Os Filhos de Duna
— História terrível. Terrível.
Jessica estremeceu.
— História terrível. Terrível.
— Que devemos fazer? — indagou Ghanima. — Tenho medo de pesquisar todas as minhas memórias. Todas as minhas vidas...
— Gham! Eu a previno de que não faça isso. Não deve se arriscar a...
— Pode acontecer, mesmo que eu não me arrisque. Como podemos saber o que realmente aconteceu com Alia?
— Não! Você pode ser poupada dessa... dessa possessão. — E se conteve.
— Bem... Jacurutu, não é? Já mandei Gurney encontrar o lugar... se é que ele existe.
— Mas como ele pode... Oh! É claro! Os contrabandistas.
Jessica sentiu-se silenciada ante mais esse exemplo de como a mente de Ghanima funcionava de acordo com o que devia ser a consciência interior de outras pessoas.
“A minha!” Como isso era verdadeiramente estranho. Jessica percebia que essa carne jovem podia carregar consigo todas as memórias de Paul, pelo menos até o momento da separação espermal de Paul em seu próprio passado.
Era uma invasão da privacidade contra a qual alguma coisa primal em Jessica se revoltava. Momentaneamente, encontrou-se mergulhando naquele absoluto e inabalável julgamento Bene Gesserit: Abominação! Mas havia nessa criança uma suavidade, um desejo de se sacrificar pelo irmão que não podiam ser contestados.
“Nós somos uma só vida se estendendo para um futuro negro”, pensou Jessica. “Somos um só sangue.” Procurou criar coragem para aceitar os acontecimentos que ela e Gurney haviam iniciado. Leto precisava ser separado de sua irmã, devia ser treinado do modo como a Irmandade insistia para que fosse.
Ouço o vento soprando através do deserto e vejo as luas de uma noite de inverno, erguendo-se como grandes naves no vazio. A elas faço o juramento: serei resoluto e farei do governo uma arte. Vou equilibrar o passado que herdei e me tornar um perfeito repositório para os restos das minhas memórias. E serei conhecido por minha bondade, mais que por minha sabedoria.
Minha face brilhará ao longo dos corredores do Tempo, enquanto existirem os seres humanos.
- O Juramento de Leto, de acordo com Harq al-Ada
Quando ainda muito jovem, Alia Atreides praticava durante horas o transe prana-bindu, tentando reforçar sua própria personalidade pessoal contra o assalto de “todas aquelas outras”. Ela conhecia o problema num sietch, era impossível escapar à melange. Ela infestava tudo: a comida, a água, o ar, até mesmo os tecidos de encontro aos quais Alia chorava durante as noites. Muito cedo ela reconheceu a utilidade das orgias do sietch, quando a tribo bebia a água da morte de um verme.
Na orgia, os Fremen liberavam as tensões acumuladas por suas próprias memórias genéticas, e negavam essas memórias. Ela vira companheiros serem temporariamente possuídos durante uma orgia.
Para ela, não havia tal liberação, nenhuma negação. Já possuía consciência total bem antes do nascimento. Com essa consciência, viera uma percepção cataclísmica de suas condições: presa dentro de um ventre em contato intenso e inescapável com todas as personas de todos os seus ancestrais, mais as identidades transmitidas pela morte, no transe da especiaria, a Lady Jessica. Antes de nascer, Alia já possuía cada bit de saber necessário a uma Reverenda Madre Bene Gesserit e mais, muito mais de “todas aquelas outras”.
Nesse saber se encontrava o reconhecimento de uma terrível realidade a Abominação. A totalidade daquele conhecimento a enfraquecia. Os pré-nascidos não podiam escapar. E ainda assim ela lutara contra seus ancestrais mais terríveis, conquistando uma temporária vitória de Pirro que durara o período de sua infância.
Conhecera então uma personalidade privada, mas esta não tinha imunidade contra intrusões ocasionais daqueles que viviam vidas refletidas através dela.
“Assim serei um dia”, pensou. Esse pensamento a arrepiava. Caminhar e dissimular-se através da vida de uma criança, a partir de suas próprias entranhas, introduzindo-se, agarrando-se à consciência para acrescentar um quantuna de sua experiência.
O medo a perseguiu na infância. E persistiu através da puberdade. Ela o combatera, sem nunca pedir ajuda. Quem entenderia a ajuda de que ela precisava?
Não sua mãe, que jamais se poderia livrar do espectro daquela sentença da Bene Gesserit: os pré-nascidos eram Abominações.
E viera aquela noite em que seu irmão caminhara sozinho para o deserto em busca da morte, entregando-se ao Shai-Hulud, tal como se esperava de um Fremen cego. Em questão de um mês, Alia estava casada com o mestre espadachim de Paul, Duncan Idaho, um mentat trazido da morte pelas artes dos Tleilaxu. Sua mãe fugira para Caladan e os gêmeos de Paul eram um encargo jurídico seu.
Assim controlara a Regência.
As pressões da responsabilidade afastaram os antigos medos e Alia se encontrara aberta às suas vidas interiores, pedindo-lhes conselhos, mergulhando no transe da especiaria em busca de visões orientadoras.
A crise chegou num dia como muitos outros, durante o mês da primavera de Laab, numa clara manhã no Castelo do Muad'Dib, quando um vento frio soprava do pólo. Alia ainda usava a cor amarela do luto, a cor do sol estéril. Mais e mais, durante as últimas semanas, estivera negando a voz interior de sua mãe, que tendia a zombar dos preparativos para os Dias Santos que seriam celebrados no Templo.
Sua consciência interna de Jessica foi se apagando, se apagando... para afinal afundar-se na exigência anónima de que Alia se ocupasse com a Lei dos Atreides. Novas vidas começaram a clamar por seu instante de consciência. Alia sentia que acabara de abrir um fosso sem fundo, e rostos se elevavam para fora dele como uma nuvem de gafanhotos, até que ela conseguiu afinal focalizar um deles, que era como o de um animal: o velho Barão Harkonnen. Em aterrorizada indignação, ela gritara contra todo aquele clamor interno, conquistando um temporário silêncio.
Nessa manhã, Alia dera sua caminhada pré-desjejum através do jardim no teto do Castelo. Em nova tentativa de vencer a luta interior, tentara conter toda a sua consciência dentro da advertência de Choda aos Zensunni:
“Abandonando a escada, pode-se cairpara czmal”
Entretanto, o brilho da manhã por sobre os penhascos da Muralha Escudo continuava a distraí-la. Plantações do flexível capim-espalhado enchiam as trilhas do jardim. Quando olhava na direção oposta à Muralha Escudo, viu no capim o orvalho, o aprisionamento da umidade que passara ah durante a noite, refletindo sua própria passagem como se fosse uma multidão.
Essa multidão causou-lhe vertigem. Cada reflexo trazia impressa a face da multidão interior.
Tentou focalizar a mente naquilo que o capim implicava. A presença de orvalho em grande quantidade revelando-lhe o quanto a transformação ecológica progredira em Arrakis. O clima das latitudes setentrionais estava se tornando mais quente, o dióxido de carbono da atmosfera encontrava-se em elevação. Lembrou a si mesma quantos novos hectares seriam colocados debaixo do cobertor de plantas verdes no próximo ano e eram necessários 37 mil pés cúbicos de água para irrigar apenas um hectare.
A despeito de todas as tentativas de pensar em coisas mundanas, era incapaz de afastar a presença de todos os outros, circulando como tubarões em torno de sua mente.
Colocou as mãos sobre a testa e as apertou.
Os guardas de seu Templo haviam trazido um prisioneiro para ser julgado durante o poente do dia anterior: um tal de Essas Pavmon, homem moreno e pequeno, aparentemente trabalhando para uma das casas menores, a dos Nebiros, que comerciava com artefatos sagrados e pequenos objetos para decoração. Na realidade, Pavmon era conhecido como espião da CHOAM, com a tarefa de avaliar a colheita anual de especiaria. Alia estivera a ponto de mandá-lo para as masmorras
quando ele protestara em voz alta contra “a injustiça dos Atreides”. Aquilo podia acarretar-lhe uma imediata sentença de morte no trípode de enforcamento, mas Alia sentira-se cativada pelo atrevimento do homem. De seu Trono do julgamento, falara com severidade, tentando assustá-lo para que revelasse mais do que já dissera aos inquisidores.
— Por que nossas colheitas de especiaria interessam tanto ao Combine Honnete? — exigira saber. — Diga-nos e poderemos poupá-lo.
— Eu apenas colho alguma coisa para a qual existe um mercado —
respondera Pavmon. — Não sei nada do que é feito da minha colheita.
— E por esse lucro mesquinho você interfere nos planos da realeza? —
perguntara Alia.
— A realeza nunca leva em conta que nós também podemos ter planos —
retrucara o homem.
Alia, impressionada com essa audácia desesperada, indagara:
— Essas Pavmon, você trabalharia para mim?
Diante dessa pergunta, um sorriso clareou-lhe a face escura e ele disse:
— A senhora estava a ponto de me eliminar sem hesitação. Qual é meu novo valor para que se crie subitamente um novo mercado?
— Você tem um valor simples e prático. É audacioso e está disposto a trabalhar pela maior oferta. Posso oferecer-lhe mais do que qualquer outra pessoa no Império.
Diante disso, ele citou uma soma extraordinária, mas Alia riu e retrucou com um número que considerava mais razoável, sem dúvida muito mais do que ele jamais recebera. E acrescentou:
— E, é claro, incluo a dádiva de sua vida, à qual presumo que atribua um valor ainda menos ordinário.
— Uma barganha! — gritara Pavmon e, ante um sinal de Alia, fora levado pelo sacerdote Mestre de Entrevistas, Ziarenko Javid.
Menos de uma hora depois, quando Alia se preparava para deixar o Salão de julgamentos, Javid veio correndo relatar que Pavmon murmurara aqueles versos fatídicos da Bíblia Universal Laranja: “Maléficos non patieres úvem “
— Não permitirás que a bruxa viva — traduziu Alia.
Era assim que ele agradecia! Era um daqueles que tramavam contra sua própria vida! Num ímpeto de fúria como nunca antes experimentara, ordenou a execução imediata de Pavmon, mandando seu corpo para o alambique da Morte do Templo, onde sua água, pelo menos, teria algum valor nos açudes dos sacerdotes.
Mas durante toda aquela noite o rosto de Pavmon a assombrara.
Ela tentara todos os truques contra sua imagem persistente e acusadora, recitando o Buji do Livro Fremen de Kreos: “De nada me lembro! De nada me lembro!” Mas Pavmon a acompanhara através de uma noite insone, até esse novo e atordoante dia em que ela percebia que o rosto dele se juntara àqueles outros nos reluzentes reflexos do orvalho.
Uma guarda feminina chamou-a para o desjejum, da porta do terraço que ficava atrás de uma cerca viva de mimosas. Alia suspirou. Sentia ter pouca opção
entre os dois infernos: o chamado de dentro de sua mente e o chamado dos criados todas eram vozes inúteis mas persistentes em suas exigências, ruídos diários que ela gostaria de poder silenciar com o gume de uma faca.
Ignorando a guarda, Alia olhou através do jardim do teto, em direção à Muralha Escudo. Um bahada deixara seu amplo rastro, como um leque de atritos sobre o solo coberto de seus domínios. O delta de areia espalhava-se diante de seus olhos, delineado pelo sol da manhã. Ocorreu- lhe que, para os olhos de um não-indiciado, aquele leque poderia parecer a evidência do fluxo de um rio, mas não era nada mais que o lugar onde seu irmão partira a Muralha Escudo, usando os atômicos da Família Atreides para abrir uma trilha no deserto pela qual os vermes da areia haviam transportado as tropas Fremen em direção à sua acachapante vitória sobre seu antecessor imperial, Shaddam IV. Agora, um amplo qanat fluía sobre o lado oposto da Muralha Escudo, de modo a bloquear as incursões dos vermes da areia, que não passavam sobre a água, um veneno para eles.
“Será que tenho uma barreira dessas dentro de minha mente?”, pensou ela.
O pensamento aumentou a sensação de tonteira, de estar sendo separada da realidade.
“Vermes da areia! Vermes da areia.”
Sua memória apresentou-lhe uma coleção de imagens de vermes da areia: o poderoso ShaiHulud, o demiurgo dos Fremen, besta mortal das profundezas do deserto, cujas efusões incluíam a inestimável especiaria. Como era estranho que o verme da areia crescesse a partir de um animalzinho chato e coriácio, a truta da areia, pensou. Elas eram como as multidões agregadas dentro de sua consciência. A truta da areia, unindo-se a outras trutas, bem juntinhas, sobre o leito rochoso do planeta, formava cisternas vivas: elas aprisionavam a água para que seu vetor, o verme da areia, pudesse viver. Alia podia sentir a analogia: alguns daqueles outros dentro de sua mente aprisionavam forças perigosas que poderiam destruí-la.
Novamente a guarda Chamou-a para o desjejum, um tom de impaciência transparecendo em sua voz.
Com raiva, Alia se voltou, acenando para que a guarda entendesse que estava dispensada.
