Os Fantasmas do Chapeleiro
Capítulo 2
AO CHEGAR DIANTE dos postigos fechados por Valentin deteve-se e desabotoou o sobretudo para tirar do bolso o m olho de chaves. Fazia sem pre os m esm os gestos quanto voltava para casa à noite. Alguém estava"parado na esquina da rua do Minage. Era Kachoudas, que esperava o chapeleiro fechar a porta para entrar em casa.
O Sr. Labbé ergueu os olhos e avistou a m ulher do alfaiate no ateliê do prim eiro andar. Inquieta, viera espiar pela j anela.
Girou a chave na fechadura, penetrou na escuridão cálida, tornou a fechar a porta antes de girar o interruptor e colocar a tranca. Em seguida ficou de pé, rosto colado a um a fresta do postigo.
O alfaiate, m antendo-se prudentem ente no m eio da rua, chegou finalm ente à altura de sua casa. Cam inhava de m odo estranho, com o que aos em purrões; pela prim eira vez o Sr. Labbé reparou que tinha um defeito na perna. Kachoudas tam bém olhou para cim a, m as sua m ulher acabava de entrar na cozinha. Mergulhou na loj a, de onde foi obrigado a sair novam ente para colocar os postigos, pois não tinha em pregado para fazê-lo em seu lugar. Seus m ovim entos eram nervosos, bruscos. Devia ter gritado, cam inhado na direção da escada — a m esm a escada em espiral que existia na chapelaria: — Sou eu!
Apressado, fechou a porta com o ferrolho. A luz do térreo se apagou e pouco depois acendeu-se a do ateliê, onde o prim eiro cuidado do alfaiate foi espiar pela j anela.
O Sr. Labbé afastou-se do seu posto de observação, devolveu à caixa o restante do dinheiro que havia retirado ao sair, dirigiu-se aos fundos da loj a e m anuseou por um instante um obj eto que havia retirado do bolso e que parecia um brinquedo arm ado por qualquer garoto de rua — dois pedaços de m adeira ligados por um fio.
Continuava de sobretudo m olhado e, quando se inclinou, gotas de chuva tom baram -lhe do chapéu. Só o retirou ao pé da escada onde havia um arm ário, os olhos na risca de luz sob a porta da cozinha.
A m esa estava posta com um só talher, toalha branca e um a garrafa de vinho fechada com rolha de prata.
— Boa-noite, Louise. A senhora cham ou?
— Não, senhor.
A em pregada observou-lhe os pés quando ele se sentou diante da estufa, apareceu com os chinelos e aj oelhou-se diante dele. Nunca lhe havia pedido isso. Deviam ter-lhe ensinado na fazenda a retirar o calçado dos hom ens, do pai e dos irm ãos, quando voltavam do cam po.
Era tão quente ali com o na loj a, e o ar tinha a m esm a pesada im obilidade que revestia os obj etos de um a aparência pétrea, de eternidade.
Da j anela que se abria para o pátio vinha o ruído da chuva; m ais próxim o, um antigo relógio, na sua caixa de nogueira, balançava o disco de cobre m ais lentam ente, era-se capaz de j urar, que em qualquer outro local. A hora não era a m esm a da chapelaria, do relógio do Sr. Labbé, nem do despertador do prim eiro andar.
— Apareceu alguém ?
— Não, senhor.
Calçou-lhe os pés com finos chinelos de pelica envernizada. O côm odo era m ais um a sala de refeições do que cozinha, pois o fogão e a pia ficavam ao lado, num cubículo estreito. A m esa era redonda, as cadeiras forradas de couro tacheado. Via-se um a porção de obj etos de cobre e, sobre um aparador antigo, velhas faianças com pradas em leilão.
— Vou subir para ver se a senhora precisa de algum a coisa.
— Posso servir a sopa?
Ele desapareceu na escada em espiral e ela ouviu a porta que se abria no prim eiro andar, passos, um m urm úrio, o ruído das rodinhas da poltrona sendo em purrada, com o todas as noites, pelo quarto. Ao descer, o chapeleiro disse, sentando-se à m esa: — Ela não está com m uita fom e. Que foi que você preparou?
