Os Fantasmas do Chapeleiro

Georges Simenon · Capítulo 7 de 11

Páginas do PDF

Os Fantasmas do Chapeleiro

Capítulo 6

FAZIA TODOS OS MOVIMENTOS, sem esquecer nenhum . Mas acontecia-lhe com frequência cada vez m aior im obilizar-se, com o que em transe, olhar em volta, ar prim eiro inquieto, depois lam entoso, testa franzida. Um dia Valentin quis aj udar.

— O senhor esqueceu algum a coisa?

O Sr. Labbé fixou-o com o se deve fixar um ser hum ano fora deste planeta, sem se dar o trabalho de responder. Lim itou-se a encolher os om bros de leve. Segundos depois o contato se restabelecia. Sabia novam ente o que devia fazer e dirigia-se para o arm ário dos fundos, o que era fechado a chave, para puxar o barbante.

Na terça-feira de m anhã estava pálido, fisionom ia abatida, pálpebras averm elhadas. Há m uito tem po não bebia com o bebera na véspera à noite e sentia a cabeça oca e os dedos trêm ulos ao se barbear.

O absurdo é que dos dois era o alfaiate quem estava de fato doente.

Talvez não fosse grave. O Sr. Labbé ainda não sabia. Pelas idas e vindas na casa adivinhava algo fora do com um . A prim eira pessoa a quem viu foi a Sra. Kachoudas.« Depois, bem m ais cedo que de costum e, Esther saiu da cozinha inteiram ente vestida.

Estranho ver com o um a casa, alterados os seus ritos, assum e facilm ente um ar catastrófico. A m oça havia descido, passado bastante tem po a tirar os ferrolhos da porta da loj a e depois afastara-se, cam inhando rápido pela calçada.

E as calçadas, nesse dia, estavam recobertas de um a cam ada escorregadia de geada branca. Por que o Sr. Labbé com preendeu im ediatam ente que ela ia à farm ácia? Provavelm ente porque só a doença ou a m orte im pedem hom ens com o Kachoudas de perm anecer no seu posto.

Sua m ulher apressava as crianças que se vestiam para a escola. Esther devia ter corrido várias farm ácias antes de encontrar um a aberta. Ao voltar trazia um em brulho na m ão e, no m om ento em que subia a escada, Kachoudas, apesar dos protestos da m ulher, apareceu no ateliê. Estava de chinelos, vestia calça e casaco velhos sobre o cam isolão de dorm ir, e tinha o pescoço enrolado num xale preto da m ulher. Via-se que estava com febre e, pela m aneira de falar, percebia-se, m esm o através da vidraça, a sua afonia.

O em brulho da farm ácia foi aberto. Esther deu explicações com volubilidade. A Sra. Kachoudas enfiou na boca do m arido o term ôm etro que acabavam de com prar e decifrou as instruções escritas no rótulo de um vidro e de um a caixinha. Aj udaram o doente a vestir o sobretudo, não porque pretendesse sair e sim porque, apesar do fogo aceso na estufa, trem ia de frio.

Muito sérios, os três exam inaram o term ôm etro. Discutiram . Alguém propôs cham ar o m édico e Kachoudas protestou energicam ente. Esther saiu para trabalhar. A m ãe levou as duas m eninas até a calçada e elas se dirigiram à escola, m ãos dadas. A m enor vestia gorro de tricô de lã verm elha e luvas da m esm a cor.

— Agora nós dois! — parecia dizer a Sra. Kachoudas, voltando-se para o m arido.

Pôs água para ferver, preparou, com pressas e obrigou-o a tom ar pílulas provavelm ente purgativas. O alfaiate, ocioso, olhava a m esa de trabalho com vontade de trabalhar e, m al se pilhou sozinho, fez m enção de se levantar da poltrona de vim e onde o haviam instalado, diante da estufa.

Devia estar com gripe, ou angina, com o Valentin, que continuava a assoar-se constantem ente.

Louise teria realm ente sentido m edo do chapeleiro quando ele entrou na sala, no m om ento em que ela fazia m enção de se sentar? Ao erguer a cabeça, num gesto brusco, pareceu surpreender-se ao vê-lo ali, e após um silêncio perguntou, em vez de dizer bom -dia: — Que é que o senhor está sentindo?

