Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 8 de 8 · parte 1/2

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Os Filhos de Duna

Agarves podia aceitar a escolha através da…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Agarves podia aceitar a escolha através da batalha. Era o modo Fremen.

Ele disse:

— Como ordenou, Minha Senhora. De que forças posso...

— Veja com Zia. Não posso ceder-lhe muitos tópteros para a busca. Eles são necessários em outra parte. Mas terá um número suficiente de combatentes.

Stilgar difamou sua honra. Muitos o servirão com alegria.

— Eu o conseguirei então, Minha Senhora.

— Espere!

Ela o observou por um momento, pensando em quem poderia mandar para vigiar essa criança vulnerável. Ele precisaria ser bem vigiado até que tivesse provado sua capacidade. Zia saberia quem mandar.

— Ainda não estou dispensado, Minha Senhora?

— Ainda não. Devo consultá-lo em particular e demoradamente quanto a seus planos para pegar Stilgar. — Levou a mão ao rosto. — Não assumirei o luto até que você tenha obtido a minha vingança. Dê-me alguns minutos para me recompor. — Ela abaixou a mão. — Uma de minhas auxiliares lhe mostrará o caminho. — Fez um sinal sutil com a mão para uma de suas atendentes, e sussurrou para Salus, sua nova criada. — Façam com que ele seja lavado e perfumado antes de ser trazido a mim. Ele fede a verme.

— Sim, Minha Senhora.

Alia voltou-se então, fingindo a mágoa que não sentia, e correu para seus aposentos particulares. Lá, em seu quarto, bateu a porta, praguejou e bateu com o pé no chão.

“Maldito Duncan! Por quê? Por quê?”

Sentiu uma provocação deliberada da parte de Idaho. Ele matara Javid e provocara Stilgar. Aquilo revelava que ele sabia a respeito de Javid. A coisa toda devia ser tomada como uma mensagem de Duncan Idaho, um gesto final.

Novamente bateu com o pé no chão, e mais uma vez, andando furiosa pelo quarto.

“Maldito! Maldito! Maldito!”

Stilgar passara-se para os rebeldes, e Ghanima com ele. Irulan também.

“Malditos sejam todos eles!”

Seus pés, pisando com força, encontraram um obstáculo doloroso. A dor a fez gritar, olhando para o chão e descobrindo que ferira o pé numa fivela metálica.

Apanhou-a e ficou imóvel ao ver o que tinha nas mãos. Era uma velha fivela, uma das originais de platina e prata vindas de Caladan, concedidas pelo Duque Leto Atreides ao seu mestre espadachin Duncan Idaho. Vira Duncan usando aquilo muitas vezes. E ele a jogara fora ali.

Os dedos agarraram convulsivamente a fivela. Idaho a tinha deixado ali quando... quando...

Lágrimas escorreram de seus olhos, forçadas contra o poderoso condicionamento Fremen. Sua boca imobilizou-se numa careta, enquanto ela sentia a velha batalha começar dentro de seu crânio, estendendo-se para as pontas dos dedos, para os pés. Sentia ter se tornado duas pessoas. Uma delas olhava com espanto para essas contorções carnais. A outra buscava submeter-se à enorme dor que se espalhava em seu peito. Agora, as lágrimas fluíam livremente de seus olhos, e o atônito dentro de si perguntava queixosamente:

— Quem chora? Quem é que chora? Quem está chorando agora?

Mas nada detinha as lágrimas, e ela sentia a dor queimando em seu colo enquanto lhe impulsionava a carne, atirando-a sobre a cama.

E alguma coisa continuava a perguntar com aquele profundo espanto:

— Quem chora? Quem é que...

Através desses atos, Leto II afastou-se da sucessão evolutiva. E o fez um deliberado gesto de cortesia dizendo: “Ser independente é ser afamado”. Ambos os gêmeos enxergavam além das dificuldades da memória como um processo de medida, isto é, um processo de determinar sua distância em relação às suas origens humanas. Entretanto, ficou para Leto II a realização da coisa audaciosa, reconhecendo que a verdadeira criação deve ser independente de seu criador. Ele se recusou a reordenar a sequência evolutiva, dizendo: “isso também me leva para mais longe da humanidade.” Ele percebia as implicações: não podem existir sistemas verdadeiramente fechados na vida.

- A Sagrada Metamorfose por Harq al-Ada

Havia pássaros vicejando dos insetos que fervilhavam na areia úmida além do qanat rompido: papagaios, pombas, gaios. Essa fora uma djedida, uma das últimas cidades novas, construída sobre fundações de basalto exposto.

Estava abandonada agora. Ghanima, usando as horas da alvorada para explorar a área além das plantações originais do sietch abandonado, detectou movimento e viu um lagarto listrado. Antes fora um pica-pau gila fazendo seu ninho num paredão de barro da djedida.

Ela pensava no lugar como um sietch, mas era de fato um conjunto de muros baixos, feitos de tijolos de barro estabilizado, cercados por plantações destinadas a conter as dunas. Encontrava-se bem dentro de Tanzerouft, 600

quilômetros ao sul da cordilheira Sihava. Sem mãos humanas para mantê-lo, o sietch já começava a se dissolver no deserto, suas paredes gastas pela areia dos ventos, seus vegetais morrendo, sua área de plantações fendida pelo sol quente.

