Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 7 de 8 · parte 1/3

Páginas do PDF

Os Filhos de Duna

— Não vamos bebê-lo, Batigh — disse…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Não vamos bebê-lo, Batigh — disse o homem. — Sou Muriz, o arifa deste taif. — E indicou o distante trator de especiaria com um movimento da cabeça.

Leto notou que o homem se intitulava o juiz de seu grupo e se referia aos outros como taif, um bando ou companhia. Não eram ichwan, não eram um grupo de irmãos. Renegados pagos, sem dúvida. Aqui se encontrava o fio de que necessitava.

Quando Leto continuou em silêncio, Muriz indagou:

— Você tem um nome?

— Batigh servirá.

Uma risadinha estremeceu Muriz.

— Ainda não me contou o que faz aqui.

— Sigo as pegadas de um verme — respondeu Leto, usando a frase religiosa que dizia que ele se encontrava num hajj por sua própria umma, sua revelação pessoal.

— Uma pessoa tão jovem? — indagou Muriz. Ele sacudiu a cabeça. —

Não sei o que fazer com você. Você nos viu.

— E o que foi que eu vi? — perguntou Leto. — Falo de Jacurutu e você não me dá resposta.

— Um jogo de charadas — disse Muriz. — O que é aquilo, então? — E

indicou a elevação distante.

Leto falou guiado por sua visão:

— Apenas Shuloch.

Muriz se enrijeceu e Leto sentiu o próprio pulso acelerar-se.

Um longo silêncio se seguiu, e Leto podia notar que o homem estava examinando e descartando várias respostas. “Shuloch!” Na hora calma das histórias, após uma refeição no sietch, as histórias sobre Shuloch eram frequentemente repetidas. Os ouvintes sempre presumiam que Shuloch era um mito, um lugar para coisas interessantes acontecerem, somente em benefício da história. Leto lembrava-se de uma dessas histórias a respeito de Shuloch: um rapaz era encontrado na orla do deserto e trazido para um sietch. A principio, recusava-se a responder às perguntas de seus salvadores, e depois, quando falou, ninguém conseguiu compreender suas palavras. À medida que os dias se passavam, ele continuava a não cooperar, recusando-se a se vestir ou fazer qualquer outra coisa.

E cada vez que era deixado sozinho fazia estranhos movimentos com as mãos.

Todos os especialistas do sietch foram chamados para estudá-lo, mas não chegaram a resposta alguma. Então, uma mulher muito velha passou pela porta, viu as mãos se movendo e riu.

— Ele apenas imita o pai, que enrola fibras de especiaria para fazer cordas

— explicou. — É desse modo que eles ainda fazem em Shuloch. Só está tentando sentir-se menos solitário. — E a moral da história: “Nos velhos costumes de Shuloch, existe segurança e um sentimento de pertencer ao fio dourado da vida.”

Como Muriz permanecesse em silêncio, Leto disse:

— Sou o rapaz de Shuloch que só sabe mover as mãos.

No rápido movimento da cabeça do homem, Leto percebeu que Muriz conhecia a história. Ele respondeu lentamente, com a voz baixa e carregada de ameaça.

— Você é humano?

— Tanto quanto você — respondeu Leto.

— Você fala de modo muito estranho para uma criança. Quero lembrá-lo de que sou um juiz que pode responder ao tagwa.

“Ah, sim”, pensou Leto. Na boca de tal juiz, o tagwa significava uma ameaça imediata. Tagwa era o temor acarretado pela presença de um demônio, uma crença muito real entre os Fremen mais velhos. O arifa conhecia os modos de se matar um demônio e era sempre o escolhido, “pois possui a sabedoria para ser implacável sem ser cruel, para saber quando a bondade é de fato um caminho para uma crueldade maior.”

Mas isso tinha de chegar ao ponto que Leto buscava, e ele disse:

— Posso me submeter ao Mashhad.

— Eu serei o juiz de qualquer teste espiritual — respondeu Muriz. —

Você aceita isso?

— Bi-lal taifa — disse Leto. “Sem restrição.”

Uma expressão maliciosa surgiu no rosto de Muriz. Ele disse:

— Não sei por que permito isso. Melhor seria matá-lo aqui mesmo, mas você é um pequeno Batigh e eu tive um filho que morreu. Vamos, nós iremos para Shuloch e eu reunirei o Isnad para tomar uma decisão a seu respeito.

Leto, notando como cada maneirismo do homem traía uma decisão mortífera, imaginou como alguém seria enganado desse modo. Ele disse:

— Sei que Shuloch é o Ahl as-runna wal famas.

— O que uma criança conhece do mundo real? — perguntou Muriz, indicando a Leto que caminhasse na frente rumo ao ornitóptero.

Leto obedeceu, mas escutou cuidadosamente o som dos passos do Fremen.

— O modo mais seguro de se manter um segredo é fazer com que as pessoas acreditem que já conhecem a resposta — disse Leto. — Nesse caso, elas não fazem perguntas. Foi muito hábil da parte de vocês, que foram banidos de Jacurutu. Quem acreditaria que Shuloch, o lugar mítico das histórias, existe realmente? E como é conveniente para os contrabandistas ou para alguém mais que deseje ter acesso a Duna.

