Os Fantasmas do Chapeleiro

Georges Simenon · Capítulo 9 de 11

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Os Fantasmas do Chapeleiro

Capítulo 8

MAIS UMA VEZ DEIXOU DE DIZER, de m anhã, voltado para o outro lado da rua:

— Bom -dia, Kachoudas.

O alfaiate não estava m elhor com certeza. Em bora as m eninas tivessem saído para a escola, Esther, a m ais velha, não parecia disposta a ir para a loj a.

Às oito e m eia ainda não se vestira e dispunha-se a arrum ar a casa, provavelm ente enquanto a m ãe descansava.

Era dia da feira. Ouvia-se barulho para os lados do m ercado coberto e na rua do Minage algum as velhas, sem pre as m esm as, nos m esm os lugares, sentadas em banquinhos dobráveis, espalhavam cestas de legum es, castanhas e aves vivas.

Quando Valentin chegou, o Sr. Labbé acabava de varrer a loj a, j ogando pela porta aberta o lixo para a rua. O em pregado não notou nada de anorm al.

O patrão disse com sua voz grave — tinha um a bela voz: — Bom -dia, Valentin. Com o vai? E fixou-o interessado.

— Acho que estou m elhor, Sr. Labbé — respondeu o rapaz, fungando.

— Tossi um pouco hoj e de m anhã e m inha m ãe disse que é porque o catarro está se desprendendo pela garganta.

Tudo parecia em ordem na casa. A estufa a gás estava acesa. O Sr. Labbé parecia calm o, benévolo, o que acontecia de vez em quando. Nesses dias m ostrava-se paternal para com Valentin, falava com voz m ais m acia e às vezes em penhava-se em fazê-lo rir.

Estava bem barbeado, com o sem pre, vestia cam isa lim pa, sapatos engraxados, gravata com nó caprichado.

— Estou preocupado, Valentin. Ontem à noite, quando m e achava com a senhora, ouvi Louise sair. Pensei que tinha ido ver algum nam orado na esquina e esperei para colocar o ferrolho na porta. Ela não voltou.

— Acha que foi estrangulada?

— Vou dar parte à polícia, de qualquer m aneira.

Mais um a vez fazia o que era preciso. Ao contrário de sua expectativa, não estava de rosto inchado com o na véspera, nem de olhar fugidio. As m ãos não trem iam . Sentia-se calm o e grave, sem inquietação, o que não aconteceria se tivesse dorm ido m al.

Pois tinha dorm ido. Ao sair do banheiro sentara-se na poltrona, diante da lareira apagada, e nunca, em toda a sua vida, sentira-se tão vazio. Não acabava literalm ente de esvaziar-se de todas as m aneiras possíveis?

Não olhava para nada, não pensava em nada e m enos de cinco m inutos depois m ergulhava num sono sem sonhos. Ao abrir os olhos, o relógio da m esinha de cabeceira m arcava a m esm a hora que nos outros dias quando despertava, e ele próprio sentia-se com o o viam nesse m om ento — calm o, m uito calm o, gestos um pouco lentos, um grande cansaço íntim o, m as tam bém um im enso alívio.

Seu raciocínio fazia-se com naturalidade. Precisava refletir, pôr tudo em dia, m as não levava coisa algum a para o lado trágico.

Tarde dem ais para transportar o corpo até a adega. Aliás, não se sentia com ânim o para deslocar um m onte de carvão. Puxou Louise pelos pés para o interior do quarto, em purrando-a para baixo da cam a de Mathilde. Era supérfluo escondê-la. Se alguém entrasse no quarto, tudo seria obrigatoriam ente descoberto. A em pregada não tinha im portância. Mathilde, sim . Contudo, preferia não ver a m oça gorda toda vez que precisasse subir.

Acendeu a lareira, fez, com o nas outras m anhãs, tudo o que tinha a fazer e, além disso, preparou o café. Chegou m esm o a falar enquanto andava pelo quarto, em bora j á não fosse necessário.

