Os Demônios de Loudun
Capítulo VI
As investigações preliminares de De Cerisay convenceram-no de que não havia possessão autêntica —
somente uma doença, acentuada por alguns pequenos estratagemas por parte das freiras, por uma grande
dose de malícia da parte do cônego Mignon e por superstição, fanatismo e interesse profissional dos
outros sacerdotes envolvidos no caso. Não havia evidentemente possibilidade de cura até que os
exorcismos fossem interrompidos. Mas quando se tentou pôr um fim a esses estímulos que estavam
levando as freiras calculadamente à loucura, Mignon e Barré apresentaram triunfantemente uma ordem
escrita do bispo, encarregando-os de prosseguirem exorcizando as ursulinas até segunda ordem. Não
desejando arriscar-se a um escândalo, De Cerisay deu sua permissão para que o exorcismo continuasse,
mas insistiu em estar presente durante as sessões. Em uma dessas ocasiões, está registrado, houve um
ruído aterrorizante na chaminé e um gato apareceu subitamente na lareira. O animal foi perseguido,
apanhado, borrifado de água benta, fizeram-lhe o sinal da cruz e conjuraram-no em latim para que
partisse. Após o que foi descoberto que esse diabo disfarçado era o gatinho de estimação das freiras,
Tom, que estivera andando pelos telhados e pegara um atalho para voltar para casa. As gargalhadas
soaram altas e debochadas.
No dia seguinte, Mignon e Barré tiveram a desfaçatez de bater com a porta do convento na cara de
De Cerisay. Com seus colegas magistrados, ele ficou esperando ao relento sob um clima outonal,
enquanto, contra suas ordens, os dois padres exorcizavam suas vítimas sem testemunhas oficiais.
Voltando aos seus aposentos, o juiz indignado ditou uma carta para os exorcistas. Suas maneiras de agir,
declarava, eram propícias a criar “uma forte suspeita de fraude e sugestão”. Além disso, “tendo a
superiora do convento acusado e difamado publicamente a Grandier, afirmando que este tinha um pacto
com os demônios, nada portanto deveria ser feito em segredo; pelo contrário, agora tudo deveria ser feito
à vista da justiça e em nossa presença”. Assustados com tamanha decisão, os exorcistas desculparam-se e
relataram que as freiras haviam se acalmado e que portanto outros exorcismos seriam temporariamente
desnecessários.
Enquanto isso, Grandier cavalgara para Poitiers a fim de recorrer ao bispo. Entretanto, quando se fez
anunciar, o sr. de la Rochepozay estava adoentado e limitou-se a enviar-lhe uma mensagem por
intermédio de seu capelão, dizendo que “o sr. Grandier deveria dirigir uma petição aos juízes reais e que
ele, o bispo, se sentiria muito satisfeito se ele conseguisse justiça neste caso”.
O pároco regressou a Loudon e imediatamente solicitou ao Bailli uma ordem de interdição contra
Mignon e seus cúmplices. De Cerisay prontamente publicou uma ordem proibindo qualquer pessoa,
independente de sua classe ou posição, de ofender ou caluniar o referido Curé de Saint-Pierre. Ordenou
simultaneamente a Mignon que não realizasse mais exorcismos. O cônego retrucou que só obedeceria aos
seus superiores eclesiásticos e que não reconhecia a autoridade do Bailli num assunto que, uma vez envolvendo o diabo, era de ordem inteiramente espiritual.
Nesse ínterim, Barré regressara a seus paroquianos em Chinon. Não houve mais exorcismos em
público. Entretanto, todos os dias o cônego Mignon passava muitas horas junto às suas penitentes, lendo-
lhes capítulos da famosa narrativa do padre Michaelis sobre o caso Gauffridy, afirmando que Grandier
era tão grande feiticeiro quanto seu colega provençal e que os dois haviam sido enfeitiçados. Por essa
ocasião, o comportamento das boas irmãs tinha se tornado tão excêntrico que os pais de suas alunas
ficaram assustados; em pouco tempo as pensionistas foram todas retiradas de lá e as poucas alunas
externas que ainda se arriscavam a entrar no convento voltavam com as mais inquietantes informações.
No meio de sua aula de aritmética, a irmã Claire de Saint-Jean começou a rir incontrolavelmente como se
alguém lhe fizesse cócegas. No refeitório, a irmã Martha tivera uma briga com a irmã Louise de Jésus.
Que gritaria! E que termos inconvenientes!
No fim de novembro, Barré foi chamado e regressou de Chinon e, sob sua influência, imediatamente
agravaram-se todos os sintomas. O convento tornou-se então um hospício. Mannoury, o médico, e Adam,
o boticário, ficaram alarmados e convocaram uma junta médica com os doutores mais famosos da cidade.
Eles apresentaram-se e, após examinar as freiras, fizeram um relatório escrito para o Bailli. Suas
conclusões são as que se seguem: “As freiras entram realmente em transe, contudo não julgamos que isso
acontece através de trabalhos de demônios e espíritos. [...] Suas alegadas possessões parecem-nos mais
ilusórias que reais”. Para todos, exceto os exorcistas e os inimigos de Grandier, esse relatório parecia
convincente. Grandier fez outro apelo a De Cerisay e este renovou seus esforços para pôr um fim aos
exorcismos. Mais uma vez Mignon e Barré repeliram-no abertamente, e mais uma vez ele se esquivou do
escândalo que decorreria do uso da força física contra os padres. Em vez disso, escreveu uma carta ao
bispo, apelando para sua autoridade a fim de que pusesse um termo a uma questão que era “a pior
espécie de velhacaria engendrada durante os últimos anos”. Grandier, prosseguia, jamais havia visto as
freiras ou tinha alguma coisa a ver com elas; “e, se tivesse demônios à sua disposição, ele os teria
utilizado para se vingar das violências e insultos aos quais havia sido submetido”.