Ele estava de ressaca, sem dúvida, m as o im portante é que a observava com visão nova. Não só a exam inava, com o farej ava, dom inado por um a repulsa im ensa e um rancor do qual não conseguia livrar-se. Quantas vezes, na noite anterior, sentira-se tentado a descer à cozinha, e m ais tarde, depois que ela se deitou, tentado a ir procurá-la no quarto para liquidá-la?

No m om ento fixava-a, sopesava-a, m edia-a. Im aginou-a no chão e sentiu náuseas, odiou-a e a odiaria eternam ente por aquilo que estivera prestes a fazer.

O instante recordou-lhe as suas prim eiras experiências eróticas, lá pelos dezessete anos. Resistira m uito tem po antes de m ergulhar no bairro das casernas, onde havia cinco ou m ais casas com m ulheres na soleira das portas. Com eçara andando depressa, dera m eia volta e, chegando ao final da rua, voltara atrás. A cada passada prom etia a si m esm o fazer um a escolha, m as acabara por enveredar, orelhas zum bindo, por um corredor qualquer.

Depois passara horas odiando todas pela vergonha de si m esm o e do gênero hum ano que experim entava. Por culpa delas sucum bira à tentação, e o sentim ento de ódio era tão intenso que provocara im pulsos crim inosos.

Louise, aquela vaca, tam bém quase o levara a sucum bir à tentação, um a outra tentação, ainda m ais grave. Até então fizera apenas o que havia decidido fazer, o que era necessário e indispensável, conform e escrevera ao j ornal. Durante a m anhã pensara em despedi-la, m as seria im prudente.

Valentin seria capaz de discernir a diferença? Esse rapaz ruivo, de nariz violáceo, teria capacidade de observar?

O chapeleiro sentia-se pesado. Antigam ente, ainda que perm anecesse m udo e absorto, sentia-se leve, por estranho que pareça. Mostrava-se grave, sem dúvida, m as sereno. Vivia sozinho, era um introvertido, m as não se percebia nele qualquer luta, qualquer inquietação.

Em bora nessa m anhã estivesse m enos ansioso que na véspera, nem por isso se sentia m enos perturbado.

Não raciocinava com clareza. A im agem da ignóbil Louise perseguia-o e por causa dela ocorriam -lhe outras im agens do bairro das casernas, e por fim , inevitavelm ente, a lem brança da Sra. Binet.

Ele trabalhava nos fundos da loj a, reform ando chapéus, colocando-os na form a. Duas vezes num a hora viera à loj a para atender os clientes, olhando de relance para a casa da frente.

Súbito, exam inando o am biente fam iliar, as prateleiras escuras, os espelhos, as form as de m adeira, a estufa a gás, seu nom e, que ele lia ao contrário na vitrine, teve a im pressão de que algo ali se im obilizara, com o um relógio parado.

Nada à sua volta se m odificara desde que ele tom ara posse da loj a.

Outros haviam ao m enos tentado agir num sentido qualquer. Até Paul Chantreau, o m édico, debatera-se por m uito tem po.

Ele, aos vinte e três anos, voltando de Poitiers onde estudava, enfiara-se ali com o certos anim ais à aproxim ação do inverno m ergulham na sua toca.

Fora por causa da Sra. Binet. Nunca dissera a pessoa algum a. Jam ais o confessara. Não era bem a verdade exata, m as um a verdade aproxim ativa.

Morara em casa dela em Poitiers. Tam bém era viúva. Ele com eçava a perceber o núm ero considerável de viúvas e a sua virulência.

Tinha trinta e quatro ou trinta e cinco anos. O m arido, em vida, fora alto funcionário e ela possuía um a bela casa na parte alta da cidade, onde m orava com o filho Albert, na época estudante de quatorze anos.

Para am pliar suas rendas decidira alugar um quarto a um estudante. A m ãe do Sr. Labbé soubera disso. Com o? Esquecera. A operação se fizera por interm édio de conhecidos, houvera troca de correspondência, as duas m ulheres se tinham encontrado e a Sra. Labbé voltara a La Rochelle tranquila quanto ao filho.

A Sra. Binet tinha cabelos escuros. Cham ava-se Jeanne e o filho, m uito m al-educado, só a cham ava assim .

