Os Fantasmas do Chapeleiro
Capítulo 5
UMA PORÇÃO DE PEQUENAS COISAS aborreciam -no, irritavam -no desde a m anhã. Valentin chegou para trabalhar com m eia hora de atraso, um a com pressa em torno da garganta e olhos brilhantes de febre; a gripe assum ira tais proporções que ele j á não se dava ao trabalho de enfiar o lenço no bolso.
Passara o dia literalm ente de nariz escorrendo; liquefazia-se a olhos vistos, e tinha a voz tão rouca que não se com preendia o que dizia.
O chapeleiro devia tê-lo m andado voltar para casa. A m ãe do rapaz o consideraria, provavelm ente, um verdadeiro m onstro por m antê-lo no trabalho em tais condições. O próprio Valentin esperava ser dispensado. O pior era que o Sr. Labbé tinha pena dele. Percebia que o pobre rapaz sentia tonteira às vezes.
— Tom ou aspirina, Valentin?
— Tom ei, senhor.
— Está com placas brancas na garganta?
— Não, senhor. Mam ãe verificou hoj e de m anhã. A garganta está m uito verm elha, m as não tem placas.
Ainda bem , pois o Sr. Labbé pegava angina com facilidade e o m om ento não era propício. A gripe de Valentin era tanto m ais ridícula porque deixara de chover, o céu estava lím pido. Verdade que fazia frio e às nove da m anhã a respiração dos transeuntes form ava vapor.
Quando saiu para com prar o j ornal, trouxe para Valentin pastilhas m entoladas e por duas ou três vezes durante a m anhã, nos fundos da loj a, recom endou: — Descanse um pouco. Não fique perto da vitrine. Aproxim e-se da estufa.
Perto da vitrine o ar estava gelado.
Louise tam bém lhe causava preocupações. Voltara na véspera às nove horas, com o sem pre, e desde então apresentava o que ele cham ava de expressão bovina. Era periódico. Possivelm ente coincidia com certas funções do seu organism o. Contudo, ele notara que em geral acontecia após um a de suas visitas a Charron.
Alguém devia aborrecê-la em casa — os pais, um nam orado, ou um a am iga. O Sr. Labbé pagava bem . Não havia discutido o salário pedido.
Perm itia-lhe com er do que bem entendesse. Raram ente lhe fazia um a observação. Apesar disso, ela se m ostrava reservada, talvez rancorosa?
Quem adivinharia o que se passava por trás daquela testa arqueada?
Percebia-se seu m au hum or até na m aneira de andar, de m over os obj etos.
Que im portava isso ao chapeleiro?
Com pensando esses pequenos aborrecim entos, lançara seu relatório na caixa do correio central e encontrara na prim eira página do j ornal um aviso enquadrado:"O prefeito de La Rochelle, oficial da Legião de Honra, pede com insistência à população que se mostre mais prudente que nunca na noite de segunda-feira, 12 de dezembro. Por bravata, sem dúvida, o indivíduo que aterroriza a cidade há mais de dois meses, e que já fez seis vítimas, anunciou uma nova morte nesse dia. Pedimos em especial às senhoras que não saiam sozinhas depois do anoitecer e às mães que não permitam aos filhos ir à rua.
"A municipalidade organizará um serviço para levar em casa as empregadas de escritório, as balconistas e operárias.
"As patrulhas serão reforçadas."
Olhou em frente; nada à vista na casa dos Kachoudas. Este trabalhava febrilm ente, m al levantava a cabeça.
Era só? Mais um detalhe: desde as três da tarde, quando o firm am ento assum ia um a tonalidade rosada, j á se avistava um a gorda lua prateada.
Kachoudas não se portou à noite com o habitualm ente.
— Feche a loj a, Valentin.
— Sim , senhor.
Um relance para a casa da frente. Atrasou-se propositalm ente. O alfaiate acabou saindo de casa, m as só depois de o chapeleiro ter percorrido um a centena de m etros. Nas outras noites não esperava tanto.
