forças coligadas do mal”.[77] Nas atuais traduções do Pai Nosso

pedimos para sermos livrados do mal. Mas será que apo tou ponerou é neutro em vez de masculino? Não

estará implícito na própria estrutura da oração que a palavra se refere a uma pessoa? “Não nos deixeis

cair em tentação, mas (pelo contrário) livrai-nos do diabo, do tentador.”

Em teoria e por sua definição teológica, o cristianismo não é maniqueísta. Para os cristãos, o mal

não é uma substância, um princípio real e fundamental. É apenas uma ausência do bem, uma redução do

existir nas criaturas que, em seu existir absoluto, provêm de Deus. Satã não é Arimã sob outro nome, não

é um eterno princípio das trevas em confronto com o divino princípio da luz. Satã é meramente o mais

poderoso entre o grande número de anjos que num dado momento decidiram se separar de Deus. É apenas

por cortesia que o chamamos de o diabo. Existem muitos diabos dos quais Satã é o chefe. Demônios são

indivíduos e cada um tem sua personalidade, seu temperamento, suas singularidades, extravagâncias e

idiossincrasias. Existem diabos que amam o poder, outros luxuriosos, ambiciosos, arrogantes e

presunçosos. Além disso, alguns demônios são muito mais importantes que outros; pois eles conservam,

mesmo no inferno, as posições que ocupavam na hierarquia celeste antes da sua queda. Aqueles que no

céu eram apenas anjos ou arcanjos são diabos de classe inferior e de pequena importância. Os que

outrora eram das ordens das dominações, principados ou potestades, agora constituem a haute

bourgeoisie do inferno. Os antigos querubins e serafins são uma aristocracia, cujo poder é imenso e cuja

presença física (de acordo com a informação oferecida ao padre Surin por Asmodeu) pode fazer-se sentir num círculo de trinta léguas de diâmetro. Pelo menos um teólogo do século xvii, padre Ludovico

Sinistrari, afirma que os seres humanos podem ser possuídos, ou pelo menos obcecados, não apenas por

diabos, mas também e com mais frequência por entidades espirituais não malignas — os faunos, ninfas e

sátiros da Antiguidade, os duendes da classe camponesa europeia, os fantasmas dos pesquisadores

modernos da parapsicologia.[78] De acordo com Sinistrari, a maioria dos íncubos e súcubos[79] era tão

somente fenômenos naturais, nem piores nem melhores que ranúnculos, digamos, ou gafanhotos. Em

Loudun, infelizmente, essa benévola teoria jamais foi mencionada. As fantasias insanamente libidinosas

das freiras eram atribuídas a Satã e seus mensageiros.

Os teólogos, repito, acautelaram-se ao máximo contra o dualismo maniqueísta; mas em todas as

épocas grande número de cristãos procedeu como se o diabo fosse o princípe fundamental, nivelando-o a

Deus. Deram mais atenção ao mal e ao problema de sua erradicação do que ao bem e aos métodos por

que a bondade individual pode ser aprofundada e a soma de virtude, acrescida. Os efeitos provocados

pela concentração por demais intensa e constante no mal são sempre desastrosos. Aqueles que

empreendem uma cruzada não por Deus em si, mas contra o diabo nos outros, nunca conseguem tornar o

mundo melhor, mas o deixam como está ou algumas vezes até mesmo um tanto pior do que estava antes do

início da cruzada. Pensando principalmente no mal, tendemos, por melhores que sejam nossas intenções,

a criar ensejo para que o mal se manifeste.

Embora frequentemente maniqueísta na prática, a Igreja jamais o foi quanto aos seus dogmas. Sob

esse aspecto difere de nossas idolatrias modernas, como o comunismo e o nacionalismo, os quais são

maniqueístas não só na ação como também na crença e na teoria. Hoje em dia é evidente em toda a parte

que nós estamos do lado da luz, eles do lado das trevas. E, estando do lado das trevas, eles merecem ser

punidos e devem ser liquidados (uma vez que nossa teologia justifica tudo) pelos meios mais cruéis que

tivermos em nosso poder. Por adorarmos a nós mesmos como Ahura Mazda e por considerarmos as

outras criaturas como Arimã, o princípio do mal, nós do século xx fazemos o que está ao nosso alcance

para garantir o triunfo do satanismo em nosso tempo. E, num contexto menor, era isso o que os exorcistas

estavam fazendo em Loudun. Ao identificar a adoração a Deus com os interesses políticos de sua seita,

ao concentrar seus pensamentos e esforços nos poderes do mal, estavam se empenhando em garantir o

triunfo (felizmente local e temporário) daquele Satã contra o qual supostamente lutavam.

Para nossos atuais propósitos, é desnecessário afirmar ou negar a existência de inteligências não

humanas capazes de dominar o corpo de homens e mulheres. A única pergunta que temos de nos fazer é:

tendo como certa a existência de tais inteligências, existe alguma razão para acreditar que eram

responsáveis pelo que aconteceu às ursulinas de Loudun? Os historiadores católicos modernos são

unânimes em admitir que Grandier era inocente do crime pelo qual foi julgado e condenado; entretanto,

alguns deles — eles são mencionados pelo abade Brémond em sua Histoire littéraire du sentiment

religieux en France — estão ainda convencidos de que as freiras foram vítimas de possessão genuína.

Como tal opinião pode ser mantida por alguém que tenha lido os documentos pertinentes ao caso, e que

tenha ao menos alguma noção das anomalias psicológicas, confesso ser incapaz de entender. Não existe

nada no comportamento das freiras que não encontre semelhança com muitos casos de histeria registrados

e tratados com sucesso por psiquiatras modernos. E não existem provas de que qualquer das freiras tenha

algum dia manifestado os poderes paranormais que, de acordo com os dogmas da Igreja Romana, são característicos de uma verdadeira possessão diabólica.

