Os Demônios de Loudun

Aldous Huxley · Apêndice

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Os Demônios de Loudun

Notas

[1]As citações que seguem foram extraídas do resumo de H.C. Lea sobre as condições da Igreja francesa depois do Concílio de Trento. Na fase inicial de nossa época, “a influência dos cânones de Trento tinha sido insuficiente. Em um conselho real realizado em 1560 [...] Charles de Marillac, bispo de Viena, declarou que a disciplina eclesiástica era quase obsoleta, e que nenhuma época anterior havia presenciado escândalos tão frequentes ou tão reprovável vida clerical. [...] Os prelados franceses, do mesmo modo que os alemães, estavam habituados a arrecadar o ‘cullagium’ de todos os seus padres, e informavam àqueles que não mantinham concubinas que poderiam tê-las se quisessem, mas que teriam de pagar um dinheiro para poder gozar uma vida dissoluta tivessem-nas ou não”. “Fica evidente por tudo isso que os padrões de moral eclesiástica não haviam se elevado com os esforços dos padres de Trento, e contudo um exame dos registros da disciplina da Igreja demonstra que com o crescente recato e cultura da sociedade durante os séculos xvii e xviii, as manifestações de licenciosidade cínicas e ostensivas no meio do clero foram se tomando gradativamente mais raras.” Evitar escândalo tornou-se uma questão de primordial importância. Se concubinas eram mantidas, o eram “sob o disfarce de irmãs e sobrinhas”. Segundo um código de regras publicado em 1668, ficou determinado que os monges da Ordem dos Mínimos não seriam excomungados se, “quando em via de ceder às tentações da carne, ou cometer roubo, prudentemente se despojassem do hábito monástico”. (Henry C. Lea, History of sacerdotal celibacy, cap. xxix, “The Post Tridentine Church”)

Durante toda essa época, tentava-se com um zelo desvairado impor a respeitabilidade. Em 1624, por exemplo, o reverendo René

Sophler foi declarado culpado de cometer adultério com a esposa de um magistrado numa igreja. O Lieutenant Criminel [comissário de polícia] de Le Mans condenou-o à forca. Foi impetrado um recurso ao Parlamento de Paris, o qual sentenciou-o, em lugar da forca, a ser queimado vivo.

[2]Diz-se do bispo cujo título é puramente honorífico. [n.t.]

[3]Em francês, no original: “Embora a devoção o reprimisse bastante”. [n.t.]

[4]Personagem de Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, cuja principal característica é a vulgaridade. [n.t.]

[5]Do latim, “sem restrições ou limites”. [n.t.]

[6]Em tradução livre, do francês: “Quando no templo estivermos,/ ajoelhados faremos/ como o devoto/ que, para a Deus louvar,/ prostra-se humildemente a par/ do canto da Igreja mais remoto.// Mas quando na cama estivermos,/ Enlaçados, desempenharemos/ O papel dos devassos no modo/ Dos livres amantes,/ Que praticam contentes,/ Centenas de artes de gozo”. [n.e.]

[7]Oeuvres, xv, 188.

[8] Ibid., vi, 309.

[9]Perseguição aos protestantes, considerados oficialmente como “hereges”, feita por tropas do governo. [n.t.]

[10]Do francês, no original, em tradução livre: “Não é sem grande razão/ que se escolheu esse personagem para realizar a oração/ do maior homem de sua paragem;/ Era preciso verdadeiramente/ Uma eloquência sem loquacidade/ para louvar dignamente/ quem me põe em inferioridade”. [n.e.]

[11]Tipo de anemia peculiar à mulher, a qual tira seu nome da cor amarelo-esverdeada da pele. [n.t.]

[12]Do francês, no original. Em tradução livre: “Muitas vezes, menti os apogeus/ Da noite, tendo-te nos braços meus/ Folgazã toda despida;/ Mas tal delícia, valha-me Deus/ Ainda me é desconhecida”. [n.e.]

