Os Fantasmas do Chapeleiro

Georges Simenon · Capítulo 10 de 11

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Os Fantasmas do Chapeleiro

Capítulo 9

QUANDO SE DIRIGIA À PORTA DO CAFÉ, alto, fraco e lento, parou um instante em frente à últim a m esa, olhou de alto abaixo o rapaz que continuava a escrever e que ergueu a cabeça quando um a som bra sé proj etou sobre o papel. Era ele quem m ais o tinha prej udicado com sua ideia de entrevistar um psiquiatra de Bordeaux e depois, incansável, quase diariam ente, obstinando-se a voltar ao diagnóstico para com entar, explicar os acontecim entos da véspera e prever os do dia seguinte.

Jeantet não o fazia de propósito. Era um a criança. Não era m au. O Sr. Labbé não lhe guardava rancor. Será que dentro de quarenta anos estaria sentado, por sua vez, à m esa entre as colunas, j unto à estufa?

Não trocaram palavra. Nada tinham a se dizer. Havia quarenta anos entre os dois, talvez nada além disso, talvez um a porção de coisas. O chapeleiro suspirou de leve e estendeu a m ão para a m açaneta da porta. Jeantet deu de om bros e franziu o cenho, procurando o fio da frase.

O repórter havia com eçado e agora seu am igo Paul se introm etia no assunto. Teria falado propositalm ente daquela m aneira? As palavras que pronunciara com o se não tivessem im portância constituíam na verdade um a m ensagem oculta?

O Sr. Labbé m al sentia o frio. Havia um pouco m ais de um idade no ar que nas noites precedentes, via-se pelas luzes, pelos postes de ilum inação que pareciam recobertos de um véu.

As duas terríveis palavras de Chantreau perseguiam -no, pesavam -lhe nos om bros, e ele não conseguia desem baraçar-se delas. Contudo, eram inocentes na aparência.

— Pobre sujeito!

Jeantet tam bém era um rapaz inocente, m as havia vibrado contra ele o m ais cruel dos golpes.

Não guardava rancor nem contra um nem contra outro. Não guardava rancor contra ninguém . Seguia pela calçada da direita na rua do Minage, pois não voltaria para casa, precisava j antar na praça do m ercado, no m esm o restaurante onde alm oçara.

Mas havia um vácuo lum inoso na calçada, bem longe, e à m edida que dele se aproxim ava, sentia-se m ais ansioso.

A porta da alfaiataria estava aberta e ele distinguiu dois vultos do lado de fora; continuou a avançar e reconheceu o espanhol, dono de um a loj a de frutas pouco adiante, acom panhado talvez da m ulher.

Quando estava bem próxim o, ouviu um som que parecia o uivo de um cão em noite de lua. Parou na faixa ilum inada, olhou para dentro e viu a Sra. Kachoudas desabada num a cadeira, no m eio da alfaiataria.

Era ela quem uivava, olhando fixo em frente, enquanto a m ulher do salsicheiro segurava-lhe os om bros e tentava acalm á-la.

Ao pé da escada Esther trem ia, um xale nos om bros, pois a alfaiataria não tinha aquecim ento. Não chorava, não dizia palavra. Em seu olhar lia-se apenas um a espécie de terror anim al.

Outras pessoas haviam saído das casas vizinhas e form avam grupo em torno do Sr. Labbé, im óveis, im pressionadas. Um a m ulher que ele não reconheceu desceu com o garoto nos braços, segurando-o com dificuldade.

— Vou levá-lo — disse de passagem . Abriram cam inho e ela entrou num a casa pouco adiante. Que fim tinham levado as m eninas? Alguém as teria levado tam bém ? Quem estaria lá em cim a?

Os uivos eram tão im pressionantes com o a sirene do porto em noite de nevoeiro.

Devia ter acontecido há pouco tem po, pois ouviu-se ruído de m otor e um carro parou j unto à calçada. O m édico atravessou o grupo, apressado olhou um instante para a Sra. Kachoudas e voltou para fechar a porta.

Foi só. Kachoudas estava m orto. Fechada a porta, as pessoas com eçaram a falar em tom de lam ento e o chapeleiro afastou-se com o m esm o sentim ento de inj ustiça que o dom inara há instantes, quando seu am igo Paul havia m urm urado: — Pobre sujeito!

Perdera a fom e. Podia entrar em casa im ediatam ente. Voltou-se para fixá-la, olhou a im ensa cartola verm elha que dom inava a fachada, a j anela ilum inada do prim eiro andar, com um a silhueta im óvel proj etada contra a cortina.

