Os Filhos de Duna
— Acredita que sejamos completas idiotas? — perguntou Jessica.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— De fato acredito. Sua Irmandade não é mais que um punhado de mulheres velhas e tolas que não pensaram em nada além de seu precioso projeto de procriação! Gham e eu sabemos do trunfo que elas possuem. Vocês pensam que nós somos tolos?
— Trunfo?
— Elas sabem que a senhora é uma Harkonnen! Está escrito em seus registros de procriação: Jessica gerada em Tanidia Nerus pelo Barão Vladimir Harkonnen. Esse registro, tornado público acidentalmente, arrancaria suas garras...
— Você pensa que a Irmandade iria rebaixar-se à chantagem?
— Eu sei o que ela faria. Oh, elas souberam como dourar a pílula.
Disseram-lhe que investigasse os rumores a respeito de sua filha. Alimentaram sua curiosidade e seus temores. E invocaram seu senso de responsabilidade, fazendo com que se sentisse culpada por ter fugido para Caladan. E lhe ofereceram a perspectiva de poder salvar seus netos.
Jessica só podia fitá-lo em silêncio. Era como se ele houvesse presenciado aquele encontro emocional com as procuradoras da Irmandade.
Sentiu-se completamente vencida por suas palavras e agora começava a aceitar a possibilidade de que ele estivesse falando a verdade quando dizia que Alia planejava o rapto.
— Como vê, vovó, tenho uma decisão difícil a tomar — ele disse. —
Devo seguir a mística dos Atreides? Viver para meus súditos... ou morrer por eles?
Ou devo escolher outro caminho. Um caminho que me permitiria viver milhares de anos?
Jessica estremeceu involuntariamente. Essas palavras, ditas com tal tranquilidade, tocavam num assunto que as Bene Gesserit s tornavam quase impensável. Muitas Reverendas Madres poderiam escolher aquele caminho... ou tentá-lo. A manipulação da química interna do corpo era disponível às iniciadas na Irmandade. Mas se uma o fizesse, cedo ou tarde todas iriam tentar. E não haveria meio de ocultar tal acumulação de mulheres imunes à velhice. Elas sabiam com certeza que tal caminho as conduziria à destruição. A humanidade de vida curta se voltaria contra elas. Não... era impensável.
— Não gosto do curso dos seus pensamentos — disse ela.
— A senhora não entende meus pensamentos. Gham e eu... — Ele sacudiu a cabeça. — Alia teve isso ao seu alcance e jogou fora.
— Tem certeza disso? Já enviei mensagem à Irmandade avisando que Alia pratica o impensável. Olhe para ela! Ela não envelheceu um dia desde que eu...
— Oh, isso! — ele rejeitou a possibilidade do equilíbrio corporal Bene Gesserit com um aceno de sua mão. — Estou falando de alguma coisa a mais: uma perfeição de ser muito além de qualquer coisa que os seres humanos jamais conseguiram.
Jessica permaneceu em silêncio, horrorizada com a maneira fácil com que ele lhe arrancara sua descoberta. Ele saberia, com certeza, que tal mensagem representava uma sentença de morte para Alia. E não importava o modo como ele mudasse o fraseado, só podia estar falando em cometer a mesma ofensa. Será que não conhecia o perigo contido em suas palavras?
— Deve explicar-se — conseguiu ela dizer finalmente.
— Como? — ele indagou. — A menos que entenda que o Tempo não é o que parece, não poderei nem começar a explicar. Meu pai suspeitava disso. Ele chegou à beira da compreensão, mas recuou. Agora é tarefa minha e de Gham.
— Insisto em que explique — exigiu Jessica enquanto segurava a agulha envenenada guardada em uma dobra de seu manto. Tratava-se do gom jabbar, tão mortal que a menor picada mataria em questão de segundos. E ela pensou: “Elas me avisaram que eu poderia ser obrigada a usá-lo.” O pensamento enviava ondas de tremores através dos músculos de seu braço, e Jessica sentia-se grata pelo manto a ocultar-lhe o corpo.
— Muito bem — ele suspirou. — Primeiro quanto ao Tempo. Não há diferença entre 10 mil anos e um ano, nenhuma diferença entre 100 mil anos e o espaço da batida de um coração. Nenhuma diferença. Esse é o primeiro fato a respeito do Tempo. E o segundo fato: o universo inteiro, com todo o seu Tempo, encontra-se dentro de mim.
— Que tolice é essa?
— Está vendo? A senhora não compreende. Vou tentar explicar de outro modo, então. — Ergueu a mão direita para ilustrar, movendo-a enquanto falava. —
Nós avançamos, nós recuamos.
— Essas palavras não explicam nada!
— Isso é correto — ele disse. — Há coisas que as palavras não podem explicar. Deve-se experimentá-las sem palavras. Mas não está preparada para tal aventura, exatamente como quando olha para mim e não me vê.
— Mas... Eu estou olhando diretamente para você. É claro que eu o vejo!
Olhou furiosa para o menino. Suas palavras refletiam o conhecimento do Codex Zenzunni, tal como lhe havia sido ensinado nas escolas Bene Gesserit: um jogo de palavras para confundir o conhecimento filosófico de alguém.
— Algumas coisas acontecem além de seu controle — ele disse.
— E como isso explica essa... essa perfeição tão além das demais experiências humanas?
Ele acenou com a cabeça.
— Se alguém retarda a velhice ou a morte pelo uso da melange ou pelo ajustamento do equilíbrio corporal aprendido, que vocês Bene Gesserit s temem com razão, tal retardo apenas invoca uma ilusão de controle. Se alguém caminha rapidamente ou lentamente através de um sietch, atravessa do mesmo modo. E essa passagem do tempo é vivenciada internamente.