Entretanto, a areia além do qanat permanecia úmida, atestando o fato de que a armadilha de vento ainda funcionava.

Nos meses decorridos desde sua fuga de Tabr, os fugitivos haviam buscado a proteção de vários lugares como esse, tornados inabitáveis pelo Demônio do

Deserto. Ghanima não acreditava no Demônio do Deserto, embora não houvesse como negar a evidência visível da destruição dos qanat s.

Ocasionalmente, eles recebiam notícias dos povoados do norte através de encontros com caçadores de especiaria rebeldes. Alguns tópteros, não mais que seis, realizavam vôos de busca, procurando por Stilgar, mas Arrakis era grande e seu deserto, amistoso para com os fugitivos. Havia relatos sobre uma força-tarefa de busca e destruição encarregada de encontrar o bando de Stilgar, mas esta, liderada pelo antigo Tabr ita Buer Agarves, tinha outras missões e retornava com frequência a Arrakeen.

Os rebeldes diziam que ocorriam poucas lutas entre seus homens e as tropas de Alia. As depredações aleatórias do Demônio do Deserto faziam da Guarda Doméstica a primeira preocupação de Alia e dos Naib s. Mesmo os contrabandistas haviam sido atingidos, mas se dizia que eles também estavam percorrendo o deserto em busca da recompensa pela cabeça de Stilgar.

Stilgar trouxera seu bando para essa djedida pouco antes do escurecer do dia anterior, guiado pelo infalível senso de umidade de seu velho nariz de Fremen.

Prometera que logo se dirigiriam para os palmeirais do sul, mas se recusava a marcar a data em que isso ocorreria. Embora estivesse com a cabeça a prêmio, por uma quantia que em certa época teria comprado um planeta, Stilgar parecia o mais feliz e despreocupado dos homens.

— Este é um bom lugar para nós — dissera ele, mostrando que a armadilha de vento ainda funcionava. — Nossos amigos nos deixaram um pouco de água.

Eles eram agora um bando pequeno, 60 pessoas ao todo. Os velhos, os doentes e os muito jovens haviam sido levados para o sul, para os palmeirais, recolhidos por famílias de confiança. Somente os mais rijos permaneciam, e estes tinham muitos amigos no norte e no sul.

Ghanima imaginava por que Stilgar se recusava a discutir o que estava acontecendo com o planeta. Será que ele não enxergava? Os qanat s estavam sendo rompidos, os Fremen recuavam para o norte e para o sul, em direção às fronteiras que um dia haviam marcado os limites das suas terras. Esse movimento só podia ser um sinal do que devia estar acontecendo ao Império. Uma situação era o espelho da outra.

Ghanima passou a mão sob a gola de seu traje-destilador e a fechou novamente. A despeito de suas preocupações sentia-se extraordinariamente livre nesse lugar. Suas vidas interiores não mais a incomodavam, embora algumas vezes lhes sentisse as memórias inseridas em sua consciência.

Sabia, a partir dessas memórias, como fora esse deserto antes do trabalho de transformação ecológica. Ele fora mais seco, por exemplo. Aquela armadilha de vento abandonada ainda funcionava por estar processando ar úmido.

Muitas criaturas que haviam evitado esse deserto agora se aventuravam a viver nele. Muitos do bando observavam como proliferavam as corujas diurnas.

Mesmo agora, Ghanima podia ver papaformigas. Esses pássaros saltitavam e dançavam ao longo das linhas de insetos que enxameavam na areia úmida, no final

do qanat rompido. Poucos texugos podiam ser vistos ali, mas havia ratos-cangurus em número incontável.

Um medo supersticioso dominava os novos Fremen, e Stilgar não era diferente dos outros. Essa djedida fora devolvida ao deserto depois de ter seu qanat destruído pela quinta vez em 11 meses. Por quatro vezes haviam consertado os devastadores estragos causados pelo Demônio do Deserto, até não haver mais excedente de água para se arriscarem a outra perda.

Acontecera o mesmo em todas as outras djedidas e em muitos dos velhos sietches. Dos nove povoados novos, oito haviam sido abandonados. Muitas das antigas comunidades sietch estavam mais apinhadas que em qualquer outra época de sua história. E enquanto o deserto entrava nessa nova fase, os Fremen retornavam aos velhos costumes. Em tudo viam presságios.

Os vermes tornavam-se cada vez mais escassos, exceto em Tanzerouft?

Era o julgamento do Shai-Hulud. E vermes mortos tinham sido vistos sem nada que revelasse por que haviam morrido. Logo após a morte, eles retomavam ao pó do deserto, mas suas carcaças em decomposição, que os Fremen por acaso encontravam, enchiam de terror os observadores.

O bando de Stilgar encontrara uma carcaça assim no mês anterior e levara quatro dias para que seus membros se libertassem do sentimento de desgraça. A coisa fedia a ranço e putrefação venenosa. E seu corpo decomposto fora encontrado no topo de um gigantesco estouro de especiaria, quase toda ela arruinada.