O Sr. Labbé entrou no Colunas, apertou a m ão de Chantreau, de Caillé, de Laude e de Oscar, o dono do café.
— Fiquei no seu lugar enquanto não chegava — disse este últim o, levantando-se.
— Hoj e não tenho tem po para j ogar.
— Um rubber, Léon — insistiu o m édico.
— Mathilde está resfriada. Prom eti voltar logo. Que fazia Kachoudas? A porta do café não se abria. Nos outros dias ele entrava instantes após o chapeleiro. O fato irritou-o. Gabriel, com o sem pre, quis tirar-lhe o sobretudo, m as ele não perm itiu por causa do pedaço de chum bo que lhe pesava no bolso.
— Só vou ficar alguns m inutos.
Foi Laude quem gracej ou com o um idiota: — Até parece que você tam bém está com m edo do estrangulador! Se isso continua, a cidade vai ser tom ada de histeria.
Por onde andaria Kachoudas? Estava atrás dele quando dobrara a esquina da rua do Minage. Tom ou o picon-grenadine.
— Um rubber — insistiu Chantreau. — Só enquanto não chega alguém .
Foi obrigado a recusar. Estava na hora de sair. As calçadas pareciam quase brancas sob o luar que recortava som bras nítidas com o folhas de zinco.
Era a prim eira vez que se irritava. Teve a im pressão de que, ao sair, falavam dele. Que diriam ? Atravessou a esplanada da praça de Arm as para enveredar pela rua Réaum ur, e só então ouviu passos à retaguarda, voltou-se e distinguiu o vulto do alfaiate.
Então m udara deliberadam ente o m odo de agir. Não entrara no café.
Depois de ler, com o todo m undo, que o assassino faria nesse dia a sétim a vítim a, duvidara de que o chapeleiro fizesse um a breve aparição no Colunas.
Evitaria segui-lo de perto novam ente, o que acabaria por cham ar a atenção?
Talvez tivesse encontrado alguém na hora de entrar, o com issário Pigeac, por exem plo? Era im provável. Pigeac não iria ao café nesse dia. De seu quartel-general devia estar dirigindo os reforços da polícia e as patrulhas voluntárias.
O Sr. Labbé passou em frente à prefeitura, chegou à pracinha diante da casa do bispo e dispôs-se a esperar. Havia j anelas ilum inadas no velho im óvel de pedra cinzenta. Kachoudas m antinha-se prudentem ente a uns cinquenta m etros.
Os nervos do chapeleiro estavam superexcitados, a ponto de sentir ím petos de voltar para casa, um a vez que não podia regressar ao café depois do que havia dito a respeito da saúde de Mathilde.
Experim entava a deprim ente sensação de ser vítim a de um a inj ustiça.
Havia feito o possível. Durante sem anas não tivera descanso, pensara em tudo, até nos m ais ínfim os detalhes. Graças a isso, a todo o trabalho que tivera, conseguira sucesso sem entraves.
Chegava ao fim . Nessa noite o caso estaria encerrado. Aceitara sem recuar um risco suplem entar, um a vez que m adre Santa Úrsula estaria acom panhada de outra religiosa. A esta destinava-se o cano de chum bo. Ele a golpearia para aturdi-la, o que lhe daria tem po de liquidar a ex-Arm andine de Hautebois. Com suas roupas de m il pregas não poderia sair correndo. E não a im aginava gritando a plenos pulm ões.
Era um a situação delicada, difícil, exigindo precisão e sangue-frio.
Ainda na véspera pensava nisso com certo prazer, im aginando sem nervosism o a presença do alfaiate.
Por que desde a m anhã estabelecera-se com o que um a conj uração contra ele? O centro da praça estava branco de luar. Um a patrulha passou na rua e ele distinguiu a silhueta do peixeiro que estava sem pre em briagado e que era conhecido por sua brutalidade.
Norm alm ente as duas religiosas estariam no bispado a essa hora. Era o dia de m adre Santa Úrsula e ela não faltava nunca. Não só Mathilde lhe dizia sem pre, com o ele o verificara no m ês anterior.