Como se pode distinguir a possessão genuína da fraude ou dos sintomas de doença? A Igreja

prescreve quatro testes — o da linguagem, o da força física anormal, o de levitação e o de clarividência

e predição. Se uma pessoa puder, em um determinado momento, compreender, ou, o que é ainda melhor,

falar uma língua que em seu estado normal ignora completamente; se manifestar o milagre corporal da

levitação ou realizar incontáveis proezas de força física; e se consegue prever o futuro corretamente ou

descrever acontecimentos que acontecem em lugares distantes — então pode-se presumir que essa pessoa

está possuída pelos demônios. (Ou senão pode-se presumir que seja o recebedor de graças

extraordinárias; porque em muitos casos, infelizmente, os milagres divinos e infernais são idênticos. A

levitação dos santos em êxtase difere da levitação dos demônios extáticos apenas em virtude dos

antecedentes e das consequências morais do fato. Esses antecedentes e consequências morais são

frequentemente difíceis de avaliar, e já aconteceu que mesmo as pessoas mais santas foram suspeitas de

apresentar fenômenos de pes e suas consequências pk [80] através de meios diabólicos).

Tais são os critérios oficiais e consagrados pelo tempo quanto à possessão diabólica. Para nós,

esses fenômenos de pes e pk provam somente que a antiga noção de uma alma dividida em

compartimentos estanques é indefensável. Abaixo e além do eu consciente encontram-se vastos âmbitos

de atividade do subconsciente, alguns piores e outros melhores do que o ego, alguns mais tolos e outros

muito mais inteligentes sob certos aspectos. Em seus limites, esse eu subconsciente prolonga-se e

confunde-se com o não eu, com o meio psíquico no qual entranham-se todos os eus e através do qual eles

podem se comunicar diretamente uns com os outros e com a mente cósmica. E, em algum ponto desses

níveis subconscientes, as mentes individuais entram em contato com a energia, não só em seu próprio

corpo, mas também (se pudermos confiar nas provas estatísticas e anedóticas) fora dele. A psicologia

antiga, como vimos, foi compelida pelas suas próprias definições dogmáticas a ignorar a atividade

mental subconsciente; a fim de explicar os fatos observados, teve de postular a existência do diabo.

Coloquemo-nos por um momento na situação mental dos exorcistas e seus contemporâneos.

Aceitando como válido o critério de julgamento da Igreja em relação à possessão, examinemos as provas

segundo as quais as freiras foram declaradas endemoniadas e o pároco, feiticeiro. Começaremos pelo

teste que, sendo o mais fácil de aplicar, era o mais utilizado na prática — o teste da linguagem.

Para todos os cristãos de épocas mais antigas, “falar várias línguas” era uma graça extraordinária,

um dom oferecido pelo Espírito Santo. Contudo, era também (tal é a natureza estranhamente equívoca do

universo) um sintoma certo de possessão demoníaca. Na grande maioria dos casos, esse dom das línguas

não consiste em falar fluentemente uma língua até então desconhecida. Consiste, sim, num palavreado

mais ou menos articulado e sistemático, mostrando algumas semelhanças com algum tipo de discurso

tradicional e consequentemente possível de ser interpretado por ouvintes de boa vontade, assim como

uma língua que lhes é familiar mas pronunciada de forma confusa. Nos casos em que pessoas em estado

de transe mostraram um conhecimento inequívoco de alguma língua que ignoravam completamente no seu

estado normal, geralmente após investigação verificava-se que haviam falado a língua durante sua

infância e depois a haviam esquecido, ou que a tinham ouvido falar e, embora não entendendo o

significado das palavras, haviam se familiarizado inconscientemente com seus sons. No restante, existem,

nas palavras de F. W. H. Myers, “poucas provas de aquisição — excetuando a telepatia — de qualquer verdadeiro acúmulo de novos conhecimentos, tais como uma linguagem desconhecida ou um estágio de

conhecimento matemático não atingido até então”. À luz de nossos conhecimentos, obtidos através de

pesquisas psíquicas sistemáticas, transes mediúnicos e psicografia, parece duvidoso que algum pretenso

endemoniado tenha passado pelo teste de linguagem de uma maneira completamente clara e inequívoca.

O que fica evidente é que os casos de fracasso total registrados são em grande número, enquanto os

sucessos registrados são em sua maior parte parciais e pouco convincentes. Alguns dos investigadores

eclesiásticos da possessão aplicavam o teste da linguagem de forma muito inventiva e eficaz. Em 1598,

por exemplo, Marthe Brossier tornou-se famosa por exibir os sintomas da possessão. Um desses sintomas

— profundamente tradicional e ortodoxo — consistia em entrar em convulsões toda vez que uma oração

ou um exorcismo fosse lido perante ela. (Os demônios odeiam Deus e a Igreja; logo, eles tendem a ter

crises de raiva toda vez que ouvem as palavras sagradas da Bíblia ou do livro de orações.) Com o

objetivo de testar os conhecimentos paranormais de latim em Marthe, o bispo de Orléans abriu seu

Petrônio e recitou solenemente a história pouco edificante da Matrona de Éfeso. O efeito foi mágico.