[13]Do francês, no original. Em tradução livre: “Adeus, minha pequena amante,/ Adeus, meu colo e meu seio,/ Adeus, minha mão de fino torneio,/ Adeus, então, meu peitinho de alvura,/ Adeus, minha coxinha de diabrura,/ Adeus, meu olho, adeus meu coração!/ Adeus, minha glutona dulcidão!/ Mas antes que eu me aparte/ Antes que para longe eu me afaste/ Ei de apalapar ainda este flanco/ E as curvas desse mármore branco”. [n.e.]

[14]Em latim, no original. Tradução livre: “Assim todas as espécies da terra, de homens e feras,/ de seres do mar, os rebanhos, os pássaros de esplêndidos matizes,/ são tomados por paixões ardentes; o amor é igual para todos”. Trecho do Terceiro Livro das Geórgicas, de Virgílio (70-19 a. C.). [n.e.]

[15]Em latim, no original. Tradução livre: “Unidas umas às outras as palmeiras/ balançam, suspiram os choupos/ e as plâneras em harmonia, os amieiros sussurram entre si”. Trecho de “Casamento de Honório e Maria”, de Claudiano (c. 370-404 a. C.). [n.e.]

[16]Em latim, no original. Tradução livre: “É abominável um velho fazendo a guerra e abominável um velho fazendo amor.” Verso de Amores (Elegia 9, Livro I), de Ovídio (43 a. C. – c. 18 a. C.). [n.e.]

[17]Em latim, no original. Tradução livre: “Quão amplo e belo flanco, que viçosa coxa!”. Verso de Amores (Elegia 5, Livro I), de Ovídio. [n.e.]

[18]Em francês, no original. Em tradução livre: “O coração mais bem entregue aguenta sempre partido,/ Cada um sempre se ama um pouco mais do que ao seu amigo”. Versos de “Elegia 3”, da segunda parte das Obras poéticas de Théophile de Viau (1590-1626). [n.e.]

[19]Romeu e Julieta, ato V, cena 1

[20]“Pelas atas das assembleias dos huguenotes de Poitiers em 1560, fica evidente que não era raro os padres desposarem secretamente suas concubinas, e, quando a mulher era uma calvinista, sua posição equívoca tornava-se motivo de sérios comentários de sua Igreja.” (Henry C. Lea, History of sacerdotal celibacy. Do capítulo xxix, “The Post-Tridentine Church”.)

[21]Expressão para moça que finge inocência e castidade; “santa do pau oco”. [n.e.]

[22]Em latim, no original: “A verdade jurídica é poderosa e prevalecerá”. [n.e.]

[23]Em francês, no original: “Mais maldoso que o diabo”. [n.e.]

[24]Tallemant des Raux, Historiettes (Paris, 1854), vol. 2, p. 337.

[25]Ibid., vol. 1, p. 189.

[26]Personagem de David Copperfield, de Charles Dickens. [n.e.]

[27]Manifestação visível da divindade. [n.t.]

[28]Ver Apêndice, p. 377.

[29]Ou seja, dentro da própria Igreja. [n.e.]

[30]“Os consolos e prazeres da oração”, escreve Surin em uma de suas cartas, “sucedem lado a lado com as mortificações do corpo.” “Os corpos que não se autoflagelam”, lemos em outro momento, “dificilmente estão capacitados para receber a visita dos anjos. Para ser amado e protegido por Deus, deve-se ou sofrer profundas penas d’alma, ou então maltratar o corpo.”

[31]“Os jesuítas tentaram unir Deus e o mundo e só ganharam o desprezo de ambos.” (Pascal)

[32]Seção 32 do poema “Canção de mim mesmo”, de Whalt Whitman. Tradução de Bruno Gambarotto. [n.e.]

[33]Em francês, no original: “Que a besta é uma máquina;/ Que nela tudo se dá sem escolha e por turbina./ Nada de sentimento, nenhuma alma, nela tudo é corpo [...]/ O animal sente-se agitado/ Com movimentos que o vulgar chama/ Tristeza, alegria, amor, prazer, dor tirana,/ Ou qualquer outro desses estados/ Mas não é nada disso; não se deixem ser enganados”. [n.e.]

