Os Filhos de Duna
Quem seria a mulher, então? Não importava.…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quem seria a mulher, então? Não importava. Era alguém que estava sendo usado por Palimbasha.
Espontaneamente, um pensamento Bene Gesserit entrou na mente de Ghanima:
“Cada planeta tem seu próprio tempo, assim como cada vida.”
Ela se lembrava bem de Palimbasha, observando-o ali com aquela mulher, vendo o transmissor e os movimentos furtivos. Palimbasha era professor na escola do sietch. Matemática. Tratava-se de um rude matemático que tentara explicar o Muad'Dib através da sua matéria, até ser censurado pelo clero. Era um escravizador
de mentes e seu processo de escravidão podia ser entendido com extrema simplicidade: transferia conhecimentos técnicos para os outros sem que esse conhecimento fosse acompanhado por uma transferência de valores.
“Eu devia ter suspeitado dele antes”, pensou ela. “Os indícios estavam todos aqui.”
Então, com um aperto ácido no estômago, ela lembrou: “Ele matou meu irmão!”
Procurou manter-se calma. Palimbasha também a mataria se ela tentasse passar por ele naquela entrada oculta. Agora, podia entender a exibição de luz, tão pouco característica dos Fremen, essa revelação aberta da entrada escondida. Eles estavam observando àquela luz para ver se alguma de suas vítimas escapara. Devia ser um terrível tempo de espera para eles, sem terem certeza. Vendo o transmissor, Ghanima pôde explicar os movimentos da mão: Palimbasha estava apertando o botão do transmissor frequentemente, num gesto furioso.
A presença desse par revelava muito a Ghanima. Era provável que cada entrada do sietch tivesse um observador semelhante em seu interior.
Passou a mão no nariz, onde a poeira causava coceira. A perna ferida ainda pulsava e o braço da faca doía, quando não ardia. Os dedos permaneciam entorpecidos. Se tivesse de usar uma faca, teria de ser com a mão esquerda.
Pensou em usara pistola maula, mas seu ruído característico atrairia atenções indesejadas. Algum outro modo teria de ser encontrado.
Palimbasha virou-se na entrada uma vez mais. Era uma figura escura delineada contra a luz. A mulher voltou sua atenção para a noite exterior enquanto falava. Havia uma vigilância treinada nos modos dela, uma impressão de que ela sabia como olhar nas sombras usando o canto dos olhos. Então, era mais que um instrumento útil. Era parte da grande conspiração.
Ghanima relembrava agora que Palimbasha aspirava a ser um Kavmakam, um governador sob a Regência. Devia fazer parte de um plano bem maior, isso era claro, e haveria muitos outros como ele, mesmo ali, em Tabr. Ghanima examinou os contornos do problema assim exposto, sondando seu interior.
Se pudesse pegar um desses guardiães vivo, muitos outros seriam apanhados.
O ruído de um pequeno animal bebendo no qanat atrás dela captou a consciência de Ghanima. Sons naturais e coisas naturais. Sua memória sondou através de uma estranha barreira silenciosa em sua mente e encontrou uma sacerdotisa de Jowf capturada na Assíria por Senanqueribe.
A memória daquela sacerdotisa revelou a Ghanima o que deveria ser feito.
Palimbasha e sua mulher eram apenas crianças teimosas e perigosas. Não sabiam de nada a respeito de Jowf e nem mesmo conheciam o nome do planeta onde Senanqueribe e a sacerdotisa haviam desaparecido na poeira. Aquilo que estava a ponto de acontecer ao par de conspiradores, se lhes fosse explicado, só o poderia ser em termos de início nesse lugar.
E término nele.
Rolando de lado, Ghanima soltou seu estojo Fremen e tirou o snorkel* de areia de seus prendedores. Desencapou o snorkel e removeu o longo filtro de seu interior. Agora, possuía um simples tubo aberto. Selecionou uma agulha no estojo de consertos, desembainhou a faca cristalina e inseriu a agulha no oco envenenado da ponta da faca, o local onde um dia se encaixara o nervo de um verme da areia.
Seu braço ferido tornava o trabalho difícil. Movimentou-se com cuidado, lentamente, em especial ao manusear a agulha envenenada, enquanto retirava um pacote de fibra de especiaria de sua câmara no estojo. A agulha encaixou-se bem na fibra, formando um míssil que entrou apertado no tubo do snorkel de areia.
Segurando a arma horizontalmente, Ghanima arrastou-se para mais perto da luz, movendo-se com lentidão para causar o mínimo de perturbação na alfafa.
Enquanto se movia, observava os insetos em torno da luz. Sim, havia mosquitos naquela nuvem tremulante que eram notórios apreciadores de sangue humano. O
dardo envenenado poderia passar despercebido, arrancado como se fosse um mosquito mordendo. Só restava uma decisão: qual dos dois pegar o homem ou a mulher?
“Muriz.” O nome surgiu espontaneamente em sua mente. Esse era o nome da mulher. Lembrou-se de coisas que diziam a respeito dela. Era uma daquelas que rodeavam Palimbasha como os insetos em volta da luz. Era uma fraca, facilmente dominada.
Muito bem. Palimbasha havia escolhido a companheira errada para essa noite.
Ghanima levou o tubo à boca, com a memória da sacerdotisa de Jowf bem clara em sua consciência, visou cuidadosamente e expeliu seu fôlego num forte sopro.
Palimbasha bateu com a mão no rosto, retirando-a com um ponto de sangue.
A agulha desaparecera, arrancada pelo movimento da própria mão.
A mulher disse alguma coisa reconfortante e Palimbasha riu. Enquanto ria, suas pernas começaram a ceder. Caiu de encontro à mulher, que tentou segurá-lo.
Ela ainda oscilava, tentando suportar o peso morto, quando Ghanima chegou ao seu lado e pressionou a ponta da faca cristalina, desembainhada, em sua cintura, dizendo de modo calmo:
— Não faça movimentos súbitos, Muriz. Minha faca está envenenada.
Pode largar Palimbasha agora. Ele está morto.