O sr. de la Rochepozay não se dignou responder a essa carta. Grandier o havia ofendido apelando de
sua decisão. Portanto, qualquer coisa que pudesse ser feita para prejudicar o pároco seria inteiramente
certa, conveniente e justa.
De Cerisay então escreveu uma segunda carta, desta vez para o chefe dos magistrados eclesiásticos.
De forma mais pormenorizada do que na carta ao bispo, entrou nos detalhes da farsa horrível e grotesca
que estava sendo representada em Loudun. “O sr. Mignon já diz que o sr. Barré é um santo, e estão se
canonizando reciprocamente sem esperar pelo julgamento de seus superiores.” Barré corrige o diabo
quando ele se perde nos labirintos da gramática e desafia os incrédulos “a seguir seu exemplo e colocar
o dedo na boca demoníaca”. O padre Rousseau, um frade franciscano, foi apanhado e mordido com tanta
força que se sentiu forçado a puxar o nariz da freira com a outra mão a fim de que ela o soltasse,
gritando, “Au diable, au diable!”, berrando mais que nossas cozinheiras, “Au chat, au chat!”, quando o
gato foge com alguma coisa. Depois de questionar-se o motivo que levou o diabo a morder um dedo
consagrado, chegou-se à conclusão que o bispo tinha sido avarento em relação aos santos óleos e que a
unção não atingira o dedo. Vários padres inexperientes tentaram fazer exorcismo com as mãos, entre eles
um irmão de Philippe Trincant. Mas esse jovem cometeu tantos erros em latim — hoste como o vocativo de hostis, e da gloria Deo — que o público educado não conseguiu conservar-se sério e ele teve de ir
embora. Além disso, acrescenta De Cerisay, “até mesmo no auge de suas convulsões, a freira da qual ele
estava se ocupando não permitira que o sr. Trincant pusesse os dedos em sua boca (porque ele é um tanto
falto de limpeza) e pediu insistentemente um outro padre”. Apesar de tudo, “o bom padre superior dos
capuchinhos está impressionado com a dureza de coração das pessoas de Loudun e atônito com sua
relutância em crer. Em Tours, assegura-nos, ele os faria engolir tal milagre facilmente. Declarou junto
com alguns outros que aqueles que não acreditavam eram ateus e já amaldiçoados.”
Essa carta também permaneceu sem resposta e a terrível farsa pôde prosseguir, dia após dia, até os
meados de dezembro, quando o sr. de Sourdis chegou no momento mais oportuno para se estabelecer em
sua abadia, Saint-Jouin-des-Marnes. O arcebispo foi informado, de maneira não oficiosa por Grandier e
oficialmente por De Cerisay, sobre o que estava acontecendo, e solicitado a intervir. O sr. de Sourdis
enviou imediatamente seu médico particular para examinar a questão. Sabendo que o doutor era um
homem que não toleraria absurdos e que seu senhor, o metropolitano, era declaradamente cético, as
freiras ficaram assustadas e durante todo o tempo da investigação comportaram-se como um grupo de
cordeirinhas. Não havia sinal de possessão. O médico fez seu relatório nesse sentido e no fim de
dezembro de 1632 o arcebispo publicou um decreto da Providência. Daquele dia em diante, Mignon
ficava proibido de praticar o exorcismo e Barré só poderia fazê-lo juntamente com dois exorcistas
escolhidos pelo metropolitano, um jesuíta de Poitiers e um oratoriano de Tours. Ninguém mais poderia
participar dos exorcismos.
A proibição era praticamente desnecessária; porque nos meses que se se seguiram não houve
demônios a exorcizar. Não mais estimulados pelas sugestões dos padres, os delírios das freiras deram
lugar a uma melancólica sensação de despertar, na qual misturavam-se confusão mental com vergonha,
remorso e a convicção de um pecado sem remissão. E se o arcebispo tivesse razão? E se jamais
houvessem existido demônios? Então todas aquelas coisas horríveis que elas tinham feito e dito poderiam
lhes ser atribuídas como crimes. Se possuídas, não eram culpadas. Caso contrário, teriam de responder
no Juízo Final por blasfêmia e libertinagem, por mentiras e má-fé. O inferno escancarava-se
aterradoramente a seus pés. Enquanto isso, para piorar as coisas, não havia dinheiro, e todos tinham se
voltado contra elas. Todos — os pais de suas alunas, as senhoras devotas da cidade, as multidões de
turistas e até mesmo seus próprios parentes. Sim, mesmo seus próprios parentes; porque, agora que
deixaram de ser possuídas, agora que na opinião do arcebispo eram ou impostoras ou vítimas da
melancolia e da continência forçada, passaram a ser vistas por suas famílias como desonradas e como tal
foram repudiadas, rejeitadas e lhes cortaram a pensão. A carne e a manteiga desapareceram do refeitório;
as criadas, da cozinha. As freiras foram obrigadas elas mesmas a fazer o trabalho de casa; e quando este
estava terminado, tinham que ganhar seu sustento com costuras modestas, tecendo lã para gananciosos
negociantes de tecidos que se aproveitavam de sua miséria e infortúnio pagando-lhes ainda menos que a
quantia habitual para tão fatigante tarefa. Famintas, dominadas por uma estafa permanente, perseguidas
por terrores metafísicos e sentimentos de culpa, as pobres mulheres recordavam com saudades os dias
venturosos de sua possessão. Ao inverno seguiu-se a primavera, e a esta um verão não menos desditoso.