[34]Ver Le Gouvello, Armelle Nicolas (1913); R. Brémond, Histoire littéraire du sentiment religieux en France (Paris, 1916).

[35]Ver J.P.F. Deleuze, Practical Instruction in Animal Magnetism. Tradução de T.C. Hartshorn (Nova York, 1890).

[36]Ver William James, As variedades da experiência religiosa.

[37]Conhecida no Brasil como Joana dos Anjos. [n.e.]

[38]Tartufo, Ato 3, cena 4. Em francês, no original: “De todas as amizades, ele desprende minha alma/ E eu verei morrer irmão, filhos, mãe e dama/ Sem me inquietar tanto com isso”. [n.e.]

[39]Tartufo, Ato 3, cena 4. Em francês, no original: “Sim, meu irmão, sou um perverso, um culpado/ Um infeliz pecador, repleto de iniquidade/ O maior celerado de qualquer idade”. [n.e.]

[40]Em francês, no original: “Já chega, renuncio a todas as pessoas de bem:/ Eu terei deles um horror demasiado,/ E vou tornar-me para eles pior do que um diabo”. [n.e.]

[41]Em francês, no original: “A prioresa estava tão perturbada, que falava então apenas de Grandier, o qual dizia ser o objeto de todas as suas afeições”. [n.e.]

[42]“Exorcito-vos, o mais impuro dos espíritos, cada investida violenta do adversário, cada espectro, cada legião; em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, sede vós erradicado e afugentado dessa criatura de Deus.”

[43]“Conjuro-vos, serpente anciã, pelo Juiz dos vivos e dos mortos, pelo vosso criador, pelo criador do mundo, por ele, que tem o poder de arremessar-vos ao inferno que, desta serva de Deus, que acelera a volta para o seio da Igreja, vós, com os medos e aflições de vossa fúria, rapidamente, parti.”

[44]Barré não foi o inventor desse acessório para o exorcismo. Tallemant registra que um nobre francês, o sr. de Fervaque, o havia usado com sucesso numa freira de suas relações que estava possuída. Hoje em dia, na África do Sul, há seitas negras que praticam o batismo pela lavagem intestinal.

[45]Em francês, no original: “Mas sua cabeleira é um rio morno,/ Onde afogar sem calafrio a alma de nosso entorno,/ E encontrar este Nada que você não conhece”. [n.e.]

[46]“Certa noite bem junto a uma horrenda judia/ Como ao longo de um morto outro morto estendido” (As flores do Mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, poema xxxii)

[47]Na prática médica dos séculos xvii e xviii, o clister era empregado tão livre e frequentemente quanto a seringa hipodérmica o é hoje. “Os clisteres”, escreve Robert Burton, “estão muito em voga. Trincavellius usa-os antes de qualquer outra coisa, e Hércules de Saxônia é um grande apreciador deles. Tenho percebido [diz ele] por experiência que muitos homens, hipocondríacos e deprimidos, têm sido curados com o uso exclusivo de clisteres. Sem dúvidas”, Burton acrescenta em outra passagem, “um clister, oportunamente usado, não pode deixar de, tanto nesta quanto na maioria das outras enfermidades, fazer muitíssimo bem.” Desde a tenra infância, todos os membros de classes que tinham recursos para chamar o médico ou o boticário eram versados na seringa gigante e no supositório — com abundantes doses retais de “sabão castilo, mel fervido até diluir-se ou, mais forte, de Escamônea, Heléboro etc.”. Logo, não é surpreendente notar que, quando descreve suas tolas diversões com as petites demoiselles, que costumavam vir e brincar com suas irmãs, Jean-Jacques Bouchard (o exato contemporâneo da prioresa) fala, como se fossem coisas conhecidas por todos, dos petits bastons, com os quais meninos e meninas costumavam fingir que aplicavam clisteres uns nos outros. Mas a criança é pai do homem e mãe da mulher, e, durante gerações, a monstruosa seringa do boticário continuou assediando a imaginação sexual, não apenas dos filhos menores mas também dos mais velhos. Mais de cento e cinquenta anos antes do feito do sr. Barré, os heróis e heroínas do marquês de Sade, em seus laboriosos esforços de ampliar o alcance de seus prazeres sexuais, estavam fazendo uso frequente da arma secreta do exorcista. De uma geração anterior ao Marquês, François Boucher tinha exibido, em L’attente du Clystère, a mais extraordinária gravura feminina do século, talvez de todos os tempos. Do selvagemente obsceno e do graciosamente pornográfico há uma fácil modulação para a diversão rabelaisiana e para a anedota no salão de fumar. Recorde-se a velha senhora no Cândido, com seus pequenos chistes sobre cânulas e nous autres femmes. Lembre-se o amoroso Sganarelle, no Le Médecin malgré lui, ternamente implorando a Jacqueline permissão para lhe dar, não um beijo, mas un petit clystère dulcifiant. O sr. Barré com sua seringa de água sagrada era um petit clystère sanctifiant. Mas, santificante ou dulcificante, a coisa permaneceu o que era intrinsecamente e o que, por convenção e naquele momento particular da história, tinha-se tornado — tudo menos uma experiência erótica, um ultraje ao decoro e um símbolo enriquecido por toda uma gama de sons harmônicos e concomitantes de pornografia, que penetrou nos folclores e se tornou uma parte da cultura da região.