A sala em frente continuava ilum inada. A Sra. Kachoudas, que não se deitara durante a noite, preparava com gestos lentos o café da m anhã.

O que m ais o afetou foi entrar no quarto da em pregada, m as era indispensável. A cam a estava desarrum ada, os lençóis m anchados. Precisou arrum á-la. O pente estava cheio de cabelos. O cheiro repugnava-o. A roupa de baixo, os vestidos, espalhavam -se por toda parte, e a um canto viam -se duas m alas baratas.

Melhor seria não fingir que ela havia levado suas coisas. Bastava retirar a roupa que usara na véspera, sob condição de não esquecer coisa algum a — m eias, sapatos, calça, sutiã, com binação, vestido. O casaco tam bém , pois com o frio que fazia não sairia sem ele.

Quase estragou tudo. Ia descer quando, por m ilagre, lem brou-se dos gram pos. Foi o que m ais o repugnou tocar. Atirou-os no vaso, com o fazia com a com ida de Mathilde. Quanto à roupa, lim itou-se a enfiá-la debaixo da cam a, j unto do corpo.

Teria esquecido algum a coisa? Voltou ao quarto de Louise, abriu a gaveta da m esinha de cabeceira e encontrou um a caixa coberta de conchas.

Ali guardava os anéis e pulseiras com prados na feira, dois ou três cartões-postais, um a chave, sem dúvida de um a das m alas, m oedas, e o retrato de um rapaz de cabelos encaracolados, rebeldes, um cam ponês endom ingado que se deixara fotografar num avião pintado em cartolina. Não tocou nele.

Era só. Quanto ao m ais precisava correr o risco, m as estava confiante. O que m ais o preocupava era a doença de Kachoudas. Por duas vezes surpreendera sua m ulher na j anela em frente, olhando na direção da chapelaria.

O alfaiate teria dito qualquer coisa? E se tivesse perguntado sim plesm ente: — Que está fazendo o Sr. Labbé?

Estaria delirando? E sentindo-se à m orte não m andaria cham ar um padre?

Sentiu vontade de vê-lo. Era quase im possível. O gesto não se enquadrava nas suas relações oficiais.

Mas a ideia perm aneceu-lhe na cabeça.

— Volto dentro de m eia hora provavelm ente, Valentin. Acho que m inha m ulher não vai cham ar.

— Sim , senhor.

Vestiu o sobretudo, aj ustou o chapéu e quase destruiu a corda do violoncelo. Pensou tam bém no barbante que, do arm ário, em itia a batida no andar de cim a. Para quê? Se com eçassem a revistar a casa chegariam à verdade.

O sol estava quase quente e a cidade parecia m uito alegre nessa m anhã.

Não havia bebido e m al sentira vontade.

Atravessou a praça de Arm as, enveredou pela rua Réaum ur e chegou ao prédio onde estava instalado o gabinete de Pigeac. Não era um a verdadeira sede adm inistrativa, e sim um a vasta residência particular, m uito bonita, recentem ente transform ada em prédio de escritórios. No térreo havia os postos do seguro social onde trabalhavam principalm ente m oças.

Subiu ao prim eiro pavim ento. Encontrou um a porta aberta. Três hom ens se agitavam em espessa fum aceira. A estufa tinha enguiçado e j ogava toda a fum aça para a sala. Fora preciso abrir as j anelas que davam para o pátio.

Pigeac, de sobretudo e chapéu na cabeça, aguardava sentado na borda da escrivaninha.

— Olá! O chapeleiro!

— Bom -dia, Sr. Pigeac.

Um a segunda porta aberta dava para o banheiro. Haviam deixado a banheira, lim itando-se a instalar prateleiras, que estavam cobertas de processos.

O Sr. Labbé tossiu por causa da fum aça. Pigeac tossiu tam bém e seus dois inspetores lutavam com a estufa.