Colocou o livro na sua frente, tirou os óculos do estoj o."A estufa aquecia-lhe as costas. Com ia devagar. Louise o servia e, entre cada prato aguardava, im óvel no seu reduto, o olhar vago.
Ainda não com pletara vinte anos. Era gorducha, m uito tola, olhos proem inentes e inexpressivos.
O espaço que servia de cozinha não era bastante am plo para conter um a m esa. Às vezes ela com ia em pé, outras esperava que o chapeleiro term inasse e saísse para se sentar no lugar dele.
Ele não gostava de Louise. Fizera m au negócio ao contratá-la, m as pensaria no assunto m ais tarde.
Às quinze para as oito passou o guardanapo na boca, enfiou-o na argola de prata, arrolhou a garrafa, da qual só bebera um copo, e levantou-se suspirando.
— Está pronto — disse ela.
Então ele pegou a bandej a onde ela colocara o j antar e m ais um a vez subiu a escada. Quantas vezes por dia subia a escada?
O difícil era, segurando a bandej a com um a das m ãos sem entornar coisa algum a, tirar a chave do bolso e girá-la na fechadura, pois aquela porta estava sem pre fechada a chave, m esm o quando ele se achava em casa. Girou o com utador elétrico e Kachoudas, em frente, viu a cortina ilum inar-se.
Pousou a bandej a, sem pre no m esm o lugar, e tornou a fechar a porta.
Tudo isso era m uito com plicado. Levara tem po para se organizar. As idas e vindas eram feitas em ordem precisa, que tinha im ensa im portância.
Para com eçar, era preciso falar. Nem sem pre ele se dava ao trabalho de articular palavras, pois em baixo só se ouviria um m urm úrio confuso.
Naquele dia, por exem plo, repetiu com certa satisfação: — Seria um erro, Kachoudas!
Não havia nada de particularm ente bom para com er naquela noite, m as escolheu a parte m ais m acia da costeleta. Em certos dias com ia todo o segundo j antar.
Aproxim ou-se da j anela. Tinha tem po de sobra. Afastou um pouco a cortina e descobriu o alfaiate que, term inada a refeição, voltava à sua m esa, enquanto as m eninas brincavam no chão. A m ais velha devia estar lavando a louça com a m ãe.
Falando em voz alta, voltou à bandej a.
— Jantou bem ? Ótim o.
Esvaziou os pratos — exceto o osso da costeleta — no vaso sanitário, do qual evitava puxar a descarga. Fazia-o a princípio, m as fora um erro. Havia corrigido pouco a pouco um a porção de erros e im prudências.
Desceu com os pratos vazios. Louise, a em pregada, acabava de j antar no seu lugar. Para evitar lavar a louça com ia no prato do patrão e bebia no copo dele. E, enquanto com ia, lia tam bém livrinhos populares.
— Não vai sair, Louise?
— Não quero que m e estrangulem .
— Boa-noite.
— Boa-noite, senhor.
Estava quase term inado. Mais alguns ritos a cum prir, verificar se a porta da loj a estava bem fechada, apagar a luz, subir m ais um a vez a escada, tirar a chave do bolso, abrir a porta, tornar a fechá-la.
Daí a instantes Louise subiria para se deitar no quarto dos fundos e ele ouviria seu passo pesado um bom quarto de hora antes que o sofá-cam a gem esse sob seu peso.
— É um a vaca!
Tinha o direito de falar em voz alta. Era quase um a necessidade, a intervalos. Daí a pouco poderia puxar a descarga no banheiro, tirar o colarinho, a gravata, o casaco e vestir o roupão m arrom . Mas não havia term inado tudo, pois faltava colocar três ou quatro achas na lareira.
Era Louise quem as trazia para cim a, em pilhando-as no patam ar do prim eiro andar.
Todas as casas da rua eram da m esm a época, datavam de Luís XIII.
Exteriorm ente haviam perm anecido idênticas, com suas arcadas e teto em declive agudo, m as cada qual, no correr dos séculos, sofrerá diversas transform ações no interior. Sobre a cabeça do Sr. Labbé, por exem plo, existia um segundo pavim ento, ao qual ele só podia subir passando pela rua.
