Os Demônios de Loudun

Aldous Huxley · Capítulo 8 de 14

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Os Demônios de Loudun

Capítulo VIII

 

“Devidamente coagido, o diabo é obrigado a dizer a verdade.” Uma vez aceita como irrefutável essa

importante premissa, não havia absolutamente nada que não se pudesse inferir dela. Assim, o sr. de

Laubardemont detestava os huguenotes. Dezessete ursulinas possuídas pelo demônio estavam prontas a

jurar pelo Santo Sacramento que os huguenotes eram amigos e fiéis servidores de Satã. Sendo esse o

caso, o comissário se sentiu plenamente justificado em não tomar conhecimento do Édito de Nantes. De

princípio, os calvinistas de Loudun foram despojados de seus cemitérios. Que enterrassem as carcaças de

seus mortos em qualquer outro lugar. Depois chegou a vez do Colégio Protestante. As espaçosas

construções da escola foram confiscadas e entregues às ursulinas. No convento alugado não havia lugar

para acomodar as multidões de espectadores piedosos que lotavam a cidade. Agora, finalmente, as

piedosas irmãs podiam ser exorcizadas com toda a publicidade que mereciam e sem ter de caminhar sob

qualquer tempo para Sainte-Croix ou para a Église du Château.

Pouco menos detestáveis que os huguenotes eram aqueles maus católicos que se recusavam

obstinadamente a acreditar na culpa de Grandier, na veracidade da possessão e na perfeita ortodoxia da

nova doutrina dos capuchinhos. Lactance e Tranquille vociferavam contra eles do púlpito. Essas pessoas,

proclamavam em altos gritos, não eram melhores que os hereges, suas dúvidas eram pecados mortais e

eles já estavam praticamente condenados. Enquanto isso, Mesmin e Trincant começaram a acusar os

céticos de deslealdade ao rei e (ainda pior) conspiração contra Sua Eminência. E, pelas bocas das freiras

de Mignon e das leigas carmelitas histéricas, um grande número de demônios declarava que eles eram

todos feiticeiros que haviam negociado com Satã. De algumas das endemoniadas de Loudun veio uma

informação de que até mesmo o irrepreensível Bailli, o sr. de Cerisay, era um adepto da magia negra.

Outra endemoniada acusou dois padres, Buron e Frogier, de tentativa de estupro. Devido à delação da

prioresa, Madeleine de Brou foi acusada de bruxaria, detida e feita prisioneira. Graças à sua riqueza e

altas relações, seus parentes conseguiram que ela fosse solta sob fiança. Contudo, depois que o

julgamento de Grandier terminou, Madeleine voltou a ser presa. Por meio de um recurso aos Messieurs

des Grands-Jours (os juízes da peripatética corte de apelação que atravessavam o país, investigando

escândalos e erros da justiça), instaurou-se um processo contra Laubardemont. O comissário revidou com

uma interdição contra o suplicante. Felizmente para Madeleine, o cardeal não a considerava

suficientemente importante para justificar uma disputa contra o judiciário. Laubardemont foi instruído

para largar o caso e a prioresa teve de desistir dos prazeres da vingança. Quanto a Madeleine, fez o que

o amante a tinha dissuadido de fazer após a morte de sua mãe — tornou-se freira e desapareceu para

sempre no convento.

Enquanto isso, outras acusações pairavam no ar. Agora eram as debutantes da região as escolhidas

para o ataque. Com seu modo brincalhão, a irmã Agnes declararia que em nenhum lugar do mundo havia tanta falta de castidade como em Loudun. A irmã Claire diria nomes e especificaria pecados. A irmã

Louise e a irmã Jeanne acrescentariam que todas as meninas eram feiticeiras em potencial, e o feito

terminaria com as posturas indecentes de costume, linguagem obscena e gargalhadas insanas.

Em outras ocasiões, cavalheiros respeitáveis eram acusados de terem frequentado o sabá e beijado o

traseiro do diabo. E que suas esposas tinham fornicado com íncubos, suas irmãs, enfeitiçado as galinhas

do vizinho, suas tias solteironas, feito com que um jovem cheio de virtudes ficasse impotente na noite do

casamento. E sempre, através dos pequenos orifícios que deixavam o ar passar pelas janelas fechadas

com tijolos, Grandier estava distribuindo magicamente seu esperma às bruxas como recompensa, às

mulheres e filhas dos cardinalistas na malévola esperança de levá-las à vergonha imerecida. Todos esses

perniciosos disparates eram registrados palavra por palavra por Laubardemont e seus auxiliares.

Aqueles que eram acusados pelos demônios — em outras palavras, que eram desagradáveis ao

comissário e aos exorcistas — chamados ao escritório de Laubardemont, eram interrogados, intimidados

e ameaçados com processos legais que poderiam custar-lhes a vida.

Num dia de julho, a uma sugestão de Beherit, Laubardemont mandou fechar as portas de Sainte-Croix

durante uma grande reunião de moças. As jovens foram então revistadas pelos capuchinhos. Mas os

pactos com Satã que se supunha serem mantidos por todas elas não foram revelados nem mesmo após a

mais minuciosa investigação. Embora Beherit houvesse sido devidamente coagido, por alguma razão

desconhecida deixara de revelar a verdade.

Ora uns, ora outros, os capuchinhos, recoletos e carmelitas semanalmente gritavam e gesticulavam

de todos os púlpitos; mas os céticos não estavam convencidos, os protestos contra a maneira iníqua de

conduzir o processo contra Grandier se tornaram cada vez mais veementes e repetidos. Rimadores

anônimos faziam epigramas sobre o comissário. Pondo letras novas nas velhas músicas, os homens

cantavam cinicamente a seu respeito nas ruas ou quando tomavam vinho nas tavernas. Na calada da noite,

sátiras sobre os bons padres eram afixadas às portas da igreja. Interrogados, Cauda de Cão e Leviatã

citaram um protestante e alguns escolares como os culpados. Foram presos mas, como nada pudesse ser

provado contra eles, foram postos em liberdade novamente. Sentinelas ficavam agora postadas às portas

das igrejas. O único resultado foi que os libelos passaram a ser afixados a outras portas. No dia 2 de

julho, o exasperado comissário lançou uma proclamação. Dali em diante ficava expressamente proibido

fazer ou mesmo dizer alguma coisa “contra as freiras ou outras pessoas da referida Loudun afligidas

pelos maus espíritos, ou contra os exorcistas ou aqueles que assistiam aos exorcismos”. Todo aquele que

desobedecesse ficava passível de uma multa de dez mil libras ou, se parecesse necessário, a penas ainda

mais graves, tanto financeiras quanto físicas. Depois disso, os críticos tornaram-se mais cautelosos; os

demônios e os exorcistas podiam lançar suas calúnias sem risco de contradição. Segundo o autor

anônimo da época de Remarques et considérations pour la justification du Curé de Loudun, “Deus, que

só fala a verdade, foi agora destronado, e o diabo que tomou Seu lugar só diz mentiras e coisas vãs; e

estas devem ser vistas como verdades. Não é isso ressuscitar o paganismo? Além disso, as pessoas

dizem que seria muito conveniente que o diabo citasse o maior número possível de mágicos e feiticeiros,

porque dessa forma eles serão julgados, seus bens, confiscados, e uma parte será cedida, se ele assim

quiser, a Pierre Menuau, que entretanto deve se satisfazer, da mesma forma que seu primo, o cônego

Mignon, com a morte do pároco e a ruína das mais respeitáveis famílias da cidade.”

No início de agosto, o venerável padre Tranquille publicou um pequeno tratado descrevendo e

justificando a nova doutrina: “Devidamente coagido, o diabo é obrigado a dizer a verdade.” O livro

obteve a aprovação do bispo de Poitiers e foi aclamado por Laubardemont como a última palavra em

teologia ortodoxa. Não era mais possível persistirem dúvidas. Grandier era um feiticeiro e em menor

escala o era também aquele insolente e empertigado sr. de Cerisay. Excetuando-se aquelas cujos pais

eram fiéis cardinalistas, todas as moças de Loudun eram prostitutas e feiticeiras. E metade da população

da cidade já fora amaldiçoada por falta de fé nos demônios.

Dois dias após a publicação do livro de Tranquille, o Bailli convocou uma reunião das pessoas mais

representativas da cidade. Discutiu-se a situação de Loudun e ficou decidido que De Cerisay e seu

representante, Louis Chauvet, deveriam ir a Paris e solicitar ao rei proteção contra as ações arbitrárias

de seu comissário. Os únicos que discordaram foram Moussaut, o promotor público, Menuau e Hervé, o

Lieutenant Criminel. Questionado por De Cerisay se aceitava a nova doutrina e aprovava o que estava

sendo feito a seus concidadãos em nome de Balaão, Cauda de Cão e os outros, Hervé retrucou que “o rei,

o cardeal e o bispo de Poitiers acreditavam na possessão e, no seu entender, isso era o suficiente”. Para

ouvidos do século xx, essa apelação para a infalibilidade dos chefes políticos tem um som notavelmente

moderno.

No dia seguinte, De Cerisay e Chauvet partiram para Paris. Eram portadores de uma petição na qual

as justas queixas e apreensões das pessoas de Loudun estavam claramente expostas. O modo de agir de

Laubardemont era severamente criticado e a nova doutrina dos capuchinhos, apresentada como sendo

“contra a expressa proibição da lei de Deus” e em oposição à autoridade dos padres da Igreja, de são

Tomás e de todo o poder da Sorbonne, que haviam condenado formalmente uma doutrina semelhante em

1625. Em vista de tudo isso, os suplicantes pediam a Sua Majestade que ordenasse à Sorbonne para

examinar o livro de Tranquille e requeriam ainda que a todos aqueles que houvessem sido difamados

pelos demônios e seus exorcistas fosse dada a permissão para apelar ao Parlamento de Paris, “que é o

juiz adequado para tais assuntos”.