— Desculpe recebê-lo assim . Há quinze dias pedi que desentupissem a cham iné e ninguém apareceu. Vam os para o corredor?

A cena nada tinha de im pressionante, m uito ao contrário.

— Que bons ventos o trazem , Sr. Labbé?

— Tem o, sr. com issário, que os ventos sej am m aus. Para falar a verdade, não tenho certeza. Talvez estej a m e assustando sem m otivo.

Sentia-se tão seguro que cunhava frases.

— Não devo ser o prim eiro a incom odá-lo inutilm ente depois dos últim os acontecim entos. Tenho um a criada, com o todo m undo, um a cam ponesa de Charron. Deve estar a par do estado de saúde de m inha m ulher, que há anos não quer ver ninguém e vive confinada no quarto. Até algum tem po atrás, por esse m otivo, a criada dorm ia fora, num quarto que eu alugava na praça do m ercado.

Pigeac escutava, fixando-o com atenção, até m esm o com certa insistência, m as era assim que fixava todo m undo, j ulgando assum ir m aior im portância. Ouvia-se o tagarelar das funcionárias no andar de baixo, nas salas do seguro social. A cena nada tinha de sério.

— Desde que os crim es com eçaram a aterrorizar a população, Louise m e pediu perm issão para dorm ir em casa, a fim de não sair depois do anoitecer.

Apesar dos protestos de m inha m ulher, fui obrigado a concordar, caso contrário ela deixaria o em prego.

— Há quanto tem po está dorm indo na sua casa?

— Cerca de três sem anas. Se bem m e lem bro foi logo depois da m orte da Sra. Cuj as.

— Ela dorm e no m esm o pavim ento que o senhor?

— Sim , no prim eiro andar, num quartinho que dá para o pátio. Ontem à noite, cerca das nove horas, não sei exatam ente, pois estava cuidando de m inha m ulher, ouvia-a descendo a escada. Pensei que tinha esquecido qualquer coisa na cozinha, ou queria preparar um a bebida quente.

— Isso acontecia sem pre?

— Não. Foi por isso, aliás, que acabei m e inquietando. Desci tam bém .

Não a encontrei. Constatei que o ferrolho da porta estava puxado e com preendi que ela tinha saído, pois sem pre corro o ferrolho antes de subir.

— E não voltou?

— Não. Nem à noite, nem de m anhã. Esperei até tarde. Hoj e encontrei o quarto dela com o estava ontem . A cam a continuava arrum ada.

— Ela levou seus pertences?

— Acho que não. Vi duas m aletas e vestidos no arm ário.

— É m oça séria?

— Nunca tive m otivos de queixa da sua conduta.

— É a prim eira vez que sai de noite?

— Desde que m ora conosco, sim .

— Vou acom panhá-lo.

Pigeac entrou no gabinete ainda cheio de fum aça e disse qualquer coisa aos inspetores. Em seguida fez sinal ao Sr. Labbé para descer a escada na sua frente. Mostrava-se correto, m as frio. Na rua, colocou o chapeleiro à direita, talvez inadvertidam ente.

— Conhece a fam ília?

— Sei apenas que os pais têm um a pequena fazenda em Charron. Ela os visitava todos os dom ingos, saía de m anhã e voltava à noite.

— A que hora?

— Pelo ônibus que chega à praça de Arm as às nove horas. Às nove e cinco, invariavelm ente, entrava em casa.

Passaram pelo Café das Colunas onde Gabriel, que lim pava as vidraças, cum prim entou-os.

Cam inhavam a passadas regulares. Para o Sr. Labbé era um a estranha sensação atravessar a cidade em com panhia do com issário especial.

Precisava m ostrar-se natural, não falar dem ais.

Foi Pigeac quem disse: — Quem sabe a encontrarem os em casa?

— É bem possível. Não fosse o que aconteceu nas últim as sem anas, não o incom odaria.

— Fez bem em m e procurar.

 

Pronto. O m ais im portante era não se preocupar. Tinha noventa chances em cem de que tudo continuaria a correr com a m esm a sim plicidade.