Antes de haver terminado a primeira sentença grandiloquente, Marthe estava rolando sobre o chão,

amaldiçoando o bispo pelo que a fazia sofrer com a sua leitura da palavra sagrada. Vale a pena ressaltar

que, em vez de pôr um fim à carreira de Marthe como endemoniada, esse incidente auxiliou-a a

prosseguir em novos triunfos. Escapando do bispo, colocou-se sob a proteção dos capuchinhos, que

proclamaram ter sido ela injustamente perseguida e utilizaram-na para atrair enorme multidão para seus

exorcismos.

O teste de Petrônio jamais foi aplicado, pelo que sei, às ursulinas de Loudun. O que mais se

aproximou de tal teste foi feito por um nobre visitante que entregou ao exorcista uma caixa contendo,

segundo segredou, algumas relíquias sagradas. A caixa foi encostada à cabeça de uma das freiras, que

imediatamente mostrou todos os sintomas de uma grande dor e desmaiou. Muito satisfeito, o piedoso

frade devolveu a caixa a seu dono, que logo depois a abriu e revelou que, a não ser por algumas cinzas,

ela estava completamente vazia. “Ah, meu senhor”, exclamou o exorcista, “que espécie de truque usou

conosco?” “Reverendo padre”, respondeu o nobre, “que espécie de truque vocês estão fazendo

conosco?”

Em Loudun, experimentavam-se testes simples de linguagem com frequência, mas sempre sem

sucesso. Eis a narrativa de um incidente que De Nion, que acreditava firmemente na verdade da

possessão das freiras, viu como um milagre irrefutável. Falando grego, o bispo de Nimes ordena à irmã

Clara que lhe traga seu rosário e reze uma ave-maria. A irmã Clara reage trazendo primeiro um alfinete e

depois, algumas sementes de anis. Exortada a obedecer, ela diz: “Vejo que deseja alguma coisa mais”, e

finalmente traz o rosário e se oferece para rezar uma ave-maria.

Na maioria dos casos, o milagre ainda era menos espantoso. Todas as freiras que não sabiam latim

eram possuídas por demônios que também não o conheciam. Para explicar esse estranho fato, um dos

exorcistas franciscanos disse em sermão que tanto existem demônios cultos como ignorantes. Os únicos

demônios cultos de Loudun foram aqueles que se apossaram da prioresa. Mas mesmo os demônios de

Jeanne não eram demasiadamente preparados. Eis aqui um trecho do procès-verbal do exorcismo

realizado diante do sr. de Cerisay em 24 de novembro de 1632. “O sr. Barré ergue a hóstia e pergunta ao

demônio, ‘Quem adoras?’. Resposta: ‘Jesus Christus’. Logo depois, o sr. Daniel Drouyn, assessor do escritório de Prevoste, declarou em alta voz, ‘Este diabo não é congruente’. O exorcista então mudou a

pergunta para ‘Quis est iste quem adoras?’. Ela respondeu: ‘Jesu Christe’. Sobre o que várias pessoas

comentaram: ‘Que péssimo latim!’. Mas o exorcista replicou que ela tinha dito ‘Adoro te, Jesu Christe’.

Pouco depois, uma freirinha entrou rindo alto e repetindo, ‘Grandier, Grandier!’. Então a irmã leiga,

Claire, entrou na sala relinchando como um cavalo.”

Pobre Jeanne! Nunca havia aprendido latim suficientemente para entender toda essa tolice acerca de

nominativos, acusativos e vocativos. Jesus Christus, Jesu Christe — ela lhes oferecera tudo que podia

lembrar; e ainda criticavam seu latim!

Enquanto isso, o sr. de Cerisay declarava que acreditaria de boa vontade na possibilidade de

possessão “se a dita superiora respondesse categoricamente a duas ou três de suas perguntas”. Mas,

quando essas foram feitas, não houve resposta. Completamente desconcertada, a irmã Jeanne buscou

refúgio numa convulsão e em alguns gritos de dor.

No dia seguinte a essa exibição bastante inconvincente, Barré dirigiu-se a De Cerisay e protestou

que suas ações eram puras, sem paixões ou más intenções. “Colocando o cibório sobre sua cabeça,

suplicou para ser condenado se houvesse feito uso de qualquer prática desonesta, sugestões ou

persuasões em relação às freiras em todo aquele caso.” Quando terminou, o prior das carmelitas deu um

passo à frente e pronunciou protestos e invocações semelhantes; ele também ergueu o cibório bem alto

sobre sua cabeça e rogou que as maldições de Datã e Abiram caíssem sobre ele se tivesse pecado ou

caído em qualquer falta neste caso.” Barré e o prior eram suficientemente fanáticos para não perceberem

realmente a natureza de suas ações, e foi sem dúvida com a consciência limpa que fizeram esses solenes

juramentos. É de notar que o cônego Mignon achou melhor não colocar nada sobre sua cabeça nem

invocar castigos tremendos. Entre os ilustres turistas britânicos que visitaram Loudun durante os anos de

possessão estava o jovem John Maitland, depois duque de Lauderdale. O pai de Maitland lhe contara

sobre uma camponesa escocesa através da qual um diabo havia corrigido o mau latim de um ministro

presbiteriano, e o jovem crescera assim com uma crença a priori na possessão. Na esperança de

comprovar sua crença através da observação direta das endemoniadas, Maitland realizou duas viagens ao

continente, uma a Antuérpia e a outra a Loudun. Em ambos os casos, ficou desapontado. Em Antuérpia,