A mulher obedeceu, mas a porta bateu com força.
E com o som da porta batendo Alia sentiu-se capturada por tudo que tentara negar. As outras vidas transbordaram dentro dela como uma horrenda maré. Cada vida exigindo, pressionando sua face de encontro aos seus centros de visão: uma nuvem de rostos. Alguns apresentavam peles com manchas sarnentas, outros eram cruéis e cheios de sombras fuliginosas, e havia bocas semelhantes a losangos úmidos. A pressão desse enxame fluiu sobre ela como uma correnteza que a obrigava a flutuar livremente e mergulhar nela.
— Não — sussurrou Alia. — ‘Não... não... não...
Teria caído no jardim, não fosse o banco ao lado, que recebeu seu corpo alquebrado. Tentou apenas sentar-se, não conseguiu e acabou se estendendo sobre o frio plasteel, ainda a sussurrar sua recusa.
A maré continuava a subir dentro dela.
Sentia-se sensível a cada pedido de atenção, consciente do risco, mas alerta a cada exclamação daquelas bocas circunspectas que clamavam dentro dela. Elas formavam uma cacofonia de pedidos de atenção: “Eu! Eu!” “Não, eu!” E ela sabia que, se lhes concedesse atenção, se ouvisse, cedendo totalmente uma única vez, estaria perdida. Encarar um daqueles rostos dentro da multidão e seguir sua voz significaria ser dominada pelo egocentrismo dos que compartilhavam sua existência.
— A presciência faz isso com você — sussurrou uma voz. Ela tapou os ouvidos com ambas as mãos, pensando: “Eu não sou presciente! O transe não funciona comigo!” Mas a voz persistiu: — Poderia funcionar, se tivesse ajuda.
— Não... não — sussurrou Alia. Outras vozes ondularam em sua mente:
— Eu, Agamenon, seu ancestral, exijo uma audiência!
— Não... não! — Ela apertou as mãos contra os ouvidos até que a dor foi a resposta da carne.
Um tagarelar insano dentro de sua cabeça indagava:
— Que restou de Ovídio? Simples. Ele está no lugar de John Bartlett!
Os nomes careciam de significado para ela. Queria gritar contra todos eles, e contra todas as outras vozes, mas não conseguia encontrar a sua própria.
A guarda, enviada para o terraço por seus superiores, olhou uma vez mais pela porta, por trás das mimosas, viu Alia no banco e disse a uma colega:
— Ahh, ela está repousando. Você notou como ela não dormiu bem a última noite. É bom para ela fazer o Zaha, a sesta matutina.
Alia não ouviu a mulher. Sua consciência fora dominada por cânticos entoados aos gritos:
— Velhos pássaros alegres é o que nós somos, viva! — As vozes ecoavam no interior de seu crânio e ela pensou: “Estou enlouquecendo. Estou perdendo a razão.”
Seus pés fizeram débeis movimentos de encontro ao banco. Sentia que, se ao menos pudesse controlar o corpo para correr, poderia escapar.
Precisava escapar, evitar que alguma parte dessa maré interior a afogasse no silêncio, contaminando para sempre sua alma. Mas o corpo não obedecia.
As forças mais poderosas do universo imperial obedeciam ao seu menor capricho, mas isso não acontecia com seu corpo.
Uma voz interior riu. E então disse:
— De certo ponto de vista, criança, cada incidente da criação representa uma catástrofe.
Era uma voz profunda, que trovejava ante seus olhos, e novamente o riso, como que escarnecendo do próprio tom pomposo: Minha querida criança, vou ajudá-la, mas você deve me ajudar também.
Contra o clamor crescente soando ao fundo, por trás daquela voz grave, Alia disse, entre dentes que batiam:
— Quem... quem...
Um rosto formou-se em sua consciência. Um rosto sorridente, tão gordo que só poderia ter pertencido a um bebê, exceto pela avidez e pela cobiça brilhando
em seus olhos. Ela tentou recuar, mas só conseguiu uma visão mais ampla incluindo o corpo preso àquele rosto. Um corpo imenso, incrivelmente gordo, envolto num manto que revelava, através de protuberâncias sutis, que toda aquela gordura exigia o apoio de suspensórios portáteis.
— Como vê — roncou a voz, — é apenas seu avô materno. Você me conhece. Eu era o Barão Vladimir Harkonnen.
— Você... você está morto! — disse ela ofegante.
— Mas é claro, querida! Quase todos nós, dentro de você, estamos mortos.
— Mas nenhum desses outros deseja realmente ajudá-la. Eles não a compreendem.
— Vá embora — suplicou Alia. — Oh, por favor, vá embora.
— Mas você precisa de ajuda, minha neta — argumentou a voz do Barão.
“Quão singular ele parece”, pensou ela, observando a projeção do Barão sobre suas pálpebras fechadas.
— Eu desejo ajudá-la — adulou o Barão. — Os outros aqui só lutariam para dominar toda a sua consciência. Qualquer um tentaria apagá-la. Mas eu... eu só peço um pequeno caminho para mim.
Novamente as outras vidas dentro dela ergueram seu clamor. A onda ameaçou engolfá-la uma vez mais, e Alia ouviu a voz de sua mãe gritando. Pensou:
“Ela não está morta.”
— Cale-se! — ordenou o Barão.
Alia sentiu seus próprios desejos reforçando aquela ordem, fazendo com que fosse sentida através de sua consciência.
Um silêncio interior fluiu através dela como um banho frio e Alia sentiu que seu coração começava a retornar ao ritmo normal. Tranquilizadora, a voz do Barão penetrou:
— Está vendo? Juntos, somos invencíveis. Você me ajuda e eu a ajudo.
— O que... o que você quer? — sussurrou ela.
Um olhar melancólico surgiu naquele rosto gordo, sobre as pálpebras fechadas de Alia.
— Ahh, minha querida neta, só desejo alguns prazeres simples. Dê-me apenas um momento ocasional de contato com os seus sentidos. Ninguém mais precisa saber. Deixe-me sentir apenas uma pequena faceta de sua vida, quando, por exemplo, estiver nos braços de seu amante. Não é um preço pequeno o que eu peço?
— Ssssim.
— Bom, muito bom. — O Barão riu. — Em troca, querida neta, posso servi-la de muitos modos. Posso lhe dar conselhos. Você será invencível interna e externamente. Afastaremos toda a oposição. E a história esquecerá seu irmão para lembrá-la com carinho. O futuro será seu.
— Você... não vai deixar... os outros... tomarem conta?
— Eles nada podem contra nós dois! Sozinhos podemos ser dominados, mas juntos comandamos. Eu lhe darei uma demonstração. Ouça.
E o Barão ficou em silêncio, retirando sua imagem e sua presença interior.
Nenhuma outra memória, rosto ou voz das outras vidas se introduziu.
Alia permitiu-se um trémulo suspiro.
Acompanhando esse suspiro, veio um pensamento. Forçava-se em sua consciência como se fosse um de seus próprios pensamentos, mas ela sentia vozes mudas por trás dele.
“O velho Barão era mau. Ele assassinou seu pai. Teria assassinado você e Paul. Tentou, mas falhou.”
A voz do Barão regressou, sem o rosto.
—Claro que eu a teria morto. Você não se colocou em meu caminho? Mas esse problema acabou. Você ganhou, criança! Você é a nova verdade.
Ela sentiu-se confirmando as palavras do Barão e seu rosto deslizou asperamente sobre a superfície dura do banco.
As palavras dele eram razoáveis, pensou. Um preceito Bene Gesserit reforçava a ponderação do que ele dissera. “O propósito do debate é mudar a natureza da verdade.”
“Sim... seria dessa maneira que as Bene Gesserit s teriam julgado este assunto.”
— Precisamente! — disse o Barão. — Eu estou morto, enquanto você está viva. E só disponho de uma frágil existência. Sou apenas um eu-memória dentro de você. Sou seu, para que me controle. E quão pouco lhe peço em troca dos profundos conselhos que lhe posso dar.
— Que me aconselha a fazer agora? — perguntou ela, sondando.
— Está preocupada com o julgamento da noite passada — ele disse. —
Você se pergunta se as palavras de Pavmon foram relatadas com sinceridade.
Talvez Javid tenha percebido nesse Pavmon uma ameaça à posição que ele próprio ocupa. Não é essa a dúvida que a perturba?
— — S... sim.
E sua dúvida se baseia numa observação precisa, não é? Javid se porta com crescente intimidade com relação à sua pessoa. Mesmo o Duncan já notou isso, não?
— Você sabe que sim.
— Muito bem, então. Aceite Javid como seu amante e...
— Não!
— Está preocupada com o Duncan? Mas seu marido é um místico mentat.
Não pode ser tocado nem ferido por preocupações carnais. Já não sentiu várias vezes o quanto ele se distancia de você?
— Mas ele...
— A parte mentat de Duncan compreenderá, se algum dia precisar conhecer a trama que você vai empregar para destruir Javid.
— Destruir?
— Certamente! Ferramentas perigosas podem ser usadas, mas devem ser colocadas de lado quando se tornam perigosas demais.
— Então... por que eu deveria... Quero dizer...
— Ahh, sua preciosa tola! Por causa do valor contido na lição.
— Não entendo.
— Os valores, minha querida, dependem do sucesso para serem aceitos. A obediência de Javid deve ser incondicional, sua aceitação de sua autoridade, absoluta, e sua...
— A moral dessa lição me escapa...
— Não seja estúpida, minha neta! A moral deve basear-se sempre na necessidade prática. Dai a César e toda aquela tolice. Uma vitória será inútil se não refletir seus mais profundos desejos. Não é verdade que admira a masculinidade de Javid?
Alia engoliu em seco, odiando ter de admitir, mas forçada por sua completa nudez ante um observador interno:
— S... sim.
— Bom! — Como essa palavra parecia soar alegre dentro de sua cabeça.
— Agora começamos a entender um ao outro. Quando o tiver indefeso em sua cama, convencido de que a dominou, você lhe perguntará a respeito de Pavmon.
Faça-o em tom de brincadeira: com um riso de felicidade. E quando ele admitir que a enganou, você mergulhará uma faca cristalina entre as costelas dele. Ahh, o fluir do sangue pode acrescentar tanto à sua satis...
— Não — ela sussurrou, a boca seca ante o horror. — Não... não... não...
— Então eu o farei por você — argumentou o Barão. — Mas deve ser feito, tem de admitir isso. Se ao menos preparar as condições, eu assumirei temporariamente...
— Não!
— Seu medo é tão evidente, minha neta. Meu controle sobre seus sentidos só pode ser temporário. Existem outros, agora, que poderiam imitá-la com uma perfeição que... Mas você sabe disso. Comigo, ahh, as pessoas perceberiam minha presença imediatamente. E você conhece a Lei Fremen em relação aos possuídos.
Eles são mortos imediatamente. Sim... até mesmo você. E você sabe que eu não quero que isso aconteça. Tomarei conta de Javid por você e, uma vez que esteja feito, me afastarei. Só precisa...
— Qual a vantagem desse conselho?
— Livrá-la de um instrumento perigoso. E, criança, com isto se estabelece uma relação de trabalho entre nós, um relacionamento que só poderá prepará-la da melhor maneira com respeito a julgamentos futuros que...
— Preparar-me?
Naturalmente.
Alia colocou as mãos sobre os olhos, tentando pensar, sabendo que qualquer pensamento seria do conhecimento dessa presença dentro dela, e que um pensamento poderia ter origem nessa presença e ser confundido com suas próprias idéias.
— Você se preocupa desnecessariamente — disse o Barão, muito persuasivo. — Esse sujeito, Pavmon, era...
— O que eu fiz foi errado! Eu estava cansada e agi apressadamente. Devia ter buscado confirmação do...
— Você agiu da maneira certa! Seus julgamentos não podem basear-se em tolices abstratas, tais como a noção de igualdade dos Atreides. Foi isso que a manteve insone, não a morte de Pavmon. Você tomou uma boa decisão! Ele era outro instrumento perigoso. Você agiu para manter a ordem em sua sociedade.
Essa é uma boa razão para julgamentos, não essa tolice de justiça. Não existe algo como uma justiça igual em toda a parte. Tentar atingir esse falso equilíbrio causa agitação na sociedade.
Alia sentiu prazer nessa defesa de seu julgamento no caso de Pavmon, mas ficou chocada com o conceito amoral por trás da argumentação.
— A igualdade perante a justiça era para os Atreides... era... — Tirou as mãos dos olhos, mas continuou mantendo-os fechados.
— Todos os seus juizes sacerdotes deviam ser advertidos contra esse erro — sugeriu o Barão. — As decisões devem ser medidas apenas com relação ao seu mérito de manter a sociedade em ordem. Um sem-número de civilizações passadas ergueu suas bases sobre os alicerces da igualdade perante a justiça. Semelhante tolice destrói as hierarquias naturais, que são muito mais importantes. Um indivíduo só é importante em seu relacionamento com a sociedade como um todo.