Contudo, ao ver de longe a casa de Kachoudas, o Sr. Labbé teve um a ideia que o aborreceu.

O alfaiate não estava presente para vê-lo, m as sua m ulher poderia m uito bem reparar na chegada dos dois hom ens. Ter-se-ia levantado? Não devia ter descansado m uito tem po. Essa gente não descansa m uito. Esther tam bém poderia reconhecer Pigeac, cuj a foto fora publicada várias vezes no j ornal; além disso, o com issário devia ter entrado na Prisunic. Se alguém dissesse a Kachoudas: — O com issário acaba de entrar na casa do chapeleiro...

Era preciso não esquecer a recom pensa de vinte m il francos. Apesar da febre, o alfaiate se inquietaria. Quem sabe tom aria um a iniciativa?

— Entre, sr. com issário.

Foram im ediatam ente envolvidos pelo calor. O Sr. Labbé estava habituado, assim com o à penum bra que reinava em toda a casa, aos odores.

O odor seria bastante pronunciado para que Pigeac frem isse as narinas?

— Valentin, m eu em pregado. Ele chegou às nove horas, com o sem pre.

Não sabe de nada.

O Sr. Pigeac adiantou-se, m ãos nos bolsos, cigarro colado ao lábio inferior.

— Suponho que queira ver o quarto dela.

O outro não disse nem que sim nem que não. Subiu atrás do chapeleiro a escada em espiral.

— Este é o quarto de m inha m ulher, que não sai há quinze anos.

O Sr. Labbé falava em voz baixa e o com issário im itou-o. Estranho: parecia um tanto enoj ado, com o estaria o chapeleiro, por exem plo, se aspirasse a atm osfera da casa dos Kachoudas.

— Por aqui.

Percorreram o corredor e o Sr. Labbé abriu a porta do quarto da em pregada.

— É aqui. Poderia tê-la instalado no segundo pavim ento, onde há grandes quartos vazios, m as só se tem acesso pelo exterior, o que não seria prático.

O outro olhou em volta, ar im portante, e tirou a m ão do bolso para abrir o arm ário. Não despira o chapéu. Tocou negligente num vestido rosa-bom bom , um a saia de veludo m uito usada, duas blusas brancas penduradas em cabides. Havia no chão um par de sapatos de verniz e, j unto à cam a, no tapete, chinelos deform ados, bons para o lixo.

— Ela não levou seus pertences.

— Com o vê.

Contanto que abrisse a gaveta da m esinha de cabeceira e encontrasse a foto na caixa de conchas! Ele abriu.

— Viu esse rapaz pelas im ediações?

O Sr. Labbé fingiu exam inar o retrato com atenção.

— Confesso que não m e lem bro. Não.

— Sabia que ela tinha nam orado?

— Não. Eu tinha pouco contato com ela. Era m oça de tem peram ento fechado, rabugenta.

— Vou levar a foto.

Enfiou-a na carteira, experim entou a chave nas duas m aletas, m as ela não serviu. Quem sabe era a chave do arm ário de Charron?

— Obrigado, Sr. Labbé. Desceu. Na loj a deteve-se.

— Posso dar um a espiada na cozinha? Essas m oças guardam suas coisas em qualquer lugar.

A sala de j antar, a essa hora, era m ais escura que o restante da casa, e o com issário parecia realm ente enoj ado.

— É aqui? — perguntou, entrando no reduto que servia de cozinha.

Não encontrou coisa algum a.

— Aceita um a bebida? Tenho um excelente vinho branco na adega.

— Obrigado.

Não fez com entários. Era seu gênero. O Sr. Labbé im itou-o. Estava perfeitam ente calm o, perfeitam ente natural.

— Creio que devo avisar a fam ília. Ou o senhor se encarregará disso?

— Qual o sobrenom e dela?

— Chapus. Louise Chapus.

