Os Fantasmas do Chapeleiro
Capítulo 4
VIU LUZ DEBAIXO DA PORTA, ouviu passos abafados na escada, o que significava que era dom ingo. Nesse dia levantava-se um pouco m ais tarde que durante a sem ana; a em pregada, ao contrário, arranj ava coragem para sair da cam a antes m esm o de se ouvir o prim eiro apito de trem . Olhar vago, descia para a cozinha, acendia o fogo e ali ficava a cochilar, enquanto aquecia grandes vasilhas de água.
No prim eiro dom ingo que ela passou na casa, ele descera, curioso.
Encontrara a porta envidraçada da cozinha coberta com um a toalha presa por tachinhas.
— Quem é? — perguntara Louise, voz sonolenta.
— Sou eu.
— Precisa de algum a coisa? Estou m e lavando. Provavelm ente na bacia que servia para lavar a roupa. Devia ser assim na casa dela, em Charron. Era tam bém assim que se lavavam na casa de Kachoudas. E a cozinha cheirava a sabonete a m anhã inteira.
O Sr. Labbé não podia perm itir-lhe o uso do banheiro, pois era preciso atravessar o quarto. Com prara um a banheira de zinco. Agora, aos dom ingos, ele a ouvia enchê-la com baldes de água quente, carregados um a um , entre gem idos. Se nas outras m anhãs m al se dava ao trabalho de lavar o rosto, nesse dia, ao contrário, ficava um a hora sentada na banheira, lavando-se em todos os cantos.
E isso enoj ava o chapeleiro. Não gostava do odor dos outros, da intim idade dos outros. Vivera quinze anos naquele quarto com um a m ulher paralítica, incapaz de fazer qualquer coisa por si m esm a e que se enfurecia quando ele m encionava abrir a j anela.
Talvez não fosse culpa dela. Era preciso atribuí-lo ao seu estado de saúde. Nos últim os anos, Mathilde vivera suj a a ponto de parecer fazê-lo de propósito, para desafiá-lo. Chegara a interrogá-lo com um a cham a de crueldade no olhar: — Você não acha que cheiro m al?
Estava diante da lareira acendendo o fogo. Não falhava nunca e em pouco tem po as cham as crepitavam alegres. Fazia m ais frio que nos dias anteriores, um frio diferente. Afastando ligeiram ente a cortina avistou o firm am ento escuro m uito lím pido, gelado, e o contato com a vidraça esfriou-lhe a ponta dos dedos.
A chuva cessara. Toda a cidade se alegraria. Ele não. O bom tem po chegara com um dia de antecedência. Era com o um a traição do céu, um a espécie de fracasso pessoal. Gostaria de term inar com a m esm a atm osfera.
Não só a chuva nas ruas som brias, com o um a auréola em torno dos lam piões, reflexos no chão; isso o excitava sem pre, facilitando seus m ovim entos. Havia m enos gente nas ruas. Os transeuntes andavam j unto às casas, pensando apenas em se proteger da chuva e da lam a das calçadas.
Na casa de Kachoudas ninguém se levantara ainda. Não havia luz algum a. O alfaiate dorm ia encostado à sua gorda m ulher; após a bebedeira da véspera, devia ter-se agitado a noite inteira, roncado, talvez falado em voz alta.
Ela não o teria censurado quando ele voltara para casa. No entanto, m al chegara, a em briaguez se tornara m ais evidente por causa da passagem do frio para o calor. Enveredara pela escada em espiral (igual à do Sr. Labbé), esquecendo de fechar a loj a, deixara-se cair num a cadeira, um braço apoiado no encosto, a cabeça sobre ele.
Chorava? É possível. Ou talvez se sentisse m al. O filho, que tinha três anos e m eio ou quatro, rondara em torno, seguido das duas irm ãs m enores, e finalm ente a Sra. Kachoudas saíra da cozinha, ferro de passar na m ão.
Percebera im ediatam ente o que estava acontecendo e nada dissera. Movera os lábios e desaparecera no côm odo ao lado, reaparecendo m inutos depois com um bule de café.
— Beba, Kachoudas.
