Os Demônios de Loudun

Aldous Huxley · Capítulo 9 de 14

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Os Demônios de Loudun

Capítulo IX

 

Grandier se foi, mas Eazaz, Carvão da Impureza e Zabulão continuaram a se manifestar. Para muitos, o

fato parecia inexplicável. Mas onde as causas persistem, os efeitos continuam a se manifestar. Foram o

cônego Mignon e seus exorcistas que primeiramente materializaram a histeria das freiras sob a forma de

diabos e eram eles que agora mantinham viva a possessão. Duas vezes por dia, exceto aos sábados, as

endemoniadas executavam suas proezas. Como seria de esperar, não eram mais convincentes — eram até

mesmo um pouco menos — do que haviam sido enquanto o feiticeiro estava vivo.

Em fins de setembro, Laubardemont informou ao cardeal que pedira a intercessão da Companhia de

Jesus. Os jesuítas tinham uma reputação de sabedoria e habilidade. Partindo daqueles mestres em todas

as ciências, o público certamente “aceitaria com menos contestações a verdade irrefutável da

possessão”.

Muitos jesuítas, incluindo Vitelleschi, o diretor-geral da Companhia, pretendiam recusar-se

polidamente a qualquer coisa que envolvesse a possessão. Mas já era muito tarde para levantar objeções.

O convite de Laubardemont foi imediatamente seguido de uma ordem real. Sua eminência falara em nome

do rei.

No dia 15 de dezembro de 1634, quatro padres jesuítas chegaram em Loudun. Entre eles estava Jean-

Joseph Surin. O padre Bohyre, provincial da Aquitânia, escolhera-o para empreender o exorcismo, e

depois, de acordo com o parecer do conselho, revogara a ordem. Tarde demais. Surin já deixara

Marennes. Persistiu a designação inicial.

Surin tinha então trinta e quatro anos, nel mezzo del cammin, o caráter formado, suas ordens de

valores já estipuladas. Seus confrades tinham-no como homem de grande talento, reconheciam sua

dedicação e respeitavam o ascetismo de sua vida e o fervor com que buscava atingir a perfeição cristã.

Mas à admiração misturavam-se certas dúvidas. O padre Surin possuía todos os predicados de um

homem de enormes virtudes; mas havia qualquer coisa que fazia seus colegas e superiores mais prudentes

balançarem a cabeça. Detectavam nele certo descomedimento, um excesso de palavras e ações. Gostava

de dizer que “o homem que não possui conceitos arraigados a respeito de Deus, jamais se aproximará

Dele”. E certamente era verdade — desde que ficasse provado que essas ideias eram as do tipo

adequado. Algumas dessas ideias extremistas do padre, embora suficientemente ortodoxas, pareciam

desviar-se dos caminhos da prudência. Por exemplo, sustentava que devemos estar prontos a morrer

pelas pessoas com as quais vivemos, “enquanto devíamos ao mesmo tempo proteger-nos deles como se

fossem nossos inimigos” — uma proposição dificilmente destinada a melhorar a vida em comunidade nas

congregações e nos colégios religiosos. Tanto quanto antissociais, suas ideias extremistas tornavam-no

de um escrúpulo exagerado em sua virtude. “Devemos”, dizia, “deplorar nossas vaidades como

sacrilégios, punir com extrema severidade nossas ignorâncias e irreflexões.” E a esse rigor desumano em nome da perfeição ele acrescentava o que parecia a muitos dos mais idosos tanto quanto a seus

contemporâneos um interesse indiscreto e até mesmo perigoso por aquelas “graças extraordinárias” que

são algumas vezes concedidas aos santos, mas completamente desnecessárias para a salvação ou

santificação. “Desde sua mais tenra idade”, escreveria muitos anos depois seu amigo, o padre Anginot,

“havia se sentido fortemente atraído por tais coisas, e as tinha em alta conta. Foi necessário deixá-lo à

vontade, permitindo-lhe trilhar um caminho que não era o normal.”

No porto de pescadores de Marennes, onde passara a maior parte dos quatro anos que se seguiram

ao término de seu “noviciado suplementar” em Rouen, Surin serviu de diretor espiritual para duas

mulheres notáveis — a sra. du Verger, esposa de um comerciante rico e piedoso, e Madeleine Boinet, a

filha convertida de um funileiro ambulante protestante. Ambas eram contemplativas atuantes e também

(principalmente a sra. du Verger) tinham sido favorecidas com “graças extraordinárias”. O interesse de

Surin em suas visões e êxtases era tão grande que copiou longos trechos do diário da sra. du Verger e

escreveu relatos pormenorizados sobre as duas mulheres para divulgação em manuscrito entre seus

amigos. Não havia, é claro, nada de errado em tudo isso. Mas por que dar tanto relevo a um assunto tão

ambíguo em sua essência, tão cheio de armadilhas e perigos? As graças comuns eram as únicas capazes

de levar uma alma ao céu; assim sendo, por que se preocupar com as extraordinárias — ademais que

ninguém jamais soube se tais coisas eram provenientes de Deus, da imaginação, de fraude deliberada ou

do demônio? Se o padre Surin desejava atingir a perfeição, que o fizesse por aquele nobre caminho que

estava de acordo com a dignidade e aperfeiçoamento da Companhia — o caminho da obediência e da

dedicação ativa, o caminho da oração verbal e da meditação divagadora.

O que tornava as coisas piores, sob o ponto de vista de seus críticos, era o fato de Surin ser um

homem doente, uma vítima de neurose ou, como era então denominado, “melancolia”. Durante um

período de pelo menos dois anos antes de sua ida para Loudun, havia sofrido de distúrbios

psicossomáticos que o deixaram incapacitado. O mínimo esforço físico lhe provocava fortes dores

musculares. Quando tentava ler, era forçado a desistir em pouco tempo devido a terríveis dores de

cabeça. Sua mente estava obscurecida e confusa, e vivia em meio a “angústias e pressões tão extremas

que não sabia o que seria dele”. Será que sua conduta e ensinamentos excêntricos eram resultantes de

uma mente doente e um corpo enfermiço?

Surin relata que muitos dentre seus confrades jesuítas não estavam convencidos, até o fim de tudo, de

que as freiras estivessem verdadeiramente possuídas. Mesmo antes de sua chegada a Loudun, ele não se

sentia perturbado por tais dúvidas. Estava convencido de que o mundo permanecia sempre visível e

milagrosamente impregnado pelo sobrenatural. E essa convicção era, por sua vez, a origem de uma

credulidade incondicional. As pessoas precisavam apenas dizer que tiveram algum envolvimento com

santos, anjos ou demônios; Surin acreditava nelas sem perguntas ou apreciações. O que mais

acentuadamente lhe faltava era “a agudeza de espírito”. Na verdade, carecia até de raciocínio e simples

bom senso. Surin era daquele tipo paradoxal não pouco comum — um homem de grande capacidade que

era ao mesmo tempo um tolo. Nunca poderia ter feito eco às palavras iniciais de Monsieur Teste: La

bêtise n’est pas mon fort.[90] Juntamente com a inteligência e a santidade, a estupidez era seu ponto

forte.

A primeira vez que Surin viu as endemoniadas foi em um dos exorcismos públicos que estava sendo oficiado por Tranquille, Mignon e os carmelitas. Chegara a Loudun convencido da veracidade da

possessão; esse espetáculo levou-o da convicção à mais absoluta certeza. Os demônios, agora ele sabia,

eram indubitavelmente autênticos, “e Deus o agraciou com tão imensa compaixão pelo estado das

possuídas, que não pôde conter as lágrimas”. Estava desperdiçando sua simpatia — ou, pelo menos,

usando-a no momento inadequado. “O diabo”, escreve a irmã Jeanne, “frequentemente me seduziu com

um certo prazer, que eu sentia nas minhas agitações e nas coisas extraordinárias que ele fazia com meu

corpo. Usufruía de um imenso prazer ouvindo aquelas coisas que ele dizia, e sentia-me feliz por dar a

impressão de que era mais atormentada do que as outras.” Prolongado por tempo indevido, cada prazer

se transforma em seu oposto; era só quando os exorcistas iam muito longe que as piedosas irmãs

deixavam de se comprazer com suas possessões. Encaminhados com moderação, os exorcismos públicos,

como qualquer outro tipo de orgia, eram realmente agradáveis. Esse era um fato que dificilmente deixaria

de perturbar pessoas habituadas a exames de consciência à luz de uma rígida moralidade. Embora

reconhecido o fato de que as almas eram inocentes quanto aos atos pecaminosos cometidos durante o

paroxismo da possessão, a irmã Jeanne sofria de remorsos crônicos. “E não é de surpreender; pois eu

percebia muito claramente que na maioria das situações a causa fundamental de meus distúrbios era eu

mesma, e que o diabo só agia de acordo com as sugestões que eu lhe dava.” Ela sabia que, quando se

comportava de forma desonrosa, não era porque desejasse o ultraje de espontânea vontade. No entanto,

“tenho certeza, o que me confunde, que tornei possível ao demônio fazer tais coisas, e que se não me

tornasse sua aliada não possuiria poder para isso... Quando eu opunha uma forte resistência, todos os

frenesis desapareciam tão repentinamente quanto surgiram; mas ai de mim, as coisas aconteciam com

tanta frequência que eu não me esforçava por resistir a elas”. Percebendo que eram culpadas não pelo

que faziam quando estavam fora de si, mas pelo que deixavam de fazer antes que a histeria se apossasse

delas totalmente, as freiras sofriam de um terrível sentimento de culpa. Livrando-as dessa convicção de

pecado, as orgias da possessão e do exorcismo aconteciam como feriados oportunos. As lágrimas não

faltavam, não durante esses delírios e obscenidades, mas nos intervalos de lucidez que os intercalavam.