Os passos de Muriz pararam. Leto virou as costas para o lado do tóptero, com a asa à sua esquerda.

Muriz encontrava-se a meio passo de distância, com sua pistola maula apontada diretamente para Leto.

— Então, você não é uma criança — ele disse. — Um maldito anão vem nos espionar! Pensei que você falava muito sabiamente para uma criança, mas você falou cedo demais.

— Não o suficiente — disse Leto. — Sou Leto, o filho de Paul Muad'Dib.

Se me matar, você e a sua gente afundarão na areia. Se me poupar, eu os conduzirei à grandeza.

— Não tente suas manobras comigo, anão — retrucou Muriz. — Leto se encontra no verdadeiro Jacurutu, de onde você diz que...

Não terminou a frase. A mão com a arma se abaixara ligeiramente, enquanto uma expressão intrigada fazia suas pálpebras se comprimirem.

Era a hesitação pela qual Leto esperara. Ele fez cada indicação muscular de um movimento para a esquerda, o qual, desviando seu corpo não mais que um milímetro, lançou a arma do Fremen girando loucamente contra a ponta da asa. A pistola maula foi arrancada da mão de Muriz e, antes que ele pudesse recuperar-se, Leto estava atrás dele, com a faca do próprio Muriz pressionando as costas do homem.

— A ponta está envenenada — disse Leto. — Diga ao seu amigo no tóptero que deve permanecer exatamente onde está, sem se mexer. De outro modo, serei forçado a matá-lo.

Muriz, esfregando a mão ferida, sacudiu a cabeça para a figura dentro do tóptero e disse:

— Meu companheiro Behaleth o ouviu. Ficará imóvel como uma rocha.

Sabendo que tinha muito pouco tempo antes que os dois homens elaborassem um plano de ação ou que seus amigos viessem investigar, Leto falou rapidamente:

— Você precisa de mim, Muriz. Sem mim, os vermes e sua especiaria desaparecerão de Duna.

Sentiu o Fremen ficar rígido.

— Mas como você sabe a respeito de Shuloch? — perguntou Muriz. —

Sei que eles não falaram nada em Jacurutu.

— Assim, admite que sou Leto Atreides?

— Quem mais poderia ser? Mas como você?

— Porque você está aqui — respondeu Leto. — Shuloch existe, portanto, o resto é completamente simples. Vocês são os Banidos que escaparam quando Jacurutu foi destruído. Eu os vi sinalizando com as asas, o que significa que não usam engenhos que possam ser ouvidos a distância. Vocês colhem especiaria, portanto comerciam. Só poderiam comerciar com os contrabandistas. Você é um contrabandista e no entanto é um Fremen. Portanto, deve ser de Shuloch.

— Por que me tentou para que o matasse?

— Porque você teria me matado de qualquer modo quando retornássemos a Shuloch.

Uma violenta rigidez dominou o corpo de Muriz.

— Cuidado, Muriz — advertiu Leto. — Sei a seu respeito. Está em sua história que vocês tomam a água de viajantes descuidados. Agora, isso deve ser um ritual comum entre vocês. De que outro modo poderiam silenciar aqueles que por acaso os encontram? De que outro modo manteriam seu segredo? Batigh! Você me seduzia com palavras bondosas e apelidos gentis. Por que desperdiçar minha água sobre a areia? E se eu desaparecesse como tantos outros... bem, Tanzerouft teria dado cabo de mim.

Muriz fez o sinal dos Chifres do Verme com a mão direita, para afastar o Riham que as palavras de Leto invocavam. E Leto, sabendo como os velhos Fremen desconfiavam dos mentats ou de qualquer outra coisa que os confundisse com uma ampla exibição de lógica, reprimiu um sorriso.

— Mani falou a nosso respeito em Jacurutu — disse Muriz. — Eu terei sua água quando...

— Você não terá nada senão areia se insistir em bancar o tolo. O que vai fazer, Muriz, quando todo o planeta se tornar capim verde, árvores e água a céu aberto?

— Isso nunca acontecerá!

— Está acontecendo diante dos seus olhos.

Leto ouviu os dentes de Muriz rangendo de ódio e frustração. Daí a pouco, o homem falou entre os dentes:

— Como você evitaria isso?

— Conheço todo o plano de transformação — respondeu Leto.

— Conheço cada fraqueza que existe nele, cada força. Sem mim, o ShaiHulud desaparecerá para sempre.

Com o tom matreiro retornando à sua voz, Muriz perguntou:

— Bem, por que discutirmos isso aqui? Estamos num impasse. Você tem sua faca, pode me matar, mas Behaleth atiraria em você.

— Não antes que eu apanhasse sua pistola. E então eu teria o seu tóptero.

Sim, posso pilotá-lo.

Uma expressão carrancuda enrugou a testa de Muriz por baixo do capuz.

— E se você não for quem diz ser?

— Meu pai não vai me identificar? — perguntou Leto.

— Ahhh, foi assim que você aprendeu, não? Mas... — Ele se interrompeu novamente, sacudiu a cabeça. — Meu próprio filho lhe serve de guia. Ele diz que vocês dois nunca... Como poderia...