Na corte, os dois magistrados avistaram-se com Jean d’Armagnac, que imediatamente dirigiu-se ao

rei solicitando que os recebesse. A resposta foi uma seca recusa. De Cerisay e Chauvet deixaram sua

petição com o secretário particular do rei (que era gente do cardeal e inimigo declarado de Loudun) e

tomaram o caminho de casa.

Em sua ausência, Laubardemont tinha lançado outra proclamação. Agora era proibido, sob pena de

multa de vinte mil libras, realizar qualquer tipo de reunião pública. Depois disso, os inimigos do diabo

não causaram mais problemas.

As investigações preliminares estavam terminadas; chegara finalmente a hora do julgamento.

Laubardemont esperava poder convocar para juízes pelo menos alguns magistrados de Loudun. Ficou

desapontado. De Cerisay, De Bourgneuf, Charles Chauvet e Louis Chauvet — todos se recusaram a

participar de um assassinato judicial. O comissário tentou a adulação, depois, quando esta falhou,

insinuou sombriamente as consequências de desagradar Sua Eminência. Nada conseguiu. Os quatro

homens da lei permaneceram firmes. Laubardemont viu-se forçado a procurar mais longe — em Chinon,

Châtellerault, Poitiers, Tours, Orléans, La Elèche, Saint Maixent e Beaufort. Afinal conseguiu uma lista

de treze magistrados complacentes, e depois de algumas dificuldades com um advogado excessivamente escrupuloso, Pierre Fournier, que se recusava a fazer o jogo do cardeal, conseguiu um promotor público

de absoluta confiança.

Pela metade da segunda semana de agosto estava tudo pronto. Após assistirem à missa e receberem a

comunhão, os juízes reuniram-se no convento carmelita e ouviram as provas acumuladas por

Laubardemont durante os meses precedentes. O bispo de Poitiers afiançara formalmente a veracidade da

possessão. Isso significava que diabos reais haviam falado pelas bocas das ursulinas e jurado

repetidamente que Grandier era um feiticeiro. Mas, “devidamente coagido, o diabo é obrigado a contar a

verdade”. Portanto... q.e.d.[87]

A condenação de Grandier era tão certa e notória que os turistas já estavam chegando em grande

número a Loudun para a execução. Durante aqueles dias quentes de agosto, trinta mil pessoas — mais que

o dobro da população normal da cidade — estavam disputando alojamentos, refeições e lugares perto do

poste onde Grandier seria queimado vivo.

Muitos de nós acham difícil acreditar que fosse possível apreciar um espetáculo de execução

pública. Mas, antes de começarmos a nos congratular por sentimentos tão elevados, convém lembrar,

primeiramente, que jamais nos foi permitido assistir a uma execução e, em segundo lugar, que na época

em que as execuções eram públicas um enforcamento afigurava-se tão atraente como um espetáculo de

malhação de Judas, enquanto uma morte na fogueira era o equivalente a um Festival de Bayreuth ou à

representação da Paixão em Oberammergau — um grande acontecimento para o qual valia a pena fazer

uma longa e dispendiosa peregrinação. Quando as execuções públicas foram abolidas, não foi porque a

maioria o desejasse; e sim porque uma pequena minoria de reformadores de grande sensibilidade

possuíam bastante influência para bani-las. O conceito de civilização pode ser definido, sob um de seus

aspectos, como um impedimento sistemático aos indivíduos em determinadas circunstâncias de se

portarem como bárbaros. Nos últimos anos descobrimos que quando, após um período de proibição,

essas situações são novamente oferecidas, homens e mulheres, não piores que nós, mostram-se prontos e

ansiosos a retomá-las.

O rei e o cardeal, Laubardemont e os juízes, o povo da cidade e os turistas — todos sabiam o que

estava para acontecer. A única pessoa para a qual a condenação não parecia o desfecho inevitável era o

prisioneiro. Até o final da primeira semana de agosto, Grandier ainda acreditava ser apenas um réu

comum, num julgamento cujas irregularidades eram casuais e seriam esclarecidas tão logo se chamasse a

atenção sobre elas. Seu factum (a contestação escrita de seu processo) e a carta que enviou

clandestinamente da prisão para ser entregue ao rei foram evidentemente escritos por um homem que

ainda estava convencido de que seus juízes poderiam ser persuadidos através dos fatos contestados e

argumentos lógicos, de que estavam interessados na doutrina católica, e seria de esperar que se

curvassem à autoridade de teólogos acreditados. Comovente ilusão! Laubardemont e seus servis

magistrados eram representantes de um homem que não estava preocupado com fatos, lógica, lei ou

teologia, mas apenas com vingança pessoal e com um ensaio político cuidadosamente destinado a

demonstrar quão longe poderiam ir os sistemas de ditadura totalitária naquela terceira década do século

xvii.

Quando todos os depoimentos dos demônios já haviam sido ouvidos, o prisioneiro foi chamado ao

tribunal. Em seu factum, que foi lido em voz alta pela defesa, Grandier respondia a seus acusadores diabólicos, sublinhava a ilegalidade do processo e a parcialidade de Laubardemont, denunciava os

exorcistas por induzirem sistematicamente as endemoniadas e provava que a nova doutrina dos

capuchinhos era uma perigosa heresia. Os juízes reunidos, mexendo-se em suas cadeiras, não

disfarçavam sua impaciência, cochichando uns com os outros, rindo, metendo o dedo no nariz, rabiscando

o papel que tinham à sua frente. Grandier olhou para eles e subitamente percebeu que não havia mais

esperanças.

Foi levado de volta à sua cela. No sótão sem janelas o calor era sufocante. Insone, deitado sobre seu

feixe de palha, podia ouvir a cantoria de alguns turistas bretões embriagados que tinham chegado para o

espetáculo e tentavam matar o tempo de fastidiosa espera. Só mais uns poucos dias... E todo aquele

horror era imerecido. Não havia feito nada, era completamente inocente. Sim, absolutamente inocente.

Mas a maldade deles o perseguira, pacientemente, persistentemente; e agora aquela imensa máquina da

injustiça organizada estava a esmagá-lo. Podia lutar, mas eles eram dotados de força invencível; podia

empregar sua inteligência e eloquência, mas eles nem mesmo o ouviam. Agora só restava pedir

clemência, ao que eles responderiam com risos. Fora apanhado numa armadilha — do mesmo modo que

aqueles coelhos que ele capturava em seus tempos de menino nos campos de sua casa. Aos gritos

lancinantes, e o laço tornava-se mais apertado quanto mais o animal se debatia, mas jamais tão apertado

que fizesse cessar os guinchos. Para que estes parassem, era necessária uma cacetada na cabeça do

bicho. E de repente sentiu-se tomado por uma terrível mistura de ódio e impotência, autocompaixão e um

pavor torturante. Para o coelho que soltava guinchos de pavor ele proporcionara o alívio do golpe de

misericórdia. Mas eles — o que reservavam para ele? As palavras que escrevera no fim da carta ao rei

vieram-lhe à lembrança: “Recordo-me que, quando era um estudante em Bordeaux, há quinze ou

dezesseis anos, um monge foi queimado por feitiçaria; mas o clero e os monges seus companheiros

fizeram tudo para salvá-lo, muito embora ele houvesse confessado seu crime. Entretanto, no meu caso

particular, devo dizer não sem ressentimento, monges e freiras e meus próprios colegas, cônegos como

eu, conspiraram para a minha destruição, embora eu não seja culpado de nada que nem de longe se

assemelhe com feitiçaria”. O pároco fechou os olhos e em sua imaginação divisou o rosto contorcido do

monge através da crepitante cortina de chamas. “Jesus, Jesus, Jesus...” E então os gritos se tornaram

inarticulados, como os guinchos do coelho apanhado no laço, e não havia ninguém para sentir piedade e

pôr um fim à sua agonia.

O terror ficou tão insuportável, que involuntariamente começou a dar gritos. O som de sua própria

voz o surpreendeu. Sentou-se e olhou em volta de si. E de repente sentiu-se tomado de vergonha.

Chorando no meio da noite, como uma mulher ou uma criança assustada! Franziu o sobrolho, cerrou os

punhos. Ninguém jamais o chamaria de covarde. Que façam todo o mal que puderem! Estava preparado

para isso. Eles veriam que sua coragem era maior que a maldade deles, maior que qualquer tormento que

a crueldade deles pudesse conceber.

O pároco deitou-se outra vez. Mas não para dormir. Possuía a inclinação para o heroísmo, mas seu

corpo estava em pânico. O coração batia descompassadamente. Tremendo devido ao medo instintivo

provocado pelo sistema nervoso, seus músculos tornavam-se ainda mais tensos devido ao esforço

consciente de superar aquele terror puramente físico. Tentou rezar; mas “Deus” era uma palavra sem

sentido, “Cristo” e “Maria” nomes que nada significavam. Só conseguia pensar na infâmia iminente, na morte sob dores indescritíveis, na monstruosa injustiça da qual estava sendo vítima. Aquilo tudo era

inteiramente inconcebível; e contudo era um caso que estava realmente acontecendo. Se ao menos tivesse

ouvido o conselho do arcebispo e deixado a paróquia dezoito meses antes! E por que recusara-se a ouvir

Guillaume Aubin? Que loucura o fizera ficar e deixar-se prender? Imaginar o que podia ter sido tornava a

realidade presente ainda mais insuportável... E contudo decidiu suportá-la. Como um homem. Esperavam

vê-lo rebaixar-se e encolher-se de medo. Mas essa satisfação jamais lhes daria, jamais. Cerrando os

dentes, decidiu opor sua vontade contra a maldade de seus algozes. Mas ainda sentia o forte pulsar de

suas têmporas e, quando virou-se inquieto sobre a palha, sentiu o corpo empapado de suor.