Para Surin, muito antes de sua chegada a Loudun já lhe fora designada a honra de exorcizar a madre

superiora. Quando Laubardemont contou a ela que havia solicitado os jesuítas, e que ela teria como

diretor espiritual o jovem padre mais competente e virtuoso da província da Aquitânia, a irmã Jeanne

ficou muito alarmada. Os jesuítas não eram como aqueles capuchinhos e carmelitas estúpidos aos quais

era sempre fácil enganar. Eles eram inteligentes, cultos; e além de tudo o padre Surin era santo, um

homem de oração, um grande contemplativo. Não se deixaria enganar facilmente, saberia quando ela

estava realmente possuída ou apenas fingindo, ou pelo menos colaborando com seus demônios. Implorou

a Laubardemont que a deixasse entregue a seus antigos exorcistas — ao querido cônego Mignon, ao bom

padre Tranquille e aos virtuosos carmelitas. Entretanto, Laubardemont e seu senhor já haviam mudado de

ideia. Necessitavam de provas convincentes de possessão e somente os jesuítas podiam fornecê-las. A

irmã Jeanne obedeceu de má vontade. Durante as semanas que antecederam à chegada de Surin, fez o que

estava a seu alcance para conhecer tudo acerca de seu novo exorcista. Escreveu cartas para amigas de

outros conventos pedindo informações; sondou habilmente os jesuítas do lugar. Seu único objetivo era

“estudar o temperamento do homem para o qual fora designada”, e, tendo descoberto tudo que podia,

“comportar-se em relação a ele com o máximo de retraimento possível, sem dar-lhe nenhuma informação sobre o estado de sua alma. Fui bastante fiel a essa resolução”. Quando o novo exorcista chegou, ela já

sabia o suficiente de sua vida em Marennes para estar apta a fazer bastantes alusões irônicas a ta

Boinette (o modo zombeteiro como seus demônios se referiam a Madeleine Boinet). Surin ergueu as

mãos em sinal de assombro. Era um milagre — sem dúvida infernal, mas evidentemente autêntico.

A irmã Jeanne decidira-se a não contar seus segredos e, em face dessa resolução, sentia e

demonstrava uma intensa aversão pelo seu novo exorcista e tinha ataques histéricos (em suas próprias

palavras, “era atacada tanto interior quanto exteriormente pelos demônios”) toda vez que Surin tentava

questioná-la sobre o estado de sua alma. Quando ele se aproximava, a freira fugia; se obrigada a ouvi-lo,

ela uivava e mostrava-lhe a língua. Com tudo isso, observava a irmã Jeanne, “ela punha à prova

grandemente a virtude do jesuíta. Mas ele caridosamente atribuía seu estado de espírito ao demônio”.

A despeito de seus demônios, todas as freiras sofriam de remorso e da convicção de estarem

pecando gravemente; contudo, a prioresa tinha um motivo mais forte e manifesto do que suas irmãs para

se sentir culpada. Logo após a execução de Grandier, Isacaaron, que era o demônio da concupiscência,

“aproveitou-se de minha imprevidência para me submeter às mais horríveis tentações contra a castidade.

Realizou uma operação em meu corpo, a mais estranha e violenta que poderia ser imaginada; depois

disso, persuadiu-me de que estava grávida, tão insistentemente que cheguei a ter certeza do fato e exibir

todos os sintomas”. Confiou seus problemas às freiras suas irmãs, e em breve um bando de diabos

anunciavam sua gravidez. Os exorcistas relataram o fato ao comissário e este, a Sua Eminência. A

menstruação, escreveu, havia cessado durante os três meses anteriores; tinha crises de vômito constantes

acompanhadas de problemas de estômago, secreção de leite e um aumento pronunciado de seu ventre. À

medida que as semanas passavam, a prioresa tornava-se cada vez mais angustiada e agitada. Se desse à

luz uma criança, tanto ela como toda a comunidade da qual era a orientadora, a sua própria ordem,

estariam todos desgraçados. Estava tomada de tal desespero que seu único alívio era a visita de

Isacaaron. Essas visitas quase sempre ocorriam à noite. Na escuridão de sua cela, ouvia ruídos e sentia a

cama balançar. Mãos enfiavam-se por baixo dos lençóis; vozes sussurravam lisonjas e obscenidades ao

seu ouvido. Algumas vezes surgia uma estranha luz no quarto, e ela distinguia o vulto de um bode, um

leão, uma cobra, um homem. Outras vezes caía num estado de catalepsia e enquanto jazia ali, incapaz de

se mover, era como se pequenos animais estivessem rastejando sob suas roupas de cama, fazendo

cócegas em seu corpo com suas patas e os focinhos esquadrinhadores. Então a voz persuasiva pedia a ela

mais uma vez, por só mais um pouquinho de amor, por mais essa pequena concessão. E quando ela

respondia que “sua honra estava nas mãos de Deus e que Ele poderia dispor dela de acordo com Seu

desejo”, era atirada para fora de sua cama e agredida tão violentamente que seu rosto ficava

completamente deformado e seu corpo, coberto de contusões. “Acontecia frequentemente que me tratasse

dessa maneira, mas Deus me deu uma coragem que eu jamais imaginaria possuir. E no entanto eu estava

tão corrompida que me orgulhava dessas frívolas batalhas, imaginando que devia estar agradando muito a

Deus e que portanto não tinha nenhum motivo para, como fizera antes, temer os remorsos de minha

consciência. Não obstante, achava impossível reprimir meus remorsos e evitar a certeza de que não era

aquilo que Deus desejava de mim.”

Isacaaron era o principal culpado e era contra ele que Surin dirigia toda a sua energia, todas as

ameaças proferidas de acordo com o ritual. Audi ergo et time, Satana, malorum radix, fomes vitiorum... De nada adiantavam. “Uma vez que eu não revelava minhas tentações, elas cresciam cada vez mais.” E,

quanto mais forte Isacaaron se tornava, maiores as ansiedades e o desespero da irmã Jeanne à medida

que sua gravidez avançava a olhos vistos. Pouco antes do Natal, conseguiu meios de obter certas drogas

— artemísia, sem dúvida, aristolóquia e coloquíntida, as três plantas medicinais às quais a ciência de

Galeno e o otimismo provocado pelo desespero das jovens em dificuldades atribuíam poderes abortivos.

E quanto ao fato da criança morrer sem haver recebido o sacramento do batismo? Sua alma receberia a

condenação eterna. Jogou as drogas fora.

Outro plano surgiu então espontaneamente. Ela apanharia a maior faca que encontrasse na cozinha, se

cortaria, extrairia a criança e depois se recuperaria ou morreria. No primeiro dia do ano de 1635, fez

uma confissão completa “sem entretanto revelar meus planos ao meu confessor”. No dia seguinte, portado

uma faca e carregando uma bacia de água para o batismo, trancou-se num quartinho do andar superior do

convento. Havia um crucifixo no quarto. A irmã Jeanne ajoelhou-se diante dele e rezou a Deus “que

perdoasse sua morte assim como a daquela pequenina criatura, no caso de matar a si mesma e à criança,

pois estava decidida a asfixiá-la tão logo a batizasse”. Enquanto se despia, era tomada por de petittes

appréhensions d’estre damnée;[91]mas aquelas pequenas apreensões não eram bastante fortes para

desviá-la de seu propósito perverso. Após despir-se de seu hábito, fez um grande buraco na camisola

com a tesoura, pegou a faca e começou a empurrá-la entre as duas costelas próximas ao estômago, “com a

firme resolução de prosseguir até a morte”. Mas, embora os histéricos tentem frequentemente o suicídio,

raramente conseguem levá-lo a cabo. “Vejam o piedoso golpe da providência que me impediu de fazer o

que pretendia! Fui subitamente atirada ao chão com indescritível violência. A faca foi arrancada da

minha mão e colocada diante de mim ao pé do crucifixo.” Uma voz gritou: “Desista!”. A irmã Jeanne

ergue os olhos para o crucifixo. Cristo afastou um de seus braços da cruz e estendeu-lhe a mão. Foram

ditas palavras divinas, seguidas por sussurros e uivos dos demônios. Dali em diante a prioresa decidiu-

se a mudar de vida e se converter inteiramente. Enquanto isso, entretanto, a gravidez continuava, e

Isacaaron não havia de modo algum perdido as esperanças. Uma noite ele se ofereceu, como uma

recompensa, para trazer-lhe um emplastro mágico que, se aplicado ao estômago, poria fim à gravidez. A

prioresa estava seriamente inclinada a aceitar suas condições, mas pensando melhor decidiu não aceitar.

O diabo exasperado deu-lhe uma boa surra. De outra vez, Isacaaron chorou e queixou-se tão

lamentosamente que a irmã Jeanne se sentiu comovida e “desejou que a mesma coisa se repetisse outra

vez”. E aconteceu. Não parecia haver motivo para que aquele estado de coisas não continuasse

indefinidamente.

Bastante perplexo, Laubardemont mandou chamar em Le Mans o famoso dr. du Chêne. Após fazer um

exame minucioso na prioresa, este declarou que a gravidez era autêntica. A perplexidade de

Laubardemont cedeu lugar ao alarme. Como os protestantes receberiam a novidade? Felizmente para

todos os envolvidos, Isacaaron apareceu durante um exorcismo público e contradisse frontalmente o

doutor. Todos os sintomas reveladores, desde o enjoo matinal até o fluxo de leite, haviam sido

maquinados pelos demônios. “Ele foi então coagido a me fazer lançar para fora todo o acúmulo de sangue

amontoado em meu corpo. Isso aconteceu em presença de um bispo, vários médicos e muitas outras

pessoas.” Todos os sintomas de gravidez deaspareceram imediatamente e jamais voltaram.

