Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 4 de 8 · parte 1/2

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Os Filhos de Duna

— Minha Senhora, ocorreu-me que pode não…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

— Minha Senhora, ocorreu-me que pode não ter ouvido ainda a respeito da última proeza do Pregador.

— Recebo relatórios diários de tudo o que acontece aqui — respondeu Jessica, pensando: “Deixe-o contar isso a Alia.”

Javid sorriu.

— Então sabe que ele insulta sua família. Na noite passada, ele pregou nos subúrbios do sul e ninguém se atreveu a tocá-lo. Sabe por quê, é claro.

— Porque pensam que ele é o meu filho que retorna — respondeu Jessica com voz entediada.

— Essa questão ainda não foi colocada ao mentat Idaho — lembrou Javid.

— Talvez isso devesse ser feito, resolvendo-se a questão.

Jessica pensou: “Esse é um que não conhece verdadeiramente as limitações de um mentat, embora se atreva a colocar chifres num deles... pelo menos em seus sonhos, senão na vida real.”

— Os mentats compartilham as falibilidades daqueles que os empregam

— ela disse. — A mente humana, assim como a mente de qualquer animal, é um ressonador. Ela responde às ressonâncias do ambiente. Um mentat aprende a estender sua consciência através de muitos laços paralelos de casualidade, e a prosseguir, de acordo com esses laços, em busca das longas correntes de consequências. — “Deixe-o digerir isso.”

— Esse Pregador não a perturba, então? — indagou Javid, a voz subitamente formal e solene.

— Eu o vejo como um sinal saudável — respondeu Jessica. — Não quero que seja incomodado.

Evidentemente, Javid não esperava essa resposta brusca. Tentou sorrir, não conseguiu, então disse:

— O Conselho governante da Igreja que endeusa o seu filho se curvará aos seus desejos, é claro, se assim insistir. Mas certamente alguma explicação...

— Talvez preferisse que eu explicasse como eu me encaixo em seus esquemas — ela disse.

Javid olhou para ela de modo crítico.

— Madame, não vejo razão lógica para sua recusa em denunciar esse Pregador.

— Ele não pode ser seu filho.

— Eu faço um pedido razoável: denuncie-o!

“Isso foi arranjado”, pensou Jessica. “Alia o mandou fazer isso.” E disse:

— Não!

— Mas ele desonra o nome de seu filho! Prega coisas abomináveis, grita contra sua sagrada filha, incita a população contra nós. Quando lhe perguntaram, ele disse que até mesmo a senhora possuía a natureza da maldade e que seu...

— Chega dessa tolice! — disse Jessica. — Diga a Alia que eu me recuso.

Não ouvi outra coisa senão estórias sobre esse Pregador desde que voltei. Ele me deixa entediada.

— Será que a deixa entediada, Madame, saber que em seus últimos insultos ele disse que a senhora não se voltará contra ele? E agora, evidentemente...

— Má como sou, ainda assim não o denuncio.

— Isso não é assunto para brincadeiras, Madame!

Jessica acenou para que ele fosse embora.

— Fora! — Falou com tal veemência que outros ouviram, o que o forçou a obedecer.

Seus olhos brilharam de raiva, mas ele conseguiu fazer uma rígida mesura e retornou à sua posição junto da porta.

Essa discussão encaixava-se perfeitamente nas observações que Jessica já fizera. Quando falava em Alia, a voz de Javid traía os meios tons roucos de um amante. Não havia engano nisso. Os boatos, sem dúvida, eram verdadeiros. Alia

permitira que sua vida degenerasse de modo terrível e, ao observar isso, Jessica começou a nutrir a suspeita de que a moça era uma participante voluntária no processo da Abominação. Seria isso o resultado de uma vontade perversa de autodestruição? Pois decerto Alia estava trabalhando para destruir a si mesma, juntamente com a base de poder que se nutria dos ensinamentos de seu irmão.

Débeis indícios de inquietação começaram a se tornar evidentes na ante-sala. Os aficionados desse lugar percebiam quando Alia se demorava e agora todos tinham ouvido a respeito do veemente repúdio de Jessica ao favorito de Alia.

Jessica suspirou. Sentia que seu corpo havia caminhado para o interior desse lugar com a alma se arrastando atrás. Os movimentos entre os cortesãos eram tão transparentes! A busca de pessoas importantes era uma dança que lembrava o vento batendo num campo de talos de cereais. Os refinados habitantes do lugar franziam as sobrancelhas e concediam enigmáticos números de importância a cada um de seus companheiros.

Obviamente, sua repulsa a Javid o ferira, poucos falavam com ele agora.

Mas os outros! Seus olhos treinados podiam ler os números de classificação nos satélites que serviam os poderosos.

“Eles não me cercam porque sou perigosa”, pensou. “Tenho o cheiro de alguém que Alia teme.”

Jessica olhou à sua volta, vendo os olhares desviarem-se. Era uma gente tão fútil que ela se surpreendeu desejando gritar contra suas justificativas já prontas para suas vidas sem sentido. Oh, se ao menos o Pregador pudesse ver essa sala tal como ela aparecia agora!

Fragmentos de uma conversa próxima chamaram-lhe a atenção. Um sacerdote alto e esguio dirigia-se à sua rodinha de acompanhantes, obviamente suplicantes que haviam ido ali sob seus auspícios.

— Frequentemente devo dizer o oposto daquilo que penso — ele dizia. —

Isso se chama diplomacia.

A risada resultante foi muito alta, e muito rapidamente silenciada.

Pessoas do grupo perceberam que Jessica tinha ouvido.

“Meu Duque teria enviado esse sujeito para o buraco mais distante que houvesse!”, pensou Jessica. “Eu voltei bem na hora.”

Sabia agora que tinha vivido na distante Caladan numa cápsula de isolamento que só permitira a penetração dos mais gritantes excessos de Alia.

“Contribuí para minha própria existência sonhadora”, pensou.

Caladan lhe oferecera algo como o isolamento proporcionado por uma verdadeira fragata de primeira classe, viajando segura dentro do porão de um heighliner da Corporação. Somente as manobras mais violentas podiam ser sentidas, e assim mesmo como meros movimentos suavizados.

“Como seduz viver em paz”, pensou.

Quanto mais via a corte de Alia, mais afinidade sentia pelas palavras relatadas como tendo partido do Pregador cego. Sim, Paul teria dito tais palavras se visse em que se tornara seu reino. E Jessica se perguntava o que Gurney teria descoberto entre os contrabandistas.

Percebeu que sua primeira reação a Arrakeen fora correta. Naquele primeiro passeio pela cidade, em companhia de Javid, sua atenção fora despertada pelas cercas blindadas em torno das residências, os caminhos e passagens fortemente guardados, os vigias pacientes em cada esquina, os muros altos e os subterrâneos profundos revelados pelas amplas fundações.

Arrakeen deixara de ser um lugar generoso para se tornar fechado, desmedido e farisaico em seus duros contornos.

De repente, a pequena porta lateral da ante-sala se abriu. Uma vanguarda de sacerdotisas amazonas espalhou-se pela sala, com Alia atrás delas, arrogante e com uma consciência restrita pelo poder real e terrível. O rosto de Alia estava tranquilo, sem qualquer emoção a se revelar quando seu olhar encontrou o da mãe.

Mas ambas sabiam que a batalha havia começado.

A uma ordem de Javid, as gigantescas portas que davam para o grande Salão começaram a se abrir, movendo-se com a silenciosa e inevitável impressão de energias ocultas.