— Então você não acredita que o Muad'Dib prevê o futuro.

— É claro que acredito! Mas ele diz a respeito de si mesmo que... —

Novamente Muriz não terminou a frase.

— E você pensa que ele está inconsciente da sua desconfiança — disse Leto. — Vim a este lugar exato, nesta exata ocasião, para encontrá-lo, Muriz. Sei tudo a seu respeito porque vi você... e seu filho. Sei como vocês se julgam seguros, como zombam do Muad'Dib e como conspiram para preservar seu pequeno trecho de deserto. Mas sem mim seu pequeno trecho de deserto está condenado, Muriz.

Perdido para sempre. Já se foi muito longe aqui em Duna. Meu pai quase esgotou sua visão e vocês só podem recorrer a mim.

— Aquele cego... — Muriz se interrompeu, engoliu em seco.

— Ele logo voltará de Arrakeen — disse Leto. — E então veremos quanto ele é cego. Até onde você se afastou dos velhos costumes Fremen, Muriz?

— O quê?

— Ele é Yadguiyas com vocês. Sua gente o encontrou sozinho no deserto e o trouxe aqui para Shuloch. Que rica descoberta ele não era! Mais valioso que um veio de especiaria. Yadguiyas! Ele tem vivido com vocês, sua água misturou-se com a de sua tribo. Ele é parte de seu Rio Espiritual. E Leto pressionou sua faca contra o manto de Muriz. — Cuidado, Muriz. — Ergueu a mão esquerda e soltou a máscara facial do Fremen, deixando-a cair.

Sabendo o que Leto planejava, Muriz disse:

— Para onde você iria se nos matasse a ambos?

— De volta a Jacurutu.

Leto pressionou a parte carnuda de seu polegar contra a boca de Muriz.

— Morda e beba, Muriz. Faça isso ou então morra.

Muriz hesitou, depois mordeu violentamente a carne de Leto. Leto observou a garganta do homem, viu-o engolir convulsivamente, então afastou a faca e a devolveu.

— Lyadguiyas — disse Leto. — Devo ofender sua tribo antes que você possa tirar minha água.

Muriz assentiu.

— Sua pistola está ali. Leto indicou-a com o queixo.

— Confia em mim agora? — indagou Muriz.

— De que outro modo eu poderia viver entre os Banidos? — Novamente, Leto percebeu o olhar matreiro de Muriz, mas dessa vez era algo avaliador. O

homem virou-se com uma rapidez que indicava decisões secretas, apanhou a pistola maula e se voltou para o degrau da asa.

— Venha ele disse. Já nos demoramos muito no covil de um verme.

O futuro da presciência nem sempre pode estar preso às regras do passado. Os fios da existência se emaranham de acordo com muitas leis desconhecidas. O futuro-presente insiste em ter suas próprias regras.

Não se ajustará ao pensamento ordeiro dos Zensunni ou ao ordenamento da ciência. A presciência constrói uma integridade relativa. Ela exige um trabalho neste instante, sempre o advertindo de que não pode tramar cada fio no tecido do passado.

- Kalima: As Palavras do Muad'Dib O Comentário de Shuloch Muriz trouxe o ornitóptero até Shuloch com a facilidade que vem com a prática. Leto sentava-se ao lado dele, sentindo a presença armada de Behaleth atrás de si. Tudo agora dependia de confiança e do delgado fio da visão, ao qual ele se agarrava. Se aquilo falhasse, Allahu akbahr.

Por vezes devemos submeter-nos a uma vontade mais elevada.

A montanha de Shuloch era impressionante nesse deserto. Sua presença não-assinalada revelava muitos subornos e muitas mortes, e muitos amigos em lugares importantes. Leto podia ver o coração de Shuloch como uma depressão cercada de penhascos, com canyons sem saída levando até ela.

Arbustos salgados e sombreiras, formando um bosque espesso e amplo, delineavam as bordas inferiores desses desfiladeiros, com um anel interno de palmeiras indicando que o lugar era rico em água. Toscas construções de capim verde e fibra de especiaria haviam sido erguidas além das palmeiras, parecendo botões verdes espalhados pela areia. Lá deviam viver os banidos dos Banidos, aqueles que não poderiam descer mais, senão com a morte.

Muriz pousou na depressão junto à base de um dos canyon. Uma única estrutura se erguia da areia, diretamente à frente do tóptero: uma choupana de trepadeira do deserto e folhas de bejato, tudo revestido com tecido de especiaria fundido pelo calor. Tratava-se de uma réplica viva das primeiras e toscas tendas-destiladoras e revelava a degradação de alguns dos que viviam em Shuloch. Leto sabia que tal lugar devia vazar umidade e estar cheio de insetos picadores vindos da vegetação próxima.

Então, era assim que seu pai vivia. Pobre Sabiha. Ali seria a sua punição.