A prim eira vez acontecera j ustam ente quando Léon Labbé estava com angina. Todos os anos, no outono, ou com eço do inverno, ele era acom etido de angina violenta. Não fora à aula. Os dois estavam sozinhos em casa. A Sra. Binet vestia roupão azul vivo, em cuj o decote entreviam -se rendas.

Ele estava febril. O quarto cheirava a eucalipto. Ela cuidava dele com obstinação. Insistira em que se deitasse e, apesar de sua atitude m aternal, acabaram -se am ando.

Era a prim eira vez que isso acontecia fora do bairro das casernas. Ele se assustou com a violência da parceira, com o que a dom inava rapidam ente, a ponto de desfigurá-la. Pensando no garoto que devia estar chegando do colégio, sentiu-se culpado.

O caso havia durado dois anos e m eio, os dois anos e m eio que ele passara em Poitiers. Seus am igos da universidade cham avam -na de Binette, alegando que ele não era o prim eiro. Com o na época era m agro, afirm avam que ela o esgotava com pletam ente, o que talvez fosse exato; não o deixava em paz, procurava-o no quarto em horas em que o filho poderia ouvi-los e soltava-se com o ele nunca m ais viu ninguém se soltar. Era totalm ente desprovida de pudor. Fazia-o de propósito, por m alícia; um a vez em transe, servia-se das palavras m ais grosseiras, que ele só ouvia em bordéis e que o faziam corar.

Tornou-se piada, na faculdade, cham á-lo de 'Binet da Binette', e no terceiro ano ele teve a intuição de que seria reprovado nos exam es. E envergonhou-se. Quando foi passar as férias da Páscoa em La Rochelle sentiu-se em segurança na chapelaria da rua do Minage, hesitou dois ou três dias. A lem brança de Albert, então com dezessete anos, sabedor de tudo e que falava cinicam ente sobre a m ãe, não o deixava em paz.

— Já que sem pre desej ou m e ver na chapelaria — disse um dia ao pai — , acho que vou decidir agora.

E foi só.

Era nisso que pensava nesse dia, além de outras coisas m ais agradáveis, pois sentia necessidade de se firm ar. Estava flutuante. Aconteceu-lhe por diversas vezes olhar-se nos espelhos da loj a e sua im agem aborreceu-o.

Achou-se velho. Estava interessado na saúde do alfaiate. Puxou o barbante com m ais frequência que de costum e só para ter ocasião de subir, a ponto de o pobre Valentin tom ar coragem para indagar: — A Sra. Labbé não está passando bem ?

Fixou-os nos olhos sem responder. O céu estava de um azul lím pido com o o nácar de um a concha de ostra; à sua volta havia um a névoa que deturpava a fisionom ia das pessoas e dos obj etos.

Aquele anim al da Louise teria reparado que a garrafa de conhaque não estava no arm ário? Deixara-a lá em cim a e, pouco antes do m eio-dia, subiu para tom ar um gole.

Adiara o m om ento de com prar o j ornal na esquina da rua porque sabia que ficaria de m au hum or.

"Pela primeira vez" — escrevia gravem ente Jeantet — "o assassino não cumpriu o que anunciou."

E daí tirava um a coluna inteira de hipótese. Manobra? Doença? Medo das m edidas excepcionais da polícia?

"A menos que a sétima vítima, seguindo as instruções do prefeito da cidade, não tenha saído de casa. ''

E Jeantet atirou-se ao dom ínio das hipóteses.

"Haveria de fato uma sétima vítima designada? É o que saberemos dentro de alguns dias. O estrangulador procurou fazer com que todosacreditassem, desde o início, que ele não atacava qualquer pessoa, a esmo, mas tinha uma lista estabelecida, segundo um plano preconcebido.

"Seria exato? Falso? Não se deveria ver no fato uma explicação dada após o acontecimento, um ardil, quem sabe, para desviar as suspeitas, ou para obter certo prestígio?"

As pessoas deturpam tudo, inevitavelm ente.

Seria obrigado a se deixar prender a fim de explicar a verdade, apresentar provas? Sentiu a tentação, não m uito forte ou sincera, m as sentiu-a. Quem sabe seria m elhor?