E a menos que uma sociedade seja ordenada em degraus lógicos, ninguém encontrará seu lugar nela. Nem os inferiores, nem os superiores. Vamos, vamos minha neta! Você deve ser uma mãe severa para o seu povo. É seu dever manter a ordem.
— Tudo o que Paul fez foi...
— Seu irmão está morto, ele foi um fracasso!
— Assim como você!
— Verdade... Mas comigo ocorreu um acidente que estava além do meu projeto. Agora vamos, permita que cuidemos desse Javid da maneira como delineei.
Ela sentiu seu corpo tornar-se mais quente ante esse pensamento, e disse rapidamente.
— Preciso pensar a respeito.
E pensou: “Se for feito, será apenas para colocar Javid em seu lugar. E não é preciso matá-lo para isso. O tolo pode se trair... em minha cama.”
— Com quem está falando, Minha Senhora? — indagou uma voz.
Durante um confuso momento, Alia pensou que fosse outra intrusão daquela ruidosa multidão dentro dela, mas, ao reconhecer a voz, abriu os olhos.
Ziarenka Valefor, chefe das amazonas guardiãs de Alia, encontrava-se ao lado do banco, a preocupação visível em suas curtidas feições Fremen.
— Falo com minhas vozes interiores — disse Alia, sentando-se. Sentia um frescor, uma sensação flutuante trazida pelo silêncio daquele desesperado clamor interno.
— Suas vozes internas. Sim, Minha Senhora. — Os olhos de Ziarenka brilharam quando ela ouviu essa informação. Todos sabiam que a sagrada Alia recorria a forças interiores que não eram disponíveis a outras pessoas.
— Traga Javid aos meus aposentos — ordenou Alia. — Há um assunto muito sério que desejo discutir com ele.
— Aos seus aposentos, Minha Senhora?
— Sim! À minha câmara pessoal.
— Como Minha Senhora ordena. A guarda voltou-se para obedecer.
— Um momento — disse Alia. — Mestre Idaho já partiu para o Sietch Tabr?
— Sim, Minha Senhora. Partiu antes da aurora, como o instruiu. Deseja que eu mande buscá-lo para...
— Não. Eu mesma cuidarei de tudo. E, Zia, ninguém deve saber que esse Javid está sendo trazido ao meu quarto. Faça-o você mesma. É um assunto muito sério.
A guarda tocou a faca cristalina em sua cintura:
— Minha Senhora, se há alguma ameaça a...
— Sim, existe uma ameaça, e Javid pode estar no centro dela.
— Oh! Minha Senhora! Talvez eu não devesse trazê-lo...
— Zia! Você me julga incapaz de cuidar desse caso?
Um sorriso matreiro surgiu na boca da guarda.
— Perdoe-me, Minha Senhora. Eu o levarei à sua câmara pessoal imediatamente, mas... com a permissão de Minha Senhora, montarei guarda do lado de fora da porta.
— Apenas você — disse Alia.
— Sim, Minha Senhora. Irei imediatamente.
Alia assentiu para si mesma, observando as costas de Ziarenka que se afastava. Então, Javid não era muito estimado entre sua guarda. Outro ponto contra ele. Mas ainda era valioso... muito valioso. Ele era a chave para Jacurutu, e com aquele lugar, bem...
— Talvez você estivesse certo, Barão — ela sussurrou.
— Está vendo? — riu a voz dentro dela. — Ahh, esse será um serviço agradável para você, criança, e é apenas o começo...
Estas são ilusões da cultura popular que toda religião bem-sucedida deve promover, os maus nunca prosperam, somente os bravos merecem o melhor, a honestidade é a melhor política, as ações falam mais alto que as palavras, a virtude sempre triunfa, uma boa ação já é uma recompensa, todo homem mau pode ser recuperado, os talismãs religiosos protegem contra possessões demoníacas, só as mulheres podem compreender os mistérios ancestrais, os ricos estão condenados à infelicidade...
- Do Manual de Instruções: A Missionária Protetora
— Eu me Chanio Muriz — disse o Fremen coriáceo.
Encontrava-se sentado no interior de uma caverna rochosa, iluminado pelo brilho de uma lâmpada de especiaria, cuja luz tremulante revelava paredes úmidas e as aberturas negras que serviam de passagem para esse lugar.
Sons de água gotejando podiam ser ouvidos do fundo de uma dessas passagens e, embora tais sons fossem essenciais ao paraíso dos Fremen, os seis homens diante de Muriz não sentiam prazer em ouvir esse rítmico gotejar. Nessa câmara, havia o odor bolorento de um alambique da morte.
Um jovem de talvez 14 anos-padrão saiu da passagem e se colocou à esquerda de Muriz. Uma faca cristalina desembainhada refletiu o brilho amarelo da lâmpada de especiaria quando o jovem a ergueu, apontando-a brevemente para cada um dos homens amarrados.
Com um gesto em direção ao jovem, Muriz disse:
— Este é meu filho Assan Tariq, que está prestes a passar pelo teste da masculinidade.
Muriz pigarreou, olhando para cada um dos seis cativos. Eles encontravam- se sentados diante dele num semicírculo não muito preciso, bem presos com cordas de fibra de especiaria, que mantinham suas pernas cruzadas, as mãos presas atrás. As cordas terminavam em um nó corrediço apertado sobre a garganta de cada um dos homens. Seus trajes-destiladores haviam sido cortados na altura do pescoço.
Os homens amarrados olharam para Muriz sem vacilar. Dois deles usavam vestimentas folgadas, vindas de fora do planeta, que os marcavam como residentes em uma cidade de Arrakis. Esses dois tinham peles mais lisas, de tonalidade mais clara que seus companheiros, cujas feições ressequidas e compleição ossuda os marcavam como nascidos no deserto.
Muriz assemelhava-se aos habitantes do deserto, mas seus olhos eram mais fundos, poços sem branco que nem mesmo o brilho da lâmpada de especiaria conseguia tocar. Seu filho parecia uma cópia ainda não terminada de si mesmo, com um rosto vulgar que não ocultava a agitação interior.
— Entre os Banidos, temos um teste especial para os jovens que se tornam homens — explicou Muriz. — Um dia meu filho será juiz em um Shuloch.
Precisamos saber se ele agirá como deve. Nossos juizes não podem se esquecer de jacurutu e de nosso dia de desespero. Kralizec, a Luta do Tufão, vive em nossos corações. Tudo isso foi dito com monótona entonação ritualística.
Um dos habitantes da cidade, de feições mais suaves, mexeu-se diante de Muriz e disse:
— Vocês agem errado, nos ameaçando e nos amarrando deste jeito. Nós viemos em paz, em umma.
Muriz assentiu:
— Veio em busca de um despertar religioso pessoal? Ótimo. Vai ter esse despertar.
O homem tentou dizer:
— Se nós...
Ao lado dele, um escuro Fremen do deserto retrucou:
— Cale-se, seu tolo! Estes são os ladrões de água. São aqueles que pensávamos ter exterminado.
— A velha história — disse o cativo de feições suaves.
— Jacurutu é mais que uma história — respondeu Muriz. E uma vez mais indicou o filho. — Eu já apresentei Assan Tariq. Sou o arzfa deste lugar, seu único juiz. Meu filho também será treinado para detectar demônios. As velhas maneiras são as melhores.
— Foi por isso que viemos ao deserto profundo — protestou o homem da cidade. Escolhemos o antigo caminho, vagueando em... — Com guias pagos — disse Muriz, apontando para os cativos de pele mais escura. — Vocês comprariam seu caminho para o céu? — Olhou para o filho.
— Assan, está preparado?
— Eu refleti muito sobre a noite em que os homens vieram e chacinaram nosso povo — respondeu Assan, sua voz projetando uma incômoda tensão. —
Eles nos devem a água.
— Seu pai lhe dá seis deles — disse Muriz. — Sua água é nossa. Suas sombras são suas, suas guardiãs eternas. Elas o alertarão quanto aos demônios.
Serão suas escravas quando você partir para o alam al-mythal. Que tem a dizer, filho?
— Eu lhe agradeço, meu pai — disse Assan. Deu um curto passo adiante.
— Eu aceito ser um homem adulto entre os Banidos. Esta água é a nossa água.
Quando acabou de falar, o jovem se aproximou dos prisioneiros.
Começando da esquerda, agarrou cada um dos homens pelo cabelo e enterrou a faca cristalina sob o queixo até o cérebro. Tudo feito de modo habilidoso, para derramar o mínimo de sangue. Somente os Fremen da cidade, de feições delicadas, protestaram, gritando, quando o jovem os agarrava pelo cabelo.
Os outros cuspiram em Assan Tariq, ao velho modo, dizendo com isso:
“Veja quão pouco eu valorizo a minha água quando ela é tomada por animais!”
Quando tudo estava terminado, Muriz bateu com as mãos uma única vez.
Ajudantes vieram e começaram a remover os corpos, levando-os para o alambique da morte, onde seriam derretidos para a recuperação da água que continham.
Muriz levantou-se e olhou para o filho que respirava profundamente, observando os auxiliares a remover os corpos.
— Agora você é um homem. A água de nossos inimigos alimentará os escravos. E, meu filho..
Assan Tariq voltou-se, lançando sobre o pai um olhar alerta e predador.
Os lábios do jovem formavam um leve sorriso.
— O Pregador não deve saber disso — disse Muriz.
— Compreendo, pai.
— Você se portou bem — disse Muriz. — Aqueles que hesitam no Shuloch não devem sobreviver.
— Como diz, pai.
— Tarefas importantes lhe serão confiadas. Estou orgulhoso de você.
Um homem sofisticado pode tornar-se primitivo. O que isso significa realmente é que o modo de vida de um homem muda. Velhos valores mudam, tornam-se ligados à pai, ragem, com ruas, plantar e animais. Essa nova existência exige um conhecimento funcional de todos os eventos enraizados e múltiplos a que normalmente nos referimos como natureza.
Ela exige uma medida de respeito pela falta de inércia em tais sistemas naturais.
Quando um homem adquire esse conhecimento funcional a esse respeito, isso se Chania
“serprimitivo”. O inverso, é claro, é igualmente possível.o primitivo pode tornar-se sofisticado, mas não sem com isso aceitar terríveis danos psicológicos.
- Comentários de Leto, segundo Harq Al-Ada
— Como podemos ter certeza? — perguntou Ghanima. — Isso é muito perigoso.
— Nós já testamos anteriormente — respondeu Leto.
— Mas pode não ser a mesma coisa desta vez. Que tal se...
— É o único caminho aberto para nós — explicou Leto. — Você concorda em que não podemos usar a opção da especiaria.
Ghanima suspirou. Não apreciava esse duelo de palavras, mas conhecia a premente necessidade do irmão. E também conhecia a terrível fonte de sua relutância. Eles só precisavam olhar para Alia e ver os perigos daquele mundo interior.
— Então? — indagou Leto. Novamente ela suspirou.
Ambos sentavam-se com as pernas cruzadas em um de seus lugares secretos: uma estreita abertura da caverna sobre o penhasco, de onde sua mãe e seu pai costumavam observar o sol se pondo sobre o bled.
Passavam-se duas horas da refeição vespertina, momento em que os gêmeos deviam estar exercitando os corpos e as mentes. Haviam preferido flexionar as mentes.
— Eu tentarei sozinho, se você se recusar a me ajudar — disse Leto.
Ghanima olhou na direção oposta ao irmão, para as cortinas negras dos selos de umidade que guardavam essa abertura na rocha. Leto continuou olhando para o deserto.
Estavam falando há algum tempo em um idioma tão antigo que mesmo seu nome permanecia desconhecido nessa época. A linguagem dava a seus pensamentos uma privacidade que nenhum outro ser humano poderia penetrar.
Até mesmo Alia, que evitava as complexidades de seu mundo interior, carecia dos elos mentais que lhe permitiriam apreender mais que uma palavra ocasional.
Leto inalou profundamente, aspirando o odor característico de uma caverna- sietch dos Fremen, que persistia nessa alcova pouco ventilada. A algazarra do sietch e seu calor úmido estavam ausentes ali, e ambos sentiam alivio por isso.
— Concordo em que precisamos de orientação — disse Ghanima. — Mas se nós...
— Gham! Precisamos mais que de orientação. Precisamos de proteção.
— Talvez não haja proteção. — Olhou diretamente para o irmão, fitando aquele seu olhar que lembrava um predador vigilante. Olhos que contradiziam a placidez de suas feições.
— Precisamos escapar à possessão — disse Leto. Ele usou um infinitivo especial do antigo idioma, uma forma estritamente neutra na voz, mas tensa e profundamente ativa em suas implicações.
Ghanima interpretou corretamente o argumento.
— Mohw pzvium d'mi hirh parh moh'm ka — entoou ela. “A captura de minha alma é a captura de mil almas.”
— Muito mais que isso — retrucou ele.
— Conhecendo o perigo, você persiste. — Ela fez disso uma declaração, não uma pergunta.
— Yabun 'k wabunat — disse ele. “Erguendo-te, resistes!” Sentia sua escolha como a resposta a uma necessidade óbvia. A melhor maneira era agir ativamente. Deviam enrolar o passado sobre o presente e permitir-lhe desenrolar-se em seu futuro.