O horror daquela noite parecia não terminar; e no entanto breve chegava a madrugada e cada vez se

tornava mais próximo o dia daquele horror infinitamente pior e fatal.

Às cinco horas a porta da cela foi aberta e o carcereiro anunciou um visitante. Era o padre Ambrose,

da ordem dos cônegos agostinianos, que viera por mera caridade perguntar se poderia prestar ao

prisioneiro alguma ajuda ou conforto. Grandier vestiu-se rapidamente, em seguida ajoelhou-se e começou

a confissão completa de toda uma vida de faltas e omissões. Eram todos antigos pecados pelos quais

havia feito penitência e recebido absolvição — pecados antigos mas bem vivos na memória; pois agora,

pela primeira vez via-os pelo que realmente eram; barreiras que impediram-no de atingir a virtude,

portas deliberadamente fechadas diante de Deus. Em palavras e rituais tinha sido um cristão, um padre;

em pensamentos, atos e sentimentos nunca adorara a ninguém a não ser a si mesmo. “Venha a mim o meu

reino, seja feita a minha vontade” — o reino da luxúria, ambição e vaidade, o desejo de ser importante,

oprimir, triunfar e regozijar-se. Pela primeira vez na vida compreendeu o significado da contrição — não

sob o aspecto da doutrina nem por definição escolástica, mas internamente, como uma terrível sensação

de remorso e autocondenação. Quando terminou a confissão, ele chorava amargamente, não pelo que ia

sofrer, mas pelo que havia feito.

O padre Ambrose concedeu-lhe a absolvição e depois ministrou-lhe a comunhão e falou um pouco

sobre os desígnios de Deus. Nada deveria ser pedido, disse, e nada recusado. Tudo que pudesse

acontecer a alguém, a não ser o pecado, não devia apenas ser aceito com resignação; devia ser desejado

sem recuos, por ser um desejo de Deus para aquele momento particular. Sofrimento, aflição, humilhações

causadas por fraquezas e tolices pessoais deveriam ser desejadas. E no fato de serem desejadas, seriam

compreendidas. Sendo compreendidas, seriam transfiguradas, vistas não com os olhos do homem

mundano, mas da forma que Deus as via.

O pároco ouvia. Estava tudo no bispo de Genebra e em santo Inácio. Não só havia ouvido tudo

aquilo antes; ele o havia dito — milhares de vezes e de forma muito mais eloquente, com muito mais

veemência do que o padre Ambrose podia jamais esperar dizê-las. Mas o velho estava falando a sério,

ele evidentemente sabia do que estava falando. Murmuradas por uma boca desdentada, sem elegância de

estilo, até mesmo com erros de gramática — as palavras eram como fachos de luz iluminando

subitamente uma mente que estivera na escuridão por muito tempo remoendo antigas mágoas ou

deleitando-se com prazeres futuros ou triunfos imaginários.

“Deus está aqui”, murmurou a voz velha e cansada, “e Cristo é agora. Aqui em sua prisão, agora, em

meio às suas humilhações e sofrimentos.”

A porta foi aberta novamente e era Bontemps, o carcereiro. Ele tinha relatado a visita do padre Ambrose ao comissário e o sr. de Laubardemont enviara ordens drásticas para que Sua Reverência

partisse imediatamente e não mais voltasse. Se o prisioneiro quisesse ver um padre, poderia chamar o

padre Tranquille ou o padre Lactance.

O monge idoso foi retirado do aposento; mas suas palavras permaneceram, e o significado delas

cada vez se tornava mais claro. “Deus está aqui e Cristo é agora” — e, no que dizia respeito à alma, não

podia estar em nenhum outro lugar e em qualquer outro instante. Toda aquela disposição de sua vontade

contra seus inimigos, toda a sua revolta contra a destino injusto, aquelas resoluções de ser heroico e

imbatível — quão tremendamente sem significação!

Às sete, o pároco foi levado para o convento dos carmelitas para uma nova apreciação dos juízes

reunidos para condená-lo. Mas Cristo estava em meio deles; até mesmo quando Laubardemont tentou

fazê-lo embaraçar-se em suas respostas, Cristo estava lá. A aparência de tranquila dignidade de Grandier

causou uma profunda impressão em alguns dos magistrados. Entretanto, o padre Tranquille teve para isso

uma explicação muito simples: era tudo obra do diabo. O que parecia tranquilidade era apenas a atrevida

insolência das potências infernais; e a dignidade não era nada além da demonstração externa do orgulho

impenitente.

Os juízes só viram o acusado três vezes ao todo. Então, muito cedo na manhã do dia 18, após as

costumeiras devoções preliminares, pronunciaram sua sentença. Foi por unanimidade. Grandier teria de

ser submetido ao “interrogatório”, tanto ao costumeiro quanto ao extraordinário; tinha então de se

ajoelhar às portas das igrejas de Saint-Pierre e do convento e lá, com a corda no pescoço e uma vela de

duas libras na mão, pedir perdão a Deus, ao rei e à justiça; em seguida, deveria ser levado à praça

Sainte-Croix, amarrado a um poste e queimado vivo; após o que suas cinzas deveriam ser espalhadas aos

quatro ventos. A sentença, escreve o padre Tranquille, foi verdadeiramente celestial; pois Laubardemont

e seus treze juízes estavam “tanto no céu, em razão de sua piedade e devoção ardente, como na terra,

através do exercício de suas funções”.

Tão logo a sentença foi pronunciada, Laubardemont deu ordens aos médicos Mannoury e Foumeau

para dirigirem-se imediatamente à prisão. Mannoury foi o primeiro a chegar; mas ficou tão desconcertado

com o que Grandier lhe disse sobre as proezas anteriores com a agulha que se retirou em pânico,

entregando a seu colega a tarefa de preparar a vítima para a execução. Os juízes ordenaram que Grandier

fosse todo depilado — cabeça, rosto e corpo. Foumeau, que estava convencido da inocência do pároco,

desculpou-se respeitosamente pelo que teria de fazer e então pôs-se a trabalhar.

O pároco foi despido. A navalha passou sobre sua pele. Em poucos minutos estava tão sem pelos

como um eunuco. A seguir, os abundantes cachos negros foram tosquiados, tornando-se eriçados e

espetados; o couro cabeludo foi ensaboado e completamente raspado. Então foi a vez dos bigodes

mefistofélicos e da pequena barba.

“E agora as sobrancelhas”, disse uma voz pelo vão da porta.

Surpreendidos, voltaram suas cabeças. Era Laubardemont. A contragosto, Foumeau fez o que lhe

pediram. Aquele rosto que tantas mulheres haviam achado irresistivelmente belo era agora uma máscara,

grotescamente calva, de um palhaço numa arlequinada.

“Ótimo”, disse o comissário, “ótimo! E agora as unhas.”

Foumeau estava perplexo.

“As unhas”, repetiu Laubardemont. “Você agora vai arrancar as unhas.”

Desta vez, o médico se negou a obedecer. Laubardemont a princípio ficou verdadeiramente atônito.

O que é que havia de errado? Afinal de contas, o homem era um feiticeiro declarado. Contudo, redarguiu

o outro, o feiticeiro declarado ainda era um homem. O comissário irritou-se; mas, apesar de todas as suas

ameaças, o médico não voltou atrás. Não havia tempo para convocar outro cirurgião, e Laubardemont

teve de se contentar com a desfiguração parcial de sua vítima por meio da depilação.

Vestindo apenas uma camisola de dormir e um par de chinelos velhos, Grandier foi levado para

baixo, empurrado para dentro de uma carruagem fechada e levado ao palácio de justiça. Pessoas do lugar

e turistas amontoavam-se nas entradas; entretanto, só uns poucos privilegiados — oficiais de alta patente,

nobres com suas esposas e filhas, meia dúzia de fiéis cardinalistas pertencentes à burguesia — tiveram

permissão para entrar. As sedas farfalhavam; as cores intensas do veludo imperavam, as joias refulgiam,

levantavam-se odores de almíscar e âmbar. Em paramentos sacerdotais de oficiantes, os padres Lactance

e Tranquille entraram na sala de julgamento. Com gestos rápidos de consagração espalhavam água-benta

sobre tudo que estivesse a seu alcance, ao mesmo tempo que entoavam as palavras rituais de exorcismo.

Então uma porta foi aberta e em sua camisola e chinelos, mas com um solidéu e barrete de clérigo sobre

sua cabeça raspada, Grandier apareceu em seu limiar. Depois de ser aspergido por todo o corpo, os

guardas fizeram-no percorrer a sala em toda a sua extensão e ajoelhar-se diante do assento dos juízes.

Suas mãos estavam amarradas às costas e era portanto impossível para ele retirar o barrete. O

funcionário do tribunal dirigiu-se a ele, arrancou com violência barrete e solidéu e atirou-os no chão com

desprezo. À vista daquele palhaço pálido e careca, várias senhoras puseram-se a dar risadinhas

histéricas. Um oficial de justiça pediu silêncio. O funcionário pôs os óculos, pigarreou e começou a ler a

sentença — primeiro, meia página de linguagem jurídica; depois uma longa descrição da amende

honorable que o prisioneiro tinha de fazer; então a condenação à morte na fogueira e a seguir uma

digressão sobre a placa comemorativa a ser colocada na capela das ursulinas ao preço de cento e

cinquenta libras às custas dos bens que foram confiscados do prisioneiro; e, finalmente, como uma

espécie de reflexão tardia, uma menção casual às torturas, costumeiras e extraordinárias, que

precederiam o lançamento à fogueira. “Pronunciado na mencionada Loudun a 18 de agosto de 1634, e

executado”, concluiu enfaticamente o funcionário, “no mesmo dia”.

Fez-se um prolongado silêncio. Então Grandier dirigiu-se a seus juízes.