[48]Na carta que escreveu após a visita a Loudun, em 1635, Thomas Killigrew descreve o tratamento com que foi aquinhoada aquela encantadora irmã Agnes, cuja boa aparência e comportamento espantosamente indecoroso tinham-lhe valido, entre os habitués do exorcismo, o carinhoso apelido de le beau petit diable. Ela era muito jovem e atraente, da mais terna aparência e contorno mais esguio que qualquer uma das outras. [...] A graça de seu rosto era encapuçada num véu triste e negro que, com minha entrada na capela, ela escondeu, mas imediatamente mostrou de novo” (Killigrew tinha apenas vinte anos naquele tempo, e era excepcionalmente bonito). “E embora ela permanecesse agora presa como uma escrava nas mãos do frade, pode-se ver através de todos os seus infortúnios, nos seus olhos negros, os arcos intactos de muitos triunfos”. Como uma escrava nas mãos do frade — essas palavras são dolorosamente apropriadas. Um pouco mais tarde, como Killigrew registra, a infeliz garota era uma escrava sob os pés do frade. Após tê-la lançado em convulsões e fazê-la rolar no chão, o bom padre pisava na sua vítima caída. “Confesso que foi uma triste visão”, diz Killigrew, “não tive forças para ver o milagroso trabalho de sua cura, em vez disso fui dali para a hospedaria.”

[49]Em francês, no original: “que eles tinham feito entrar pelos intestinos e que saíam pelo útero”. [n.e.]

[50]Em francês, no original: “de clavas cobertas de prepúcios de bruxos que haviam sido inseridas em seus úteros, pedaços de vela, clavas cobertas de línguas e outros instrumentos de infâmia, como tripas e outras coisas das quais os bruxos e feiticeiros se serviam para infligir a elas atos impuros”. [n.e.]

[51]Ver Barbe Buvée et la prétendue possession des Ursulines d’Auxonne, do dr. Samuel Garnier (Paris, 1895), p. 14-15.

[52]“Urbain.” “Qual a sua profissão?” “Padre.” “De que igreja?” “Da de Saint-Pierre.”

[53]Kramer e Spranger, Malleus maleficarum, tradução do reverendo Montague Summers (Londres, 1948), pp. 5-6.

[54]Ibid., p. 122.

[55]Traidores que servem de instrumento aos conquistadores de seu país. [n.t.]

[56]“Tão grande o mal que a religião causou.”

[57]Kramer e Sprenger, op. cit., p. 228.

[58]Ibid., p. 147.

[59]Ibid., p. 134.

[60]Ibid., p. 137.

