Os Fantasmas do Chapeleiro
Capítulo 3
— FECHE A LOJA, Valentin.
— Sim , senhor. Boa-noite, senhor.
— Boa-noite, Valentin.
Valentin passara o dia assoando-se e a coriza era tão abundante que a gente ficava de olhos úm idos só de olhar para ele e escutá-lo. Por duas vezes aproveitara-se do fato de não haver fregueses na loj a para secar o lenço diante do radiador a gás.
Era tam bém um pobre coitado. Alto e ruivo, olhos azul-faiança e expressão de tal m odo honesta que m uitas vezes o Sr. Labbé abria a boca para dirigir-lhe um a observação, m as tornava a fechá-la sem falar, lim itando-se a dar de om bros. Passavam j untos a m aior parte do dia, porque na realidade a chapelaria e a oficina constituíam um único aposento. Havia dias em que passavam horas inteiras sem ver um só freguês. Depois de tirar o pó e colocar a loj a em ordem , verificando pela centésim a vez as etiquetas, o pobre Valentin, tal um grande cão em baraçado com seu corpo, buscava um canto onde se esconder, evitando fazer barulho, estrem ecendo ao m enor m ovim ento do patrão. E, com o não tinha licença para fum ar na oficina, chupava silenciosam ente balas de violeta.
— Até segunda, Valentin. Bom dom ingo.
Era um a atenção suplem entar, de passagem . O que im portava era saber se Kachoudas ia ou não descer. Não tinha saído de casa o dia inteiro.
Descera um a vez para fazer um a prova, outra para desem pacotar tecidos diante de um freguês que não havia decidido nada e saíra prom etendo voltar.
Mantinha a luz do ateliê acesa, pois o nevoeiro não de dissipara; quando o barulho da feira se atenuou, ouvia-se a intervalos regulares a sirene do nevoeiro. Penetrava toda a atm osfera com o o vagido de um a vaca m onstruosa; m uita gente que m orava na cidade havia anos ainda se im pressionava com o som . Em barcação algum a deixara o porto. Outras que deviam ter regressado ainda eram aguardadas, e as pessoas se inquietavam com seu paradeiro.
As cam ponesas tinham partido nas suas carroças, ou de ônibus, bem antes do anoitecer. Só os hom ens perm aneciam nos cafés, rosto anim ado, olhos brilhantes.
Kachoudas tinha lido o j ornal. A m ulher o entregara, pelo m enos. Nesse ponto o Sr. Labbé não se enganava. E se enganava algum a vez? Não tinha direito. Apesar de tudo o que lhe ocupava a cabeça, conseguia não se esquecer de nada, nem m esm o o m ais ínfim o detalhe. Caso contrário estaria perdido.
O j ornal estava num a cadeira, j unto à m esa do alfaiate e via-se que fora aberto.
Kachoudas viria. O chapeleiro estava persuadido de que ele viria e deteve-se no lim iar, olhando para a j anela ilum inada e fazendo m aquinalm ente, lá no íntim o, com o as cam ponesas que cham am as galinhas: — Aqui, aqui, aqui, aqui...
Cam inhava sem ruído e não percorrera vinte m etros quando ouviu à retaguarda passos que seria capaz de distinguir em m eio a quaisquer outros.
Kachoudas se aproxim ava. Teria hesitado? Um pobre suj eito decididam ente. Há m uitos pobres suj eitos neste m undo. Com certeza desej ava profundam ente os vinte m il francos. Nunca vira tal som a reunida, exceto, quem sabe, atrás do guichê de um banco. Levaria dois anos trabalhando noite e dia à sua m esa para conseguir a m esm a quantia.
Desej ava, com certeza, ganhar os vinte m il francos. Desej ava com toda a alm a. E por desej á-los com tanta intensidade sentia m edo profundo.
Quem sabe o m edo de perdê-los era m aior que o m edo do chapeleiro?
Acontecera aquilo que viria fatalm ente a acontecer: é sem pre um suj eito com o Kachoudas que acaba por se tornar suspeito; era Kachoudas que a m ãe da criança que estudava piano avistara e descrevera para a polícia.