A uma ordem de Muriz, Leto deixou o tóptero, saltando para a areia e caminhando em direção à choupana. Podia ver muitas pessoas trabalhando perto do canyon, entre as palmeiras. Pareciam pobres, esfarrapadas, e o fato de quase não olharem para ele ou para o tóptero era um indício da opressão que devia reinar por

ali. Leto pôde notar a orla de pedra de um qanat além dos trabalhadores, e não havia engano no sentimento de umidade no ar: água a céu aberto. Passando pela choupana, Leto viu que era tão tosca quanto havia esperado. Seguiu até o qanat e olhou para baixo, vendo o rodopiar de peixes predadores entre o fluxo escuro. Os trabalhadores, evitando seu olhar, continuaram limpando a areia da linha de aberturas na rocha.

Muriz veio por trás dele e disse:

— Você está no limite entre o peixe e o verme. Cada um desses desfiladeiros tem o seu verme. Este qanat foi aberto e dentro em breve nós retiraremos os peixes para atrair a truta da areia.

— É claro — disse Leto. — Viveiros de criação. Vocês vendem vermes e trutas da areia para fora do planeta.

— Foi sugestão do Muad'Dib!

— Eu sei. Mas nenhum de seus vermes ou trutas da areia sobrevive muito tempo longe de Duna.

— Ainda não disse Muriz. Mas algum dia...

— Nem em 10 mil anos — disse Leto, voltando-se para observar a confusão no rosto de Muriz.

As perguntas fluíam ali como a água no qanat. Esse filho do Muad'Dib seria realmente capaz de enxergar o futuro? Alguns ainda acreditavam que o Muad'Dib fizera isso, mas... Como se poderia julgar uma coisa assim?

Daí a pouco, Muriz voltou-se, conduzindo-o para a choupana. Abriu um tosco selo de umidade na porta e fez sinal para que Leto entrasse. Lá dentro havia uma lâmpada de óleo de especiaria queimando junto à parede dos fundos, e uma pequena figura agachada abaixo dela, de costas para a porta. A queima do óleo produzia forte perfume de canela.

— Eles mandaram uma nova prisioneira para cuidar do sietch do Muad'Dib

— resmungou Muriz. — Se ela nos servir bem, poderá conservar sua água por algum tempo. — Confrontou Leto. — Alguns dizem que é ruim tirar essa água.

Aqueles Fremen de camisas rendadas agora fazem pilhas de lixo em suas novas cidades! Pilhas de lixo! Quando foi que Duna teve pilhas de lixo! Quando pegamos alguns como essa aí... — e gesticulou para a figura abaixo da lâmpada —

geralmente estão meio loucos de medo, perdidos para sua própria gente e nunca aceitos entre os verdadeiros Fremen. Está me entendendo, Leto-Batigh?

— Eu o compreendo.

A figura agachada não se movera.

— Você fala em nos liderar. Os Fremen são liderados por homens que derramaram sangue. No que você nos poderia liderar?

— Kralizec — disse Leto, mantendo a atenção sobre a pessoa agachada.

Muriz olhou para ele, as sobrancelhas contraídas sobre os olhos azuis.

— Kralizec? — Isso não era meramente uma guerra ou revolução, isso era a Luta do Tufão. Uma palavra tirada das mais antigas lendas Fremen: a batalha no fim do universo. — Kralizec?

O alto Fremen engoliu convulsivamente. Esse garoto era tão imprevisível quanto um almofadinha da cidade! Voltou-se para a figura agachada.

— Mulher! Liban wahid! — ordenou. “Traga-nos a bebida de especiaria.”

Ela hesitou.

— Faça como ele diz, Sabiha, — disse Leto.

Ela ficou de pé num movimento brusco, girando a fim de olhar para ele e incapaz de tirar os olhos de seu rosto.

— Você conhece essa aí? — perguntou Muriz.

— Ela é a sobrinha de Namri. Ela ofendeu Jacurutu e eles a mandaram para você.

— Namri? Mas...

— Liban wahid — disse Leto.

Ela passou correndo por ele, deixou atrás de si o selo da porta e eles ouviram seus passos apressados.

— Ela não irá longe — disse Muriz. Tocou o lado do nariz com o dedo.

— Uma parenta de Namri, hein? Interessante. O que ela fez para ofendê-los?

— Permitiu que eu escapasse — respondeu Leto, voltando-se e seguindo Sabiha.

Encontrou-a de pé na beira do qanat. Colocou-se ao lado dela e olhou para a água. Havia pássaros nas palmeiras próximas e ele ouviu seus chamados, o bater de suas asas. Os trabalhadores produziam sons ásperos enquanto removiam a areia.

Imóvel, ele fez o que Sabiha fazer, olhando para a água e seus reflexos. Pelos cantos dos olhos, via periquitos azuis entre as folhas das palmeiras. Um deles voou sobre o qanat e Leto o viu refletido sobre o brilho prateado dos peixes, peixes que nadavam juntos, tal como os pássaros e os predadores nadavam no mesmo firmamento.

Sabiha pigarreou.

— Você me odeia — disse Leto.

— Você me envergonhou. Envergonhou-me diante de meu povo. Eles tiveram um Isnad e me mandaram aqui para perder minha água. Tudo por sua culpa!

Muriz riu, bem atrás deles.

— Agora está vendo, Leto-Batigh, que nosso Rio Espiritual tem muitos tributários.