“eu vi apenas aldeãs holandesas robustas ouvirem pacientemente aos exorcismos e vomitarem de maneira

abominável”. Em Loudun, as coisas eram um pouco mais animadas, mas não mais convincentes. “Quando

já tinha visto exorcizarem o bastante a três ou quatro delas na capela, e não ouvi nada além de raparigas

libertinas cantando canções obscenas em francês, comecei a suspeitar de fraude.” Queixou-se a um

jesuíta, que louvou sua “santa curiosidade” em ir a Loudun e pediu-lhe que comparecesse naquela noite à

igreja da paróquia, onde seria amplamente recompensado. “Na igreja da paróquia, vi muitas pessoas

observando uma jovem muito bem treinada para realizar proezas, mas nada igual ao que eu já vira

fazerem vinte acrobatas ou funâmbulos. Voltei à capela das freiras, onde vi os jesuítas ainda trabalhando

arduamente em vários altares e um pobre capuchinho, possuído de melancolia, que imaginava os

demônios correndo em torno de sua cabeça e estava incessantemente consagrando relíquias. Vi a madre

superiora exorcizada e vi a mão na qual eles queriam me fazer acreditar que os nomes de Jesus, Maria e

José haviam sido escritos por milagre (mas ficou claro para mim que tinham sido feitos com água-forte);

então minha paciência se esgotou, e dirigi-me a um jesuíta e desabafei tudo que pensava. Ele ainda sustentava a veracidade da possessão e expressei o desejo de, como experiência, falar uma língua

estrangeira. Ele perguntou: ‘Que língua?’ Respondi-lhe que não lhe diria, mas que nem ele nem todos

esses diabos me compreenderiam. [Possivelmente era o gaélico de sua Escócia nativa que Maitland tinha

em mente.] Ele perguntou-me se eu me converteria após a prova (pois havia percebido que eu não era

católico). Respondi-lhe que aquela não era a questão, e que todos os diabos do inferno não me podiam

perverter; tratava-se era de saber se aquela era uma verdadeira possessão e, se alguém pudesse me

entender, eu admitiria por escrito. Sua resposta foi: ‘Esses demônios não viajaram’ — ao que respondi

com uma sonora gargalhada.”

De acordo com os franciscanos, aqueles demônios eram ignorantes; na opinião dos jesuítas, não

eram viajados. Tais explicações de suas inaptidões para compreender línguas estrangeiras pareciam um

tanto insatisfatórias, e, em benefício daqueles que relutavam em aceitá-las, as freiras e seus exorcistas

acrescentaram uma série de novas explicações que eles esperavam serem mais convincentes. Se os

diabos não podiam falar grego ou hebraico era porque o pacto que tinham feito com Grandier incluía uma

cláusula segundo a qual jamais falariam essas línguas. E, se isso não era suficiente, então havia a

explicação que encerrava o assunto — não era desejo de Deus que esses diabos em particular falassem

línguas. Deus non vult — ou, como a irmã Jeanne diria no seu latim corrompido, Deus non volo. No

nível consciente, o erro era sem dúvida atribuído a simples ignorância. Mas sob um aspecto mais vago,

nossas ignorâncias são frequentemente voluntárias. Num nível subliminar, aquele Deus non volo, aquele

“Eu, Deus, não desejo”, pode muito bem ter exprimido os sentimentos do ego mais profundo de Jeanne.

Os testes de clarividência parecem ter sido tão mal-sucedidos quanto os de linguagem. De Cerisay,

por exemplo, combinou com Grandier que este fosse passar o dia na casa de um de seus confrades.

Dirigiu-se então ao convento e, durante o exorcismo, pediu à superiora que dissesse onde estava o

pároco naquele momento. Sem hesitar, a irmã Jeanne respondeu que ele estava na grande sala do castelo

com o sr. d’Armagnac.

Em outra ocasião, um dos demônios de Jeanne afirmou que Grandier tivera de fazer uma breve

viagem a Paris a fim de escoltar a alma de um recém-falecido procureur du Parlement chamado sr.

Proust para o inferno. Um inquérito revelou que jamais houvera um procureur chamado Proust e que

nenhum procureur falecera no referido dia.

Durante o julgamento de Grandier, outro dos diabos da prioresa jurou pelos Sacramentos que os

livros de magia de Grandier estavam guardados na casa de Madeleine de Brou. A casa foi revistada. Não

havia livro algum sobre magia — mas pelo menos Madeleine ficara bastante assustada, humilhada e

insultada, que era tudo o que realmente interessava à madre superiora.

Nos seus relatos sobre a possessão, Surin admite que as freiras muitas vezes fracassaram nos testes

de pes feitos pelos magistrados ou combinados para a edificação e distração dos turistas ilustres. Em

consequência desses fracassos, muitos membros da própria ordem se recusaram a acreditar que as freiras

estivessem sofrendo de outra coisa mais sobrenatural que melancolia e furor uterinus. Surin observa que

os céticos dentre seus colegas nunca permaneceram em Loudun por mais do que poucos dias seguidos.

Mas, da mesma forma que o espírito de Deus, o espírito do mal revela-se onde e quando lhe apraz. Para

estar certo de vê-lo se manifestar, é preciso que se fique no lugar dia e noite por meses a fio. Falando

como um dos exorcistas residentes, Surin afirma que a irmã Jeanne leu várias vezes seus pensamentos antes que ele pudesse expressá-los. Seria na verdade surpreendente que uma histérica com alto grau de

sensibilidade como a irmã Jeanne pudesse ter vivido durante cerca de três anos na mais estreita

intimidade com um diretor espiritual de sensibilidade intensa como o padre Surin sem desenvolver um

certo grau de ligação telepática com ele. O dr. Ehrenwald[81] e outros mostraram que esse tipo de

relação entre médico e paciente algumas vezes se estabelece durante o tratamento psicanalítico. O

relacionamento entre o endemoniado e o exorcista é provavelmente até mesmo mais íntimo do que aquele

entre o psiquiatra e o neurótico. E, nesse caso particular, lembremos, o exorcista estava obcecado pelos

mesmos demônios que tinham tomado conta de sua penitente.