Os espectadores agradeceram a Deus; e o mesmo fez a prioresa com palavras. Mas no íntimo tinha suas dúvidas. “Os demônios”, relata, “fizeram o que puderam para me persuadir de que o que acontecera

quando Nosso Senhor me impediu de me cortar com a faca para me livrar da pseudogravidez não viera

de Deus; e portanto que eu tinha de considerar tudo aquilo como pura ilusão, manter segredo sobre o

assunto e não me preocupar em mencioná-lo em confissão”. Com o passar do tempo essas dúvidas

cessaram e ela foi capaz de se convencer de que houvera um milagre.

Para Surin, o milagre era inquestionável. Em sua opinião, tudo que acontecia em Loudun era

sobrenatural. Possuía uma fé ardente e indiscriminada. Acreditava na possessão. Acreditava na culpa de

Grandier. E que outros feiticeiros atuavam agora sobre as freiras. Acreditava que o diabo devidamente

coagido é obrigado a contar a verdade. Que os exorcismos públicos beneficiavam a religião católica e

que muitos libertinos e huguenotes seriam convertidos ao ouvirem os demônios proclamarem a verdade

da transubstanciação. Acreditava terminantemente na irmã Jeanne e nos produtos de sua imaginação. A

credulidade é um grave pecado intelectual, que só a mais irremediável ignorância pode justificar. No

caso de Surin, a ignorância era superável e até mesmo voluntária. Vimos que, apesar do ambiente

intelectual que prevalecia, muitos de seus colegas jesuítas não demonstravam essa pressa indecorosa em

acreditar. Duvidando da possessão, ficavam livres para se recusar a aceitar todo aquela tolice revoltante

e absurda que o novo exorcista, com seu interesse mórbido em graças e desgraças extraordinárias, havia

aceitado sem a menor tentativa de uma apreciação crítica. A imbecilidade, como vimos, era um dos

pontos fortes de Surin. Mas também o eram a santidade e a dedicação heroica. Seu objetivo era a

perfeição cristã — o morrer para si mesmo, o que tornava possível a uma alma atingir a graça da união

com Deus. E esse objetivo ele propunha não somente para si mesmo, mas para todos a que pudesse

persuadir a trilhar com ele o caminho da purificação e obediência ao Espírito Santo. Outros haviam-no

ouvido — então por que não a prioresa? A ideia veio-lhe à mente — e interpretou-a como uma

inspiração — enquanto ainda estava em Marennes. Ao exorcismo deveria acrescentar o tipo de disciplina

da vida espiritual que recebera ele próprio da madre Isabel e do padre Lallement. Libertaria a alma da

endemoniada elevando-a até a luz.

Um ou dois dias após sua chegada a Loudun, mencionou o assunto à irmã Jeanne e recebeu como

resposta uma gargalhada de Isacaaron e um rosnar de desprezo irritado de Leviatã. Essa mulher,

lembraram-lhe, era propriedade deles, uma “casa de cômodos” para os demônios; e ele a falar com a

freira sobre exercícios espirituais, insistindo para que preparasse sua alma para a união com Deus!

Como, se já fazia mais de dois anos que nem tentava orar mentalmente. Contemplação, não me diga!

Perfeição cristã! As gargalhadas multiplicavam-se.

Mas Surin não se deixava intimidar. Dia após dia, apesar das blasfêmias e das convulsões, voltava

às exortações. Colocara o mastim do céu em suas pegadas e pretendia perseguir a caça até a morte —

morte que é a vida eterna. A prioresa tentou escapar, mas ele perseguia seus passos, obcecava-a com suas

orações e sermões. Falava-lhe da vida espiritual, suplicava a Deus que desse a ela a força para suportar

as difíceis provações preliminares, descrevia a beatitude da união. A irmã Jeanne interrompia-o com

gargalhadas, piadas acerca de sua preciosa Boinette, fortes jatos de vômito, fragmentos de canções,

imitações de porcos comendo. Mas a voz continuava seus sussurros, infatigavelmente.

Certo dia, após uma demonstração especialmente terrível de bestialidade diabólica, Surin pediu em

oração que lhe fosse permitido sofrer no lugar da prioresa para ajudá-la. Queria sentir tudo que os demônios haviam-na feito sofrer; estava pronto para ser possuído, “contanto que agradasse à bondade

divina curá-la e encaminhá-la para a prática da virtude”. Pediu mesmo que lhe fosse permitido sofrer a

humilhação suprema de ser visto como um lunático. Moralistas e teólogos nos asseguram que tais pedidos

jamais devem ser feitos.[92] Infelizmente a prudência não era uma das virtudes de Surin. O pedido tolo e

inteiramente ilógico foi feito. Mas as preces, se feitas com seriedade, conseguem obter resposta —

algumas vezes, sem dúvida, através da direta intervenção divina; mas, com mais frequência, suspeitamos,

porque a natureza das ideias é tal que elas tendem a se concretizar, assumir uma forma, material ou

psicológica, como fato ou símbolo no mundo real ou no sonho. Surin implorara para sofrer da mesma

forma que a irmã Jeanne sofrera. No dia 19 de janeiro, começou a ficar obcecado.

Talvez isso fosse acontecer mesmo que ele nunca houvesse rogado. Os demônios já haviam matado o

padre Lactance, e o padre Tranquille já caminhava para o mesmo fim. Na verdade, segundo Surin, não

existia entre os exorcistas nenhum que não se sentisse em maior ou menor grau acossado pelos demônios

a quem haviam ajudado a evocar e que faziam tudo a seu alcance para manter atuantes. Nenhum homem

pode concentrar sua atenção no mal, ou mesmo na ideia do mal, sem ser por isso afetado. Ser mais contra

o diabo do que a favor de Deus é excessivamente perigoso. Todo cruzado corre o risco de ficar louco.

Ele persegue a maldade que atribui a seus inimigos e torna-se de alguma forma parte dela.

A possessão é com mais frequência mundana do que sobrenatural. Os homens deixam-se obcecar por

pensamentos acerca de uma pessoa, classe, raça ou nação a qual odeiam. Atualmente o destino do mundo

está nas mãos de autoendemoniados — de homens que se deixam possuir pelo mal que escolheram

descobrir nos outros e que manifestam eles mesmos esse mal. Eles não acreditam no diabo; mas fizeram

todas as tentativas possíveis para serem possuídos — tentaram e obtiveram sucesso. E, uma vez que

acreditam ainda menos em Deus que no demônio, parece bastante improvável que consigam se curar da

possessão. Concentrando o pensamento na ideia de um mal metafísico e sobrenatural, Surin chegou a

atingir um grau de loucura incomum entre os endemoniados seculares. Contudo, como sua noção de bem

era da mesma forma sobrenatural e metafísica, ela veio a salvá-lo no fim.

No início de maio, Surin escreveu para seu amigo e colega jesuíta, o padre D’Attichy, contando-lhe

tudo que havia acontecido com ele. “Desde a última vez que lhe escrevi, caí num estado inteiramente

diferente de qualquer coisa que poderia imaginar, mas profundamente consonante com os desígnios da

Divina Providência em relação a minha alma. [...] Estou empenhado numa luta contra quatro dos mais

malignos demônios do inferno. [...] O campo de batalha menos importante é aquele do exorcismo; porque

meus inimigos se fizeram conhecer secretamente, noite e dia, de mil diferentes modos. [...] Nos últimos

três meses e meio, nunca estive sem um diabo ao meu lado. Deus permitiu que as coisas chegassem a tal

ponto (penso que devido aos meus pecados) [...] que os demônios transferiam-se do corpo de uma pessoa

possuída para o meu, a fim de me agredirem, atirarem-me ao chão, atormentar-me de modo que todos

pudessem ver, possuindo-me por várias horas seguidas como a um endemoniado.[93]

“Acho quase impossível explicar o que acontece comigo nesses momentos, como este espírito

estranho se une a mim sem que eu seja despojado de minha consciência e de uma grande liberdade

interior, e contudo constituindo um segundo ‘eu’, como se eu tivesse duas almas, sendo que uma é

despojada de meu corpo e da utilização de seus órgãos, mantendo-se em seu canto e observando a outra,

a intrusa, fazer o que quer. Esses dois espíritos combatem num campo de batalha limitado, que é o corpo. A própria alma está como que dividida, sendo que em uma de suas partes está sujeita a influências

diabólicas e em outra, a sentimentos que lhe são próprios ou inspirados por Deus. A um só tempo eu sinto

uma grande paz, como se estivesse sob as graças de Deus, e por outro lado (sem saber por quê), uma

terrível ira e aversão a Deus, que extravasam em lutas frenéticas (que deixam atônitos aqueles que as

observam) para separar meu eu de Deus. Ao mesmo tempo que experimento alegria e prazer, sinto por

outro lado uma angústia que se expande em gemidos e lamentações, como as de um condenado. Sinto-me

perdido para a vida eterna e isso me causa apreensão. É como se tivesse sido trespassado pelos

aguilhões do desespero naquela alma estranha que parece ser a minha; e enquanto isso a outra alma vive

em segurança total, não dá grande importância a tais tipos de sentimentos e amaldiçoa o ser responsável

por eles. Chego mesmo a sentir que os gritos emitidos por mim originam-se de ambas as almas ao mesmo

tempo, e acho difícil definir se são consequência de alegria ou de delírio. Os tremores que me acometem

quando o Santíssimo Sacramento é aplicado a qualquer parte do meu corpo, são causados ao mesmo

tempo (pelo menos é o que me parece) pelo horror de sua proximidade, que eu considero insuportável, e

por uma sincera veneração. [...]