Alia veio para junto da mãe enquanto os guardas as envolviam.

— Devemos entrar agora, mamãe?

— Não há tempo a perder — respondeu Jessica. E pensou, vendo a satisfação maligna nos olhos de Alia: “Ela acha que pode me destruir e permanecer incólume! Está louca!”

Jessica se perguntava se não fora isso que Idaho quisera dizer. Ele enviara uma mensagem, mas ela fora incapaz de responder. Era muito enigmática: “Perigo.

Preciso vê-la. Fora escrita numa variante do velho idioma Chakobsa, onde uma palavra em especial, escolhida para denotar perigo, significava conspiração.

“Irei vê-lo imediatamente, assim que retornar a Tabr”, pensou ela.

Esta é a falácia do poder, no final das contas, ele só é efetivo num universo absoluto e limitado. Mas a lição básica de nosso universo relativística é que as coisas mudam. Qualquer poder deve sempre encontrar no final um poder maior. Paul Muad'Dib ensinou essa lição aos Sardaukar nas planícies de Arrakeen. Seus descendentes ainda deverão aprender essa lição por si mesmos.

- O Pregador em Arrakeen

O primeiro suplicante na audiência matinal era um trovador kadeshiano, um peregrino do Hajj cuja bolsa fora esvaziada por mercenários de Arrakeen.

Ficou de pé sobre o piso de pedras verde aquáticas da câmara, sem aparentar um ar de súplica.

Jessica admirou seu atrevimento da posição onde se sentava com Alia, no topo da plataforma de sete degraus. Tronos idênticos haviam sido colocados ali para a mãe e a filha, e Jessica tomou nota do fato de que Alia se sentava à direita, na posição masculina.

Quanto ao trovador kadeshiano, era óbvio que o pessoal de Javid lhe havia permitido entrar exatamente por esta qualidade que ele agora exibia: o atrevimento.

Esperava-se que o trovador proporcionasse algum divertimento aos cortesãos do Grande Salão, era o pagamento que ele daria em troca do dinheiro que não mais possuía.

De acordo com o relatório do Sacerdote-Advogado, agora defendendo a causa do trovador, o kadeshiano ficara somente com a roupa do corpo e o baliset preso sobre o ombro por um cordão de couro.

— Ele diz que lhe deram uma bebida escura — disse o Advogado, quase sem ocultar o sorriso que tentava torcer-lhe os lábios. — Se esse detalhe agrada à sua Santidade, a bebida o deixou indefeso mas desperto, enquanto sua bolsa era cortada.

Jessica estudou o trovador enquanto o Advogado continuava sua cantilena em tom de falsa subserviência, a voz cheia de sórdido moralismo. O kadeshiano era alto, chegando facilmente a dois metros. Tinha os olhos inquietos, que mostravam uma vigília inteligente, além de humor. Seu cabelo louro caía até os ombros, como era o estilo em seu planeta, e havia uma aparência de força viril em seu peito largo e no corpo, que logo se adelgaçava para baixo sem que o manto cinzento do Hajj pudesse ocultá-lo. Seu nome fora dado como sendo Tagir Mohandis, um descendente de engenheiros mercantes, orgulhoso de seus ancestrais e de si mesmo.

Alia finalmente interrompeu a súplica com um aceno da mão e falou sem se voltar:

— Lady Jessica fará o primeiro julgamento, em honra de sua volta ao nosso convívio.

— Obrigada, filha — respondeu Jessica, declarando a ordem de ascendência para que todos ouvissem. “Filha!” Seria esse Tagir Mohandis parte do plano? Ou seria um crente inocente? Esse julgamento fora preparado para abrir o ataque sobre ela, percebeu Jessica. Isso era óbvio na atitude de Alia.

— Você toca bem esse instrumento? — perguntou Jessica, indicando com a mão o baliset de nove cordas sobre o ombro do trovador.

— Tão bem quanto o Grande Gurney Halleck em pessoa! — respondeu Tagir, falando alto para que todos no salão ouvissem. Suas palavras provocaram uma interessante agitação entre os cortesãos.

— Você busca a dádiva do dinheiro para o transporte — disse Jessica. —

Aonde o conduziria esse dinheiro?

— A Salusa Secundus e à corte de Faradin — disse Mohandis. — Ouvi dizer que ele procura trovadores e menestréis, que apoia as artes e está se cercando de cultura, preparando uma renascença.

Jessica forçou-se a não olhar para Alia. Eles sabiam, é claro, o que Mohandis ia pedir.

Surpreendeu-se apreciando esse jogo. Será que eles achavam que ela era incapaz de reagir adequadamente a essa pressão?

— Você tocaria em troca de sua passagem? — perguntou Jessica. — Meus termos são termos Fremen. Se eu gostar de sua música, posso mantê-lo aqui para aliviar minhas preocupações, se sua música me ofender, posso mandá-lo realizar trabalho pesado no deserto, em troca do dinheiro de sua passagem. E se considerar que sua maneira de tocar só é adequada para Faradin, que dizem ser inimigo dos Atreides, então o enviarei a ele com as minhas bênçãos. Aceita esses termos, Tagir Mohandis?

Ele lançou a cabeça para trás numa estrondosa gargalhada. Seu cabelo longo dançou enquanto pegava o baliset e o afinava cuidadosamente para indicar que aceitara o desafio.

A multidão no salão começou a se aproximar, mas foi contida pelos cortesãos e pelos guardas.

Daí a pouco, Mohandis feriu uma nota, mantendo o zumbido grave das cordas laterais com cuidadosa atenção para com sua vibração arrebatadora. Então, erguendo a voz num suave tenor, ele cantou, obviamente improvisando, mas tocando de modo tão hábil que Jessica se sentiu cativada, antes de prestar atenção à letra:

Vocês dizem-se saudosos dos mares de Caladan, onde certo da governaram, Atreides Sem parar...

Mas os exilados se demoram em terras de estranhos!

Vocês dizem que eles eram homens amargos, tão rudes Que venderam seus sonhos do Shai-Hulud em troca de um alimento sem sabor...

Pois os exilados se demoram em terras de estranhos.

Vocês fazem Arrakis tornar-se fraco

Silenciando a passagem do verme

E terminando seu período...

Como exilados, vivendo em terras de estranhos Alia!

Eles a chamam de Coan-Teen Aquele espírito que nunca é visto Até..

— Basta — gritou Alia. Ergueu-se meio caminho para fora do trono. —

Vou mandar que o...

— Alia! — Jessica falou com a intensidade apenas necessária, sua voz ajustada no tom certo para evitar o confronto mas, ao mesmo tempo, obter toda a atenção. Era um esplêndido uso da Voz, e todos que a ouviram reconheceram os poderes treinados nessa demonstração. Alia caiu de volta no trono e Jessica notou que ela não mostrava o menor indício de frustração.

“Isso também foi previsto”, pensou Jessica. “Que interessante.”

— O julgamento deste primeiro é meu — lembrou Jessica.

— Muito bem. — As palavras de Alia eram quase inaudíveis.

— Acho que este aqui é um presente adequado para Faradin — disse Jessica. — Ele tem uma língua que corta como uma faca cristalina. A sangria que essa língua pode causar seria saudável para nossa corte, mas prefiro que seja causada à Casa Corrino.

Um leve murmúrio de risos propagou-se pelo salão. Alia permitiu-se um som resfolegante:

— Sabe do que ele me chamou?