Em todas as grandes forças socializantes, você encontrara um movimento subjacente para a obtenção e manutenção do poder através do uso de palavras. Do feiticeiro ao sacerdote, deste ao burocrata, tudo permanece igual.
Uma população governada deve ser condicionada à aceitação de palavras de fora como coisas reais, confundindo o sistema simbólico com o universo tangível. Na manutenção de tal estrutura de poder, certos símbolos são mantidos fora da compreensão geral, símbolos tais como os que lidam com a man pulmão econômica ou os que definem a interpretação local do que ja é a saúde mental. Uma simbologia secreta, dessa forma, leva ao desenvolvimento de sub-linguagens fragmentadas, cada uma tendo um indício de que aqueles que a usam estão acumulando poder de alguma forma. Com essa visão do processo de poder, nossas Forças de Segurança Imperiais devem estar sempre alertas quanto à formação de sublinguagens.
- Palestra da Princesa Irulan na Escola de Guerra Arrakeen
— Talvez seja desnecessário avisar-lhes — disse Faradin. — Mas, para evitar quaisquer erros, digo que um mudo foi posicionado com ordens para matar os dois se eu mostrar algum indício de estar sucumbindo à feitiçaria.
Ele não esperava ver algum efeito produzido por essas palavras. Ambos, Lady Jessica e Duncan Idaho, corresponderam às suas expectativas.
Faradin escolhera com cuidado o local para esse primeiro exame do par, o velho Salão de Audiências de Shaddam. O que ele tinha de pequeno era compensado em equipamentos e mobília exótica. Lá fora era uma tarde de inverno, mas nessa sala sem janelas a iluminação simulava um eterno dia de verão, banhado à luz dourada de globos luminosos feitos com o mais puro cristal ixiano e dispostos com um toque de arte.
As notícias de Arrakis enchiam Faradin de tranquilo júbilo. Leto, o gêmeo do sexo masculino, fora morto, morto por um tigre assassino. Ghanima, a irmã sobrevivente, encontrava-se sob custódia da tia e era considerada refém. Um relatório completo esforçava-se por explicara presença de Idaho e Lady Jessica: santuário era o que eles buscavam. Espiões de Corrino relatavam uma instável trégua em Arrakis. Alia havia concordado em se submeter a um teste Chamado “Julgamento de Possessão”, cujo propósito não fora plenamente explicado.
Entretanto, nenhuma data fora marcada para esse teste e dois espiões de Corrino acreditavam que ele talvez nunca se realizasse. Uma coisa era certa, porém: tinha havido luta entre os Fremen do deserto e os Fremen Militares Imperiais, uma guerra civil malograda que levara o Governo a uma paralisação temporária. Os domínios de Stilgar eram agora campo neutro, estabelecido após uma troca de reféns, e Ghanima evidentemente fora considerada uma dessas reféns, embora o resultado das negociações permanecesse pouco claro.
Jessica e Idaho haviam sido trazidos a essa audiência seguramente amarrados em cadeiras suspensoras. Ambos eram contidos pelos fios finos e mortais do arame shiga, que cortaria a carne à menor resistência. Dois soldados Sardaukar os haviam trazido, verificado se estavam bem amarrados e partido.
O aviso fora realmente desnecessário. Jessica tinha visto o mudo armado diante de uma parede à sua direita, tendo à mão uma velha mas eficiente arma de projéteis. Ela permitiu que seu olhar vagueasse pelas incrustações exóticas da sala.
Folhas largas de um raro arbusto ferroso tinham sido decoradas com pérolas-olhos e interlaçadas para formarem o crescente central de um teto abobadado. O piso embaixo deles era formado por blocos alternados de madeira-diamante e concha kabuzu, arranjados dentro de molduras retangulares de osso passaquet. Estes haviam sido colocados sobre suas extremidades, cortados com laser e polidos.
Materiais duros selecionados decoravam as paredes com desenhos trançados que delineavam as quatro posições do símbolo do Leão reivindicado pelos descendentes do falecido Shaddam IV. Os leões eram executados em ouro.
Faradin decidira receber os prisioneiros de pé. Usava um uniforme composto de calção e blusão dourado, de seda elfo, aberto no pescoço. A única condecoração era o asterisco principesco da sua família real, usado no lado esquerdo do peito. Era acompanhado pelo Bashar Tvekanik, usando traje Sardaukar cor de bronze e botas espessas, mais uma trabalhada arma laser colocada num coldre frontal preso ao fecho do cinto. Tvekanik, cujo semblante carregado era conhecido de Jessica através dos relatórios da Bene Gesserit, ficou três passos à esquerda e um pouco atrás de Faradin.
Um único trono de madeira negra fora colocado diante da parede mais próxima, diretamente atrás dos dois.
— Agora disse Faradin, falando com Jessica, — tem alguma coisa a dizer?
— Eu perguntaria por que estamos amarrados assim? — disse Jessica indicando o shigafio.
— Apenas acabamos de receber relatórios de Arrakis capazes de explicar sua presença aqui. Talvez eu os liberte dentro em pouco. — Ele sorriu: — Se vocês... Interrompeu enquanto sua mãe entrava pelas grandes portas atrás dos cativos.
Wensicia passou apressada por Jessica e Idaho, sem olhar para os dois, mostrou um pequeno cubo-mensagem para Faradin e o ativou. Ele estudou a face brilhante, olhando para Jessica ocasionalmente e então de volta para o cubo. A face luminosa ficou escura e ele devolveu o cubo à mãe, indicando que ela deveria mostrá-lo a Tvekanik. Enquanto ela fazia isso, ele olhava carrancudo para Jessica.
Daí a pouco, Wensicia colocou-se à direita de Faradin, o cubo escuro na mão direita, parcialmente oculto numa dobra de seu vestido branco.
Jessica olhou para Idaho à sua direita, mas ele se recusava a encará-la.
— As Bene Gesserit s estão aborrecidas comigo — disse Faradin. —
Acreditam que sou responsável pela morte de seu neto.
Jessica manteve o rosto sem demonstrar emoção, pensando: “Então, a história de Ghanima deve ser aceita, a menos que...” Não gostava de suas suspeitas.