Na últim a vez, ela saíra do bispado às quinze para as seis. Já havia soado quinze para as seis. Eram quase seis horas e as luzes continuavam acesas na construção de pedra, não se ouvia ruído algum . O Sr. Labbé fixava em vão a porta que não se abria, enquanto a intervalos Kachoudas batia com os pés no chão para se aquecer.
O chapeleiro tam bém sentia os pés frios. Súbito pensou com m ais intensidade em m adre Santa Úrsula. Não teria observado que todas as vítim as do estrangulador eram antigas colegas de classe?
Não lia os j ornais? Nesse caso, deviam ao m enos falar no assunto diante dela. Os nom es eram conhecidos. Que outros não fizessem a aproxim ação era, a rigor, explicável. Mas ela?
Vinte e quatro de dezem bro estava próxim o. Essa data reavivaria, com certeza, suas recordações.
Não podia tocar a cam painha do bispado e perguntar se a religiosa estava lá dentro. Os m inutos se arrastavam . Soaram seis horas. Que estaria pensando Kachoudas esse tem po todo? Porque ele pensava. O Sr. Labbé tinha até a im pressão de que com eçara a raciocinar de m odo novo. A prova era o com portam ento diferente.
Queria os vinte m il francos, era hum ano. Um a vez que estava seguindo o chapeleiro, esperava que este acabasse por com eter um erro, fornecendo a prova que lhe perm itiria reclam ar a recom pensa.
Mas quais seriam os m eandros exatos de seu pensam ento? Era o que o Sr. Labbé gostaria de conhecer. O bispado, por exem plo. Que evocaria esse prédio para o hom enzinho do Oriente Próxim o?
Madre Santa Úrsula não aparecia. Não estava ali, provavelm ente. Não saíra do convento, pouco im portava se por prudência, ou qualquer outro m otivo. Talvez o bispo estivesse viaj ando, m as não era exato, pois o Sr. Labbé lia atentam ente o j ornal e as viagens do prelado eram regularm ente anunciadas.
A verdade talvez fosse m ais trivial. A religiosa, com o Valentin, estava gripada, com dor de garganta.
Im possível perm anecer ali indefinidam ente. Aguardou o quarto de hora e então se pôs a cam inhar, dom inado por um m al-estar que não era apenas inquietação.
Para ser exato, nada tinha de inquietação. Pouco im portava o que Kachoudas pensasse. Fornecera-lhe um a pista, era exato. A m ente do alfaiate devia estar trabalhando na pista do bispado. Para alguém que havia passado a infância na cidade, que tivesse tido um a irm ã aluna do convento, em especial, o fato poderia levar a um a conclusão.
Não era o caso do pobre artesão arm ênio. O Sr. Labbé não tem ia Kachoudas. Não tem ia ninguém . A prova é que deliberadam ente tornara a tarefa m ais difícil e perigosa anunciando a m orte da sétim a vítim a para essa segunda-feira.
Não queria voltar para casa m ais cedo que de costum e por causa de Louise. Ela tam bém era incapaz de raciocinar, disso tinha certeza, m as não queria deixar nada ao acaso, não queria ler a surpresa estam pada nos olhos vazios da m oça.
Passou sob o Grande Relógio e aproveitou-se de não haver ninguém nas proxim idades para atirar o cano de chum bo nas águas do porto. No cais via-se um a porção de pequenos cafés e bares frequentados principalm ente por pescadores; sentiu vontade de entrar num deles, tom ar qualquer coisa, e precisou conter-se.
Não tinha m edo. Era m ais com plicado e inquietador. Nas outras vezes, m esm o naquela em que Kachoudas servira de testem unha, sentia-se seguro de si. Todo o seu ser era percorrido por ondas de confiança, de tranquilidade.
Kachoudas tivera o cuidado de se m anter a distância. Quem sabe nesse dia com etia um erro ao m ostrar-se tão prudente?