— Mas minha água flui nas suas veias — replicou Leto, virando-se para ele. — Este não é um tributário. Sabiha é o destino da minha visão e eu a sigo. Fugi através do deserto para encontrar meu futuro aqui em Shuloch.

— Você e... — Ele apontou para Sabiha e lançou a cabeça para trás numa gargalhada.

— Não será como nenhum de vocês pensa — disse Leto. — Lembre-se disso, Muriz. Encontrei as pegadas de meu verme. — Sentiu lágrimas escorrendo de seus olhos então.

— Ele dá água para os mortos — sussurrou Sabiha.

Até mesmo Muriz olhou para ele espantado. Os Fremen nunca choram a menos que se trate da mais profunda dádiva para a alma. Quase embaraçado, Muriz puxou a máscara sobre a boca e abaixou o capuz de seu djeballa sobre as sobrancelhas.

Leto olhou além do homem e disse:

— Aqui em Shuloch, eles ainda rezam por orvalho na orla do deserto. Vá, Muriz, e reze por Kralizec. Prometo-lhe que virá.

O discurso Fremen implica grande concentração e um senso preciso de expressão. Está imerso na ilusão do absoluto. Seus pressupostos são campo fértil para religiões absolutistas. Além disso, os Fremen gostam de moralizar. Eles confrontam a terrível instabilidade de todas as coisas com declarações institucionalizadas. Dizem: “Sabemos que não existe a summa de todo o conhecimento disponível, isso é privilegio de Deus. Mas o que quer que os homens possam aprender, os homens podem conter. “ Com essa abordagem incisiva do universo, esculpem uma crença fantástica em sinais e profecias e em seu próprio destino. Essa é a origem de sua lenda do Kralz'.Zec: a guerra do fim do universo

- Relatório Particular Bene Gesserit/ folha 800.881

— Eles o mantêm a salvo num lugar seguro — disse Namri, sorrindo para Gurney Halleck, do outro lado da sala quadrada, escavada na pedra. — Pode relatar isso aos seus amigos.

— E onde fica esse lugar seguro? — perguntou Halleck.

Ele não gostava do tom de voz de Namri e se sentia tolhido pelas ordens de Jessica. Maldita bruxa! Suas explicações não faziam sentido, exceto a advertência a respeito do que poderia acontecer caso Leto fracassasse em dominar suas terríveis memórias.

— É um lugar seguro — repetiu Namri. — Isso é tudo que me permitiram dizer-lhe.

— Como sabe disso?

— Recebi um distrans. Sabiha está com ele.

— Sabiha! Mas foi ela que...

— Não desta vez.

— Vai matá-lo?

— Isso não depende mais de mim.

Halleck contraiu o rosto. Distrans. Qual seria o raio de ação daqueles malditos morcegos de caverna? Ele os vira frequentemente esvoaçando através do deserto, com mensagens ocultas impressas em seus guinchos. Mas até onde eles poderiam ir nesse planeta infernal?

— Devo vê-lo pessoalmente — disse Halleck.

— Isso não é permitido.

Halleck respirou fundo para se acalmar. Havia passado dois dias e duas noites esperando pelos relatórios de buscas. Agora, era outra manhã e ele sentia seu papel se dissolvendo à sua volta, deixando-o nu. Nunca apreciara o comando, de qualquer modo. Os comandantes sempre esperam enquanto os outros fazem as coisas interessantes e perigosas.

— Por que não é permitido? — indagou. Os contrabandistas que haviam arranjado esse sietch seguro haviam deixado muitas perguntas sem resposta e ele não queria a mesma coisa de Namri.

— Alguns acham que você viu demais quando viu este sietch. — Halleck ouviu a ameaça e relaxou sua posição descansada do lutador treinado, a mão próxima, mas não sobre a faca. Sentia falta de um escudo, mas isso estava fora de cogitação, dado seu efeito sobre os vermes e sua vida curta na presença das cargas estáticas geradas pelas tempestades.

— Esse segredo não era parte dê nosso acordo — disse Halleck.

— Se eu o tivesse matado, isso teria sido parte de nosso acordo? —

Novamente, Halleck sentia o movimento de forças invisíveis a respeito das quais Lady Jessica não o avisara. Esse maldito plano dela! Talvez fosse certo não confiar nas Bene Gesserit s. Imediatamente, sentiu-se desleal. Ela havia explicado o problema, e ele entrara em seus planos com a expectativa de que, como todos os planos, esse iria necessitar de ajustamentos posteriores. Ela não era uma Bene Gesserit qualquer, era Jessica dos Atreides, que nunca fora outra coisa senão sua amiga e patrocinadora. Sem ela, sabia que teria sido lançado à deriva num universo mais perigoso que esse onde agora habitava.

— Não pode responder minha pergunta — disse Namri.

— Você devia matá-lo apenas se ele mostrasse estar... possuído — disse Halleck. — Abominação.

Namri levou o punho junto ao ouvido direito.

— Sua Senhora sabia que tínhamos testes para verificar isso. Foi sábio da parte dela deixar tal julgamento em minhas mãos.

Halleck comprimiu os lábios, frustrado.