Anotou num caderninho, que fechou com um elástico, e abotoou o sobretudo antes de sair. Só o pobre Valentin m ostrava-se im pressionado.

Quando a porta envidraçada se fechou e viu o com issário afastar-se, perguntou: — Ele acha que ela foi estrangulada?

— Sabe tanto quanto nós.

Dia estranho. Atm osfera clara, leve, crepitante. Contudo, havia com o que um ligeiro véu recobrindo as pessoas e as coisas.

— A senhora não cham ou?

— Não, senhor.

Subiu, não olhou para a cam a sob a qual ainda se encontrava o corpo.

Dirigiu-se à j anela no m om ento exato em que o carro cinza do m édico parava j unto à calçada. A Sra. Kachoudas, que o ouvira chegar, precipitou-se para a escada.

Esther sacudia o irm ãozinho que chorava, apontando com insistência para os fundos da sala e repetindo sem dúvida que ele não devia fazer barulho por causa do pai.

 

A visita foi longa. Pusera-se água para ferver na cozinha, provavelm ente para um a inj eção. Enquanto o m édico saía do quarto e conversava com a Sra. Kachoudas, ela fungava, enxugando os olhos várias vezes com o lenço.

Na escrivaninha o chapeleiro viu as páginas que tinha escrito na noite anterior, pegou-as e rasgou-as, dirigindo-se à lareira para queim á-las.

Valentin, que m orava com a m ãe nos arredores da cidade, trazia habitualm ente o alm oço num a m arm ita, esquentava o café num a pequena cafeteira na estufa da loj a e com ia sozinho nos fundos, quase sem pre lendo um a revista de esportes.

O Sr. Labbé hesitou em se preparar para alm oçar e finalm ente decidiu-se a vestir sobretudo e chapéu.

— Voltarei dentro de quarenta e cinco m inutos.

Dirigiu-se à praça do m ercado, onde havia diversos pequenos restaurantes. Escolheu um a que se tinha acesso descendo um degrau e onde as m esas eram servidas por um a j ovem alta e m orena, de avental branco, que conhecia todos os clientes. Havia, entre outros, dois ou três funcionários da prefeitura e dos correios, um escrivão de cartório e um a senhora que trabalhava num a agência de viagens.

Escolheu a m esa com cuidado, não para um dia apenas, e sim com o se pretendesse vir a ser cliente habitual. O m enu estava escrito sobre um a lousa e um a série de escaninhos envernizados continha os guardanapos dos fregueses costum eiros.

Na verdade era a prim eira vez em quinze anos que ele fazia um a refeição em restaurante. O dono fixou-o com certa surpresa e aproxim ou-se.

— Que surpresa vê-lo aqui, sr. chapeleiro. Talvez tivesse esquecido o nom e, m as sabia que era o chapeleiro da rua do Minage.

— Estou sem em pregada hoj e.

— Henriette! — cham ou, voltando-se para o garçonete.

E acrescentou: — Tem os costeletas de vaca à m oda e escargots da Borgonha com guarnição.

— Fico com os escargots.

Era um a sensação agradável. Sentia-se com o que nas nuvens. Havia nele algo de aéreo, de flutuante. As pessoas, as vozes, os obj etos não lhe pareciam m uito reais.

— Um quarto de Beauj olais?

— Sim , por favor.

— Um quarto, Henriette.

Era bom . Muito bom . A cozinha de Louise não tinha sabor. Ia com er um a dúzia de escargots quando, à hora do queij o, lem brou-se de que Mathilde tam bém precisava alm oçar.

— Diga, Henriette...

Todo m undo cham ava a m oça pelo prim eiro nom e.

— Gostaria de levar o alm oço para m inha m ulher. Teria um recipiente qualquer?

— Vou verificar.

Falou com o patrão. Este desapareceu e voltou com duas pequenas m arm itas esm altadas, que se encaixavam um a na outra e dispunham de alça.

— Acha que serve?