— Por que você joga com as palavras dessa maneira? Eu afiava minha sabedoria com essas tolices antes mesmo que seu pai houvesse nascido.
— E terá a sabedoria aumentado?
— Palavras, palavras!
— Ah, está chegando perto!
— Hein?
— Vovó?
— Sim?
Ele permaneceu em silêncio por longo momento. Depois disse:
— Está vendo? Ainda pode responder por si mesma. — Sorriu para ela.
— Mas não é capaz de ver além das sombras. Eu estou aqui. — Novamente ele sorriu. — Meu pai chegou muito perto disso. Quando viveu, ele viveu, mas quando morreu fracassou na morte.
— Que está dizendo?
— Mostre-me seu corpo!
— Acredita que esse Pregador É possível, mas, ainda assim, aquele não é o seu corpo.
— Não está explicando nada — ela acusou.
— Exatamente como adverti.
— Então por que...
— Porque perguntou. Eu tinha de lhe mostrar. Agora vamos voltar a Alia e seus planos de sequestro...
— Está planejando o impensável? — ela exigiu saber, segurando o venenoso gom jabbar pronto para uso embaixo de seu manto.
— Seria o carrasco dela? — perguntou ele por sua vez, a voz falsamente branda. E apontou o dedo para a mão que ela ocultava sob o manto. — Pensa que ela lhe daria a chance de usar isso? Ou que eu permitirei que o use?
Jessica descobriu-se incapaz de engolir.
— Em resposta à sua pergunta, não planejo o impensável — ele disse. —
Não sou tão estúpido. Mas fiquei chocado com a senhora. Atreve-se a julgar Alia. É
claro que ela quebrou o precioso mandamento Bene Gesserit! Que esperava dela?
Você fugiu dela, deixando-a como rainha em tudo menos no nome. Todo aquele poder! Enquanto fugia para Caladan, para curar seus ferimentos nos braços de Gurney. Muito bem. Mas quem é a senhora para julgar Alia?
— Eu lhe avisei. Não vou per...
— Ora, cale-se!
Ele voltou o rosto na direção oposta a ela, enfastiado. Entretanto, suas palavras haviam sido pronunciadas naquele modo especial das Bene Gesserit s a Voz controladora. Aquilo a silenciou como se lhe houvessem tapado a boca. E ela pensou: “Quem saberia como me atingir com a Voz melhor do que ele?” Era um argumento consolador que aliviava seus sentimentos feridos. Como muitas vezes ela usara a Voz com outras pessoas, jamais esperara ser-lhe suscetível... não de novo... não desde seus dias de escola, quando...
Ele voltou-se novamente para ela.
— Sinto muito. É só que sei o quão cegamente se espera que reaja a...
— Cegamente? Eu? — Mostrou-se mais indignada com isso do que ficara por seu excelente uso da Voz contra si.
— Sim — ele disse. — Cegamente. Se ainda lhe resta alguma honestidade, vai reconhecer suas próprias reações. Eu chamo seu nome e a senhora diz “Sim?”.
Eu silencio a sua língua. Invoco todos os seus mitos Bene Gesserit. Olhe seu interior do modo como lhe foi ensinado. Isso, pelo menos, é algo que pode fazer por sua...
— Como se atreve! O que sabe do... — Sua voz calou-se. É claro que ele sabia!
— Olhe o seu interior, eu digo! — Sua voz era imperiosa.
Novamente, a voz dele a dominou. Jessica sentiu os sentidos paralisados, a respiração acelerada.
Muito além de sua consciência espreitava um coração batendo, a respiração cansada de um...
De repente, percebeu que a respiração acelerada, o coração batendo não eram latentes, não eram controláveis por seu domínio Bene Gesserit. Com os olhos se dilatando no choque da descoberta, sentiu a própria carne sendo controlada por outros. Lentamente, recuperou a pose, mas a consciência permaneceu. Durante toda a entrevista, essa não-criança tocara suas reações como se ela fosse um instrumento afinado.
— Agora sabe o quão profundamente foi condicionada por suas preciosas Bene Gesserit s — disse ele.
Ela só podia assentir afirmativamente. Sua crença nas palavras fora destroçada. Leto a forçara a olhar seu próprio universo físico bem de cara, e ela ficara abalada, a mente fugindo com uma nova consciência das coisas. “Mostre-me seu corpo!” Ele lhe mostrara o próprio corpo como se ela fosse uma recém-nascida. Isso não lhe acontecia desde seus primeiros dias de escola em Wallach, desde aqueles dias aterrorizantes antes que os compradores do Duque a viessem
buscar. Desde então, não sentia tal incerteza assustadora quanto a seus próximos instantes de vida.
— Vai permitir que a sequestrem — disse Leto.
— Mas...
— Não estou pedindo para discutir isso. Vai permitir o sequestro. Pense nisso como uma ordem do seu Duque e verá seus motivos quando estiver feito. Vai confrontar um estudante muito interessante.
Leto levantou-se e acenou. Depois disse:
— Alguns atos têm um fim, mas não um começo, outros começam e não terminam. Tudo depende de onde se coloca o observador. — Voltando-se, deixou os aposentos.
Na segunda antecâmara, Leto encontrou Ghanima, correndo para seus aposentos particulares. Ela parou quando o viu e disse:
— Alia está ocupada com a Assembléia da Fé. — Depois olhou indagadoramente para a passagem que conduzia aos aposentos de Jessica.