Então, no outono de 1633, a esperança renasceu. O rei mudou de ideia acerca da torre de menagem e o sr.
de Laubardemont hospedou-se outra vez no O Cisne e A Cruz. Mesmin de Silly e os outros cardinalistas estavam exultantes. D’Armagnac fora derrotado; o castelo estava condenado. Agora o que restava era
livrar-se do insuportável pároco. Logo em sua primeira entrevista com o comissário do rei, Mesmin
mencionou o assunto da possessão. Laubardemont ouviu com atenção. Como um homem que em sua época
julgara e condenara à fogueira um grande número de bruxas, podia com razão considerar-se um entendido
em assuntos sobrenaturais.
No dia seguinte visitou o convento na rue Paquin. O cônego Mignon confirmou a história de Mesmin;
o mesmo fizeram a madre superiora, a parenta do cardeal, a irmã Claire de Sazilly e as duas cunhadas de
Laubardemont, as srtas. De Dampierre. Os corpos de todas as boas irmãs haviam sido infestados pelos
maus espíritos; os espíritos haviam sido incorporados por meio de magia e o feiticeiro fora Urbain
Grandier. Essas verdades tinham sido confirmadas pelos próprios demônios e estavam portanto acima de
qualquer suspeita. E contudo Sua Excelência, o arcebispo, dissera que não houve verdadeira possessão, e
portanto as desgraçara aos olhos do mundo. Era uma terrível injustiça, e elas suplicavam ao sr. de
Laubardemont que usasse de sua influência com Sua Eminência e Sua Majestade para tomar alguma
providência sobre o caso. Laubardemont mostrou-se compreensivo, mas não fez promessas.
Particularmente, não havia nada de que gostasse tanto como de um julgamento de bruxa. Mas como se
sentiria o cardeal a esse respeito? Na verdade era difícil saber. Algumas vezes parecia mesmo levá-los
muito a sério. Mas poderia logo depois acontecer de vê-lo falando acerca do sobrenatural no tom cínico
de um discípulo de Charron ou Montaigne. Um grande homem deve ser tratado por aqueles que o servem
como uma mistura de um deus, uma criança travessa e uma fera. O deus deve ser adorado, a criança,
entretida e enganada e a besta, aplacada e, quando enfurecida, evitada. O cortesão que irrita essa
insensata trindade de pretensão sobre-humana, ferocidade subumana e estupidez infantil através de uma
sugestão inoportuna, está apenas procurando confusão. As freiras podiam chorar e implorar; mas até que
descobrisse para que lado o vento estava soprando, Laubardemont não tinha nenhuma intenção de ajudá-
las.
Poucos dias depois Loudun foi agraciada com a visita de um personagem muito ilustre, Henri de
Condé. Esse príncipe de linhagem nobre era um notório sodomita, que combinava a avareza mais
mesquinha com uma piedade exemplar. Quanto aos princípios políticos, havia outrora sido um
anticardinalista, mas depois que consolidou-se o poder de Richelieu, tornou-se o mais servil entre os
bajuladores de Sua Eminência. Informado acerca da possessão, o príncipe imediatamente manifestou o
desejo de vê-la com seus próprios olhos. O cônego Mignon e as freiras ficaram exultantes. Acompanhado
por Laubardemont e uma numerosa comitiva, Condé dirigiu-se com grande pompa para o convento, foi
recebido por Mignon e conduzido para uma capela onde celebrou-se uma missa solene. A princípio as
freiras guardaram o mais completo decoro; mas, por ocasião da comunhão, a prioresa, a irmã Claire e a
irmã Agnes entraram em convulsões e rolaram pelo chão uivando obscenidades e blasfêmias. O resto da
comunidade acompanhou-as prazerosamente e durante uma ou duas horas a igreja parecia um misto de
arena e bordel. Imbuído dos mais nobres sentimentos, o príncipe declarou que não era mais possível
persistir na dúvida e insistiu com Laubardemont para que escrevesse imediatamente ao cardeal,
informando Sua Eminência sobre o que estava ocorrendo. “Mas o comissário”, como sabemos através de
uma narrativa da época, “não fez nenhuma alusão ao que pensava acerca desse estranho espetáculo.
Entretanto, após voltar à hospedagem, sentiu-se tomado de uma profunda compaixão pelo estado deplorável das freiras. A fim de disfarçar seus verdadeiros sentimentos, convidou os amigos de Grandier
para jantar, juntamente com o próprio Grandier.” Deve ter sido uma reunião muito agradável.
Com o objetivo de impelir o excessivamente cauteloso Laubardemont a agir, os inimigos do pároco
apresentaram uma nova acusação, mais grave. Grandier não era apenas um feiticeiro que havia negado
sua fé, se rebelado contra Deus e enfeitiçado um convento inteiro de freiras; era também o autor de um
ataque torpe e violento ao cardeal, publicado seis anos antes, em 1627, sob o título de Lettre de la
Cordonnière de Loudun. É quase certo que Grandier não escreveu esse panfleto; mas uma vez que era
amigo e correspondente da sapateira que havia dado o nome ao libelo infamatório, e que muito
provavelmente fora seu amante, não era inteiramente implausível supor que ele o tivesse escrito.