Kachoudas continuava na sua poltrona e de hora em hora a m ulher trocava a com pressa úm ida. Ao m eio-dia obrigou-o a tom ar ovos com leite, o que ele fez devagar, com um a colherinha, m antendo o prato sobre os j oelhos. Um a vez, ao ouvir a cam painha da loj a, a m ulher desceu para atender o freguês, a quem deve ter explicado que o m arido estava doente.

Cerca das duas horas, o Sr. Labbé j á havia decidido aproveitar-se do caso. Tudo se encadeava. Por causa da em pregada ele pensara no bairro das casernas, depois na Sra. Binet, e subira ao prim eiro andar para beber.

Sentia forte dor de cabeça. A aspirina não adiantou. Precisava de outra coisa. Relutou até quatro horas, o m om ento de acender as luzes, e então vestiu o sobretudo e pôs o chapéu na cabeça.

— Vou fazer um a com pra, Valentin. Se não voltar antes das seis, feche a loj a.

Estava com a m ão na m açaneta quando deu m eia-volta e dirigiu-se aos fundos da loj a. Sua m ão introduziu-se no oco da form a de chapéu e im obilizou-se por um instante. Assustado, resistiu, pois ainda tinha forças para resistir.

Saiu sem levar nada e dirigiu-se à rua Gargoulleau.

Ia até lá de tem pos em tem pos, sem pre a essa hora. Pouco antes da praça de Arm as, à esquerda, havia um a residência particular do século XVIII, que abrigara personagens ilustres. O grande portão continuava encim ado por um escudo flanqueado de dois m arcos de pedra. Havia um pátio laj eado, construído de três lados, e no m om ento a residência estava dividida em vários apartam entos. Viam -se até placas de cobre na entrada. O prim eiro, ao fundo, era o consultório de um dentista que o Sr. Labbé conhecera na escola.

Em outro pavim ento, um a firm a vendia geladeiras, e no alto residia o arquivista departam ental.

A ala esquerda tinha um único pavim ento sobre o térreo e duas entradas.

A segunda porta abria-se diretam ente para um a escada conduzindo ao prim eiro andar, e foi diante dela que se deteve o chapeleiro.

Toda vez que para ali se dirigia experim entava a m esm a leve angústia com o antigam ente, ao penetrar o bairro das casernas. No entanto, não era o único a se deter nesse lim iar. Os outros, inclusive o m édico, não se envergonhavam de.falar no assunto. Chantreau dizia sem rodeios, ao chegar para a partida de bridge: — Fui beij ar Berthe.

Julien Lam bert não falava porque era protestante e principalm ente porque tinha m edo da m ulher; m as não o negava e m al se escondia.

Quantos eram a frequentar o apartam ento acolhedor, todo atapetado de cetim claro, com um a profusão de tapetes, pufes, poltronas e bibelôs frágeis e graciosos?

Sete ou oito. A Srta. Berthe não era um a prostituta pública. Durante dois anos fora m antida por Rist, o arm ador. Rist pai, pois havia quatro ou cinco Rist form ando um clã na cidade, protestantes tam bém , e possuidores de um a das m aiores fortunas da região.

Rist pai tinha na época sessenta anos. O filho e as duas filhas estavam casados. Um dos genros se achava à frente do escritório de Paris.

Toda a fam ília trabalhava na firm a e nunca se via um Rist no café, ou no cassino da praia.

É possível que aos sessenta anos Rist pai não tivesse conhecido outra m ulher senão a sua, e esta de tal m odo ressecara que se ouviam as suas j untas estalarem .

Fora ele quem alugara e m obiliara o apartam ento da Srta. Berthe.

Mostrara-se o m ais discreto possível; contudo, fora assediado pelo clã inteiro durante dois anos, inclusive os próprios filhos e genros.

Falava-se de cenas épicas em que chegara a suplicar de j oelhos que lhe perm itissem um pouco de paz e prazer no final da vida.

O clã acabara vencendo. Um a noite, diante de todos os Rist reunidos, ele fizera o j uram ento solene de nunca m ais pisar na casa da rua Gargoulleau, ou rever a Srta. Berthe.

E sequer anunciou-lhe a decisão tom ada. Um genro se encarregou disso, discutindo asperam ente a questão do dinheiro.

Desde então, um a vez por m ês, Rist pai ia a Paris pelo trem noturno e dizia-se que tinha perm issão para frequentar um a casa de encontros em Notre-Dam e-de-Lorette.