A Atrocidade é reconhecida como tal igualmente por aquele que a sofre como por aquele que a comete, e por todos que dela tomam conhecimento em qualquer lugar. Não existem desculpas para a atrocidade, nenhum argumento que a alivie. A atrocidade nunca equilibra ou corrige o passado. Meramente prepara o futuro para mais atrocidades. Ela é auto-perpetuadora... uma forma bárbara de incesto. Quem quer que cometa atrocidades torna-se também responsável pelas futuras atrocidades assim geradas.
- Os Apócrifos do Muad'Dib
Pouco depois do meio-dia, quando a maioria dos peregrinos se afastara para se refrescar em uma sombra ou fonte de bebida que pudesse encontrar, o Pregador entrou no grande quadrado abaixo do Templo de Alia, guiado pela mão de seus olhos alugados, o jovem Assan Tariq. Num bolso debaixo de seu manto fluido, o Pregador levava a máscara de gaze negra que usara em Salusa Secundus.
Divertia-lhe o pensamento de que a máscara e o rapaz serviam ao mesmo propósito: disfarce. Enquanto precisasse de olhos alugados, as dúvidas permaneceriam.
“Deixe que o mito cresça, mas mantenha as dúvidas bem vivas”, pensava.
Ninguém devia saber que a máscara era apenas pano, e não um artefato ixiano. Sua mão não devia deixar o ombro ossudo de Assan Tariq. Permita que o Pregador caminhe apenas uma vez como os dotados de visão, a despeito de suas órbitas vazias, e todas as dúvidas se dissolverão. A pequena esperança que ele nutria estaria morta. A cada dia ele orava por uma mudança, alguma coisa diferente na qual pudesse tropeçar, mas até mesmo Salusa Secundus fora um seixo, cada aspecto conhecido. Nada mudara, nada podia ser modificado... ainda.
Muitas pessoas notaram sua passagem pelas lojas e arcadas, observando a maneira como ele voltava a cabeça para um lado e para o outro, mantendo-a centrada sobre um portal ou uma pessoa. Os movimentos de sua cabeça nem sempre eram os que se esperariam de um cego, e isso alimentava o mito crescente.
Alia observava de uma abertura em forma de fenda na elevada ameia de seu templo. Examinava aquela face cheia de cicatrizes lá embaixo buscando um sinal... um indício preciso de sua identidade. Todos os rumores lhe eram relatados.
E cada um chegava com a emoção do medo.
Pensara que suas ordens para aprisionar o Pregador permaneceriam secretas, mas estas também lhe retornavam agora como boatos. Mesmo entre seus guardas, alguém não conseguia ficar calado. Esperava agora que a guarda seguisse suas novas ordens e não capturasse esse mistério envolto em mantos num lugar público, onde tudo pudesse ser visto e relatado.
A praça estava quente e poeirenta. O jovem guia do Pregador puxara o véu de seu manto sobre o nariz, deixando apenas os olhos escuros e um estreito trecho da testa descobertos. O véu inchava com os contornos do tubo de recolhimento do traje-desolador. Isso revelava a Alia que eles tinham vindo do deserto. Onde será que se escondiam por lá?
O Pregador não usava um véu protetor contra o ar ressecante. Chegara mesmo a abaixar a dobra do tubo recolhedor de seu traje, sua face encontrando-se descoberta para a luz do sol e o calor tremeluzente que se erguia em ondas visíveis dos blocos da pavimentação.
Nos degraus do Templo, encontrava-se um grupo de nove peregrinos fazendo sua mesura de despedida. O lado da praça abrigado pelas sombras devia conter mais umas 50 pessoas, a maioria peregrinos devotando-se às várias penitências impostas pelo clero. Entre as testemunhas encontrar-se-iam mensageiros e alguns mercadores que ainda não haviam vendido o suficiente para fecharem durante a parte mais quente do dia.
Observando da fenda, Alia sentia o calor suarento e encontrava-se presa entre o pensamento e a sensação, do modo como frequentemente vira acontecer com seu irmão. A tentação de consultar seu interior ressoava como um zumbido funesto em sua cabeça. O Barão estava lá: ocupado, mas sempre pronto a jogar com seus temores quando o julgamento racional falhava e as coisas ao redor perdiam o senso de passado, presente e futuro.
“E se aquele lá for Paul?”, perguntou-se.
— Tolice — respondeu a voz dentro dela.
Mas não se podia duvidar dos relatos sobre as palavras do Pregador.
“Heresia!”
Pensar que o próprio Paul pudesse derrubar a estrutura erguida sobre seu nome era algo que a aterrorizava.
“Por que não?”
E pensou no que dissera durante o Conselho daquela manhã, quando se voltara raivosamente contra Irulan, insistindo em apressar a aceitação das roupas enviadas como presente pela Casa Corrino.
— Todos os presentes para os gêmeos serão examinados minuciosamente, como de costume — argumentara Irulan.
— E quando considerarmos o presente inofensivo? — gritara Alia.
De algum modo, aquela fora a coisa mais assustadora de todas: descobrir que o presente não acarretava qualquer ameaça.
No final, eles haviam aceito os finos tecidos e passado para a outra questão em debate: seria concedida a Lady Jessica uma posição no Conselho? Alia conseguira adiar a votação.
Pensava nisso enquanto olhava para o Pregador, lá embaixo.