Ao lado da loj a, um a porta se abria para um beco estreito, que term inava no pátio. E ali com eçava a escada que conduzia ao segundo pavim ento, sem se com unicar, porém , com o prim eiro.
Era prático antigam ente, quando havia locatários em cim a. Mas há m uito os côm odos estavam desocupados, exatam ente desde o prim eiro ano da doença de Mathilde, que não suportava ouvir o dia inteiro passos sobre a cabeça.
Fora preciso um processo para se desem baraçar dos locatários do segundo pavim ento. E acontecera depois tanta coisa m ais com plicada!
Não teria esquecido coisa algum a? As achas ardiam . As cortinas estavam bem fechadas. Ele podia apagar a luz do alto, dem asiado crua a seu ver, m antendo apenas o abaj ur da escrivaninha, pois sem pre tivera um a pequena escrivaninha num canto, cheia de gavetas m inúsculas, o que agora se tornava m uito prático.
Pegou a pilha de j ornais, a tesoura, e abasteceu o velho cachim bo de espum a. Por duas ou três vezes voltou-se para a j anela, pensando em Kachoudas.
— Pobre suj eito!
De início a confecção das cartas fora um trabalho de paciência, pois cortava cada letra separadam ente. Agora conhecia tão bem o j ornal que sabia em que coluna encontraria com certeza as palavras necessárias. Desencavara na cesta de trabalho de Mathilde a tesoura de bordado que não deixava rebarbas.
"Morreu a sexta, rapaz, e toda a cidade vai novamente lamentar o seu destino."
Era um hábito que adquirira, esse de falar direto a Jeantet.
"Observe que a Srta. Mollard sofria de uma doença cardíaca há vários anos, era pobre, vivia sozinha, e não tinha ninguém que cuidasse dela; eraobrigada a dar aulas de piano aos filhos de suas amigas. Quanto ao cunhado, o arquiteto, que ganha muito bem, recusou-se sempre a ajudá-la.
"Não foi por isso que a matei, evidentemente. Matei-a, como às outras, porque era preciso. E é isso que ninguém quer compreender. Vão repetir e escrever mais uma vez que sou louco, maníaco, sádico, obcecado, e não é verdade.
"Sei o que devo fazer e é só.
"Se todos se convencessem disso, evitariam esse pânico absurdo que impede as pessoas de saírem de casa e afeta o comércio.
"Caso ninguém cometa tolices, só resta uma na lista. Serão sete, exatamente, e não há investigação neste mundo que modifique isso.
"A prova, rapaz, é que anuncio: a próxima será na segunda-feira."
O endereço era fácil de com por, um a vez que bastava cortar a assinatura de Jeantet no pé de um artigo e o endereço do j ornal im presso no cabeçalho dos pequenos anúncios.
Louise acabava de entrar no seu quarto e fazia o ruído de costum e.
O. Sr. Labbé fechou a carta, colou um selo e enfiou o envelope no bolso do casaco pendurado num cabide. Na m anhã seguinte, depois de retirar os postigos da fachada, aguardaria a chegada de Valentin; em seguida daria a sua volta habitual pela cidade, chovesse ou fizesse sol.
O surpreendente era não ter necessidade de m udar coisa algum a em seus hábitos. Sem pre fizera um passeio de m anhã pelo bairro, em torno de um ou dois quarteirões, assim com o todas as noites ia ao Café das Colunas.
Eram nove e m eia. Dispunha ainda de um a hora e foi sentar-se diante da lareira, pernas estendidas, um grande livro de páginas am areladas sobre os j oelhos.
Era um dos tom os das Causas célebres do século XIX. Há cinco anos com prara vinte volum es desparelhados num leilão. Faltavam sete para term inar a leitura.
Fum ava soltando a intervalos breves baforadas. Fazia calor. Louise devia ter adorm ecido, finalm ente. Ouvia apenas o ruído m onótono da chuva, o crepitar das achas, e não havia ninguém para perturbar-lhe a leitura.