Cam inhavam um atrás do outro com o todos os dias, e o alfaiatezinho devia, a cada passo, j ogar a perna para o lado. O Sr. Labbé, pelo contrário, cam inhava sereno e digno; tinha um belo andar.
Em purrou a porta do Café das Colunas e bastou o ruído e o cheiro para lem brar-lhe que era sábado. Sim , o cheiro, porque a clientela do sábado não tom ava as m esm as bebidas dos clientes da sem ana.
A sala estava apinhada. Havia gente em pé. Os cam poneses m ais hum ildes reuniam -se nos pequenos bares das im ediações do m ercado; para ali vinham os m ais ricos, ou m ais em preendedores, os que tinham negócios a tratar com os vendedores de adubo, os agentes de seguros, os hom ens da lei, que aos sábados davam audiência nas m esas, por algum as horas escritório e balcão.
Só as do centro, j unto à estufa, perm aneciam um oásis respeitado, rodeado de um a zona de silêncio e calm a.
Chantreau, o m édico, não estava j ogando e achava-se sentado atrás do senador, que distribuía as cartas. O Sr. Labbé tocou-lhe a m ão.
— Boa-noite, Paul.
E ao ver o am igo retirando um a pílula de um a caixinha de papelão: — Não se sente bem ?
— Fígado.
Isso lhe ocorria periodicam ente. Parecia em agrecer vários quilos de um dia para outro, de tal m odo a fisionom ia ficava abatida, com bolsas flácidas sob as pálpebras, olhar de quem sofre.
Tinham a m esm a idade os dois. No colégio haviam sido am igos quase inseparáveis.
Gabriel pegou o sobretudo e o chapéu do Sr. Labbé.
— O de sem pre?
Diante do m édico, no m árm ore da m esa, havia um quarto de Vichy.
Kachoudas, que acabava de entrar, hesitou em sentar-se perto dos j ogadores.
Um pobre coitado! Não só Kachoudas, que acabou por sentar-se num a cadeira, com o Paul, o m édico. O Sr. Labbé devia ter ainda em algum canto, no fundo de um a gaveta, um a fotografia onde os dois estariam com quinze ou dezesseis anos.
Naquela idade Chantreau era m agro, cabelos tendendo para o ruivo, m as não do ruivo desbotado de Valentin; erguia o queixo com altivez, olhando em frente com ar de desafio.
Decidira-se pela m edicina, m as não seria um sim ples m édico, e sim um grande descobridor com o os Pasteur e os Nicolle. Seu pai era rico, possuía um a dezena de sítios em Aunis e na Vendée. Adm inistrava-os à distância e, estranho, passava as tardes no Café das Colunas, no m esm o lugar onde hoj e se j ogava bridge.
— Ele m e enoj a — dizia sobre o pai o j ovem Paul. — É avarento.
Zom ba da sorte dos cam poneses.
Em sum a, os pais de todos eles possuíam bens, terras, fazendas, casas, ou então barcos, ou partes de barcos.
Kachoudas fixava intensam ente, de esguelha, o Sr. Labbé, que fingia não percebê-lo. Era um j ogo. Assim provaria a si m esm o que tinha o espírito livre. Os papéis se invertiam : era o alfaiate que suava de m edo, que sorvia nervosam ente a sua bebida e que tinha às vezes um ar de súplica.
Suplicar o quê? Que se deixasse prender, para que ele ganhasse os vinte m il francos do prêm io?
— Você bebe dem ais, Paul.
— Eu sei.
— Por quê?
Por que se bebe? Chantreau form ara-se em m edicina. Voltara à cidade e instalara consultório, decidindo: — Atendo à clientela de m anhã para ter o resto do tem po livre para as m inhas pesquisas.
Instalara um verdadeiro laboratório e fizera assinatura de todas as revistas m édicas.
— Por que nunca se casou, Paul?
Talvez porque quisesse tornar-se um cientista, não sabia ao certo; lim itou-se a dar de om bros com um a careta provocada pela dor.
Deixara crescer a barba, desleixara-se. Tinha as unhas suj as, a roupa duvidosa. A princípio vinha para o Café das Colunas às seis horas, com o todos os que trabalham ; depois às cinco, depois às quatro, e em seguida logo após o alm oço; com o então não houvesse ninguém para organizar um a partida, j ogava dam as com Oscar, o dono do café.