Ghanima voltou as costas ao qanat, olhando de volta para a djedida.

Diretamente em frente a ela se encontrava um muro quebrado que um dia protegera o murhtamal, um pequeno jardim anexo. Ela havia explorado o lugar com uma forte dependência em relação à própria curiosidade, encontrando um suprimento de pão de especiaria, chato e não-fermentado, dentro de uma caixa de pedra.

Stilgar o destruíra, dizendo:

— Os Fremen nunca deixariam comida em bom estado.

Ghanima suspeitara de que ele estivesse errado, mas não valia a pena discutir ou correr o risco. Os Fremen estavam mudando. Em outra época, movimentavam-se livremente através do bled, atraídos por necessidades naturais: água, especiaria, comércio. A atividade dos animais dava-lhes a orientação necessária. Mas agora os animais se comportavam seguindo ritmos novos e estranhos, enquanto a maioria dos Fremen se agrupava perto de suas antigas cavernas-alojamentos, sob a sombra norte da Muralha Escudo. Caçadores de especiaria eram raros em Tanzerouft, e apenas o bando de Stilgar se movia segundo os antigos costumes.

Ela confiava em Stilgar e em seu medo de Alia. Irulan reforçava seus argumentos agora, revertendo a estranhas meditações Bene Gesserit.

Todavia, no distante Salusa, Faradin ainda vivia. Algum dia teria de haver um ajuste de contas.

Ghanima olhou para o céu cinza-prata da manhã, a mente cheia de dúvidas.

De onde poderia vir a ajuda? Onde existia alguém para ouvir quando ela revelasse o que vira acontecendo à sua volta? Lady Jessica permanecia em Salusa, se é que os relatórios mereciam confiança. E Alia era uma criatura num pedestal, envolvida apenas na tentativa de parecer um colosso enquanto se afastava cada vez mais da realidade. Gurney Halleck não era encontrado em parte alguma, embora fosse visto em toda parte.

O Pregador se escondera, seus discursos heréticos tornando-se uma memória que se apagava.

E Stilgar.

Olhou para o outro lado do muro quebrado, onde Stilgar ajudava a consertar a cisterna. Ele adorava seu papel de fantasma do deserto, o prêmio por sua cabeça crescendo a cada mês.

Nada mais fazia sentido. Nada.

Quem seria esse Demônio do Deserto, essa criatura capaz de destruir os qanat s como se fossem falsos ídolos a serem derrubados na areia? Seria um verme enlouquecido? Seria uma terceira força na rebelião, muitas pessoas?

Ninguém acreditava que fosse um verme. A água mataria qualquer verme que se aventurasse contra um qanat. Muitos Fremen acreditavam que o Demônio do Deserto era realmente um bando de revolucionários dedicados à derrubada do Mahdinato de Alia e à volta de Arrakis a seus antigos costumes. Aqueles que acreditavam nisso diziam que seria uma boa coisa.

Livrar-se dessa gananciosa sucessão apostólica que fazia pouco mais que manter erguida a própria mediocridade. Retornar à verdadeira religião que o Muad'Dib esposara.

Um profundo suspiro fez Ghanima estremecer. “Ó Leto”, pensou ela.

“Quase fico feliz por você não ter visto estes dias. Eu me juntaria a você, caso não tivesse uma faca que ainda precisa ser banhada em sangue. Alia e Faradin. Faradin e Alia. O Velho Barão é o demônio dela, e isso não pode ser permitido.”

Harah saiu da djedida, aproximando-se de Ghanima com passo firme.

Parou em frente dela e perguntou:

— Que está fazendo sozinha aqui fora?

— Este é um lugar estranho, Harah. Devíamos partir.

— Stilgar espera encontrar alguém aqui.

— Oh? Ele não me disse isso.

— Por que deveria lhe dizer tudo? Maku? — Harah bateu na bolsa de água, que fazia volume na frente do manto de Ghanima. — Já é uma mulher crescida para estar grávida?

— Já estive grávida tantas vezes que nem posso contá-las. Não faça comigo essas brincadeiras de adulto com criança!

Harah recuou um passo ante o rancor na voz de Ghanima.

— Vocês são um bando de estúpidos — disse ela, acenando com a mão para abranger a djedida e as atividades de Stilgar e sua gente. — Eu nunca deveria ter vindo com vocês.

— Estaria morta a esta altura se não tivesse vindo conosco.

— Talvez. Mas vocês não enxergam o que está bem diante de suas caras!

Quem é que Stilgar espera encontrar aqui?

— Buer Agarves.

Ghanima olhou perplexa para ela.

— Ele está sendo trazido aqui secretamente por amigos do Sietch Abismo Vermelho — explicou Harah.

— O brinquedinho de Alia?

— Está sendo trazido de olhos vendados.

— Stilgar acredita realmente nisso?

— Buer pediu para parlamentar. Concordou com todos os nossos termos.

— Por que não me contaram isso?

— Stilgar sabia que você seria contra.

— Seria contra... isso é loucura!

Harah olhou carrancuda.

— Não se esqueça de que Buer é...