“Quando, sob a impulsão de uma dessas duas almas, eu tento fazer o sinal da cruz, a outra alma

afasta minha mão ou morde meu dedo selvagemente. Descubro que a oração mental nunca é mais

espontânea e tranquila do que em meio a essas agitações, enquanto o corpo está rolando no chão e os

representantes da Igreja se dirigem a mim como se a um demônio, cobrindo-me de maldições. É

indescritível a felicidade que sinto então, encontrando-me transformado em um diabo, não por voltar-me

contra Deus, mas por uma desgraça que apenas simboliza o estado ao qual fiquei reduzido pelo pecado.

[...]

“Quando os outros endemoniados me veem nesse estado, alegra-me ver como exultam ao ouvir os

diabos divertindo-se às minhas custas! ‘Médico, cura a ti mesmo! Agora é a hora de subir ao púlpito! Um

belo espetáculo ver aquela criatura pregando!’ [...] Que grande graça esta — conhecer na própria carne o

estado a que Jesus Cristo me levou, perceber a grandeza de Sua redenção não por ouvir dizer, mas pelo

sentimento vívido do estado do qual Ele nos redimiu! [...]

“Eis onde me encontro agora, eis como atravesso quase todos os meus dias. Tornei-me um assunto

de discussão. Existe a verdadeira possessão? É possível aos ministros da Igreja envolverem-se em tais

dificuldades? Alguns dizem que tudo isso é um castigo de Deus, uma punição por me haver deixado levar

por falsas impressões; já outros têm outras explicações. Quanto a mim, conservo minha paz e não desejo

mudar meu destino, estando absolutamente convencido de que nada é melhor que ser reduzido ao último

extremo. ”

(Em seus últimos escritos, Surin desenvolveu esse tema mais detalhadamente. Existem muitos casos,

insiste, em que Deus utiliza a possessão como parte do processo catártico que antecede a revelação. “É

uma das diretrizes mais comuns de Deus nos caminhos da graça, permitir ao diabo possuir ou obcecar as

almas que Ele deseja elevar a um alto grau de santidade.” Os demônios não podem se apossar do livre-

arbítrio e forçar suas vítimas ao pecado. As inspirações diabólicas de blasfêmia, impureza e aversão a

Deus não poluem a alma. Na verdade até lhes são benéficas, na medida que a fazem sentir tão grande

humilhação quanto sentiria se tais horrores fossem cometidos voluntariamente. Essas humilhações,

angústias e apreensões com as quais os demônios invadem as mentes, consistem na “provação que corrói até o âmago do coração, até a medula dos ossos, todo o amor próprio”. E, enquanto isso, o próprio Deus

está agindo sobre a alma sofredora, e seus trabalhos são “tão poderosos, feitos com tanta sutileza e tão

arrebatadores, que podemos dizer que toda a Sua benevolência está concentrada na salvação dessa ama”.

Surin terminou essa carta ao padre D’Attichy recomendando sigilo e discrição. “Salvo meu

confessor e meus superiores, você é a única pessoa a quem fiz essas confidências.” A confidência foi

pessimamente dirigida. O padre D’Attichy mostrou a carta para toda a gente. Fizeram-se várias cópias

que foram distribuídas e em poucos meses fora impressa em cartazes. Juntamente com os assassinos

condenados e os bezerros de seis pernas, Surin tomou seu lugar como um novo elemento para a diversão

da plateia.

Dali em diante, Leviatã e Isacaaron estavam sempre presentes. Mas, nos intervalos de invasão ao

seu corpo e até durante as obsessões que infligiam à sua alma, Surin era capaz de prosseguir em sua

missão — a santificação da irmã Jeanne. Quando ela fugia, ele a seguia. Encurralada, ela voltava-se e

enfurecia-se contra ele. Surin não se importava. Ajoelhado a seus pés, rezava por ela. Sentado ao seu

lado, murmurava a doutrina espiritual do padre Lallemant a qual ela ouvia de má vontade. “Perfeição

interior, obediência ao Espírito Santo, purificação do coração, conversão à vontade de Deus...” Os

demônios de Jeanne contorciam-se e tagarelavam; mas ele prosseguia — prosseguia muito embora

pudesse ouvir em sua própria mente a zombaria de Leviatã, as sugestões obscenas de Isacaaron, o

demônio da lascívia.

Surin não tinha apenas os demônios com que lutar. Mesmo em suas horas de lucidez — talvez até

principalmente nessas horas —, a prioresa continuava a não suportá-lo. Isso porque o temia, tinha medo

de ficar exposta a sua perspicácia quanto ao seu estado, que ela conhecia bem em seus momentos de

lucidez — metade atriz, metade pecadora impenitente e completamente histérica. Surin suplicou-lhe que

fosse franca com ele. A resposta era ou um uivar de demônios ou uma afirmação da freira de que não

tinha nada a declarar.

As relações entre a possessa e seu exorcista se complicaram pelo fato de, durante as festas de

Páscoa, a irmã Jeanne sentir-se subitamente tomada por “desejos malignos e um sentimento da mais

ilegítima afeição” pelo homem a que tanto temia e detestava. Ela não era capaz de confessar seu segredo

e foi o próprio Surin quem, após três horas de oração antes da Eucaristia, referiu-se a essas “tentações

abomináveis”. “Se alguém”, escreve a irmã Jeanne, “foi alguma vez confundida, esta fui eu naquela

ocasião.” Já era tarde e ele deixou-a ruminar seu espanto. Finalmente ela decidiu-se, mais uma vez, a

mudar não só seu comportamento em relação a Surin, mas todo o seu esquema de vida. Era uma resolução

superficial. No seu subconsciente, os demônios tinham outros planos. Tentou ler; sua mente tornou-se

confusa. Tentou pensar em Deus, conservar a alma perto Dele; imediatamente sentiu uma terrível dor de

cabeça, acompanhada de “estranhos aturdimentos e fraquezas”. Para todos esses sintomas Surin tinha um

remédio infalível: a oração mental. Jeanne concordou em tentá-lo. Os demônios atacavam com fúria

redobrada. À primeira menção de perfeição espiritual, fizeram seu corpo lançar-se em convulsões. Surin

colocou-a deitada sobre uma mesa e amarrou-a firmemente com cordas, de maneira que não se pudesse

mover. Depois, ajoelhou-se diante dela e sussurrou ao seu ouvido um modelo de oração mental. “Escolhi

como tópico a conversão do coração a Deus e seu desejo de se consagrar inteiramente a Ele. Ressaltei

três pontos que expliquei de maneira expressiva, realizando todos os atos em intenção da superiora.” Essa cerimônia repetiu-se dia após dia. Amarrada, como se fosse submeter-se a uma intervenção

cirúrgica, a prioresa estava à mercê de Deus. Ela debatia-se, gritava; mas através de todo o barulho

conseguia ainda ouvir a voz de seu implacável benfeitor. Algumas vezes Leviatã desviava sua atenção

para o exorcista e de repente o padre Surin se via na impossibilidade de falar. A prioresa reagia com

ataques de gargalhadas demoníacas. Então a corrente era ligada de novo; as orações, os ensinamentos

sussurrados que prosseguiam do ponto no qual tinham sido interrompidos.

Quando os demônios se tornavam muito violentos, Surin apanhava uma hóstia sagrada que guardava

numa caixa de prata e a colocava sobre o coração ou a testa da prioresa. Após uma dolorosa convulsão

inicial, “ela foi tomada de grande devoção, ainda mais porque eu murmurava ao seu ouvido tudo que

aprazia a Deus me inspirar. Ela ficava muito atenta ao que eu dizia e mergulhava em profundo

recolhimento. O efeito sobre seu coração era tão forte [...] que as lágrimas jorravam de seus olhos.”

Era uma conversão — mas uma conversão em um contexto de histeria, num palco de um teatro

imaginário. Oito anos antes, quando era uma jovem freira que tentava ganhar as boas graças de sua

superiora, a irmã Jeanne havia alardeado por algum tempo a ambição de se tornar uma segunda santa

Teresa. À exceção da velha senhora, ninguém havia se impressionado. Depois foi nomeada prioresa e,

tendo livre acesso ao locutório, o misticismo passou a ser menos interessante. Depois disso, quase que

de uma hora para outra, surgiu a obsessão dos sonhos eróticos aos quais deu o nome de Grandier. Sua

neurose tornou-se mais profunda. O cônego Mignon falou dos demônios, praticou exorcismos, emprestou

a ela seu próprio exemplar do livro de Michaelis sobre o caso de Gauffridy. Ela o leu e imediatamente se

viu como a rainha das endemoniadas. Sua ambição nessa época era superar a todos em tudo, em

blasfêmia, grunhidos, linguagem obscena, acrobacias. Sabia certamente que “todos os distúrbios de sua

alma eram baseados em sua própria personalidade” e que “ela devia se culpar por esses distúrbios sem

invocar causas estranhas”. Sob a influência de Michaelis e Mignon, esses defeitos inatos haviam se

corporificado nos sete demônios. E agora estes tinham vida própria e eram seus senhores. Para livrar-se

deles, teria de se libertar dos maus hábitos e das inclinações torpes. E, a fim de conseguir isso, como seu

novo diretor espiritual estava sempre lhe dizendo, teria de rezar, submeter-se à revelação divina. A fé de

Surin era contagiosa; ela ficou sensibilizada com a sinceridade do homem, tinha consciência de que, por

trás dos seus sintomas de obsessão, ele tinha profundo conhecimento do que estava dizendo. Após ouvi-

lo, ansiava por se aproximar de Deus; mas o desejava da forma mais espetacular possível, diante de uma

assistência grande e pasmada. Havia sido a rainha das endemoniadas; agora desejava ser uma santa — ou

melhor, desejava ser conhecida como uma santa, ser canonizada de imediato, fazer milagres, que

recorressem a ela em orações...