Naquele instante teve a intuição de que nunca m ais voltaria a entrar ali, não reveria a casa. Não o adm itiu. Aparentem ente era o m esm o de todos os dias, de m om entos atrás no café. Nada acontecera que o afetasse pessoalm ente.

No entanto, tinha m uita coisa a fazer em casa nessa noite. Não esquecia coisa algum a. Sabia da ignóbil tarefa que o aguardava sob a cam a de Mathilde. Precisava descer à adega, m ais um a vez rem exer no carvão, cavar e principalm ente levar para baixo o corpo gordo e pesado. Tornar a lavar os degraus, lavar quase toda a casa.

Chantreau não se explicara, m as o Sr. Labbé sabia o que ele pensava.

— Ora, sr. chapeleiro, aposto que esqueceu de trazer as m arm itas. Tem os hoj e os fam osos chouriços com purê de batatas.

Sorriu delicado e sentou-se no seu lugar. A m oça serviu-o. Havia m enos gente que na hora do alm oço. A sala estava quase vazia. Já o consideravam cliente habitual e pegaram seu guardanapo num escaninho, com o os porteiros de hotel fazem com as chaves dos hóspedes.

Havia anunciado pelo j ornal que, após a sétim a vítim a, tudo estaria encerrado, afirm ando de boa fé que a sétim a, com o as precedentes, era indispensável. Mas a sétim a não era legítim a. Fora um acidente. Fazia parte de outro dom ínio, de outra série.

Mas ninguém , exceto ele, desconfiava disso. O com issário Pigeac teria pensado no caso? Jeantet pensaria, m ais cedo ou m ais tarde.

Partiria da ideia de que a m orte de Louise era necessária ao assassino.

Indispensável, conform e havia escrito o chapeleiro.

Que conclusões tiraria?

Pouco im portava, no fundo, o que os outros pensassem . Im portava o que ele, Labbé, pensasse.

Por causa do que acontecera na alfaiataria de Kachoudas, não havia observado a rua. Devia ter observado. Quem sabe Pigeac postara um inspetor nas im ediações da chapelaria? Estaria sendo seguido?

Nada tinha de im provável e, enquanto j antava, tentava ver através das vidraças do pequeno restaurante.

Estranho com o se sentia cansado de repente. Melancólico era a palavra.

Tinha o m esm o ar sentim ental de Chantreau no final do dia, quando bebia dem ais.

Pensava na sua casa e am argava-se à ideia de que não ousava nela entrar e talvez não entrasse j am ais. Por quê? O que fizera um a vez, seria capaz de repetir. Seria porque Louise sem pre lhe inspirara um a incontrolável repugnância? Ou por causa de Kachoudas?

Sentia ím petos de pedir-lhe perdão. Não à criada. Ao alfaiate. Lam entava não ter passado pelo banco à tarde. Se estivesse com o dinheiro no bolso teria colocado as notas num envelope, enviando-as im ediatam ente à fam ília.

Se voltasse em casa m andaria o dinheiro da carteira, m as não acreditava que voltasse.

O dono do restaurante não tinha problem as nem fantasm as. Despej ava restos de vinho num a só garrafa. Isso lem brou ao Sr. Labbé que poderia beber, que j á o fizera, e a ideia acalm ou-o por um instante.

Tudo isso acontecera há m uito tem po. As coisas se precipitavam .

Assustava-se ao ver com o tudo acontecia depressa.

Cham ou a garçonete, pagou, viu-a colocar o guardanapo no escaninho, o que, sem m otivo, provocou-lhe um aperto no coração. Deu-lhe um a boa gorj eta, que ela aceitou com espanto.

— Não vai levar nada para sua m ulher?

— Ela está sem fom e hoj e.

— Até am anhã, sr. chapeleiro.

— Até am anhã.

Patrulhas circulavam pela cidade, com o nas outras noites. Encontrou um a ao sair do restaurante. Cum prim entaram -no, ele se voltou para cum prim entar tam bém , pois estava distraído e notou que voltavam a cabeça para fixá-lo.

Por quê? Haveria qualquer coisa de estranho na sua aparência ou no seu andar?

Tentou verificar se era seguido e dirigiu-se à prefeitura, sentidos alertas, m as não percebeu nenhum ruído de passos nas proxim idades. Passou pela loj a da Sra. Cuj as, fechada a essa hora.

Não sabia aonde ia. Percebia perfeitam ente que encontraria outras patrulhas, que as pessoas habituadas aos seus horários se espantariam ao encontrá-lo num a hora em que deveria estar no quarto de Mathilde.

Acolheu o perigo. Mais exatam ente: desprezou-o. Tinha outras preocupações em m ente, um a outra preocupação, um a só, e quando dobrou à esquerda, chegando ao cais, com preendeu o que decidira fazer.