— Ele não a chamou de nada, filha. Apenas relatou o que ele ou qualquer outro pode ouvir nas ruas. Lá eles a chamam de Coan-Teen...

— O espírito da morte feminino que caminha sem os pés — resmungou Alia.

— Se matar aqueles que relatam o que ouvem com sinceridade, manterá ao seu redor apenas aqueles que dizem o que você quer ouvir — disse Jessica com a voz suave. — Não posso pensar em nada mais venenoso do que apodrecer no fedor das próprias reflexões.

Audíveis exclamações de espanto partiram daqueles imediatamente abaixo do trono.

Jessica voltou sua atenção para Mohandis, que permanecia em silêncio, sem se intimidar. Ele aguardava qualquer sentença que lhe fosse passada como se não se importasse. Mohandis era exatamente o tipo de homem que seu Duque teria escolhido para ter ao seu lado em tempos difíceis: alguém que agia com confiança em seu próprio julgamento, mas aceitava o que quer que lhe pudesse acontecer, mesmo a morte, sem lamentar o destino. Então, por que escolhera esse curso de ação?

— Por que cantou exatamente aquela letra? — perguntou-lhe Jessica.

Ele ergueu a cabeça para falar claramente:

— Ouvi dizer que os Atreides eram honrados e de mente aberta. Pensei em testar isso e talvez ficar aqui a seu serviço, de modo a dispor de tempo para procurar aqueles que me roubaram e cuidar deles à minha própria maneira.

— Ele se atreve a nos testar! — murmurou Alia.

— Porque não? — perguntou Jessica.

Ela sorriu para o trovador em sinal de benevolência. Ele viera a esse salão apenas porque lhe oferecia outra oportunidade de aventura, outra passagem através de seu universo. Jessica sentia-se tentada a ligá-lo ao seu próprio séquito, mas a reação de Alia pressagiava o mal para o bravo Mohandis. Havia também indícios que diziam ser esse o comportamento que esperavam de Lady Jessica: colocar um valente e belo trovador a seu serviço, como já fizera com o bravo Gurney Halleck.

Era melhor que Mohandis seguisse seu caminho, embora a irritasse perder tão esplêndido espécime para Faradin.

— Ele deve ir para a corte de Faradin — pronunciou Jessica. — Cuidem para que receba o dinheiro de sua passagem. Deixem que sua língua tire o sangue da Casa Corrino e vejamos como ele sobrevive a isso.

Alia olhou furiosa para o chão, depois deu um sorriso atrasado.

— A sabedoria de Lady Jessica deve prevalecer — ela disse, acenando para que Mohandis fosse embora.

“Esta não saiu do jeito que ela esperava”, pensou Jessica, mas havia indicações nos modos de Alia de que um teste maior ainda estava por vir.

Outro suplicante foi trazido à frente.

Jessica, notando a reação de sua filha, sentiu a inquietação de suas dúvidas.

A lição que aprendera com os gêmeos era necessária ali. Mesmo sendo Alia uma Abominação, ainda assim era um dos pré-nascidos. Podia conhecer sua mãe como conhecia a si mesma. Não fazia sentido que Alia fosse enganar-se quanto às reações de sua mãe na questão do trovador.

“Por que ela encenou aquela discussão? Para me distrair?”

Não havia mais tempo para reflexão. O segundo suplicante assumira sua posição abaixo dos tronos gêmeos, seu Advogado a seu lado.

Dessa vez o suplicante era um Fremen, um velho que tinha no rosto as marcas da areia dos nascidos no deserto. Não era alto, mas tinha o corpo rijo, e o longo dradasha normalmente usado sobre um traje-desolador lhe conferia uma aparência imponente. O manto estava de acordo com o rosto magro e o nariz adunco, com o brilho dos olhos de azul dentro de azul. Não usava um traje-desolador e parecia desconfortável sem ele. O gigantesco espaço do Salão de Audiências devia parecer-lhe uma perigosa área aberta que roubava à sua carne a inestimável umidade. Sob o capuz, que jogara parcialmente para trás, usava um kffya amarrado em nós, o ornato adequado para a cabeça de um Naib.

— Sou Ghadhean al-Fali — disse ele, colocando um pé nos degraus para o trono, indicando seu status superior ao das pessoas na multidão. — Eu era um dos comandos da morte do Muad'Dib e estou aqui para tratar de um assunto do deserto.

Alia enrijeceu-se apenas ligeiramente, um pequeno indício. O nome de al-Fali estivera na petição de que colocassem Jessica no Conselho.

“Um assunto do deserto!”, pensou Jessica.

Ghadhean al-Fali falara antes que seu Advogado pudesse iniciar o pedido.

Com aquela frase Fremen formal, avisara que trazia alguma coisa que seria da preocupação de todos em Duna. E que falava com a autoridade de um Fedaykin que oferecera sua vida ao lado da de Paul Muad'Dib. Jessica duvidava que isso tivesse sido o que Ghadhean al-Fali havia dito a Javid ou ao Advogado Geral, ao solicitar audiência. Sua suposição foi confirmada quando um funcionário do clero avançou correndo dos fundos da câmara, acenando com um lenço negro de intercessão.

— Minhas Senhoras! — gritou ele. — Não escutem esse homem! Ele vem sob falsa...

Jessica, vendo o sacerdote avançar em direção a elas, captou um movimento no canto dos olhos e percebeu quando Alia sinalizou com a mão na velha linguagem de batalha dos Atreides: “Agora!”

Não pôde determinar para onde o sinal era dirigido, mas agiu instintivamente com um impulso no corpo para a esquerda, arrastando o trono e tudo mais. Ao cair, rolou para longe do trono, que desabava com um estrondo, e ficou de pé no momento em que ouvia o som do disparo de uma pistola maula... o qual se repetiu. Mas já estava movimentando-se com o primeiro som e sentiu alguma coisa dar um puxão em sua manga direita. Mergulhou na multidão de cortesãos e suplicantes reunidos abaixo da plataforma. Alia, percebia ela, não se movera.

Cercada de gente, Jessica parou.

Ghadhean al-Fali, notou ela, havia buscado refúgio no outro lado da plataforma, mas o Advogado permanecia na posição original.

Tudo acontecera com a rapidez de uma emboscada, mas todos no Salão sabiam a que lugar os reflexos treinados deveriam ter levado qualquer um apanhado de surpresa. Alia e o Advogado continuavam imóveis em seu comprometimento.

Uma agitação no meio do salão atraiu a atenção de Jessica e ela abriu caminho através da multidão, vendo quatro suplicantes segurarem o funcionário do clero. Seu pano negro de intercessão estava caído a seus pés com uma pistola maula exposta entre suas dobras.

Al-Fali passou por Jessica, olhou para a pistola e o sacerdote. O Fremen deixou escapar um grito de fúria e ergueu a mão do cinturão com um golpe achag, os dedos da mão esquerda rígidos. Atingiu o sacerdote na garganta, fazendo-o tombar inerte. Sem ao menos um olhar para o homem que matara, o velho Naib voltou um rosto furioso para a plataforma.

— Dalal-Han-nubuwwa! — gritou al-Fali, colocando as palmas das mãos sobre a testa e depois abaixando-as. — O Quadisas-Salaf não permitirá que eu seja silenciado! Se eu não matar aqueles que interferirem, outros o farão!