Idaho fechou os olhos, abrindo-os a fim de olhar para Jessica. Ela continuava a fitar Faradin. Idaho lhe havia contado a respeito de sua visão Rhajia, mas ela não parecera preocupar-se. Ele não sabia como catalogar a ausência de
emoções que ela demonstrava. Ela sabia de alguma coisa, obviamente, algo que não revelava.
— Esta é a situação — disse Faradin, e passou a explicar tudo que aprendera sobre os acontecimentos em Arrakis, sem omitir nada. E concluiu: Sua neta vive, mas se encontra sob custódia de Lady Alia. Isso deve deixá-la satisfeita.
— Você matou meu neto? — perguntou Jessica. Faradin respondeu com sinceridade:
— Eu não. Mas recentemente soube de uma trama que não foi elaborada por mim.
Jessica olhou para Wensicia, notando a expressão de regozijo naquele rosto em forma de coração, e pensou: “Ela o fez! A leoa conspira pelo filhote.” Esse era um jogo no qual a leoa podia viver para se arrepender.
Voltando sua atenção a Faradin, Jessica comentou:
— Mas a Irmandade acredita que você o matou.
Faradin olhou para a mãe.
— Mostre a ela. — Como Wensicia hesitasse, ele falou com um toque de fúria que Jessica anotou para uso futuro: — Eu disse para mostrar-lhe!
Com o rosto pálido, Wensicia apresentou a face do cubo com a mensagem, ativando-a. Palavras fluíram sobre a face, respondendo aos movimentos oculares de Jessica: “Conselho Bene Gesserit s 1.Yallacb IX apresenta protesto formal contra a Casa Corrino pelo assassinato de Leto Atreide, o Debate e apresentação de evidências são confiados à Comissão de Segurança Interna da Landsmad. Um campo neutro será escolhido e os nomes dos juizes, serão submetidos à aprovação de todas as partes. Resposta imediata exigida. Sabit Rekush pela Landrmad. “
Wensicia retornou para o lado de seu filho.
— Como pretende responder? — perguntou Jessica.
Wensicia disse:
— Desde que meu filho ainda não foi formalmente investido como soberano da Casa Corrino, eu irei... Aonde vai? — A última pergunta fora dirigida a Faradin que, enquanto ela falava, caminhara em direção à porta lateral, perto do vigia mudo.
Faradin parou, virando-se apenas parcialmente.
— Estou voltando para os meus livros e as outras atividades pelas quais tenho muito mais interesse.
— Como se atreve!? — exclamou Wensicia. Um rubor escuro propagou-se-lhe do pescoço até as faces.
— Eu me atreverei a fazer umas poucas coisas em meu próprio nome —
disse Faradin. — A senhora tomou decisões em meu nome, decisões que eu considerei extremamente desagradáveis. Ou eu tomo minhas próprias decisões de agora em diante ou então pode procurar outro herdeiro para a Casa Corrino!
Jessica olhou rapidamente para cada um dos participantes desse confronto, percebendo a verdadeira raiva de Faradin. O Auxiliar Bashar permanecia rígido em atenção, tentando aparentar que não ouvira nada. Wensicia hesitava, à beira de um ataque de fúria. Faradin parecia perfeitamente disposto a aceitar qualquer resultado
desse dado que jogara. Jessica admirou-lhe a postura, vendo muitas coisas nesse confronto que poderiam ser-lhe de valor. Parecia que a decisão de mandar tigres assassinos contra seus netos fora tomada sem o conhecimento de Faradin. Havia poucas dúvidas quanto à sua sinceridade quando dizia que soubera da trama depois de iniciada. Nenhuma dúvida restava quanto à raiva sincera em seus olhos, enquanto ele permanecia ali, pronto a aceitar qualquer decisão.
Wensicia respirou fundo, de modo estremecido, depois disse:
— Muito bem, a posse formal terá lugar amanhã. Você pode agir antecipadamente a partir de agora.
Olhou para Tvekanik, que se recusou a encará-la.
“Uma vez que mãe e filho saiam daqui, vai haver uma discussão aos gritos”, pensou Jessica. “Mas acredito que ele venceu.” Permitiu que seus pensamentos se voltassem para a mensagem da Landsraad. A Irmandade julgara suas mensageiras com uma habilidade que dava crédito ao planejamento Bene Gesserit. Escondida na notícia formal de protesto, havia uma mensagem para os olhos de Jessica. A mensagem em si indicava que as espias da Irmandade conheciam a situação de Jessica e haviam avaliado Faradin com soberba perspicácia, ao supor que ele iria mostrá-la à prisioneira.
— Gostaria de uma resposta à minha pergunta — disse Jessica, falando com Faradin, enquanto ele se voltava para ela.
— Direi à Landsraad que nada tive a ver com esse assassinato —
respondeu Faradin. — E acrescentarei que compartilho o desgosto da Irmandade pela maneira como foi feito, embora não possa ficar inteiramente insatisfeito com seus resultados. Minhas desculpas pelas tristezas que isso possa ter causado a vocês.
A sorte passa em toda parte.
“A sorte passa em toda parte”, pensou Jessica. Esse fora um ditado favorito do seu Duque, e havia algo nos modos de Faradin que revelavam que ele já sabia disso. Obrigou-se a ignorar a possibilidade de que ele houvesse realmente assassinado Leto. Tinha de presumir que os temores de Ghanima quanto a Leto tivessem motivado uma completa revelação do plano dos gêmeos. Os contrabandistas colocariam Gurney em posição de encontrar Leto, nesse caso, e os desejos da Irmandade seriam realizados. Leto teria de ser testado. Teria de ser. Sem o teste, estava condenado, como Alia o estava. E Ghanima... bem, isso podia ser encarado mais tarde. Não havia meio de enviar os pré-nascidos diante de uma Reverenda Madre Gaius Helen Mohiam.
Jessica respirou fundo.
— Cedo ou tarde — ela disse, — vai ocorrer a alguém que você e minha neta poderiam unir nossas duas Casas e curar velhas feridas.