“Meus senhores”, disse lenta e claramente, “chamo como testemunhos o Deus Pai, o Deus Filho e o

Deus Espírito Santo, juntamente com a Virgem, minha única defensora, de que nunca fui um feiticeiro,

jamais cometi sacrilégio nem conheci outra mágica que não a da Sagrada Escritura, a qual sempre

preguei. Adoro meu Salvador e rogo para que possa compartilhar da recompensa do sangue de Sua

Paixão.”

Ergueu seus olhos ao céu; depois, após alguns momentos, baixou-os outra vez para olhar o

comissário e seus treze assalariados. Num tom quase que de intimidade, como se eles fossem seus

amigos, disse-lhes que temia por sua salvação — temia que os horríveis sofrimentos preparados para seu

corpo pudessem levar sua pobre alma ao desespero e, através do mais grave dos pecados, à condenação

eterna. E, sendo assim, certamente ficariam satisfeitos em mitigar ao menos um pouquinho o rigor do

castigo?

Fez uma pequena pausa e olhou interrogativamente para cada um dos rostos impassíveis. Dos

assentos das mulheres veio o som de outras risadinhas contidas. Mais uma vez o pároco percebeu que já

não havia esperança — nenhuma esperança a não ser neste Deus que estava ali e não o abandonaria, este

Cristo que era agora, que continuaria sendo agora em cada momento de seu martírio.

Começou a falar outra vez, agora sobre os mártires. Aquelas testemunhas sagradas morreram por

amor a Deus e pela glória de Jesus Cristo — morreram na roda, nas chamas, sob a espada, cobertos de

flechas e devorados por animais selvagens. Nunca ousaria comparar-se com eles; mas ao menos podia

esperar que um Deus infinitamente misericordioso lhe permitiria expiar através dos sofrimentos todos os

pecados de uma vida frívola e dissipada.

As palavras do pároco eram tão comoventes, e o destino que o esperava, tão terrivelmente cruel, que

todos, até os mais ferrenhos inimigos, sentiram-se tomados de piedade. Algumas das mulheres que

haviam dado risadinhas diante do grotesco palhaço encontravam-se agora aos prantos. Os oficiais de

justiça pediram silêncio. Mas foi inútil. Os soluços eram incontroláveis. Laubardemont estava muito

desconcertado. Nada estava acontecendo de acordo com seus planos. Melhor que ninguém, devia saber

que Grandier não era culpado dos crimes pelos quais seria torturado e queimado vivo. E, no entanto, em

certo sentido extraordinariamente esotérico, o pároco era um feiticeiro. Baseando-se em mil páginas de

provas sem nenhum valor, treze juízes mercenários o haviam dito. Portanto, embora evidentemente falso,

devia de alguma forma ser verdade. Assim sendo, de acordo com as regras do jogo, Grandier deveria

estar passando suas últimas horas em desespero e revolta, amaldiçoando o diabo que o fizera cair numa

cilada e Deus que o estava mandando para o inferno. Em vez disso, o patife estava falando como um bom

católico e dando o exemplo mais comovente e confrangedor de resignação cristã. A coisa era intolerável.

E que diria Sua Eminência quando soubesse que o único resultado dessa cerimônia tão bem planejada

tinha sido para convencer os espectadores de que o pároco era inocente? Só havia uma coisa a fazer, e

Laubardemont, que era homem decidido, prontamente a fez.

“Evacuem a corte”, ordenou.

Os oficiais de justiça e os arqueiros da guarda apressaram-se a obedecer. Protestando

violentamente, os senhores da pequena nobreza e suas senhoras foram conduzidos para os corredores e as

salas de espera. As portas fecharam-se atrás deles. À exceção de Grandier, seus guardas e juízes, os dois

frades e um grupo de oficiais da cidade, a grande sala ficou vazia.

Laubardemont então dirigiu-se ao prisioneiro. Que confessasse sua culpa e revelasse os nomes de

seus cúmplices. Só então os juízes poderiam atender a seu apelo para que a sentença fosse atenuada.

O pároco respondeu que não podia citar cúmplices que nunca tivera, nem confessar crimes dos quais

era completamente inocente...

Mas Laubardemont queria uma confissão; na verdade, precisava de uma com urgência — precisava

dela a fim de consternar os céticos e silenciar os que criticavam seus métodos. Seus modos passaram

repentinamente de frígidos para declaradamente cordiais. Ordenou que desamarrassem as mãos de

Grandier, depois tirou um papel de seu bolso, molhou a pena no tinteiro e ofereceu-a ao prisioneiro. Se

assinasse seria desnecessário recorrer à tortura.

Segundo os padrões comuns, um criminoso condenado teria aproveitado a oportunidade para pedir

um pouco de clemência. Gauffriady, por exemplo, o padre mágico de Marselha, acabou por assinar tudo que lhe apresentavam. Entretanto, Grandier recusou-se mais uma vez a aceitar as regras do jogo.

“Devo pedir a Vossa Senhoria que me desculpe”, disse.

“Apenas uma assinatura”, falou Laubardemont com exagerada amabilidade. E quando o outro

protestou que sua consciência não lhe permitiria declarar uma mentira, o comissário implorou-lhe que

reconsiderasse sua decisão — para seu próprio bem, para poupar a seu pobre corpo um sofrimento

desnecessário, para salvar sua alma em perigo, para enganar o diabo e se reconciliar com Deus a quem

ofendera tão seriamente.

Segundo o padre Tranquille, Laubardemont realmente chorou enquanto fazia esse último apelo para

que confessasse. Não precisamos duvidar da palavra do frade. O carrasco de Richelieu possuía um

genuíno pendor para as lágrimas. Relatos de testemunhas oculares das últimas horas de Cinq-Mars e De

Thou descrevem um quadro de Laubardemont debulhando-se em lágrimas de crocodilo sobre os jovens

que acabava de condenar à morte. No caso em questão, as lágrimas foram tão ineficazes como haviam

sido as ameaças. Grandier continuava se recusando a assinar uma falsa confissão. Para Lactance e

Tranquille, o fato era a prova definitiva de culpa. Fora Lúcifer que fechara a boca do prisioneiro e

endurecera seu coração a ponto de não sentir arrependimento.

Laubardemont desistiu das lágrimas. Num tom de fúria contida, disse ao pároco que esta era a última

proposta de clemência. Ele assinaria? Grandier balançou negativamente a cabeça. Laubardemont fez sinal

ao capitão das guardas e ordenou-lhe que levasse o prisioneiro para cima, para a câmara de torturas.

Grandier não manifestou reação. Tudo que pediu foi que o padre Ambrose fosse chamado para ficar com

ele durante a provação. Mas o padre Ambrose não estava disponível. Após sua visita à prisão sem prévia

autorização, ordenaram-lhe que deixasse a cidade. Então Grandier pediu que o padre Grillau, diretor dos

franciscanos, o assistisse. Mas os franciscanos estavam malvistos devido à sua recusa em aceitar a nova

doutrina dos capuchinhos ou em se envolverem na possessão. E de qualquer modo sabia-se que Grillau

era amigo do pároco e de sua família. Laubardemont recusou-se a mandar chamá-lo. Se o prisioneiro

precisava de conforto espiritual, poderia dirigir-se a Lactance e Tianquille — os mais implacáveis de

seus inimigos.

“Percebo o que vocês querem”, disse Grandier com amargura. “Não satisfeitos em torturarem meu

corpo, desejam destruir minha alma levando-a ao desespero. Um dia terão de responder por isso ao meu

Salvador.”

Desde a época de Laubardemont, o mal tem feito algum progresso. Sob os domínios de ditadores

comunistas, aqueles que vão a julgamento diante do júri popular invariavelmente confessam os crimes

dos quais são acusados — confessam mesmo que estes sejam imaginários. No passado, a confissão não

era fato constante. Mesmo sob tortura, até mesmo na fogueira, Grandier protestava sua inocência. E o

caso de Grandier não foi sem dúvida o único. Muitas pessoas, tanto mulheres quanto homens, viram-se

em situações semelhantes e mostraram a mesma firmeza inquebrantável. Nossos ancestrais inventaram o

potro[88] e a guilhotina de ferro, a bota e a tortura d’água; mas nas artes mais sutis de dominar a vontade

e reduzir o homem a um estado subumano, eles ainda tinham muito que aprender. De certo modo, é bem

possível que nem quisessem aprender. Tinham sido criados numa religião que ensinava que a vontade é

livre, a alma, imortal; e agiam de acordo com essas crenças mesmo em relação a seus inimigos. Sim,

mesmo o traidor, mesmo o adorador do diabo convicto tinha uma alma que ainda podia ser salva, e os juízes mais cruéis jamais recusariam a ele os consolos da religião que continuava a oferecer a salvação

até o momento final. Antes e durante a execução havia sempre um padre por perto, fazendo tudo ao seu

alcance para reconciliar com seu Criador o criminoso que se encaminhava para a morte. Por uma espécie

de bendita incongruência, nossos padres respeitavam a personalidade até mesmo daqueles que eram

torturados com alicates em brasa ou triturados na roda.