As coisas que aconteciam com sua Regência eram agora como a outra face das transformações que haviam sido impostas ao planeta. Duna já simbolizara o poder do derradeiro deserto. Esse poder encolhera fisicamente, mas seu mito crescera, tomando corpo. Somente o deserto- oceano permanecia, o grande Deserto-Mãe do interior do planeta, com sua orla de espinheiros, que os Fremen ainda Chamavam de Rainha da Noite. Por trás dos arbustos espinhentos, erguiam-se suaves colinas verdes ondulando para a areia. Todas as colinas tinham sido feitas pelo homem. Cada uma delas fora plantada por homens que haviam trabalhado como insetos rastejantes. O verde daquelas colinas era quase acabrunhante para alguém criado, como Alia o fora, na tradição das areias sombreadas de castanho.
Em sua mente, assim como na de todos os Fremen, o deserto-oceano ainda prendia Duna com garras que nunca relaxariam. Ela só tinha de fechar os olhos para tornar a ver esse deserto.
Quem agora abrisse os olhos na orla do deserto veria as colinas verdejantes, o limo do pântano estendendo verdes pseudópodes em direção às areias mas o outro deserto permanecia poderoso como sempre.
Alia sacudiu a cabeça e olhou para o Pregador.
Ele alcançara o primeiro dos terraços-degraus abaixo do Templo e voltara o rosto para a praça quase deserta. Alia tocou no botão abaixo de sua janela, que amplificava as vozes lá de baixo. Sentia uma onda de autopiedade, vendo-se presa ali, em sua solidão. Em quem poderia confiar?
Pensara que Stilgar permaneceria digno de sua confiança, mas também ele fora afetado por esse cego.
— Você sabe como ele conta? — perguntara-lhe Stilgar. — Eu o ouvi contando moedas enquanto pagava seu guia. Foi muito estranho para meus ouvidos de Fremen, e isso é uma coisa terrível. Ele conta: “shuc, ishcai, qimsa, chuascu, picha, sucta” e assim por diante. Não ouço alguém contando desse modo desde os velhos dias no deserto.
Com isso, Alia percebera que Stilgar não poderia ser enviado para realizar o trabalho que precisava ser feito. E teria de ser cautelosa com sua guarda, onde a mais leve ênfase da Regência tendia a ser recebida como uma ordem absoluta.
O que esse Pregador estaria fazendo ali?
O mercado circundante, debaixo de suas galerias e arcadas protetoras, ainda apresentava um aspecto vistoso: mercadorias deixadas em exposição sob a guarda de alguns meninos. Uns poucos mercadores permaneciam despertos,
farejando biscoitos de especiaria, dinheiro do interior ou o tilintar da bolsa de um peregrino.
Alia observou as costas do Pregador. Ele parecia pronto a falar, mas alguma coisa ainda continha sua voz.
“Por que me coloco aqui, olhando aquela ruína de carne ancestral?”, perguntou-se ela. “Aquele destroço ambulante lá embaixo não pode ser o “vaso de magnificência” que um dia foi. Um sentimento fronteiriço entre a frustração e a raiva a dominou. Como ela poderia descobrir o que precisava a respeito do Pregador, descobrir com certeza, sem verificar? Encontrava-se tolhida. Não se atrevia a revelar mais que uma curiosidade passageira a respeito desse herege.
Irulan percebia isso. Ela perdera sua famosa pose de Bene Gesserit e gritara em Conselho:
— Nós perdemos a capacidade de pensar bem de nós mesmos! — Até mesmo Stilgar ficara chocado.
Javid lhes restituíra a calma, dizendo:
— Não temos tempo para essa tolice!
Javid estava certo. Que importava o que eles pensavam de si mesmos? O
importante era manter o poder imperial. Mas Irulan, recuperando sua pose, fora ainda mais devastadora:
— Nós perdemos alguma coisa vital, eu lhes digo. E quando a perdemos, perdemos também a capacidade de tomar boas decisões. Tomamos nossas decisões hoje em dia tal como tomamos uma posição inimiga. Ou então esperamos e esperamos, o que é uma forma de desistência, e permitimos que as decisões dos outros ditem nosso comportamento. Será que nos esquecemos de que fomos nós que fizemos fluir essa corrente?
E tudo isso em torno da aceitação do presente da Casa Corrino.
Irulan teria de ser eliminada, decidiu Alia.
O que aquele homem lá embaixo estava esperando? Chamava a si mesmo de Pregador. Então, por que não pregava?
Irulan estava errada quanto à nossa capacidade de tomar decisões, disse Alia a si mesma. “Eu ainda posso tomar as decisões necessárias!” Uma pessoa com decisões de vida ou morte a serem tomadas deve tomá-las ou permanecer presa a um pêndulo. Paul sempre dissera que a êxtase era a mais perigosa das coisas não-naturais. A única permanência era a fluidez.
A mudança era tudo o que importava.
“Eu lhes mostrarei o que é mudança!”, pensou Alia.
O Pregador ergueu os braços numa bênção.
Alguns dos que permaneciam na praça aproximaram-se dele e Alia notou a lentidão com que se moviam. Sim, corriam boatos de que o Pregador desagradava a Alia. Ela curvou-se próximo do fone ixiano, ao lado da abertura de espionagem. O
alto-falante trouxe-lhe os murmúrios das pessoas na praça, o som do vento, o arranhar de pés na areia.
— Eu lhes trago quatro mensagens! — disse o Pregador. Sua voz gritou no alto-falante e ela abaixou o volume.
— Cada mensagem destina-se a determinada pessoa — disse o Pregador.
— A primeira mensagem é para Alia, suserana deste lugar. — E ele apontou para trás, na direção da fenda de onde ela espionava. — Eu lhe trago uma advertência: você, que tem no ventre o segredo da permanência, vendeu seu futuro por uma bolsa vazia!