— Isso já me foi mencionado como possibilidade — disse Faradin, olhando rapidamente para a mãe. — Minha resposta foi que preferia esperar o resultado dos recentes acontecimentos em Arrakis. Não há necessidade de uma decisão apressada.
— E há sempre a possibilidade de você já ter sido jogado nas mãos de minha filha — disse Jessica.
Faradin empertigou-se.
— Explique-se!
— As coisas em Arrakis não são aquilo que lhe podem parecer — revelou Jessica. — Minha filha joga seu próprio jogo, o jogo da Abominação. Minha neta encontra-se em perigo, a menos que Alia descubra um meio de usá-la.
— Espera que eu acredite que você e sua filha se opõem uma à outra? Que Atreides combate Atreides?
Jessica olhou para Wensicia e de volta para Faradin.
— Corrino combate Corrino.
Um sorriso maroto surgiu nos lábios de Faradin.
— Bem dito. Como eu teria sido colocado nas mãos de sua filha?
— Ao se tornar implicado na morte de meu neto, ao me raptar.
— Raptar?
— Não confie nessa bruxa — advertiu Wensicia.
— Eu escolherei em quem confiar, mãe — respondeu Faradin. — Perdoe-me, Lady Jessica, mas não entendo essa questão de rapto. Entendi que a senhora e seu fiel partidário...
— Que é marido de Alia... — disse Jessica.
Faradin voltou um olhar avaliador para Idaho, depois olhou para o Bashar.
— Que você acha, Tvek?
O Bashar aparentemente estava tendo pensamentos similares aos de Jessica. Ele disse:
— Gosto do raciocínio dela. Cuidado!
— Ele é um mentat-ghola — comentou Faradin. — Poderíamos testá-lo até a morte e não encontrar a resposta certa.
— Mas é seguro trabalhar na suposição de que possamos ter sido enganados — disse Tvek.
Jessica percebeu que chegara o momento de executar seu movimento nesse jogo. Se a mágoa de Idaho pudesse mantê-lo no papel que escolhera... Não gostava de usá-lo desse modo, mas havia prioridades maiores.
— Para começar — ela disse, — eu poderia anunciar publicamente que vim até aqui por minha própria escolha.
— Interessante — comentou Faradin.
— Você teria de confiar em mim conceder-me plena liberdade em Salusa Secundus. Não poderia haver aparência de eu ter falado sob coação.
— Não! — protestou Wensicia. Faradin a ignorou.
— Que motivo iria dar?
— Que sou a plenipotenciária da Irmandade enviada aqui para se encarregar de sua educação.
— Mas a Irmandade acusa...
— Isso exigiria uma ação decisiva de sua parte — explicou Jessica.
— Não confie nela — alertou Wensicia.
Com extrema polidez, Faradin olhou para a mãe e disse:
— Se me interromper uma vez mais, farei com que Tvek a retire daqui. Ele ouviu seu consentimento para minha posse formal. Isso volta sua lealdade para mim agora.
— Ela é uma bruxa, eu lhe digo! — E Wensicia olhou para o mudo junto da parede.
Faradin hesitou e então perguntou:
— Tvek, o que você acha? Terei sido enfeitiçado?
— Não em minha opinião. Ela...
— Os dois foram enfeitiçados!
— Mãe! — O tom de voz dele era calmo e decisivo. Wensicia comprimiu as mãos, tentou falar, depois se virou e saiu apressadamente da sala.
Dirigindo-se mais uma vez a Jessica, Faradin perguntou:
— E as Bene Gesserit s consentiriam nisso?
— Sim.
Faradin absorveu as implicações de tudo e sorriu amarelo.
— Qual é o lucro da Irmandade em tudo isso?
— Seu casamento com minha neta.
Idaho lançou um olhar indagador para Jessica, parecendo que ia dizer alguma coisa, mas permaneceu em silêncio. Jessica perguntou:
— Ia dizer alguma coisa, Duncan?
— Eu ia dizer que as Bene Gesserit s querem o que sempre desejaram: um universo que não interfira com elas.
— Conclusão óbvia — comentou Faradin. — Não consigo perceber por que declarou isso.
As sobrancelhas de Idaho se ergueram, fazendo o gesto que seus ombros não podiam, tolhidos pelo shigafio. Ele sorriu de modo desconcertante.
Faradin, notando o sorriso, voltou-se para confrontar Idaho.
— Eu o divirto?
— Toda esta situação me diverte. Alguém de sua família comprometeu a Corporação Espacial ao usá-la para transportar para Arrakis, instrumentos destinados ao assassinato, instrumentos cujo propósito não poderia ter sido oculto.
Vocês ofenderam a Bene Gesserit ao matar um ser humano do sexo masculino que elas queriam para seu programa de pro...
— Está me Chamando de mentiroso, ghola?
— Não, acredito que não sabia a respeito da trama. Mas pensei que a situação devia ser definida.
— Não se esqueça de que ele é um mentat — advertiu Jessica.
— Estava pensando nisso — respondeu Faradin. Uma vez mais, encarou Jessica. — Digamos que eu a liberte e faça sua declaração. Isso ainda deixaria de fora a questão da morte de seu neto. O mentat está certo.
— Foi sua mãe? — perguntou Jessica.
— Meu Senhor! — advertiu Tvekanik.
— Tudo bem, Tvek — acenou Faradin. — E se eu disser que foi minha mãe?
Arriscando tudo ao testar essa divisão interna entre os Corrino, Jessica disse:
— Deve denunciá-la e bani-la.
— Meu Senhor disse Tyekanik, pode haver truques dentro de truques nisso tudo.
Idaho disse:
— E Lady Jessica e eu somos aqueles que serão enganados.
Os músculos do queixo de Faradin se contraíram.
Jessica pensou: “Não interfira, Duncan! Agora não!” Mas as palavras de Idaho haviam colocado em ação suas próprias capacidades de Bene Gesserit.