Ultrapassara os sessenta anos, com o o Sr. Labbé. Todos haviam ultrapassado os sessenta.
— Fica no m eu lugar, Léon? Preciso conversar com m eus eleitores.
André Laude, o senador, que acabava de ganhar o rubber, levantou-se a contragosto. Ao redor havia rum or contínuo, solas que se arrastavam no chão coberto de serragem , copos que se entrechocavam , vozes m ais altas que de costum e.
— Vão acabar prendendo o suj eito e é o que desej o — disse um lavrador de polainas de couro. Acabam sendo sem pre presos, até os m ais espertos. E depois? Vão enfiá-lo num m anicôm io, pretendendo que sej a louco, e nós, os contribuintes, sustentarem os o crim inoso até m orrer.
— A m enos que ele ataque um suj eito com o eu!
— Você fará com o os outros, apesar de toda essa bravata! É capaz de lhe dar um m urro, m as em seguida o entregará docum ente à polícia. Num vilarej o, não sei. Talvez fosse diferente. Há forcados e pás...
Tranquilam ente, sem pestanej ar, o Sr. Labbé sentou-se no lugar do senador que fazia a ronda das m esas. Por um instante o chapeleiro perguntou a si m esm o se Kachoudas estaria tam bém resfriado. Parecia verm elho, os olhos brilhantes, m as reparou que havia dois pires sob seu copo.
O alfaiate bebia! Para tom ar coragem ? E fazia sinal a Gabriel, que lhe serviu o terceiro copo de vinho branco.
— Som os parceiros — anunciou Julien Lam bert, o agente de seguros, distribuindo as cartas.
Este não bebia, isto é, contentava-se com um aperitivo, dois no m áxim o.
Era protestante. Tinha quatro ou cinco filhos e teria m uitos outros se a m ulher não perdesse um a criança em duas. O caso era assunto de piadas.
Perguntavam : — Sua m ulher?
— Na clínica.
— Bebê?
— Aborto.
Ele tam bém era rico, havia herdado dos pais, o que lhe perm itira com prar um a agência de seguros. Não dava m uita atenção ao negócio. Tinha bons em pregados. Às vezes um deles vinha procurá-lo no café quando havia algum a transação urgente. Depois de j ogar bridge à tarde, j antava às pressas para um novo bridge em sua casa ou na de am igos.
Na verdade, ele era irm ão da Sra. Geoffroy -Lam bert, da rua Réaum ur, a quarta estrangulada. O Sr. Labbé fora ao enterro.
— Minhas condolências, Julien. Acom panhara todos os sepultam entos, pois conhecia todas, ao m enos por interm édio de Mathilde.
O j ornalista não se achava no café. Devia estar ocupado com a investigação. Por duas ou três vezes o Sr. Labbé dirigiu o olhar para sua m esa habitual.
— Recebem os outra carta — disse Caillé, o gráfico e proprietário do Echo des Charentes, exam inando as cartas do baralho.
— Ele com eça a exagerar — m urm urou Julien Lam bert, anunciando dois de paus.
E voltando-se para Chantreau, que observava o j ogo: — Acha que ele é louco, Paul?
O m édico deu de om bros. O assunto não o interessava no m om ento. Só se im portava com as pontadas que lhe penetravam o lado.
— Louco ou não, só vai parar quando for preso — resm ungou.
— Nunca chegaram a prender Jack o Estripador, e ele deixou de m atar.
A observação agradou ao Sr. Labbé, que nunca havia pensado no assunto.
— Quantas pessoas m atou? — perguntou. — Três de ouros.
— Passo.
— Três de espadas — acrescentou Lam bert.
— Quatro de copas.
Era um pequeno slam em perspectiva e houve um m om ento de silêncio, entrecortado de declarações e que chegou a seis de ouros.
— Dobrados.
— Não sei quantas m atou, m as o terror em Londres e adj acências durou vários m eses. O exército foi cham ado a intervir. Escritórios, fábricas fecharam as portas porque os em pregados e as operárias j á não se arriscavam a sair.
— Gostaria de saber quantas m ulheres há na rua neste m om ento.
Trêm ulo, o alfaiate esvaziava de um só gole o terceiro copo. Não ousando olhar na direção dos j ogadores por m edo de encontrar o olhar do chapeleiro, fixava, lúgubre, o assoalho suj o.