Cham ava-o de Kachoudas. Ninguém tratava o alfaiate pelo prim eiro nom e. Até m esm o no letreiro só figurava o sobrenom e, que era antes um nom e de tribo e devia encontrar-se às centenas nos vilarej os do Oriente Próxim o.
Kachoudas acabou por m ostrar o rosto e percebia-se, m esm o do outro lado da rua, que estava envergonhado. Perguntou qualquer coisa à m ulher, talvez se as crianças o tinham visto naquele estado. Ela o aj udou a beber o café e, depois de tom ar apenas a m etade, foi obrigado a correr para os fundos.
O Sr. Labbé não o viu m ais. Foi a Sra. Kachoudas quem desceu para colocar os tapum es e passar o cadeado na porta. Apagou a lâm pada do ateliê e continuou a trabalhar na cozinha depois que todos j á se tinham deitado.
Era dom ingo e o sol abriria, quase certo. O Sr. Labbé fazia os gestos costum eiros: arrum ou a cam a, da qual m udou os lençóis, levou-os para o patam ar, j untam ente com as toalhas usadas na sem ana anterior, e encheu de água a banheira, sem esquecer de falar de vez em quando, dizer qualquer coisa, por um a questão de aparência.
Com o passar dos anos acabara por regular seus gestos com o um a espécie de bale. Era autom ático. Já não precisava pensar. Era tão autêntico que, quando o ritm o m odificava por causa fortuita, ele ficava algum tem po im óvel, desam parado, com o um m ecânico atrapalhado, antes de voltar ao seu ritm o. Enquanto a banheira enchia, por exem plo, ele tinha tem po de guardar a roupa no arm ário, o casaco pendurado num cabide, as calças com os vincos bem m arcados, e em seguida preparar as m eias, a cam isa, o colarinho, a gravata, tudo em fila ao pé da cam a. Havia tem po para tudo e raram ente alterava a ordem dos gestos.
Caso alguém se desse ao trabalho de contar, havia centenas, talvez m ilhares de gestos, que, colocados em série, enchiam os dias, e ele os fazia com certa satisfação, principalm ente no dom ingo, pois sabia que, após os ritos da m anhã, gozaria de um longo dia livre, sozinho em casa.
.Quando desceu j á havia, para adiantar serviço, em purrado a poltrona de Mathilde para diante da j anela, com a form a de m adeira no ângulo correto, e levantado as cortinas, em bora o dia ainda não tivesse clareado.
Encontrou Louise j unto ao fogão, segurando um a xícara de café com leite, toda vestida, pronta para sair, com a roupa e o casaco dom ingueiros, chapéu na cabeça.
— Deixei tudo arrum ado no guarda-com ida — anunciou com sua voz apática, a própria negação da alegria de viver.
Era um a tola. Um anim al. Não se devia prestar atenção a isso. Todos os dom ingos tom ava o prim eiro ônibus para Charron, onde passava o dia com a fam ília e as am igas.
Tinha um j eito de olhar o Sr. Labbé ao qual ele não conseguia habituar-se. Fixava-o com o se não o visse. Ou então via-o com o não o viam os outros, o que o deixava às vezes inquieto. Que ideia faria dele? Não acharia a casa estranha? Não teria as suas suspeitas? Será que pensava?
— A senhora está passando bem ?
— Com o sem pre. Obrigado, Louise.
Preferia esperar que ela saísse para se sentar à m esa, pois sua presença estragava-lhe o prazer. Fechava a porta da loj a m al ela saía e ficava escutando seus passos afastarem -se pela calçada, m ais sonoros ali por causa das arcadas. Então os sinos com eçavam a badalar.
Sem pre tivera predileção pelos dom ingos, m esm o no tem po de Mathilde, quando o dia o im obilizava lá em cim a, acarretando pesadas horas de tédio.
Talvez tivesse se habituado ao tédio, a ponto de chegar a apreciá-lo.