Ele a chocara. Começou a se indagar se haveria a possibilidade de que estivesse sendo usada de um modo que não pudesse compreender. Ghanima e Leto... Os pré-nascidos poderiam recorrer a incontáveis experiências, um repositório de conselhos muito mais extenso do que qualquer Bene Gesserit viva poderia usar. E havia outra pergunta. Sua própria Irmandade teria sido inteiramente sincera com ela? Elas ainda podiam desconfiar.
Afinal, ela as havia traído uma vez... com seu Duque.
Faradin olhou para Idaho com uma expressão intrigada.
— Mentat, preciso saber o que representa esse Pregador para você.
— Ele arranjou a passagem até aqui... Não trocamos 10 palavras. Outros agiram por ele. Ele poderia ser... Ele poderia ser Paul Atieides, mas não tenho informação suficiente para ter certeza. Tudo que sei com certeza é que era hora de partir e ele possuía os meios de transporte.
— Você falou em ser enganado — lembrou-lhe Faradin.
— Alia espera que você nos mate silenciosamente e oculte todas as evidências. Após livrá-la de Lady Jessica, não lhe sou mais útil. E Lady Jessica, tendo servido aos propósitos de sua Irmandade, não lhe é mais útil. Alia vai Chamar as Bene Gesserit s para prestar contas, mas elas vão vencer.
Jessica fechou os olhos em concentração. Ele estava certo! Podia ouvir a firmeza mentat em sua voz, aquela profunda sinceridade em seu pronunciamento.
O padrão caiu em seu lugar sem um tinido. Ela respirou fundo duas vezes e ativou o transe mnemónico, passando os dados por sua mente. Saiu do transe e abriu os olhos. Tudo acontecera enquanto Faradin caminhava de sua posição diante dela para ficar a meio passo de Idaho.
Uma distância de não mais que três passos.
— Não diga mais nada, Duncan — disse Jessica, lembrando-se tristemente de como Leto a avisara do condicionamento Bene Gesserit.
Idaho, a ponto de falar, fechou a boca.
— Eu dou as ordens aqui — disse Faradin. — Continue, mentat. Idaho permaneceu em silêncio.
Faradin virou-se para observar Jessica.
Ela olhava para um ponto distante na parede, revendo o que Idaho e o transe haviam montado: as Bene Gesserit s não abandonaram a linhagem Atreides, era
claro. Mas elas queriam o controle de um Kwisatz Haderach e haviam investido demasiado num longo programa de procriação selecionada.
Desejavam um choque aberto entre os Atreides e os Corrino, situação em que poderiam entrar como juizes. E Duncan estava certo. Elas sairiam com o controle de ambos, Ghanima e Faradin. Era o único compromisso possível.
Era de admirar que Alia não tivesse percebido isso. Jessica engoliu, sentindo um aperto na garganta. Alia... a Abominação! Ghanima tinha razão em ter pena dela. Mas quem restaria para ter pena de Ghanima?
— A Irmandade prometeu colocar você no trono, com Ghanima como sua mulher disse Jessica.
Faradin deu um passo para trás. A bruxa seria capaz de ler as mentes?
— Elas trabalharam em segredo e não através de sua mãe — continuou Jessica. — Contaram-lhe que eu não estava a par do plano delas.
Jessica percebeu a compreensão no rosto de Faradin. Quão acessível ele era. Mas era verdade, a coisa toda. Idaho tinha demonstrado uma capacidade de mestre como mentat ao enxergar através da trama com os dados limitados de que dispunha.
— Assim, elas fizeram jogo duplo com a senhora — comentou Faradin.
— Elas não me disseram nada a respeito disso. Duncan está certo. Me enganaram. — Ela assentiu para si mesma.
Fora uma clássica ação retardada no padrão tradicional da Irmandade.
Uma história razoável, facilmente aceita por se enquadrar naquilo que se poderia imaginar como sendo os motivos delas. Mas elas queriam Jessica fora do caminho.
Uma irmã imperfeita que já fracassara diante delas uma vez.
Tvekanik ficou ao lado de Faradin.
— Meu Senhor, esses dois são perigosos demais para...
— Espere um pouco, Tvek. Existem engrenagens dentro de engrenagens aqui. — Ele encarou Jessica. — Temos razões para acreditar que Alia pode oferecer-se como minha noiva.
Idaho teve um sobressalto involuntário, mas se controlou. O sangue começou a gotejar de seu pulso esquerdo, cortado pelo shigafio.
Jessica permitiu-se uma pequena resposta, um arregalar dos olhos. Ela, que conhecera o Leto original como amante, pai de seus filhos, confidente e amigo, via seus traços de frio raciocínio filtrando-se agora através da perversidade de uma Abominação.
— E vai aceitar? — perguntou Idaho.
— Está sendo considerado.
— Duncan, eu lhe disse para ficar quieto — disse Jessica, e falou com Faradin: — O preço dela eram duas mortes inconsequentes. Nós dois.
— Nós suspeitamos de traição — disse Faradin. — Não foi o seu filho que disse que “traição gera traição”?
— A Irmandade quer controlar ambas as Casas. Atreides e Corrino. Não é óbvio?
— Estamos considerando agora a idéia de aceitar sua oferta, Lady Jessica.
— Mas Duncan Idaho teria de ser mandado de volta para sua amorosa esposa.
“A dor é uma função dos nervos”, lembrou-se Idaho. “A dor vem como a luz chega aos olhos. A força vem dos músculos, não dos nervos.” Era um antigo exercício mentat, e ele o completou no espaço de uma respiração, flexionou o pulso direito e cortou uma artéria no shigafio.
Tvekanik saltou para a cadeira, acionando seu fecho para soltar as ligaduras e gritando por ajuda médica. Foi revelador que assistentes enxameassem pela sala, vindos de portas ocultas pelos painéis da parede.
“Houve sempre um bocado de insensatez em Duncan”, pensou Jessica.
Faradin observou Jessica por um momento, enquanto os médicos tratavam de Idaho.
— Eu não disse que ia aceitar sua Alia.
— Não foi por isso que ele cortou o pulso.
— Oh? Pensei que ele estivesse simplesmente se matando.
— Você não é tão estúpido. Pare de fingir comigo disse Jessica.
Ele sorriu.