— Quatro vezes trunfo. Im passe para o rei de espadas e o resto na m inha m ão.
Seria interessante saber com o era Kachoudas depois de beber. O Sr. Labbé nunca o vira em briagado. O m édico, por exem plo, que com eçava a beber desde de m anhã, após cada consulta, e não parava no resto do dia, era a princípio de um a benevolência m esclada de leve ironia. Seus últim os clientes da m anhã eram todos cham ados de:"— Meu filho."
Ou:
"— Meu velho."
Ou:
"— Minha m enina."
E, em vez de passar um a receita, ia procurar no arm ário um rem édio, enfiando-o, gratuito, na m ão do cliente.
No início da tarde parecia olím pico, rosto nim bado de fum aça, gestos lentos, olhar pesado, palavra rara. Em seguida tornava-se pouco a pouco sarcástico, m esm o com seus m elhores am igos.
Aqueles que encontrava às dez da noite, ao voltar para casa, depois de tom ar vinho tinto nos pequenos botequins, diziam que tinha lágrim as nos olhos e se agarrava ao braço da pessoa.
— Sou um fracassado, m eu velho. Um velho diabo fracassado, é o que sou! Confesse que enoj o você, que enoj o todos!
Quanto a Oscar, o dono do café, obrigado por profissão a beber o dia inteiro com os clientes, acabava de olhos inchados, andar digno e hesitante, fala atropelada, e à noite trocava as sílabas, de m odo que não se com preendia bem o que dizia.
O alfaiate estava febril. Não se m antinha quieto no lugar, fazia gestos bruscos com o tiques nervosos, parecendo afastar m oscas invisíveis.
O Sr. Labbé tinha a agradável im pressão de m antê-lo no extrem o de um fio, m urm urando gentilm ente: — Calm a, m enino.
Ele sabia m uito bem que o com issário Pigeac estava presente, às suas costas, na m esa dos quarenta a cinquenta anos. Vira-o entrar de sobretudo cinza, chapéu cinza, rosto cinza. Lem brava um peixe, um a m erlina sem graça, e m antinha sem pre nos lábios um sorriso frio, dando a im pressão de que sabia m ais do que aparentava.
Ele não sabia de nada, disso o Sr. Labbé estava convicto. Era um com pleto im becil, um burocrata de nascença, que só pensava em avançar na carreira e fazia parte de loj as m açônicas porque lhe haviam dito que isso o aj udaria. Só num a coisa se destacava: no bilhar, onde conseguia séries de cento e cinquenta a duzentos pontos, girando lentam ente em torno do feltro verde e observando-se a intervalos nos espelhos.
— Não faça isso, m enino.
Era a Kachoudas que ela falava intim am ente, pois sentia que o alfaiate estava prestes a sofrer um a vertigem , sentia calor, não sabia para onde olhar, e só pensava nos vinte m il francos e no depoim ento da m ãe da criança que tocava piano.
— Segundo Caillé, ele só m atará m ais um a pessoa.
— Por quê?
— Não disse por quê. Afirm a sem pre que se trata de um a necessidade, que não o faz por gosto. Vocês lerão a carta am anhã no j ornal. É a m inha vez? Sem trunfo.
Quatro copos de vinho branco. Kachoudas j á havia bebido quatro copos de vinho branco, esquecido de olhar para o relógio. Já ultrapassara a hora em que costum ava voltar para casa.
— Será na segunda-feira.
— Que será na segunda-feira?
— A últim a. Por que na segunda, não sei. Gostaria de saber se haverá crim es hoj e ou am anhã. Isso indicaria que ele escreve qualquer tolice que lhe passe pela cabeça.
— Ele não escreve qualquer tolice — afirm ou Lam bert.
— Por que sete, não oito?
— E por que m inha irm ã, que nunca fez m al a ninguém ?
— Talvez não goste de velhas senhoras — disse Chantreau.
O Sr. Labbé, fixou-o, curioso, pois a reflexão não era tola. Em bora inexata, nada tinha de tola.
— Observaram que são todas m ais ou m enos da nossa idade? — prosseguiu Caillé.