“Ele pensa que era o alvo”, percebeu Jessica. Olhou para sua manga e colocou o dedo no buraco circular deixado pela bolinha da pistola maula.

Envenenada, sem dúvida.

Os suplicantes haviam colocado o sacerdote no chão. Ele se retorcia, morrendo com a laringe esmagada. Jessica acenou para um par de chocados cortesãos à sua esquerda e disse:

— Quero que esse homem seja salvo para ser interrogado. Se ele morrer, vocês morrem! — Como eles hesitassem, olhando para a plataforma, ela usou a Voz: — Mexam-se!

A dupla obedeceu.

Jessica colocou-se ao lado de al-Fali e o cutucou com o braço.

— Você é um tolo, Naib! Eles estavam atrás de mim, não de você.

Várias pessoas ao redor ouviram. No silêncio do choque que se seguiu, al-Fali olhou para a plataforma, onde um dos tronos estava tombado e no outro Alia permanecia sentada. A aparência de compreensão que lhe surgiu no rosto teria sido percebida por uma noviça.

— Fedaykin — disse Jessica, lembrando-lhe de seus antigos serviços à sua família, — nós que fomos queimados sabemos como nos colocar de costas um para o outro.

— Confie em mim, Minha Senhora — disse ele, percebendo o significado imediatamente.

Um ruído resfolegante atrás de Jessica fez com que ela se voltasse rapidamente, sentindo que al Fali tomava posição para cobrir suas costas.

Uma mulher no traje pomposo de uma Fremen da cidade estava se levantando da posição que ocupara ao lado do sacerdote caído no chão. Os dois cortesãos haviam desaparecido. A mulher nem mesmo olhou para Jessica, mas

ergueu a voz no antigo lamento de seu povo o Chamado por aqueles que serviam nos alambiques da morte, pedindo-lhes que viessem recolher a água do corpo para a cisterna tribal. Era um ruído curiosamente incongruente partindo de alguém vestido como essa mulher. Jessica sentiu a persistência dos velhos costumes ao mesmo tempo em que notava a falsidade nessa mulher da cidade. Essa criatura de vestido vistoso obviamente matara o sacerdote para se certificar de que ele seria silenciado.

“Por que ela se incomodou?”, perguntou-se Jessica. “Só precisava esperar que o homem morresse por asfixia.” Fora um ato desesperado, um sinal de medo profundo.

Alia estava inclinada para a frente, na borda de seu trono, os olhos brilhantes em alerta. Uma mulher esguia, usando as tranças presas em nós que caracterizavam a guarda de Alia, passou por Jessica, inclinou-se junto ao sacerdote, levantou-se e olhou de volta para a plataforma.

— Ele está morto.

— Faça com que seja removido — disse Alia. Depois gesticulou para os guardas abaixo da plataforma. — Endireitem o trono de Lady Jessica.

“Então ela vai tentar sustentar tudo isso descaradamente!”, pensou Jessica.

Será que acreditava que poderia enganar alguém? Al-Fali falara no Quadis as-Salaf, invocando os pais sagrados da mitologia Fremen como seus protetores. Mas nenhum agente sobrenatural trouxera uma pistola maula para dentro desse salão onde não se permitiam armas. Uma conspiração envolvendo o pessoal de Javid era a única resposta, e a despreocupação de Alia quanto à sua própria segurança revelava a todos que ela fazia parte da conspiração.

O velho Naib falou para Jessica por sobre o ombro:

— Aceite minhas desculpas, Minha Senhora. Nós do deserto viemos à sua presença como nossa última e desalentada esperança, e agora percebemos que ainda necessita de nós.

— O matricídio não se ajusta bem com minha filha — disse Jessica.

— As tribos vão saber disso — prometeu al-Fali.

— Se necessitavam tanto de mim, por que não se aproximaram na Convocação no Sietch Tabr? — perguntou Jessica.

— Stilgar não permitiria.

“Ahh”, pensou Jessica, “a lei dos Naibs!” Em Tabr, a palavra de Stilgar era a lei.

O trono derrubado fora recolocado no lugar. Alia gesticulou para que sua mãe retornasse, dizendo:

— Todos vocês observem, por favor, a morte desse sacerdote traidor.

Aqueles que me ameaçam morrem. — Olhou para al-Fali. — Meus agradecimentos, Naib.

— Grato pelo engano — murmurou al-Fali. Olhou para Jessica.

— Estava certa. Minha ira eliminou aquele que devia ser interrogado.

Jessica sussurrou-lhe:

— Marque aqueles dois cortesãos e a mulher de vestido colorido, Fedaykin. Quero que eles sejam capturados e interrogados.

— Será feito — respondeu ele.

— Se sairmos daqui vivos — disse Jessica. — Vamos, vamos voltar e representar nossos papéis.

— Como quiser, Minha Senhora.

Juntos, retornaram à plataforma, Jessica subindo os degraus e reassumindo sua posição ao lado de Alia, al-Fali permanecendo embaixo, na posição de suplicante.

— Agora... — começou a dizer Alia.

— Um momento, filha — interrompeu Jessica. Ergueu a manga, mostrando o buraco com um dos dedos através dele. — O ataque foi dirigido contra mim. A bolinha quase me atingiu, apesar de eu estar me esquivando. Vocês todos notarão que a pistola maula não se encontra mais lá embaixo apontou. Com quem está ela?

Não houve resposta.

— Talvez pudesse ser encontrada.

— Que tolice! — exclamou Alia. — Eu era o...

Jessica voltou-se na direção de sua filha, apontando com a mão esquerda.

— Alguém lá embaixo está com aquela pistola. Não teme que...

— Uma de minhas guardas está com ela! — retrucou Alia.

— Então, que essa guarda me traga a arma — pediu Jessica.

— Ela já foi levada embora.

— Que conveniente.

— Que está dizendo?

Jessica permitiu-se um sorriso amargo.

— Estou dizendo que duas pessoas de sua gente foram encarregadas de salvar aquele sacerdote-traidor. Eu lhes avisei que morreriam se ele morresse. Elas vão morrer.

— Eu o proíbo!

Jessica meramente encolheu os ombros.

— Temos aqui um bravo Fedaykin — disse Alia, indicando al-Fali. — Esta discussão pode esperar.

— Pode esperar para sempre — disse Jessica no idioma Chakobsa, suas palavras incisivas para indicar a Alia que nenhuma discussão deteria o comando da morte.

— Veremos! — retrucou Alia. Olhou para al-Fali. — Por que está aqui, Ghadhean al-Fali?

— Para ver a mãe do Muad'Dib — respondeu o Naib. — Os remanescentes dos Fedaykin, o bando de irmãos que serviu ao seu filho, juntaram seus pobres recursos para comprar minha passagem através dos guardas cobiçosos que protegem os Atreides das realidades de Arrakis.

Alia disse:

— Qualquer coisa de que os Fedaykin necessitassem, eles só teriam que...

— Ele veio aqui para me ver — interrompeu Jessica. — Qual é a sua necessidade desesperada, Fedaykin?

Alia ainda disse:

— Eu falo pelos Atreides aqui! O que é essa...

— Cale-se, sua Abominação assassina! — retrucou Jessica. — Você tentou me matar, filha. Digo isso para todos aqui ouvirem. Você não pode mandar matar todos que estão neste salão para silenciá-los. Como aquele sacerdote o foi. Sim, o golpe do Naib teria morto o homem, mas ele podia ter sido salvo. Podia ter sido interrogado! Você não se preocupa com o fato de ele ter sido silenciado. Jogue seus protestos sobre nós como quiser, sua culpa está escrita em seus atos!