— Você ouviu as palavras que a Reverenda Madre me dirigiu —

continuou Namri. — Nós Fremen entendemos tais mulheres, mas vocês estrangeiros nunca as compreendem. As mulheres Fremen muitas vezes enviam seus filhos para a morte.

Halleck falou entre os dentes.

— Está querendo me dizer que o matou?

— Ele vive. Está em lugar seguro. Vai continuar a receber a especiaria.

— Mas eu devo escoltá-lo de volta à sua avó se ele sobreviver — disse Halleck.

Namri apenas encolheu os ombros.

Halleck percebeu que essa era toda a resposta que conseguiria. Maldição!

Não poderia voltar para Jessica com tais perguntas sem respostas! Sacudiu a cabeça.

— Por que questionar o que não pode mudar? — indagou Namri. —

Você está sendo bem pago.

Halleck olhou carrancudo para o homem. Fremen! Acreditavam que todos os estrangeiros eram influenciados principalmente pelo dinheiro. Mas Namri estava verbalizando mais que um preconceito Fremen. Outras forças se encontravam em ação por ali, isso era óbvio para quem fora treinado nos modos de observação Bene Gesserit. Toda essa coisa tinha o cheiro de um estratagema dentro de um estratagema dentro de um...

Mudando para a forma de insulto comum, Halleck disse:

— Lady Jessica ficará furiosa. Ela poderá mandar legiões contra...

— Zanadz'g! — amaldiçoou Namri. — Seu mensageiro oficial! Você fica fora do Mohalata! Terei prazer em obter sua água para o Nobre Povo.

Halleck descansou a mão sobre sua faca e preparou a manga esquerda, onde havia guardado uma pequena surpresa para possíveis atacantes.

— Não vejo nenhuma água derramada aqui — ele disse. — Talvez você esteja cego pelo orgulho.

— Você vive porque eu quis que você aprendesse, antes de morrer, que sua Lady Jessica não enviará legiões contra ninguém. Você não será atraído silenciosamente para o Huanui, escória estrangeira. Eu pertenço ao Nobre Povo e você...

— E eu sou apenas um servo dos Atreides — disse Halleck com a voz calma. — Nós somos a escória que tirou a canga dos Harkonnen de cima de seu pescoço fedorento.

Namri mostrou os dentes brancos numa careta de ódio.

— Sua Senhora é prisioneira em Salusa Secundus. As mensagens que julgou serem dela vieram de sua filha!

Com um supremo esforço, Halleck conseguiu manter a voz calma.

— Não importa. Alia irá... — Namri sacou da faca cristalina.

— O que você sabe do Ventre Celestial? Eu sou seu servo, seu prostituto.

Faço a vontade dela quando tiro sua água! — E saltou através da sala num tolo movimento direto.

Halleck, sem se deixar enganar pela aparente ingenuidade, sacudiu a manga esquerda de seu manto, soltando o comprimento extra de tecido pesado que ele costurara ali e deixando que o pano recebesse o golpe da faca de Namri. Nesse mesmo movimento, Halleck lançou as dobras da roupa sobre a cabeça de Namri e golpeou com sua faca por sob e através do tecido, apontando diretamente para o rosto do Fremen. Sentiu a ponta da faca atingir o alvo enquanto o corpo de Namri se chocava contra ele com uma dura superfície de armadura metálica por baixo do manto. O Fremen emitiu um guincho, saltou para trás num movimento convulsivo e caiu. Ficou no chão, o sangue esguichando de sua boca enquanto seus olhos fitaram Halleck e então ficaram vidrados.

Halleck deixou o ar escapar por entre os lábios. Como aquele tolo Namri poderia ter julgado que alguém deixaria de notar a presença de uma armadura por

baixo de seu manto? Halleck dirigiu-se ao cadáver, enquanto recuperava a manga-armadilha, limpava a faca e a embainhava:

— Como você achava que nós, os servos Atreides, somos treinados, idiota?

Respirou fundo, pensando. “Bem, e agora? Em que estratagema eu me encontro?” Houvera verdade nas palavras de Namri. Jessica prisioneira dos Corrino e Alia realizando seus próprios esquemas maquiavélicos. Jessica o advertira de muitas contingências em que Alia seria o inimigo, mas não previra que ela própria poderia ser aprisionada. Ele tinha suas ordens a obedecer, contudo. Primeiro, havia a necessidade de sair daquele lugar.

Felizmente, um Fremen envolto em mantos parecia-se com qualquer outro.

Rolou o corpo de Namri para um canto e o cobriu com colchões, puxando um tapete para ocultar o sangue. Isso feito, ajustou os tubos do nariz e da boca de seu traje-destilador, colocou a máscara como alguém preparado para enfrentar o deserto, puxou o capuz sobre a cabeça e saiu para a longa passagem.

Os inocentes caminham calmamente pensou, andando como se apenas passeasse. Sentia-se curiosamente livre, como se estivesse dirigindo-se para fora do perigo e não para dentro dele.

“Nunca gostei do plano dela com relação ao garoto”, pensou. “E vou lhe dizer isso se a vir. Se.” Pois se Namri falara a verdade, o mais perigoso plano alternativo entrava em ação. Alia não o deixaria viver muito tempo se o apanhasse, mas sempre havia Stilgar um bom Fremen com boas superstições Fremen.