[61]George Gifford, A Discourse of the Subtill Practises of Devilles by Witches and Sorcerers, como está citado em W. Notestein, A History of Witchcraft in England, p. 71.

[62]Notestein, ibid., p. 91.

[63]Kramer e Sprenger, op. cit., p. 56.

[64]Em francês, no original: “por ter, urinando num buraco, composto uma nuvem grande e espessa de granizo que devastou o território de sua vila”. [n.e.]

[65]Ver Maud Oakes, The Two Crosses of Todos Santos (Nova York, 1951).

[66]Éminence Rouge era o cardeal Richelieu; Éminence Grise, François Leclerc du Tremblay, o tal braço direiro mencionado acima. [n.e.]

[67]“O demônio não deve ser acreditado, nem mesmo quando diz a verdade.”

[68]Título de uma peça de Alfred de Musset.

[69]Gabriel Legué, Documents pour servir à l’histoire médicale des possédées de Loudun (Paris, 1874).

[70]Relatos completos e detalhados sobre tratamento psiquiátricos e seus resultados existem desde o fim do século xviii em diante. Um psicólogo famoso que estudou esses documentos contou-me que todos pareciam levar a uma significativa conclusão; isto é, nos problemas mentais a proporção de cura tem permanecido acentuadamente constante durante aproximadamente duzentos anos, qualquer que seja a natureza dos métodos psiquiátricos utilizados. A percentagem de curas reivindicada pela moderna psicanálise não é maior que a pretendida pelos alienistas de 1800. Os alienistas de 1600 teriam obtido o mesmo sucesso de seus sucessores de dois a três séculos mais tarde? Não será possível dar respostas exatas; mas suponho que não o conseguiram. No século xvii, a doença mental era tratada com desumanidade sistemática, o que deve frequentemente ter agravado a doença. Teremos ocasião num capítulo posterior para voltar ao assunto.

[71]“Nos belos corredores de Bedlam,/ Ainda não fizera vinte e um anos/ Tinha algemas fortes e os melodiosos “tlim-tlim” dos açoites/ E oração e jejum intensos/ Agora eu canto, ‘Alguma comida, algum alimento,/ Alimento, bebida ou fato?/ Aproxime-se, senhora ou senhorita, sem precisar ficar aflita/ O pobre Tom a ninguém não faz maltrato’”. [n.t.]

[72]Refere-se à leishmaniose visceral. [n.e.]

[73]Paracelso, Selected writings (Nova York, 1951), p. 318.

[74]“Espíritos! Oh, nada disso, mulher; tino, apenas tino/ Este homem desafia o diabo e todas as suas obras./ E o faz com engenho e instrumentos,/ Possui arados velozes que avançam rapidamente/ Arando quarenta acres de uma só vez! E moinhos/ Que farão jorrar água a dez milhas.” [n.t.]

[75]T.K. Oesterreich, Les Possédés. Trad. René Sudre (Paris, 1927).

[76]Consultar a esse respeito as conferências de Gifford compiladas por sir Charles Sherrington e publicadas em 1941 sob o título de Man on his Nature.

[77]Em Satã, um volume dos Études Carmélitaines (Paris, 1948).

[78]Ver Demoniality, de L. Sinistrari. (Paris, 1879)

[79]Demônios que assumiriam as formas masculina e feminina, respectivamente, para perturbar o sono de mulheres e homens e manter com eles relação sexual. [n.t.]

[80]pes, sigla que designa percepção extrassensorial, ou seja, a aparente habilidade de alguns indivíduos, chamados sensitivos ou psíquicos, para perceber fenômenos e objetos independentemente de seus órgãos sensoriais; pk é a sigla para psicocinese, a suposta capacidade psíquica que permite alguns movimentos na matéria sem interação física, como mover um objeto, levitar ou teletransportar. [n.e.]

[81]Ver Telepathy and Medical Psychology de Jan Ehrenwald, M.D. (Nova York, 1948).

[82]Cerca de 92 centímetros. [n.t.]