— Eu estou bem ciente de que Alia me destruiria. Nem mesmo a Bene Gesserit pode esperar que eu a aceite.
Jessica lançou um olhar avaliador para Faradin. Quem era esse jovem rebento da Casa Corrino? Ele não era bom em bancar o tolo. Novamente, lembrou-se das palavras de Leto de que ela encontraria um aluno interessante. E o Pregador também desejava que isso acontecesse, assim dissera Idaho. Desejou ter podido encontrar esse Pregador.
— Vai banir Wensicia?
— Parece uma troca razoável — respondeu ele.
Jessica olhou para Idaho. Os médicos haviam terminado, e amarras menos perigosas o mantinham na cadeira flutuadora.
— Os mentats deviam acautelar-se com absolutos — ela disse. — Eu estou cansado — respondeu Idaho. — Não faz idéia de como estou cansado.
— Quando é superexplorada, até mesmo a lealdade acaba se gastando disse Faradin.
Novamente Jessica lhe dirigiu aquele olhar avaliador.
Percebendo-o, Faradin pensou: “Em algum tempo, ela me conhecerá com certeza, e isso poderá ser valioso. Minha própria Bene Gesserit renegada! Essa é uma coisa que o filho dela teve e que eu não tenho. Deixe que ela tenha apenas um vislumbre de mim agora. Poderá ver o resto depois.”
— Uma troca razoável — repetiu Faradin. — Aceito a oferta em seus termos.
Sinalizou para o mudo diante da parede com um complexo tremular dos dedos. O mudo acenou. Faradin curvouse para os controles da cadeira e soltou Jessica.
Tvekanik indagou:
— Tem certeza, Meu Senhor?
— Não foi o que discutimos?
— Sim, mas...
Faradin riu subitamente, dirigindo-se a Jessica:
— Tvek suspeita de minhas fontes. Mas com livros e fitas só se aprende que certas coisas podem ser feitas. O verdadeiro aprendizado exige que a pessoa faça essas coisas.
Jessica meditou a respeito disso enquanto se levantava da cadeira. Sua mente retornou aos sinais que Faradin fizera com as mãos. Ele tinha uma linguagem de batalha ao estilo Atreides! Isso revelava uma análise cuidadosa.
Alguém ali estava conscientemente copiando os Atreides.
— É claro — respondeu Jessica. — Você quer que eu lhe ensine do modo como as Bene Gesserit s são ensinadas.
Faradin sorriu para ela.
— Uma oferta a que não posso resistir — ele disse.
Como vê, foi onde consegui este anel em forma de tartaruga. Estava no suk fora da cidade, onde tinha ido escondido pelos rebeldes. A senha? Oh, ela já foi mudada muitas vezes desde então. Era “Persistência”. E a contra-senha era “Tartaruga”. Foi o que me tirou de lá vivo. Foi por isso que comprei este anel, é uma lembrança.
- Tagir Mohandis: Conversas com um Amigo
Leto estava bem longe na areia quando ouviu o verme atrás dele, dirigindo-se ao batedor que ele deixara e ao pó de especiaria que espalhara em torno dos tigres mortos. Esse era um bom presságio para o começo de seu plano: os vermes eram muito escassos nessas regiões durante a maioria das estações. Não era essencial, mas ajudava. Não haveria necessidade de Ghanima explicar a falta de um corpo.
A essa altura, ele já sabia que Ghanima devia ter se condicionado à crença de que ele estava morto. Somente uma minúscula e isolada cápsula de consciência permaneceria nela, uma memória bloqueada que poderia ser reativada por palavras pronunciadas num idioma antiquíssimo, compartilhado apenas por eles dois em todo esse universo. “Secher Nbiw.” Se ela ouvisse estas palavras: “Caminho Dourado”... somente aí se lembraria dele. Até então estaria morto.
Agora Leto sentia-se completamente só.
Caminhava num passo descontínuo que produzia apenas os sons naturais ao deserto. Nada em sua passagem revelaria ao verme lá atrás que havia carne humana se mexendo por ali. Era um modo de caminhar tão profundamente condicionado que Leto nem precisava pensar a respeito. Os pés se moviam por si
mesmos, nenhum ritmo mensurável em seus passos. Qualquer som que pudessem fazer seria atribuído ao vento, à gravidade. Nenhum ser humano passara por ali.
Quando o verme terminou seu trabalho, lá atrás, Leto agachou-se atrás da face escorregadia de uma duna e olhou na direção do Criado. Sim, já estava bem longe. Plantou um batedor e chamou seu transporte. O verme veio rapidamente, quase sem lhe dar tempo para se posicionar antes de engolfar o batedor. Enquanto ele passava, Leto subiu em seu dorso com os ganchos de Produtor, abrindo a sensível borda anterior do anel e fazendo a fera irracional voltar-se na direção sudeste. Era um verme pequeno, mas forte. Leto podia sentir-lhe a força em seu ondular, enquanto ele assoviava através das dunas. Havia uma brisa vinda de trás e ele sentia o calor da passagem do verme, a fricção que a criatura convertia no princípio da especiaria dentro de si mesma.
Enquanto o verme se movia, a mente de Leto também se movia. Stilgar o conduzira em seu primeiro passeio de verme. Leto só precisava deixar a memória fluir para ouvir a voz de Stilgar: calma, precisa, cheia da polidez de uma outra era.
Não era para Stilgar o titubear ameaçador de um Fremen embriagado pela aguardente de especiaria. Não eram para Stilgar a voz alta e as fanfarronices desses novos tempos. Não, Stilgar tinha seus deveres. Era um instrutor da realeza:
— Nos velhos tempos, os pássaros eram conhecidos pelo seu canto. E
cada vento tinha o seu nome. O vento de seis cliques era Chamado de Pastaza, o vento de 20 cliques era o Cueshma e o de 100 cliques, o Heinali-Heinali, o arrastador de homens. E havia também o vento do demônio no deserto aberto: o Hula-sikau Wala, o vento que come a carne.
E Leto, que já conhecia essas coisas, acenava de gratidão ante a sabedoria da instrução recebida.