Então Arnould, o gordo Arnould das sardinhas Arnould, que ainda não tinha aberto a boca, interveio: — Com duas eu dorm i e com um a quase casei.
Lam bert ofendeu-se.
— Minha irm ã?
— Não estou falando de sua irm ã.
Mas todo m undo sabia que a Sra. Geoffroy -Lam bert possuíra pernas acolhedoras. Verdade que isso só acontecera pelos quarenta anos, depois de viúva, e que ela só se interessava por rapazes.
— Você conheceu Irene Mollard?
— Era bonita, m as aos dezessete anos j á se dizia que era indefesa com o um passarinho diante de um gato. Sentim ental com o um rom ance de folhetim . A tal ponto que não se casou. Aposto que m orreu virgem .
— Verdade? — perguntaram ao m édico, de quem fora cliente.
— Não a exam inei nesse setor.
— Quem foi que anunciou três de paus? Estávam os em três de paus. Sua vez, Paul.
O café estava cheio de fum aça, atraída pelas lâm padas elétricas de um branco leitoso, instaladas há pouco tem po. O senador se achava na terceira m esa e em cada um a oferecia um a rodada de bebida. E em quase todas tirava um caderninho do bolso e escrevia algum as palavras. Raros eram os eleitores que nada tinham a pedir e, quando o Sr. Labbé fixou-o de longe, no m om ento em que enfiava o caderninho no bolso do casaco, Laude piscou-lhe cinicam ente.
Antigam ente era o m enos rico da turm a. O pai era um em pregado de baixo escalão no Crédit Ly onnais. O filho casara com um a filha única no tem po em que não passava de advogado e conselheiro m unicipal. Hoj e m orava num a das grandes residências da rua Réaum ur, próxim o à da Srta. Geoffroy -Lam bert.
— A casa de sua irm ã está à venda? — perguntou o Sr. Labbé.
— Por quê? Pretende com prá-la? — ironizou o outro. — É um elefante branco. Tem apenas onze quartos de dorm ir e estrebarias para dez cavalos nos fundos do pátio... Quero tentar a prefeitura, que sem pre precisou de espaço para escritórios.
— Calm a, rapaz!
Por pouco o Sr. Labbé ordenava a Gabriel não servir m ais bebida ao alfaiate. E Gabriel obedeceria com certeza. Houve um m om ento de inquietação quando Kachoudas ergueu-se bruscam ente, com o quem ia precipitar-se para a m esa do com issário. Mas dom inou-se e foi à privada que se dirigiu.
Bexiga? Estôm ago? Naquele m om ento, por feliz acaso," o chapeleiro ficou de m orto e, por sua vez, dirigiu-se ao lavatório de pura curiosidade, pois não sentia m edo.
Não era a bexiga, e os dois se encontraram em pé, lado a lado diante dos ladrilhos que cobriam a parede. O alfaiate, que trem ia da cabeça aos pés, não podia fugir. O Sr. Labbé, após hesitar um instante, falou baixinho, olhando em frente: — Calm a, Kachoudas.
Estavam sozinhos. O alfaiate im aginaria que o vizinho pretendia estrangulá-lo? O Sr. Labbé poderia afirm ar sem m entir que não trazia consigo o seu instrum ento.
Na verdade, ninguém pensara em fazer um a lista dos habitantes de La Rochelle que tocavam violoncelo. Não devia haver m uita gente.
Quanto a ele, haviam provavelm ente esquecido que era m úsico. Há vinte anos pelo m enos não tocava o seu instrum ento, que estava no sótão. Para ir ao sótão era preciso sair da casa, enveredar pela passagem e subir a escada que dava para o segundo andar. Era o que ele havia feito, pois não com etera a im prudência de com prar um a corda de violoncelo na loj a da rua do Palais.
Aliás, só havia um a na cidade. E há quinze anos o chapeleiro não saía de La Rochelle, nem m esm o para ir a Rochefort; há quinze anos não dorm ia fora de sua cam a um a só noite.
Ninguém se lem brara disso. Os outros faltavam de vez em quando à reunião da tarde. André Laude ia a Paris para a sessão do Senado e passava as férias num castelo da Dordogne, que a m ulher trouxera com o dote. Até Chantreau fazia, todos os anos, um a estação de águas em Vichy. A fam ília Julien Lam bert tinha um a casinha em Fourras, onde passava dois m eses por ano, e a intervalos o agente de seguros anunciava que ia a Bordeaux a negócios, quando na verdade se dirigia a Paris.