— Muráyatela — concedeu em voz baixa. “Deve ser feito com amor.”
— É claro. — Ele acenou com a mão num gesto de total aceitação. —
Então, vamos consultar, como fizeram nossos pais.
Ghanima permaneceu silenciosa, tentando engolir e sentindo um aperto na garganta. Instintivamente, olhou para o sul, em direção ao grande erg aberto, a revelar um fraco padrão de dunas cinzentas, sob a derradeira luz do dia. Naquela direção, seu pai se fora em sua última caminhada pelo deserto.
Leto olhou para baixo, por sobre a borda do penhasco, em direção ao verde oásis do sietch. Estava tudo escuro por lá, mas ele conhecia as formas e cores: flores nas cores do cobre e do ouro, vermelhas, amarelas e cor de ferrugem, espalhando-se até os marcos de rocha que delineavam a região ocupada pelas plantações irrigadas através do qanat. Além dos marcos de rocha, estendia-se uma fedorenta faixa composta por formas de vida nativas, mortas pelas plantas alienígenas e pelo excesso de água, agora formando uma barreira contra o deserto.
Dentro em pouco, Ghanima disse:
— Estou pronta. Vamos começar.
— Sim, dane-se o resto! — Ele estendeu a mão e tocou-a no braço, de modo a aliviar a exclamação, acrescentando: — Por favor, Gham... Cante aquela canção. Ela torna as coisas mais fáceis para mim.
Ghanima aproximou-se dele, envolvendo-lhe a cintura com o braço esquerdo.
Respirou fundo duas vezes, limpou a garganta e começou a cantar, numa voz clara e aguda, a mesma letra que sua mãe tantas vezes entoara para seu pai: Aqui eu resgato o penhor que me deste
E derramo a água suave sobre ti.
A vida prevalecerá neste lugar abafado:
Meu amor, tu viverás num palado, e teus inimigos cairão no vazio.
Nós percorremos este caminho . juntos O caminho que o amor tracou para ti.
Certamente que eu mostro o caminho
Pois o meu amor é o teu palado...
A voz dela mergulhava no silêncio do deserto, que até mesmo um sussurro poderia agitar, e Leto se sentiu mergulhando, afundando... tornando-se o pai cujas memórias se abriam diante dele numa sobrecamada dos genes de seu passado imediato.
“Por este breve espaço de tempo, devo ser Paul”, disse para si mesmo.
“Esta ao meu lado não é Gham, é minha amada Chani, cujos sábios conselhos nos salvaram muitas vezes.”
De sua parte, Ghanima deslizara na memória-persona de sua mãe com uma facilidade assustadora, como sabia que faria. Como isso era mais fácil nas mulheres... e como era mais perigoso.
Com uma voz que se tornara subitamente rouca, Ghanima disse:
— Olhe lá, meu amado!
A Primeira Lua se erguera e, sobre sua fria luz, eles viram um arco de fogo alaranjado subindo para o espaço. O transporte que trouxera Lady Jessica, agora carregado de especiaria, estava retornando para se encontrar com a nave-mãe, em forma de cacho, esperando em órbita.
A intensidade das lembranças fluiu através de Leto, trazendo memórias nítidas como o bater de sinos. Por um instante, ele era outro Leto, o Duque de Jessica. A necessidade colocou de lado tais memórias, mas não antes que ele sentisse o amor e a dor penetrantes.
“Eu devo ser Paul”, lembrou a si mesmo.
A transformação caiu sobre ele com uma dualidade assustadora, como se Leto fosse uma tela negra sobre a qual seu pai era projetado. Ele sentiu ambas as carnes, a sua e a de seu pai, e as tremulantes diferenças ameaçaram dominá-lo.
— Ajude-me, pai — sussurrou ele.
A tremulante perturbação passou, e agora havia outra impressão em sua consciência, enquanto sua própria identidade como Leto se colocava de lado, como simples observadora.
— Minha última visão ainda não passou — ele disse, e a voz era a de Paul.
Voltou-se para Ghanima. — Você sabe o que eu vi.
Ela tocou-lhe o rosto com a mão direita.
— Você caminhou para morrer no deserto, meu amado? Foi isso que fez?
— Pode ter sido o que fiz, mas aquela visão... Não teria sido razão suficiente para continuar vivo?
— Mas cego? — ela indagou.
— Mesmo assim.
— Para onde poderia ir?
Ele inspirou fundo, tremulo.
— Jacurutu.
— Meu amado! — Lágrimas escorreram pelo rosto dela.
— Muad'Dib, o herói, deve ser destruído inteiramente — ele disse. — De outro modo, essa criança não poderá resgatar-nos do caos.
— O Caminho Dourado — ela disse. — Não é uma boa visão.
— É a única visão possível.
— Alia falhou, então...
— Completamente. Viu o registro disso.
— Sua mãe voltou muito tarde — ela assentiu, com a sábia expressão de Chani no rosto infantil de Ghanima. — Não poderia haver outra visão? Talvez se...
— Não, minha amada. Ainda não. Essa criança ainda não pode fitar o futuro e retornar em segurança.
Novamente, uma inspiração trêmula perturbou-lhe o corpo e o Leto observador sentiu a profunda saudade de seu pai, o desejo de viver uma vez mais em carne viva, de tomar decisões vitais e... — Que ânsia desesperada por desfazer os erros do passado!
— Pai! — Chamou Leto, e foi como se o grito ecoasse dentro de seu próprio crânio.
Foi um profundo ato de vontade o que Leto sentiu naquele momento: a lenta retirada da presença interna de seu pai, a libertação de músculos e sentidos.
— Meu amado — sussurrou a voz de Chani ao seu lado, e a retirada retardou-se. — Que está acontecendo?
— Não se vá ainda — disse Leto, e era sua própria voz, rouca e incerta, mas ainda assim sua própria voz. — Chani, você deve nos dizer. Como evitaremos... o que aconteceu com Alia?
Foi o Paul dentro dele que respondeu, entretanto, com palavras que lhe chegavam ao ouvido interno hesitantes e com longas pausas.
— Não há certeza. Você... viu... o que quase... aconteceu ... comigo...
— Mas Alia...
— O maldito Barão a possui!
Leto sentiu a garganta queimando de tão seca.
— É ele... Tem... Eu...
— Ele também está em você... mas... Eu... nós não podemos ... às vezes sentimos... um ao outro, mas você...
— Não pode ler meus pensamentos? — perguntou — Leto. Não saberia então se... ele...
— Às vezes posso sentir seus pensamentos... mas eu... nós vivemos apenas através... do... reflexo de... sua consciência. Sua memória nos cria. O perigo... jaz numa memória definida. E... aqueles de nós... aqueles de nós que amam o poder... e tentaram obtê-lo... a qualquer preço... estes podem sermais definidos.
— Mais fortes? — sussurrou Leto.
— Mais fortes.
— Eu conheço sua visão — disse Leto. — Em vez de deixar que ele me possua, prefiro me tornar você.
— Isso não!
Leto acenou com a cabeça afirmativamente, sentindo a enorme força de vontade que seu pai reunira para se retirar, reconhecendo com isso as consequências do fracasso. Qualquer possessão reduzia o possuído à Abominação.
O reconhecimento disso deu-lhe uma renovada sensação de força e Leto sentiu seu próprio corpo com uma intensidade anormal e uma profunda consciência dos erros passados: seus erros e os de seus ancestrais. Eram as incertezas que enfraqueciam, percebia isso agora. Por um momento, a tentação e o medo lutaram dentro dele.
Essa carne possuía a habilidade de converter a melange em visões do futuro. Com a especiaria, ele poderia respirar o futuro, rasgar os véus do Tempo. Achou a tentação difícil de abandonar, uniu as mãos e mergulhou na consciência pranabindu.
Sua carne negou a tentação. Sua carne usava o profundo conhecimento conquistado no sangue de Paul.
Aqueles que buscavam visões do futuro esperavam vencer apostas na corrida do amanhã. Mas em vez disso se encontravam presos a uma vida em que cada batida de coração, cada gemido angustiado eram conhecidos com antecedência. A última visão de Paul mostrara uma saída precária dessa armadilha, e Leto sabia agora que não tinha outra escolha senão seguir naquele caminho.
A alegria de viver, sua beleza, está ligada ao fato de que a vida nos pode surpreender ele disse:
Uma voz suave sussurrou em seu ouvido:
— Eu sempre conheci essa beleza.
Leto voltou a cabeça e fitou os olhos de Ghanima, que cintilavam à luz brilhante do luar. Viu Chani olhando para ele e disse:
— Mãe, você deve ir embora.
— Ahh, a tentação! — disse ela, e o beijou. Ele a afastou.
— Você tomaria a vida de sua filha?
— É tão fácil... tão tolamente fácil — ela disse.
Leto, sentindo o pânico começar a dominá-lo, lembrou-se do esforço de vontade que fora necessário à persona interior de seu pai para lhe abandonar a carne.
Estaria Ghanima perdida naquele mundo-de-observação de onde ele vira e ouvira, aprendendo o que era necessário com seu pai?
— Eu a desprezarei, mãe — ele disse.
— Outros não me desprezarão. Seja meu amado.
— Se eu o fizer... sabe o que nós dois nos tornaremos. E meu pai vai desprezá-la.
— Nunca!
— Vou!
O som lhe fora arrancado da garganta sem sua vontade e carregara com ele as tonalidades antigas e sutis da Voz, que Paul aprendera com sua mãe bruxa.
— Não diga isso — ela gemeu.
— Vou desprezá-la!
— Por favor... por favor, não diga isso.
Leto esfregou a garganta, sentindo que os músculos se tornavam seus uma vez mais.
— Ele vai desprezá-la. Voltará as costas para você e partirá para o deserto novamente.
— Não... não...
Ela sacudia a cabeça de um lado para o outro.
— Você deve partir, mãe.
— Não... não... — Mas a voz já não tinha a força original.
Leto observou o rosto de sua irmã. Como os músculos se contraíam!
Emoções correndo através da carne ante o torvelinho interior.
— Parta — sussurrou ele. — Parta.
— Nããão...
Ele a agarrou pelo braço, sentindo os tremores que lhe pulsavam através dos músculos, os nervos se contraindo. Ela se debateu, tentando se afastar, mas ele a segurou com força, sussurrando:
— Parta... parta...
E todo o tempo Leto censurava a si mesmo por ter colocado Ghani nesse jogo dos pais, que eles já haviam jogado tantas vezes, mas ao qual ela resistia ultimamente. Era verdade que as mulheres eram mais fracas ante esse assalto interior, ele percebia. Ali se encontrava a origem do medo das Bene Gesserit s.
Horas se passaram e o corpo de Ghanima ainda tremia e se contorcia em sua batalha interior, mas agora a voz de sua irmã se juntava à discussão. Ele a ouvia falando com aquele imago dentro dela, suplicando.
— Mãe... por favor... — E uma vez: — Você viu Alia! Quer se tornar outra?
Afinal, Ghanima inclinou-se de encontro a ele e sussurrou:
— Ela aceitou e se foi. — Ele acariciou-lhe a cabeça.
— Gham, sinto muito, sinto muito. Nunca mais lhe pedirei que faça isso.
Fui egoísta. Me perdoe.
— Não há nada a ser perdoado — ela disse, e sua voz saía ofegante, como se após um grande esforço físico. — Nós aprendemos muito do que precisávamos saber.
— Ela lhe falou de muitas coisas — ele concordou. — Partilharemos isso depois, quando...
— Não! Nós o faremos agora. Você estava certo.
— Meu Caminho Dourado?
— Seu maldito Caminho Dourado!
— A lógica é inútil, a menos que venha armada com os dados essenciais
— ele disse. — Mas eu...
— Nossa avó voltou para orientar nossa educação e verificar se fomos...
contaminados.
— Isso é o que Duncan diz. Não há nada novo em...
— Computação primária — concordou ela, sua voz ganhando força.
Afastou-se dele, olhando para o deserto que se encontrava imerso na quietude anterior à alvorada. Essa batalha... e esse conhecimento lhes tinham custado uma noite. A Guarda Real, posicionada além do selo de umidade, provavelmente tivera muito que explicar. Leto ordenara que nada os perturbasse.
— As pessoas frequentemente ganham sutileza com a idade — disse Leto.
— Que é que estamos aprendendo com todas essas vidas para consultar?
— O que vemos do universo nunca corresponde à sua exata natureza física — ela respondeu.
— Não devemos olhar essa avó apenas como a uma avó.
— Isso seria perigoso — ele concordou. — Mas minha per...
— Existe algo além da sutileza. Precisamos ter um lugar em nossa consciência para perceber aquilo que não podemos preconceber. É por isso... que minha mãe me falou tantas vezes de Jessica. Pelo menos, quando estávamos unidas naquela discussão interior, ela disse muitas coisas. — Ghanima suspirou.
— Nós sabemos que ela é nossa avó. Você esteve com ela durante horas, ontem. É por isso que...