Catherine Hammon era uma operária humilde,bonita e esperta que, em 1616, enquanto Maria de
Médicis esteve em Loudun, atraiu a atenção da rainha, tornou-se sua criada e em breve passou a ser
oficialmente a sapateira real e, de forma não oficial, sua criada de todo o serviço e confidente. Grandier
a conhecera (muito intimamente, dizia-se) durante o período do exílio da rainha em Blois, quando a moça
voltou para Loudun por algum tempo. Mais tarde, quando retornou ao seu emprego, Catherine, que sabia
escrever, passou a manter o pároco informado sobre o que estava acontecendo na corte. Suas cartas eram
tão divertidas que ele costumava ler as passagens mais picantes em voz alta para seus amigos. Entre
esses se encontrava sr. Trincant, o promotor público e pai da bela Phillippe. Foi este mesmo Trincant, já
não seu amigo, e sim o inimigo mais implacável, que acusou o correspondente de Catherine Hammon de
ser o autor da Cordonnière. Dessa vez, Laubardemont não tentou esconder seus sentimentos. O que o
cardeal realmente pensava acerca de bruxas e demônios podia ser duvidoso; porém, o que ele pensava
dos que criticavam sua administração, a ele mesmo e a sua família jamais suscitara dúvidas. Discordar
do pensamento político de Richelieu era um convite a demissão do serviço público, ruína financeira e
exílio; insultá-lo era arriscar-se a morrer na forca ou até mesmo (desde que um decreto de 1626
proclamara que escrever panfletos difamatórios era um crime de lèse-majesté) na fogueira ou na roda.
Pelo simples fato de ter imprimido a Cordonnière, um desventurado negociante havia sido enviado para
as galés. O que seria feito do autor se alguma vez fosse apanhado? Confiante dessa vez de que seu zelo
viria a valorizá-lo aos olhos de Sua Eminência, Laubardemont tomou numerosas anotações de tudo que o
sr. Trincant dizia. E enquanto isso Mesmin não estivera inativo. Grandier, como já vimos, era inimigo
declarado de frades e monges, e com pouquíssimas exceções a recíproca era verdadeira em Loudun. Os
carmelitas eram os que tinham os motivos mais fortes para odiar Grandier; contudo, não tinham ocasião
para extravasar esse ódio. Embora os capuchinhos houvessem sofrido menos nas mãos do pároco,
possuíam muito mais poder para prejudicá-lo. Isso porque os capuchinhos eram confrades do padre
Joseph e mantinham uma correspondência com aquela Éminence Grise que era confidente, principal
conselheiro e braço direito do cardeal. Foi então aos monges franciscanos, e não aos frades carmelitas,
que Mesmin confiou as novas acusações contra Grandier. A resposta atendeu às suas melhores
expectativas. Uma carta foi escrita às pressas para o padre Joseph, e Laubardemont, que estava prestes a
regressar a Paris, foi solicitado a entregá-la pessoalmente. Aceitando o encargo, convidou no mesmo dia
Grandier e seus amigos para um jantar de despedida no qual bebeu à saúde do pároco, reafirmou sua
amizade imorredoura e prometeu fazer tudo que estivesse em seu poder para ajudá-lo em sua luta contra
uma conspiração de inimigos inescrupulosos. Quanta bondade, e que oferta tão generosa e espontânea! Grandier quase chorou de emoção.
No dia seguinte Laubardemont cavalgou para Chinon, onde passou a tarde com quem acreditava da
forma mais fanática e sincera na culpa de Grandier. O sr. Barré recebeu o comissário com toda a
deferência devida e, a seu pedido, entregou-lhe as minutas de todos os exorcismos no decurso dos quais
as freiras acusaram Grandier de enfeitiçá-las. Na manhã seguinte após o café, Laubardemont divertiu-se
com os trejeitos ridículos de algumas endemoniadas do lugar; a seguir, despedindo-se do exorcista, partiu
para Paris.
Logo após sua chegada teve uma conferência com o padre Joseph, e, poucos dias depois, uma
reunião mais decisiva com as duas eminências, a escarlate e a parda.[66] Laubardemont leu as minutas
do sr. Barré sobre os exorcismos, e o padre Joseph leu a carta onde seus confrades capuchinhos
acusavam o pároco de ser o muito procurado autor da Cordonnière. Richelieu decidiu que o assunto era
suficientemente grave para ser estudado na próxima reunião do conselho de Estado. No dia marcado (30
de novembro de 1633), o rei, o cardeal, o padre Joseph, o secretário de Estado, o chanceler e
Laubardemont reuniram-se em Ruel. A possessão das ursulinas de Loudun foi o primeiro tópico a ser
tratado. Breve mas aterradoramente, Laubardemont contou sua história e Luís xiii, que acreditava
piamente nos demônios e temia-os, decidiu-se imediatamente a tomar alguma providência a esse respeito.
Foi redigido então, naquele momento, um documento assinado pelo rei, autenticado pelo secretário de
Estado e lacrado com o selo real. Esse documento autorizava Laubardemont a ir a Loudun investigar os
casos de possessão, examinar as acusações atribuídas pelos demônios contra Grandier e, se parecessem
ser bem fundamentadas, levar o feiticeiro a julgamento.
Durante a segunda e a terceira décadas do século xvii, os julgamentos de feiticeiros eram ainda fatos
triviais; mas, dentre o grande número de pessoas acusadas durante esses anos de compactuar com o
diabo, o caso de Grandier foi o único no qual Richelieu se envolveu com empenho. O padre Tranquille, o
exorcista capuchinho que em 1634 escreveu um opúsculo a favor de Laubardemont e dos demônios,
declara que “deve-se ao empenho do eminentíssimo cardeal as primeiras providências a respeito deste
caso” — um fato que “as cartas que escreveu ao sr. de Laubardemont comprovam suficientemente”.
Quanto ao comissário, “jamais tomou alguma providência para provar a possessão sem antes informar
detalhadamente a Sua Majestade e ao meu senhor cardeal”. O testemunho de Tranquille é confirmado
pelo de outros contemporâneos que escreveram sobre a troca de cartas entre Richelieu e seu
representante de Loudun.