— Da Familia! — retrucou Ghanima. — Ele é neto do primo de Stilgar.

Eu sei. E Faradin, cujo sangue derramarei um dia, é meu parente igualmente próximo. Acha que isso vai deter minha faca?

— Nós recebemos um distrans. Ninguém está seguindo seu grupo.

Ghanima falou em voz baixa.

— Nada de bom vai advir disso, Harah. Devíamos partir imediatamente.

— Você leu um presságio? — indagou Harah. — Aquele verme morto que nós vimos! Era...

— Enfie isso no seu ventre e lhe dê à luz em outro lugar! — praguejou Ghanima, furiosa. — Eu não gosto desse encontro nem deste lugar. Isso não é o bastante?

— Direi a Stilgar o que você...

— Eu mesma lhe direi!

Ghanima passou por Harah, que às suas costas fez o sinal dos chifres do verme para afastar o mal.

Mas Stilgar apenas riu dos temores de Ghanima e a mandou procurar uma truta da areia, como se ela fosse apenas outra criança. Ela fugiu para uma das casas abandonadas do djedida, agachando-se num canto para controlar a raiva. Mas a emoção passou rapidamente, sentiu um agitar das vidas internas e relembrou-se de alguém dizendo:

— Se pudermos imobilizá-los, as coisas correrão como planejamos.

“Que pensamento curioso.”

Não conseguia relembrar quem pronunciara tais palavras.

O Muad'Dib foi deserdado e falou para os deserdados de todas as épocas.

Ele gritou contra aquela profunda injustiça que aliena o indivíduo daquilo em que a prendeu a acreditar, daquilo que lhe foi apresentado como um direito seu.

- Uma análise do Mahdz'nato por Harq al-Ada

Gurney Halleck estava sentado no alto do monte em Shuloch com o baliset ao seu lado, sobre um tapete de fibra de especiaria. Abaixo dele, a depressão fechada enxameava de trabalhadores plantando a próxima colheita. A rampa de areia pela qual os Banidos tinham atraído os vermes com um rastro de especiaria fora bloqueada com um novo qanat. Para contê-lo, plantações estendiam-se elevação acima.

Era quase hora do almoço e Halleck estivera no alto desse morro por mais de uma hora, buscando privacidade para pensar. Seres humanos faziam o trabalho lá embaixo, mas tudo que ele via era obra da melange. A estimativa pessoal de Leto era de que a produção de especiaria logo decairia para se estabilizar em um décimo de seu pico durante os anos de Governo Harkonnen. Através do Império, os estoques dobravam de valor a cada nova avaliação. Trezentos e vinte e um litros era o que se dizia ter comprado metade do planeta Novebruns da Família Metulli.

Os Banidos trabalhavam como homens impulsionados por um demônio, e talvez o fossem. Antes de cada refeição, voltavam-se para Tanzerouft e rezavam ao Shai-Hulud personificado. Era assim que viam Leto e, através de seus olhos, Halleck enxergava um futuro onde a maior parte da humanidade compartilharia esse ponto de vista. Halleck não estava certo de que essa perspectiva o agradasse.

Leto estabelecera esse padrão quando trouxera Halleck e o Pregador para esse lugar, no tóptero roubado de Halleck. Com as mãos nuas, Leto rompera o qanat de Shuloch, lançando grandes pedras a mais de 50 metros de distância.

Quando os Banidos tentaram intervir, Leto decapitou o primeiro a alcançá-lo, usando não mais que um rápido movimento do braço, tão rápido que fora difícil notá-lo. Lançara os outros de volta sobre os companheiros e rira de suas armas.

Com voz de demônio, ele rugira para eles:

— O fogo não me tocará! Suas facas não podem me ferir! Eu uso a pele do Shai-Hulud!

Então os Banidos o reconheceram e relembraram sua fuga, saltando da montanha “diretamente para o deserto”. Prostraram-se diante dele e Leto deu suas ordens:

— Eu lhes trago dois hóspedes. Vocês deverão guardá-los e honrá-los.

Vão reconstruir o qanat e começar a plantar um jardim-oásis. Um dia, farei deste lugar o meu lar. Vocês o prepararão para ser a minha casa. Não venderão mais especiaria, mas armazenarão cada porção que coletarem.

E continuou a dar suas instruções, os Banidos ouvindo cada palavra, vendo-o com olhos esgazeados pelo medo, com uma admiração terrível.

Ali estava o Shai-Hulud erguendo-se da areia, afinal!

Não houvera indícios dessa metamorfose quando Leto encontrara Gurney Halleck com Ghadhean al-Fali, num dos pequenos sietches rebeldes em Gare Ruden.

Com seu companheiro cego, Leto saíra do deserto seguindo a velha rota da especiaria, viajando de verme numa região onde os vermes eram agora uma raridade. Falara em vários desvios que fora forçado a fazer pela presença de umidade na areia, suficiente para envenenar um verme.

Chegaram logo após o meio-dia e foram trazidos para a sala de hóspedes, de paredes de rocha, pelos guardas.

Agora a memória assombrava Halleck.

— Então, este é o Pregador — ele dissera.