O sol brincava sobre a m esa. Não havia toalha, ou m elhor, as toalhas eram de papel, m udadas a cada cliente; a um canto havia um a cesta onde eram atiradas.

— Escargots tam bém para ela?

Por que não? Ele os com eria. Percorreu o cam inho que o separava de casa levando as duas m arm itas pela alça. Era divertido.

— A senhora cham ou?

— Não, senhor.

Subiu, j ogou fora a costeleta, o pão, as batatas sautées, m as com eu os escargots sem pensar nem por um instante que Louise continuava ali.

Preferia não pensar nela, aliás, por causa da tarefa que o aguardava à noite.

Na loj a de Kachoudas, a m ulher do alfaiate explicava a situação a um cliente, com gestos aflitos. O cliente parecia desolado. Deviam ter prom etido o terno para esse dia e ele não estava pronto. Talvez fosse o que se avistava, sem m angas e sem lapela, na m esa do alfaiate.

O Sr. Labbé estava m eio sonolento, m as não dorm iu. Pensou m uito em Kachoudas enquanto trabalhava com seus chapéus. Sentia falta do vizinho.

Por que experim entava em relação a ele um sentim ento de inj ustiça? De um a inj ustiça com etida por ele, o Sr. Labbé. Gostaria de visitá-lo.

Tinha a im pressão de que seria capaz de tranquilizá-lo, confortá-lo. No fundo da sua m ente um a ideia se avolum ava.

Kachoudas, em sum a, tinha direito à recom pensa de vinte m il francos.

Estava gravem ente doente. Devia preocupar-se. Que seria da fam ília se ele m orresse? A m ulher teria que trabalhar na casa dos outros. E o m enino de quatro anos? E as m eninas que voltavam às quatro horas da escola?

O Sr. Labbé tinha dinheiro. Podia, sem se em baraçar, retirar vinte m il francos do banco, ou usar do dinheiro guardado na velha carteira.

O gesto de entregá-los seria m ais difícil. Não seria im possível? Se visitasse a casa da frente talvez os deixassem a sós. Ele introduziria sim plesm ente as notas na m ão do alfaiate.

Excelente. Era tarde dem ais para ir ao banco. Iria no dia seguinte. Até então dispunha de tem po para refletir.

Um a velha cam ionete parou diante da chapelaria. Quem a conduzia, vestindo roupas de ferreiro de aldeia, perm aneceu ao volante, enquanto um hom em de bigodes ruivos e caídos, olhos vivos, aparência j ovem , saltou e em purrou a porta. Valentin adiantou-se.

— Quero falar com o patrão.

E quando o Sr. Labbé se adiantou: — Sou o pai de Louise.

Não devia ter m uito m ais de quarenta anos. Havia bebido em casa, ou pelo cam inho, pois seu hálito cheirava a vinho.

— Então parece que ela saiu daqui sem m ais nem m enos?

A polícia devia ter estado em Charron. O hom em viera à cidade no carro de um vizinho.

— Guardou as coisas dela?

— Ficaram no quarto.

— Bem . Bem . Vim buscar.

Não havia tirado o gorro da cabeça. Chegou a cuspir no chão, um j ato de saliva am arela, pois m ascava fum o. Parecia ter vindo com intenções hostis, m as a tranquilidade da casa im pressionou-o.

— Então era aqui que ela passava a sem ana? E saiu sem m ais nem m enos, sem dizer nada?

— Sem dizer nada — repetiu o Sr. Labbé, conduzindo o visitante para a escada.

— É verdade que ela tinha um nam orado?

Com o o tom se tornava am eaçador, o Sr. Labbé lim itou-se a dizer: — Ela nunca m e falou nele. Não o vi.

— É sua m ulher quem vive doente?

— Sim , é m inha m ulher. Peço que não fale m uito alto porque ela está dorm indo nesse quarto.

Não aconteceu nada. O hom em enfiou os pertences de Louise nas m aletas e foi o chapeleiro quem lhe entregou a caixa de conchas que estava na gavetinha.