Para os totalitários de nosso século mais esclarecido, não existe nem alma nem Criador, mas apenas

uma massa de matéria-prima fisiológica moldada pelos reflexos condicionados e pressões sociais que

por cortesia ainda é denominada de ser humano. Esse homem, produto do meio ambiente, não possui

significação em si nem direito ao livre arbítrio. Ele existe para a sociedade e deve se conformar com a

vontade coletiva. Na prática, evidentemente a sociedade é apenas o Estado, e na crua realidade, o desejo

coletivo nada mais é que o desejo de poder do ditador, algumas vezes atenuado, outras, distorcido até o

limiar da loucura por alguma teoria pseudocientífica sobre o que, no grandioso futuro, será bom para uma

abstração estatística rotulada “humanidade”. Os indivíduos são definidos como produtos e instrumentos

da sociedade. Disso se conclui que os chefes políticos que pretendem representar a sociedade têm

justificativa para cometer qualquer atrocidade imaginável contra determinadas pessoas que resolverem

chamar de inimigos da sociedade. A exterminação física à bala (ou, mais lucrativamente, por sobrecarga

física em campo de trabalho forçado) não é suficiente. É fato indiscutível que homens e mulheres não são

apenas indivíduos da sociedade. Mas a teoria oficial declara que são. Portanto, torna-se necessário tirar

a individualidade dos “inimigos da sociedade” com o objetivo de transformar a mentira oficial em

verdade. Para aqueles que conhecem o processo, essa redução do humano para o subumano, do indivíduo

livre para o autômato obediente, é coisa relativamente simples. A personalidade do homem é bastante

menos monolítica do que os teólogos eram compelidos a admitir de acordo com os seus dogmas. A alma

não é o mesmo que o espírito, está apenas associada a ele. Em si mesma, e até escolher conscientemente

dar lugar ao espírito, é nada mais que uma porção de elementos psicológicos não muito estáveis. Essa

entidade heterogênea pode ser facilmente desestruturada por alguém bastante cruel para querer tentar e

com perícia suficiente para fazer o trabalho de forma correta.

No século xvii, esse tipo particular de crueldade era dificilmente imaginável, e as habilidades

específicas não foram portanto jamais desenvolvidas. Laubardemont não tinha a capacidade para extrair

a confissão da qual necessitava com tanta urgência; e, embora não permitisse ao pároco escolher seu

confessor, reconhecia em princípio que até mesmo um feiticeiro condenado tinha direito ao conforto

espiritual.

Os serviços de Tranquille e Lactance foram oferecidos e naturalmente recusados. Concederam então

a Grandier um quarto de hora para deixar sua alma em paz com Deus e preparar-se para o martírio.

O pároco ajoelhou-se e começou a rezar em voz alta.

“Deus Poderoso e Juiz Soberano, que ajuda os desprotegidos e oprimidos, vem em meu socorro,

dai-me a força para suportar os sofrimentos a que fui condenado. Recebei minha alma na bem-

aventurança de vossos santos, perdoai os meus pecados, desculpai o mais vil e mais desprezível de todos

os vossos servos.”

“Vós que penetrais nos corações, sabeis que sou inocente dos crimes a mim imputados, e que o fogo

que devo suportar é castigo para minha concupiscência. Redentor da humanidade, perdoai meus inimigos e meus acusadores; mas fazei com que vejam seus pecados para que possam se arrepender. Virgem Santa,

protetora do penitente, recebei misericordiosamente minha desventurada mãe em vossa celestial

companhia; dai-lhe consolo pela perda de um filho que não teme outras dores senão as que ela terá de

sofrer na terra, da qual ele partirá tão cedo.”

Calou-se. Não meu desejo, mas o Vosso. Deus aqui, entre os aparelhos de tortura; Cristo agora, na

hora de angústia suprema.

La Grange, o capitão da guarda, registrava em seu caderno de notas o que recordava da oração do

pároco. Laubardemont aproximou-se e perguntou ao jovem oficial o que estava escrevendo. Informado,

irritou-se e quis tomar-lhe o caderninho. Mas La Grange não o permitiu e o comissário teve de se

contentar em ordenar-lhe que não mostrasse a ninguém o que tinha escrito. Grandier era um feiticeiro

impenitente, e portanto não era de esperar que rezasse.

No relato do padre Tranquille sobre o julgamento e a execução, e nas outras narrativas escritas do

ponto de vista oficial, o pároco é apresentado comportando-se de forma declaradamente diabólica. Em

vez de rezar, cantarola canções obscenas. Ao lhe ser apresentado o crucifixo, repele-o com aversão. O

nome da Santíssima Virgem jamais é por ele pronunciado, e, embora algumas vezes mencione a palavra

“Deus”, fica evidente para qualquer pessoa de bom senso que a quem se refere na verdade é a “Lucifer”.

Infelizmente para seu postulado, esses piedosos evangelizadores não foram os únicos a deixarem um

relato do processo. Laubardemont poderia impor silêncio, mas não tinha meios de obrigar La Grange a

cumprir suas ordens. E havia outros observadores imparciais dos acontecimentos — alguns deles, como

Ismaël Boulliau, o astrônomo, que conhecemos de nome, e outros cujos manuscritos remanescentes

permanecem anônimos.

Soou a hora e a breve trégua concedida ao prisioneiro terminou. Foi amarrado, esticado no chão,

com as pernas, dos joelhos aos pés, encerradas entre quatro pranchas de carvalho, das quais o par do

lado externo era fixo, enquanto o interno era móvel. Introduzindo cunhas no espaço de separação entre as

duas pranchas móveis, era possível esmagar as pernas das vítimas contra a estrutura fixa da máquina. A

diferença entre a tortura comum e a extraordinária era avaliada pela quantidade de cunhas cada vez mais

espessas que eram cravadas na parte interna. A tortura extraordinária, pelo fato de ser sempre (embora

não de imediato) fatal, era ministrada apenas a criminosos condenados que deviam ser executados sem

demora.

Enquanto o prisioneiro estava sendo preparado para a execução, os padres Lactance e Tranquille

exorcizavam as cordas, as pranchas, as cunhas e as marretas. Isso era absolutamente necessário, porque,

se não fossem expulsos desses objetos, os demônios poderiam, através de seus poderes infernais,

impedir que a tortura fosse tão dolorosa quanto deveria ser. Quando os frades terminaram suas aspersões

e murmúrios, o carrasco avançou, ergueu sua pesada marreta e, como um homem que racha um nodoso

pedaço de madeira, desceu-o com toda a força. Ouviu-se um incontrolável grito de dor. O padre Lactance

inclinou-se sobre a vítima e perguntou-lhe em latim se confessaria. Mas Grandier apenas balançou

negativamente a cabeça.

A primeira cunha foi encaixada entre os joelhos. A seguir outra foi inserida ao nível dos pés e,

depois de ter sido cravada até o fim, a extremidade delgada de uma terceira cunha, mais pesada, foi

introduzida numa posição logo abaixo da primeira. Após o golpe da marreta, o grito de dor — depois o silêncio. Os lábios da vítima moviam-se. Seria uma confissão? O frade aguçou o ouvido, mas tudo que

pôde escutar foi a palavra “Deus” repetida várias vezes, e depois, “não me abandonais, não permitais

que esta dor me faça Vos esquecer”. O padre voltou-se para o carrasco e mandou que prosseguisse em

seu trabalho.

À segunda pancada sobre a quarta cunha, vários ossos dos pés e tornozelo se quebraram. Por alguns

instantes, o pároco desmaiou.

“Cogne, Cogne!”, o padre Lactance gritou para o carrasco. “Bata, bata!”

O prisioneiro abriu os olhos novamente.

“Padre”, murmurou, “onde está a caridade de são Francisco?”

O discípulo de são Francisco não se dignou a responder.

“Cogne!”, repetiu. E, após desferido o golpe, voltou-se para o prisioneiro. “Dicas, dicas!”

Mas não havia nada a contar. Uma quinta cunha foi introduzida.

“Dicas!” A marreta permaneceu suspensa. “Dicas!”

A vítima olhou para seu algoz, para o frade, e a seguir fechou os olhos.

“Torture-me quanto quiser”, disse em latim. “Em mais alguns instantes não terá mais a menor

importância, para sempre.”

“Cogne!”

Foi dada a pancada.

Ofegante e suando naquele verão quente, o carrasco passou a marreta para seu ajudante. E então foi a

vez de Tranquille falar ao prisioneiro. Expressando-se num tom de amável bom senso, expôs as evidentes

vantagens de uma confissão — não apenas em relação ao outro mundo, mas ali e agora.

O pároco ouviu e, quando Tranquille terminou, fez-lhe uma pergunta.

“Padre”, disse, “você acredita em sã consciência que um homem deve, apenas para se livrar da dor,

confessar um crime que não cometeu?”

Repelindo aqueles sofismas nitidamente satânicos, Tranquille prosseguiu com suas exortações. O

pároco sussurrou que estava pronto a confessar seus pecados reais.

“Fui um homem que amou as mulheres...”

Mas não era aquilo que Laubardemont e os franciscanos desejavam ouvir. “Você foi um feiticeiro,

fez um trato com os demônios.” E quando o pároco protestou mais uma vez que era inocente, foi cravada

uma sexta cunha, depois uma sétima e finalmente a oitava. De comum, a tortura atingiu os limites do

extraordinário. Os ossos dos joelhos, canelas, tornozelos, pés, todos quebrados. Mas nem assim os frades

conseguiram extrair a confissão de culpa — somente os gritos e, nos intervalos, o nome de Deus apenas

sussurrado.

A oitava cunha era a última da série habitual. Laubardemont pediu que trouxessem mais — para

superar a crueldade da tortura que já ultrapassara o normal. O carrasco dirigiu-se ao depósito e voltou

com duas cunhas adicionais. Quando soube que não eram mais espessas que as da coleção original,

Laubardemont teve um acesso de raiva e ameaçou o homem com um chicote. Entretanto, nesse ínterim, os

frades demonstraram que a cunha de número sete, colocada no joelho, podia ser substituída pela

duplicata da número oito que estava no tornozelo. Uma das novas cunhas foi inserida entre as pranchas e

desta vez foi o padre Lactance que suspendeu a marreta.

“Dicas!”, gritava após cada estocada. “Dicas, dicas!”

Para não ser suplantado, o padre Tranquille pegou a marreta de seu colega, ajustou a décima cunha e

com três fortes golpes encaixou-a em seu lugar.

Grandier desmaiara outra vez, e parecia que ia morrer antes que o conduzissem à fogueira. Além

disso, não havia mais cunhas. Com certa relutância — pois aquele teimoso que frustrara todos os seus

planos bem elaborados merecia ser torturado eternamente —, Laubardemont ordenou uma pausa. Essa

primeira fase do martírio de Grandier tinha durado quarenta e cinco minutos. A máquina foi afastada e os

carrascos ergueram a vítima e colocaram-na sobre um banco. O pároco olhou para suas pernas

terrivelmente mutiladas e a seguir, para Laubardemont e seus treze cúmplices.