Jessica lhe explicara:

— Existe uma camada muito fina de comportamento civilizado sobre a natureza original de Stilgar. E este é o modo como lhe arrancará essa camada...

O espírito do Muad'Dib é mais que palavras, mais que a lei que se eleva em seu nome.

O Muad'Dib deve ser, sempre uma ira interior contra a complacência dos poderosos, contra os charlatães e os fanáticos dogmáticos. E essa ira interior deve expressar-se porque o Muadbib nos ensinou uma coisa acima de todas as outras: que os seres humanos podem prosperar a penas na fraternidade de uma justiça social

- O Tratado Fedaykin

Leto estava sentado de costas para a parede da choupana, sua atenção voltada para Sabiha, observando os fios de sua visão se desenrolarem. Ela havia preparado o café e o colocara de lado. Agora, estava agachada diante dele, remexendo sua refeição noturna. Era uma sopa carregada de melange. As mãos dela moviam-se rapidamente com a concha, e o liquido azul manchava as bordas da tigela. Sabiha curvava o rosto magro sobre a tigela, misturando o concentrado. A tosca membrana que transformava a palhoça em tenda-destiladora fora remendada

com um material mais fino, bem atrás dela, e isso formava um halo cinzento sobre o qual sua sombra dançava à luz tremulante da chama de cozinhar e da única lâmpada.

A lâmpada intrigava Leto. Essa gente de Shuloch esbanjava óleo de especiaria: uma lâmpada, não um globo luminoso. Eles mantinham escravos banidos dentro de suas muralhas, à maneira revelada pelas mais antigas tradições Fremen. E no entanto empregavam ornitópteros e as mais modernas colhedoras de especiaria. Eram uma tosca mistura do mais antigo e do mais moderno.

Sabiha empurrou a tigela de sopa em sua direção e apagou a chama de cozinhar. Leto ignorou a comida.

— Serei punida se você não comer isso — ela disse.

Ele olhou para ela, pensando: “Se eu a matar, isso destruirá uma das visões. Se lhe contar os planos de Muriz, isso destruirá outra visão. Se eu esperar aqui por meu pai, esse fio de visão se tornará uma corda poderosa.”

Sua mente selecionava as linhas. Algumas tinham uma suavidade que o assombrava. Um futuro com Sabiha tinha uma realidade fascinante dentro de sua consciência presciente. Ele ameaçava bloquear todos os outros até o seguir para suas agonias finais.

— Por que você olha para mim desse modo? — perguntou ela.

Ele ainda não respondeu.

Ela empurrou a tigela para mais perto dele.

Leto tentou engolir com a garganta seca. O impulso de matar Sabiha crescia dentro de si. Sentiu-se tremendo com essa tentação. Como seria fácil destruir uma visão e deixar a selvageria correr livre!

— Muriz ordenou isso — ela disse, tocando a tigela.

— Sim, Muriz ordenou. — A superstição conquistava tudo. Muriz queria uma visão revelada para que ele a interpretasse. Era um antigo selvagem pedindo ao feiticeiro para jogar os ossos do boi e interpretar a posição em que haviam caído.

Muriz levara o traje-destilador de seu prisioneiro, como “simples precaução”. Havia uma zombaria implícita dirigida a Namri e Sabiha naquele comentário: “Só os tolos deixam um prisioneiro escapar.”

Muriz tinha um profundo problema emocional, contudo: o Rio Espiritual.

A água do prisioneiro fluía nas veias de Muriz. E Muriz buscava um indício que lhe permitisse lançar uma ameaça de morte sobre Leto.

“Tal pai, tal filho”, pensou Leto.

— A especiaria só lhe dará visões — disse Sabiha. Os longos silêncios a incomodavam. — Eu ja tive visões na orgia muitas vezes. Elas não significam nada.

“É isso!”, pensou ele, seu corpo prendendo-se numa quietude que lhe deixava a pele fria e úmida. O treinamento Bene Gesserit dominou sua consciência, um ponto luminoso que se espalhava além dele para lançar a luz brilhante da visão sobre Sabiha e todos os seus companheiros Banidos.

O antigo aprendizado Bene Gesserit era explicito:

“As linguagens são formadas para refletirem uma especialização no modo de vida. Cada especialização pode ser reconhecida por suas palavras, seus

pressupostos e suas estruturas raciais. Preste atenção às paradas. As especializações representam lugares onde a vida se detém, onde o movimento é represado e congelado.” Percebia Sabiha, então, como uma criadora de visões, ela própria, e todos os outros seres humanos tinham o mesmo poder. E no entanto ela desdenhava suas visões na orgia da especiaria. Elas lhe causavam inquietação e por isso deviam ser colocadas de lado, deliberadamente esquecidas. Seu povo orava ao Shai-Hulud porque o verme dominava muitas dezes suas visões. Eles oravam pela umidade na orla do deserto porque a umidade limitava suas vidas. E no entanto nadavam em riqueza de especiaria e atraíam trutas da areia para qanat s abertos.