Era absurdo. O Sr. Labbé não queria entregar-se a tais ideias, m as não conseguia afastá-las de todo. E apresentou a si m esm o boas razões.
— Por m ais aterrorizado que estej a, Kachoudas acabará por falar.
Prim eiro, não era exato. Se ele tivesse am igos, talvez. Mas era um isolado. Os Kachoudas form avam um a ilhota estrangeira na cidade. O alfaiate não j ogava cartas com ninguém , não pertencia a grupo algum , a nenhum a sociedade. Não havia outros representantes de sua raça em La Rochelle. Viviam entre eles, com sua cozinha, seus hábitos e seu odor.
Para que liquidá-lo em lugar de m adre Santa Úrsula? Aliás, ele desataria a correr com o um a lebre tão logo o Sr. Labbé fizesse m enção de se aproxim ar.
Por que teria tido sem elhante ideia? Cam inhava pela calçada, m ãos nos bolsos, quando passou por um a patrulha; o salsicheiro que ia na frente cum prim entou, delicado: — Boa-noite, Sr. Labbé.
Passou perto do canal, no ponto onde havia atacado a Sra. Delobel e experim entou a sensação nostálgica de um a época passada. Chegou a sentir-se acabrunhado.
Estaria tornando-se covarde, inquieto, hesitante? A sensação era m ais física que m oral, com o certas fadigas que se abatem de repente sobre a pessoa, tal um a gripe.
Afinal, Valentin estava gripado e ele talvez tivesse pegado a gripe. A ideia consolou-o. Não estava m uito longe do convento da Im aculada Conceição e m ais um a vez perguntou a si m esm o por que m adre Santa Úrsula não teria saído de casa. Kachoudas continuava a segui-lo a distância e o chapeleiro pensou que gostaria m uito de lhe falar.
Era a única pessoa com quem gostaria de conversar nesse dia. Ele o vira agir. Sabia. Mas com o interpretaria seus atos?
Claro que seria incapaz de com preender. Nem ele, nem pessoa algum a com preenderia, e isso era um a de suas preocupações. Se falasse sobre o bispado, quem sabe Kachoudas, por um toque de genialidade, chegaria à verdade? Ele m ais que ninguém , pois há anos via a silhueta de Mathilde im óvel atrás da cortina, assistia às idas e vindas do chapeleiro no quarto.
O salsicheiro tinha quase o m esm o espetáculo diante dos olhos. Contudo, só subia ao segundo pavim ento para se deitar e, a partir de oito da noite no m áxim o, estava sem iem briagado.
Louise? Ela não pensava. Odiava-a. Cada dia um pouco m ais, sem razão precisa. Estava na casa com o um a farpa enfiada na sua pele. Sua sim ples presença lhe causava m al-estar físico.
Passava diante da vitrine da Sra. Cuj as, onde o viúvo colocara um a m oça no balcão. Ela preparava as refeições do funcionário da prefeitura e dorm ia na casa. Acabariam por dorm ir j untos.
O Sr. Labbé pensou na Srta. Berthe e lam entou não poder visitá-la.
Nesse dia era im possível. Tarde dem ais". Anunciara aos am igos que, por causa da m ulher, teria que voltar cedo para casa.
Ele a visitaria no dia seguinte. Seria divertido se Kachoudas esperasse à porta, na rua Gargoulleau, enquanto ele trepava.
Mas... felizm ente pensava em tudo. Era o prim eiro a surpreender-se com isso. Havia tantos detalhes a prever, tantas possibilidades, que seria desculpável se esquecesse algum a coisa.
Percebeu de repente que j á não poderia ir à casa da Srta. Berthe, com o tinha o hábito de fazer duas ou três vezes por m ês. Por causa de Kachoudas!
De fato, ele poderia entrar em pânico, im aginando que ia estrangular a m oça, e correria a avisar à polícia.
Kachoudas era incôm odo, m as sem pre necessário. Mesm o o ruído de seus passos à retaguarda acabava por se tornar quase indispensável.