Assim, Surin estava completamente convencido de que a prioresa podia, em certas ocasiões, ler com

sucesso os pensamentos dos que estavam à sua volta. Mas, de acordo com a definição dogmática,

qualquer pessoa que pudesse ler os pensamentos de outra estava possuída pelo diabo — ou então era o

receptor de uma graça extraordinária. A noção de que a pes podia ser uma faculdade natural, latente em

todas as mentes e evidente em poucas, não parece ter passado por sua cabeça nem por um só momento,

assim como pela de nenhum de seus contemporâneos ou predecessores. Ou os fenômenos de telepatia e

clarividência não existiam ou eram obra de espíritos que, pode-se presumir, a não ser que o leitor de

pensamentos fosse um santo, eram diabos. Surin afastava-se do pensamento estritamente ortodoxo

somente num ponto: acreditava que os demônios podiam ler as mentes diretamente, enquanto as maiores

autoridades em teologia eram de opinião de que só o poderiam fazer indiretamente, inferindo dos

movimentos do corpo que acompanham o pensamento.

No Malleus maleficarum acha-se declarado, a se levar em conta a melhor autoridade possível, que

os demônios não possuem vontade e compreensão, mas somente o corpo e as faculdades mentais que são

mais estreitamente ligadas a este. Em muitos casos, os demônios nem mesmo possuem o corpo inteiro do

endemoniado, mas apenas uma pequena parte dele — um único órgão, alguns grupos de músculos ou

ossos. Pilet de la Mesnardière, um dos médicos particulares de Richelieu, deixou-nos uma lista dos

nomes e lugares que habitavam todos os demônios que participaram das possessões de Loudun. Leviatã,

conta-nos ele, ocupava o centro da testa da prioresa; Beherit ficava alojado em seu estômago; Balaão,

sob a segunda costela do lado direito; Isacaaron, sob a última costela à esquerda. Eazaz e Caron viviam

respectivamente sob o coração e no centro da testa da irmã Louise de Jésus. A irmã Agnes de la Motte-

Baracé tinha Asmodeu sob o coração e Beherit no orifício do estômago. A irmã Claire de Sazilly

abrigava sete demônios no corpo — Zabulão na testa; Neftali no braço direito; Sans Fin, ou seja,

Grandier das Dominações, sob a segunda costela à direita; Elimi de um lado do estômago; o Inimigo da

Virgem no pescoço; Verrine na têmpora esquerda e Concuspiscência, da ordem dos Querubins, na costela

esquerda. A irmã Seraphica tinha um feitiço no estômago que consistia em uma gota de água guardada por

Baruc ou, na sua ausência, por Carreau. A irmã Anne d’Escoubleau tinha uma folha de bérberis mágico

em seu estômago sob os cuidados de Elimi, que ao mesmo tempo tomava conta de uma ameixa purpúrea

no estômago de sua irmã. Entre as endemoniadas leigas, Elisabeth Blanchard tinha um demônio sob cada

axila, juntamente com outro chamado Carvão da Impureza na nádega esquerda. Outros ainda estavam

alojados no umbigo, abaixo do coração e sob o mamilo esquerdo. Quatro demônios ocupavam o corpo de

Françoise Filatreau — Ginnillion no cérebro anterior; Jabel, que vagava por todas as partes do

organismo; Buffetison abaixo do umbigo; e Cauda de Cão, da ordem dos Arcanjos, no estômago.

De suas muitas moradas dentro do corpo de vítima, os demônios saíam, um de cada vez, para

trabalhar sobre os humores, os espíritos, os sentidos e a fantasia. Dessa forma, eles podiam influenciar a

mente, muito embora não pudessem possuí-la. A vontade é livre, e só Deus pode olhar para dentro da

mente. Disso resulta que uma pessoa possuída não podia ler diretamente a mente de outra. Se algumas

vezes os diabos pareciam possuir pes, era por serem observadores e espertos e poderem portanto inferir

os pensamentos secretos de um homem por meio de seu comportamento manifesto.

Os fenômenos de pes podem ter ocorrido em Loudun (Surin ao menos estava convencido de fato).

Mas, se ocorreram, foi espontaneamente e não através de situações provocadas pelos pesquisadores —

médicos e homens da lei. Contudo, a Igreja ensinava que os demônios podiam ser compelidos pelos

exorcistas a obedecer. Quando, devidamente constrangidos, os endemoniados não mostravam pes sob

condições de teste, concluía-se, de acordo com as regras do jogo sob o aspecto legal e teológico, que não

estavam possuídos. Infelizmente para Grandier e certamente para todos que estavam envolvidos, o jogo

nesses casos não foi jogado de acordo com as regras.

Dos critérios mentais da possessão, passamos agora para os físicos. No que se refere à levitação, os

demônios da irmã Jeanne tinham indicado, num estágio inicial do processo, que no seu pacto com

Grandier havia um ítem que proibia expressamente toda flutuação sobrenatural. E, de qualquer forma,

aqueles que ansiavam por ver tais prodígios estavam demonstrando curiosidade excessiva, nímia

curiositas, coisa que Deus definitivamente non volo. E, embora ela própria nunca houvesse dito que

levitava, alguns de seus patrocinadores asseveravam confiantemente, junto com o sr. de Nion, que em

várias ocasiões “a madre superiora fora levantada e suspensa no ar a uma altura de cerca de setenta

centímetros”. De Nion era um homem honesto, que provavelmente acreditava no que dizia. O que só

demonstra quão extremamente cautelosos devemos ser quando se trata de acreditar em crentes.