O m édico m orava num a casinha no quarteirão da estação, para além do canal. Era um a casa estreita, nem antiga, nem m oderna, m uito feia, esprem ida entre outras duas parecidas com ela.

Acontecia o Sr. Labbé visitar o am igo Paul à noite, para um a consulta, pois vivia preocupado com a saúde. Havia um a chapa a um canto do consultório e ele se lem brava de ter-se encostado, torso nu, ao painel gelado, enquanto Chantreau apagava as luzes.

— Nada absolutam ente, m eu velho. Você chegará aos cem anos.

Depois os dois tom avam um a bebida, duas, conversavam , e Paul não perm itia, é claro, que ele pagasse a consulta.

Diria qualquer coisa, que sofria pontadas do lado, por exem plo, o que há dias era quase exato. Talvez falasse nessas crises de pânico que o dom inavam às vezes, m as isso seria perigoso.

Acabariam por evocar naturalm ente os últim os acontecim entos, o hom em procurado.

— Por que você o cham ou de pobre sujeito!

Era brincar com fogo. Chantreau era bastante perspicaz para adivinhar.

Já não teria adivinhado?

Não ousaria dizer coisa algum a. O Sr. Labbé estava persuadido de que o am igo não ousaria dizer nada.

Se falara em pobre suj eito, era por haver no seu caso um a certa fatalidade. E era isso exatam ente o que queria verificar.

Não seria tam bém o que em ergia da entrevista conseguida por Jeantet?

Im possível livrar-se daquela ideia. Nos dias precedentes, enquanto ia e vinha, ela o acom panhara com o um a dor surda, à qual no m om ento não prestara atenção, m as que a intervalos tornava-se lancinante.

No cais Duperré, quando o alfaiate era vivo e o seguia, com preendera de repente que o psiquiatra de Bordeaux talvez tivesse razão.

Um barco de pesca, na escuridão, aprestava-se, com um a grande lanterna de acetileno sobre a ponte; som bras m oviam -se, m anej ando obj etos pesados.

À retaguarda havia dois cafés próxim os ao Grande Relógio. Eram cafés no gênero do Colunas, com seus fregueses habituais, que apareciam em hora fixa, j ogavam cartas, gam ão, ou xadrez. Mas não eram os m esm os grupos.

Pertencia-se ou a um ou a outro. Ele fazia parte do Colunas.

 

Na estação, um trem silvava e o saguão estava m al ilum inado; táxis passaram na rua. Poderiam vê-lo e talvez reconhecê-lo à luz dos faróis?

Dobrou à esquerda, depois à direita, enveredou pela rua do m édico, um a rua de gente hum ilde. Na casa da esquina m orava um tanoeiro e havia tonéis em pilhados na calçada.

Não viu luz na casa de Chantreau; inclinando-se, espiou pela fechadura e viu que a porta envidraçada da cozinha, ao fundo do corredor, estava ilum inada.

Com preendendo bem que o gesto seria inútil, tocou a cam painha. Esta ficava atrás da porta, era um sininho pendurado a um aram e. Im possível deixar de ouvi-lo, por causa do silêncio que reinava na casa. x Contudo, ninguém atendeu.

Eram oito da noite. Tocou de novo e viu um vulto proj etar-se nos vidros da cozinha. Percebeu que era Eugénie, a velha criada do m édico.

Este não tinha voltado, ou haveria luz no prim eiro andar, ou no gabinete do térreo. O Sr. Labbé deveria ter previsto. Há pouco, no Colunas, quando ele saíra, Paul j á havia bebido bastante. Nesse caso não voltaria para j antar.

Por certo sentim ento de dignidade, saía do café da praça de Arm as e peram bulava pelos pequenos botequins, onde não se arriscava a encontrar os am igos.

Eugénie tornou a sentar-se. Não viria abrir a porta. Não abriria. Tam bém andava com m edo. Devia estar trem endo. Se ele insistisse, seria capaz de cham ar a polícia pelo telefone.

Um a j anela abriu-se num a casa vizinha e alguém espiou para fora.

Preferiu afastar-se e esse foi um dos instantes m ais penosos de sua vida.

Até Paul o abandonava. Ocorreu-lhe a ideia de ir para a estação. Ainda havia tem po. Ouviu o arfar da locom otiva: Era o trem de Paris, que partiria dentro de m inutos. Tinha no bolso dinheiro bastante para a passagem .

E depois? Para quê?

Kachoudas estava m orto. Era talvez a única m orte de que se sentia culpado.