Alia ficou sentada, gelada em silêncio. E Jessica, observando o jogo de emoções no rosto da filha, percebeu um movimento aterradoramente familiar nas mãos dela. Uma resposta inconsciente que um dia identificara um inimigo mortal dos Atreides. Os dedos de Alia tamborilavam o dedo mindinho duas vezes, o indicador três vezes, o dedo médio duas vezes, o mindinho uma vez, o dedo médio duas... e uma vez mais nessa mesma ordem.

O velho Barão!

O foco dos olhos de Jessica Chamou a atenção de Alia e ela olhou para a própria mão, imobilizou-a e olhou de volta para a mãe, para perceber o terrível reconhecimento. Um sorriso de zombaria espalhou-se pela boca de Alia.

— Assim você conseguiu sua vingança contra nós — sussurrou-lhe Jessica.

— Ficou louca, mamãe?

— Gostaria de estar — respondeu Jessica. E pensou: “Ela sabe que eu vou confirmar isso perante a Irmandade. Ela sabe. Pode até suspeitar que vou contar aos Fremen e submetê-la a um julgamento de Possessão. Não pode permitir que eu saia daqui viva.”

— Nosso bravo Fedaykin espera enquanto discutimos — disse Alia.

Jessica forçou sua atenção de volta ao velho Naib. Colocou os sentimentos sob controle e disse:

— Você veio para me ver, Ghadhean.

— Sim, Minha Senhora. Nós do deserto vemos coisas terríveis acontecendo. Os Pequenos Produtores saem da areia, como foi previsto nas mais antigas profecias. O Shai-Hulud não pode mais ser encontrado, exceto nas profundezas da Região Vazia. Nós abandonamos nosso amigo, o deserto!

Jessica olhou para Alia, que meramente lhe gesticulou para que continuasse. Jessica observou a multidão na câmara, notando a aparência de chocada atenção em cada rosto. A importância da luta entre mãe e filha não passara despercebida a essas pessoas, e elas se admiravam em que a audiência continuasse.

Voltou sua atenção para al-Fali.

— Ghadhean, que história é essa de Pequenos Produtores e escassez de vermes da areia?

— Mãe da Umidade — disse ele, usando-lhe o velho título Fremen ., —

fomos avisados a respeito de tudo isso no Kitab al-Ibar. Nós lhe suplicamos. Não se

esqueça de que, no dia em que o Muad'Dib morreu, Arrakis voltou-se sobre si mesmo! Não podemos abandonar o deserto.

— Hah! — resmungou Alia. — A ralé supersticiosa do Deserto Interno teme a transformação ecológica. Eles...

— Eu o ouço, Ghadhean — respondeu Jessica. — Se os vermes se forem, perderemos a especiaria. E, sem a especiaria, que moeda teríamos para comprar nosso caminho?

Sons de surpresa: exclamações de espanto e cochichos podiam ser ouvidos, propagando-se através do Grande Salão. A câmara ecoava com o som.

Alia encolheu os ombros.

— Tolice supersticiosa!

Al-Fali ergueu a mão direita, apontando-a para Alia.

— Eu falo com a Mãe da Umidade, não com a Coan-Teen!

As mãos de Alia agarraram-se aos braços do trono, mas ela permaneceu sentada.

Al-Fali olhou para Jessica.

— Um dia houve a terra onde nada crescia. Agora existem plantas. Elas se propagam como piolhos sobre uma ferida. Tem havido nuvens e chuva ao longo do cinturão de Duna! Chuva, Minha Senhora! Ó preciosa mãe do Muad'Dib, tal como o sono é o irmão da morte, assim também é a chuva no cinturão de Duna. É

a morte para todos nós.

— Fizemos apenas o que Liet-Kynes e o próprio Muad'Dib planejaram —

protestou Alia. Por que toda essa tagarelice supersticiosa? Nós reverenciamos as palavras de Liet-Kynes, que nos disse: “Eu desejo ver este planeta inteiro apanhado numa rede de plantas verdes.” E assim será.

— E que será dos vermes e da especiaria? — perguntou-lhe Jessica.

— Sempre haverá algum deserto. Os vermes sobreviverão — respondeu Alia.

“Ela está mentindo”, pensou Jessica. “Por que ela mente?”

— Ajude-nos, Mãe da Umidade — suplicou al-Fali.

Com uma súbita sensação de visão dupla, Jessica sentiu um empurrão em sua consciência, um salto propelido pelas palavras do Naib. Era o inconfundível adab, a memória exigente que brotava por si mesma. Veio sem restrições e manteve seus sentidos imóveis enquanto a lição do passado era imprimida sobre sua consciência. Jessica sentia-se totalmente envolvida, como um peixe numa rede. E

no entanto percebia a exigência daquilo como um momento mais-que-humano, cada pequena parte uma lembrança da criação. Cada elemento da lição-memória era real e no entanto insubstancial em sua constante mutação. Ela sabia que isso era o mais próximo que jamais chegaria de experimentar o regime de captação presciente que se abatera sobre seu filho.

“Alia mentiu por estar possuída por alguém que deseja destruir os Atreides. Ela foi, em si mesma, a primeira destruição. Então, al-Fali falou a verdade: os vermes da areia estão condenados, a menos que o curso da transformação ecológica seja modificado.” Sob a pressão da revelação, Jessica via as

pessoas na audiência movendo-se em câmara lenta, seus papéis identificados para ela. Podia perceber aqueles que estavam encarregados de cuidar para que não saísse viva dali! E o caminho através deles delineava-se em sua consciência como que marcado em luz brilhante. Confusão entre eles, um deles confundido para tropeçar sobre o outro, grupos inteiros atrapalhando-se. Percebia também que só poderia deixar esse Grande Salão para cair nas mãos de outros. Alia não se importava de criar uma mártir. Não a coisa que a possuía não se importava.

Agora, no tempo congelado, Jessica escolhia um caminho que lhe permitiria salvar o velho Naib e enviá-lo como mensageiro. O caminho através da audiência permanecia indelevelmente claro. Como era simples!

Eles eram bufões com olhos tapados, seus ombros contidos em imóveis posições de defesa. Cada posição sobre o grande piso podia ser vista como uma colisão atrópica na qual a carne morta poderia descolar-se revelando os esqueletos.

Os corpos deles, suas roupas e seus rostos descreviam infernos individuais: o seio não-sugado dos terrores escondidos, o brilho das jóias tornando-se um substituto das armaduras. Suas bocas emitiam julgamentos cheios de certezas aterrorizadas.

Uma catedral de prismas revelando-se em sobrancelhas que demonstravam elevados sentimentos religiosos. Sentimentos negados pelas entranhas.

Jessica sentia a dissolução nas forças modeladoras soltas sobre Arrakis.

A voz de al-Fali fora como um distrans em sua alma, despertando uma fera das profundezas de seu ser.

Num piscar de olhos, Jessica caminhou do adab para o universo do movimento, mas era um universo diferente daquele que comandara sua atenção apenas um segundo atrás.

Alia estava começando a falar, mas Jessica a deteve, dizendo:

— Silêncio! — E acrescentou: — Existem aqueles que temem que eu tenha retornado sem reservas para a Irmandade. Mas desde aquele dia no deserto, quando os Fremen concederam a dádiva da vida para mim e para meu filho, eu tenho sido Fremen! — E voltou a falar no antigo idioma que apenas aqueles no salão a quem suas palavras seriam úteis poderiam entender: — Onsar akhaka Reliman azv maslumem! “Apoie teu irmão nesta hora de necessidade, tenha sido ele justo ou injusto!”