A m aioria tinha carro, ou viaj ava de trem . Arnould, o arm ador, fizera no verão passado um cruzeiro pelo Spitzberg. Havia dias em que se tinha dificuldade de conseguir alguém para com pletar a partida. Era preciso apelar para o pessoal da m esa dos quarenta aos cinquenta.
Som ente o chapeleiro estava sem pre ali. Era tão habitual a sua presença que ninguém achava o fato insólito.
De início lam entavam -no. Lam entavam Mathilde principalm ente.
- Com o é que ela aguenta a situação?
— Mais ou m enos. Mais ou m enos.
O próprio Kachoudas... Kachoudas fora a Paris e a Elbeuf! Kachoudas, em certos dom ingos de verão, levava a fam ília à praia, que não ficava m uito longe, é certo, em Chatelaillon. Nesses dias a rua ficava tão vazia com o um a m esa de bilhar, sem qualquer ruído além do pipilar dos passarinhos.
O Sr. Labbé foi o prim eiro a voltar ao seu lugar. Sabia m uito bem que o outro o seguiria.
— Três de copas?
— Fiz cinco.
— Perdeu a vaza. É m inha vez de dar as cartas?
Às seis e m eia os cam poneses j á eram poucos. Perm aneciam apenas os que possuíam carro ou cam ionete, pois as carroças j á haviam partido há m uito tem po, seguindo pelas estradas m ergulhadas no nevoeiro que se espessara. Estava tão denso, m esm o na cidade, que, quando a porta do café se abria, penetrava na sala com o fum aça fria, m ais branca que a dos cachim bos e dos charutos.
Quem acreditaria, fora daquela m esa, que o Sr. Labbé fora aviador? Pois voara durante a guerra de 1914. Abatera aviões inim igos com o se abatem papagaios nas feiras, m erecera diversas citações. Chegara até a fundar um clube de aviação em La Rochelle, do qual fora durante algum tem po o presidente. E antes disso fizera serviço m ilitar nos dragões.
— Dobro o dois de paus.
— Pois redobro.
Não com etia um só erro. Julien Lam bert, sem pre m eticuloso, não tinha censuras a dirigir-lhe. Seus lances eram corretos, os im passes quase sem pre bem -sucedidos.
Não seria m ais sim ples oferecer os vinte m il francos a Kachoudas? Podia dar-se ao luxo. Estava em boa situação financeira. Não dava atenção à chapelaria porque não precisava dela.
Poderia m udar-se, um a vez que o com ércio deslocara-se para a rua do Palais, onde brilhavam as luzes e os fonógrafos da Prisunic e de outras grandes loj as.
Mesm o na rua do Minage seria fácil ilum inar m elhor a vitrine, m odernizar a loj a, pintar as paredes e as prateleiras de cores claras.
Para quê? Os am igos raram ente lhe com pravam um chapéu, preferindo ir a Bordeaux ou a Paris. Lim itava-se a passá-los nos fundos da loj a, aproveitando o m om ento para puxar o barbante.
— A Sra. Labbé está cham ando — avisava im ediatam ente Valentin, com o se só ele tivesse ouvido as batidas no teto.
Franziu o cenho ao ouvir Kachoudas pedir a Gabriel em tom hesitante: — Um conhaque.
Havia decidido em briagar-se e desviava o rosto para evitar o olhar do chapeleiro.
Teria coragem , daí a pouco, de se instalar à sua m esa e pegar um tecido que cheirava a suarda? Possuía, em sum a, a m esa, a lâm pada presa a um aram e, o pedaço de giz pendente. E tam bém o seu cheiro, que transportava para toda parte, que só incom odava os outros e que ele devia aspirar com um a espécie de volúpia. E m ais a m ulher, sem pre descabelada, voz aguda, que se fazia ouvir o dia inteiro pela porta entreaberta da cozinha, as m eninas, o m enino, nascido bem depois das quatro garotas, e a prim ogênita, que devia estar com eçando a nam orar.