Entregou-se ao novo papel com toda a sua energia habitual. Sua quota de oração mental aumentou de

meia hora para três ou quatro horas por dia, e, a fim de se preparar para receber a revelação, submeteu-

se a uma vida dos mais severos rigores físicos. Trocou seu colchão de pena por uma tábua dura; fazia

cozimentos de absinto para temperar sua comida em lugar do molho; usava um cilício e um cinto cheio de

pregos; surrava a si mesma com um chicote pelo menos três vezes por dia, e algumas vezes, assim nos

afirmava, chegava a sete horas num período único de vinte e quatro horas. Surin, que era um grande

adepto da disciplina, encorajou-a a prosseguir. Já havia observado que demônios que apenas riam diante

dos rituais da Igreja eram frequentemente postos a correr em poucos minutos por umas boas chicotadas. E o chicote era benéfico para a melancolia natural e para a possessão sobrenatural. Santa Teresa fizera a

mesma descoberta. “Repito (porque tenho visto e tratado de várias pessoas atacadas dessa doença da

melancolia) que não existe outro remédio além de conquistá-los por todos os meios em nosso poder. [...]

Se as palavras não forem suficientes, podemos recorrer a penitências, e que elas sejam duras, se as leves

não fizerem efeito. Parece injusto”, acrescenta a santa, “punir uma irmã doente que não pode ajudar-se a

si mesma como se estivesse bem”. Mas, antes de tudo, é necessário lembrar que esses neuróticos causam

enorme dano às outras almas. Além disso, “acredito realmente que o mal vem de um espírito

indisciplinado, despido de humildade e mal-educado. [...] Sob a escusa dessa disposição (para a

melancolia), Satã procura angariar muitas almas. É mais comum em nossos dias do que o era antigamente;

o motivo é que toda a obstinação e indisciplina são agora denominadas de melancolia.” Entre todas as

pessoas que aceitavam como axioma a absoluta liberdade de escolha e a total depravação da natureza,

essa forma simples de tratar os neuróticos era, ao que tudo indicava, muito eficaz. Ela funcionaria hoje

em dia? Em alguns casos, é possível. Quanto ao mais, “tentar dissuadir” produz provavelmente, no nosso

atual clima intelectual, melhores resultados do que tratamentos de choque autoinfligidos.

Com os exorcismos e as idas e vindas dos turistas, a capela do convento estava se tornando muito

barulhenta para os colóquios murmurados entre a irmã Jeanne e seu diretor espiritual. No início do verão

de 1635, eles começaram a se encontrar em particular, numa água-furtada sob o telhado. Foi colocada

uma grade improvisada. Através das grades Surin dava suas instruções ou dissertava sobre teologia

mística. E a prioresa lhe falava de suas tentações, seus combates com os demônios, suas experiências (já

então esplêndidas) durante a oração mental. Depois, meditavam juntos em silêncio, e o sótão se

transformava, nas palavras de Surin, em “uma morada de anjos e um paraíso de delícias”, onde ambos

eram beneficiados com graças extraordinárias. Certo dia, enquanto meditava sobre o desprezo a que

Jesus fora submetido durante Sua Paixão, a irmã Jeanne entrou em êxtase. Quando este terminou, ela

relatou através das grades “que estivera tão perto de Deus, que recebera como um beijo de Sua boca”.

Nesse ínterim, o que pensavam os outros exorcistas acerca de tudo isso? Qual era a opinião da boa

gente de Loudun? Surin conta-nos que “ouvia pessoas murmurando: ‘O que esse jesuíta pode estar

fazendo todo dia com uma freira possessa?’ Eu respondia intimamente: ‘Vocês não conhecem a

importância do caso no qual estou envolvido’. Parecia que eu via o céu e o inferno exaltados por essa

alma, um por amor, o outro por ódio, ambos lutando para conquistá-la”. Mas só ele via essas coisas.

Tudo que os demais sabiam era que, em vez de submeter sua penitente aos rigores do exorcismo, Surin

passava horas em conversas particulares, tentando ensiná-la (apesar dos demônios que a possuíam) a

trilhar a vida da perfeição cristã. Para seus colegas, a tentativa parecia apenas tola, ainda mais porque

Surin também estava possuído e frequentemente precisando de exorcismo para si mesmo. (Em maio,

quando Gaston d’Orléans, o irmão do rei, foi assistir aos demônios, ele fora publicamente possuído por

Isacaaron, que passara do corpo da irmã Jeanne para o de Surin. Enquanto a endemoniada permanecia

tranquilamente sentada, lúcida e sorrindo ironicamente, seu exorcista rolava no chão. O príncipe sem

dúvida se divertia; mas para Jean-Joseph havia sido mais uma humilhação, na longa série de humilhações

às quais a inescrutável Providência o submetera. Ninguém punha em dúvida a pureza de intenções e ações

de Surin; mas todos julgavam sua conduta imprudente e lamentavam os mexericos que ela inevitavelmente

provocava. No fim do verão, o provincial estava sendo aconselhado a mandá-lo de volta a Bordeaux.

Enquanto isso, a prioresa tivera a sua porção de sacrifícios. Em seu novo papel, como a notável

santa contemplativa, estava dando um espetáculo que deveria estar causando o maior sucesso. Em vez

disso, “Nosso Senhor permitiu que eu sofresse muito em minhas conversas com minhas irmãs, por meio

das obras dos demônios que as atormentavam; porque a maioria delas adquiriu uma grande aversão por

mim, devido à mudança que percebiam em meu comportamento e modo de vida. Os demônios as

persuadiram de que fora o diabo quem provocara a mudança, de maneira a que eu pudesse julgar seus

caracteres e seus comportamentos. Toda vez que estávamos juntas, os demônios incitavam algumas delas

a me submeter ao ridículo, fazer troça de tudo que eu dizia e fazia, coisa que me causava muito

sofrimento”. Durante seus exorcismos, as freiras costumavam referir-se ao seu superior como le diable

dévot, o diabo devoto. Partilhavam suas opiniões com os exorcistas. Com exceção de Surin, todos os

outros padres que as assistiam eram céticos. Era em vão que a irmã Jeanne afirmava-lhes que o grande

são José havia adquirido o dom da oração mental, e que ela declarava com modéstia ter sido “elevada

pelo Poder Divino a um grau de contemplação por meio do qual recebia grandes revelações e Nosso

Senhor comunicava-Se com sua alma de maneira muito particular e especial”. Em vez de se prostrarem

diante desse reservatório ambulante de sabedoria divina, os exorcistas lhe diziam que isso era típico da

ilusão a que eram submetidos os possuídos. Tendo de enfrentar tanta dureza de coração, a prioresa só

conseguia se retrair, ou na loucura ou no sótão com seu querido, bom e crédulo padre Surin.

Mas até mesmo o padre Surin era uma provação para ela. Estava disposto a acreditar em tudo que

ela dizia acerca de seus dons extraordinários; mas seus ideais de santidade eram elevados a ponto de

incomodar, e sua opinião sobre o caráter da irmã Jeanne, inquietantemente rebaixada. Confessar-se

orgulhoso e sensual é uma coisa; ouvir essas verdades particulares da boca de outra pessoa é uma

situação completamente diferente. E Surin não se contentava em dizer à irmã Jeanne quais eram seus

pecados; estava sempre tentando corrigi-los. Estava convencido de que a prioresa estava apossada pelos

demônios; mas estava também certo de que os diabos obtinham seu poder através dos próprios defeitos

da vítima. Livrando-se dessas imperfeições, a pessoa se livraria dos demônios. Era portanto necessário,

segundo Surin, “atacar o cavalo para derrubar o cavaleiro”. Contudo, o cavalo não gostou nem um pouco

de ser atacado. Assim, embora a irmã Jeanne houvesse resolvido “chegar a Deus através da perfeição”,

embora já se visse como a uma santa e se sentisse magoada quando as outras pessoas só viam a

inconsciente (ou talvez até bastante consciente) comediante, descobrira que o processo de santificação

era extremamente penoso e difícil. Surin a encarava seriamente como uma extática — e aquilo era

gratificante; era tudo que desejava. Mas, infelizmente para a prioresa, ele a levava ainda mais a sério

como uma penitente e uma ascética. Quando se tornava muito arrogante, ele a repreendia. Quando pedia

por penitências em público — confissão de seu pecado, rebaixamento à condição de uma irmã leiga —,

ele insistia que em vez disso praticasse mortificações pequenas, modestas mas incessantes. Quando,

como acontecia algumas vezes, ela representava a grande dama, ele a tratava como se fosse uma lavadora

de pratos. Exasperada, refugiou-se no orgulho raivoso de Leviatã, nos ódios de Behemoth contra Deus, na

bufonaria de Balaão. Em vez de recorrer aos exorcismos que a essas alturas todos os demônios

apreciavam imensamente, Surin ordenou às entidades infestadas que se chicoteassem a si mesmas. E, uma

vez que a prioresa sempre possuía liberdade e desejo autêntico suficientes de se autoaperfeiçoar, dava

seu consentimento, e os demônios tinham de obedecer. “Podemos enfrentar a Igreja”, diziam, “podemos desafiar os padres. Mas não podemos resistir ao desejo desta cadela.” Queixando-se ou blasfemando de

acordo com seus diferentes temperamentos, executavam a disciplina. Leviatã era o que chicoteava mais

forte; Behemoth quase o alcançava. Mas Balaão e principalmente Isacaaron tinham horror ao sofrimento e

dificilmente eram levados a se flagelarem. “Era um espetáculo admirável”, diz Surin, “quando o demônio

da sensualidade infligia a punição.” Os golpes eram leves, mas os gritos eram lancinantes, as lágrimas,

profusas. Os demônios aplicavam castigos menores que a irmã Jeanne em seu estado normal. Um dia foi

preciso uma hora inteira de flagelação para dissipar determinados sintomas psicossomáticos

apresentados por Leviatã; mas na maioria das ocasiões, poucos minutos de autopunição eram suficientes.