O Sr. Labbé estava calm o, sereno. A intervalos relanceava os olhos para o despertador.
— Mais vinte m inutos!
Mais dez. Mais cinco. Às dez e m eia fechou o livro suspirando, levantou-se e entrou no banheiro. Às quinze para as onze deitou-se na cam a da direita.
Antigam ente havia um a só cam a no quarto, um m óvel m uito bonito, que com binava com os dem ais. Após a doença de Mathilde haviam -no transportado pela rua — um a vez que não existia escada entre os dois pavim entos — para os côm odos vazios de cim a. A cam a fora substituída por duas gêm eas, separadas pela m esinha de cabeceira.
Voltou-se para verificar se as brasas ainda verm elhas na lareira não corriam o risco de rolar para o tapete e incendiá-lo.
Kachoudas, em frente, continuava a trabalhar. Era um pobre coitado. Ele próprio fazia tudo, inclusive as calças e os coletes, que os alfaiates m ais im portantes confiavam a costureiras.
O quarto estava m ergulhado em escuridão e o Sr. Labbé podia ver através da veneziana o retângulo lum inoso do outro lado da rua.
Antes de adorm ecer, disse a m eia voz, pois sem pre convinha falar: — Boa-noite, Kachoudas.
Não ligava o despertador: acordava sozinho às cinco e m eia da m anhã. A gorda Louise dorm ia ainda, m ergulhada na cam a úm ida; devia ouvir quando ele se levantava, recolhia as achas de lenha no patam ar, fechava a porta e acendia o fogo. Após um instante, naquela m anhã, ele observou que faltava qualquer coisa — era o crepitar da chuva, o ruído da água na calha. Ainda estava m uito escuro para ver o céu, m as adivinhava-se o vento afastando as nuvens para o interior.
Era preciso arrum ar a cam a, pôr o quarto em ordem , colocar do lado de fora o balde com as cinzas da lareira; para tudo isso ele tinha m ovim entos precisos, efetuados em ordem m inuciosam ente estudada.
Falou um pouco, dizendo qualquer coisa, e não tardou a ver ilum inar-se a j anela em frente. Não era Kachoudas, deitado ainda, e sim a m ulher quem acendia o fogo, varria o ateliê e tirava o pó.
Ouviu passarem as carroças rum o ao m ercado, e depois outras que pararam na própria rua, vozes de cam poneses, cestas que se entrechocavam , sacas que caíam no chão.
Era sábado. Tom ou banho, vestiu-se, enquanto Louise se lavava do outro lado da parede do banheiro.
Ela era a prim eira a descer para fazer o café e, quando ele descia, por sua vez, o fogão j á estava aceso.
— Bom -dia, Louise.
— Bom -dia, senhor.
Na chapelaria levou um fósforo ao pequeno orifício da estufa a gás. Os ruídos da rua se intensificaram , m as ainda não era m om ento de retirar os postigos.
Precisava antes tom ar o café da m anhã, depois levar o de Mathilde. O céu com eçava a clarear. O Sr. Labbé em purrou até a j anela a poltrona, que colocava sem pre no m esm o lugar, no m esm o ângulo, verificando se a form a de m adeira, proveniente da sua loj a, não corria o risco de desabar.
Apagar a luz. Levantar a cortina. O dia estava cinzento, quase branco. A chuva se transform ara em nevoeiro e via-se a lâm pada de Kachoudas através de um véu.
Os vidros estavam gelados. Os rios congelariam finalm ente? As cam ponesas na rua, envoltas em xales, paravam às vezes o arranj o das cestas para bater contra o corpo as m ãos azuladas. Havia um a velhinha que se instalava no m esm o lugar há quarenta anos e ali acendia um braseiro.
Naquela estação do ano vendia castanhas e nozes.
Kachoudas ainda não se tinha sentado à m esa de trabalho. A porta da cozinha se achava aberta e a fam ília inteira tom ava café. A Sra. Kachoudas não se lavara nem se penteara. O caçula da ninhada, o único m enino, de grandes olhos am endoados, vestia ainda a cam isa de dorm ir.
Era um a gente estranha. Com iam salsichas inclusive de m anhã.