— Se permitirmos isso, nosso conhecimento irá determinar a maneira como reagiremos a ela — disse Ghanima. — Foi por isso que minha mãe ficou me avisando. Ela citou as palavras de nossa avó uma vez e... — Ghanima tocou- lhe o braço — eu ouvi o eco dentro de mim, na voz de nossa avó.
— Avisamos você — disse Leto. Ele achava esse pensamento perturbador. — Não haveria nada neste mundo em que se pudesse confiar?
— Os erros mais mortais derivam de pressupostos obsoletos — disse Ghanima.
— Foi isso que minha mãe ficou repetindo.
— Isso é puro Bene Gesserit.
— Se... se Jessica retornou totalmente à Irmandade...
— Isso seria muito perigoso para nós — disse ele, completando o pensamento.
— Nós carregamos o sangue do Kwisatz Haderach delas, de seu Bene Gesserit macho.
— Elas não vão abandonar a busca, mas podem nos abandonar. Nossa avó poderia ser o instrumento.
— Há um outro modo — ele lembrou.
— Sim, nós dois... gerando um filho. Mas elas sabem que os recessivos poderiam complicar esse casamento.
— É um risco que devem ter discutido.
— E com nossa avó participando. Não gosto disso.
— Nem eu.
— Ainda assim, não é a primeira vez que uma linhagem real tenta...
— Isso me repugna — disse ele estremecendo. Ela sentiu o movimento e ficou em silêncio. — Poder.
E naquela estranha alquimia de similaridade ela soube onde seus pensamentos estavam.
— O poder do Kwisatz Haderach deve fracassar - ela concordou.
- Usado ao modo delas — disse ele.
Naquele instante, o dia raiou sobre o deserto, além de seu ponto de vista.
Eles sentiram o início do calor. Cores saltaram das plantações abaixo do penhasco.
Folhas verde-acinzentadas lançavam sombras pontudas sobre o solo. A tangente luz matinal do sol prateado de Duna revelava o oásis verdejante, cheio de sombras roxas e douradas, dentro do poço formado pelos penhascos protetores.
Leto levantou-se, esticando o corpo.
— O Caminho Dourado, então — disse Ghanima. Falava tanto para si mesma quanto para ele, sabendo como a última visão de seu pai se fundia aos sonhos de Leto.
Alguma coisa roçou nos selos de umidade atrás deles, e foi possível ouvir vozes murmurando.
Leto retornou à antiga linguagem que ambos usavam para garantira privacidade:
— Lü ani hozvr samis sm'kavi ozvr ramit rut.
Foi quando a decisão se encaixou em suas consciências. Literalmente:
- “Acompanharemos um ao outro no perigo mortal, muito embora apenas um possa retornar para contar a história.”
Ghanima se levantou, então, e juntos atravessaram os selos de umidade, entrando no sietch, onde os guardas se levantaram e passaram a segui-los, enquanto os gêmeos se dirigiam a seus próprios alojamentos. Os grupos de pessoas abriam caminho para eles com deferência nessa manhã, trocando olhares com os guardas.
Passar a noite sozinho sobre o deserto era um velho costume Fremen, reservado aos sábios sagrados. Todos os Uma haviam praticado essa forma de vigília. Paul Muad'Dib o fizera-o e Alia. Agora os gêmeos reais tinham começado.
Leto notou a diferença e a mencionou para Ghanima.
— Eles não sabem o que decidimos por eles — ela disse. Realmente não sabem.
Ainda na linguagem particular, ele disse:
— Isso exige o início mais casual.
Ghanima hesitou por um momento, dando forma a seus pensamentos. E
então disse:
— Nessa ocasião, o luto por uma das crianças deve ser perfeitamente real... Até mesmo a construção de uma tumba. O coração deverá seguir o sono, para que não haja despertar.
Na antiga linguagem, essa era uma declaração extremamente complexa, empregando um objeto pronominal separado do infinitivo. Era uma sintaxe que permitia que cada conjunto interno de frases se voltasse para si mesmo, assumindo vários significados diferentes, todos definidos e distintos, mas sutilmente interrelacionados. Em parte, o que ela dissera era que arriscavam a vida com o plano de Leto morte real ou simulada, não fazia diferença. A mudança resultante seria como a morte, literalmente um “homicídio funeral”. E havia um significado adicional no todo que apontava acusadoramente a quem quer que sobrevivesse para relatar, ou seja: “fora com a parte viva”. Qualquer passo em falso negaria todo o plano, e o Caminho Dourado de Leto se tornaria um beco sem saída.
— Extremamente delicado — concordou Leto, abrindo as cortinas enquanto entravam na antecâmara.
A atividade entre os criados parou apenas pelo espaço de uma batida de coração, enquanto os gêmeos passavam pelo corredor de teto em arco que levava aos alojamentos destinados a Lady Jessica.
— Você não é Osíris — relembrou-lhe Ghanima.
— Nem tentarei ser.
Ghanima o segurou pelo braço para detê-lo.
— Alia darratay haunus M'smow — avisou ela.
Leto olhou nos olhos da irmã. De fato, as ações de Alia deixavam um mau cheiro que sua avó devia ter notado. Reconhecido, ele sorriu para Ghanima. Ela misturara a antiga linguagem com as superstições Fremen para invocar um presságio tribal básico. M'smow, o odor fétido de uma noite de verão, era prenúncio de morte nas mãos dos demônios. E ísis fora a deusa-demônio da morte para as pessoas cujo idioma eles agora falavam.
— Nós, Atreides, temos uma reputação de audácia a manter — disse ele.
— Assim, tomaremos o que precisarmos — replicou ela.
— Isso ou nos tornarmos requerentes ante nossa própria Regência. Alia gostaria disso.
— Mas nosso plano... — Ghanima deixou em suspenso. “Nosso plano”, ele pensou. Ela o compartilhava plenamente agora. Ele disse:
— Penso em nosso plano como um trabalho de shaduf. — Ghanima olhou para a ante-sala por onde haviam passado, sentindo os odores matinais com seu sentido de eterno começo. Apreciara o modo como Leto empregara sua linguagem particular. Trabalho de shaduf.
Era um voto de confiança. Ele dera ao plano o nome de um trabalho agrícola do gênero mais servil: fertilizar, irrigar, semear, transplantar, podar. E no entanto havia a implicação Fremen de que esses trabalhos ocorriam simultaneamente em Outro Mundo, onde simbolizavam o cultivo das riquezas da alma.
Ghanima observou o irmão, enquanto hesitavam na passagem da rocha.
Tornava-se cada vez mais óbvio para ela que ele estava pedindo em dois níveis:
1) pelo Caminho Dourado de sua visão e da de seu pai, 2) que ela o deixasse com liberdade para realizar a criação do mito, extremamente perigosa, que o plano gerava.
Isso a assustava. Haveria mais alguma coisa em sua visão pessoal que ele não compartilhara? Poderia ele se ver como uma figura com potencial para ser endeusada e liderar a humanidade em seu renascimento tal pai, tal filho? O culto do Muad'Dib tornara-se rançoso, fermentando na má administração de Alia e nos abusos desenfreados de um clero militar que reunia o poder dos Fremen. Leto desejava a regeneração.
“Ele está escondendo alguma coisa de mim”, percebeu ela.
Recapitulou o que ele lhe contara a respeito de seu sonho. Aquilo era de um realismo tão contundente que ele podia ficar caminhando durante horas, estonteado. E o sonho nunca variava, dissera.
— Eu estou sobre a areia, à luz amarela e brilhante do dia, e no entanto não há sol. De repente, percebo que eu sou o sol. Minha luz brilha como um Caminho Dourado. Ao perceber isso, saio de dentro de mim mesmo e me volto, esperando me ver como sol. Mas não sou o sol: sou um boneco de palitos, um desenho de criança com relâmpagos em ziguezague, representando os olhos, pernas e braços feitos de palitos. Há um cetro em minha mão, e é um cetro real: muito mais detalhado, em verdade, que a figura de palitos que o segura. O cetro se move e isso me assusta. Enquanto ele se move, eu me sinto desperto, e no entanto sei que estou sonhando. Então, percebo que minha pele está envolvida por alguma coisa... uma armadura que caminha junto com minha pele. Não posso ver essa armadura, mas eu a sinto. O terror me abandona então, pois essa armadura me dá a força de 10 mil homens.
Enquanto Ghanima olhava para ele, Leto tentou desvencilhar-se dela para continuar seu caminho em direção aos aposentos de Jessica. Ghanima resistiu.
— Esse Caminho Dourado pode não ser melhor que qualquer outro —
ela disse.
Leto olhou para o piso de rocha entre eles, sentindo o forte retorno das dúvidas da irmã.
— Eu devo fazê-lo — disse ele.
— Alia está possuída — explicou ela. — E o mesmo poderia acontecer conosco. Já pode ter acontecido sem que nós sequer saibamos.
— Não — ele sacudiu a cabeça e a encarou. — Alia resistiu. Isso transmitiu força aos poderes que tem dentro de si. Por sua própria força, ela foi derrotada.
— Nós nos atrevemos a pesquisar lá dentro, procurando as antigas linguagens e os velhos conhecimentos. Já somos amálgamas das vidas que se encontram dentro de nós. Não resistimos, avançamos junto com elas. Foi isso que aprendi com nosso pai a noite passada. Era o que tinha a aprender.
— Ele não falou nada disso dentro de mim.
— Você escutou nossa mãe. Era o que nós...
— E quase perdi.
— Ela ainda é forte dentro de você? — O medo contraiu-lhe a face.
— Sim... mas agora penso que ela me protege com o seu amor. Você agiu muito bem quando discutiu com ela. — E Ghanima pensou no reflexo de sua mãe dentro dela, e disse: — Nossa mãe existe agora para mim no alam al-mythal, junto com os outros, mas provou do fruto do inferno. Agora posso ouvi-la sem medo.
Como aos outros...
— Sim — concordou ele. — E eu ouvi meu pai, mas penso que estou realmente seguindo o conselho do avô cujo nome recebi. Talvez o nome torne tudo fácil.
— Você foi aconselhado no sentido de falar com nossa avó a respeito do Caminho Dourado?
Leto esperou que um criado passasse por eles com uma bandeja-cesto carregando o desjejum de Lady Jessica. Um forte aroma de especiaria espalhou-se no ar enquanto o criado passava.
— Ela vive em nós, assim como em sua própria carne — disse Leto. —
Seus conselhos permitem uma segunda consulta.
— Não por mim — disse Ghanima. — Não vou correr aquele risco de novo.
— Então, por mim.
— Pensei que havíamos concordado em que ela retornara à Irmandade.
— De fato. Bene Gesserit em suas origens, ela própria no meio, e Bene Gesserit no final. Mas lembre-se que ela também carrega o sangue dos Harkonnen e está mais próxima deles do que nós. Ela tem experimentado uma forma dessa união interior que nós possuímos.
— Uma forma muito superficial — discordou Ghanima. — E você não respondeu minha pergunta.
— Não creio que eu vá mencionar o Caminho Dourado.
— Eu posso.
— Ghani!
— Não precisamos mais de um deus Atreides! Precisamos é de espaço para um pouco de humanidade!
— Alguma vez neguei isso?
— Não. — Ela respirou fundo e olhou na direção oposta à dele. Os criados olhavam para eles da antecâmara, ouvindo a discussão pelo tom de voz, mas incapazes de entender as antigas palavras.
— Nós temos de fazê-lo — ele disse. Se falharmos nisso, podemos muito bem cair sobre nossas facas. — Ele usou o termo Fremen que continha o sentido de “derramar nossa água na cisterna tribal”.
Uma vez mais, Ghanima olhou para ele. Foi forçada a concordar, mas se sentia aprisionada dentro de uma construção de muitas paredes. Ambos sabiam que o dia do ajuste de contas os esperava ao longo do caminho, não obstante o que fizessem. Ghanima sabia disso com uma certeza reforçada pelos dados reunidos a partir de todas aquelas vidas-memórias, mas agora temia a força que dera a todas aquelas psiques ao usar os dados de suas experiências de vida. Elas rondavam como harpias dentro dela, demônios sombrios aguardando para emboscá-la.
Exceto sua mãe, que tivera o poder sobre a carne e renunciara a ele.
Ghanima ainda se sentia abalada por aquela luta interior, sabendo que teria perdido, não fosse a capacidade persuasiva de Leto. Este dizia que seu Caminho Dourado conduzia para fora dessa armadilha.
Exceto pela incômoda percepção de que ele escondia alguma coisa de sua visão, ela só podia aceitar sua sinceridade.
Ele precisava da fértil criatividade dela para enriquecer seu plano.
— Seremos testados — ela disse, sabendo aonde levavam suas dúvidas.
— Não coma especiaria.
— Talvez até isso. Certamente no deserto e no julgamento de Possessão.
— Você nunca mencionou o julgamento de Possessão! — disse ela, acusadora. — Era parte de seu sonho?
Ele tentou engolir com a garganta seca, amaldiçoando o descuido que o fizera revelar-se.
— Sim.
— Então nós seremos... possuídos?
— Não.