“Como ele se atreve?”, pensou ela, mas as palavras a imobilizaram.
— Minha segunda mensagem — disse o Pregador — é para Stilgar, o Naib Fremen que acredita poder traduzir o poder das tribos em poder imperial. Meu aviso a você, Stilgar: a mais perigosa de todas as criações é um rígido código de ética. Ele se voltará contra você e o levará ao exílio!
“Ele já foi longe demais”, pensou Alia. “Devo mandar os guardas, não importa quais sejam as consequências.” Mas suas mãos permaneceram abaixadas.
O Pregador voltou-se para encarar o Templo, subiu o segundo degrau e uma vez mais se voltou para a praça, o tempo todo mantendo a mão esquerda sobre o ombro de seu guia. E gritou novamente:
— Minha terceira mensagem é para a Princesa Irulan. Princesa! A humilhação é algo que ninguém pode esquecer. Eu a aviso para que fuja!
“O que ele está dizendo?”, indagou-se Alia. “Nós humilhamos Irulan, mas... Por que ele a avisa para fugir? Minha decisão acabou de ser tomada!” Um arrepio de medo propagou-se através de Alia. “Como esse Pregador poderia saber?”
— Minha quarta mensagem é para Duncan Idaho — gritou ele. —
Duncan, você aprendeu a acreditar que lealdade compra lealdade. Oh, Duncan, não creia na história pois a história é impelida por qualquer coisa que sirva como dinheiro. Duncan! Pegue seus chifres e faça aquilo que sabe fazer melhor.
Alia mordeu as costas da mão direita. “Chifres!” Queria estender a mão e apertar o botão que chamaria os guardas, mas a mão se recusava a se mexer.
— Agora eu pregarei para vocês — disse o Pregador. — Este é um sermão do deserto. Eu o dirijo aos ouvidos do clero do Muad'Dib, àqueles que praticam o ecumenismo da espada. Ó crentes no destino manifesto! Não sabem que o destino manifesto tem seu lado demoníaco? Vocês gritam que se sentem enaltecidos meramente por terem vivido nas abençoadas gerações do Muad'Dib. Eu lhes digo que vocês abandonaram o Muad'Dib. A santidade substituiu o amor em sua religião!
Vocês procuram a vingança do deserto.
E o Pregador abaixou a cabeça como que em prece.
Alia sentia-se trêmula ante o que ouvira. Deus do céu, que voz! Uma voz ferida por anos nas areias cauterizantes, mas que poderia ser um resquício da voz de Paul.
Uma vez mais o Pregador ergueu a cabeça. Sua voz trovejou sobre a praça, onde mais pessoas haviam começado a se reunir, atraídas por essa curiosidade vinda do passado.
— Assim está escrito — gritou o Pregador. — Aquele que ora por orvalho na orla do deserto trará inundação! Eles não escaparão de seu destino através dos poderes da razão! A razão vem do orgulho que um homem pode não reconhecer
dessa forma quando já fez o mal. — Ele abaixou a voz. — Diz-se do Muad'Dib que ele morreu de presciência, que o conhecimento do futuro o matou e que ele passou deste universo da realidade para o alam al-mythal. Eu lhes digo que isso é uma ilusão de Mava. Tais pensamentos não possuem realidade independente. Eles não podem deixar vocês e realizar coisas reais. O Muad'Dib disse de si mesmo que não era dotado da magia Riham com a qual poderia codificar o universo. Não duvidem dele.
Novamente o Pregador ergueu os braços e elevou a voz num brado estentóreo.
— Eu advirto o clero do Muad'Dib! O fogo do penhasco os queimará!
Aqueles que aprendem a lição da auto-ilusão deverão perecer vitimados pela própria ilusão. O sangue de um irmão não pode ser esquecido!
Ele abaixara os braços, encontrara seu guia e estava deixando a praça antes que Alia pudesse superar a trêmula imobilidade que a dominara.
Tamanha heresia exposta sem medo! Tinha de ser Paul. Precisava avisar os guardas. Eles não se atreviam a agir contra esse Predador em campo aberto. O que ocorrera lá embaixo na praça confirmava isso.
A despeito da heresia, ninguém procurara deter o Pregador. Nenhum guarda do Templo saltara para persegui-lo. Nenhum peregrino tentara interrompê-lo.
Aquele cego carismático! Todos que o viam ou ouviam sentiam seu poder, o reflexo de seu talento divino.
A despeito do calor do dia, Alia subitamente sentiu frio. Sentiu a fragilidade de seu domínio sobre o Império como uma coisa física.
Segurava a beirada de sua fenda de vigilância como se segurasse o poder, sentindo como lhe podia escapar. O equilíbrio entre o Landsraad, a CHOAM e o poder dos Fremen mantinha o núcleo desse poder, enquanto a Corporação Espacial e a Bene Gesserit agiam silenciosamente, nas sombras.
A proibição da importação de desenvolvimentos tecnológicos provenientes das fronteiras mais distantes da humanidade corroía esse poder central.
Os produtos permitidos às fábricas dos ixianos e dos Tleilaxu não conseguiam aliviar a pressão. E sempre ao fundo se erguia Faradin, da Casa Corrino, herdeiro dos títulos e reivindicações de Shaddam IV.