Quais eram os motivos dessa preocupação extraordinária em relação a um caso, ao que tudo
indicava, de tão pequena importância? Da mesma forma que os contemporâneos de Sua Eminência,
devemos nos contentar com suposições. Parece evidente que o desejo de vingança pessoal era um motivo
relevante. Em 1618, quando Richelieu era apenas bispo de Luçon e prior de Coussay, esse pároco
insignificante e empertigado fora grosseiro com ele. E na época havia boas razões para acreditar que o
mesmo Grandier era responsável pelas ultrajantes injúrias e insultos contidos na Cordonnière. Na
verdade, era uma acusação impossível de provar num tribunal de justiça. Contudo, pelo simples fato de
ser suspeito de tal crime, era necessário livrar-se daquele homem. E isso não era tudo. O pároco
criminoso era o responsável por uma paróquia corrompida. Loudun era ainda um sustentáculo do
protestantismo. Demasiadamente prudentes para se comprometerem na época do levante que terminou em 1628 com a prisão de La Rochelle, os huguenotes de Poitou nada fizeram para merecer perseguição tão
declarada e acirrada. O Édito de Nantes ainda vigorava e, por mais insuportáveis que fossem, os
calvinistas tinham de ser tolerados. Mas suponhamos que se pudesse provar, através das palavras das
piedosas irmãs, que aqueles cavalheiros da denominada religião da Reforma estavam em aliança secreta
com um inimigo ainda pior que os ingleses — com o próprio diabo? Haveria então uma justificativa
perfeita para fazer o que havia muito tempo ele planejava: isto é, privar Loudun de todos os seus direitos
e privilégios e transferi-los para a sua própria cidade, completamente nova, de Richelieu. E ainda não
era tudo. Os demônios poderiam ser úteis de outras maneiras. Se pudesse fazer as pessoas acreditarem
que Loudun era a cabeça de ponte de uma invasão sistemática proveniente do inferno, então seria
possível restaurar a Inquisição na França. E como isso seria conveniente! Quanto facilitaria a tarefa a que
o próprio cardeal se propusera, de centralizar todo o poder numa monarquia absoluta! Como sabemos de
nossa própria experiência com demônios seculares como os judeus, os comunistas, os imperialistas
burgueses, o melhor meio para estabelecer e justificar um Estado totalitário é ficar batendo na tecla dos
perigos de uma quinta-coluna. Richelieu só cometeu um erro: ele superestimou a crença de seus
compatriotas no sobrenatural. Visto que estava em plena Guerra dos Trinta Anos, teria provavelmente
obtido mais êxito com uma quinta-coluna de espanhóis e austríacos do que com meros espíritos, muito
embora infernais.
Laubardemont não perdeu tempo. No dia 6 de dezembro estava de volta a Loudun. De uma casa nos
arrabaldes da cidade mandou chamar secretamente o promotor público e o chefe de polícia, Guillaume
Aubin. Eles compareceram. Laubardemont mostrou sua autorização e um mandado de prisão contra
Grandier por ordem do rei.
Aubin sempre gostara do pároco. Naquela noite, enviou-lhe uma mensagem informando-o da volta de
Laubardemont e aconselhando-lhe uma fuga rápida. Grandier agradeceu, mas, imaginando ingenuamente
que por ser inocente não tinha nada a temer, ignorou o conselho do amigo. Na manhã seguinte, a caminho
da igreja, foi preso. Mesmin e Trincant, Mignon e Menuau, o boticário e o médico — apesar da hora
matinal — estavam todos a postos para assistir ao espetáculo. Foi ao som de gargalhadas debochadas
que Grandier foi levado à carruagem que o levaria à prisão para ele designada no castelo de Angers.
A paróquia foi então revistada e todos os livros e documentos de Grandier, confiscados. Foi bastante
decepcionante ver que sua biblioteca não continha uma única obra sobre magia negra; contudo, havia (o
que também era bastante comprometedor) um exemplar da Lettre de la Cordonnière, junto com um
manuscrito daquele Tratado sobre o celibato sacerdotal que Grandier havia escrito com o objetivo de
aliviar a consciência da srta. de Brou.
Laubardemont costumava dizer em reuniões sociais que, se pudesse se apossar de apenas três linhas
da caligrafia de um homem, encontraria uma razão para enforcá-lo. No Tratado e no panfleto contra o
cardeal já tinha razão suficiente não somente para um enforcamento, mas para o cavalete, a roda, a
fogueira. E a busca revelara outros achados valiosos. Por exemplo, havia todas as cartas escritas para o
pároco por Jean d’Armagnac — cartas que, se ele se fizesse de tolo, poderiam certamente ser utilizadas
para enviar o favorito do rei ao exílio ou para o patíbulo. E lá estavam as absolvições concedidas pelo
arcebispo de Bordeaux. Naquela época, o sr. de Sourdis estava se conduzindo muito bem no
Almirantado; mas, se alguma vez ele não se portasse tão bem, essas provas de que em certa época absolvera um feiticeiro declarado seriam muito oportunas. Enquanto isso, é evidente que deviam ser
mantidas fora do alcance de Grandier; porque, se ele não pudesse exibir provas de que fora absolvido
pelo metropolitano, então sua condenação pelo bispo de Poitiers ainda seria válida. E nesse caso
Grandier era o padre que praticara o ato sexual na igreja. E se ele era capaz daquilo, então obviamente
era capaz de enfeitiçar dezessete freiras.