Caminhando à volta do cego, observando-o, Halleck relembrara as histórias a seu respeito. Nenhuma máscara de traje-destilador ocultava a velha face dentro do sietch, e as feições estavam lá para que a memória fizesse comparações.

Sim, o homem se parecia com o velho Duque, de quem Leto recebera o nome.

Seria essa uma semelhança casual?

— Conhece as histórias a respeito deste homem? — indagara Halleck, falando para Leto. — De que ele é seu pai que voltou do deserto?

— Ouvi as histórias.

Halleck voltou-se para examinar o garoto. Ele usava um estranho traje-destilador, com bordas enroladas em torno do rosto e das orelhas. Um manto negro o cobria e botas de areia abrigavam seus pés. Havia muito a ser explicado quanto à sua presença ali. Como ele conseguira escapar uma vez mais.

— Por que você trouxe o Pregador até aqui? — perguntou Halleck. — Em Jacurutu, dizem que ele trabalha para eles.

— Não trabalha mais. Eu o trago aqui porque Alia o quer morto.

— Verdade? E você acha que este é um santuário?

— Você é o santuário.

Durante todo esse tempo, o Pregador permaneceu perto deles, ouvindo mas sem dar sinal algum de que se importava com os rumos da discussão.

— Ele me serviu bem, Gurney — disse Leto. — A Casa Atreides não perdeu todo o senso de obrigação para com aqueles que nos servem.

— A Casa Atreides?

— Eu sou a Casa Atreides.

— Você fugiu de Jacurutu antes que eu pudesse completar os testes que sua avó ordenou — disse Halleck com a voz fria. — Como pode pretender...

— A vida deste homem deve ser guardada como se fosse a minha — disse Leto como se não houvesse discussão alguma, encarando o olhar de Halleck sem vacilação.

Jessica treinara Halleck em muitos dos refinamentos de observação da Bene Gesserit, e ele nada detectara em Leto que não revelasse mais que uma calma confiança. Mas as ordens de Jessica ainda permaneciam.

— Sua avó me encarregou de completar a sua educação e me certificar de que não se encontra possuído.

— Eu não estou possuído. — Apenas uma declaração segura.

— Por que fugiu?

— Namri tinha ordens para me matar, não importando o que eu fizesse.

Suas ordens vinham de Alia.

— Você é um Revelador da Verdade, então?

— Sou. — Outra declaração calma, cheia de autoconfiança.

— E Ghanima também?

— Não.

O Pregador quebrou seu silêncio, voltando as órbitas vazias para Halleck, mas apontando para Leto.

— Acha que pode testá-lo?

— Não interfira quando não conhece nada do problema ou de suas consequências — ordenou Halleck, sem olhar para o homem.

— Ah, mas eu conheço muito bem as consequências — disse o Pregador.

— Eu fui testado certa vez por uma velha que pensava saber o que estava fazendo.

Como se revelou, ela não sabia.

Halleck olhou para ele, então.

— Você é outro Revelador da Verdade?

— Qualquer um pode ser, até mesmo você — respondeu o Pregador. —

É uma questão de honestidade quanto à natureza de seus próprios sentimentos.

Exige que você tenha um acordo interior com a verdade que permita um pronto reconhecimento.

— Por que você interfere? — perguntou Halleck levando a mão à faca cristalina. Quem era esse Pregador?

— Eu sou responsável por estes eventos — disse o Pregador. — Minha mãe pode colocar seu próprio sangue sobre o altar, mas eu tenho outros motivos.

E posso perceber o seu problema.

— Ah? — Halleck estava verdadeiramente curioso agora.

— Lady Jessica ordenou-lhe que diferenciasse entre o lobo e o cão, entre Ze'eb e ke'lob. Pela definição dela, um lobo é alguém que possui o poder e o usa para o mal. Contudo, entre lobo e cão há um período de crepúsculo em que não se pode distinguir entre eles.

— Está bem perto da resposta — disse Halleck, notando como mais e mais gente do sietch se aglomerava na pequena sala para ouvir. — Como sabe disso?

— Porque eu conheço este planeta. Você não entende? Pense em como ele é. Debaixo da superfície existem rochas, poeira, sedimentos, areia. Essa é a memória do planeta, uma imagem de sua história. É a mesma coisa com os seres humanos. O cão relembra o lobo. Cada universo gira em torno de um núcleo do ser, e para fora desse núcleo vão todas as memórias, direto para a superfície.

— Muito interessante — disse Halleck. — Como é que isso me ajuda a cumprir minhas ordens?

— Reveja a imagem de sua história, que está dentro de você. Comunique-se como os animais o fariam.

Halleck sacudiu a cabeça. Havia integridade nesse Pregador, uma qualidade que ele reconhecera muitas vezes nos Atreides, e havia mais que um indício de que o homem estava empregando os poderes da Voz. Halleck sentiu seu coração bater mais rápido. Seria possível?

— Jessica queria um derradeiro teste através do qual o tecido subjacente de seu neto ficasse exposto — disse o Pregador. — Mas o tecido sempre esteve lá, aberto ao seu olhar.