Um dia desses a Sra. Kachoudas engravidaria novam ente. Era espantoso que tivesse passado três anos sem filho. A m enos que houvesse algum problem a interno.
O Sr. Labbé poderia, à saída, abordar o alfaiate na rua, acalm á-lo, tranquilizá-lo, pedir-lhe que esperasse um m inuto e depois buscar os vinte m il francos. Na escrivaninha do quarto havia um gordo envelope contendo m ais do que isso em notas. Datava do tem po de Mathilde, que não confiava em nada e ninguém , e desconfiava dos bancos.
— Gabriel!
— Sim , Sr. Labbé. O m esm o?
— Um a fine à Veau.
O conhaque de Kachoudas despertara-lhe vontade de beber tam bém , m as não se em briagaria. Raram ente se em bebedara na vida, exceto quando era estudante e durante a guerra, antes de partir para um ataque.
— Corto e j ogo o ás de paus.
Chantreau, ao seu lado, tom ava a segunda pílula, e o Sr. Labbé recebeu-lhe o m au hálito em pleno rosto.
— Sua m ulher?
— Sem pre na m esm a.
— Não está com escaras? Sinal negativo de cabeça.
— Tem sorte.
Há dez anos nenhum m édico entrava na casa. No início da paralisia Mathilde queria consultar todos. Mudava de m édico de sem ana em sem ana.
Cham ava especialistas de Bordeaux, de Paris. Fizera todos os tipos de tratam ento; depois fora a vez dos padres, das religiosas, e dois anos seguidos ela em preendera um a viagem a Lourdes.
Ao todo a agitação durara cinco anos, com altos e baixos, crises de m isticism o, períodos de esperança e períodos de resignação.
— Jure que se"eu m e for" você não tornará a casar.
No dia seguinte, tom ava-lhe a m ão, o ar protetor: — Escute, Léon. "Quando eu m e for" não fique sozinho. Você vai encontrar um a boa m oça, casar com ela. É possível até que tenham filhos. Dê a ela as m inhas j oias. Sim ! Faço questão.
Durante oito dias lia da m anhã à noite, e na sem ana seguinte passava horas de olhos fixos nas cortinas, o ar feroz.
Mandara cham ar o curandeiro de Charron e nele acreditara durante um m ês. Brigara com cinco enferm eiras, e cobrira a últim a de um a torrente de inj úrias.
Um belo dia resolvera não cham ar nenhum m édico ou padre, e pouco depois dizia a Delphine, a em pregada de então, que não devia m ais pisar no seu quarto.
Chantreau, que não era casado, passava os dias solitário, a beber. Julien Lam bert era casado com um a m ulheraça de cabelos escuros, tinha filhos e m atava o tem po j ogando cartas.
Quanto a Arnould, o hom em das sardinhas, que se divorciara um a vez e tornara a casar-se com um a m ulher quinze anos m ais m oça, frequentava o bordel pelo m enos duas vezes por sem ana; chegara até a dorm ir lá num a noite em que bebera dem ais.
Foi Caillé quem deteve o com issário de passagem pela m esa.
— E a investigação, Pigeac?
— Vai indo! Vai indo! — respondeu o com issário, ar enigm ático.
(Im becil! Com pleto im becil!) — Entregaram -lhe a cópia da carta que recebem os pelo correio da tarde?
— Já li.
— Que acha?
— Que pensa você do assunto?
— Que ele acabará preso m uito breve.
— Tem algum a pista?
O Sr. Labbé fixou Kachoudas, tão tenso que fazia m al olhar para ele.
— Se tentar qualquer coisa na segunda-feira será o seu últim o golpe.
Mas está blefando, pode acreditar.
— Jeantet acha que não.
— Bem , se o Sr. Jeantet acha... — zom bou o com issário Pigeac.
— Ele afirm a que o hom em não m ente.
— Verdade?
— Essa necessidade de que ele fala é preocupante. Com preende o que quero dizer? Conform e Jeantet escreveu com j usteza, não se tem a im pressão de que as vítim as sej am escolhidas ao acaso.
— Parabéns ao seu repórter.
O com issário cortou com os dentes a ponta de um charuto e esboçou um sorriso.
— Por que sete e por que segunda-feira?