As semanas que se seguiram foram uma prolongada orgia de livre malevolência, de perjúrio
consagrado pela Igreja, de ódio e inveja, não apenas sem repressão, mas oficialmente recompensada. O
bispo de Poitiers publicou uma monitória, denunciando Grandier e convidando os fiéis a delatá-lo. A
exortação foi prontamente obedecida. Volumes inteiros de boatos maldosos sem fundamento foram
copiados por Laubardemont e seus escrivães. O processo de 1630 foi reaberto, e todos os depoentes que
haviam confessado falso testemunho em juízo agora juravam que todas as mentiras das quais se haviam
retratado eram absoluta verdade. Grandier não estava presente a essas audiências preliminares, nem
representado por um advogado. Laubardemont não permitiu que a defesa se pronunciasse no processo, e,
quando a mãe de Grandier protestou contra os métodos injustos e até mesmo ilegais que estavam sendo
utilizados, ele apenas rasgou suas petições. Em janeiro de 1634, a velha senhora informou que estava
recorrendo em nome de seu filho ao Parlamento de Paris. Enquanto isso, Laubardemont estava em
Angers, submetendo o prisioneiro a rigoroso interrogatório. Seus esforços foram em vão. Grandier, que
fora informado sobre o apelo e confiava que seu processo seria julgado brevemente diante de um juiz
certamente menos parcial, recusou-se a responder às perguntas do comissário. Após uma semana em que
alternou intimidações e lisonjas, Laubardemont desistiu, indignado, e voltou correndo para Paris e para o
cardeal. Acionada pela idosa sra. Grandier, a pesada máquina da lei caminhava lenta, mas seguramente
para a concessão de um recurso. Mas isso era a última coisa que Laubardemont ou seu senhor desejavam.
Os juízes da alta corte eram extremamente preocupados com a legalidade e desconfiados, em princípio,
do setor executivo do governo. Se tivessem permissão para rever o processo, a reputação de
Laubardemont como advogado estaria arruinada, e Sua Eminência teria de desistir de um projeto a que,
por razões particulares, estava estreitamente vinculado. Em março, Richelieu levou o assunto ao
Conselho de Estado. Os demônios, explicou ao rei, estavam contra-atacando, e somente através da ação
mais enérgica eles poderiam ser contidos e recuar. Como sempre, Luís xiii deixou-se convencer. O
secretário de Estado preparou os documentos necessários. Sob a assinatura e selo reais estava agora
decretado que “sem considerar o recurso agora tramitando no Parlamento, o qual Sua Majestade pelo
presente revoga, o sr. Laubardemont continuará a ação iniciada contra Grandier [...]: para cujo fim o rei
restaura sua comissão por quanto tempo for necessário, nega ao Parlamento de Paris e a todos os outros
juízes competência para julgar o caso, e proíbe as partes interessada de a eles recorrer sob pena de uma
multa de quinhentas libras”.
Colocado assim acima da lei e revestido de poderes ilimitados, o representante do cardeal voltou a
Loudun no início de abril e começou imediatamente a preparar o palco para o próximo ato de sua
revoltante comédia. Descobriu que a cidade não possuía uma prisão bastante segura ou bastante
desconfortável para abrigar um feiticeiro. O sótão da casa que pertencia ao cônego Mignon foi posto à
disposição do comissário. Para torná-lo à prova do diabo, Laubardemont mandou tapar as janelas com
tijolos, colocou nova fechadura e trancas pesadas na porta, e a chaminé (passagem secreta das bruxas) foi fechada com uma grade de ferro resistente. Sob escolta militar, Grandier foi levado de volta a Loudun e
encerrado nessa cela escura e sem ventilação. Não lhe deram uma cama e tinha de dormir como um
animal sobre um feixe de palha. Seus carcereiros eram um certo Bontemps (que havia prestado falso
testemunho contra ele em 1630) e sua mulher mal-humorada. Do princípio ao fim de seu longo
julgamento, trataram-no com animosidade constante.
Tendo seu prisioneiro bem guardado, Laubardemont então voltou toda a sua atenção para as
testemunhas de acusação mais importantes, na verdade as únicas — a irmã Jeanne e as dezesseis outras
endemoniadas. Desobedecendo às ordens de seu arcebispo, o cônego Mignon e seus colegas estavam
trabalhando com empenho para desfazer os efeitos benéficos de seis meses de repouso forçado. Após
alguns exorcismos públicos, as piedosas irmãs estavam todas tão frenéticas como anteriormente.
Laubardemont não lhes dava trégua. Dia após dia, de manhã até à noite, as desgraçadas mulheres eram
levadas em grupo para as diversas igrejas da cidade e executavam seus truques. Esses truques eram
sempre os mesmos. Como os médiuns modernos que fazem exatamente o que as irmãs Fox fizeram cem
anos antes, essas primeiras endemoniadas e seus exorcistas eram incapazes de inventar alguma coisa de
novo. Seguidamente repetiam-se as convulsões já muito conhecidas, as mesmas antigas obscenidades, as
blasfêmias usuais, as afirmações arrogantes, constantemente repetidas, mas nunca justificadas por
poderes sobrenaturais. Mas o espetáculo era suficientemente divertido e sórdido para atrair o público.
As notícias se espalharam no boca a boca, através de panfletos e cartazes, por centenas de púlpitos. De
todas as províncias da França e até mesmo do exterior afluíram multidões de turistas para assistir aos
exorcismos. Com o obscurecimento da milagrosa Notre-Dame de Recouvrance das carmelitas, Loudun
perdera quase todo o seu movimento turístico. Agora, graças aos demônios, as coisas estavam até
melhores que antes. As hospedarias e pensões estavam lotadas, e os piedosos carmelitas, que tinham o
monopólio dos demônios seculares (porque a epidemia de histeria havia se espalhado além dos muros do
convento), estavam agora tão prósperos como naqueles bons velhos tempos das peregrinações. Enquanto
isso, as ursulinas tornavam-se cada vez mais ricas. Elas recebiam agora um subsídio constante do tesouro
real, que crescia com os donativos dos fiéis e as generosas espórtulas deixadas por aqueles turistas de
alta classe para os quais algum espetáculo especialmente assombroso havia sido encenado.