Halleck voltou-se para fitar Leto. O movimento fora espontâneo, compelido por forças irresistíveis.

O Pregador continuava como se desse uma aula para um aluno obstinado.

— Este jovem o confunde porque não é uma criatura singular. Ele é uma comunidade. E, como qualquer comunidade sob tensão, qualquer de seus membros pode assumir o comando. Esse comando nem sempre é benigno, e assim temos nossas histórias de Abominação. Mas você já feriu bastante essa comunidade, Gurney Halleck. Não percebe que já ocorreu uma transformação? Este jovem conquistou uma cooperação interior que é extremamente poderosa e não pode ser subvertida. Sem olhos, eu vejo isso. Uma vez eu me opus a ele, agora sigo suas ordens. Ele é o Curandeiro.

— Quem é você? — quis saber Halleck.

— Eu não sou nada além do que vê. Não olhe para mim, olhe para essa pessoa que recebeu ordens para testar e ensinar. Ela foi formada pela crise.

Sobreviveu a um ambiente letal. Está aqui.

— Quem é você? — insistiu Halleck.

— Eu lhe digo que olhe apenas para este jovem Atreides! Ele é o sistema de retroalimentação final do qual depende nossa espécie. Ele tornará a inserir no sistema os resultados de seus desempenhos no passado. Nenhum outro ser humano pode conhecer seus desempenhos do passado como ele os conhece. E você pensa em destruir tal pessoa!

— Recebi ordens para testá-lo e não tive...

— Mas você teve!

— E ele é uma Abominação?

Um riso cansado sacudiu o Pregador.

— Você persiste com a tolice da Bene Gesserit. Como elas criam os mitos sobre os quais dormem os homens!

— Você é Paul Atreides? — perguntou Halleck.

— Paul Atreides não existe mais. Ele tentou colocar-se como um supremo símbolo moral enquanto renunciava a todas as exigências morais. Ele se tornou um santo sem um deus, cada palavra sua uma blasfêmia. Como pode pensar...

— Porque você fala com sua voz.

— Vai testar a mim agora? Cuidado, Gurney Halleck. — Halleck engoliu em seco e forçou a atenção de volta para o impassível Leto, que permanecia calmamente observando.

— Quem está sendo testado? — — perguntou o Pregador. — Será, talvez, que Lady Jessica esteja testando você, Gurney Halleck?

Halleck achou esse pensamento profundamente perturbador, perguntando-se por que deixava que as palavras desse Pregador o influenciassem.

Mas era uma coisa profunda nos servos Atreides a obediência à mística autocrática.

Explicando isso, Jessica tornara o assunto ainda mais misterioso. Halleck agora sentia alguma coisa mudando dentro de si mesmo, alguma coisa cujas bordas haviam sido apenas tangenciadas pelo treinamento Bene Gesserit que Jessica lhe impusera. Uma fúria inarticulada elevou-se dentro dele. Não queria mudar!

— Qual de vocês brinca de Deus e com que finalidade? — perguntou o Pregador. Não pode confiar apenas na razão para responder essa pergunta.

De modo lento e deliberado, Halleck ergueu sua atenção de Leto para o cego. Jessica sempre dizia que ele devia atingir o equilíbrio do kairzts “tu deves tu não deves”. Ela o chamava de disciplina sem palavras nem frases, sem regras nem argumentos. Era o gume afiado de sua própria verdade interior, a tudo abrangendo.

Alguma coisa na voz desse cego, seu tom, seus modos, acendera uma fúria que se queimara até restar uma calma oftuscante dentro de Halleck.

— Responda a minha pergunta — disse o Pregador. Halleck sentiu que as palavras aprofundavam sua concentração sobre esse lugar, esse momento e todas as suas exigências. Sua posição no universo era definida apenas por sua concentração.

Nenhuma dúvida permaneceu nele. Esse era Paul Atreides, não morto, mas retornando. E essa não-criança, Leto. Halleck olhou uma vez mais para Leto e o viu realmente. Viu os sinais de tensão em torno dos olhos, o senso de equilíbrio em sua postura, a boca passiva com seu estranho senso de humor. Leto destacava-se do ambiente como que iluminado pelo foco de uma luz cegante. Ele conquistara a harmonia simplesmente por aceitá-la.

— Diga-me, Paul — perguntou Halleck, — sua mãe sabe?

O Pregador suspirou.

— Para a Irmandade, todos conquistam a harmonia simplesmente por aceitá-la.

— Diga-me, Paul — insistiu Halleck, — sua mãe sabe?

Novamente o Pregador suspirou.

— Para a Irmandade, toda ela, eu estou morto. Não tente me reviver.

Ainda sem olhar para ele, Halleck perguntou:

— Mas por que ela...

— Ela faz o que deve. Constrói sua própria vida julgando governar muitas vidas. Assim, todos brincamos de deus.

— Mas você está vivo — sussurrou Halleck, agora dominado por essa compreensão, voltando-se finalmente para olhar o homem, mais jovem que ele, mas tão envelhecido pelo deserto que parecia ter duas vezes a sua idade.

— O que é isto? — Paul perguntou. — Vivo?