Algumas das outras freiras eram menos prudentes que sua superiora. No início de maio de 1634, o

diabo Eazaz prometeu que ergueria a irmã Louise de Jésus a três pés do chão.[82] Para não ser superado,

Cérbero ofereceu-se para fazer o mesmo com a irmã Catherine da Apresentação. Nenhuma das duas

jovens senhoras conseguiu sair do chão. Pouco depois, Beherit, que estava alojado na boca do estômago

da irmã Agnes de la Motte-Baracé, jurou que faria o solidéu de Laubardemont sair de sua cabeça e voar

para o teto da capela. Uma multidão reuniu-se para assistir o milagre. Ele não aconteceu. Depois disso,

os pedidos de levitação eram recebidos com uma recusa polida.

Os testes de força extraordinária foram realizados pelo dr. Mark Duncan, o médico escocês que era

o reitor do Colégio Protestante de Saumur. Segurando os pulsos de uma das endemoniadas, descobriu que

era fácil impedi-la de bater nele ou de escapar de seu controle. Depois dessa amostra humilhante da

fraqueza diabólica, os exorcistas se limitaram a convidar os descrentes a colocar seus dedos nas bocas

das piedosas irmãs e ver se o demônio os morderia. Quando Duncan e os outros declinaram do convite,

todo o povo lúcido deduziu que aquilo era o reconhecimento da realidade da possessão.

Fica evidente de tudo isso que, se como a Igreja Romana sustentava, os fenômenos de pes e

consequências pk são a marca da autenticidade da possessão diabólica (ou, senão, são graças

extraordinárias), então as ursulinas de Loudun eram apenas histéricas que caíram nas mãos não do diabo

nem do Deus vivo, mas nas de um bando de exorcistas, todos supersticiosos, ávidos de publicidade, e

alguns deliberadamente desonestos e intencionalmente malévolos.

Na ausência de qualquer prova de pes ou pk, os exorcistas e seus defensores foram forçados a

recorrer a argumentos ainda menos convincentes. As freiras, asseveravam, tinham de estar possuídas

pelos demônios; pois como, de outro modo, poderia se explicar o despudor de suas ações, a linguagem

obscena e falta de piedade em suas conversações? “Em que escola de devassos e ateus”, pergunta o

padre Tranquille, “elas aprenderam a vomitar tais blasfêmias e obscenidades?” E, quase que com um

traço de orgulho, De Nion nos afirma que as piedosas irmãs “faziam uso de expressões tão sujas a ponto

de envergonhar os mais libertinos dos homens, enquanto suas ações, tanto ao se exporem quanto ao

incitarem os presentes a comportamento libidinoso, teriam estarrecido os moradores do mais baixo

bordel da cidade”.[83] Quanto às suas pragas e blasfêmias — eram “tão inauditas que não poderiam ser

trazidas à lembrança de uma mente puramente humana.”

Quão tocantemente ingênuo é isso! Não existe horror que não possa ser aventado por mentes

humanas. “Sabemos o que somos”, diz Ofélia, “mas não sabemos o que podemos ser.”[84] A bem dizer,

todos nós somos capazes de praticamente tudo. E isso é verdade mesmo em relação às pessoas que foram

criadas dentro da mais austera moralidade. O que chamamos de “indução” não se restringe aos níveis

inferiores do cérebro e ao sistema nervoso. Também ocorre no córtex, e é a base física daquela

ambivalência de sentimentos que é uma característica tão marcante da vida psicológica do homem.[85]

Cada positivo gera um correspondente negativo. À visão de alguma coisa vermelha segue-se uma pós-

imagem verde. Grupos de músculos opostos envolvidos em qualquer atividade provocam

involuntariamente movimentos mútuos. E em níveis superiores descobrimos coisas tais como um ódio que

acompanha o amor, zombaria originada do respeito e temor. Em suma, o processo indutivo é ubiquamente

ativo. Na irmã Jeanne e em suas companheiras a religião foi incutida insistentemente desde a infância.

Por indução, esses ensinamentos criaram dentro do cérebro e através de suas associações mentais um

centro psicofísico do qual emanavam lições contraditórias de irreligião e obscenidade. (Todo acervo de

literatura religiosa é rico em referências àquelas terríveis tentações contra a fé e a castidade a que estão

particularmente sujeitos os que buscam a perfeição. Bons diretores espirituais demonstram que tais

tentações são normais e uma característica quase inevitável da vida espiritual, e não devem causar

preocupação em demasia.[86] Em épocas normais, esses pensamentos e sentimentos negativos seriam

reprimidos e, se assomassem à consciência, seria por meio de um esforço de vontade rejeitado e

sublimados através de discurso ou da ação. No entanto a prioresa, enfraquecida pela doença

psicossomática, tornando-se frenética devido à sua complacência em relação às fantasias irrealizáveis e

proibidas, perdeu todo o poder de controlar esses resultados indesejáveis do processo indutivo. O

comportamento histérico é contagioso, e seu exemplo foi seguido pelas outras freiras. Em pouco tempo, o

convento todo estava tendo ataques, blasfemando e dizendo obscenidades. Em benefício de uma

publicidade que julgavam ser útil às suas respectivas ordens e à Igreja em geral, ou com a intenção

deliberada de utilizar as freiras como instrumentos para a destruição de Grandier, os exorcistas fizeram

tudo que estava em seu poder para alimentar e propagar o escândalo. As freiras eram obrigadas a realizar

suas excentricidades em público, eram incitadas a blasfemar diante de visitantes ilustres e a divertir os

espectadores com exibições de absurdo despudor. Já vimos que no início de sua doença a prioresa não

acreditava que estivesse possuída. Foi apenas quando seu confessor e os outros exorcistas lhe

asseguraram repetidas vezes que estava invadida pelos demônios que a irmã Jeanne veio finalmente a se convencer de seu estado de endemoniada e de que sua ocupação daí por diante seria comportar-se como

tal. E o mesmo se aplica pelo menos a algumas das outras freiras. Através de um opúsculo publicado em