O possessor fugia e a irmã Jeanne ficava livre para prosseguir marcha em direção à perfeição.

Era uma marcha enfadonha e, ao menos para a irmã Jeanne, a perfeição tinha um grande defeito:

chamava tão pouca atenção quanto aquelas pequenas mortificações aborrecidas determinadas pelo padre

Surin. A pessoa era levada a um alto grau de contemplação, e honrada com comunicações confidenciais

recebidas do alto. Mas o que havia para ser mostrado disso? Absolutamente nada. Podia-se apenas

contar a eles a respeito das graças recebidas e suas respostas eram um menear de cabeças ou um encolher

de ombros. E quando você se comportava da forma como o faria a santa Madre Teresa, eles ou caíam em

gargalhadas ou tinham um acesso de raiva e chamavam-na de hipócrita.

Milagres diabólicos já não eram mais possíveis, porque a irmã Jeanne já havia deixado de ser a

rainha das endemoniadas e naquela ocasião só aspirava à sua canonização imediata. O primeiro de seus

milagres divinos aconteceu em fevereiro de 1635. Um dia Isacaaron confessou que três feiticeiros

anônimos, dois de Loudun e um de Paris, tinham se apossado de três hóstias consagradas que pretendiam

queimar. Surin ordenou imediatamente a Isacaaron que fosse e pegasse as hóstias que estavam escondidas

sob um colchão em Paris. Isacaaron desapareceu e não voltou. Balaão foi então enviado em seu auxílio,

recusou-se obstinadamente mas, com a ajuda do anjo da guarda de Surin, foi finalmente forçado a

obedecer. A ordem era que as hóstias deveriam aparecer durante o exorcismo depois do jantar do dia

seguinte. No momento determinado, Balaão e Isacaaron apareceram e, após muitas contorções do corpo

da prioresa, anunciaram que as hóstias estavam em um nicho acima do tabernáculo. “Os demônios, então,

fizeram com que o corpo da madre superiora, que era muito pequeno, se estendesse.” Após alongar o

braço ao ponto extremo, introduziu a mão no nicho e retirou uma folha de papel cuidadosamente dobrada

contendo três hóstias.

Surin deu enorme importância a esse lamentavelmente discutível milagre. Na autobiografia da irmã

Jeanne, ele não é nem mencionado. Ela teria ficado envergonhada com a peça que pregara com sucesso

em seu confiante diretor espiritual? Ou fora por que achara o milagre pouco satisfatório? Na verdade, ela

tivera o principal papel no caso; contudo, este não era fundamentalmente seu. O que precisava era de um

milagre que só a ela coubesse, e no outono do mesmo ano conseguiu finalmente o que queria.

Perto do fim de outubro, cedendo à pressão da opinião geral dentro da ordem, o provincial de

Aquitânia mandou que Surin voltasse a Bordeaux e seu lugar em Loudun fosse ocupado por um exorcista

menos excêntrico. As notícias se espalharam. Leviatã exultou; mas, quando a irmã Jeanne voltou a si,

ficou muito perturbada. Sentia que alguma coisa tinha de ser feita. Rezou a são José e ficou plenamente

convicta de “que Deus nos ajudaria e esse demônio arrogante seria humilhado”. Depois disso ficou

doente de cama por três ou quatro dias; então sentiu-se suficientemente bem para pedir para ser exorcizada. “Aconteceu que naquele dia (era 5 de novembro) muitas pessoas ilustres estavam presentes à

igreja para assistir aos exorcismos; isso acontecera através de uma especial providência de Deus.”

(Quando se tratava de personalidades muito importantes, a regra era atribuir-se a especiais providências

de Deus. Era sempre na presença da nobreza que os diabos faziam suas maiores proezas.)

O exorcismo começou e “Leviatã apareceu de forma bastante extraordinária, gabando-se de que

tinha triunfado sobre o ministro da Igreja”. Surin contra-atacou ordenando-lhe adorar o Santíssimo

Sacramento. Começaram os rugidos e convulsões habituais. Então “Deus, na sua mercê, concedeu-nos

mais do que ousávamos esperar”. Leviatã prostrou-se — ou, para ser mais explícito, prostrou a irmã

Jeanne aos pés do exorcista. Reconheceu que havia conspirado contra a honra de Surin e pediu seu

perdão; então, após um último paroxismo, abandonou o corpo da prioresa — para sempre. Foi um triunfo

para Surin e a afirmação de seu método. Impressionados, os outros exorcistas mudaram sua postura e o

provincial deu-lhe outra chance. A irmã Jeanne conseguira o que queria e, ao fazer isso, demonstrou que,

embora estivesse possuída pelos demônios, estes também estavam até certo ponto possuídos por ela. Eles

tinham poder para fazê-la portar-se como uma louca; mas, quando resolveu usar seus recursos, descobriu

que tinha o poder de fazê-los se comportarem como se não existissem.

Após a partida de Leviatã, uma cruz sangrenta surgiu na testa da prioresa e ali permaneceu,

perfeitamente visível durante três semanas. Isso era bom; mas algo muito melhor viria depois. Balaão

então declarou estar pronto para partir e prometeu que antes de ir embora escreveria seu nome na mão

esquerda da prioresa, onde permaneceria até a morte dela. A perspectiva de ser marcada indelevelmente

com a assinatura de um espírito bufão não agradou à irmã Jeanne. Como seria melhor se o demônio fosse

coagido a escrever o nome, digamos, de são José! A conselho de Surin, recebeu uma série de nove

comunhões consecutivas em homenagem ao santo. Balaão fez tudo que pôde a fim de interromper a

novena. Mas nem a doença, nem a confusão mental foram de valia; a prioresa prosseguiu lutando. Certa

manhã, pouco antes da hora da missa, Balaão e Behemoth — bufonada e blasfêmia — penetraram em sua

cabeça e estabeleceram tamanha confusão e inquietação que, embora soubesse bem que estava agindo

errado, não pôde resistir a um impulso alucinado e precipitou-se para o refeitório. Lá “tomei meu café da

manhã com tamanha intemperança que comi, só nesta refeição, a quantidade que mais de três pessoas

famintas poderiam ter comido num dia inteiro”. A comunhão agora estava fora de cogitação. Tomada de

desespero, a irmã Jeanne apelou a Surin para que a auxiliasse. Ele colocou sua estola e tomou as medidas

necessárias. “Que o demônio regresse à minha cabeça e em seguida me faça vomitar com tal abundância

que chegue quase aos limites do impossível.” Balaão depois jurou que o estômago estava completamente

vazio, e o padre Surin concluiu que ela poderia receber a comunhão com segurança. “E então prossegui

com minha novena até o fim.”

A 29 de novembro o espírito de bufonaria finalmente partiu. Entre os espectadores havia nessa

ocasião dois ingleses — Walter Montague, filho do primeiro conde de Manchester e católico recém-

convertido, que, como todos em sua situação, queria acreditar em tudo, e seu jovem amigo e protegido,

Thomas Killigrew, futuro dramaturgo. Poucos dias depois do evento, Killigrew escreveu uma longa carta

a um amigo na Inglaterra descrevendo tudo o que vira em Loudun.[94] A experiência, diz, tinha ido “além

de suas expectativas”. Atravessando o convento da igreja de capela em capela, havia visto, no primeiro

dia da visita, quatro ou cinco das possessas, tranquilamente ajoelhadas em oração, cada uma com seu exorcista ajoelhado atrás de si e segurando uma extremidade de uma corda cuja outra extremidade estava

amarrada ao pescoço da freira. Pequenas cruzes estavam fixadas a essa corda, que servia como uma

espécie de coleira para controlar um pouco os frenesis dos demônios. Naquele momento, entretanto, tudo

era paz e silêncio, e só o que vi foi gente ajoelhada”. No decorrer de mais meia hora, duas freiras

começaram a ficar inquietas. Uma delas atirou-se à garganta de um frade; a outra botou a língua de fora,

atirou-se ao pescoço de seu exorcista e tentou beijá-lo. Enquanto isso, entre as grades que separavam a

igreja do convento, veio o som de um uivo. Depois disso o jovem foi chamado por Walter Montague para

testemunhar uma demonstração diabólica de leitura de pensamento. Os demônios obtiveram sucesso com

o convertido mas não conseguiram nada com Killigrew. Nos intervalos desse espetáculo ofereceram

orações a Calvino e soltaram imprecações contra a Igreja de Roma. Quando um dos demônios partiu, os

turistas perguntaram onde ele tinha ido. A resposta das freiras foi tão inequívoca que o editor do

European Magazine não poderia publicá-la.

 

A seguir veio o exorcista da bela e pequenina irmã Agnes. O relato de Killigrew acerca disso já foi

praticamente feito num capítulo anterior. A visão dessa deliciosa criatura sendo agarrada por um par de

fortes camponeses, enquanto seu frade primeiro punha o pé triunfantemente sobre seu peito, depois sobre

a alva garganta, deixava nosso jovem cavalheiro tomado de horror e desgosto.