Halleck olhou à volta para os Fremen que observavam, suas faces indecisas entre a dúvida e a admiração.

— Minha mãe nunca teve de aprender minha lição. — E era a voz de Paul.

— Ser um deus pode, no final, tornar-se aborrecido e degradante. Haverá razão suficiente para a invenção do livre arbítrio! Um deus pode desejar fugir para o sono e ficar vivo apenas nas projeções inconscientes de suas criaturas de sonho.

— Mas você está vivo! — exclamou Halleck, agora mais alto. Paul ignorou a excitação na voz do velho companheiro e perguntou:

— Você teria realmente colocado este jovem contra sua irmã no teste-Mashhad? Que tolice mortal! Cada um teria dito: “Não! Mate-me! Deixe o outro viver!” E aonde esse teste levaria? Quem deveria então ficar vivo, Gurney?

— Não era esse o teste — protestou Halleck. Não gostava do modo como os Fremen se apinhavam em torno deles, observando Paul e ignorando Leto.

Mas Leto intercedia agora.

— Olhe para o tecido, pai.

— Sim... sim... — Paul erguera a cabeça como se farejasse o ar. — É

Faradin, então!

— Como é fácil sentir nossos pensamentos em vez de nossos sentidos —

disse Leto.

Halleck fora incapaz de seguir esse pensamento e, a ponto de perguntar, foi interrompido pela mão de Leto sobre seu braço.

— Não pergunte, Gurney. Você poderia voltar a suspeitar que sou uma Abominação. Não! Deixe acontecer, Gurney. Se tentar forçar, só vai destruir a si mesmo.

Mas Halleck sentia-se assaltado por dúvidas. Jessica o havia advertido:

“Eles podem ser muito sedutores, esses pré-nascidos. Conhecem truques que você nem mesmo sonhou.” Sacudiu a cabeça lentamente. É Paul! Deus do céu!

Paul vivo e aliado a esse ponto de interrogação que havia gerado!

Os Fremen à volta deles não podiam mais se conter. Abriram caminho entre Halleck e Paul, entre Leto e Paul, empurrando os dois para o fundo. O ar estava cheio de perguntas ásperas.

— Você é o Muad'Dib? É verdadeiramente o Muad'Dib? É verdade o que ele diz?

— Diga-nos!

— Devem pensar em mim somente como o Pregador — respondeu Paul, tentando empurrá-los para sair. — Não posso ser Paul Atreides ou o Muad'Dib nunca mais. Não sou marido de Chani nem Imperador.

Halleck, temendo o que poderia acontecer se essas perguntas frustradas não encontrassem uma resposta lógica, estava a ponto de agir quando Leto se moveu à frente dele. Foi quando Halleck viu pela primeira vez um elemento da terrível mudança que se operara em Leto. Uma voz estrondosa rugiu:

— Afastem-se!

E Leto avançou, lançando Fremen adultos para a direita e para a esquerda, derrubando-os, socando-os com suas mãos, puxando facas pelas lâminas e arrancando-as das mãos deles.

Em menos de um minuto, os Fremen que ainda estavam de pé encontravam-se pressionados contra as paredes em silenciosa consternação. Leto colocara-se ao lado do pai.

— Quando o Shai-Hulud fala, vocês obedecem — disse Leto. E quando alguns dos Fremen começaram a questionar, Leto arrancara um pedaço de rocha da

parede da passagem ao lado da saída da sala e o triturara com as mãos nuas, sorrindo todo o tempo. — Eu destruiria este sietch debaixo de seus narizes — ele disse.

— O Demônio do Deserto — alguém sussurrou.

— E seus qanat s — concordou Leto. — Eu os arrebentaria. Nós não estivemos aqui, estão me ouvindo?

Cabeças balançaram de um lado para o outro em aterrorizada submissão.

— Ninguém aqui nos viu — disse Leto. — Um sussurro da parte de vocês e voltarei para jogá-los no deserto sem água.

Halleck viu mãos sendo levantadas no gesto de cautela, o sinal do verme.

— Vamos partir agora, meu pai e eu, acompanhados por nosso velho amigo — disse Leto. — Preparem nosso tóptero.

E então Leto os guiara para Shuloch, explicando no caminho por que deviam agir rapidamente:

— Faradin estará aqui em Arrakis muito em breve. E, como meu pai disse, então você verá o verdadeiro teste, Gurney.

Olhando para baixo, do alto da montanha de Shuloch, Halleck se perguntava uma vez mais, como fazia todo dia:

Que teste? Que ele quis dizer?

Mas Leto não se encontrava mais em Shuloch e Paul se recusava a responder.

A Igreja e o Estado, o raciocínio científico e a fé, o indivíduo e sua comunidade, até mesmo o progresso e a tradição, tudo isso pode ser reconciliado nos ensinamentos do Muad'Dib.

Ele nos ensina que não existem opostos absolutos, exceto nas crenças dos homens. Qualquer um pode penetrar nos véus do Tempo. Você pode descobrir o futuro no passado ou em sua própria imaginação. Fazendo isso, reconquista sua consciência em seu ser interior. Então fica sabendo que o universo é um todo coerente e que você é indissociável dele.