Ela pensou a respeito do julgamento aquela prova ancestral dos Fremen cujo término quase sempre trazia a morte horrenda. Então, o plano de Leto tinha outras complexidades. Iria conduzi-los a um pico onde uma queda para qualquer um dos lados não poderia ser tolerada pela mente humana, de modo que esta permaneceria sã.
Sabendo para onde fluíam os pensamentos de Ghanima, Leto disse:
— O poder atrai os psicóticos. Sempre. Isso é o que temos de evitar dentro de nós mesmos.
— Tem certeza de que não vamos ser... possuídos?
— Não se criarmos o Caminho Dourado.
Ainda em dúvida, ela disse:
— Não vou gerar os seus filhos, Leto.
Ele sacudiu a cabeça, suprimindo os indícios que pudessem traí-lo uma vez mais, e mergulhou na forma real do antigo idioma.
— Irmã minha, eu a amo mais que a mim mesmo, mas esse não é meu desejo.
— Muito bem, vamos voltar então à outra questão antes de nos reunirmos à nossa avó. Uma faca enterrada em Alia poderia resolver a maioria dos nossos problemas.
— Se acredita nisso, então acredita que podemos caminhar no lodo sem deixar rastros. Além do mais, quando foi que Alia deu a alguém essa oportunidade?
— Há uma conversa a respeito de Javid.
— Duncan mostra algum sinal de estar criando chifres? — Ghanima deu de ombros.
Um veneno, dois venenos. Era o rótulo comumente aplicado ao hábito da realeza de catalogar os companheiros pela ameaça que representavam à sua pessoa, marca dos governantes em toda parte.
— Devemos fazê-lo ao meu modo — disse ele.
— Do outro jeito podia ser mais limpo.
Pela resposta, ele sabia que ela finalmente eliminara suas dúvidas e acabara concordando com o plano. Essa percepção não lhe trouxe satisfação alguma e ele se encontrou olhando para as próprias mãos e imaginando se a sujeira iria grudar.
Esta foi a conquista do Muad'Dib: Ele percebeu o reservatório subliminar de cada indivíduo como um banco inconsciente de memórias recuando até a célula prima de nossa gênese comum. Cada um de nós, ele disse, pode medir sua distância em relação a essa origem comum.
Vendo isso, e com isso falando, ele chegou a uma audaciosa decisão. O Muad' Dib assumiu a tarefa de integrar a memória genética à contínua avaliação.
Assim ele penetrou nos véus do Tempo, tornando o futuro e o passado uma coisa única.
Essa foi a criação do Muad'Dib, incorporada ao seu filho e à sua filha.
- O Testamento de Arrakis por Harq al-Ada
Faradin caminhava pelos jardins do palácio real de seu avô, observando as sombras se encurtarem enquanto o sol de Salusa Secundus subia em direção ao zênite. Precisava se esforçar um pouco para manter o passo com o alto Bashar que o acompanhava.
— Tenho dúvidas, Tvekanik — ele disse. — Oh, não há como negar a atração do trono, mas... — respirou fundo. — Tenho tantos interesses.
Tvekanik, recém-saído de violenta discussão com a mãe de Faradin, olhou de lado para o Príncipe, notando como a carne do rapaz estava se firmando agora que ele se aproximava de seu 18.° aniversário. Havia cada vez menos de Wensicia nele, a cada dia que se passava, e mais e mais do velho Shaddam, que preferira as ocupações pessoais às responsabilidades da realeza. Fora isso que lhe custara o trono no final, é claro. Ele se tornara brando na maneira de comandar.
— Terá que fazer uma escolha — disse Tvekanik. — Oh, sem dúvida haverá tempo para alguns de seus interesses, mas...
Faradin mordeu o lábio inferior. O dever o mantinha ali, mas se sentia frustrado. Teria preferido ir para o território rochoso onde se realizavam as experiências com a truta da areia. Aquele era um projeto com enorme potencial: tire o monopólio da especiaria das mãos dos Atreides e tudo poderá acontecer.
— Tem certeza de que esses gêmeos serão... eliminados?
— Nada é absolutamente certo, Meu Príncipe, mas as perspectivas são boas.
Faradin encolheu os ombros. O assassinato permanecia um dos fatos comuns na vida da realeza. O idioma estava cheio de sutis permutações no que se referia a modos de eliminar personalidades importantes. Com uma única palavra, era possível distinguir entre veneno na comida e veneno na bebida. Ele presumiu que a eliminação dos gêmeos Atreides seria realizada através de veneno. Não era um pensamento agradável. De acordo com todos os testemunhos, os gêmeos formavam um par muito interessante.
— Teríamos que nos mudar para Arrakis? — indagou Faradin.
— Seria a melhor opção, colocando-nos no ponto de maior pressão.
Faradin parecia estar evitando alguma pergunta e Tvekanik tentava imaginar qual poderia ser.
— Sinto-me perturbado, Tvekanik — disse Faradin, enquanto contornavam a extremidade de uma sebe e se aproximavam de uma fonte cercada por enormes rosas negras. Jardineiros podiam ser ouvidos podando além das sebes.
— Sim? — instigou Tvekanik.
— Essa, ah, religião que você professa...
— Nada de estranho quanto a ela, Meu Príncipe — respondeu Tvekanik, esperando que sua própria voz se mantivesse firme. — Esta religião fala ao guerreiro que existe em mim. É uma religião adequada a um Sardaukar. Isso, pelo menos, era verdadeiro.
— Ssim... mas minha mãe parece tão satisfeita com isso.
“Maldita Wensicia!”, pensou Tvekanik. “Deixou o filho desconfiado.”
— Eu não me importo com o que sua mãe pensa. A religião de um homem é assunto seu. Talvez ela perceba nisso alguma coisa que possa ajudá-la a colocá-lo no trono.
— Foi o que pensei — disse Faradin.
“Ahh, esse é um rapaz esperto!”, pensou Tvekanik, e disse:
— Olhe para esta religião por si mesmo, e verá imediatamente por que a escolhi.
— Ainda assim... orar ao Muad'Dib? Afinal de contas, ele era um Atreides.
— Só posso dizer que os caminhos divinos são misteriosos — respondeu Tvekanik.
— Percebo. Diga-me, Tvek, por que me convidou para caminhar com você justamente agora? É quase meio-dia e geralmente, a esta hora, você está em algum lugar, cumprindo ordens de minha mãe. Tvekanik parou num banco de pedra que se voltava para a fonte e as rosas gigantes, além. A água caindo tinha um efeito tranquilizador e ele manteve a atenção sobre ela enquanto falava:
— Meu Príncipe, fiz uma coisa de que sua mãe pode não gostar. — E
pensou: “Se ele acreditar nisso, o maldito esquema dela funcionará.” Tvekanik quase desejava o fracasso dos planos de Wensicia. “Trazer aquele maldito Pregador até aqui. Ela estava louca. E o custo!”
Como Tvekanik permanecesse em silêncio, esperando, Faradin indagou:
— Tudo bem, Tvek, que foi que você fez?
— Eu trouxe um praticante dá oniromancia.
Faradin olhou de modo penetrante para seu companheiro. Alguns dos Sardaukar mais velhos praticavam o jogo de interpretação dos sonhos, fazendo isso cada vez mais, desde sua derrota ante aquele “Supremo Sonhador”, o Muad'Dib.
Em algum lugar dentro de seus próprios sonhos, eles raciocinavam, poderia haver um caminho de volta ao poder e à glória.
Entretanto, Tvekanik sempre se abstivera de tal prática.
— Isso não parece típico de você, Tyek — disse Faradin.
— Então, só posso falar por minha nova religião — ele disse, voltando-se para a fonte. Falar de religião era, evidentemente, o motivo pelo qual se tinham arriscado a trazer o Pregador.
— Então, fale dessa religião.
— Como Meu Príncipe ordena. — Ele voltou-se, olhando para aquele jovem que levava consigo todos os sonhos agora destilados no caminho que a Casa Corrino deveria seguir. — Igreja e Estado, Meu Príncipe, até mesmo fé e raciocínio científico, e mais ainda: progresso e tradição tudo isso está unido nos ensinamentos do Muad'Dib. Ele ensinou que não existem opostos irreconciliáveis, exceto nas crenças dos homens e, algumas vezes, em seus sonhos. Alguém pode descobrir o futuro no passado, ambos são partes de um todo.
A despeito das dúvidas, que não podia evitar, Faradin se sentiu impressionado por essas palavras. Percebeu uma nota de sinceridade relutante na voz de Tvekanik, como se o homem, ao falar, enfrentasse compulsões interiores.
— E foi por isso que me trouxe esse... esse intérprete de sonhos?
— Sim, Meu Príncipe. Talvez seu sonho tenha penetrado no Tempo. O
senhor conquista a consciência de seu ser interior quando reconhece o universo como um todo coerente. Seus sonhos... bem...
— Mas eu falei casualmente dos meus sonhos — protestou Faradin. —
São uma curiosidade, nada mais. Nem sequer uma vez suspeitei que fossem...
— Meu Príncipe, nada do que faz deixa de ter importância.
— Isso é muito lisonjeiro, Tvek. Acredita realmente que esse sujeito possa enxergar o coração dos grandes mistérios?
— Sim, Meu Príncipe.
— Então, deixe que minha mãe se aborreça.
— Irá vê-lo?
— É claro... já que o trouxe para desagradar minha mãe.
“Será que ele está zombando de mira?”, perguntou-se Tvekanik, e disse:
— Devo adverti-lo de que esse velho usa uma máscara. É um engenho ixiano que habilita os cegos a enxergarem através da própria pele.
— Ele é cego?
— Sim, Meu Príncipe.
— E sabe quem sou?
— Eu lhe contei, Meu Príncipe.
— Muito bem, vamos vê-lo.
— Se Meu Príncipe aguardar aqui por um momento, eu lhe trarei o homem.
Faradin olhou o jardim ao redor e sorriu. Um lugar tão bom quanto qualquer outro para essa tolice.
— Já lhe contou o que sonhei?
— Somente em termos gerais, Meu Príncipe. Ele vai lhe pedir um relato pessoal.
— Muito bem. Eu espero aqui. Traga o sujeito.
Faradin virou-lhe as costas e ouviu Tvekanik sair apressadamente. Um jardineiro podia ser visto trabalhando logo além da sebe, o topo de sua cabeça com o capuz marrom, o lampejo da tesoura cortando acima do verde.
O movimento era hipnótico.
“Esse negócio de sonhos é tolice”, pensou Faradin. “Foi errado da parte de Tvek fazer isso sem me consultar. Estranho que Tvek se tornasse religioso com essa idade. E agora são os sonhos.”
Daí a pouco ele ouviu passos atrás de si. As passadas decididas e familiares de Tvekanik e um andar mais arrastado. Faradin voltou-se, observando o intérprete de sonhos que se aproximava. A máscara ixiana era negra e parecia feita de gaze, ocultando o rosto desde a testa até embaixo do queixo. Não havia fendas para os olhos, já que, a se acreditar nas gabolices dos ixianos, a máscara toda era um olho.
Tvekanik parou a dois passos de Faradin, mas o velho mascarado aproximou-se a menos de um passo.
— O intérprete de sonhos — apresentou Tvekanik. Faradin assentiu com a cabeça.
O velho mascarado tossiu, quase um grunhido remoto, como se tentasse fazer alguma coisa subir-lhe do estômago.
Faradin encontrava-se agudamente consciente do cheiro acre de especiaria que o velho desprendia. Parecia emanar do longo manto cinza que lhe cobria o corpo.
— Essa máscara é verdadeiramente parte de sua carne? — indagou Faradin, percebendo que na verdade tentava atrasar a questão dos sonhos.
— Enquanto a uso — disse o velho, sua voz carregando um tom amargo e apenas uma sugestão de sotaque Fremen. — Seu sonho. Conte-me.
Faradin encolheu os ombros: “Por que não?” Para isso é que Tvek trouxera o velho, ou não? Dúvidas dominaram Faradin e ele perguntou:
— Você é realmente um praticante da oniromancia?
— Vim para interpretar seu sonho, Poderoso Senhor.
Novamente, Faradin encolheu os ombros. Essa figura mascarada o deixava nervoso, e ele olhou para Tvekanik, que continuava no lugar onde havia parado, braços cruzados, olhando para a fonte.
— Seu sonho, então — insistiu o velho.
Faradin respirou fundo e começou a contar o sonho. Tornava-se mais fácil falar à medida que ele se envolvia inteiramente na narrativa. E falou a respeito de um poço em que a água fluía para cima, de mundos que eram átomos dançando em sua cabeça, da cobra que se transformava num verme de areia e depois explodia numa nuvem de pó. Falando sobre a cobra, ficou surpreso ao descobrir que isso lhe exigia um esforço maior. Uma terrível relutância o inibia, deixando-o mais furioso enquanto falava.
O velho permaneceu impassível quando Faradin, afinal, ficou em silêncio.
A máscara de gaze negra movia-se ligeiramente com sua respiração.
Faradin esperou. O silêncio continuava.
Daí a pouco, Faradin perguntou:
— Não vai interpretar o meu sonho?
— Já o interpretei — disse ele, a voz parecendo vir de longa distância.