“Senhores”, disse, “attendite et videte si est dolor sicut dolor meus. Contemplem, e vejam se há

alguma dor igual à minha.”

Por ordem de Laubardemont, foi carregado para outro quarto e deitado sobre um banco. Era um dia

de agosto sufocante; mas o pároco estava tremendo devido ao terrível choque traumático em que se

encontrava. La Grange cobriu-o com um cobertor grosso de lã e deu-lhe um copo de vinho para beber.

Enquanto isso, Lactance e Tranquille tentavam tirar o melhor partido do que tinha sido um péssimo

trabalho. A todos que lhes perguntavam, respondiam que era verdade — o feiticeiro recusara-se a

confessar, mesmo sob tortura. E a razão era evidente. Grandier clamara a Deus que lhe desse forças, e

seu Deus, que era Lúcifer, tornara-o insensível à dor. Mesmo que levassem o dia todo, cunha após cunha,

de nada lhes valeria.

Para provar a si mesmo que aquilo era verdade, outro dos exorcistas, o padre Archangel, decidiu

fazer uma pequena experiência. Poucos dias depois descreveu-a num sermão ao povo, que foi relatado

como se segue por um dos ouvintes. “O mencionado padre Archangel observou que o demônio concedera

a ele (Grandier) insensibilidade, porquanto estando estendido sobre um banco, com seus joelhos que

haviam sido esmagados pela geena, cobertos por um cobertor grosseiro, quando este foi erguido pelo

padre de forma um tanto brusca, tendo até mesmo o referido padre cutucado suas pernas e joelhos, ele

não se queixou da dor que deveria estar sendo provocada.” Disso se deduz, primeiro, que Grandier não

sentira dor, segundo, que Satã o tornara insensível, terceiro, que (citando as exatas palavras do

capuchinho) “quando falava favoravelmente de Deus, estava se referindo ao diabo, e quando dizia que

odiava ao último, era a Deus que se referia”, e, quarta e última dedução, que toda precaução devia ser

tomada para assegurar que na fogueira ele sentiria toda a consequência das chamas.

Quando o padre Archangel retirou-se, chegou novamente a vez do comissário. Por mais de duas

horas Laubardemont sentou-se ao lado da vítima, utilizando todos os métodos de persuasão para extrair a

assinatura que o isentaria de procedimento ilegal, reabilitaria o cardeal, justificaria a utilização futura

dos métodos da inquisição em todos os casos em que as freiras histéricas pudessem ser induzidas por

seus confessores a acusar os inimigos do regime. Aquela assinatura era indispensável; mas, embora

tentando por todos os meios — e o sr. de Gastynes, que estava presente ao encontro, declarou que

“jamais havia ouvido alguma coisa tão abominável” como aquelas alegações capciosas, aquelas

adulações, aqueles suspiros e soluços hipócritas —, o comissário não conseguiu o que queria. A cada

coisa que ele dizia, Grandier replicava que era moralmente impossível assinar uma declaração que tanto

ele como Deus sabiam (e, sem dúvida, o comissário também) ser inteiramente falsa. Finalmente Laubardemont teve de admitir a derrota. Chamou La Grange e ordenou que o pároco fosse entregue aos

carrascos.

Estes vestiram Grandier com uma camisa embebida de enxofre; a seguir, amarraram-lhe uma corda

ao pescoço, e ele foi levado para o pátio, onde uma carreta puxada por seis mulas já o esperava. Foi

erguido e colocado num banco. O cocheiro instigou os animais; e, precedido por um grupo de arqueiros,

e seguido por Laubardemont e os treze submissos magistrados, a carreta arrastou-se pesadamente pela

rua. Houve uma parada e a sentença foi lida mais uma vez em voz alta. Então as mulas prosseguiram. À

porta de Saint-Pierre — por onde durante tantos anos passara o pároco com seu jeito atrevido e sua

majestosa dignidade —, a procissão fez uma pausa. A vela de duas libras foi colocada na mão de

Grandier e desceram-no da carreta para que, como se prescrevera na sentença, ele pedisse perdão pelos

seus crimes. Mas não possuía mais joelhos para ajoelhar-se, e, quando o desceram, caiu de rosto no

chão. Os carrascos tiveram de erguê-lo outra vez. Neste momento, o padre Grillau, diretor dos

franciscanos, saiu da igreja e, avançando por entre os arqueiros da guarda, curvou-se e abraçou o

prisioneiro. Profundamente emocionado, Grandier pediu que orasse por ele juntamente com toda a sua

comunidade — a única em Loudun que se recusara firmemente a cooperar com os inimigos do pároco.

Grillau prometeu rezar pelo condenado, pediu-lhe que confiasse em Deus e no Salvador e transmitiu-lhe

um recado de sua mãe. Ela estava rezando por ele aos pés de Nossa Senhora e mandava-lhe sua benção.

Os dois homens choravam. Um murmúrio de solidariedade percorreu a multidão. Laubardemont

ouviu e ficou furioso. Será que nada aconteceria de acordo com seus planos? Segundo o senso comum, a

turba deveria estar tentando linchar aquele que fizera trato com o demônio. Em vez disso, estavam

lamentando seu destino cruel. Aproximou-se correndo e ordenou de maneira decidida que os guardas

mandassem o franciscano embora. No tumulto que se seguiu, um dos capuchinhos presentes aproveitou a

oportunidade para golpear com um porrete a cabeça raspada de Grandier.

Após restaurar-se a ordem, o pároco disse o que era necessário dizer — mas acrescentou, após

pedir perdão a Deus, ao rei e à justiça que, embora um grande pecador, estava completamente inocente

do crime pelo qual o puniam agora.

Enquanto os carrascos o levavam de volta para a carreta, um frade dirigiu uma alocução aos turistas

e ao povo da terra, afirmando-lhes que estariam cometendo um pecado gravíssimo se ousassem rezar por

aquele feiticeiro impenitente.

A procissão prosseguiu. À porta do convento das ursulinas, a cerimônia de pedir perdão a Deus, ao

rei e à justiça repetiu-se. Mas, quando o sacerdote mandou que pedisse perdão à prioresa e todas as

outras piedosas irmãs, o pároco disse que jamais lhes causara dano e só poderia orar a Deus para que

Ele as perdoasse. Então vendo Moussant, o marido de Philippe Trincant e um de seus mais implacáveis

inimigos, pediu-lhe que esquecesse o passado e acrescentou com um traço singular e longínquo daquela

polidez característica da corte pela qual se tornara famoso, “je meurs votre serviteur — eu morro seu

mais obediente servo”. Moussaut virou o rosto e recusou-se a responder.

Nem todos os inimigos de Grandier eram tão pouco cristãos. René Bernier, um dos padres que

testemunharam contra ele quando foi acusado de comportamento obsceno, abriu caminho por entre a

multidão para pedir perdão ao pároco e oferecer-se para rezar uma missa em sua intenção. O pároco

tomou sua mão e beijou-a com gratidão.

Na praça Sainte-Croix, mais de seis mil pessoas estavam comprimidas num espaço que não teria

capacidade nem para a metade delas. Todas as janelas tinham sido alugadas, e havia espectadores até nos

telhados e entre as gárgulas da igreja. Tinha sido construída uma tribuna especial para os juízes e os

amigos pessoais de Laubardemont; mas a multidão tinha ocupado todos os assentos e foi preciso que os

guardas os retirassem sob ameaça de lanças e alabardas. Foi só após uma batalha regular que essas

pessoas ilustres puderam se sentar.

Até mesmo o personagem mais importante de todos teve a maior dificuldade em chegar ao lugar

designado para ele. O prisioneiro levou meia hora para atravessar os poucos menos de cem metros que o

separavam da fogueira, e os guardas tinham de abrir caminho à força.

Não longe da parede da igreja voltada para o norte, uma estaca sólida de quinze pés de altura fora

fincada ao chão. Em torno de sua base empilhavam-se montes de paus e varas, toras de madeira e palha,

e, uma vez que a vítima não podia mais manter-se sobre seus pés estraçalhados, um pequeno banco de

ferro fora amarrado à estaca a poucos pés acima da fogueira. Pela importância do acontecimento e sua

enorme repercussão, os custos da execução foram bastante modestos. Um certo Deliard recebeu dezenove

libras e dezesseis soldos pela “madeira usada na fogueira do sr. Urbain Grandier, junto com o poste ao

qual foi amarrado”. Por “um banco de ferro pesando doze libras, ao preço de três soldos e quatro moedas

de prata por libra, juntamente com seis pregos para pregar o banco do sr. Urbain Grandier ao poste”,

Jacquet, o serralheiro, recebeu quarenta e dois soldos. Por um dia de aluguel de cinco cavalos utilizados

pelos arqueiros, bondosamente cedidos para a ocasião pelo preboste de Chinon, e por um dia de aluguel

de seis mulas, uma carreta e dois homens, a viúva Morin ganhou cento e oito soldos. Quatro libras foram

gastas nas duas camisolas do prisioneiro — a comum com a qual fora torturado e a peça embebida de

enxofre com a qual foi levado à fogueira. A vela de duas libras usada na cerimônia de amende honorable

custou quarenta soldos e o vinho para os carrascos, treze. Acrescente-se a essas despesas o pagamento

pelo trabalho feito pelo porteiro de Sainte-Croix e alguns ajudantes, e teremos um total de vinte e nove

libras, dois soldos e seis moedas de prata.