— Até am anhã, senhores. Com licença. O com issário saiu e Caillé resm ungou: — Está vexado. Sei m uito bem que Jeantet não passa de um garoto.
Aceitei-o quase por caridade, porque a m ãe, que é viúva, trabalha com o dom éstica. Mas aposto que, se alguém descobrir quem é o assassino, será ele.
— Vam os m udar de assunto? — propôs Julien Lam bert. — É a sua vez de dar as cartas.
Às seis e m eia, o Sr. Labbé perguntou: — O rubber term inou? Caso não se im portem , cedo o m eu lugar.
Ninguém insistia em que ele ficasse — o que se fazia com os outros — por causa de Mathilde. Gozava de consideração especial. Todos tinham um j eito peculiar de cum prim entá-lo. apertar-lhe a m ão. Tornara-se um hábito.
Depois que ele saía alguém m urm urava sem pre: — Pobre velho!
Da boca para fora, com o haviam apresentado condolências a Julien Lam bert quando a irm ã fora estrangulada.
Um deles — o m édico, num a noite em que bebera dem ais — chegara até a resm ungar entre os dentes: — Essa deve ter lam entado não ser violada.
— Até am anhã, senhores.
— Esquece que am anhã é dom ingo. Verdade. No dom ingo não se reuniam .
— Então, até segunda.
O dia da últim a vítim a! Depois, tudo term inado. Falariam no assunto por algum tem po, depois pensariam noutra coisa, e ninguém m ais m encionaria as velhas senhoras, que pouco a pouco fariam parte de um a lenda.
Era quase um a pena. Olhou para o alfaiate e este, com o quem obedece, dirigiu-se ao cabideiro onde havia pendurado o sobretudo. Não era o im perm eável da véspera. Não ousava vesti-lo. Não o vestiria j am ais. Quem sabe o teria destruído?
O Sr. Labbé atravessou solenem ente a sala e cruzou olhares com a Srta. Berthe, sentada j unto à j anela, no lugar que Jeantet ocupara na véspera.
Vinha com frequência ao Café das Colunas, duas ou três vezes por sem ana.
Percebia-se im ediatam ente o seu perfum e. Estava m uito bem vestida, sem pre de preto e branco, o que lem brava luto e a tornava m ais excitante.
Bebia delicadam ente o seu Porto, sozinha. Esboçava um sorriso discreto quando um dos hom ens a quem conhecia a fixava, m as nunca lhes dirigia a palavra.
Bastaria ao Sr. Labbé piscar-lhe o olho e dirigir-se lentam ente à rua Gargoulleau, onde ela m orava num elegante apartam ento.
Seria pregar um a boa peça a Kachoudas. Que pensaria o alfaiate? Que ia estrangular a Srta. Berthe, em bora ela tivesse apenas trinta e cinco anos?
Louise, a em pregada, aguardava-o. Sentava-se à m esa invariavelm ente às sete horas. Ficaria para a próxim a sem ana, depois de tudo term inado, e o fato assum iria o ar de um a pequena recom pensa.
Venha, m eu Kachoudas! Siga-m e, seu idiota! Hoj e não haverá nem velha, nem j ovem . Vou para casa.
Os passos do alfaiate, às suas costas, eram incertos. Devia ter pensado em falar ao chapeleiro, pois nesse m om ento, ao enveredarem pela rua do Minage, seu andar tornou-se rápido, quase precipitado. Chegou a poucos m etros do Sr. Labbé, no nevoeiro que o transform ava num fantasm a de altura exagerada.
No fundo, am bos estavam com m edo. O Sr. Labbé involuntariam ente apertou o passo. Acabava de pensar: — E se ele estiver arm ado? Se m e atacar? Kachoudas estava bastante excitado para fazer um a tentativa dessas.
Não. Deteve-se, perm itiu que o outro se distanciasse e retom ou cam inho, tateando na escuridão.
Cada qual im obilizou-se diante de sua casa, tirando a chave do bolso. E no silêncio da rua, através do nevoeiro, a voz calm a do Sr. Labbé falou: — Boa-noite, Kachoudas.
Aguardou, chave na fechadura, um aperto no coração. Segundos após, um a voz confusa balbuciou a contragosto: — Boa-noite, Sr. Labbé.