Kachoudas estava de costas, um om bro m ais levantado que o outro.
O Sr. Labbé o esperaria. Tinha sem pre um a porção de coisinhas a fazer.
Os j ornais dos quais recortara as palavras e as letras j á haviam sido queim ados. Entregou a Louise o terno usado na véspera para ser passado, pois era m uito m eticuloso. Sua roupa era sem pre de tecido de boa qualidade e os sapatos feitos sob m edida.
O dia com eçara com o ronco de algum as carroças e vozes esparsas; no m om ento, de um extrem o ao outro da rua era a barulheira de todos os sábados. Ele conhecia antecipadam ente o cheiro de legum es frescos, de repolho m olhado, de galinhas e coelhos, que lhe assaltaria as narinas tão logo abrisse a porta da loj a.
Precisou esperar bastante tem po, um olho na fresta, para que Kachoudas saísse finalm ente de casa. Im itou-o então, dizendo por sobre a cabeça das cam ponesas: — Bom -dia, Kachoudas.
Os om bros m agros estrem eceram . O hom em voltou-se, abriu a boca e levou segundos para responder: — Bom -dia, Sr. Labbé.
Para ele devia ser inacreditável, um tanto alucinante, quem sabe m ais ainda por causa do nevoeiro? As coisas se passavam com o todas as m anhãs, ou pelo m enos com o todos os sábados; o chapeleiro estava barbeado, vestido com capricho; retirava dignam ente os postigos da sua fachada, colocando-os no interior um a um , no recanto a eles destinado atrás da porta.
As calçadas continuavam m olhadas, ostentando poças d'água ao longo do m eio-fio. A salsicharia ao lado de Kachoudas estava ilum inada.
Valentin chegou às oito e m eia, nariz verm elho. Mal entrou, precisou assoar-se.
— Peguei um a gripe — declarou.
Poderia curti-la na atm osfera j á superaquecida da chapelaria. O Sr. Labbé vestiu o sobretudo, tom ou o chapéu.
— Volto dentro de um quarto de hora. Dirigiu-se ao m ercado coberto, cum prim entado por m uita gente, pois nascera em La Rochelle e sem pre vivera na cidade.
Escolheu a caixa de correio da rua dos Merciers; naquela m anhã não corria o risco de ser observado no vaivém da m ultidão. Em seguida, conform e gostava de fazer aos sábados, entrou no m ercado e passeou diante das barracas de peixes e crustáceos.
Só ao voltar para casa com prou o j ornal na esquina da rua. Enfiou-o no bolso sem ter tido curiosidade de passar os olhos por ele.
Um a cam ponesa trouxera o filho, em quem Valentin, lenço na m ão, experim entava bonés. Em dia de bonés. O Sr. Labbé despiu o sobretudo e o chapéu e disse a Louise pela porta entreaberta: — Com pre lagostins. A velhinha de Charron tem uns m uito bonitos. A senhora cham ou?
— Não, senhor.
Com eria prim eiro em baixo a sua parte dos lagostins, depois a de Mathilde no quarto. Era um a sorte que a antiga em pregada, Delphine, tivesse ido m orar com a filha na ilha de Oléron, pois Delphine, que trabalhara vinte anos para eles, sabia que Mathilde não gostava de nada que saísse do m ar.
Poderia ter arranj ado um a em pregada m elhor que Louise. Um a porção de coisas seriam feitas de m odo m ais agradável. Com eçava a detestar aquela m oça gorda, que nunca fazia perguntas. Im possível adivinhar o que ela pensava. Será que pensava?
Não gostava de que ela dorm isse em casa. Delphine, que tinha filhos, voltava diariam ente para casa, que ficava do outro lado da estrada de ferro, logo depois do restaurante. Tam bém Louise, a princípio, dorm ia na cidade.
Depois, por causa dos assassinatos das velhas senhoras, declarou que não sairia após escurecer.
Por que teria concordado em arrum ar-lhe um quarto no prim eiro andar?