Grandier foi retirado da carreta, colocado no banco de ferro e amarrado fortemente à estaca. Ficou

de costas para a igreja, de frente para a tribuna e para a fachada de uma casa onde em certa época

sentira-se tão à vontade como se estivesse em seu próprio presbitério. Era a casa onde fizera todas

aquelas brincadeiras às custas de Adam e Mannoury, onde divertira os companheiros com as leituras das

cartas de Catherine Hammon, onde ensinara latim a uma jovem e a seduzira, onde transformara seus

melhores amigos nos mais implacáveis inimigos. Louis Trincant estava sentado agora à janela de sua sala

de visitas e com ele encontravam-se o cônego Mignon e Thibault. À vista do palhaço careca que fora um

dia Urbain Grandier, riram vitoriosamente. O pároco ergueu os olhos e encarou-os. Thibault acenou com

a mão como para um velho amigo, e o sr. Trincant, que bebia vinho branco “batizado”, ergueu o copo e

brindou ao pai de seu neto bastardo.

Em parte por vergonha — pois lembrava-se daquelas aulas de latim e a maneira como abandonara a

menina no mais absoluto desespero — e em parte temendo que a vista do triunfo de seus inimigos o

levasse à amargura e o fizesse esquecer de que Deus estava sempre presente, mesmo naquele instante,

Grandier baixou os olhos.

Uma mão tocou-lhe no ombro. Era La Grange, o capitão da guarda, que viera pedir perdão ao pároco pelo que fora forçado a fazer. Então prometeu-lhe duas coisas: o prisioneiro poderia fazer um breve

discurso e, antes que o fogo fosse aceso, seria estrangulado. Grandier agradeceu-lhe, e La Grange voltou-

se para dar as ordens ao carrasco, que imediatamente preparou um laço.

Enquanto isso, os frades estavam ocupados com os seus exorcismos.

“Ecce crucem Domini, fugite partes adversae, vicit leo de tribu Juda, radix David. Exorciso te,

creature ligni, in nomine Dei patris omnipotentis, et in nomine Jesus Christi filii ejus Domini nostri, et

in virtute Spiritus sancti.”[89]

Benzeram a madeira, a palha, os carvões chamejantes do braseiro que estava pronto ao pé da

fogueira; aspergiram a terra, o ar, a vítima, os carrascos, os espectadores. Dessa vez, juravam que

nenhum demônio evitaria que o feiticeiro chegasse ao extremo limite de sua capacidade de dor. Várias

vezes o pároco tentou dirigir-se à multidão; mas, mal começava, atiravam água-benta em seu rosto ou

golpeavam-lhe a boca com um crucifixo de ferro. Quando esquivava-se ao golpe, os frades gritavam em

triunfo que o renegado estava rejeitando seu Salvador. E durante todo o tempo o padre Lactance

continuava insistindo com o prisioneiro para que confessasse.

“Dicas!”, gritava.

A palavra agradou aos espectadores e, durante o período breve e terrível de vida que lhe restou, o

recoleto ficou sempre conhecido em Loudun como o padre Dicas.

“Dicas! Dicas!”

Pela milésima vez, Grandier disse que não tinha nada a confessar. “E agora”, acrescentou, “dê-me o

beijo de paz e deixe-me morrer.”

A princípio, Lactance recusou-se; mas quando a multidão protestou contra tal malignidade anticristã,

ele subiu sobre a pilha de gravetos e beijou o pároco na face.

“Judas!”, gritou uma voz, e muitos outros repetiram o refrão.

“Judas, Judas...”

Lactante os ouviu e teve um acesso incontrolável de raiva, pulou para fora da fogueira, apanhou um

feixe de palha e, acendendo-o no braseiro, balançou a chama sobre o rosto da vítima. Faça-o confessar

quem é — o servo do demônio! Faça-o confessar, faça-o renegar ao seu senhor!

“Padre”, disse Grandier com uma dignidade tranquila e suave, que contrastava estranhamente com a

maldade histérica de seus acusadores, “Estou prestes a encontrar-me com Deus, que é minha testemunha

de que falei a verdade.”

“Confesse”, berrou o frade. “Confesse... Você tem apenas alguns momentos de vida.”

“Apenas alguns momentos”, repetiu o pároco, destacando as palavras. “Apenas alguns momentos e

então estarei sendo julgado de forma justa e respeitável, no mesmo julgamento, reverendo padre, ao qual

em breve será chamado.”

Sem esperar por mais palavras, o padre Lactance atirou sua tocha à palha da fogueira. Dificilmente

notada ao brilho forte do sol, uma pequena chama surgiu, começou a crepitar e se alastrar aos feixes

secos de gravetos. Seguindo o exemplo do recoleto, o padre Archangel botou fogo na palha do outro lado

da fogueira. Uma tênue nuvem de fumaça azulada levantou-se no ar parado. A seguir, num vivo estalido,

como o ruído que acompanha o vinho quente bebido numa noite de inverno, um dos feixes de gravetos

pegou fogo.

O prisioneiro voltou-se ao ouvir o ruído e viu as vivas chamas ondulantes. “Foi isto o que você me

prometeu?”, perguntou a La Grange num tom de queixa desesperada. E de repente extinguiu-se a presença

divina. Não havia Deus nem Cristo, nada além do medo.

La Grange protestou indignado contra os frades e tentou extinguir as chamas mais próximas. Mas

elas já estavam muito fortes para serem apagadas, e o padre Tranquille botava fogo na palha atrás do

pároco enquanto o padre Lactance acendia outra tocha no braseiro.

“Estrangulem-no”, ordenou. E a multidão repetiu o grito. “Enforquem-no, enforquem-no!”

O carrasco correu em direção ao laço, mas descobriu que um dos capuchinhos havia

subrepticiamente amarrado o laço de tal forma que não podia ser usado. Quando conseguiu desfazer o nó,

era tarde demais. Entre o carrasco e a vítima que ele pretendera preservar desta última agonia havia uma

muralha de chamas, um bulcão de nuvem de fumaça. Enquanto isso, com movimentos rápidos e cântaros

de água-benta, os frades afastavam da fogueira os demônios remanescentes.

“Exorciso te, creature ignis...”

A água ferveu entre as madeiras incandescentes e em poucos instantes transformou-se em vapor. Do

outro lado da muralha de fogo ouviu-se um grito. Era evidente que o exorcismo começava a fazer efeito.

Os frades pararam por alguns momentos para agradecer a Deus; depois, com renovada fé e redobrada

energia, recomeçaram a trabalhar.

“Draco nequissime, serpens antique, immundissime spiritus...”

Nesse momento, uma grande mosca negra surgiu de repente, chocou-se contra o rosto do padre

Lactance e caiu sobre as páginas abertas do livro de exorcismo. Uma mosca — e tão grande quanto uma

noz! E Belzebu era o Senhor das Moscas!

“Imperati tibi Martyrum sanguis”, gritou, abafando o crepitar do fogo, “Imperat tibi continentia

Confessorum...” Com um zumbido extraordinariamente alto, o inseto levantou voo e desapareceu na

fumaça.

“In nomine Agni, qui ambulavit super aspidem et basiliscum...”

De repente os gritos foram cortados por um acesso de tosse. O feiticeiro tentava enganá-los

morrendo por sufocação. Com o objetivo de frustrar essa última artimanha de Satã, Lactance jogou um

balde de água-benta na fumaça.

“Exorciso te, creature fumi. Effugiat atque discedat a te nequitia omnis ac versutia diabolicae

fraudis...”

A coisa funcionou. A tosse cessou. Ouviu-se outro grito, depois o silêncio. E de repente, para

consternação do recoleto e dos seus colegas capuchinhos, a coisa enegrecida que estava no centro da

fogueira começou a falar.

“Deus meus”, disse, “miserere mei Deus”. E depois em francês, “perdoe-os, perdoe meus

inimigos”.

A tosse começou outra vez. Alguns instantes depois, as cordas que o amarravam à estaca partiram-se

e a vítima caiu para o lado entre as toras chamejantes.

O fogo ardia, os piedosos padres continuavam a aspergir e cantar salmos. De repente um bando de

pombos debandou da igreja e começou a circular em torno das colunas crepitantes de fogo e de fumaça. A

multidão gritou, os arqueiros brandiram suas alabardas contra os pássaros, Lactance e Tranquille aspergiram água-benta em suas asas. Inútil. Os pombos não queriam partir. Voaram seguidamente em

círculos, mergulhando por entre a fumaça, chamuscando suas penas nas chamas. As duas facções

alegavam que era um milagre. Para os inimigos do pároco, os pássaros eram sem dúvida uma horda de

demônios, vinda para buscar sua alma. Para seus amigos, eram símbolos do Espírito Santo e uma prova

cabal de sua inocência. Parece que jamais ocorreu a alguém que eram apenas pombos, obedecendo

apenas às suas próprias leis, suas benditas naturezas outras que não humanas. Quando o fogo extinguiu-se,

o carrasco espalhou quatro pás cheias de cinzas, cada uma para um dos pontos cardeais. Então a multidão

avançou naquela direção. Queimando seus dedos, homens e mulheres revolviam as cinzas ainda quentes à

procura de dentes, fragmentos de crânio e da pelve, por qualquer cinza que mostrasse vestígios de carne

queimada. Alguns, sem dúvida, estavam apenas em busca de souvenirs; mas a maioria deles procurava

por relíquias, por um feitiço para trazer sorte ou estimular amores indecisos, por um talismã contra dores

de cabeça ou a maldade dos inimigos. E esses fragmentos queimados não seriam menos eficazes se o

pároco fosse culpado dos crimes a ele imputados do que se fosse inocente. O poder de fazer milagres

reside não na origem da relíquia, mas em sua reputação como quer que tenha sido adquirida. É uma

constante no decorrer da história que uma determinada porcentagem de seres humanos pode recuperar sua

saúde ou felicidade com praticamente qualquer coisa que tenha sido alvo de uma boa propaganda, de

Lourdes à feitiçaria, do Ganges aos medicamentos registrados da sra. Eddy, do braço taumatúrgico de são

Francisco Xavier àqueles ossos de porcos que o monge de Chaucer carregava num copo para que todos

vissem e adorassem. Se Grandier era o que os capuchinhos disseram que era, excelente: mesmo

transformado em cinza, um feiticeiro é possuidor de grande poder. E suas relíquias não teriam menos

poder se o pároco fosse inocente; porque nesse caso ele seria um mártir tão bom quanto qualquer outro.