[83]Quando a irmã Claire foi intimada pelo exorcista (como um teste de pes) a obedecer a uma ordem, secretamente cochichada de um espectador para outro, ela entrou em convulsões e rolou no chão “relevant jupes et chemises, montrant ses parties les plus secrètes, sans honte, et se servant de mots lascifs. Ses gestes devinrent si grossiers que les témoins se cachaient la figure. Elle répétait, en s’ [...] des mains, ‘Venez donc, foutez-moi’” [Tornando a erguer saias e camisas, mostrando suas partes mais secretas, sem pudor, e servindo-se de palavras lascivas. Seus gestos tornaram-se tão vulgares que as testemunhas tapavam o rosto. Ela repetia [...], ‘Venha logo, foda-me’.]. Em outra ocasião, essa mesma Claire de Sazilly “se trouva si fort tentée de coucher avec son grande ami, qu’elle disait être Grandier, qu’n jour s’étant approchée pour recevoir la Sainte Communion, elle se leva soudain et monta dans sa chambre, où, ayant été suivie par quelqu’une des Sœurs, elle fut vue avec un Crucifix dans la main, dont elle se preparait [...] L’honnêteté”, acrescenta Aubin, “ne permet pas d’écrire les ordures de cet endroit” [Encontrava-se de tal maneira tentada a dormir com seu grande amigo, que ela dizia ser Grandier, que um dia, aproximando-se para receber a Santa Comunhão, ela levantou-se bruscamente e subiu para o quarto, onde, tendo sido seguida por alguma outra das freiras, foi vista com um crucifixo na mão, com o qual se preparava [...] A honestidade”, acrescenta Aubin, “não permite a descrição das imundices daquele local.].

[84]Hamlet, Ato 4, Cena 5.

[85]Ver lschlondsky, Brain and Behaviour (Londres, 1949).

[86]Em uma carta datada de 26 de janeiro de 1923, dom John Chapman escreveu o que segue: “Durante os séculos xvii e xviii, a maioria das almas devotas parece ter atravessado um período no qual se sentiam certas de estar condenadas por Deus. [...] Isso não parece acontecer hoje em dia. Mas a angústia correspondente de nossos contemporâneos parece ser o sentimento de não ter nenhuma fé; não é uma reação contra qualquer dogma em particular (geralmente), mas apenas uma sensação de que a religião não é verdadeira. [...] A única solução é desprezar a coisa toda, não dando atenção a ela a não ser (é claro) para declarar ao Senhor que se está pronto a sofrer por isso o tempo que Ele desejar, o que parece um paradoxo absurdo de se dizer para Alguém em quem não se acredita”.

[87]Abreviação para “Quod erat demonstrandum”, o que se tinha de demonstrar. [n.t.]

[88]Cavalo de madeira em que se torturavam os acusados ou condenados. [n.t.]

[89]“Contemplai a cruz do Senhor, deixai seus inimigos fugirem; o leão da tribo de Judá conquistou a descendência de David. Eu te exorcizo, criatura de madeira, em nome do Bom Pai Todo-Poderoso, e em nome de Jesus Cristo seu Filho Nosso Senhor, e pelo poder do Espírito Santo.”

[90]Em francês, no original: “A estupidez não é meu forte”. [n.e.]

[91]Em francês, no original: “Pequenas apreensões de estar amaldiçoada”. [n.e.]

[92] “Esses sofrimentos extraordinários, tais como possessão e obsessão, são, da mesma forma que as revelações, sujeitos à ilusão; é evidente que jamais devemos desejá-los; devemos apenas aceitá-los, mesmo a contragosto. Se desejamos sofrer, temos meios de fazê-lo mortificando nosso orgulho e sensualidade. Dessa forma, evitamos lançarmo-nos a perigos que estão fora de nosso controle e dos quais não conhecemos o desfecho. Entretanto, nossa imaginação se deleita com o milagroso, exige aquelas virtudes românticas que impressionam o público. [...] “E mais, provações como possessão e obsessão são sérios empecilhos não só para a pessoa em causa, como também para os diretores espirituais e toda a comunidade onde esta reside. A caridade nos proíbe de desejar esse tipo de sofrimento.” (A. Poulain, S.J. — The Graces of Interior Prayer. Edição inglesa, p. 436).