Sem os Fremen, sem o monopólio da Casa Atreides sobre a especiaria geriátrica, esse domínio seria perdido. Todo o poder se dissolveria. Ela podia senti-lo escorregando de suas mãos nesse momento. As pessoas davam atenção a esse Pregador. Seria perigoso silenciá-lo, assim como seria perigoso deixá-lo continuar pregando palavras como as que gritara na praça. Ela podia sentir os primeiros prenúncios de sua própria derrota, e o padrão do problema se delineava claramente em sua mente. As Bene Gesserit s haviam codificado esse problema:
“Uma grande população pode ser dominada por uma força pequena, mas poderosa, essa é uma situação muito comum em nosso universo. E nós conhecemos as principais condições pelas quais essa grande população pode voltar-se contra seus dominadores.
“1) Quando ela encontra um líder. Essa é a vais volátil ameaça aos poderosos, eles devem manter controle sobre os líderes.
“2) Quando a população reconhece a opressão. Mantenha a população cega e sem questionar.
“3) Quando a população percebe a esperança de fugir ao domínio. Ela não deve nem mesmo acreditar que a libertação é possível!”
Alia sacudiu a cabeça, sentindo as bochechas tremerem com a força do movimento. Os sinais estavam ali em seu povo. Cada relatório que recebia de seus espiões espalhados pelo Império reforçava a certeza de seu conhecimento. A guerra incessante do Jihad Fremen deixara sua marca em toda parte. Em qualquer lugar tocado pelo “ecumenismo da espada” a população mantinha uma atitude de povo dominado: defensiva, oculta, evasiva. Todas as manifestações de autoridade e isso significava essencialmente a autoridade religiosa, tornavam-se capazes de suscitar ressentimento. Ah, os peregrinos ainda vinham aos milhões, e alguns deles provavelmente eram devotos. Mas para a maioria a peregrinação tinha outros motivos que não a devoção. Mais frequentemente, era um modo astuto de garantir o futuro. Ela enfatizava a obediência e produzia uma forma verdadeira de poder que se traduzia facilmente em riqueza. O Hajji que retornava de Arrakis voltava para casa com nova autoridade, novo status social. O Hajji podia tomar decisões lucrativas que os que haviam ficado em seu mundo não se atreveriam a desafiar.
Alia conhecia a popular charada: “Que se enxerga dentro da bolsa vazia daqueles que voltaram de Duna?” E a resposta: “Os olhos do Muad'Dib (diamantes de fogo).”
Os métodos tradicionais para dominar a crescente agitação popular enfileiraram-se diante de Alia: as pessoas deviam aprender que a oposição era sempre punida e a ajuda ao governante, sempre recompensada. As forças imperiais devem ser transferidas ao acaso. Os principais acessórios do poder imperial devem permanecer ocultos. E cada movimento com que a Regência se opõe a um ataque em potencial requer delicada sincronia para manter a oposição em desequilibrio.
“Será que perdi meu senso de oportunidade?”, ela se indagou.
— Que tola especulação é essa? — perguntou uma voz dentro dela. Sentiu que ficava mais calma. Sim, o plano do Barão era bom. Nós eliminamos a ameaça de Lady Jessica e ao mesmo tempo desacreditamos a Casa Corrino. Sim.
Depois cuidaria do Pregador. Entendia sua postura. O simbolismo era claro. Ele era o espírito ancestral da especulação desenfreada, o espírito da heresia, vivo e funcionando em seu deserto de ortodoxia. Essa era sua força. Não importava se ele era ou não Paul... desde que essa dúvida pudesse ser mantida.
Entretanto, o conhecimento Bene Gesserit de Alia lhe dizia que a força do Pregador poderia conter a chave de suas fraquezas.
“O Pregador deve ter uma falha que possamos encontrar. Farei com que o espionem, o observem a cada momento. E, se a oportunidade surgir, ele será desacreditado.”
Não vou questionar ar afirmações dos Fremen no sentido de que são divinamente inspirados a transmitir a revelação religiosa. Sua simultânea reivindicação de possuírem a revelação ideológica é que me inspira, a menos é claro que eles fazem essa dupla reivindicação na esperança de que tal crença fortaleça seu mandato e os ajude a permanecer num universo que os julga cada vez mais opressivos. E é em nome de todos esses povos oprimidos que eu advirto os Fremen: expedientes úteis a curto prazo sempre fracassam a longo prado.
- O Pregador de Arrakeen
Durante a noite, Leto subira com Stilgar até uma estreita saliência na crista do afloramento de rochas pouco elevadas a que os habitantes do Sietch Tabr deram o nome de o Criado. Sob a luz minguante da Segunda Lua, a saliência oferecia-lhes uma visão panorâmica: a Muralha Escudo com o monte Idaho ao norte, a Grande Planície ao sul, com dunas ondulando para leste, em direção à cordilheira Habbanya. A poeira no ar, resultante de uma tempestade recente, ocultava o horizonte ao sul, enquanto a luz do luar dava uma aparência de geada à borda da Muralha Escudo.
Stilgar fora até ali contra a sua vontade, entrando nessa aventura secreta porque Leto despertara sua curiosidade. Por que motivo era necessário arriscar-se a uma travessia pela areia durante a noite? O garoto ameaçara fugir e fazer a caminhada sozinho se Stilgar se recusasse a acompanhá-lo. Isso o perturbara profundamente. Dois alvos tão importantes sozinhos no meio da noite!
Leto agachou-se na saliência, olhando para o sul, em direção à planície.
Ocasionalmente, batia no joelho como se estivesse frustrado.
Stilgar aguardou. Ele era bom em esperas silenciosas, e estava a dois passos de seu protegido, braços cruzados, o manto ondulando suavemente à brisa noturna.