Durante a primavera e o verão de 1634, o principal objetivo dos exorcismos não era a salvação das
irmãs, mas a condenação de Grandier. A intenção era provar pelas palavras saídas da boca do próprio
Satã que o pároco era um bruxo e enfeitiçara as freiras. Contudo, Satã é por definição o pai das mentiras,
e seu testemunho é portanto sem valor. A esse argumento Laubardemont, seus exorcistas e o bispo de
Potiers replicavam afirmando que os diabos ficam obrigados a dizer a verdade quando devidamente
compelidos por um padre da Igreja Romana. Em outras palavras, tudo o que uma freira histérica estivesse
disposta a afirmar sob juramento, instigada por seu exorcista, era considerado para todos os efeitos uma
revelação divina. Para os inquisidores essa doutrina era bastante conveniente. Mas tinha um grave
defeito: era claramente pouco ortodoxa. No ano de 1610, uma comissão de sábios teólogos tinha
discutido a aceitabilidade do testemunho demoníaco e publicou a seguinte decisão oficial: “Nós, abaixo-
assinados, doutores da Faculdade de Paris, no que se refere a certos problemas que nos foram expostos,
somos da opinião de que nunca se deve admitir a acusação do demônio e muito menos utilizar exorcismos
no intuito de descobrir as faltas de um homem ou para decidir se ele é um feiticeiro; e somos ainda mais da opinião que, mesmo que os citados exorcismos tenham sido praticados na presença do Santíssimo
Sacramento, com o diabo sendo forçado a fazer um juramento (cerimônia que absolutamente não
aprovamos), nem por isso se deve dar crédito às suas palavras, sendo o demônio sempre um mentiroso e
o pai das mentiras”. Além disso, o diabo é inimigo declarado do homem, e está portanto pronto a
suportar todos os tormentos do exorcismo no interesse de prejudicar a uma só alma. Se o testemunho do
diabo fosse aceito, as pessoas mais virtuosas correriam o maior perigo; pois é precisamente contra elas
que Satã investe com maior fúria. “Razão por que são Tomás (Tomo 22, Tema 9, Item 22) sustenta,
baseando-se em são Crisóstomo, daemont, etiamvera dicent, non est credendum.”[67] Devemos seguir o
exemplo de Cristo, que impôs silêncio aos demônios mesmo quando eles disseram a verdade chamando-
O de Filho de Deus. “De onde se conclui que na ausência de outras provas não se deve agir contra
aqueles que são acusados pelos demônios. E percebemos que isso é devidamente cumprido na França,
onde os juízes não reconhecem esses depoimentos.” Vinte e quatro anos depois, Laubardemont e seus
colegas fizeram exatamente o contrário. Para o bem da humanidade e do legítimo ponto de vista ortodoxo,
os exorcistas restauraram, com o que os representantes do cardeal apressaram-se a concordar, uma
heresia que era terrivelmente estúpida e extremamente perigosa. Ismaël Boulliau, o padre astrônomo que
estivera sob as ordens de Grandier como um dos vigários de Saint-Pierre-du-Marché, qualificou a nova
doutrina como “herege, falsa, execrável e nefanda — uma doutrina que transforma os cristãos em
idólatras, enfraquece os verdadeiros fundamentos da religião cristã, abre as portas para a calúnia e
propicia ao diabo imolar vítimas humanas, não em nome de Moloch, mas de um dogma perverso e
diabólico”. É evidente que esse dogma perverso e diabólico era aprovado por Richelieu. O fato é
registrado pelo próprio Laubardemont e pelo autor de Démonomanie de Loudun, Pillet de la
Mesnardière, médico pessoal do cardeal.
Permitidos, algumas vezes até sugeridos e sempre escutados com respeito, os depoimentos do diabo
fluíam rapidamente na medida em que Laubardemont precisava deles. Então este descobriu ser desejável
que Grandier não fosse apenas um feiticeiro, mas também um alto sacerdote da antiga seita. A notícia se
espalhou e imediatamente uma das endemoniadas seculares, obrigada por confissão (através da boca de
um demônio que havia sido devidamente forçado por um dos carmelitas exorcistas), declarou ter sido
prostituída pelo pároco, e que este em reconhecimento ofereceu-se a levá-la ao sabá e torná-la uma
princesa na corte do diabo. Grandier afirmou que jamais pusera os olhos na moça. Entretanto Satã havia
falado, e duvidar de suas palavras seria sacrilégio.
Alguns feiticeiros, como bem sabemos, possuem mamilos extras; outros adquirem, ao toque do dedo
do diabo, algumas pequenas áreas de insensibilidade, onde o espetar de uma agulha não causa dor nem
provoca sangramento. Grandier não tinha mamilos excedentes; ergo devia possuir em alguma região de
seu corpo aqueles pontos insensíveis com os quais o diabo marca seus seguidores. Onde precisamente
ficavam aqueles pontos? Já em 26 de abril a prioresa havia dado sua resposta. Havia cinco marcas —
uma no ombro, uma no lugar onde os criminosos são marcados, mais duas nas nádegas, muito perto do
ânus, e uma em cada testículo. (A Quoi Rèvent les Jeunes Filles?)[68] Para confirmar a veracidade dessa
afirmação, Mannoury, o cirurgião, foi encarregado de fazer uma vivissecção. Na presença de dois
boticários e vários doutores, Grandier foi despido, completamente depilado, vedaram-lhe os olhos e foi
então sistematicamente picado até o osso com uma sonda longa e afiada. Dez anos antes, na sala de estar de Trincant, o pároco caçoara desse tolo ignorante e pretensioso. Agora, o tolo conseguira uma terrível
vingança. As dores eram cruciantes, e através das janelas vedadas pelos tijolos os gritos do prisioneiro
podiam ser ouvidos por uma multidão crescente de curiosos embaixo, na rua. Através do sumário oficial
dos artigos da acusação pelos quais Grandier foi condenado, sabemos que, devido à grande dificuldade
de localizar as pequenas regiões de insensibilidade, somente duas das cinco marcas escritas pela
prioresa foram na verdade descobertas. Contudo, para os propósitos de Laubardemont, duas eram mais
que suficientes. Os métodos de Mannoury, deve-se acrescentar, eram incrivelmente simples e eficientes.