Dobrou a esquina da rua do Minage, sentindo-se cada vez m ais abatido e procurando a razão. A irritação que isso lhe causava transform ava-se em angústia.
Nas outras vezes experim entara tal sensação de plenitude quando se aproxim ava de casa!
Não o confessaria a ninguém , nem m esm o a Kachoudas, que sabia; hoj e experim entava com o que um sentim ento de culpa. A sensação de alguém que não cum pria a tarefa que lhe fora designada.
Um dia, quem sabe, conversaria com o alfaiate, a. quem não poderia j am ais estrangular. Para com eçar, não se achava na lista. Depois m orava em frente e as pessoas com eçariam a desconfiar do chapeleiro.
Tirou o m olho de chaves do bolso, fechou a porta com cuidado e passou a tranca. Fazia calor na loj a, onde se percebia cheiro de eucalipto, o cheiro do resfriado de Valentin.
— A senhora cham ou?
— Não, senhor.
Louise teria observado que a patroa, a quem nunca vira, não cham ava quando o Sr. Labbé estava ausente? Que contaria no dom ingo aos pais, às am igas?
Cozinhava repolho. Sabia m uito bem que ele não gostava de repolho, m as preparava assim m esm o. Era esse tipo de pessoa. Quando ele fazia algum a observação, fixava-o tranquilam ente sem um a palavra, sem se desculpar.
Ela gostava de repolho e pronto!
Despiu o sobretudo, tirou o chapéu, enfiou a corda do violoncelo no côncavo de um a form a de m adeira, nos fundos da loj a, e com eçou a subir a escada em espiral. Continuava triste, desanim ado, apático.
E isso o inquietava cada vez m ais. Fez tudo o que tinha a fazer, seguindo os ritos escrupulosam ente: as venezianas, a poltrona, depois o j antar j ogado no vaso sanitário, a descarga. Não esqueceu de falar a m eia voz. E ao descer fixou Louise com ódio. A tentação foi tão violenta que esteve prestes a ir buscar a corda de violoncelo na oficina.
Não durou, felizm ente. Era a últim a coisa que deveria fazer. Nunca em sua própria casa! Principalm ente em se tratando daquela fam ília de cam poneses desconfiados, que lhe cairiam nas costas.
— Apareceu alguém ? — perguntou, recuperando o controle.
— Ninguém ! Parecia dizer: — Para que perguntar, j á que nunca aparece pessoa algum a?
Pessoa algum a! Há anos e anos! Pois toda a cidade sabia que Mathilde não suportava a presença de qualquer ser hum ano, à exceção do m arido. O m ais leve ruído estranho na casa deixava-a enfurecida.
A contragosto rondou a sala de j antar, relanceando às vezes para a m oça gorda e burra. Acabou por abrir o bufê e pegar a garrafa de conhaque. Ela que pensasse o que bem entendesse! Pior para ele que fizera o gesto, subindo a escada de copo na m ão e agravando a inquietude, o sentim ento de culpa.
Nunca tom ava bebida alcoólica à noite depois do j antar. Por que bebia hoj e? Perturbou-se m ais ainda ao afastar a cortina e não ver Kachoudas no seu lugar à m esa, pois o alfaiate tivera tem po m ais que suficiente para j antar.
Vasculhou em vão com o olhar todo o aposento. Por acaso a porta da cozinha estava fechada. Que estaria tram ando? Ter-se-ia trancado com a m ulher para contar tudo?
Precisava absolutam ente controlar-se. Aborreceu-se ainda m ais consigo m esm o quando se surpreendeu prestes a tom ar um gole de conhaque direto da garrafa. Obrigou-se a ir até a escrivaninha e encher o copo lentam ente para depois tom á-lo aos golinhos.
Quando voltou à j anela e de novo afastou a cortina, Kachoudas estava à vista. Parecia nunca ter saído do lugar, a tal ponto que o chapeleiro perguntou a si m esm o se teria olhado direito há instantes.