Para Leto, a travessia na areia representava uma resposta ao desespero interior, uma necessidade de buscar um novo alinhamento para sua vida no conflito silencioso ao qual Ghanima não mais poderia arriscar-se. Ele conduzira Stilgar no sentido de compartilhar essa jornada porque essas eram coisas que Stilgar devia saber a fim de se preparar para o que vinha pela frente.
Novamente Leto bateu no joelho. Era difícil conhecer um início! Às vezes se sentia como extensão de todas aquelas incontáveis vidas, todas tão próximas e reais como a sua própria. No fluir daquelas vidas não havia fim nem realização apenas o eterno começar. Elas podiam ser uma turba também, todas gritando-lhe como se ele fosse uma única janela através da qual cada um desejasse observar. E aí se encontrava o perigo que destruíra Alia.
Leto olhou para longe, vendo a luz do luar pratear os restos da tormenta.
Dobras e sobredobras de dunas estendiam-se sobre a planície: areia de sílica carregada pelo vento, moldada em ondas areiaervilha, areia pulverizada e cascalhos. Sentia-se apanhado num daqueles momentos de imobilidade que antecediam a aurora. O tempo se comprimia sobre ele. Já era o mês de Akkad e para trás se estendia um interminável tempo de espera: dias longos e quentes,
ventos quentes e secos, noites como essa, atormentadas por rajadas e sopros intermináveis vindos da fornalha que eram as terras do bled do Falcão. Olhou por sobre o ombro na direção da Muralha Escudo, uma linha recortada contra a luz das estrelas. Além daquela Muralha, na Depressão ao Norte, se encontrava o foco de seus problemas.
Uma vez mais, contemplou o deserto. E, enquanto olhava no calor da escuridão, o dia raiou, o sol elevando-se das bandas de poeira e dando um toque de amarelo aos fiapos vermelhos da tempestade. Ele fechou os olhos, desejando imaginar como esse dia apareceria visto de Arrakeen, e a cidade se estendeu em sua consciência, captada como um conjunto de caixas espalhadas entre a luz e as novas sombras. Deserto... caixas... deserto... caixas...
Quando abriu os olhos, o deserto permanecia lá: uma ampla extensão marrom de areias sopradas pelos ventos. Sombras oleosas, ao longo da base de cada duna, estendiam-se como os raios da noite que acabara de passar.
Elas ligavam um tempo ao outro. Leto pensou na noite passada ali com Stilgar inquieto ao seu lado, preocupado com o silêncio e as razões não-explicadas de ter ido a esse lugar. Stilgar devia ter muitas memórias de noites assim passadas com o seu adorado Muad'Dib. Mesmo agora, Stilgar estava em movimento, observando tudo à sua volta, alerta aos perigos. Ele não gostava de ficar ao ar livre durante o dia. E nisso era um puro Fremen dos velhos tempos.
A mente de Leto relutava em abandonar a noite e o esforço limpo de uma travessia da areia. Uma vez ali, nas rochas, a noite assumira sua negra imobilidade.
Ele entendia os temores de Stilgar em relação à luz do dia.
O negro era uma coisa só, mesmo quando continha fervilhantes terrores.
A luz podia ser muitas coisas. A noite continha os odores do medo e suas criaturas que chegavam com sons resvalantes. As dimensões se distinguiam na noite, tudo se ampliava espinhos mais agudos, lâminas mais cortantes. Mas os terrores do dia podiam ser piores.
Stilgar pigarreou.
Leto falou sem se voltar:
— Tenho um problema muito sério, Stil.
— Assim suspeitei.
A voz ao lado de Leto chegava baixa e cautelosa. A criança pronunciara as palavras de modo perturbadoramente semelhante ao pai. Isso era algo de uma magia proibida que fazia vibrar uma corda de repulsa em Stilgar. Os Fremen conheciam os terrores da possessão. Aqueles encontrados possuídos eram legitimamente mortos e sua água era derramada sobre a areia para que não contaminasse a cisterna tribal. Os mortos deviam permanecer mortos.
Era correto alguém se imortalizar em uma criança, mas as crianças não tinham o direito de assumir uma forma muito precisa de seu passado.
— Meu problema é que meu pai deixou muitas coisas por terminar —
disse Leto. — Principalmente o foco de nossas vidas. O Império não pode prosseguir desta maneira, Stil, sem um foco adequado sobre a vida humana. Estou falando de vida, você entende? Vida, não morte.
— Certa vez, quando estava perturbado por uma visão, seu pai me falou desse modo — disse Stilgar.
Leto sentiu-se tentado a eliminar aquele questionamento temeroso com uma resposta banal, talvez uma sugestão para que quebrassem o jejum. Percebia estar com muita fome. Haviam se alimentado ao meio-dia do dia anterior e ele insistira para que jejuassem durante a noite. Mas outra fome crescia nele agora.
“O problema de minha vida é o problema deste lugar”, pensou.
“Nenhuma criação preliminar. Só posso recuar, recuar, até que as distâncias se desfocam. Não consigo ver o horizonte, não posso ver a cordilheira Habbanya.
Não consigo encontrar o lugar original do teste.”
— Não existe realmente um substitutivo para a presciência — disse Leto.
— Talvez eu devesse me arriscar com a especiaria E ser destruído como seu pai?
— Um dilema — reconheceu Leto.
— Uma vez seu pai me confidenciou que conhecer muito bem o futuro era estar preso a esse futuro, sem qualquer liberdade para alterá-lo.