Quem sabe naquele m om ento tinha em m ente algum a vaga ideia? Vista a certa distância era bastante apetitosa. Mas agora que a ouvia lavar-se do outro lado da parede não podia ignorar que era desm azelada. O cheiro de seu quarto, onde entrara um dia, assim com o a roupa de baixo atirada a um a cadeira, deixaram -no nauseado.
Não seria perigosa provavelm ente, m as não deixava de representar um a com plicação. E para escapar a com plicações ele fizera m uita coisa.
Veria m ais tarde.
Mudou de casaco. Vestia sem pre um velho casaco para trabalhar. Entrou nos fundos da loj a e acendeu o aquecedor que usava para passar os chapéus a vapor.
Abriu um arm ário com a m enor chave do m olho. Essas chaves, que tinham im portância capital, eram polidas, luzidias com o ferram entas, e ele as guardava sem pre no m esm o bolso, não esquecendo nunca de colocá-las na m esinha de cabeceira antes de se deitar.
No fundo do arm ário, um barbante pendia do teto e ele o puxou duas ou três vezes.
Valentin, ainda ocupado com a freguesa e o m enino, deu alguns passos para avisar: — A senhora está cham ando, Sr. Labbé.
Ao puxar o barbante, ele acionava um m ecanism o que dava batidas no chão do andar de cim a, tal com o antigam ente, quando para cham á-lo Mathilde batia no chão com a bengala.
— Vou subir — anunciou com um suspiro. Tornou a fechar o arm ário, guardando as chaves no bolso. Estranho, na loj a de Kachoudas o alfaiate tom ava as m edidas de um m enino conduzido pela m ãe. Mãe e filho de cada lado da rua e, coisa m ais estranha ainda, todos do m esm o vilarej o.
Desapareceu na escada em espiral e Valentin ouviu-lhe os passos lá em cim a. A porta estava fechada. As cortinas não perm itiam que se visse o quarto do exterior. Na sua cozinha a Sra. Kachoudas, que nunca pensava nos vizinhos da frente, braço erguido, enfiava o vestido por cim a da com binação, pois aquela gente, para se aquecer, vestia-se e até se lavava na cozinha. Para as m eninas e o garoto ela colocava um a bacia de esm alte num a cadeira.
Acrescentou um a acha às da lareira, sentou-se, acendeu o cachim bo e só então abriu o j ornal.
"O Estrangulador faz nova vítima."
Não era estranho constatar com o as palavras são capazes de deform ar a realidade? O Estrangulador! E com m aiúscula ainda por cim a! Com o se, por exem plo, a pessoa fosse estranguladora inata. Com o se estrangular fosse, em sum a, um a vocação! A verdade era tão diversa! Isso sem pre o irritava. Essa m esm a irritação im pelira-o a m andar a prim eira carta ao j ornal. Daquela vez diziam : "Um louco perigoso ronda a cidade."
E ele respondera: "Não, senhor, não há louco. Não fale a respeito daquilo que desconhece."
No entanto, Jeantet não era nada idiota. Enquanto a polícia detinha os vagabundos e os m arinheiros em licença, interpelava transeuntes nas ruas, solicitando seus docum entos, o repórter arquitetava pouco a pouco um raciocínio lógico. Após a terceira vítim a, a Srta. Lange, a m erceeira da rua Saint-Yvon, e quando a vigilância j á se organizara, ele afirm ava: "É um erro preocupar-se com vagabundos e, de modo geral, com todosos que chamam a atenção pela roupa ou pelo comportamento. O assassino é necessariamente um homem que passa despercebido. Não é um estranho,portanto, como supõem alguns. Tendo em vista as idas e vindas necessárias aos três crimes, é mais que provável que ele tenha encontrado mais de uma vez ao menos uma das patrulhas voluntárias que cortam todas as noites acidade."
Era exato. O chapeleiro havia encontrado um a patrulha e continuado tranquilam ente o seu cam inho. Alguém lançara sobre ele a luz de um a lanterna de bolso, enquanto um a voz dizia: — Boa-noite, Sr. Labbé.
— Boa-noite, senhores!
"Somente um cidadão conhecido e estimado poderia..."