No dia seguinte começou tudo de novo; mas desta vez a exibição terminou de uma forma mais

interessante e menos revoltante. “Terminadas as orações”, escreve Killigrew, “ela (a prioresa) voltou-se

para o frade (Surin), que colocou um cordão com uma série de cruzes em torno de seu pescoço, e aí atou-

o com três nós. Ela ainda permanecia ajoelhada e não parou de rezar até que o cordão fosse amarrado;

mas então levantou-se e desembaraçou-se de seu rosário; e, após fazer uma reverência em direção ao

altar, dirigiu-se a um assento tipo divã com uma extremidade feita propositadamente para a prática do

exorcismo, dos quais havia diversos na capela.” (Teria sido interessante saber se algum desses ancestrais

de nosso sofá de psicanálise ainda existe.) “A frente do assento dava para o altar; ela dirigiu-se para ali

com tamanha humildade que se poderia pensar que sua paciência teria mérito suficiente para expulsar os

demônios, dispensando-se as orações dos padres. Chegando ao seu lugar, deitou-se, e ajudou o padre a

amarrá-la ao divã com duas cordas, uma em torno de sua cintura, outra em torno das coxas e pernas.

Quando já amarrada, vendo o padre com a caixa que continha o sacramento, suspirou e estremeceu com a

consciência das torturas a que seria submetida. Não demonstrou nenhuma humildade ou paciência

especial, pois é assim que todas agem nas mesmas circunstâncias. Quando esse exorcismo foi realizado,

outra das possessas solicitou um padre e sentou-se em seu divã, deitou-se e amarrou-se da mesma forma

que a primeira. É estranho observar com quanta modéstia elas se dirigem para o altar e como se

movimentam nos mosteiros. Suas fisionomias e aparências modestas revelam o que são (solteironas

devotadas à religião). Esta freira, quando se iniciou o exorcismo, jazia como se adormecida...” Surin

então começou a trabalhar com a prioresa. Em poucos minutos Balaão fez sua entrada. Houve contorções

e convulsões, blasfêmias abomináveis, caretas assustadoras. O ventre da irmã Jeanne inflou-se de

repente, até parecer o de uma mulher em adiantado estado de gestação; depois os seios incharam na

mesma proporção da barriga. O exorcista aplicou relíquias a cada parte afetada e a inchação subsistia.

Killigrew então adiantou-se e tocou sua mão — estava fria; tomou seu pulso — era calmo e compassado. A prioresa empurrou-o para o lado e começou a arrancar sua coifa. Em poucos instantes a cabeça toda

raspada estava à vista. Ela revirou os olhos, pôs a língua de fora. Esta apresentava-se prodigiosamente

inchada, negra e era de uma textura espessa e acidentada como couro marroquino. Surin então

desamarrou-a e ordenou a Balaão que adorasse ao Sacramento. A irmã Jeanne escorregou pelas costas do

assento e caiu no chão. Balaão resistiu teimosamente por um longo tempo; mas finalmente foi obrigado a

executar o ato de adoração que esperavam dele. “Então”, escreve Killigrew, “enquanto estava deitada de

costas, curvou a cintura como uma acrobata e seguiu então, pulando nos calcanhares, a cabeça raspada,

atrás do padre por toda a capela. E muitas outras atitudes anormais, além de qualquer coisa que eu já

houvesse visto, ou achasse possível para qualquer homem ou mulher fazer. Nem era tão somente um

movimento súbito que findava; mas algo contínuo que ela fez durante mais de uma hora; e nem por isso

ofegante ou suada com todos aqueles movimentos que executava.” Durante todo esse tempo, a língua

mantinha-se pendurada para fora, “inchando até atingir um tamanho inacreditável, e nunca dentro de sua

boca desde quando começou o primeiro momento do acesso; jamais a vi contraí-la por sequer um

instante. Então ouvi-a, após um sobressalto e um guincho agudo que parecia havê-la fragmentado, dizer

uma palavra, que foi ‘José’. A essa, palavra todos os padres levantaram-se e gritaram, ‘Aquele é o sinal,

procurem pela marca!’. Ao que um deles, vendo-a erguer o braço, começou a procurá-lo. Eu e o sr.

Montague fizemos o mesmo mais minuciosamente; e sobre sua mão vi uma cor rósea se estendendo por

uma polegada ao longo de sua veia, e sobre ela uma porção de pintinhas vermelhas que delineavam uma

palavra distinta; e era a mesma que ela falou, ‘José’. Segundo o jesuíta, essa marca fora a que o diabo

prometera fazer antes de partir.” Minutas dos acontecimentos foram escritas e assinadas pelos exorcistas

oficiantes. Montague então acrescentou um post scriptum em inglês, assinado por ele e Killigrew. E

assim, conclui alegremente a carta, “eu espero que me acreditará ou que pelo menos diga que existem

maiores mentirosos que eu, embora não haja nenhum que seja seu mais humilde servidor que — Thomas

Killigrew”.

Ao nome de são José foram acrescentados, no devido tempo, aqueles de Jesus, de Maria e de são

Francisco de Sales. A princípio de um vermelho vivo, esses nomes tendiam a esmaecer após uma ou duas

semanas, mas eram então renovados pelo anjo da guarda da irmã Jeanne. O processo foi repetido a

intervalos irregulares do inverno de 1635, até o dia de são João do ano de 1662. Após essa data os

nomes desapareceram completamente, “por razão desconhecida”, escreve Surin, “a não ser que, para

livrar-se da contínua presença dos inoportunos que desejavam tirá-la da contemplação de Nosso Senhor,

a madre superiora tenha rezado insistentemente para se ver livre de tal aflição”.

Surin, junto com outros colegas e a maioria do público em geral, acreditava que essa forma insólita

de estigmatização era uma graça extraordinária de Deus. Entre seus contemporâneos, havia um ceticismo

generalizado. Essas pessoas não tinham acreditado na realidade da possessão, e agora não acreditavam

na origem divina dos nomes. Alguns, como John Maitland, eram da opinião de que eles tinham sido

gravados na pele com um ácido; outros, que podiam ter sido traçados na superfície com goma colorida.

Muitos destacavam o fato de que, em vez de serem distribuídos em ambas as mãos, todos os nomes foram

amontoados na esquerda — onde seria mais fácil para uma pessoa destra escrevê-los.

Em sua edição da autobiografia da irmã Jeanne, os doutores Gabriel Legué e Gilles de la Tourette,

ambos alunos de Charcot, tendiam a acreditar que a escrita sobre a mão fora produzida por autossugestão, e defendiam seu ponto de vista citando vários exemplos modernos de estigmatização

histérica. Poderia-se acrescentar que na maioria dos casos de histeria a pele torna-se especialmente

sensível. O leve arrastar de uma unha sobre sua superfície provoca um vergão vermelho que persiste por

várias horas.

Autossugestão, fraude deliberada ou uma mistura de ambas, estamos livres para escolher a

explicação de nossa preferência. Quanto a mim, sinto-me mais inclinado para a terceira hipótese. O

estigma era suficientemente espontâneo para parecer à própria Jeanne verdadeiramente milagroso. E, se

era genuinamente milagroso, não podia haver nenhum mal em melhorar o fenômeno a fim de torná-lo mais

edificante para o público e mais meritório para si mesma. Seus nomes sagrados eram como os romances

de sir Walter Scott — baseados em fatos, mas consideravelmente devedores à imaginação e à arte.

Agora a irmã Jeanne possuía seu próprio milagre particular. Não era apenas particular, mas crônico.

Renovados por seu anjo da guarda, os nomes sagrados estavam sempre presentes e podiam ser mostrados

a qualquer momento aos visitantes ilustres ou à multidão dos espectadores comuns. Ela era agora uma

relíquia ambulante.

Isacaaron desapareceu no dia 7 de janeiro de 1636. Só restou Behemoth; mas este demônio da

blasfêmia era mais perigoso do que todos os outros juntos. Exorcismos, penitências, oração mental —

nada adiantava. A religião fora impingida a uma mente pouco disposta e indisciplinada, e a reação

indutiva daquela mente tinha sido uma irreligiosidade tão violenta e chocante que a personalidade normal

sentira-se forçada a se dissociar dessa negação a cada coisa que devia reverenciar. A negação tornou-se

“outra pessoa”, um espírito mau que levava uma existência autônoma na mente, causando confusão interna

e escândalo externo. Surin lutou contra Behemoth durante mais dez meses; então em outubro ele sucumbiu

completamente. O provincial chamou-o de volta a Bordeaux, e outro jesuíta assumiu a orientação da

prioresa.

O padre Ressès tinha uma grande crença no que podemos denominar de exorcismo “direto”. Estava

convencido, diz a irmã Jeanne, de que aqueles que assistiam aos exorcismos eram grandemente

beneficiados pela visão de demônios adorando o Sacramento. Surin havia tentado “derrubar o cavaleiro

atacando o cavalo”. Ressès atacou o cavaleiro diretamente e em público — e atacou-o sem se importar

com os sentimentos do cavalo e sem nenhuma tentativa de modificar seu comportamento.