Lia durante a refeição. Lia o relato analítico do processo de um incendiário que, no Jura, em 1882, havia abalado a opinião pública, quase a ponto de provocar um a revolução. Fora preciso enviar tropas do exército para o local. Pouco im portava, aliás, o que lesse. Não se lem braria de nada no dia seguinte. Com prava os livros no sebo duas casas adiante da dele, escolhendo-os a esm o, fossem rom ances, fossem livros históricos. Eram invariavelm ente volum es de páginas am areladas, que em anavam um odor especial, e onde às vezes encontrava um a flor seca ou então um a m osca am assada. Havia ocasiões em que descobria um a carta escrita em tinta desbotada, que servira de m arcador, e raram ente deixava de encontrar um nom e escrito na borda da página, ou o carim bo roxo de um a biblioteca pública.
Nesse dia prom etera a si m esm o realizar um a tarefa im portante, que o atraía há m uito tem po. Mas antes lavou na pia a xícara, o pires, sacudiu a toalha e varreu a sala para recolher as m igalhas de pão. Foi então espiar no guarda-com ida o que Louise tinha preparado para o alm oço e ficou satisfeito, pois bastaria esquentar em banho-m aria o guisado da véspera.
Quando subiu ao prim eiro andar, atravessando a loj a onde aos dom ingos não acendia o gás, os Kachoudas j á se tinham levantado. O céu estava claro, de um azul esverdeado; ouviam -se passos na rua, enquanto o som dos sinos cobria toda a cidade.
O alfaiate, que ainda não se lavara, vestia calças sem suspensórios sobre o cam isolão de dorm ir. Com eçavam sem pre lavando as crianças para que deixassem o espaço livre. Um a vez prontas, a dificuldade era im pedi-las de suj ar as roupas de dom ingo.
A m ais velha, Esther, a que trabalhava na Prisunic, andava pela casa de com binação, e o Sr. Labbé avistou-lhe a base do pescoço. Ainda era m agra, principalm ente nos quadris, m as de seios desenvolvidos, com o tantas das j ovens de sua idade. Será que à noite, nos recantos escuros, no lim iar das portas e nas arcadas, deixava-se apalpar pelos nam orados? Era provável.
Chocava o Sr. Labbé — ele não sabia por que — o fato de hom ens sentirem prazer com a filha de Kachoudas, com a carne Kachoudas.
O alfaiate, que estava com m au aspecto, não sabia onde se sentar.
Percebia-se que não se sentia bem . A consciência devia atorm entá-lo tanto quanto o estôm ago. Aproveitava o dom ingo, com o de costum e, para arrum ar o ateliê, m as fazia-o sem entusiasm o, espírito ausente. Olhava por vezes a casa da frente, onde o chapeleiro perm anecia invisível atrás das cortinas.
Para que se preocupar com ele? Não falaria. Estava aterrorizado. Um hom em com o ele poderia ir à polícia e declarar, com o sotaque que nunca perdera: — O assassino que estão procurando é o m eu vizinho, o chapeleiro.
— Verdade?
— Vi um pedacinho de papel na dobra da calça dele, duas letras recortadas de um j ornal.
— Muito interessante!
— Segui-o e ele estrangulou a Srta. Irene Mollard diante dos m eus olhos.
— Ora, vej am !
— Depois, ele m e disse no tom m ais natural do m undo:" Seria um erro, Kachoudas!"
Seria um erro, de fato. E se alguém tivesse ideia de lhe perguntar se, por acaso, ele usava um im perm eável bege? Em todos os tem pos, em todos os países do m undo, não foram sem pre os Kachoudas os suspeitos preferenciais?
Vam os! Hora de pôr m ãos à obra; tinha letras a recortar, às vezes um a a um a, procuradas ao longo dos artigos, para depois colá-las com sim etria. Era tarefa lenta, m esm o quando se estava habituado.
O Sr. Labbé não fazia rascunho. O sol esgueirava-se pela j anela e proj etava na parede fronteira as flores com plicadas da cortina de renda.
Além disso, dois pequenos discos de sol, que se m oviam com o anim ais vivos, pareciam brincar no acaj u da escrivaninha.
Na rua do Minage, portas se abriam e fechavam , fam ílias dirigiam -se à igrej a de São Salvador, entre o canal e o porto. Ouviam -se as sirenes dos barcos. Os pescadores, sem se preocuparem com o dom ingo, aproveitavam -se de que o nevoeiro se tivesse dissipado para sair para o largo e deviam fazer fila, um a um , no canal.