— Então? — Faradin ouviu a própria voz, aguda, revelando-lhe a tensão que o sonho produzira.
Ainda assim, o velho permaneceu impassivelmente silencioso.
— Diga-me, então? — A raiva era óbvia em seu tom de voz.
— Eu disse que interpretaria. Não concordei em contar a interpretação.
Até mesmo Tvekanik se surpreendeu com isso, deixando cair os braços, os punhos contraídos.
— O quê? — perguntou ele com a voz rouca.
— Eu não disse que revelaria minha interpretação.
— Deseja mais dinheiro? — indagou Faradin.
— Não pedi pagamento quando fui trazido até aqui.
Um orgulho frio na resposta suavizou a ira de Faradin. Esse era um velho corajoso, em todo caso. Devia saber que a morte poderia seguir-se à desobediência.
— Deixe comigo, Meu Príncipe — pediu Tvekanik quando Faradin começava a falar. — Então, pode nos dizer por que não revelará sua interpretação?
— Sim, Meus Senhores. O sonho me diz que não haveria propósito em explicar essas coisas.
Faradin não pôde conter-se.
— Quer dizer que eu já sei o significado?
— Talvez saiba, Meu Senhor, mas essa não é minha preocupação.
Tvekanik colocou-se ao lado de Faradin, ambos olhando para o velho com fúria.
— Explique-se! — exigiu Tvekanik.
— Isso mesmo — acrescentou Faradin.
— Se eu falasse desse sonho, explorando esses assuntos de água e pó, cobras e vermes, analisando os átomos que dançam em sua cabeça, assim como na minha... Ah, Poderoso Senhor, minhas palavras só iriam confundi-lo e fazer com que insistisse no mal-entendido.
— Teme que suas palavras possam me enfurecer? — perguntou Faradin.
— Meu Senhor! Já está furioso.
— E porque não confia em nós? indagou Tvekanik.
— Chegou muito perto, Meu Senhor. Não confio em nenhum dos senhores e pela simples razão de que não confiam em si próprios.
— Você está perigosamente perto do limite — advertiu Tvekanik. —
Homens já foram mortos por comportamentos menos atrevidos que o seu.
Faradin assentiu, dizendo:
— Não desafie a nossa ira.
— As consequências fatais da ira dos Corrino são bem conhecidas, Meu Senhor de Salusa Secundus.
Tvekanik colocou a mão no braço de Faradin para contê-lo e indagou:
— Está nos tentando a matá-lo?
Faradin havia pensado nisso e sentiu um arrepio ao imaginar o que tal comportamento poderia implicar. Seria esse velho, que Chamava a si mesmo de Pregador... seria ele mais do que aparentava? Quais seriam as consequências de sua morte? Criar um mártir podia ser perigoso.
— Eu duvido que me matem, não importa o que eu diga — afirmou o Pregador. — Creio que conhece meu valor, Bashar, e seu Príncipe agora dele suspeita.
— Você se recusa terminantemente a interpretar esse sonho? —
perguntou Tvekanik.
— Já o interpretei.
— E não revelará o que viu?
— Culpa-me por isso, Meu Senhor?
— Como nos pode ser valioso? — perguntou Faradin.
O Pregador ergueu a mão direita.
— Se eu acenar com esta mão, Duncan Idaho virá a meu encontro e me obedecerá.
— Que tolice é essa? — admirou-se Faradin.
Mas Tvekanik sacudiu a cabeça, relembrando sua discussão com Wensicia, e disse:
— Pode ser verdade, Meu Príncipe. Este Pregador tem muitos seguidores em Duna.
— Por que não me disse que ele era desse lugar?
Antes que Tvekanik pudesse responder, o Pregador dirigiu-se a Faradin:
— Meu Senhor, não deve sentir-se culpado com relação a Arrakis. O
Senhor é apenas um produto de sua época. Essa é uma justificativa especial a que qualquer homem pode recorrer quando suas culpas o perturbam.
— Culpas! — Faradin estava indignado. O Pregador apenas encolheu os ombros.
Curiosamente, isso fez com que a ira de Faradin se transformasse em divertimento. Ele riu, lançando a cabeça para trás e fazendo com que Tvekanik o olhasse, espantado.
— Gosto de você, Pregador.
— Isso muito me gratifica, Príncipe — respondeu o velho. Sufocando o riso, Faradin disse:
— Vamos conseguir-lhe um apartamento aqui no palácio. Será meu intérprete de sonhos oficial, mesmo que nunca me dê uma palavra da interpretação.
E poderá ser meu conselheiro a respeito de Duna. Tenho grande curiosidade em relação àquele lugar.
— Isso eu não posso fazer, Príncipe.
Um pouco da raiva retornou e Faradin olhou, irado, para a máscara negra.
— E por que não, rezador?
— Meu Príncipe — Tvekanik falou novamente, tocando o braço de Faradin.
— O que é, Tvek?
— Nós o trouxemos aqui sob um acordo de compromisso com a Corporação. Ele deve ser levado de volta para Duna.
— Sou convidado a voltar para Arrakis — disse o Pregador.
— E quem o convoca? — quis saber Faradin.
— Um poder maior que o seu, Príncipe.
Faradin lançou um olhar indagador para Tvekanik.
— Será ele um espião dos Atreides?
— Não é provável, Meu Príncipe. Alia estabeleceu um preço por sua cabeça.
— Se não são os Atreides, então quem o chama? — perguntou Faradin, enquanto voltava sua atenção para o Pregador.
— Um poder maior que o dos Atreides.
Faradin deixou escapar uma risada. Isso era apenas tolice mística. Como Tvek pudera ser enganado por tal coisa? Esse Pregador fora convocado provavelmente por um sonho. E que importância tinham os sonhos?
— Isto é perda de tempo, Tvek. Por que me sujeitou a esta... farsa?
— Há uma dupla vantagem nisto, Meu Príncipe — explicou Tvekanik. —
Este intérprete de sonhos prometeu entregar-nos Duncan Idaho, como agente da Casa Corrino. E tudo que pediu em troca foi encontrá-lo e interpretar seu sonho.
E Tvekanik acrescentou para si mesmo: “Ou assim ele disse a Wensicia!”
Novas dúvidas acometiam o Bashar.
— Por que meu sonho lhe é tão importante, velho? — perguntou Faradin.
— Seu sonho me diz que grandes eventos se encaminham para a sua conclusão lógica. Devo apressar minha volta.
Zombando, Faradin perguntou:
— E assim permanecerá inescrutável, sem me conceder nenhum conselho.
— Os conselhos, Meu Príncipe, são uma comodidade perigosa. Mas vou arriscar algumas palavras que pode tomar como conselho ou então de qualquer outro modo que lhe agrade.
— Certamente — respondeu Faradin.
O Pregador manteve seu rosto mascarado confrontando rigidamente a face de Faradin.
— Governos podem erguer-se e cair devido a razões que parecem insignificantes, Meu Príncipe. Coisinhas pequenas! Uma discussão entre duas mulheres... para que lado o vento sopra em determinado dia... um espirro, uma tosse, o comprimento de um traje ou o choque casual de uma partícula de areia com o olho de um cortesão. Nem sempre são as preocupações majestosas dos ministros imperiais que ditam o curso da história, como não são necessariamente as afirmações dos sacerdotes que movem as mãos de Deus.
Faradin ficou profundamente excitado com essas palavras, sem que pudesse explicar suas emoções.
Tvekanik, entretanto, voltara sua atenção para uma frase. Por que esse Pregador falara em vestuário? A mente de Tvekanik focalizou-se nos trajes imperiais enviados aos gêmeos Atreides, nos tigres treinados para atacar. Estaria esse velho enunciando algum aviso sutil? O quanto ele saberia?
— Qual o conselho contido nisso? — perguntou Faradin.
— Para ter sucesso — disse o Pregador, — deve reduzir sua estratégia ao ponto de aplicação. Aonde se aplica a estratégia? A um lugar em particular, e tendo em mente uma pessoa em particular. Mas, mesmo com a maior consideração às minúcias, alguns pequenos detalhes, aos quais não se deu qualquer significação, podem escapar. Pode sua estratégia, Príncipe, ser reduzida às ambições da esposa de um governador regional?
Com a voz fria, Tvekanik interrompeu:
— Por que fica insistindo em estratégia, Pregador? Qual está pensando que será a de meu Príncipe?
— Ele está sendo levado a desejar o trono — respondeu o Pregador. —
Eu lhe desejo boa sorte, mas ele vai precisar de muito mais que sorte.
— Essas são palavras perigosas — advertiu Faradin. — Como se atreve a dizer tal coisa?
— As ambições têm a tendência de permanecerem imperturbadas pela realidade.
— Eu me atrevo a dizer essas palavras porque o Senhor está em uma encruzilhada. Pode tornar-se admirável. Mas se encontra cercado por aqueles que não buscam justificativas morais, por assessores que se orientam unicamente pela estratégia. É jovem e forte, mas lhe falta certo treino avançado através do qual sua personalidade possa desenvolver-se. Isso é triste, pois o Senhor tem fraquezas cujas dimensões já descrevi.
— Que quer dizer com isso? — exigiu Tvekanik.
— Tenha cuidado quando fala — advertiu Faradin. — Que fraquezas são essas?
— O Senhor não pensou no tipo de sociedade que poderia preferir. Nem leva em consideração as esperanças de seus súditos. Até mesmo a forma do Império que busca não se cristalizou em sua imaginação. — O Pregador voltou seu rosto mascarado para Tvekanik. — Seus olhos voltam-se para o poder, mas não para a sutileza de seus usos e perigos. Assim, seu futuro se enche de coisas desconhecidas: mulheres discutindo, tosses e dias de vento. Como pode criar uma época sendo incapaz de enxergar todos os detalhes? Sua mente rija não lhe serve.
Nesse ponto, ambos são fracos.
Faradin observou o velho por longo espaço de tempo, admirado com os profundos problemas implícitos em tais pensamentos e com a persistência de conceitos desacreditados. Moral! Objetivos sociais! Esses eram mitos que deviam ser colocados ao lado da crença no movimento ascendente da evolução.
Tvekanik disse:
— Já tivemos o suficiente em matéria de palavras. E quanto ao preço em que concordamos, Pregador?
— Duncan Idaho é seu respondeu o Pregador. Tenha cuidado no modo como vai usá lo. Ele é uma jóia inestimável.
— Oh, nós temos uma missão adequada para ele — disse Tve kanik, e olhou para Faradin.
— Com sua permissão, Meu Príncipe?
— Mande-o fazer as malas antes que eu mude de idéia — respondeu Faradin, e então olhou com raiva para Tvekanik. — Não gostei do modo como me usou, Tvek!
— Perdoe-o, Príncipe — disse o Pregador. Seu fiel Bashar executa a vontade de Deus mesmo sem conhecê-la.
Curvando-se, o Pregador partiu e Tvekanik correu para acompanhá-lo.
Faradin observou os dois se afastando e pensou: “Devo estudar essa religião que Tvek abraçou.” Depois sorriu amargamente. “Que intérprete de sonhos! Mas que importa? Meu sonho não era importante.”
E ele teve a visão de uma armadura. A armadura não era a sua própria pele, era mais forte que plasteel. Nada penetrava sua armadura: nem faca, veneno ou areia, nem a poeira do deserto ou seu calor ressecante. Em sua mão direita, ele carregava o poder de azar a tempestade Coriolis, sacudindo a terra e desgastando-a até o nada. Seus olhos estavam fixos sobre o Caminho Dourado e na mão esquerda ele tinha o cetro do domínio absoluto. E, além do Caminho Dourado, seus olhos penetravam na eternidade, que ele sabia ser o alimento de sua alma e de sua eterna carne.
- “Heighia, o Sonho de Meu Irmão” do Lavro de Chanima
— Seria melhor para mim que nunca me tornasse o Imperador — disse Leto. — Não quero dizer com isso que cometi o erro de meu pai e observei meu futuro num copo de especiaria. Não digo isso por egoísmo. Minha irmã e eu precisamos desesperadamente de um tempo de liberdade para aprendermos a viver com o que somos.
Ele ficou em silêncio, olhando indagadoramente para Lady Jessica. Falara sua parte, como havia combinado com Ghanima. E agora, qual seria a resposta de sua avó?
Jessica observou o neto à luz mortiça dos globos que iluminavam seus alojamentos no Sietch Tabr. Ainda era manhã cedo em seu segundo dia ali e ela já recebera relatórios perturbadores de que os gêmeos haviam passado a noite em vigília fora do sietch. Que estariam fazendo? Ela não dormira bem e sentia a fadiga cobrando que abandonasse o nível de hiperatividade que a sustentara através de todas as prementes necessidades e exigências, desde aquele desempenho crucial no espaçoporto. Esse era o sietch de seus pesadelos, mas lá fora não era o deserto que ela lembrava. “De onde vieram todas essas flores?” E o ar a seu redor parecia muito úmido. Os jovens estavam relaxando na disciplina do traje-destilador.
— Quem é você, criança, que precisa de tempo para aprender sobre si mesmo? — perguntou.