Depois de grande número de terríveis espetadelas, ele virava a sonda ao contrário e a pressionava contra
a pele do pároco. Milagrosamente não havia dor. O diabo tinha marcado o local. Se houvessem permitido
que prosseguisse o tempo suficiente, não há dúvida de que Mannoury teria descoberto todas as marcas.
Infelizmente, um dos boticários (um estranho de Tours em quem não se podia confiar) foi menos
complacente que os doutores da aldeia aos quais Laubardemont convocara para verificar a prova.
Surpreendendo Mannoury em flagrante de fraude, o homem protestou. Em vão. Seu relatório minoritário
foi simplesmente ignorado. Enquanto isso, Mannoury e os outros mostraram cooperação absoluta.
Laubardemont estava apto a anunciar que a ciência havia corroborado as revelações do inferno.
Na maioria das vezes, é claro, a ciência não precisava corroborar; ex hypothesi, as revelações do
inferno eram verdadeiras. Quando Grandier confrontou-se com suas acusadoras, elas atiraram-se a ele
como um bando de bacantes, gritando através das bocas de todos os seus demônios que fora ele quem as
enfeitiçara, ele que, todas as noites durante quatro meses, tinha vagueado pelo convento dando-lhes
passes e sussurrando lisonjas obscenas em seus ouvidos. Laubardemont e seus auxiliares tomavam nota
escrupulosamente de cada coisa que era dita. As minutas eram devidamente assinadas, autenticadas e
arquivadas em duplicata num fichário. Concretamente, teologicamente e agora judicialmente, era tudo
verdade.
Para tornar a culpa do pároco ainda mais convincente, os exorcistas exibiram alguns “fetiches” que
haviam aparecido misteriosamente nas celas, ou (melhor ainda) haviam sido vomitados, expelidos em
meio a um paroxismo. Era por meio desses fetiches que as piedosas irmãs haviam sido e ainda estavam
enfeitiçadas. Como exemplo, um pedaço de papel manchado com três gotas de sangue e contendo oito
sementes de laranja; ou um feixe de cinco palhas; assim como um pequeno embrulho com cinzas,
minhocas, cabelos e pedaços de unhas. Mas foi Jeanne des Anges quem como sempre superou a todas as
outras. No dia 17 de junho, possuída por Leviatã, vomitou um monte de fetiches que consistiam (de
acordo com seus demônios) de um pedaço do coração de uma criança sacrificada às bruxas num sabá nas
proximidades de Orléans em 1631, as cinzas de uma hóstia consagrada e um pouco do sangue e do sêmen
de Grandier.
Havia momentos em que a nova doutrina era uma fonte de embaraços. Certa manhã, por exemplo, um
diabo (devidamente constrangido e diante do Santíssimo Sacramento) observou que o sr. de
Laubardemont era um marido enganado. O escrevente registrou conscienciosamente a declaração, e
Laubardemont, que não estivera presente ao exorcismo, assinou a minuta sem lê-la e acrescentou o
habitual post scriptum no sentido de que em sã consciência considerava verdadeiro tudo o que constava
do procès-verbal. Quando o caso veio à luz, houve muitas risadas debochadas. Foi desagradável, é claro,
mas sem maiores consequências. Documentos comprometedores sempre poderiam ser destruídos, escreventes estúpidos, demitidos e demônios insolentes, colocados em seus lugares com uma boa
repreensão ou mesmo uns bons tapas. De modo geral, as vantagens da nova doutrina compensavam
amplamente suas desvantagens.
Uma dessas vantagens, como Laubardemont logo perceberia, consistia no seguinte: agora era
possível (através da boca de um diabo que tivesse sido devidamente constrangido pela presença do
Santíssimo Sacramento) adular o cardeal de modo inteiramente inédito e sobrenatural. Nas minutas
escritas pelo próprio Laubardemont sobre um exorcismo realizado a 20 de maio de 1634, lemos o
seguinte: “Pergunta: ‘O que você acha do eminente cardeal, o protetor da França?’ O diabo respondeu,
jurando por Deus: ‘Ele é o tormento de todos os meus fiéis amigos’. Pergunta: ‘Quem são seus fiéis
amigos?’ Resposta: ‘Os hereges’. Pergunta: ‘Quais são os outros traços nobres de sua personalidade?’
Resposta: ‘Seu trabalho de assistência ao povo, seu dom natural para a administração pública, dom este
recebido de Deus, seu desejo de preservar a paz da cristandade, a amizade sincera que dedica ao rei’”.
Era um tributo maravilhoso; e, vindo como vinha diretamente do inferno, poderia ser aceito como pura
verdade. As freiras tinham ido longe em sua histeria, mas não tão longe a ponto de esquecer quem as
sustentava. Durante todo o tempo da possessão, como o dr. Legué observou,[69] blasfêmias contra Deus,
Cristo e a Virgem eram proferidas constantemente, mas nunca contra Luís xiii ou acima de tudo contra
Sua Eminência. As piedosas irmãs sabiam muito bem desabafar suas tensões impunemente. Mas se
fossem insolentes com o cardeal... Bem, vejamos o que acontecia com o sr. Grandier.