“Certo dia”, escreve a prioresa, “durante uma reunião de pessoas famosas, o bom padre planejou

executar alguns exorcismos para o benefício espiritual dos presentes”. A prioresa disse a seu diretor

espiritual que não estava se sentindo bem e que os exorcismos poderiam fazê-la piorar. “Mas o piedoso

padre, que estava ansioso por executar os exorcismos, disse-me para tomar coragem e confiar em Deus;

então começou seu trabalho.” A irmã Jeanne foi obrigada a mostrar todas as suas proezas, em razão do

que caiu de cama com febre alta e uma dor do lado do corpo. O dr. Fanton, um huguenote, mas o melhor

médico da cidade, foi chamado. Ele lhe aplicou três sangrias e medicou-a. Foi tão eficiente que houve

“uma evacuação e um fluxo sanguíneo que durou sete ou oito dias”. Ela sentiu-se melhor; então, poucos

dias depois, sentiu-se mal outra vez. “O padre Ressès achou recomendável reiniciar os exorcismos; após

o que tive problemas de náuseas e vômitos violentos.” A isso seguiram-se febre, dor do lado e escarros

de sangue. Fanton foi chamado outra vez, diagnosticou pleurisia, aplicou-lhe uma sangria diária durante

uma semana e ministrou-lhe quatro clisteres. Após o que informou que sua doença era mortal. Naquela noite a irmã Jeanne ouviu uma voz interior. Ela disse-lhe que ela não ia morrer, mas que Deus a colocaria

numa situação extremamente perigosa, com o objetivo de mais gloriosamente manifestar seu poder,

curando-a quando já estivesse às portas da morte. Por dois dias ela pareceu ficar cada vez pior e mais

fraca, tanto que no dia 7 de fevereiro lhe ministraram a extrema-unção. Depois chamaram o médico e,

enquanto esperava por sua chegada, a irmã Jeanne pronunciou a seguinte oração: “Senhor, sempre pensei

que desejásseis demonstrar algum sinal extraordinário de Vosso poder curando-me desta doença; se for

esse o caso, reduza-me a tal estado que, quando o doutor me olhar, acredite que já estou desenganada.” O

dr. Fanton veio e declarou que ela tinha apenas uma ou duas horas de vida. Correndo de volta para casa,

escreveu um relatório para Laubardemont, que estava então em Paris. O pulso, escreveu, estava

descontrolado, o estômago, dilatado; o estado de fraqueza era tal, que nenhum remédio, nem mesmo um

clister poderia produzir algum efeito. Entretanto, ministrara-lhe um pequeno supositório na esperança de

que pudesse aliviar uma “opressão tão grande que não podia ser descrita”. Não que esse paliativo

pudesse fazer algum efeito real; porque a paciente estava in extremis. Às seis e meia, a irmã Jeanne caiu

numa letargia e teve uma visão de seu anjo da guarda sob a forma de um jovem de dezoito anos

extraordinariamente belo, com longos cabelos louros. O anjo, contou-nos Surin, era a imagem viva do

duque de Beaufort, filho de César de Vendôme, e neto de Henrique iv e Gabrielle d’Estrées. Esse

príncipe estivera recentemente em Loudoun para ver os demônios, e suas mechas douradas de cabelos

que caíam até os ombros devem ter causado uma profunda impressão na prioresa. Depois do anjo veio

são José, que colocou sua mão sobre o lado direito da irmã Jeanne, no ponto onde ela sentia a dor mais

forte, e ungiu-a com um certo tipo de óleo. “Após o que recobrei os sentidos e fiquei completamente

curada.”

Foi outro milagre. Mais uma vez a irmã Jeanne tinha demonstrado que ao menos até certo ponto ela

possuía seus possessores. Ela havia desejado e sugerido a expulsão de Leviatã e, agora, o

desaparecimento de todos os sintomas de uma doença psicossomática aguda e aparentemente fatal.

Ela saiu da cama, vestiu-se, desceu para a capela e juntou-se a suas irmãs que cantavam o Te Deum.

O dr. Fanton foi chamado outra vez e, após ser informado do que acontecera, observou que o poder de

Deus é maior que o de nossos remédios. “Contudo”, escreve a prioresa, “não quis se converter e

posteriormente negou-se a nos dar atendimento.”

Pobre dr. Fanton! Após o regresso de Laubardemont a Loudun, foi chamado perante uma comissão de

magistrados e solicitado a assinar uma declaração no sentido de que a recuperação de saúde da paciente

tinha sido milagrosa. Ele recusou-se. Pressionado a explicar as razões de sua recusa, respondeu que uma

mudança repentina de uma doença mortal para a mais perfeita saúde poderia facilmente ter acontecido

por obra da natureza. “Por motivo de um fluxo considerável de humor, ou por uma excreção

imperceptível através dos poros da pele, ou talvez pela transferência do humor do lugar onde causou

aqueles distúrbios para outra parte menos importante. Além disso, os sintomas alarmantes, produzidos

por um humor localizado em determinado lugar, podem ser aliviados sem necessidade de deslocamento;

isto é, através da diminuição do humor quando ele é suavizado pela natureza ou pela investida de um

novo humor que, sendo menos violento, amortece os efeitos destruidores do primeiro.” O dr. Fanton

acrescenta que “excreção manifesta é a que flui pela urina e pelos fluxos dos intestinos, ou por vômitos,

suores ou perdas de sangue; e que a excreção inconsciente acontece quando os órgãos expelem inconscientemente; esses últimos tipos de excreções são mais frequentes entre pacientes que produzem

humores belicosos, especialmente bile, sem ver os sinais que precedem tais excreções, mesmo que seja

em momento de crise e de descarga da natureza. É óbvio que, na cura das doenças, as menores

quantidades de humor podem abandonar o corpo quando aqueles foram previamente expelidos pelos

remédios, que eliminam não só as causas presumíveis das doenças, mas também as causas a elas

associadas. Ao que podemos acrescentar que, em seus deslocamentos, os humores observam uma certa

regularidade de tempo.” Molière, podemos perceber, não inventou nada: apenas registrou.

Passaram-se dois dias. Então a prioresa lembrou-se de repente que não havia limpado ainda a unção

que a havia curado, de forma que ainda devia ter alguma coisa sobre sua túnica. Na presença da vice-

prioresa, ela retirou o hábito. “Nós duas sentimos um admirável odor; retirei minha túnica, que então

cortamos na cintura. Nela estavam cinco gotas desse divino bálsamo, que exalava um magnífico

perfume.”

“Onde estão suas jovens senhoras?”, pergunta Gorgibus no início de As preciosas ridículas. “Em

seus quartos”, diz Marotte. “O que elas estão fazendo?” “ Fazendo brilho para os lábios.” Era uma época

em que cada mulher que queria estar na moda tinha de ser sua própria Elizabeth Arden. Receitas de

cremes faciais e loções para as mãos, de roupas e perfumes, eram guardadas como armas secretas ou

trocadas generosamente entre amigas íntimas. Durante sua juventude na casa paterna, e até mesmo depois

de ter tomado o hábito, a irmã Jeanne havia sido uma fabricante amadora famosa de cosméticos e

farmacêuticos. A unção de são José veio, pelo que podemos supor, de uma fonte bastante terrena. Mas,

enquanto isso, lá estavam as cinco gotas para todos verem. “É inacreditável”, escreve a prioresa, “quão

grande era a devoção das pessoas em relação a essa unção abençoada, e quantos milagres Deus realizou

por meio dela.”

A irmã Jeanne tinha agora dois prodígios de primeira classe a seu crédito, com uma mão

estigmatizada e uma túnica perfumada como testemunhas eternas das graças extraordinárias que ela havia

recebido. Mas isso ainda não era suficiente. Sentia que em Loudun seu esplendor ficava um tanto

escondido. Havia na verdade os turistas, os príncipes visitantes, lordes e prelados. Mas pensemos nos

milhões que jamais fizeram a peregrinação! Pensemos no rei e na rainha! Em Sua Eminência! Em todos os

duques e marqueses, todos os marechais de França, todos os legados católicos, os ministros

plenipotenciários e extraordinários, os doutores da Sorbonne, os decanos, os abades, os bispos e

arcebispos! Não devia a esses ser dada a oportunidade de admirar as maravilhas, de ver e ouvir a

humilde receptora de tão extraordinárias graças?

Vinda de sua própria boca, a sugestão poderia parecer presunçosa, e assim foi Behemot quem

primeiro mencionou o assunto. Quando, após os exorcismos mais ardorosos, o padre Ressès perguntou-

lhe por que resistia tão teimosamente, o diabo replicou que jamais deixaria o corpo da prioresa até que

aquele corpo fizesse uma peregrinação ao túmulo de são Francisco de Sales em Annecy, na Saboia. Os

exorcismos se sucediam. Sob uma torrente de anátemas, Behemot contentava-se em sorrir. Ao seu

primeiro ultimatum, acrescentou então outra condição: o padre Surin deveria ser chamado de volta — de

outro modo, nem mesmo a viagem a Annecy seria de alguma valia.

Em meados de junho, Surin estava de volta a Loudun. Entretanto, a peregrinação provou ser mais

difícil de conseguir. Vitelleschi, o geral da ordem, não gostou da ideia de um de seus jesuítas passeando pela França com uma freira; e o bispo de Poitiers, por sua vez, não gostava da ideia de uma de suas

freiras exibindo-se pelas ruas com um jesuíta. Além disso, havia a questão do dinheiro. O tesouro real

estava vazio, como de costume. Com os subsídios das freiras e os salários dos exorcistas, a possessão já

havia saído bastante dispendiosa. Não restava nada para os passeios até a Saboia. Behemoth manteve-se

firme. Como uma grande concessão, concordou em deixar Loudun — mas sob a condição de que a irmã

Jeanne e Surin tivessem a permissão de fazer o juramento de ir a Annecy mais tarde. Afinal, conseguiu o

que queria. Surin e a irmã Jeanne tiveram licença para se encontrar no túmulo de são Francisco, mas

teriam de ir e voltar por caminhos diferentes. Os votos foram feitos e, pouco tempo depois, no dia 15 de

outubro, Behemoth partiu. A irmã Jeanne estava livre. Duas semanas mais tarde Surin regressou a

Bordeaux. Na primavera seguinte, o padre Tranquille morreu num paroxismo de delírio demoníaco. O

Tesouro deixou de pagar os salários dos exorcistas que restavam e foram todos chamados a voltar às suas

diferentes comunidades religiosas. Abandonados a si mesmos, os diabos que haviam permanecido logo

debandaram. Após seis anos de luta incessante, a Igreja Militante abandonou a disputa. Seus inimigos

desapareceram imediatamente. A longa orgia terminara. Se não houvesse exorcistas, ela jamais teria

começado.