A cidade estava radiosa, am arelo dourado ao sol; o porto era de um azul intenso: daí a pouco os Kachoudas sairiam por sua vez, as crianças na frente, com suas roupas de dom ingo, depois Kachoudas e a m ulher, sem pre m eio desaj eitados, bem m enos à vontade que durante a sem ana.
Depois da m issa passariam pela confeitaria da rua dos Merciers e o alfaiate, na volta, traria o pacote am arrado com barbante verm elho.
"Pequena biografia das vítimas do estrangulados"
Usava da palavra propositalm ente, com certa ironia, porque era a usada por todo m undo. Entendessem ou não, pouco im portava.
Antes de com eçar subiu a um a cadeira, passou a m ão sobre o arm ário e pegou um obj eto, um a fotografia cartonada em estreita m oldura de m adeira escura. Dois m eses antes estivera pendurada na parede j unto à cam a de Mathilde; via-se ainda o retângulo m ais claro no papel pintado.
Era um a foto de classe do convento da Im aculada Conceição, no dia da form atura.
Eram quinze m oças. O Sr. Labbé contara-as m uitas vezes e seria capaz de dar nom e a cada um daqueles rostos. Tinham entre dezesseis e dezoito anos. Vestiam idêntico uniform e azul-m arinho, saia plissada, cabelos trançados e fita ao pescoço com um a m edalha. No centro, um a religiosa m agra e pálida, ascética, a im agem da piedade, m ãos ocultas nas m angas.
Segundo Mathilde era um verdadeiro anim al, apesar do sorriso angélico.
As m eninas da segunda fila estavam de pé sobre um a espécie de estrado recoberto de tapete. Vasos de plantas enquadravam o grupo.
Fotografia na sua frente, contra o tinteiro de cobre que j á não tinha utilidade, um a vez que usava caneta-tinteiro, com eçou a trabalhar, um edecendo os lábios com a língua a intervalos.
"Jacqueline Delobel, sessenta anos, viúva de um capitão da infantaria."
Era a terceira a contar da esquerda, garota de cabelos escuros e olhar vivo, nariz agudo, que parecia conter o riso ao fixar o fotógrafo, cuj a cabeça devia estar escondida sob o pano preto.
"De boa família. Filha do notório Massard, que escreveu várias obras sobre a história local. Viveu com o marido em diversas cidades onde haviaguarnição do exército, entre outras Besançon. Teve dois filhos. A filha,casada com um importador de Marselha, e um filho, hoje tenente dos spahis.
Vivia sozinha num apartamento da rua dos Merciers, sobre uma loja de cordames e cestas. Brigada com a filha. Pensão pequena. Não aceitavadinheiro do filho e vendia discretamente pequenos trabalhos de agulha."
Acrescentou, após um instante de reflexão: "A filha não compareceu ao enterro. O filho, cuja guarnição está na Síria, não pôde ser avisado a tempo. ''
Isso quanto à prim eira. Não dera trabalho. Não gozava de saúde.
Privava-se de com er para esticar a pensão. Saía à noite pelas ruas a fim de entregar seus trabalhos; e era difícil em La Rochelle passar de um a rua com ercial à outra evitando os becos escuros.
Felizm ente havia com eçado por ela. Caso se tratasse de m ulher vigorosa com o Léonide Proux, talvez tivesse falhado. Na verdade, ainda não tinha tido a ideia de fixar os dois pedacinhos de m adeira — com o os que certos com erciantes ainda colocam nos em brulhos para servir de alça — nas extrem idades da corda do violoncelo.
Apesar da pouca resistência da Srta. Delobel, da ausência m esm o de qualquer resistência, m achucara tão profundam ente os dedos que chegara a sangrar.
Quase com etera outro erro. Acontecera nas proxim idades do canal, atrás da igrej a de São Salvador. Tivera a ideia de j ogar o corpo no canal. Era m aré vazante. A correnteza estava forte. Só teriam encontrado a Srta. Delobel vários dias depois, talvez sem anas, talvez nunca m ais.