Suas palavras produziram o efeito desejado, uma sutil mudança de posições dentro da câmara.

Mas Jessica continuou:

— Este Ghadhean al-Fali, um Fremen honesto, vem aqui me dizer o que outros já deviam ter me revelado. Que ninguém negue isso! A transformação ecológica tornou-se uma tempestade fora de controle!

Um mudo assentimento podia ser visto através do salão.

— E minha filha sente prazer nisso! Mektub al-mellab! Você abre ferimentos em minha carne e neles escreve com sal! Por que os Atreides encontraram um lar neste lugar? Porque a Mohalata era natural para nós. Para os Atreides, o governo sempre foi uma aliança protetora: a Mohalata, como os Fremen sempre a conheceram. Agora, olhem para ela! — Jessica apontou para Alia. Ela ri sozinha

durante a noite, contemplando sua própria maldade! — A produção de especiaria cairá até zero, ou, na melhor das hipóteses, a uma fração de seu nível anterior! E

quando essa notícia se espalhar...

— Teremos um quinhão do produto mais inestimável em todo o universo!

— gritou Alia.

— Teremos um quinhão do inferno! — retrucou Jessica, furiosa.

Alia começou a falar no Chakobsa mais antigo, a linguagem particular dos Atreides, com seus difíceis cuques e paradas glotais:

— Agora você sabe, mamãe! Acha que uma neta do Barão Harkonnen não aproveitaria todas aquelas vidas que a senhora espremeu em minha consciência antes mesmo que eu nascesse? Quando me enfureci contra o que fizera comigo, só tive que me perguntar o que o Barão teria feito. E ele respondeu! Está entendendo, cadela Atreides? — Ele me respondeu!

Jessica escutou todo aquele rancor e confirmou sua suposição:

“Abominação!” Alia fora dominada interiormente, possuída por aquele poço de maldade, o Barão Vladimir Harkonnen. Era o próprio Barão que falava por sua boca agora, sem se incomodar com o que fosse revelado. Ele queria que ela notasse sua vingança, queria que ela soubesse que ele não poderia ser expulso.

“Devo permanecer aqui, indefesa em meu conhecimento”, pensou Jessica.

Com esse pensamento, lançou-se no caminho que o adab lhe revelara, gritando:

— Fedaykin, sigam-me!

Havia seis Fedaykin no salão, e cinco deles seguiram atrás dela.

Quando sou mais fraco que você, peço-lhe liberdade, pois isso está de acordo com os seus princípios, Quando sou mais forte que você, tiro-lhe a liberdade, pois isso está de acordo com os Meus princípios.

- Palavras de um antigo filósofo (Atribuídas por Harq al-Ada a um certo Louis Veuillot)

Leto inclinou-se para fora da saída secreta do sietch e viu a curva do penhasco erguendo-se por cima de sua visão limitada. A luz do fim da tarde lançava longas sombras a partir das estrias verticais do penhasco.

Uma borboleta-esqueleto voou, entrando e saindo das sombras, suas asas membranosas formando uma renda contra a luz. Como essa borboleta era delicada para existir ali, pensou ele.

Diretamente à frente encontrava-se o bosque de damascos, com as crianças trabalhando para juntar as frutas caídas. Além do pomar estava o qanat.

Ele e Ghanima haviam iludido seus guardas, misturando-se à multidão de trabalhadores que chegavam. Fora relativamente simples se arrastarem para baixo, ao longo de uma passagem de ar, até sua conexão com os degraus que conduziam à saída secreta. Agora, só tinham que se misturar com as crianças, abrir caminho até

o qanat e mergulhar no túnel. Lá eles poderiam prosseguir ao lado dos peixes predadores que evitavam que a truta da areia bloqueasse a água de irrigação da tribo. Nenhum Fremen podia ainda imaginar que um ser humano se arriscaria a uma imersão acidental na água.

Ele caminhou para fora das passagens protetoras. O penhasco estendeu-se ao seu redor, tornando-se horizontal pela perspectiva de seus próprios movimentos.

Ghanima caminhava logo atrás. Ambos carregavam pequenos cestos de frutas, trançadas com fibra de especiaria, mas cada cesto levava um pacote selado: estojo Fremen, pistola maula, faca cristalina... e os novos trajes enviados por Faradin.

Ghanima seguiu o irmão para dentro do pomar e misturou-se com as crianças trabalhando. Máscaras de traje-destilador ocultavam cada rosto. Eles eram apenas mais dois trabalhadores ali, mas ela sentia essa ação arrastando sua vida para longe das fronteiras protetoras e dos costumes conhecidos.

Como era simples esse passo, o que conduzia de um perigo para o outro.

Em seus cestos, aqueles trajes enviados por Faradin comunicavam um propósito bem compreendido por ambos. Ghanima reforçava esse conhecimento ao bordar o próprio lema pessoal dos dois, “Nós compartilhamos”, em Chakobsa, acima da crista do falcão em cada peito.

Logo seria a hora do crepúsculo, e além do qanat, que delimitava a área cultivada do sietch, ocorreria aquele tipo especial de noite que poucos lugares no universo poderiam igualar. Seria aquele deserto suavemente iluminado com seu mundo de persistente solidão, seu sentimento saturado de que cada criatura se encontrava sozinha num novo universo.

— Nós fomos vistos — sussurrou Ghanima, curvando-se para trabalhar ao lado do irmão.

— Guardas?

— Não, outros.

— Bom.

— Devemos agir rapidamente — ela disse.

Leto reconheceu isso, caminhando para longe do penhasco através do pomar.

Pensou com os pensamentos de seu pai: “Tudo permanece em movimento no deserto, ou então perece.” Lá longe na areia, podia ver o afloramento rochoso do Criado, lembrando-lhe a necessidade da mobilidade. As rochas permaneciam estáticas e agidas em seu vigilante enigma, apagando-se a cada ano sob o assalto da areia impulsionada pelo vento. Um dia o Criado seria apenas areia.

Enquanto se aproximavam do qanat, ouviram música proveniente de uma entrada elevada do sietch. Era um grupo Fremen ao estilo antigo: flautas de dois furos, pandeiros e tímbales feitos sobre tambores de plástico de especiaria com peles esticadas de uma extremidade à outra. Ninguém perguntava que animal desse planeta fornecia tanta pele.

“Stilgar ainda se lembrará do que eu lhe falei a respeito da fenda no Criado”, pensou Leto. “Ele virá no escuro quando for muito tarde... e então saberá.”

Daí a pouco, estavam no qanat. Escorregaram para dentro do tubo aberto, descendo pela escada de inspeção até a plataforma de serviço. Era escuro, frio e úmido no qanat, e ambos podiam ouvir os peixes predadores pulando.

Qualquer truta da areia que tentasse roubar essa água encontraria sua superfície interior, amolecida pela água, atacada pelos peixes. Os seres humanos também deviam ter cuidado com eles.

— Tenha cuidado — disse Leto, enquanto caminhavam ao longo da saliência escorregadia. Ele voltava sua memória para ocasiões e lugares que sua carne nunca conhecera. Ghanima o seguia.