A Srta. Berthe conservara seu ar calm o, sua vida acolchoada de m ulher m anteúda, m as, com o ninguém na cidade seria capaz de substituir o arm ador, ela abriu a porta a alguns personagens cuidadosam ente escolhidos.

O Sr. Labbé viu luz através das persianas e soube que ela estava em casa.

Perm anecia quase sem pre em casa, m as precisava tirar a prova da cam painha elétrica. Teria sido dela ou de um dos am antes a ideia? O fato é que havia adicionado à cam painha um interruptor. Quando ela estava com visita, cortava o contato e ninguém insistia, pois todos sabiam o que isso queria dizer.

O Sr. Labbé estendeu o braço, apertou o botão e não se ouviu som algum do outro lado da porta.

Havia alguém lá dentro, quem sabe o m édico. E o m au hum or do Sr. Labbé agravou-se. Sentiu-se m al. Precisava de qualquer coisa, não sabia exatam ente o quê. Esperava encontrá-lo ali e não podia peram bular pelo bairro, tocar a cam painha de vez em quando.

Não trouxera a corda de violoncelo, o que não significava que tivesse tom ado necessariam ente um a decisão. Na verdade, a corda do violoncelo só era necessária fora de casa, quando era obrigado a agir m uito depressa, sem ruído, de surpresa.

Não a utilizara para Mathilde, que estava deitada.

A verdade é que, vindo até ali, não havia decidido nada absolutam ente.

No m om ento regressava a passos lentos pela calçada, om bros curvos. Não queria beber diante dos am igos porque isso não fazia parte das tradições e ele continuava a ser prudente. Poderia ao m enos entrar num outro café.

Acontecera algum as vezes. Havia vários em torno do m ercado coberto.

Passou diante das cestas das peixeiras e reconheceu um a delas, a quem havia desej ado no decorrer de dois anos, nos tem pos em que term inava o colégio.

Nunca lhe dirigira a palavra. Ela era então um a garota das ruas, seios salientes. Por diversas vezes avistara-a com um hom em nos recantos escuros. Seus colegas a conheciam . Tinha fam a de fazer tudo o que pedissem , com qualquer pessoa, não por dinheiro e sim por gosto. E ganhara um apelido que especificava cruam ente um dos seus talentos.

Nunca tivera coragem . E hoj e ela era um a velha sentada num banquinho de dobrar, diante de um a banca de peixe. Sabia quem ele era, com o o sabia a cidade inteira. O que não podia adivinhar é que ocupara tal lugar nos seus pensam entos, ou que por sua causa ele fora m uitas vezes buscar a náusea nas casas escusas do bairro das casernas.

Tom ou dois conhaques. O olhar do garçom perturbou-o. No entanto, ele não devia estar pensando em coisa algum a.

Havia prom etido a si m esm o não voltar à rua Gargoulleau. Sabia que ela ainda não estaria livre. Contudo, entrou no pátio e com prim iu a cam painha.

A m ão enfiada no bolso do sobretudo procurava m aquinalm ente a corda de violoncelo sem encontrá-la. Olhar pesado, desconfiado, entrou no Café das Colunas, achando desagradável não sentir o alfaiate à retaguarda.

Estava tão calm o, tão controlado, nas sem anas anteriores! Claro que tinha que pensar em tudo, calcular os m enores fatos e gestos, m as sentia-se confiante, avançava lentam ente, seguro, a lista em m ente, com o alguém que se im pôs um a tarefa e nada desviará do cam inho.

O m édico estava no café. Não era ele, portanto, quem visitava a Srta. Berthe nesse dia. Nem Julien Lam bert, que em baralhava as cartas, enquanto, j ogando" com Arnould, aguardavam , pacientes, um parceiro.

Por que Chantreau teria erguido as sobrancelhas ao ver o chapeleiro sentar-se? Não seria a hora exata?

— O de sem pre, Sr. Labbé? — perguntou Gabriel, que tinha pelo grupinho cuidados m aternais.

— Você j oga?

Jogava. Tinha todo o tem po do m undo para j ogar, nada para fazer até as sete da noite. De agora em diante não teria m ais nada para fazer, o que lhe provocava um a vertiginosa sensação de vazio.

Não precisava sequer tom ar precauções!