E isso tudo m odificaria, porque m ais tarde ele não poderia agir da m esm a m aneira com os outros corpos. Diriam , quem sabe, que ele não tinha sim etria. Não era bem isso. O gesto não teria o m esm o caráter.
Rum ara em seguida para o Café das Colunas para j ogar um rubber tom ando o seu picon-grenadine.
"Sra. Cujas (Rosalie), livreira, rua dos Merciers, mulher de René Cujas, funcionário da prefeitura."
Outra m oça de boa fam ília, anotou escrupulosam ente. Bastaria dizer que estudara no Im aculada Conceição, o que daria no m esm o, porém era perigoso. Estranho que ninguém percebesse que as velhas senhoras estranguladas no espaço de algum as sem anas tinham estudado todas no m esm o convento.
Som ente Jeantet, que era inteligente, observara que tinham quase a m esm a idade e que existia entre elas com o que um a sem elhança de fam ília.
Na foto, a garota Alain (sobrenom e de solteira) era provavelm ente a m ais bonita, de um a beleza um tanto fria.
"O pai foi vice-prefeito de La Rochelle durante vinte anos."
Eram ricos. Ela poderia ter arrebatado qualquer partido. Por que esperara até vinte e oito anos para se casar?
— Era m uito exigente — dizia, am arga, Mathilde. — Queria um a grande paixão.
Mathilde acrescentava sem am argura: — Com o se isso existisse!
Aos vinte e oito anos casara-se com Cuj as, porque nessa época o pai j á havia m orrido, deixando um a herança confusa, e os irm ãos queriam desem baraçar-se dela. Cuj as tentara vinte em pregos diferentes antes de ingressar na prefeitura. Não era bonito nem particularm ente inteligente.
Tinha saúde delicada e era sua m ulher quem lhe preparava a com ida.
O Sr. Labbé conhecia m uito bem a pequena livraria onde, caso nada encontrasse a seu gosto no sebo, rem exia nos dois caixotes de livros de liquidação, encostados à parede. Não era um a livraria im portante. Vendia principalm ente cartões-postais, canetas, lápis, borrachas. Mas havia um a sala nos fundos onde só penetravam os fregueses certos, e o chapeleiro sabia que era ali que seus am igos, com o Arnould, o das sardinhas, conseguia livros eróticos.
Sabia tam bém que havia nos fundos um a porta que se abria para um beco.
Com o a Sra. Cuj as não tinha em pregada e, depois de fechar a loj a, só saía em com panhia de Cuj as para ir de vez em quando ao cinem a, ele teria que esperar m eses pela oportunidade de surpreendê-la na escuridão da rua.
Foi por isso que entrou na sala dos fundos. Os pedacinhos de m adeira nos extrem os da corda de violoncelo tinham -se revelado m uito práticos. Ela era m ais nervosa que a Sra. Delobel. Depois de sair, ele se perguntara se teria apertado a corda por tem po suficiente e só se tranquilizara no dia seguinte ao ler o j ornal.
Certo dia, há onze ou doze anos, Mathilde dissera que na livraria, quando evocavam o destino de suas antigas colegas:"— A vida não é divertida."
A Sra. Cuj as respondera calm am ente:"— E por que seria divertida?"
Era o que o Sr. Labbé gostaria de expressar, m as pareceu-lhe difícil. Para cada um a procurava um a fórm ula.
"Considerava a vida uma provação", com pôs com as letras recortadas.
Não se desculpava. Não havia necessidade. A coisa plainava acim a disso. Mas percebia que a tarefa realizada sem desfalecim entos era quase im possível. Noites atrás tivera um sonho estranho e talvez por isso decidira-se a trabalhar nesse dom ingo. Encontrava-se num a sala que lem brava um salão de patronato, onde todas as pessoas conhecidas da cidade estavam sentadas em filas. Ele se achava no estrado, com um a tela à"retaguarda, segurando um a com prida vareta, pois fazia um a conferência ilustrada com slides.
Proj etada na tela via-se a foto tirada outrora no convento e ele designava as m oças, um a após outra.
Com eçava em tom leve, por processo de elim inação.
— Não falarem os sobre as m ortas...