[93]Essas manifestações exteriores de invasão diabólica não apareceram até a Sexta-feira Santa, dia 6 de abril. De 19 de janeiro até essa data, os sintomas de obsessão tinham sido puramente psicológicos.

[94]Editada pela primeira (e aparentemente última) vez no European Magazine, fevereiro, 1803.

[95]Em inglês, no original: “Por que o homem desgovernado, entre todas as criaturas espalhadas,/ Constrói tão desproporcionais moradas?/ As feras se revelam por seus covis/ E os pássaros constroem ninhos afins;/ As tartarugas habitam sob o telhado baixo/ De suas próprias carapaças das quais lhes caem bem o encaixo:/ Nenhuma criatura ama espaços desocupados;/ Seus corpos delimitam seus delineados./ Mas ele, superfluamente difundido,/ Exige mais espaço vivo que falecido,/E em seu palácio oco ficam/ Onde os ventos, como ele, também se desperdiçam./ Que necessidade de todo esse mármore incrustar/ Para abundantes ciscos de pó enclausurar?”. [n.e.]

[96]Em francês, no original: “Contudo sem dar um passo fora do quarto/ O qual com almíscar e âmbar deixava farto,/ Para não surpreender o Santo com aquela infecção/ Que do perfeito ministro é a imperfeição,/ E moderar um pouco o odor fedorentíssimo/ Que sai do reto podre do Eminentíssimo”. [n.e.]

[97]Em francês, no original: “Ele viu pulularem vermes em suas úlceras/ Ele viu morrer seu braço —/ Seu braço que na Europa inflamou tantas guerras,/ Que queimou tantos altares...” [n.e.]

[98]“Superstição — Concupiscência”, diz Pascal. E novamente: “Um vício natural, como a incredulidade, e não menos pernicioso — superstição”.

[99]Partido político que se rebelou contra Mazarin durante a minoridade de Luís xiv. [n.t.]

[100]Para o único texto autêntico e completo das partes autobiográficas desse trabalho, consultar o segundo volume das Lettres spirituelles du P. Jean-Joseph Surin, organizado por Michel e Cavalléra (Toulouse, 1928).

[101]O estado de Surin, é interessante observar, é descrito e recebe prescrições médicas específicas do dr. Léon Vannier em seu trabalho autorizado La Pratique de l’homéopathie (Paris, 1950, p. 215): “O paciente que é tratado com Actaea Racemosa tem a impressão de que sua cabeça está envolta em uma nuvem espessa”. Enxerga mal, ouve mal, em volta dele e dentro dele tudo está confuso. O paciente “tem medo de ficar maluco”. Bem estranhamente, se aparece alguma dor em qualquer parte do organismo (nevralgias faciais ou uterinas, dores lombares ou nas juntas), ele ou ela se sente melhor. “Experimentando dores, o paciente melhora seu estado mental”.

[102]Quando chamamos Teresa/ Seu rosto todo iluminado/ Mostrava bem que ela tinha tomado Daquele vinho em grandeza/ Ela me disse: “Leve uma taça consigo,/ Beba e cante comigo:/ Deus, Deus, Deus, quero apenas Deus:/ Todo o resto me pesa.// Uma genovesa, cujo coração/ Estava cheio daquela poção/ Parecia escoltá-la./ Ela tão vermelha quanto uma brasa/ Bradava: “De delícia este vinho extravasa!” [n.e.]

[103]Em francês, no original: “Como Nele mesmo enfim a eternidade o muda”. [n.t.]

[104]Palavra antiga para designar uísque. [n.e.]

[105]Muito mais profundamente entrelaçada. [n.t.]

[106]J. D. Unwin, Sex and Culture (Londres, 1934).

[107]Referência à conhecida sentença encontrada no livro A caça ao snark do escritor inglês Lewis Carroll. [n.e.]