— Você parece cansado — observou Chantreau, fixando-o por cim a das cartas.

— Não sei.

— Estranho. Meus colegas dizem que a um idade é prej udicial. Pois todos os anos constato aqui o m esm o fenôm eno. No tem po das chuvas as pessoas resistem bem . Tão logo caem as prim eiras geadas m ultiplicam -se as gripes e as anginas. Atendi onze hoj e de m anhã.

— Passo.

— Passo.

— Espadas.

— Passo.

— Dois de ouros.

O Sr. Labbé não estava gripado, tinha certeza, e o fato agravava o seu m au hum or; sentia-se furioso contra todas, sem saber exato por que, assim com o detestava Louise e, há um a hora, detestara a Srta. Berthe.

No entanto, não tinha m ania de perseguição. Não era louco. Jeantet não conseguira im pressioná-lo com os seus raciocínios e recentes conhecim entos de psiquiatria.

Jeantet não estava no café. Nem seu chefe, o Sr. Caillé. Quem sabe era Caillé, com a sua grande barriga e corpo cabeludo, a pessoa que se achava na cam a da Srta. Berthe.

Sentiu raiva dele tam bém . E raiva do alfaiate, cuj a cadeira perm anecia desocupada.

Foi Julien Lam bert quem observou, bem m ais tarde, relanceando para o relógio que m arcava cinco e quinze.

— Ora! Seu cão não apareceu.

O chapeleiro não com preendeu im ediatam ente. E com o tinha horror a não com preender, replicou zangado: — Nunca tive cão.

Os outros, que haviam percebido, desataram a rir.

— Kachoudas não está no lugar dele. Em geral chega logo depois de você. Acho que acerta o relógio pelo seu, ou espera-o na soleira da porta.

Julien Lam bert teria segundas intenções ao fazer essa observação?

— Kachoudas está doente.

— Com o é que você sabe?

— Vi pela j anela.

— Eu disse três de paus — im pacientou-se Arnould, que não gostava de conversas durante a partida, pois com etia erros com facilidade. — Paul passou, André disse ás de ouros, Léon passou, eu disse três de paus. É a sua vez, Julien.

Estava abafado. O Sr. Labbé não saberia explicar por que estava abafado.

O tem po perm anecia seco, as ruas banhadas de luar. O café ainda não fora invadido pela fum aça de cigarro. Oscar, o dono, plantado atrás deles, ainda não estava em briagado.

Mesm o assim a atm osfera estava abafada, abafada com o um a arm adilha para corvos. Precisava raciocinar direito, sem se deixar dom inar por sensações confusas.

Seria bom beber um pouco. Já esvaziara o copo, que em geral durava um a m eia hora. Fez sinal a Gabriel para enchê-lo de novo.

— Com o vai Mathilde?

Havia sem pre alguém para fazer a pergunta. Que cara fariam se respondesse tranquilam ente: — Morreu há seis sem anas.

Raram ente Caillé fazia a pergunta porque fora noivo de Mathilde antes do chapeleiro. Não se sabia 10 certo por que o noivado fora rom pido. Tudo se passara discretam ente um ano antes do casam ento do Sr. Labbé. Teriam dorm ido j untos? Era bem possível. O Sr. Labbé não fora o prim eiro.

Contudo, a m ãe lhe havia falado.

— Moça de educação prim orosa.

De fato, estudara no Im aculada Conceição. O pai era funcionário da alfândega, de nível bastante elevado. A m ãe havia m orrido.

— Eu não estarei sem pre aqui para dirigir a casa. A Sra. Labbé era pessoa m iúda e discreta, que andava quilôm etros diários transferindo-se de um côm odo a outro. Quando passava perto de alguém , quando havia um freguês na loj a, quando fazia o m ais leve ruído, balbuciava im ediatam ente: — Perdão.

Ele era m ais parecido com a m ãe que com o pai, fisicam ente pelo m enos.

O pai era um hom em calm o, vigoroso, seguro de si.

— Você sabe m uito bem , Léon, o que disse o m édico.

Ela não teria a vida longa. Isso se prolongara por dez anos, durante os quais a Sra. Labbé sabia que não duraria m uito tem po. Um m édico idiota tivera a infelicidade de dizer-lhe isso e ela o utilizara com o um a espécie de chantagem .