O cam ponês, de propósito, andava fazendo barulho. Talvez ao sair de Charron tivesse anunciado que ia m ostrar a todo m undo!

— Acha que foi pegada pelo estrangulador?

— Não sei. Não soube de nada.

Apesar de tudo, passou na ponta dos pés diante da porta do quarto de Mathilde e quase levou um tom bo na escada em espiral, traiçoeira para quem não estava habituado.

— Se a encontrarem , não conte m ais com ela. É a últim a vez que deixo um a de m inhas filhas trabalhar na cidade.

Não se despediu; lim itou-se a tocar no boné num gesto que gostaria fosse insolente, m as que não passava de desaj eitado; roçou na m oldura das portas com as m aletas, colocou-as na cam ionete e instalou-se ao lado do m otorista.

Os dois não voltaram im ediatam ente a Charron, pois o veículo parou na esquina, em frente a um botequim .

Hora de acender as luzes, de subir ao quarto de Mathilde para ver se precisava de algum a coisa, baixar as cortinas. As m eninas da casa da frente acabavam de voltar da escola e a todo instante alguém lhes lem brava que precisavam falar baixo. Um a fazia os deveres, caderno sobre a m esa do alfaiate, desem baraçada em parte.

— Tenha a bondade de fechar a loj a, Valentin.

A casa ficaria deserta, o que lhe causou um a estranha sensação; sentiu certo m edo, com o se algo pudesse acontecer na sua ausência. Já não havia razão im periosa para voltar a esta ou aquela hora. Jantaria no pequeno restaurante onde havia alm oçado.

Poderia, se quisesse, ir ao cinem a, m as não seria prudente.

Sentia, aliás, vontade de escrever, m as não no tom da véspera. Estava m enos ansioso, de um a lucidez diferente, e, quando entrou no Colunas e seu am igo Paul lançou-lhe um olhar interrogativo, sentiu-se tentado a sorrir.

Mas não sorriu, é claro. Precisava assum ir um ar de circunstância, pois a notícia j á se espalhara.

Sentou-se sem um a palavra, disposto a j ogar, viu im ediatam ente que Pigeac estava na m esa dos quarenta a cinquenta e levantou-se para falar-lhe.

— Encontraram a m oça? — perguntou.

— Nada, por enquanto.

— Acha que...

Pigeac j ogava cartas e respondia distraidam ente. O chapeleiro j á não se sentia tão bem , não por causa do com issário, que m al se m ostrava polido — afetação por parte dele —, m as porque chegara a hora difícil.

Com eçava sem pre ao cair da noite, quando os postes de ilum inação se acendiam nas ruas e ouviam -se passos na calçada bem antes de se perceber o vulto de quem se aproxim ava.

Havia na rua um a vitrine m al ilum inada, de claridade opaca, e sua visão sem pre lhe causara um surdo m al-estar. Era difícil analisá-lo. Um m al-estar pegaj oso. A palavra significaria algum a coisa? Naquela loj a vendiam -se calçados e ele tinha a im pressão de que as pessoas não falavam , m oviam os lábios sem ruído,.com o peixes num aquário.

Toda a cidade, a essa hora, era assim — um a caixa de tam pa fechada. As pessoas, m iúdas com o form igas, agitavam -se a esm o.

Até a luz do Café das Colunas era angustiante. Quando fixava os globos suj os do teto — eram cinco —, acabava sentindo vertigem .

Era com o se o tem po tivesse parado, com o se tudo se houvesse im obilizado. Os gestos, as vozes, o ruído dos pratos, nada tinha significado.

Estava m orto. Movia-se pelo im pulso natural, m as m ovia-se no vácuo.

Era o que tentaria explicar, em vez das frases confusas que havia escrito na véspera.

Hoj e não se deixaria dom inar. Estava calm o. Tinha prom etido a si m esm o conservar-se calm o, j ogar r o j ogo até o fim , com o se fosse real.