Tudo deveria estar term inado nessa hora. Ele se prom etera com tal entusiasm o esse descanso! Não pensava noutra coisa há sem anas, dia após dia!
E o caso não estava encerrado. Madre Santa Úrsula continuava viva no seu convento. Quem sabe teria guardado tam bém a foto do dia da distribuição de prêm ios? Bastava relancear para a fotografia e com preenderia tudo.
Súbito, im obilizou-se no m eio do quarto. A crispação desapareceu-lhe da fisionom ia, os m úsculos se distenderam e por um breve instante quase desatou a rir. Acabou por sorrir apenas, m as dava no m esm o.
Julgava pensar em tudo, procurava não esquecer coisa algum a e deixara de levar em conta um detalhe insignificante.
Tudo por causa da fotografia. Com eçara baseando-se na foto. Com a aj uda da foto estabelecera um a lista. Ela continuava a dom inar seus feitos e gestos, assim com o seus pensam entos.
Por que se apressaria a ponto de liquidar duas m ulheres na m esm a sem ana não fosse o dia 24 de dezem bro?
Madre Santa Úrsula não poria os pés na chapelaria, nem a 24 de dezembro, nem em qualquer outra data. Não teria licença para isso.
Mathilde não havia dito que, m esm o por ocasião da m orte da m ãe, ela não tivera licença de ir em casa?
Lim itava-se a enviar um a im agem religiosa e um a carta de quatro páginas, escrita em letra fina e regular, que term inava invariavelm ente com :"... Peço a Deus que a tenha em Sua Santa Guardar E então? Sem se lem brar disso preocupara-se inutilm ente, perdera tem po esperando em frente do bispado.
Não havia razão algum a para colocar m adre Santa Úrsula na lista.
Outras coisas no gênero lhe teriam escapado? Voltou a sentir-se inquieto, arrum ou achas de lenha na lareira, postou-se à j anela, verificou se o alfaiate estava no lugar e pela porta entreaberta do fundo avistou a Sra. Kachoudas, que lavava roupa de criança na pia da cozinha.
Era preciso recom eçar tudo desde o início, m as nessa noite sentia-se incapaz. Acabava de beber um após outro três cálices de conhaque e envergonhou-se.
Lem brava-se com am argura das sem anas precedentes, quando se sentia seguro, tão superior a todo m undo.
Louise subia a escada arrastando os pés, fazendo barulho no patam ar, com o de costum e, e os dedos do Sr. Labbé se crisparam com o se quisessem apertar-lhe o pescoço.
Isso bastaria para que o prendessem . Acabaria fatalm ente preso caso se descuidasse a tal ponto. E depois? Não seria um a boa ocasião para explicar tudo? Bebeu m ais um pouco. Não abriu o livro. Fazia m eia hora que devia ter m ergulhado tranquilam ente no processo do incendiário do Jura.
Dera-se ao trabalho de expor nas cartas ao j ornal, não um a, porém várias vezes, com insistência, arriscando-se a colocar a polícia ou Jeantet na sua pista.
Tratava-se de uma necessidade.
Havia dito, em resum o: — Vocês m e tratam de louco, de m aníaco, de obcecado (tinham falado tam bém em tarado sexual, m as nenhum a das velhas senhoras fora violentada). Estão enganados. Tenho a m ente perfeitam ente sadia. Se m eus atos parecem anorm ais é porque vocês não com preendem . Infelizm ente o cuidado com m inha segurança pessoal m e proíbe esclarecê-los. Vocês com preenderiam . Há sete m ulheres na lista e não fixei o núm ero ao acaso.
Aj o com lógica porque assim é preciso. Perceberão depois que a sétim a m orrer. Não acontecerá m ais nada. La Rochelle voltará à calm a.
Não m atara a sétim a. O j ornal anunciaria isso no dia seguinte. E por causa disso ninguém m ais acreditaria nele. Não só deixara de m atar, com o acabava de descobrir que a m orte de m adre Santa Úrsula era supérflua.