— Por que não se casa, com o todo m undo? Na sua idade seu pai j á estava casado.

Vivia tão satisfeito quanto parecia? O pai nunca intervinha nessas discussões, que acabaram por se tornar cotidianas.

Possuíam um a pequena vila em Fourras, perto do m olhe, onde o Sr. Labbé pai, que adorava a pesca, decidira residir quando se aposentasse: — É por sua causa que ainda não m oram os lá.

— Pois é um erro. Sei m e arranj ar m uito bem sozinho.

Era exato. Bastava que os pais deixassem a criada, que trabalhava na casa há vinte anos.

— Você reparou que a garota Courtois está apaixonada por você?

A garota Courtois era Mathilde, cuj o pai frequentava a casa. Tinha cabelos escuros com o os da Sra. Binet. Naquela época não se parecia com a viúva de Poitiers, caso contrário ele teria percebido. Contudo, tinha os m esm os olhos m uito escuros e brilhantes, que fixavam com insistência as pessoas e as coisas, com o que para dom iná-las ou assim ilá-las.

Por que acabara concordando? Talvez porque a m ãe havia piorado, tinha várias crises por dia. Sofria m uito, definhava a olhos vistos.

— Partirei m uito m ais tranquila se souber que você está casado!

Ficaram noivos e a m ãe m orreu três sem anas antes do casam ento. Era tarde dem ais. O pai só queria um a coisa: retirar-se para a casa de Fourras. Já havia com prado um barco e passeava nele nos dom ingos de verão.

— Nenhum trunfo? — perguntou o parceiro ao vê-lo j ogar um seis de ouros.

Observou o j ogo e perturbou-se.

— Perdão, tenho sim .

— Em que estava pensando?

— Em nada.

Chantreau observava-o disfarçadam ente com olhar agudo, com o se quisesse estabelecer um diagnóstico. Apesar da barba hirsuta e da aparência desleixada, era o m ais inteligente de todos e, m esm o depois de beber, talvez principalm ente quando bebia, sua perspicácia era assustadora.

O chapeleiro hesitou em pedir o terceiro picon. Mas precisava da bebida.

Vivia diante dos am igos um a aventura m edonha. Estava ali, m uito calm o na aparência, cartas em punho, esforçando-se por acom panhar o j ogo e com eter o m ínim o de erros.

Súbito, algo desm oronou no seu íntim o; os dedos trem eram , a visão turvou-se, e ele teve a im pressão de que estava flácido, desprovido de nervos, correndo um grave perigo se perm anecesse sentado ao calor da estufa. Precisava a todo custo levantar-se, agitar-se, fazer um gesto preciso.

— Gabriel!

— Sim , Sr. Labbé.

Por que Chantreau olhava para ele? Não teria o direito de tom ar três picons? Parecia em briagado?

Talvez não houvesse m ais ninguém no apartam ento da rua Gargoulleau.

Isso despertava um a recordação detestável do dia em que fizera am or com um a prostituta logo depois de um soldado. Não corria esse risco com a Srta. Berthe. De todas as que conhecia era provavelm ente a que daria a esposa m ais atraente. Era suave, sem pre sorridente. Respeitava instintivam ente os hom ens, em bora os conhecesse bem . Nela era um a espécie de discreta indulgência. Seu caráter era com o sua tez, as curvas de seu corpo, a consistência de sua carne, o am biente que criara em torno de sua pessoa.

Daí a pouco estaria diante de Louise na sala de j antar m al ilum inada, onde a luz elétrica era sem pre am arela. Precisava resistir, sentia-se novam ente dom inado pelo im pulso. Tinha que term inar.

Era um a sensação vaga. Não significava coisa algum a. A questão era saber se a bebida faria bem ou, pelo contrário, aum entaria a vertigem .

Poderia dirigir a pergunta a Chantreau. Quase o fez. Que o im pedia de esperar que Paul saísse, o que não tardaria m uito, e de sair com ele, assim por acaso?

— Fale, Paul!

Tinha o direito estrito de exigir sigilo profissional. Era m enos perigoso que conversar com Kachoudas.

— Quero pedir um conselho. Matei Mathilde, um a noite.

Calm am ente. Era preciso explicar que m atara calm am ente, a sangue-frio.