— Esse paradoxo é o nosso problema. A presciência é uma coisa sutil e poderosa. O futuro se torna o agora. E ter visão em terra de cegos acarreta perigos específicos. Se tenta interpretar o que vê para os cegos, você tende a se esquecer que os cegos possuem um modo inerente de movimento, condicionado por sua cegueira. Eles são como uma máquina monstruosa movendo-se ao longo de seus próprios trilhos. Possuem um ímpeto próprio, suas próprias fixações. Eu temo os cegos, Stil. Porque eles podem facilmente esmagar qualquer coisa em seu caminho.
Stilgar olhou para o deserto. A aurora amarelada tornara-se um dia cor de aço. Ele perguntou:
— Por que viemos a este lugar?
— Porque eu queria que você visse o lugar onde posso morrer.
Stilgar ficou tenso.
— Então, teve uma visão?
— Talvez fosse apenas um sonho.
— Por que viemos a um lugar tão perigoso? — Stilgar olhou furioso para seu protegido. — Vamos voltar imediatamente.
— Eu não vou morrer hoje, Stil.
— Não? Como foi essa visão?
— Vi três caminhos — disse Leto. Sua voz saía com um tom sonolento de recordação. — Um desses futuros exige que eu mate minha avó.
Stilgar olhou rapidamente na direção do Sietch Tabr, como se temesse que Lady Jessica pudesse ouvi-los a essa distância.
— Por quê?
— Para evitar que percamos o monopólio da especiaria.
— Eu não compreendo.
— Nem eu. Mas esse é meu pensamento no sonho quando eu uso a faca.
— Oh! — Stilgar compreendia o uso da faca. Respirou fundo. — Qual é o segundo caminho?
— Gham e eu nos casamos para selar a linha de sangue dos Atreides.
— Ghaa! — Stilgar expeliu o fôlego numa violenta expressão de desgosto.
— Em tempos muito antigos, era normal que reis e rainhas fizessem isso
— explicou Leto. — Mas Gham e eu já decidimos que não o faremos.
— Eu os aconselho a manterem essa decisão! — Havia morte no tom de voz de Stilgar. — Pela lei dos Fremen, o incesto era punido com a morte no tripé de enforcamento. — Ele pigarreou e indagou. — E o terceiro caminho?
— Exige que eu reduza meu pai à estatura humana.
— O Muad'Dib era meu amigo — murmurou Stilgar.
— Ele era seu deus! Devo retirar-lhe a divindade.
Stilgar voltou as costas para o deserto, olhando através do oásis para seu amado Sietch Tabr. Conversas desse tipo sempre o perturbavam.
Leto sentiu um odor suarento no movimento de Stilgar. Era tão tentador evitar as coisas importantes que precisavam ser ditas ali. Eles podiam falar durante metade do dia, afastando-se do específico em direção ao abstrato, como que se arrastando para longe das verdadeiras decisões, fugindo das necessidades imediatas que os confrontavam. E não havia dúvida de que a Casa Corrino representava uma ameaça real para vidas reais, a sua e a de Gham. Mas tudo que fazia agora precisava ser medido e testado com relação às necessidades secretas. Certa vez, Stilgar votara a favor de que Faradin fosse assassinado, sugerindo a sutil aplicação do chaumurky: veneno administrado numa bebida. Sabia-se que Faradin era apaixonado por certos licores suaves. Isso não pudera ser permitido.
— Se eu morrer aqui — disse Leto, — você deve ter cuidado com Alia.
Ela não é mais sua amiga.
— Que conversa é essa sobre a morte e sua tia? — Agora Stilgar estava verdadeiramente indignado: — “Matar Lady Jessica! Cuidado com Alia! Morrer neste lugar!”
— Homens insignificantes transformam-se sob o comando dela —
explicou Leto. — Um governante não precisa ser um profeta. Ou um deus. Um governante só precisa ser sensível. Eu o trouxe aqui comigo para deixar claro do que o Império precisa. Ele precisa de um bom governo. E isso não depende de leis nem precedentes, mas das qualidades pessoais daquele que governa.
— A Regência cuida de seus deveres imperiais muito bem — disse Stilgar.
— Quando você chegar à idade...
— Eu já tenho idade! Sou a pessoa mais velha daqui! Ao meu lado, você não passa de uma criança manhosa. Posso lembrar-me de épocas há mais de 50
séculos. Ahh! Até posso me lembrar de quando nós Fremen estávamos em Thurgrod.
— Por que brinca com tais fantasias? — censurou Stilgar num tom de voz categórico.
Leto assentiu para si mesmo. Por que, de fato? Por que reavivar as memórias daqueles outros séculos? Os Fremen de hoje eram seu problema imediato, a maioria deles apenas selvagens semidomados, inclinados a rir da inocência desventurada.
— A faca cristalina dissolve-se na morte de seu dono — disse Leto. — O
Muad'Dib se dissolveu. Por que então os Fremen continuam vivos?
Era uma daquelas bruscas mudanças de pensamento que confundiam Stilgar.
Ele se encontrou temporariamente confuso. Tais palavras continham um significado, mas seu objetivo lhe escapava.
— Espera-se que eu seja o Imperador, mas sou obrigado a ser um servo
— queixou-se Leto. Olhou por sobre o ombro para Stilgar. — Meu avô, cujo nome recebi, acrescentou novas palavras ao seu brasão quando veio para Duna: “Aqui estou, aqui permanecerei.”
— Ele não tinha escolha — disse Stilgar.
— Muito bem, Stil. Nem eu tenho qualquer escolha. Devo ser o Imperador por direito de berço, pela adequação de meu entendimento, por tudo que foi investido em mim. Até mesmo sei de que o Império precisa: um bom governo.