A lem brança de Louise só lhe inspirava repugnância. A recordação de Mathilde e das outras acalm ava-o, dava-lhe vontade de discutir friam ente, provar que tinha razão, que se lim itara a fazer o que era necessário.

Por que não fora até o banco, ou não trouxera o dinheiro da carteira?

Ao passar j unto ao canal, ouviu os passos de um a patrulha e então, sem refletir, fez m eia-volta. Percebeu im ediatam ente que fora um erro, m as era tarde dem ais. Se voltasse à direção anterior causaria suspeita.

As pessoas que form avam a patrulha apressaram o passo. Tentaram sem êxito alcançá-lo com um a lanterna de bolso. Enveredou por um beco, esteve a ponto de correr, apressou o passo, m as continuou a ouvir a patrulha e um a voz perguntando: — Onde foi que ele se m eteu?

Mergulhou num recanto às escuras. Sabia que era ridículo, m as nada podia fazer. Teve sorte. Os quatro hom ens passaram a uns vinte passos sem perceber o seu esconderij o e dez m inutos depois ele voltou a cam inhar.

Estavam todos contra ele, inclusive Jeantet, inclusive Chantreau. Haviam transform ado a cidade num a espécie de arm adilha, na qual com eçava a se debater.

Sentia-se realm ente cansado. Quase não dorm ira na noite anterior. E não podia voltar para casa.

Ao contornar a rua de São Salvador, por um instante j ulgou que o seguiam .

Quem sabe a essa hora o com issário Pigeac teria arrom bado a porta da chapelaria?

A prim eira providência da polícia seria subir ao prim eiro andar e entrar no quarto.

Se Chantreau estivesse em casa, ele teria tido oportunidade de recuperar a calm a. Pouca coisa seria necessária. Não fosse a m orte de Kachoudas, talvez voltasse, apesar de tudo, à casa da rua do Minage.

Passaria duas horas desagradáveis e, um a vez Louise na adega, o caso estaria encerrado.

Principalm ente se Paul não tivesse falado há pouco, durante a partida, do pobre suj eito. A frase não indicaria a im possibilidade de um fim ?

Não sentia rancor contra ninguém , nem Kachoudas, nem o m édico, nem o com issário que se m ostrara delicado m as frio. Nem m esm o contra Louise.

Todo m undo o prej udicava. Perseguiam -no com o a um anim al. Não lhe deixavam sequer um a cam a para repousar.

Deviam ter colocado um policial nas proxim idades da casa.

Se com preendessem , agiriam de outra m aneira talvez. Mas não podiam com preender e ele não os aj udara. Explicara-se m uito m al nas cartas ao j ornal.

Que pensariam se ele quisesse hospedar-se no hotel?

A cada passo que dava na cidade, aum entava o perigo porque ele não se achava onde deveria estar, porque todo m undo sabia que o seu lugar era à cabeceira de Mathilde.

Poderia gritar que Mathilde j á não existia, que ele agora tinha o direito de se portar com o os outros?

Tinha até o direito de ir ao cinem a! Havia um nas proxim idades de onde se encontrava. Via as luzes, os cartazes, percebia o sopro quente vindo do interior. Fazia tanto tem po que não ia ao cinem a! Ficaria em baraçado ao aproxim ar-se do guichê, estender o dinheiro. Conhecia o dono, que frequentava o Colunas e devia estar nas proxim idades da caixa.

Estava realm ente cansado. Gostaria de tom ar um banho quente, deitar-se num a cam a de lençóis bem frescos. Gostaria que alguém , um a m ulher suave, estivesse j unto dele e lhe falasse com carinho.

Lem brou-se de repente da Srta. Berthe, j ulgou sentir o seu perfum e.

Pensara nela nos dias precedentes. Já não sabia bem o que pensar. Não tinha hesitado em levar a corda do violoncelo?

Se Paul tivesse razão, se o psiquiatra tivesse razão, não valia a pena lutar, m as não queria adm iti-lo e acabou por fazer m eia-volta, cam inhando m ais um a vez ao longo do cais.

Brincava com a sorte, com sua últim a chance, estava bem cônscio disso.

Era pouco m enos de nove horas e Chantreau j á devia ter bebido a sua cota.

Talvez o encontrasse em casa. Mesm o em briagado, ele o salvaria. Ignorava o que diria, não tinha im portância. Por m edo das patrulhas dava m il voltas.

Um sargento da polícia, postado a um canto da rua, no escuro, acom panhou-o com o olhar por um instante. Devia tê-lo reconhecido.

Não se viam luzes no prim eiro pavim ento. Pela fechadura avistou de novo a porta da cozinha e tocou.

Depois de esperar um instante afastou-se, passos indecisos com o os de um bêbado.