Acabava de com prar no sebo os volum es desparelhados dos processos do século XIX. E havia com eçado pelo da Sra. Lafarge, cuj a história conhecia vagam ente.

De quarto em quarto de hora, pelo m enos, enquanto estava sentado diante da lareira, ouvia um a voz seca e m á a cham á-lo: — Léon!

Inútil fingir que não tinha ouvido. O tom não adm itia réplica. Há m uito tem po adotara aquele tom , bem antes da doença, quase logo após o casam ento, m ais ou m enos na época em que com eçara a se parecer com a Sra. Binet. Descobrira um dia a sem elhança, que lhe escapara anteriorm ente.

Era a m esm a voz, a m esm a segurança, principalm ente o m esm o ar de posse.

Mal ele com eçava um capítulo, ela cham ava, quase sem m over os lábios: — Léon!

Ele era obrigado a se levantar. E ela levava tem po para dizer o que queria: ora um copo d'água, ora levantar ou baixar as cobertas, dar-lhe o urinol, ou um a de suas pílulas. Sentia calor dem ais, ou frio dem ais, ou então a luz incom odava os olhos.

Tudo falso. Inventava à vontade, passava o tem po, desde o instante em que ele se sentava, inventando algo de novo.

Enquanto ele obedecia, acom panhava-o com olhar duro e j am ais agradecia.

Há m uito desconfiava dele, desde o quarto ou quinto ano da doença, e afirm ava que pretendia envenená-la para se libertar.

E isso não era verdade. Não o pensava de fato. Outra invenção para atorm entá-lo.

— Você com eu cebola de novo, de propósito para m e deixar doente com seu m au hálito. Não tenha pressa! Não vou durar m uito.

Raro conseguia ler duas páginas sem ser interrom pido. Era obrigado a recom eçar duas ou três vezes o m esm o trecho e acabava confundindo nom es e datas.

— Léon!

Sabia que o livro o interessava e, desde que ele o com eçara, m ultiplicava os pretextos para interrom pê-lo.

— Leia um a passagem em voz alta.

Ele tinha horror a ler em voz alta, principalm ente porque ela pedia explicações sobre os capítulos anteriores, não com preendia coisa algum a e obrigava-o a voltar atrás.

— Léon!

Não estava com sede. Não precisava do urinol. Fingia, com um a cintilação pérfida no olhar.

Ele era dela! Era a única coisa que possuía no m undo, m as possuía-o todo e precisava verificar constantem ente a sua posse. Por essa razão não queria enferm eira ou em pregada no quarto; por essa razão recusava-se a receber quem quer que fosse. Assim possuía-o m elhor. Ele não tinha nenhum a desculpa para sair e respirar, nem por um só instante, outro ar que não o dela.

— Léon!

Em quinze anos não lera em paz um único livro, em bora a leitura fosse o seu últim o refúgio.

Chegara apenas à m etade da história da Sra. Lafarge, exato no depoim ento do farm acêutico que tinha vendido o veneno.

— Léon!

A narrativa era som bria, sem um raio de sol. Tudo se passava entre paredes sufocantes e não se im aginava um único personagem sorrindo com o todo m undo, um a vez que fosse.

— Léon!

Então, um a noite, ele se levantara definitivam ente e fechara o livro. Ela teria com preendido o que havia m udado no m arido? Teria percebido que acabava de tom ar um a decisão?

— Eu estava m uito calm o, Paul, terrivelm ente calm o. Sabia há m uito tem po que isso acabaria acontecendo.

Com o reagiria o m édico?

O chapeleiro fizera um pequeno slam m aquinal, por força do hábito.

Chantreau tornou a fixá-lo com insistência.

Não! Não com preenderia. Seria trabalho inútil. Aliás, seu caso nada tinha a ver com a m edicina. Não era doente. Não era louco. Não sofria de tara algum a.

— Gabriel!

Tanto pior! Pensaria m enos em Louise, que lhe lem brava um grande edredom do cam po. Viu-a im ensa, com o quando se tem febre e se sente os dedos, as m ãos, todo o corpo inflado, quando se tem a im pressão de encher o quarto inteiro.

Soltou um a risadinha porque Jeantet estava no seu lugar. Não o vira entrar. Dispunha-se gravem ente a escrever à m esa de m árm ore.

Devia considerar-se um a pessoa m uito im portante.