Eram duas. Um a com sardas, cabelos crespos em torno das orelhas e na ponta das trancas; m orrera de tuberculose aos vinte e dois anos, num sanatório suíço. A outra tinha olhos vivos, j á era um a m ulher, casara-se com um im portante arm ador da cidade e sucum bira no prim eiro parto. O filho sobrevivera. Era, por sua vez, arm ador em Bordeaux.
Restavam treze. Um a delas tinha vivido em todas as capitais da Europa com o m arido, cônsul, e no m om ento residia na Turquia. De outra nada se sabia, exceto que saíra de casa aos dezenove anos, provocando um escândalo. A m ãe m orrera em consequência. O pai tornara a casar.
Restavam onze. O público da sala escutava sem com preender m uito bem , e ele se esforçava inutilm ente para transm itir seu pensam ento. A intervalos alguém m udava o slide no proj etor, quando ele batia com a vareta no estrado, e surgia então um a vista panorâm ica de La Rochelle, um a vista que não existia, pois viam -se todas as ruas, todas as casas, os transeuntes e até, por m ilagre, as pessoas no interior das casas.
Um a das alunas do convento, que vivia em Paris, era m ulher de um m inistro, e a filha casara-se com um nobre austríaco. Sua foto aparecia com frequência nos j ornais; recentem ente ingressara num a clínica para subm eter-se a um a operação não-especificada.
Os Kachoudas voltavam para casa e j á despiam as crianças para vestirem a roupa de todos os dias. Depois do alm oço com eriam os doces acom panhados de café com leite. Kachoudas tam bém m udaria de roupa e sentaria à sua m esa, a m enos que aproveitasse o dom ingo para pôr as contas em dia, o que era sem pre doloroso.
Era o único dia da sem ana em que todo m undo ficava na oficina, exceto Esther, a quem as am igas viriam buscar pouco m ais tarde, parando sob as j anelas e cham ando, m ãos em concha: — Oi!
A décim a... Estava um tanto confuso. Deveria ter tom ado notas quando Mathilde era viva, pois ela conhecia todas com o a palm a das m ãos.
Vej am os... Havia um a que trabalhava no teatro, não em Paris, m as fazendo turnês pelas províncias.
Faltavam duas... Apontou as fotos com a ponta da caneta, com o fizera em sonho com a varinha. A que tinha tido varíola. Era contram estra num a casa de m oda de Londres e voltara diversas vezes a La Rochelle para visitar a m ãe, ainda viva e toda enrugada.
A últim a das que haviam saído da cidade m orava em Ly on, era a única coisa que sabia.
Restavam sete, além de Mathilde, com pletando o grupo, um a vez que não se podia levar em conta a religiosa da foto, que se cham ava m adre Santa Josefina e m orrera há m uito tem po.
"Srta. Anne-Marie Lange, merceeira, rua Saint-Yvon."
Os Kachoudas estavam à m esa. Depois daquela, ele tam bém iria alm oçar. Teria o restante da tarde para as outras.
Moça gorda, que se em panturrava de doces e vivia num a casa cheia de gatos. Era loura e cor-de-rosa, sem pre vestida de claro, voz aguda e inflexões cantantes.
"De boa família. O pai. .."
O pai perseguia em pregadinhas, o que resultava em aborrecim entos. Fora preciso abafar alguns escândalos. Aos setenta e cinco anos continuava na m esm a e a fam ília era obrigada a vigiá-lo, acom panhá-lo nos passeios; não lhe davam dinheiro algum , despediam as em pregadas, m antendo apenas criados na casa. Morrera finalm ente. Um a das filhas vivia nos Estados Unidos; Anne-Marie, que não se casara, vivia na m ercearia com um a antiga professora de aspecto autoritário e as m ás-línguas m urm uravam que as duas passavam m uito bem sem hom ens.
Era possível. No caso, a fórm ula era fácil, de qualquer m aneira. Bastava consultar o j ornal.
"A autópsia revelou a presença de um fibroma e de um tumor que se degeneraria, provavelmente, em câncer."
Chovia tanto no dia da Srta. Lange, que ele conseguira pegá-la em plena rua Gargoulleau, a dois passos do Hotel de France. Tinha os braços carregados de pacotinhos que se espalharam pela calçada, entre eles um vidro de crem e fresco, espatifado.