1634, sabemos que a irmã Agnes declarava constantemente durante o exorcismo que não estava possuída,

mas que os frades afirmavam que estava e obrigavam-na a se submeter ao exorcismo. E, “no dia 26 de

junho anterior, tendo o exorcista deixado por engano cair enxofre fervente nos lábios da irmã Claire, a

pobre menina rompeu a chorar dizendo que ‘desde que lhe disseram que estava possuída, acreditou

prontamente, mas não merecia por causa disso ser tratada de tal forma’”. O trabalho iniciado

espontaneamente pela histeria foi completado pelas sugestões de Mignon, Barré, Tranquille e os outros.

Tudo isso foi claramente compreendido na época. “Pressupondo que não existe trapaça no caso”,

escreveu o autor do opúsculo anônimo anteriormente mencionado, “deduz-se daí que as freiras estavam

possuídas? Não é possível que, em sua tola e equivocada imaginação, pensem estar realmente possuídas

quando de fato não estão? “Isso, prossegue o autor, pode suceder com freiras de três maneiras. Primeiro,

como consequência de jejuns, vigílias e meditações sobre o Inferno e Satã. Em segundo lugar, como

resultado de algumas observações feitas pelo seu confessor — alguma coisa que as faz pensar estarem

sendo tentadas pelos demônios. “E, em terceiro, o confessor vendo-as agir de forma estranha pode

imaginar em sua ignorância que estão endemoniadas ou enfeitiçadas, e pode depois convencê-las do fato

através da influência que exerce sobre suas mentes.” No caso em questão, a crença errônea na possessão

deve-se ao terceiro desses motivos. Como o envenenamento por mercúrio e antimônio em épocas

passadas, e o envenenamento pela sulfa e as febres do soro de nossos tempos, a epidemia de Loudun era

uma “doença iatrogênica”, provocada e difundida pelos próprios médicos que supostamente deveriam

restaurar a saúde das pacientes. A culpa dos exorcistas parece ainda maior quando nos lembramos que

seus procedimentos violavam frontalmente as leis instituídas pela Igreja. De acordo com essas leis, o

exorcismo deveria ser realizado confidencialmente, aos demônios não deveria ser permitido expressar

suas opiniões, não se deveria dar-lhes crédito e eles tinham de ser tratados com absoluto desprezo. Em

Loudun, as freiras eram exibidas para enormes multidões, seus demônios eram encorajados a discorrer

sobre todos os assuntos, desde o sexo até a transubstanciação, suas declarações eram aceitas como

absoluta verdade e eles eram tratados como visitantes ilustres de um mundo vizinho, cujos

pronunciamentos tinham quase o prestígio da Bíblia. Se blasfemavam e diziam obscenidades — bem, era

o seu jeito de ser. E, de qualquer forma, linguagem obscena e blasfêmias chamavam público. Os fiéis

realmente babavam por elas e voltavam, aos milhares, para ver mais.

Blasfêmia sobrenatural, mais do que linguagem obscena mundana — e se essas não eram provas

suficientes de possessão diabólica, o que dizer das contorções das freiras, de suas proezas no terreno da

acrobacia? A levitação tinha sido rapidamente excluída; mas, se as piedosas irmãs jamais se ergueram no

ar, elas ao menos realizavam as façanhas mais incríveis no chão. Algumas vezes, diz De Nion, “puxavam

o pé esquerdo por cima do ombro até atingir a face. Traziam também o pé sobre a cabeça, até os dedos

tocarem o nariz. Outras, além disso, eram capazes de esticar tanto suas pernas para ambos os lados que

sentavam sem que qualquer espaço entre seus corpos e o chão fosse visível. A madre superiora esticava

suas pernas a tão extraordinária extensão que de uma ponta de pé à outra a distância era de mais de dois

metros embora ela mesma só tivesse pouco mais de um metro e vinte de altura.” Lendo tais narrativas

acerca das proezas das freiras chega-se à conclusão de que a alma feminina é tão naturaliter Drum-Majorette quanto naturaliter Christiana. No que se refere ao eterno feminino, parece haver uma

tendência inata para a acrobacia e o exibicionismo, que só espera a oportunidade para se manifestar em

saltos mortais e cambalhotas. No caso das contemplativas enclausuradas, tais oportunidades não

ocorriam com frequência. Foram necessários sete demônios e o cônego Mignon para criar as

circunstâncias que tornaram possível finalmente à irmã Jeanne romper as barreiras.

Que as freiras encontravam uma profunda satisfação em suas ginásticas, está provado pela

declaração de De Nion de que, embora “torturadas pelos demônios duas vezes por dia” durante meses a

fio, suas saúdes não eram afetadas. Pelo contrário, “aquelas que eram um tanto frágeis pareciam mais

saudáveis que antes da possessão.” Às tambores-mores latentes, às dançarinas de cabaré in posse havia

sido permitido aflorar à superfície e, pela primeira vez, essas pobres moças sem vocação para a oração

sentiam-se verdadeiramente felizes.