Ele sacudiu a cabeça suavemente, sabendo que esse seria um gesto estranhamente adulto num corpo de criança. Lembrou-se de que devia manter essa mulher desnorteada.
— Primeiro, não sou uma criança. Oh... — Levou a mão ao peito. — Este é um corpo de criança, sem dúvida alguma. Mas eu não sou uma criança.
Jessica mordeu o lábio superior, sem se importar com o que isso revelava.
Seu Duque, morto há tantos anos nesse maldito planeta, rira dela quando fizera isso, certa vez. “Sua única resposta descontrolada”, fora como chamara aquele morder de lábio. “Isso me diz que você está perturbada e que eu devo beijar esses lábios para lhes deter o tremor.”
Agora o neto, que tinha o mesmo nome de seu Duque, a deixava imóvel, com o coração batendo, ao meramente sorrir e dizer:
— A senhora está perturbada. Vejo pelo tremor de seus lábios. — Foi necessária a mais profunda disciplina Bene Gesserit para lhe restaurar uma aparência de calma. Conseguiu dizer:
— Está zombando de mim?
— Zombar? Nunca. Mas devo deixar claro o quanto somos diferentes.
Permita-me lembrar-lhe daquela orgia no sietch, tanto tempo atrás, quando a Velha Reverenda Madre passou-lhe suas vidas e sua memória. Ela sintonizou-se com a senhora e lhe deu aquela... aquela longa tira de salsichas. Cada qual uma pessoa. A senhora ainda as tem. Assim, conhece um pouco do que eu e Ghanima sentimos.
— E Alia? — indagou Jessica, testando-o.
— Não discutiu isso com Gham?
— Desejo discutir com você.
— Muito bem. Alia negou o que era e acabou tornando-se aquilo que mais temia. O passado-interior não pode ser relegado ao inconsciente. Esse é um caminho perigoso para qualquer ser humano, mas para nós, que somos pré-nascidos, é pior que a morte. E isso é tudo que vou dizer a respeito de Alia.
— De modo que você não é uma criança.
— Tenho milhões de anos de idade. Isso exige ajustamentos que outros seres nunca tiveram de fazer antes.
Jessica assentiu, mais calma agora, e muito mais cautelosa do que fora com relação a Ghanima. E onde estava Ghanima? Por que Leto viera sozinho?
— Bem, minha avó. Somos Abominações ou somos a esperança dos Atreides?
Jessica ignorou a pergunta.
— Onde está sua irmã?
— Está distraindo Alia para evitar que sejamos perturbados. Isso é necessário. Mas Gham nada lhe diria além do que eu já disse. Não a observou ontem?
— O que observei ontem é problema meu. Por que você fica tagarelando a respeito de Abominação?
— Tagarelar? Não me venha com o seu jargão Bene Gesserit, vovó. Eu o devolverei à senhora, palavra por palavra, direto de suas próprias memórias. Quero mais do que um tremor em seus lábios.
Jessica sacudiu a cabeça, sentindo toda a frieza dessa... pessoa que tinha seu sangue. Os recursos de que ele dispunha a intimidavam. Tentou igualar-lhe o tom de voz, indagando:
— Que sabe de minhas intenções?
Ele fungou:
— Não precisa me perguntar se cometi o erro de meu pai. Não olhei para fora de nosso jardim do tempo... pelo menos não intencionalmente. Deixo o absoluto conhecimento do futuro para aqueles momentos de dejavu que todo ser humano pode experimentar. Eu conheço a armadilha da presciência. A vida de meu pai me revela tudo que eu preciso conhecer a respeito. Não, vovó: conhecer totalmente o futuro significa estar totalmente preso a esse futuro. Ele desmorona o Tempo. O Presente transforma-se no Futuro. Eu preciso de mais liberdade que isso.
Jessica sentiu sua língua contorcer-se com palavras pronunciadas. Como poderia responder-lhe com algo que ele já não conhecesse? Isso era monstruoso!
“Ele sou eu! Ele é o meu amado Leto!” Esse pensamento deixou-a chocada.
Momentaneamente, imaginou se esse rosto infantil não poderia amoldar-se àquelas adoráveis feições, fazendo renascer... “Não!”
Leto abaixou a cabeça e olhou para cima a fim de observá-la. Se era possível manobrá-la, apesar de tudo. E disse:
— Quando a senhora pensa em presciência, o que espero seja coisa rara, provavelmente não age diferentemente de outras pessoas. A maior parte das pessoas apenas imagina como seria ótimo saber a cotação de amanhã da pele de baleia. Ou se um Harkonnen voltará a governar seu mundo pátrio de Giedi Prime.
Mas é claro que nós conhecemos os Harkonnen sem precisar de presciência, não conhecemos, vovó?
Ela recusou-se a morder-lhe a isca. É claro que ela sabia a respeito do amaldiçoado sangue Harkonnen em sua ascendência.
— Quem é um Harkonnen? — perguntou ele, provocando. — Quem é Rabban, a Besta? Qualquer um de nós, ah? Mas estou divagando. Quero falar do mito popular da presciência: conhecer totalmente o futuro! Todo ele! Que fortunas não poderiam ser construídas... e perdidas... com tal conhecimento absoluto, ah? A plebe acredita nisso. Acredita que, se um pouquinho é bom, mais deve ser melhor.
Que maravilha! E se a senhora entregasse a um deles o cenário completo de sua vida, com cada diálogo imutável até o momento de sua morte... que presente infernal isso seria. Que tédio absoluto! A cada instante da vida, ele estaria encenando o que já conhecia de todo. Sem poder desviar-se. Poderia antecipar cada resposta, cada palavra... sempre, sempre, sempre... — Leto sacudiu a cabeça. — A ignorância tem suas vantagens. Um universo de surpresas é tudo que peço!
Fora uma longa declaração e Jessica se admirara, enquanto ouvia, de como suas entonações e maneirismos ecoavam seu pai, o filho que ela perdera. Até mesmo as idéias eram coisas que Paul poderia ter dito.
— Você me lembra seu pai — ela disse.
— Isso lhe é doloroso?
— De certo modo, mas é tranquilizador saber que ele ainda vive em você.
— Quão pouco compreende o modo como ele vive em mim. — Jessica sentiu-lhe o tom de voz calmo, mas carregado de amargura. Ela ergueu o queixo, olhando diretamente para ele. — Ou como o seu Duque vive em mim —
acrescentou Leto.
— Vovó, Ghanima é a senhora! E o é de tal maneira que sua vida não lhe guarda um único segredo, até o instante em que deu à luz nosso pai. E quanto a mim! Que catálogo de recordações carnais eu sou. Há momentos em que parece demais para suportar. Veio aqui para nos julgar? Veio para julgar Alia? Melhor seria se nós a julgássemos!
Jessica tentou buscar uma resposta e não encontrou. Que ele estava fazendo? Por que essa ênfase em sua diferença? Será que ele buscava a rejeição?
Teria chegado à mesma condição de Alia? A Abominação?
— Isto a perturba — disse ele.
— Sim, me perturba. — Ela se permitiu um fútil encolher de ombros. —
Realmente me perturba, e por motivos que conhece muito bem. Tenho certeza de que reviu meu treinamento Bene Gesserit. Ghanima admite isso. Eu sei que Alia... o fez. Você tem consciência das consequências de sua diferença.
Ele a encarou com perturbadora intensidade.
— Por pouco não tomamos esse rumo com a senhora — disse ele, e havia um sentimento de fadiga que ela sentia a refletir-se na voz de Leto. — Conhecemos o tremular de seus lábios da maneira como seu amante o conhecia. Qualquer elogio que seu Duque lhe sussurrou na cama é parte de nossas lembranças. E nós aceitamos isso, intelectualmente, sem dúvida. Mas eu a previno de que a aceitação intelectual não é o bastante. Se um de nós se tornar uma Abominação, poderá ser obra sua dentro de nós! Ou de meu pai... ou de minha mãe! Do seu Duque!
Qualquer um de vocês poderia possuir-nos... e o resultado seria o mesmo.
Jessica sentiu algo a lhe queimar o peito, uma umidade nos olhos.
— Leto... — Conseguiu usar-lhe o nome, afinal. E descobriu que a dor era menor do que imaginara, forçando-se a continuar. — Que você quer de mim?
— Eu poderia ensinar à minha avó.
— Ensinar-me o quê?
— Noite passada, eu e Gham desempenhamos o papel de mãe e pai até quase nos destruirmos, mas aprendemos muito. Existem coisas que uma pessoa pode conhecer, se tiver consciência de sua condição. Ações podem ser previstas.
Alia, bem... é certo que ela trama raptá-la.
Jessica piscou, chocada com a rápida acusação. Conhecia bem o truque, tendo-o empregado muitas vezes: coloque uma pessoa seguindo uma linha de raciocínio e então introduza o choque a partir de outra linha. Ela se recobrou respirando fundo.
— Sei o que Alia tem feito... o que ela é, mas...
— Vovó, tenha pena dela. Use seu coração assim como sua inteligência. Já fez isso antes. A senhora representa uma ameaça e Alia quer o Império só para ela...
pelo menos a coisa em que ela se tornou deseja isso.
— Como vou saber que isso não é outra Abominação falando?
Ele encolheu os ombros.
— É aí que entra o seu coração. Gham e eu sabemos como ela caiu. Não é fácil ajustar-se ao clamor daquela multidão interior. Suprima-lhes os egos e eles virão se aglomerando cada vez que invocar uma memória. Um dia... — ele engoliu em seco — um membro mais forte daquela matilha interior decide que é hora de partilhar a carne.
— E não há nada que se possa fazer? — perguntou ela, embora temesse ouvir a resposta.
— Nós acreditamos que existe alguma coisa... sim. Não podemos sucumbir ante a especiaria. Isso é o mais importante. E não devemos suprimir inteiramente o passado. Devemos usá-lo, transformá-lo num amálgama. Para finalmente fundirmos todos eles em nós mesmos. Não seremos mais aqueles que éramos originalmente... mas não estaremos possuídos.
— Você fala de um plano para me sequestrar.
— Isso é óbvio. Wensicia tem ambições em relação a seu filho. Alia é ambiciosa por si mesma, e...
— Alia e Faradin?
— Isso não é indicado — ele disse. — Mas Alia e Wensicia seguem cursos paralelos agora mesmo. Wensicia tem uma irmã na casa de Alia. Que coisa mais simples que uma mensagem para..
— Tem conhecimento de tal mensagem?
— Como se tivesse visto e lido cada palavra.
— Mas não viu a mensagem?
— Não era preciso. Só preciso saber que todos os Atreides estão reunidos em Arrakis. Toda a água em uma única cisterna. — Fez um gesto abrangendo todo o planeta.
— A Casa Corrino não se atreveria a nos atacar aqui!
— Alia lucraria com isso se eles o fizessem. — Um tom de desprezo na voz dele a provocou.
— Não permitirei que meu próprio neto me trate desse modo! — disse ela.
— Então, dane-se, mulher! Pare de pensar em mim como seu neto! Pense em mim como seu Duque Leto! — O tom de voz e a expressão facial, até mesmo o gesto brusco com a mão, foram tão exatos que ela se calou, confusa.
Com voz seca e distante, Leto disse:
— Eu tentei prepará-la. Reconheça isso, pelo menos.
— Por que Alia me sequestraria?
— Para pôr a culpa na Casa Corrino, sem dúvida.
— Não acredito nisso. Mesmo para ela, seria... monstruoso! Muito perigoso! Como ela poderia fazê-lo sem... Não posso crer nisso!
— Quando acontecer, vai acreditar. Ahh, vovó, Gham e eu só temos que escutar dentro de nós mesmos para saber. É um simples caso de auto-preservação.
De que outro modo poderíamos perceber os erros que são cometidos à nossa volta?
— Nem por um minuto aceito que o rapto seja parte dos planos de Alia para...
— Deus do céu! Como uma Bene Gesserit pode ser tão estúpida? O Império inteiro suspeita dos motivos pelos quais está aqui. Os propagandistas de Wensicia estão preparados para desacreditá-la. Alia nem pode esperar que isso aconteça. Se você cair, a Casa Atreides sofrerá um golpe mortal.
— E de que o Império suspeita?
Ela mediu suas palavras tão friamente quanto possível, sabendo que não poderia dobrar essa não-criança com algum truque da Voz.
— De que Lady Jessica planeja unir os gêmeos para a procriação! — disse ele em voz estridente. — Isso é o que a Irmandade deseja. Incesto!
Jessica piscou os olhos.
— Tolo rumor. — Engoliu em seco. — As Bene Gesserit s não permitirão que tal boato se espalhe descontroladamente pelo Império. Ainda temos alguma influência. Lembre-se disso.
— Boato? Que boato? Vocês certamente mantiveram aberta a opção de nos unir para a procriação. — Ele sacudiu a cabeça quando ela começou a falar. —
Não negue isso. Deixe-nos passar a puberdade vivendo na mesma casa, e a senhora naquela casa, e sua influência sobre os boatos não será mais que um trapo sacudido na frente de um verme da areia.