Era preciso alm oçar. Desceu, esquentou o guisado, e lançou fora um a parte, pois nem sem pre conseguia com er por dois. No dom ingo não precisava subir com a bandej a, o que era um a vantagem . Em seguida lavou a louça.
— Pode deixar a louça, que eu lavo quando voltar — propusera Louise.
Poderia deixar, realm ente. Mas não gostava de tarefas adiadas, principalm ente de pratos engordurados. Além disso, ocupava-se. Fazia parte dos ritos do dom ingo.
Tornou a subir e lavou cuidadosam ente as m ãos. As crianças dos Kachoudas brincavam no chão. A m ãe consertava m eias de lã e o alfaiate tentava fazer as contas, m olhando o lápis com saliva de vez em quando e perguntando à m ulher: — Sete m ais nove?
Havia dom ingos em que o Sr. Labbé dorm ia a sesta na sua poltrona, um a poltrona forrada de veludo verm elho, com o a de Mathilde, m as nesse dia estava excitado com o trabalho. Chegava ao fim . Na noite seguinte, se tudo corresse bem , o caso estaria encerrado. Experim entava a um só tem po im paciência e com o que o pressentim ento de um vazio.
Mais tarde teria apenas que pensar em pequenos detalhes, que se haviam tornado rotineiros e j á não o preocupavam .
Até então não havia com etido um só erro; tinha certeza de que não com eteria nenhum . Mesm o o acidente com o alfaiate era insignificante. Não inspirava m edo, pelo contrário. Estava quase satisfeito. Quem sabe se sentia um tanto solitário?
Com Louise era exato que se havia arriscado a certas im prudências.
Agora havia alguém que sabia. Perfeito. Dois dias depois, Kachoudas leria o seu relatório no Echo des Charentes.
Com preenderia agora certos detalhes?
"A Sra. Geoffroy-Lambert, viúva do presidente da Caixa de Compensação..."
Justine! Era assim que todo m undo cham ava a irm ã de seu am igo Julien Lam bert, o agente de seguros. Ele acom panhara o enterro. Acom panhara-os todos, um a vez que se tratava de pessoas conhecidas.
Mais um a viúva. Havia m uitas. Verdade que Justine casara com um hom em vinte anos m ais velho que ela, suj eito rico, im portante, que possuía na rua Réaum ur a m ais bela residência particular da cidade, e outra em Paris, onde vivia a m aior parte do ano.
Era um desses altos funcionários, cuj as tarefas perm anecem um m istério para o com um dos m ortais. Passara pela Inspetoria de Finanças. Conselheiro de estado, diziam que fora o hom em m ais corneado da França.
Depois de sua m orte, pelo m enos, Justine tinha fam a de gostar excessivam ente de rapazes. Em sua casa bebia-se firm e, dançava-se até de m adrugada e aos sessenta anos ela não m anifestava, de m odo algum , a intenção de abandonar esse tipo de vida.
Tinha chofer, que diziam ser seu am ante, m as para correr as loj as da rua do Palais, onde, voz aguda, com portava-se com o um a rainha, precisava apenas vencer um pequeno trecho de rua e percorria-o a pé. Felizm ente!
Fora a m ais difícil de todas. Segurava um guarda-chuva e um a das hastes estivera a ponto de vazar-lhe um olho quando se precipitara sobre ela.
Agarrara-a prim eiro pelo queixo com a corda de violoncelo e ela se debatera, dando-lhe pontapés. Estivera prestes a fugir sem term inar.
Mas conseguira, apesar de tudo; fora a única vez em que precisara correr, pois um a porta se abrira a m enos de dez m etros e ele ouvira um a voz de hom em dizendo, delicado: — Obrigado, m inha senhora. Vou providenciar, sem dúvida. Afirm o que, se dependesse de m im , há m uito tem po teria sido indenizada.
O representante de um em preiteiro, ou algo no gênero.
Justine não estava doente. Não era infeliz, nem resignada. Não tinha nenhum a vontade de passar para o outro m undo. Repugnaria ao chapeleiro escrever, por exem plo: "Foi uma perda para a sociedade?"