Lamentalvelmente, sua felicidade não era absoluta. Elas tinham intervalos de lucidez. De vez em

quando tinham consciência do que estavam fazendo com elas, e o que elas mesmas estavam fazendo ao

infeliz pelo qual todas imaginavam freneticamente estarem apaixonadas. Vimos que já em 26 de junho a

irmã Claire queixara-se da maneira como estava sendo tratada pelos exorcistas. No dia 3 de julho, na

capela do castelo, ela rompeu em pranto e entre soluços declarou que tudo que dissera sobre Grandier

durante as últimas semanas era um amontoado de mentiras e calúnias, e que tinha agido o tempo todo sob

as ordens do padre Lactance, do cônego Mignon e dos carmelitas. Quatro dias depois, num acesso de

remorso e revolta ainda mais violento, tentou fugir, mas foi apanhada quando saía da igreja e trazida de

volta à força, chorando, para os piedosos padres. Encorajada por seu exemplo, a irmã Agnes (aquela

beau petit diable a quem Killigrew veria, mais de um ano depois, ainda rastejando aos pés do

capuchinho) apelou aos espectadores, que haviam ido lá para ver suas então já famosas pernas,

suplicando com lágrimas nos olhos que a livrassem daquele horrível cativeiro em meio aos exorcistas.

Mas estes ficavam sempre com a última palavra. Os rogos da irmã Agnes, a tentativa de fuga da irmã

Claire, suas retratações e escrúpulos de consciência — esses, estava bastante claro, eram obra do mestre

e protetor de Grandier, o diabo. Se uma freira retirasse o que havia dito contra o pároco, aquela era uma

prova cabal de que Satã falava pela sua boca e que o que afirmara anteriormente era a indiscutível

verdade.

Em relação à prioresa, esse argumento era utilizado com o efeito mais satisfatório. Um dos juízes

escreveu um resumo dos artigos de acusação pelos quais Grandier era condenado. No sexto parágrafo

desse documento lemos o seguinte: “De todas as desgraças que afligiram as boas irmãs, nenhuma pareceu

tão estranha como aquela que ocorreu com a madre superiora. Um dia após seu testemunho, enquanto o sr.

de Laubardemont estava tomando o depoimento de outra freira, a prioresa surgiu no pátio do convento

vestida apenas com uma camisola e lá permaneceu durante duas horas, debaixo de chuva, a cabeça

descoberta, uma corda em torno do pescoço e uma vela na mão. Quando a porta do locutório foi aberta,

ela correu para dentro, ajoelhou-se diante do sr. Laubardemont e declarou que queria oferecer uma

reparação pelo pecado que cometera acusando o inocente Grandier. Depois de que retirou-se, amarrou a

corda a uma árvore do jardim e teria se enforcado não fosse as outras irmãs terem corrido em seu

socorro”.

Outro homem poderia supor que a prioresa havia contado um amontoado de mentiras e sofria as angústias bem merecidas do remorso. Mas não o sr. de Laubardemont. Para ele era evidente que esse

espetáculo de arrependimento havia sido simulado por Balaão ou Leviatã, forçados pelos feitiços do

mágico. Longe de absolver o pároco, a confissão e tentativa de suicídio da irmã Jeanne aumentaram como

nunca a certeza de sua culpa.

Era inútil. Da prisão que haviam construído para si mesmas — a prisão de fantasias obscenas agora

tornadas realidade, de mentiras premeditadas agora tratadas como verdades manifestas —, as freiras

jamais poderiam escapar. O cardeal já fora tão longe que agora não podia permitir que se arrependessem.

E elas mesmas poderiam sustentar aquele arrependimento? Ao se retratarem do que haviam dito sobre

Grandier estariam lavrando sua própria sentença, não só neste mundo como no outro. Pensando melhor,

todas decidiram acreditar nos exorcistas. Os piedosos padres convenceram-nas de que aquilo que lhes

parecia uma sensação horrível de remorso era apenas uma ilusão diabólica; que o que, rememorando,

parecia a mais monstruosa das mentiras, era realmente verdade, e uma verdade tão absoluta, tão católica,

que a Igreja estava pronta a corroborar tanto sua ortodoxia quanto sua veracidade. As irmãs ouviram e se

deixaram convencer. E quando se tornou impossível prosseguir fingindo acreditar nesse absurdo

abominável, refugiaram-se no desvario. Horizontalmente, no nível da realidade cotidiana, não havia meio

de escapar à sua prisão. E quanto à autotranscendência ascendente — não havia possibilidade, em meio a

toda essa preocupação com o diabo, de elevar a alma a Deus. Mas no sentido descendente o caminho

estava ainda completamente desimpedido. E para lá elas foram, cada vez mais — algumas vezes por

espontânea vontade, num esforço desesperado para escapar da consciência de sua culpa e humilhação;

outras vezes, quando sua loucura e as sugestões dos exorcistas eram demais para elas, contra sua vontade

e a despeito de si mesmas. Para baixo em convulsões; para baixo em sensualidade bestial ou raiva

maníaca. Baixo, tão baixo, até ultrapassarem o limite da personalidade e penetrar naquele mundo

subumano no qual parecia natural a um aristocrata fazer trapaça para divertir o populacho, a uma freira

blasfemar, adotar poses indecentes e gritar palavras que não se podem mencionar. E então mais para

baixo, ainda mais, em direção à letargia, à catalepsia, à felicidade suprema da inconsciência total, do

esquecimento completo e absoluto.