Que pensariam as pessoas? Que ele escrevia qualquer coisa, só para se tornar interessante? Que escolhia as vítim as ao acaso?
Que tinha m edo? Que o aviso do prefeito produzira efeito?
Estava de chinelos e roupão, com o todas as noites. Acendeu o cachim bo de espum a, o que fum ava habitualm ente nessa hora e que tinha um gosto diferente dos outros; sentou-se na poltrona com o seu livro e m anteve o conhaque ao alcance da m ão. Isso bastava para indicar a ele próprio que havia qualquer coisa de anorm al.
Sentia certa afeição por Jeantet porque o rapaz lhe perm itia discutir seu próprio caso. Os dois entregavam -se a um a verdadeira polêm ica nas colunas do Echo des Charentes, cada qual à procura de novos argum entos.
Jeantet chegara a viaj ar a Bordeaux para consultar um psiquiatra de renom e e este, após longas considerações científicas, predissera: — Ele só vai parar quando o prenderem . Acrescentara após um instante de reflexão, conform e sublinhava Jeantet: — A m enos que se suicide.
O chapeleiro respondera, firm e: — Ninguém m e prenderá. Não vou m e suicidar. Não tenho razões para isso. Depois de liquidada a sétim a pessoa da lista, o caso está encerrado.
E repetira: — É um a necessidade.
Já não era um a necessidade m atar sete, m atar a sétim a, um a vez que a 24
de dezem bro m adre Santa Úrsula não entraria na casa da rua do Minage.
Assim , de acordo com o que havia anunciado, com um a variação, o caso estava encerrado. Podia descansar e continuar a brincar de rato e gato com Kachoudas, que não com preenderia nada ao vê-lo daí em diante levar um a vida totalm ente norm al.
Continuaria a segui-lo todos os dias, a espiá-lo no Café das Colunas.
Um a patrulha passava pela rua, três ou quatro hom ens, cuj os passos ecoavam na calçada gelada. Havia um as vinte espalhadas pela cidade. Os policiais voluntários se revezavam , aquecendo-se por turnos na grande estufa da delegacia policial. O prefeito m antinha-se perm anentem ente no seu gabinete, para onde transm itiam relatórios negativos. Jeantet se achava na gráfica, j unto às m áquinas que não tardariam a rodar, a fim de redigir um breve artigo de últim a hora.
O Sr. Labbé levantou-se bruscam ente, nervos à flor da pele. Queria agir, fazer qualquer coisa, de tal m odo a im obilidade do quarto, a atm osfera quase sólida à força de se estagnar, acabava por afetá-lo.
Fora um erro beber e agora sentia-se obrigado a continuar. Caso contrário seria capaz de sair, andar pelas ruas, capaz até de levar a corda de violoncelo com os pedacinhos de m adeira.
Ouviu o rangido das m olas m etálicas no quarto da em pregada e o ódio pela m oça gorda atingiu tal intensidade que se tornou patético.
Julgou que se acalm aria pegando a tesoura, os j ornais dos quais recortava letras e palavras, abrindo o vidro de cola e colocando na sua frente um a folha de papel em branco.
Era preciso dizer a todos...
Dizer o quê? Ficou im óvel, tesoura no ar e, pela prim eira vez em anos, sentiu um a inesperada vontade de chorar. Experim entava a sensação de um a profunda m aldade do destino. Trabalhara dem ais, com sim plicidade, com coragem . Organizara tudo com paciência, prudência, pensara em tudo, e...
Nessa noite o caso devia estar encerrado e, no entanto, não estava. Iam zom bar dele e teriam razão.
Não era o alfaiate, vizinho da frente, quem o perturbava; com seu raciocínio confuso não entenderia coisa algum a. Não era tam bém m adre Santa Ursula, aristocrática e altiva, na serenidade do seu convento.
Não tinha m edo de ninguém e era o que todos diriam , todos, fossem quem fossem , principalm ente o com issário Pigeac, o prefeito que se j ulgava grande personagem , e Jeantet com os dem ais.
Não tinha medo de ninguém.