Nem m esm o para a fam ília, que vivia apavorada com um possível escândalo. A filha, casada com um a personalidade em destaque, proibira-lhe ir a Paris.
Lim itara-se, após o resum ido curriculum vitae, a colocar um ponto de interrogação.
"Léonide Proux, sessenta e um anos, porteira, residente em Fétilly. .."
Os Proux tinham possuído vinte fazendas e dois castelos, e Léonide estava reduzida a m orar em Fétilly, nos arrabaldes da cidade, perto do gasôm etro, local habitado por vagabundos, pequenos funcionários e operários.
Seu pai, Luc Sabord, que perdera a fortuna em ridículas especulações, seria doido, conform e diziam ? O m arido, que m orrera aos quarenta e um , seria sifilítico? Verdade ou não, ela perdera um a filha disform e na prim eira infância e o filho não era m uito norm al; casara-se assim m esm o e vivia ocioso na casa dos sogros, que exploravam um pequeno vinhedo na Dordogne.
Proux, em vida, andava de cam a em cam a. Chegara a ponto de levar para casa m ulheres recolhidas em qualquer lugar, às vezes no bairro das casernas, e certa noite espancara Léonide diante delas, sob pretexto de que detestava vê-la chorar e que ela chorava de propósito para envenenar-lhe a existência.
Ela tivera que ser m edicada. No hospital aprendera a profissão de parteira. Estava grisalha, tez cor de cera. Era calm a, glacial; diziam -na m uito hábil profissionalm ente. Ninguém j am ais a vira rir ou sorrir, e tinha um j eito de segurar os recém -nascidos pelos pés que causava arrepio nas parturientes.
O difícil era com preender tudo aquilo e concentrá-lo em poucas frases, pois não podia recortar infinitam ente letras de j ornal.
Era falso que tivesse telefonado. Encontrara-a por acaso, quando rondava em torno da casa para investigar suas idas e vindas. Nesse dia chegara a hesitar no uso da corda de violoncelo. A casa era m uito pequena, com um a lâm pada sobre a porta.
Léonide saíra quando ele se encontrava ali há m inutos, levando a sua m aleta. Seguira-a até o gasôm etro, esperando que um carro passasse. Ela o reconhecera, tivera tem po de voltar a cabeça, m as era dem asiado tarde. Não havia m anifestado espanto ou m edo. Não ousava escrever que ela se sentira aliviada, m as era quase verdade.
Quanto a Irene Mollard, escrevera ao j ornal, no dia seguinte, o que tinha a dizer. Tanto na foto com o no m om ento em que saía de sua últim a aula de piano, ela parecia um a ave tom bada do ninho. Um m ilagre que tivesse sobrevivido tanto tem po.
Faltava um a, Arm andine de Hautebois, hoj e m adre Santa Úrsula, que em outras fotos de form atura, com outras m oças, representava por sua vez o papel que fora outrora de m adre Santa Josefina.
Ela passara, de certo m odo, da fotografia ao convento. Não se dera ao trabalho de viver, nem ao m enos de tentar. Contudo, era rica, tinha irm ãos e irm ãs que haviam encam inhado a sua vida no m undo.
Seria no dia seguinte, um a vez que ela só saía do Im aculada Conceição um a vez por m ês, na segunda segunda-feira, para ir ao bispado. Não estaria sozinha. Religiosas nunca saem sozinhas. Teria apenas cinquenta m etros de escuridão a transpor e o Sr. Labbé fora obrigado a elaborar um plano bastante com plicado.
Kachoudas o seguiria novam ente? No fundo, o chapeleiro quase o desej ava.
Se as coisas se passassem com o previa, no dia seguinte às dez horas tudo estaria term inado.
Não queria pensar em Louise. A tentação era ridícula. Não se aj ustava ao resto.
Repetiu várias vezes, enquanto em pilhava achas na lareira e abaixava as cortinas, pois a noite caía: — Louise, não! De m odo algum !
Desceu para se servir de um conhaque. Havia um a garrafa no arm ário da sala de j antar. Sentou-se para beber devagar, em pequenos goles, depois de colocar o frasco no lugar para não se sentir tentado a um a segunda dose.