No final do qanat, despiram-se até ficarem apenas com os trajes-destiladores e colocaram os novos mantos. Deixaram para trás os velhos mantos Fremen, enquanto subiam para fora, em outro tubo de inspeção, e escorregavam sobre uma duna que descia pelo lado oposto. Lá se sentaram, ocultos do sietch, prenderam as pistolas maula e as facas cristalinas nos cinturões, colocando os estojos Fremen sobre os ombros. Não mais podiam ouvir a música.

Leto levantou-se e avançou pelo vale entre as dunas, caminhando de modo silencioso, não ritmado, sobre a areia aberta.

Abaixo da crista de cada duna eles se curvavam e se arrastavam pelo oculto sotavento, parando a fim de olhar para trás e verificar se não eram perseguidos.

Nenhum caçador ainda se erguera do deserto quando eles chegaram nas primeiras rochas.

Nas sombras das rochas, abriram caminho em torno do Criado, subiram até uma saliência e olharam para o deserto. Cores piscavam bem longe no bled.

O ar que escurecia mantinha a fragilidade de um fino cristal. A paisagem que se descortinava ante seus olhos encontrava-se além da compaixão em parte alguma ela se interrompia, não havia hesitações. O olhar não se detinha em lugar algum, em seu movimento de varredura sobre aquela imensidão.

“É o horizonte da eternidade”, pensou Leto.

Agachada ao lado do irmão, Ghanima pensava: “O ataque virá logo.”

Escutava em busca dos menores sons, seu corpo inteiro convertido num único sentido agudo de sondagem.

Leto sentara-se, igualmente alerta. Sabia que a culminação de todo o treinamento aplicado nas vidas que compartilhava tão intimamente acontecia agora.

Nessa vastidão selvagem, as pessoas desenvolviam uma inescapável dependência em relação a seus sentidos, a todos os sentidos.

A vida transformava-se numa acumulação de percepções armazenadas, cada qual ligada apenas à sobrevivência momentânea.

Daí a pouco, Ghanima subiu nas rochas e olhou através de uma fenda estreita em direção ao caminho por onde tinham vindo. A segurança do sietch parecia afastada por uma vida inteira, uma massa de penhascos silenciosos erguendo-se na distância marrom-arroxeada, com bordas enevoadas pela poeira nos

picos, aonde os últimos raios do sol lançavam suas riscas prateadas. Ninguém podia ser visto a persegui-los na distância intermediária. Ghanima voltou para junto de Leto.

— Será um animal predador — disse ele. — Essa é minha computação terciária.

— Acho que você parou de computar muito cedo — disse Ghanima. —

Será mais que um animal. A Casa Corrino aprendeu a não colocar todas as suas esperanças num único cesto.

Leto acenou, concordando.

Sua mente parecia subitamente pesada com a multidão de vidas que sua diferença lhe proporcionava: todas aquelas vidas, a sua mesmo antes do nascimento. Estava saturado de viver e queria fugir à própria consciência. O

mundo interior era uma fera pesada que poderia devorá-lo.

Inquieto, levantou-se e subiu até a fenda que Ghanima tinha usado, olhando para os penhascos do sietch. Lá, abaixo dos penhascos, podia ver como o qanat traçava uma linha entre a vida e a morte. Na extremidade do oásis, estavam a salva-camelo, o capim-cebola, o capim-pluma de gobi, a alfafa selvagem. Aos últimos raios de luz, podia notar os pássaros saltitando na alfafa. Os distantes pendões de cereais oscilaram num vento que traçou sombras a se moverem para a direita, subindo o pomar. O movimento captou sua consciência e ele viu que as sombras ocultavam, dentro de suas formas fluidas, uma mudança maior, e que essa mudança maior ocorria sob os reflexos coloridos de um céu prateado pela poeira.

“Que vai acontecer aqui?”, perguntou-se.

Sabia que seria ou a morte ou um jogo mortal, tendo ele mesmo como objetivo. Ghanima seria aquela que retornaria, acreditando na morte que havia visto, ou relatando com a sinceridade partida da profunda compulsão hipnótica que seu irmão estava de fato morto.

As coisas desconhecidas desse lugar o assombravam. Pensou em como seria fácil sucumbir às exigências da presciência, arriscando-se a lançar sua consciência num futuro absoluto e imutável. A restrita visão de seus sonhos já era suficientemente ruim. Sabia que não se atreveria a arriscar a visão maior.

Daí a pouco, retornou para junto de Ghanima e disse:

— Nenhuma perseguição ainda.

— As feras que vão mandar atrás de nós serão grandes — disse Ghanima.

— Poderemos ter tempo para vê-las se aproximando.

— Não se vierem no meio da noite.

— Logo estará escuro.

— Sim, é hora de descermos para o nosso lugar.

Ele indicou as rochas à sua esquerda e abaixo, onde a areia trazida pelo vento roera uma pequena fissura no basalto. Era suficientemente grande para admiti-los, mas suficientemente pequena para deixar de fora criaturas maiores. Leto sentia-se relutante em ir até lá, mas sabia que isso devia ser feito. Aquele era o lugar que ele apontara para Stilgar.

— Eles podem realmente nos matar — disse ele.

— É um risco que temos de correr — ela respondeu. — Devemos isso ao nosso pai.

— Não estou discutindo.

E ele pensou: “Este é o caminho correto, estamos fazendo a coisa certa.”

Mas sabia quão perigoso era estar certo nesse universo. Sua sobrevivência agora exigia vigor, preparo e um entendimento das limitações de cada momento.

Os hábitos Fremen eram sua melhor armadura, e o conhecimento Bene Gesserit, uma força mantida em reserva. Ambos pensavam agora como veteranos de batalha treinados pelos Atreides, sem qualquer outra defesa senão a dureza Fremen que nem mesmo era sugerida por seus corpos infantis e suas roupas formais.

Leto passou o dedo pelo punho da faca cristalina, com a ponta envenenada, presa à sua cintura. Inconscientemente, Ghanima repetiu o gesto.

— Devemos descer agora? — perguntou ela.

Ao falar, percebeu o movimento bem abaixo deles, um movimento ligeiro que a distância tornava menos ameaçador. Sua imobilidade alertou Leto antes mesmo que ela pudesse pronunciar um aviso.

— Tigres — ele disse.

— Tigres Laza — corrigiu ela.

— Podem nos ver.

— É melhor nos apressarmos — ela disse. — Uma maula nunca deteria aquelas criaturas. Devem ter sido muito bem treinadas para isto.

— Devem ter um controlador humano em algum ponto à volta — indicou Leto, liderando a descida pelas rochas para a esquerda.

Ghanima concordou, mas guardou a concordância para si mesma, poupando suas forças. Haveria um ser humano em algum lugar das imediações.

Aqueles tigres não podiam ser soltos senão no momento adequado.

Os tigres moveram-se rapidamente à luz do crepúsculo, saltando de uma rocha para outra. Eram criaturas guiadas pelos olhos, e logo seria noite, hora das criaturas que se servem dos ouvidos. O Chamado de um pássaro noturno, como um toque de sino, partiu das rochas do Criado para enfatizar a mudança. Criaturas da escuridão já se movimentavam nas sombras das fendas delineadas.

Os tigres ainda permaneciam visíveis para os gêmeos que corriam. Os animais fluíam com energia, um senso ondulante de certeza em cada movimento.