Exceto de si m esm o. Recom eçava a com preender o que acontecera há instantes, no m om ento em que cam inhava pelo cais Duperré. Julgava a princípio que seu m au hum or provinha de não ter encerrado o caso, com o esperava, do fato de a religiosa não aparecer no bispado.
O m al-estar aum entara gradativam ente e por um segundo chegara a pensar em substituir m adre Santa Ursula pelo alfaiate.
Isso provava que se enganara.
Por que havia rondado Louise m ais tarde? Não era a prim eira vez, ele descobria nesse m om ento. Acontecera-lhe pensar, fixando-a: — Quem sabe depois de liquidar as outras?
Bebeu. Precisava beber. Sentia-se tom ado de vertigem . O que entrevia era assustador. Pensou recuperar o equilíbrio obrigando-se a pensar com m ais calm a e foi buscar a fotografia, m as os rostos das m oças, fixados num a expressão artificial, j á não despertavam nele qualquer ressonância.
Aquela m iserável Louise não dorm ia, virando e revirando pesadam ente na cam a, com o se farej asse um perigo na casa.
Que se acalm asse! Não tocaria nela. Estava calm o. -Voltaria a se acalm ar. Precisava sim plesm ente de refletir, m as era inútil tentar nesse dia.
Tinha bebido. Tanto pior. Melhor continuar, para aturdir-se, dorm ir pesadam ente; no dia seguinte acordaria confiante.
Provaria a todos então que era tão sadio de m ente com o de corpo. Não tinha tara algum a, consultara várias vezes m édicos de renom e. O pai m orrera de doença cardíaca aos setenta e dois anos, na posse de suas faculdades m entais. Fora chapeleiro na m esm a casa, na m esm a rua, na época em que a rua do Minage era um a das vias com erciais da cidade. Era personalidade im portante, fazia parte do conselho m unicipal.
O filho com eçara a estudar direito em Poitiers e, de sua livre vontade, no terceiro ano, decidira assum ir a chapelaria.
Era assunto que só lhe dizia respeito. Só a ele.
Era perfeitam ente sadio.
Ainda havia luz no ateliê do alfaiate, m as este j á não se encontrava à m esa. Estava recostado, fum ava um cigarro que acabava de enrolar e conversava tranquilam ente com a m ulher, que se sentara por um instante.
O Sr. Labbé não se deixava im pressionar por pessoa algum a.
— Eles que digam , pensem e escrevam o que bem entenderem !
Tinha bebido a m etade da garrafa e com eçava a com preender. Não era à toa que se im prim ia isto ou aquilo a seu respeito. Fazia parte de um plano preconcebido. Queriam acossá-lo, abalar-lhe os nervos para m ais facilm ente pegá-lo.
Jeantet, o prefeito, Pigeac e até seu am igo Caillé estavam de conluio.
Tinham forj ado um plano. Quem sabe a consulta ao psiquiatra de Bordeaux não passava de um a farsa? A m enos que tam bém o m édico fizesse parte do golpe.
Louise podia virar e revirar até adoecer no sofá-cam a barulhento. Ele não se m exeria de onde estava.
O m elhor era deitar-se im ediatam ente. Que restava fazer? Era preciso não esquecer coisa algum a. Sentia a cabeça pesada. Seria absurdo pegar a gripe de Valentin. Por que não o m andara de volta à casa da m ãe?
Colocou a foto no lugar e m ais os j ornais, a tesoura, e arrolhou o vidro de cola.
Perdera m adre Santa Ursula, paciência. Um a vez que ela nunca visitaria a casa no dia 24 de dezem bro, isso não tinha im portância.
Caso encerrado, portanto.
Era o que devia repetir para si m esm o. Caso encerrado. Precisava dorm ir e, se necessário, tom ar ainda um trago de conhaque. E dessa vez bebeu no gargalo.
Merecia ou não?
Fim!
Fosse qual fosse a reação dos outros!
Por que, então, apertava convulsam ente o travesseiro, com o um a criança prestes a chorar?