Não o irritava, não o inquietava ver Chantreau, o m édico barbado, a observá-lo de soslaio. Por que fixava suas m ãos? Não estavam trêm ulas. Ele tinha belas m ãos brancas, lisas, dedos fortes, unhas bem cuidadas. Era o que sem pre lhe diziam . A própria Mathilde, a princípio.

— Deve tê-la j ogado no canal — falou Caillé, que distribuía as cartas. — Vão dragar o canal, m as é provável que a m aré j á tenha arrastado o corpo para o m ar.

— Isso m e surpreenderia — m urm urou Chantreau, que parecia pouco à vontade.

— O que surpreenderia você?

— O canal. Não com bina com o resto. Essa gente nunca m uda de técnica. A m enos que... Calou-se. Caillé insistiu: — A m enos que...

— É difícil explicar. A m enos que se trate de v outra série, que a história j á não tenha o m esm o sentido.

— Que sentido?

— Não sei. De quem é a vez?

Evitara, enquanto falava, fixar o chapeleiro, e este corou de leve, pois teve a im pressão de que Chantreau desconfiava dele.

Por quê? Teria com etido algum erro? E o erro era visível? O psiquiatra de Bordeaux teria razão?

Jeantet estava novam ente no seu lugar, perto da vitrine. Escrevia febrilm ente, e a intervalos um a m edia de cabelos, que ele usava com pridos, com o um artista, caía-lhe sobre o rosto.

Foi pelo perfum e que o Sr. Labbé percebeu que a Srta. Berthe havia entrado e estava sentada no seu lugar habitual. Com esforço não olhou na sua direção.

Ela não tinha nada a tem er: ele estava controlado, não trouxera a corda de violoncelo. O que acontecera a Louise não im portava. Sem pre a detestara.

No fim j á não podia suportar sua presença. E m al se lem brava do que havia acontecido depois.

— Dois de ouros.

— Entrada?

— Disse dois de ouros.

— Dobro os dois.

Tudo se m odificava pelo sim ples fato de que faria as refeições fora de casa. Não pretendia contratar nova em pregada. Um a faxineira bastava, não precisava vir todos os dias, bastava trabalhar duas horas, por exem plo. Não fossem os outros, preferia passar sem em pregada.

Julien Lam bert o irritava dirigindo sorrisos significativos à Srta. Berthe.

Iria visitá-la m ais tarde? Era provável, pois estava vestido com m ais capricho que de costum e, passara no barbeiro e cheirava de leve a água-de-colônia.

Passaram -se três quartos de hora e o chapeleiro ainda não tinha term inado a prim eira bebida, o que o deixou satisfeito e confiante.

Todos haviam term inado as bebidas e a leitura dos j ornais para o im pressionarem . Isso era coisa nova. Não havia razão para continuar.

Bastava m ostrar-se prudente, m enos com os outros que consigo m esm o.

Por que precisam ente agora que se sentia totalm ente à vontade, talvez desenvolto, Chantreau fixava-o com olhar estranho? Houve um incidente m ais extraordinário, m ais confuso. A certa altura o m édico enganou-se de carta, colocando na m esa paus em vez de espadas, que era o trunfo, e quando tinha dois na m ão. Arnould, im piedoso com os erros dos outros, exaltou-se: — Que é que há com você? Está pensando em quê?

Então, com o se o arrebatassem a um devaneio profundo, Chantreau m urm urou: — No pobre suj eito.

Devia ter bebido m uito nesse dia, pois estava sentim ental.

— Que pobre suj eito?

Chantreau deu de om bros, resm ungando: — Vocês sabem m uito bem .

— O estrangulador?

— Por que não?

— Sente pena dele?

Não respondeu. Fechou-se, recolheu a carta da m esa e atirou a dam a de espadas.

Pela segunda vez no m esm o dia, e duas vezes por causa do m édico, o Sr. Labbé sentiu-se corar. E, para disfarçar, fez sinal a Gabriel para encher-lhe o copo.