Mas a voz de Stilgar carregava-se de muitas coisas valiosas.
— Nos tempos mais antigos, havia certas tribos cujos membros eram conhecidos como caçadores de água. Eles se chamavam Iduau, que significa
“insetos da água”, pois não hesitavam em roubar a água de outros Fremen. Se eles o apanhassem sozinho no deserto, não lhe deixariam nem mesmo a água da carne.
E havia esse lugar onde eles viviam: o Sietch Jacurutu. Foi onde as outras tribos se reuniram para exterminar os Iduau. Isso foi muito tempo atrás, antes mesmo de Kynes. Nos dias do avô de meu bisavô. E, daqueles dias até hoje, nenhum Fremen foi a Jacurutu. É tabu.
Assim Leto fora lembrado de conhecimentos que já se encontravam em sua memória. Fora uma lição muito importante a respeito do funcionamento da memória. Uma memória não era o bastante, mesmo para alguém cujo passado fosse tão multiforme quanto o dele, a menos que seu uso fosse conhecido e seu valor revelado para julgamento. Jacurutu devia ter água, uma armadilha de vento, todos os atributos de um sietch Fremen, mais o valor incomparável de que nenhum Fremen se aventuraria por lá. Muitos dos jovens nem mesmo saberiam que existira um lugar como Jacurutu. Oh, eles saberiam a respeito de Fondak, é claro, mas esse era um refúgio de contrabandistas.
Era o lugar perfeito para os mortos se esconderem. Entre os contrabandistas e os mortos de uma outra época.
“Obrigado, Stilgar.”
O verme cansou-se antes da aurora. Leto escorregou de seu dorso e observou a criatura enterrar-se nas dunas, movendo-se lentamente, segundo seu padrão familiar. Ele mergulharia bem para o fundo e ficaria amuado.
Devo descansar durante o dia pensou ele.
Ficou no topo de uma duna e observou à sua volta. Vazio, vazio e vazio.
Apenas a trilha ondulante do verme que desaparecera quebrava esse padrão.
O lento grito de um pássaro noturno desafiou a primeira banda de luz verde ao longo do horizonte leste. Leto escavou um abrigo na areia, inflando uma tenda destiladora em torno de seu corpo enterrado e enviando a ponta de um snorkel de areia para buscar o ar.
Por longo tempo, antes que o sono viesse, Leto ficou quieto na escuridão forçada, pensando a respeito da decisão que ele e Ghanima haviam tomado.
Não fora uma decisão fácil, principalmente para Ghanima. Ele não lhe contara toda a sua visão, nem todo o raciocínio que dela derivara. Era uma visão, não um sonho, agora em seu pensamento. Mas a peculiaridade dessa coisa era que ele a via como a visão de uma visão. E se existia algum argumento para convencê-lo de que seu pai ainda era vivo, este se encontrava nessa, visão-visão.
“A vida do profeta prende-se à sua visão”, pensou Leto. “E um profeta só pode separar-se da visão criando sua morte em divergência com essa visão.” Assim era como apareceria na dupla visão de Leto, e ele ponderava a respeito disso, na medida em que se relacionava com a escolha que havia feito. “Pobre João Batista”, pensou. “Se ao menos tivesse tido a coragem de morrer de algum outro modo...
Mas talvez sua escolha tivesse sido a mais corajosa de todas. Como saberei que alternativas havia para ele? Só conheço as alternativas que se colocaram para o meu pai.”
Leto suspirou. Voltar as costas para o pai era como atraiçoar um deus.
Mas o Império Atreides precisava ser sacudido, havia caído no pior da visão de Paul. Com que descuido ele esquecera os homens. Fora feito sem pensar.
A mola mestra de uma insanidade religiosa fora enrolada e deixada a tiquetaquear.
“E nós estamos presos à visão de meu pai.”
Uma fuga àquela loucura encontrava-se ao longo do Caminho Dourado, Leto bem o sabia. Seu pai o tinha visto. Mas a humanidade poderia sair daquele Caminho Dourado e olhar para trás, em direção ao tempo do Muad'Dib, vendo-o como uma época melhor. A humanidade precisava experimentar a alternativa ao Muad'Dib, contudo, ou nunca entenderia seus próprios mitos.
“Segurança... paz... prosperidade...”
Se lhes fosse dada a opção, havia poucas dúvidas quanto ao que a maioria dos cidadãos desse Império escolheria.
“Embora eles me odeiem”, pensou. “Embora Ghanima me odeie.”
Sua mão direita coçava, e ele pensou na terrível luva em sua visão-visão.
“É como vai ser”, pensou. “Sim, é como vai ser.”
“Arrakis, dê-me forças”, rezou Leto. Seu planeta permanecia forte e vivo abaixo dele e à sua volta. A areia fazia pressão sobre a tenda-destiladora.
Duna era um gigante contando suas riquezas acumuladas. Era uma entidade enganadora, ao mesmo tempo bela e grosseiramente feia. A única moeda que seus mercadores conheciam realmente era o pulso de seu próprio poder, não importando como esse poder pudesse ter sido adquirido.
Eles possuíam o planeta tal como um homem poderia possuir uma mulher aprisionada, ou do modo como as Bene Gesserit s possuíam suas irmãs.
Não era de admirar que Stilgar odiasse os sacerdotes-mercadores.
“Obrigado, Stilgar.”
Leto relembrou então a beleza dos velhos modos do sietch, a existência vivida antes da chegada da tecnocracia do Império, e sua mente fluiu como ele sabia que fluíam os sonhos de Stilgar. Antes dos globos luminosos e dos lasers, antes dos omitópteros e dos tratores de especiaria, houvera outro tipo de vida: com mães de pele bronzeada e bebês nos quadris, lâmpadas que queimavam óleo de especiaria em meio a uma forte fragrância de canela.
Naib s que persuadiam seu povo, sabendo que ninguém poderia ser forçado a coisa alguma. Fora um enxamear de vida em buracos feitos nas rochas.
“Uma luva terrível vai restaurar o equilíbrio”, pensou Leto.
E daí a pouco dormiu.