Leto sentiu que tropeçara nesse lugar para se livrar de sua alma. Corria com a certeza de que ele e Ghanima poderiam alcançar em tempo sua fenda estreita, mas seu olhar continuava a se voltar, fascinado, para as feras que se aproximavam.

“Um tropeção e estamos perdidos”, pensou.

Esse pensamento reduziu a confiança de seu conhecimento e ele correu mais depressa.

Vocês Bene Gerrerit chamam sua atividade na Panóplia Profética de “Ciência da Religião”. Muito bem. Eu, um investigador em busca de outro tipo de cientista, acho essa definição adequada. Vocês de fato constroem seus próprios mitos, mas assim o fazem todas as sociedades.

Devo adverti-las, no entanto, de que estão se comportando do mesmo modo que tantos outros cientistas mal-orientados. Suas ações revelam que desejam tirar alguma coisa [para fora] da vida.

É hora de lembrar-lhes de algo que tão frequentemente professam: não se pode ter uma única coisa sem o seu oposto.

- O Pregador de Arrakeen: Mensagem à Irmandade

Naquelas horas que antecediam a alvorada, Jessica estava sentada, imóvel, sobre um tapete gasto de tecido de especiaria. À sua volta se encontravam as rochas nuas de um sietch velho e pobre, um dos povoados originais.

Situava-se abaixo da borda do Abismo Vermelho, abrigado do vento oeste do deserto. Al-Fali e seus irmãos a tinham levado até lá, agora, esperavam notícias de Stilgar. Os Fedaykin, contudo, haviam agido com muita cautela na questão das comunicações. Stilgar não devia conhecer-lhes a localização.

Os Fedaykin já sabiam estar inclusos num processo-verbal, um relatório oficial de crimes contra o Império. Alia alegava que sua mãe fora subornada por inimigos do reino, embora a Irmandade ainda não tivesse sido acusada. No entanto, a natureza tirânica e arbitrária dos poderes de Alia estava evidente e sua crença de que controlava os Fremen por controlar o clero encontrava-se a ponto de ser testada.

A mensagem de Jessica a Stilgar fora direta e simples: “Minha filha encontra-se possuída e deve ser submetida ao julgamento.”

Mas o medo minava os valores, e já se sabia que alguns Fremen prefeririam não acreditar nessa acusação. Suas tentativas de usar a acusação como passaporte provocaram duas batalhas durante a noite, mas os ornitópteros que o pessoal de al-Fali havia roubado conseguiram levar os fugitivos até esse local de segurança precária: o Sietch do Abismo Vermelho. Mensagens haviam sido enviadas para os Fedaykin, mas pouco mais de 200 deles permaneciam em Arrakis. Os outros ocupavam postos espalhados pelo Império.

Refletindo sobre esses fatos, Jessica se perguntava se havia ido para o lugar de sua morte. Alguns dos Fedaykin acreditavam nisso, mas os comandos da morte aceitavam tal perspectiva com muita facilidade. Al-Fali meramente sorrira para ela quando alguns de seus homens mais jovens tinham verbalizado seus temores.

— Quando Deus ordena que uma criatura morra em determinado lugar, Ele faz com que os desejos de tal criatura a levem a esse lugar.

As cortinas manchadas do portal se mexeram e al-Fali entrou. O rosto do velho, estreito e queimado pelo vento, parecia carrancudo, seus olhos, febris.

Obviamente, ainda não havia repousado.

— Alguém está chegando — disse ele.

— Da parte de Stilgar?

— Talvez. — Ele abaixou o olhar, virando-o para a esquerda, à maneira dos antigos Fremen quando traziam más notícias.

— Que foi? — quis saber Jessica.

— Recebemos notícias de Tabr de que seus netos não se encontram lá —

disse ele, sem olhar diretamente para ela.

— Alia ordenou que os gêmeos fiquem sob sua custódia, mas o Sietch Tabr relata que eles não se encontram lá. Isso é tudo que sabemos.

— Stilgar mandou-os para o deserto — sugeriu Jessica.

— É possível, mas sabe-se que ele passou a noite procurando por eles.

— Talvez fosse um truque dele...

— Isso não é típico de Stilgar — ela disse, e pensou: “A menos que os gêmeos o tenham levado a fazer isso.” Mas isso tampouco parecia muito provável.

Admirava-se consigo mesma: nenhuma sensação de pânico a eliminar, seus temores pelos gêmeos eram temperados por aquilo que Ghanima lhe revelara.

Ergueu o rosto para fitar al-Fali, encontrando-o a observá-la com compaixão nos olhos. Ela disse:

— Eles se foram para o deserto sozinhos.

— Sozinhos? Aquelas duas crianças!

Ela não se incomodou em explicar que “aquelas duas crianças”

provavelmente sabiam mais a respeito de sobrevivência no deserto do que a maioria dos Fremen vivos. Seus pensamentos estavam fixos no curioso comportamento de Leto, quando insistira em que permitisse que a sequestrassem.

Colocara essa memória de lado, mas o momento a exigia.

Leto lhe dissera que ela saberia quando chegasse o momento de lhe obedecer.

— O mensageiro deve estar chegando no sietch — disse al-Fali. — Vou trazê-lo à sua presença.

E saiu através das cortinas remendadas.

Jessica olhou para a cortina. Tratava-se de um pano vermelho, feito com fibra de especiaria, mas as manchas eram azuis. Dizia-se que esse sietch se recusara a lucrar com a religião do Muad'Dib, conquistando com isso a inimizade do clero de Alia. As pessoas dali, contava-se, haviam empregado seu capital num plano para criar cães tão grandes quanto pôneis, com inteligência apurada, para servirem de guardiães para as crianças. Mas os cães haviam morrido, todos. Alguns diziam que fora veneno, e os sacerdotes eram culpados por isso.

Jessica sacudiu a cabeça para afastar essas reflexões, reconhecendo-as pelo que eram: ghafla, a distração vagueante.

Para onde teriam ido aquelas crianças? Para jacurutu? Elas tinham um plano. “Tentaram me esclarecer até o ponto em que pensavam que eu poderia aceitar”, lembrou-se. E quando alcançaram os limites, do modo como os viam, Leto lhe ordenara que obedecesse.

Ele ordenara a ela.

Leto percebera o que Alia estava fazendo, isso era óbvio. Ambos os gêmeos haviam falado da “aflição” de sua tia, mesmo quando a defendiam. Alia

estava pondo em jogo a retidão de sua posição na Regência. Sua exigência quanto à custódia dos gêmeos o confirmava. E Jessica surpreendeu-se com uma risada cruel sacudindo-lhe o próprio peito. A Reverenda Madre Gaius Helen Mohian gostava de explicar esse erro específico a sua aluna Jessica: “Se você focalizar sua consciência unicamente sobre a própria retidão, convidará as forças da oposição a que a dominem. Esse é um erro comum. Mesmo eu, sua mestra, já o cometi.”

— E mesmo eu, sua aluna, — o cometi sussurrou Jessica para si mesma.

Ouviu os tecidos sussurrarem à passagem de alguém além das cortinas.

Dois jovens Fremen entraram, parte do grupo que se havia reunido durante a noite.

Os dois mostraram-se obviamente admirados por estarem na presença da mãe do Muad'Dib. Jessica fez deles uma análise completa: não se tratava de pensadores, eram pessoas que se ligariam a qualquer poder visionário em busca da identidade que isso lhes pudesse proporcionar. Sem um reflexo da parte dela, eram vazios. E, por isso, perigosos.

Continuar: parte 2 de 2