Em pouco tempo, a maior parte das cinzas havia desaparecido. Terrivelmente cansados e com sede, mas

felizes em pensar que seus bolsos estavam recheados de relíquias, os turistas e a gente da cidade

partiram em busca de algo para beber e de uma ocasião oportuna para poderem tirar seus sapatos.

Naquela noite, após um breve repouso e uma refeição ligeira, os piedosos padres tornaram a se

reunir no convento das ursulinas. A prioresa foi exorcizada, apresentou as devidas convulsões e, em

resposta à pergunta de Lactance, declarou que a mosca negra era o próprio Baruc, íntimo do pároco. E

por que Baruc tinha se arremessado com tanta violência contra o livro de exorcismo? A irmã Jeanne

inclinou-se para trás até que sua cabeça tocou seus calcanhares, depois fez seus exercícios de extensão e

finalmente respondeu que ele estava tentando jogar o livro no fogo. Era tudo tão edificante que os monges

decidiram fazer uma pausa durante a noite e recomeçar na manhã seguinte, em público.

No dia seguinte, as irmãs foram levadas para Saint-Croix. Muitos dos turistas estavam ainda na

cidade, e a igreja estava repleta. A prioresa foi exorcizada e, após as cerimônias preliminares,

identificou-se como Isacaaron, o único diabo que ainda a possuía; porque todos os outros habitantes de

seu corpo haviam voltado para o inferno para a festa pagã que seria organizada a fim de receber a alma

de Grandier.

Habilmente interrogada, a irmã Jeanne confirmou o que os exorcistas tinham dito o tempo todo, ou

seja, que quando Grandier dizia “Deus”, significava sempre Satã, e quando ele renunciava ao demônio

estava na verdade renegando a Cristo.

Lactance então quis saber que espécie de tormentos o pároco estava sofrendo lá embaixo e ficou evidentemente bastante desapontado quando a prioresa contou-lhe que o pior para ele era a falta de Deus.

Sem dúvida, sem dúvida. Mas e quanto às torturas físicas?

Após ser bastante pressionada, a irmã Jeanne retrucou que Grandier “tinha uma tortura especial para

cada um dos pecados que cometera, especialmente os da concupiscência”.

E quanto à execução? Teria o diabo sido capaz de poupar ao feiticeiro o sofrimento?

Ai de mim, replicou Isacaaron, Satã foi frustrado pelos exorcismos. Se o fogo não houvesse sido

abençoado, o pároco não teria sentido nada. Mas graças aos esforços de Lactance, Tranquille e

Archangel, ele sofrera de forma excruciante.

Mas não tão excruciantemente, gritou o exorcista, como ele estava sofrendo agora! E com uma

espécie de volúpia pelo horror, o padre Lactance voltou a falar sobre o inferno. Em qual das muitas

mansões do inferno o feiticeiro estava alojado? Como Lúcifer o tinha recebido? O que exatamente estava

acontecendo com ele naquele momento? O Isacaaron da irmã Jeanne procurou responder da melhor

maneira possível. Depois, quando sua imaginação começou a esmorecer, a irmã Agnes começou a ter

ataques e Beherit foi convidado a cumprir sua parte.

Naquela noite no convento, os monges notaram que o padre Lactance estava pálido e parecia muito

preocupado. Estaria doente?

O padre Lactance balançou a cabeça. Não, ele não estava doente. Mas o prisioneiro havia pedido

para ver o padre Grillau e ele não o permitira. Poderiam ter cometido pecado por haverem negado a ele a

confissão?

Seus colegas fizeram tudo o que estava a seu alcance para tranquilizá-lo, mas sem sucesso. Na

manhã seguinte, após uma noite de insônia, Lactance estava com febre.

“Deus está me punindo”, repetia incessantemente, “Deus está me punindo.”

Mannoury lhe fez uma sangria, o sr. Adam aplicou-lhe um purgativo. A febre baixou por algum

tempo, depois voltou. E então começou a ver e ouvir coisas. Grandier sendo torturado, gritando. Grandier

na fogueira pedindo a Deus para perdoar seus inimigos. E depois demônios, hordas de demônios. Eles

penetraram em seu corpo, levaram-no ao delírio, ele dava chutes e mordia os travesseiros, eles puseram

em sua boca as mais terríveis blasfêmias.

No dia 18 de setembro, exatamente um mês após a execução de Grandier, o padre Lactance arrancou

o crucifixo da mão do padre que lhe ministrara a extrema-unção e morreu. Laubardemont pagou-lhe um

funeral adequado, e o padre Tranquille fez um sermão no qual exaltou o recoleto como um modelo de

santidade e proclamou que ele fora morto por Satã, que tinha assim se vingado de todas as afrontas e

humilhações a ele infligidas por este mais heroico de todos os seus servos.

Quem morreu em seguida foi Mannoury, o cirurgião. Uma noite, pouco depois do falecimento do

padre Lactance, foi chamado para fazer uma sangria num homem doente que morava perto de Porte du

Martray. Voltando para casa, seu criado na frente iluminando o caminho com uma lanterna, ele viu

Grandier. Despido como quando tinha sido espetado para descobrirem-se as marcas do diabo, o pároco

estava na rue du Grand-Pavé, entre a contraescarpa do castelo e o jardim dos franciscanos. Mannoury

deteve-se e seu criado o viu perguntando a alguém que não estava lá o que ele queria. Não houve

resposta. Então o cirurgião começou a tremer da cabeça aos pés. Pouco depois caiu ao chão, gritando por

perdão. Em uma semana, também estava morto.

Depois foi a vez de Louis Chauvet, um dos juízes honestos que se haviam negado a participar do

execrável absurdo daquele julgamento. A prioresa e a maioria das freiras acusaram-no de ser um

feiticeiro, e o sr. Barré resolveu confirmar seus testemunhos pela boca de vários demônios em sua

própria paróquia, em Chinon. Temeroso do que poderia acontecer-lhe se o cardeal resolvesse levar esses

disparates a sério, Chauvet sentia-se atormentado. Entregou-se à melancolia, depois à loucura e

finalmente à consumpção, que o matou antes que o inverno findasse.

Tranquille era dotado de índole mais forte que os outros. Só veio a sucumbir em 1638, em

consequência de uma preocupação obsessiva em relação ao mal. Através de seu ódio a Grandier, ajudara

a exaltar os demônios; por sua escandalosa insistência em exorcismos públicos, fizera o que estava ao

seu alcance para mantê-los em atividade. Agora os demônios voltavam-se contra ele. Deus não é

ludibriado; ele estava colhendo o que plantara.

A princípio, as obsessões eram raras e de menor importância. Mas pouco a pouco Cauda de Cão e

Leviatã triunfaram. Durante o último ano de sua vida, o padre Tranquille estava se comportando como as

freiras cuja histeria alimentara com tanto empenho, rolando no chão, praguejando, berrando, mostrando a

língua, sibilando, ladrando, relinchando. E isso não era tudo. A “fétida Coruja do Inferno”, como o

capuchinho que escreveu sua biografia apelidou pitorescamente ao diabo, atormentava-o com tentações

dificilmente resistíveis contra a castidade, a humildade, a paciência, a fé e a devoção. Apelou à Virgem,

a são José, a são Francisco, a são Boaventura. Inútil. A possessão caminhava de mal a pior.

Em 1638, no domingo de Pentecostes, Tranquille fez seu último sermão; conseguiu celebrar missa

por mais uns dois ou três dias; depois caiu de cama com uma doença não menos mortal por ser

evidentemente psicossomática. “Proferia obscenidades, que julgavam ser pactos diabólicos. [...] Cada

vez que comia alguma coisa, os demônios o faziam vomitar com uma violência que teria matado a pessoa

mais saudável.” E ao mesmo tempo sofria de dores de cabeça e problemas de coração, “de um tipo do

qual não havia menção em Galeno ou Hipócrates”. Ao fim da semana “ele estava vomitando imundícies

fétidas tão insuportáveis que seus servidores tinham de jogá-las fora sem demora, tão medonhamente o

quarto ficava infetado por elas”. Na segunda-feira após Pentecostes, ministraram-lhe a extrema-unção. Os

demônios deixaram o moribundo e imediatamente entraram no corpo de outro frade, que estava ajoelhado

ao lado da cama. O novo endemoniado tornou-se tão frenético, que teve de ser segurado por meia dúzia

de confrades que tiveram a maior dificuldade para evitar que ele chutasse o corpo quase inanimado.

No dia do funeral, o padre Tranquille ficou exposto em câmara ardente. “Nem bem estava terminado

o culto, as pessoas atiraram-se sobre ele. Algumas colocavam seus rosários sobre o seu corpo, outras

cortavam alguns pedacinhos de suas vestes sacerdotais para guardarem como relíquias. A multidão era

tão grande que o caixão foi esmagado e o corpo, mexido para todos os lados, cada um puxando-o com

força para si a fim de conseguir sua pequena porção. E sem dúvida o piedoso padre teria sido deixado

nu, não fosse por várias pessoas de respeito que formaram uma guarda para protegê-lo da devoção

inoportuna das pessoas, que, após cortarem seu hábito, teriam provavelmente mutilado seu próprio

cadáver.”

Os retalhos do hábito do padre Tranquille, as cinzas do homem a quem ele tinha torturado e

queimado vivo... Era tudo um equívoco. O feiticeiro morrera como um mártir; seu perverso executor era

agora um santo — mas um santo que fora possuído por Belzebu. Somente uma coisa era certa: um fetiche é um fetiche. Assim sendo, empreste-me sua faca; depois de você, com as tesouras!