Eu vi o seu sangue e um pedaço do manto que fora rasgado por garras afiadas. Sua irmã relata vividamente os tigres e a certeza de seu ataque.
Nós interrogamos um dos conspiradores e os outros estão mortos ou sob custódia. Tudo a ponta para uma trama dos Corrino. Uma Reveladora da Verdade atestou esse testemunho.
- Relatório de Stilgar à Comissão da Landsraad Faradin observava Duncan Idaho através do circuito de espionagem, buscando um indício que explicasse o estranho comportamento daquele homem.
Passava pouco do meio-dia e Idaho aguardava fora dos aposentos destinados a Lady Jessica, esperando ter uma audiência com ela. Ela iria consentir em vê-lo?
Saberia que estavam sendo espionados, é claro. Mas iria concordar em vê-lo?
Faradin encontrava-se na sala de onde Tvekanik guiara o treinamento dos tigres Laza. Uma sala ilegal, na verdade, cheia como estava de instrumentos proibidos, produzidos pelas mãos dos Tleilaxu e dos ixianos.
Com um movimento dos botões à sua direita, Faradin poderia olhar para Idaho de seis ângulos diferentes, ou passar para o interior da suíte de Lady Jessica, onde os aparelhos de espionagem eram igualmente sofisticados.
Os olhos de Idaho incomodavam Faradin. Aquelas bolas de metal perfurado que os Tleilaxu haviam fornecido a seu ghola nos tanques de regeneração
marcavam seu possuidor como profundamente diferente dos outros seres humanos. Faradin tocou nas próprias pálpebras, sentindo as superfícies duras das lentes de contato permanentes, que escondiam o azul total do vício da especiaria.
Os olhos de Idaho deviam registrar um universo diferente. Como poderia ser de outro modo? Faradin quase ficou tentado a procurar os cirurgiões Tleilaxu e obter essa resposta por si mesmo.
“Por que Idaho tentou se matar?”
“Teria sido isso realmente o que ele tentou? Devia saber que não permitiríamos.”
“Idaho permanece um perigoso ponto de interrogação.”
Tvekanik desejava mantê-lo em Salusa ou matá-lo. Talvez isso fosse melhor.
Faradin mudou para uma visão frontal. Idaho sentava-se num banco duro ao lado da porta que dava para a suíte de Lady Jessica. Era um vestíbulo sem janelas, com paredes de madeira leve decoradas com flâmulas em lanças.
Idaho já se encontrava naquele banco há uma hora, e parecia disposto a esperar para sempre. Faradin inclinou-se para junto da tela. O leal mestre espadachim dos Atreides, instrutor de Paul Muad'Dib, fora tratado gentilmente durante o tempo que vivera em Arrakis. Ele chegara com uma elasticidade juvenil em seu andar. Uma contínua dieta de especiaria devia tê-lo ajudado, é claro. E
aquele maravilhoso equilibrio metabólico que os tanques dos Tleilaxu sempre conferiam. Será que Idaho realmente se lembrava de seu passado antes dos tanques? Nenhum outro a quem os Tleilaxu houvessem revivido poderia afirmar isso. Que enigma era esse Idaho!
Os relatórios sobre sua morte encontravam-se na biblioteca. O Sardaukar que o abatera relatara sua destreza: 19 dos seus liquidados por Idaho antes que este tombasse. Dezenove Sardaukar! Sua carne bem que valia ser mandada para os tanques de regeneração. Mas os Tleilaxu haviam feito dele um mentat. Que estranha criatura viveria naquela carne regenerada... Como ele se sentiria sendo um computador humano, em acréscimo a todos os seus outros talentos?
“Por que ele tentou se matar?”
Faradin conhecia seus próprios talentos e tinha poucas ilusões a respeito deles. Era um historiador-arqueólogo e um juiz de homens. A necessidade o forçara a se tornar um conhecedor daqueles que o serviam a necessidade e um estudo cuidadoso dos Atreides. Ele via isso como um preço sempre cobrado à aristocracia. Governar exige julgamentos precisos e incisivos por parte daqueles que lidam com o poder. Mais de um governante caiu devido aos erros e excessos de seus subordinados.
Um estudo cuidadoso dos Atreides revelava um talento soberbo na escolha dos servos. Eles sabiam como manter a lealdade, como manter afiado o ardor de seus guerreiros.
Idaho não estava agindo de acordo.
“Por quê?”
Faradin estreitou as pálpebras, tentando enxergar através da pele daquele homem. Havia um toque de permanência em Idaho, um sentimento de que ele não poderia ser desgastado. Ele dava a impressão de ser fechado, num todo organizado e firmemente integrado. Os tanques dos Tleilaxu haviam colocado em movimento alguma coisa mais que humana, Faradin o sentia.
Havia um movimento auto-renovável naquele homem, como se ele agisse de acordo com leis imutáveis, recomeçando após cada final. Ele movia-se numa órbita fixa com a persistência de um planeta girando em torno de uma estrela. Ele responderia à pressão sem se quebrar apenas mudando ligeiramente sua órbita, sem contudo alterar qualquer coisa que fosse básica.
“Por que ele cortou o pulso?”
Qualquer que fosse o motivo, ele o fizera pela Casa Atreides, pela Casa que o governava. Os Atreides eram a estrela de sua órbita.
“De algum modo ele acredita que o fato de eu manter Lady Jessica aqui irá fortalecer os Atreides.”
E Faradin logo lembrou a si mesmo: “Um mentat pensa assim.” Isso dava a tal pensamento uma profundidade extra. Os mentats cometiam enganos, mas não com muita frequência.
Tendo chegado a essa conclusão, Faradin quase convocou seus auxiliares para que mandassem embora Lady Jessica com Idaho. Esteve a ponto de agir, e então recuou.
Todos os dois o mentat-ghola e a bruxa Bene Gesserit permaneciam fichas de domínio desconhecido nesse jogo do poder. Idaho devia ser mandado de volta porque isso certamente agitaria os problemas em Arrakis. Jessica devia ser mantida ali, drenada em seus estranhos conhecimentos, para benefício da Casa Corrino.