Sabiha o alimentava com visões prescientes com uma insensibilidade natural, e no entanto, em suas palavras, ele via os sinais esclarecedores: ela dependia de absolutos, buscava limites finitos, e tudo por ser incapaz de lidar com os rigores de terríveis decisões que lhe tocavam a própria carne. Ela se agarrava à sua visão simples do universo, tão parada no tempo e tão generalizante como poderia ser, pois as alternativas a aterrorizavam.

Em contraste, Leto sentia o movimento puro dentro de si mesmo. Era uma membrana coletando dimensões infinitas e, já que via essas dimensões, poderia tomar as decisões terríveis.

“Como fez meu pai.”

— Você deve comer isto! — disse Sabiha, a voz petulante.

Leto via agora todo o padrão de suas visões e sabia a linha que deveria seguir. “Minha pele não é minha pele.” Levantou-se e ajustou o manto ao seu redor. O tecido parecia estranho, roçando em sua pele, sem o traje-destilador para lhe proteger o corpo. Seus pés estavam nus sobre o tecido fundido de especiaria que formava o piso, sentindo a areia que fora arrastada para dentro.

— Que está fazendo? — perguntou Sabiha.

— O ar esta ruim aqui. Vou lá fora.

— Você não pode fugir — ela avisou. — Cada canyon tem seu verme. Se ultrapassar o qanat, os vermes sentirão sua presença pela umidade. Esses vermes cativos são muito alertas... Não são como os do deserto. Além disso... — como sua voz se tornou zombeteira! — Você não tem um traje-destilador.

— Então, por que se preocupa? — indagou ele, imaginando se ainda poderia provocar uma reação verdadeira da parte dela.

— Porque você não comeu.

— E você será punida.

— Sim!

— Mas eu já estou saturado de especiaria. Cada momento é uma visão. —

Indicou a tigela com o pé descalço. — Derrame isso na areia. Quem é que vai saber?

— Eles vigiam — sussurrou ela.

Leto sacudiu a cabeça, livrando-a de suas visões, e sentiu uma nova liberdade a envolvê-lo. Não era preciso matar esse pobre peão. Ela dançava por outra música, nem mesmo conhecendo seus passos, acreditando ainda poder

compartilhar o poder que atraía os piratas famintos de Shuloch e Jacurutu. Leto foi até o selo da porta e colocou a mão sobre ele.

— Quando Muriz chegar — ela disse, — vai ficar furioso.

— Muriz é um mercador do vazio — respondeu Leto. — Minha tia o esgotou.

Ela se levantou.

— Vou com você.

E ele pensou: “Ela se lembra de como lhe escapei. Agora sente a fragilidade de seu domínio sobre mim. Suas visões se agitam dentro dela.”

Mas ela não iria ouvir essas visões. Só tinha de refletir: como ele poderia dominar um verme cativo em seu estreito canyon? Como poderia viver em Tanzerouft sem traje-destilador ou estojo Fremen?

— Devo ficar só para consultar minhas visões — ele disse. — Você ficará aqui.

— Aonde vai?

— Ao qanat.

— As trutas da areia vêm em enxames durante a noite.

— Elas não vão me comer.

— Algumas vezes os vermes descem até perto da água — ela disse. — Se você atravessar o qanat... — Não terminou a frase, tentando colocar um tom de ameaça em suas palavras.

— Como eu poderia montar um verme sem ganchos? — indagou ele, imaginando se ela ainda poderia lembrar algum fragmento de suas visões.

— Vai comer quando retornar? — perguntou ela, agachando-se uma vez mais junto da terrina, apanhando a colher e recomeçando a mexer o caldo azul.

— Tudo em seu devido tempo — ele disse, sabendo que ela seria incapaz de detectar seu apurado uso da Voz, o modo como insinuava seus próprios desejos no processo de decisão dela.

— Muriz virá a saber se você teve uma visão — advertiu ela.

— Lidarei com Muriz à minha maneira — ele disse, notando como os movimentos dela tinham se tornado lentos e pesados. O padrão de todos os Fremen prestava-se naturalmente ao modo como ele a guiava agora. Os Fremen eram pessoas de extraordinária energia ao nascer do sol, mas uma profunda e letárgica melancolia frequentemente os dominava ao cair da noite. Ela já queria mergulhar no sono e nos sonhos.

Leto saiu sozinho para a noite.

O céu cintilava com estrelas e ele podia ver a massa da montanha ao seu redor delineada contra a sua configuração. Caminhou por sob as palmeiras até o qanat.

Por longo tempo, Leto ficou agachado à beira do qanat, ouvindo o incansável assoviar da areia no canyon. Tratava-se de um pequeno verme, pelo ruído que fazia, escolhido, sem dúvida, por essa razão. Um verme pequeno seria mais fácil de transportar. Pensou na captura do verme. Os caçadores o atordoavam com

uma névoa de água, usando o método Fremen tradicional de pegar um verme para o ritual da orgia/transformação.

Entretanto, esse verme não seria morto por imersão. Seguiria num heighliner da Corporação, destinado a algum esperançoso comprador cujo deserto provavelmente seria demasiado úmido. Poucos estrangeiros percebiam o dessecamento básico que a truta da areia havia mantido em Arrakis. Havia mantido.

Continuar: parte 2 de 3