Ia bem m ais longe nas suas deduções o rapaz que escrevia todas as noites na prim eira m esa do Café das Colunas: "...A hora dos atentados indica que é um homem casado, de hábitosregulares..."
Baseava a afirm ação no fato de que nenhum crim e fora com etido depois do j antar.
"...É, portanto, alguém que não sai sozinho à noite..."
Em seguida perdia o rum o. Depois do quinto assassinato, o penúltim o, o de Léonide Proux, a parteira de Fétilly, escrevera: "É provável que a porteira tenha sido atraída para fora de casa por um telefonema, o que parece confirmado pela mala que levava ao ser atacada..."
Era falso. Era precisam ente a única que o Sr. Labbé encontrara quase por acaso. Fazia parte da lista, com certeza. Mas, caso não a tivesse encontrado, não lhe teria de fato telefonado?
"Como seria perigoso dar um telefonema tão comprometedor de uma cabine pública ou de um café..."
Queria m ostrar-se inteligente dem ais, m ais inteligente que o assassino. E acabava afirm ando que este devia ter telefone em casa. Nesse caso a m ulher dele, ou a em pregada, não o surpreenderia fazendo a ligação?
O Sr. Labbé não tinha telefone. Sem pre se recusara a instalar o aparelho em casa.
Jeantet continuava às apalpadelas: "Trata-se provavelmente de um homem que trabalha em escritório, saientre cinco e seis horas e comete seus crimes antes de voltar para casa."
Era desconcertante que ele escrevesse tudo aquilo no café, onde via diariam ente com erciantes, profissionais liberais, que passavam um a ou duas horas j ogando cartas antes do j antar.
Naquele dia havia coisa m elhor. O j ornal dizia em subtítulo: "Teremos a descrição do assassino?"
Haviam descoberto o corpo da Srta. Irene Mollard pouco depois das oito da noite. Um agente da polícia tropeçara literalm ente no cadáver. A rua inteira foi alertada. A m ãe da criança a quem a velha senhorita dera sua últim a aula exclam ou: — Não queria deixá-la sair sozinha. Supliquei que aguardasse a chegada do m eu m arido, que a acom panharia até em casa. Ela não m e atendeu.
Afirm ou que não tinha m edo. Eu a observei por um instante pela porta entreaberta, enquanto ela se afastava, ouvindo seus passos. Lem bro-m e agora de ter visto um hom em no m eio da rua. Quase gritei por socorro, m as depois achei que seria ridículo. Um assassino não se colocaria no m eio da rua. Ainda assim fechei a porta bem depressa. Não o vi m uito bem , m as tenho quase certeza de que era um hom em baixo e m agro, com im perm eável com prido dem ais.
O im perm eável de Kachoudas, ou m elhor, o im perm eável que não pertencia ao alfaiate, que um caixeiro-viaj ante de passagem pela cidade deixara na alfaiataria por estar gasto e suj o, enquanto com prava um sobretudo. O alfaiate usava-o por econom ia quando estava chovendo.
O Sr. Labbé voltou-se para a j anela. Kachoudas voltara à m esa e falava com a m ulher, que ia sair, sacola de com pras na m ão. Devia estar perguntando o que ele queria com er na hora do alm oço.
O alfaiate ainda não tinha lido o j ornal. De m anhã só saía de casa para retirar os postigos. Mais tarde, ao voltar do m ercado, a m ulher traria o Echo des Charentes.
Louise tam bém estava de saída para as com pras. A cam painha da porta soou várias vezes. Havia fregueses na chapelaria.
Antes de sair do quarto, o Sr. Labbé não esqueceu de m urm urar algum as palavras e deslocar ligeiram ente a poltrona.
Valentin viu surgirem as pernas, o torso, e finalm ente a cabeça serena e repousada. Com o parecia em baraçado, o chapeleiro perguntou: — Que aconteceu?
O rapaz gripado apontou um cam ponês enorm e, que se equilibrava ora num a perna, ora na outra.
— O núm ero dele é 58 e só tem os 56.
— Deixe que eu atendo.
Manuseou o chapéu sob o vapor e o freguês saiu exam inando-se nos espelhos, m eio inquieto.