- O Pregador em Arrakeen segundo Harq al-Ada Ghanima sentava-se longe, fora do círculo de luz das lâmpadas de especiaria, e observava o tal Buer Agarves. Não gostava do rosto redondo e das sobrancelhas agitadas, nem de seu modo de mover os pés enquanto falava, como se suas palavras fossem uma música oculta sob a qual dançasse.

“Ele não está aqui para parlamentar com Stil”, disse Ghanima a si mesma, vendo isso confirmado em cada palavra e movimento desse homem. Afastou-se mais ainda do círculo do Conselho.

Em cada sietch havia uma sala como essa, mas o salão de reuniões da djedida abandonada parecia a Ghanima um lugar apertado em razão de seu teto baixo.

Sessenta pessoas do bando de Stilgar, mais nove que tinham vindo com Agarves, preenchiam somente uma extremidade do salão. Lâmpadas de óleo de especiaria

lançavam uma luz refletida sobre as vigas baixas que suportavam o teto. As sombras dançavam sobre as paredes e uma fumaça acre enchia o lugar com o perfume de canela.

O encontro começara no cair da noite, depois das preces da umidade e da refeição noturna. Seguia há mais de uma hora agora, e Ghanima não conseguia sondar os motivos ocultos no desempenho de Agarves. Suas palavras pareciam bem claras, mas seus gestos e o movimento dos olhos não concordavam com elas.

Agarves estava falando agora, respondendo uma pergunta de uma das tenentes de Stilgar, uma sobrinha de Harah Chamada Rapa. Ela era uma mulher jovem e ascética, cuja boca, com os cantos voltados para baixo, lhe conferia um ar de perpétua desconfiança. Ghanima achava essa expressão satisfatória nas presentes circunstâncias.

— Certamente acredito que Alia concederá um total e completo perdão a todos vocês — dizia Agarves. — De outro modo, eu não estaria aqui com esta mensagem.

Stilgar interveio quando Rapa tentou falar uma vez mais.

— Não estou tão preocupado quanto à nossa confiança nela como estou com a confiança dela em você. — A voz de Stilgar tinha um tom queixoso. Sentia-se pouco à vontade ante essa sugestão de que recuperaria seu antigo status.

— Não importa se ela confia em mim — disse Agarves. — Para ser franco a esse respeito, não creio que confie. Passei muito tempo procurando por você sem encontrá-lo. Mas sempre senti que ela não desejava realmente que fosse capturado.

Ela estava...

— Ela era a esposa do homem que matei — disse Stilgar. — Eu lhe garanto que ele pediu por isso. Podia igualmente ter caído sobre sua própria faca.

Mas essa nova atitude cheira a...

Agarves dançou com os pés, o ódio pleno em sua face.

— Ela o perdoa! Quantas vezes preciso dizer? Fez com que os sacerdotes fizessem um grande espetáculo pedindo orientação divina para...

— Você só levantou outra questão. — Era Irulan falando, inclinando-se à frente de Rapa, a cabeça loura destacando-se contra a cor escura da jovem.

— Ela o convenceu, mas pode ter outros planos.

— O clero tem...

— Mas existem todas essas histórias — disse Irulan. — Que você é mais que apenas um assessor militar, que você é o seu...

— Basta! — Agarves estava fora de si de raiva. Sua mão pairou perto da faca. O conflito de emoções revelava-se abaixo da superfície de sua pele, contorcendo-lhe as feições. — Acreditem no que desejarem, mas eu não aguento aquela mulher! Ela me desonra! Ela suja tudo que toca! Fui usado, corrompido.

Mas não ergui minha faca contra minha gente. Agora chega!

Vendo isso, Ghanima pensou: “Afinal, uma verdade saindo dele.”

Surpreendentemente, Stilgar começou a rir.

— Ahhh, primo. Perdoe-me, mas existe sinceridade na ira.

— Então concorda?

— Não disse isso. — Ele ergueu a mão quando Agarves ameaçou outra explosão de raiva.

— Não estou aqui sozinho, Buer, existem todos, estes outros. —

Gesticulou à sua volta. — Eles são minha responsabilidade. Vamos considerar, por um momento, que reparações Alia oferece.

— Reparações? Não houve nenhuma palavra quanto a reparações. Perdão, mas não...

— Então, o que ela oferece como garantia de sua palavra?

— O Sietch Tabr e você como Naib, total autonomia e neutralidade. Ela compreende agora como...

— Não voltarei ao seu séquito nem lhe fornecerei combatentes — avisou Stilgar. — Isso está entendido?

Ghanima notou que Stilgar começava a enfraquecer e pensou: “Não Stil, não!”

— Não há necessidade disso — disse Agarves. — Alia só quer Ghanima de volta para ela é a realização da promessa de noivado que ela...

— Então é isso! — disse Stilgar, as sobrancelhas contraindo-se. —

Ghanima é o preço do meu perdão. Será que ela me julga...

— Ela o julga sensato — argumentou Agarves, voltando a se sentar.

Alegremente, Ghanima pensou: “Ele não vai fazê-lo. Poupe seu fôlego.

Ele não vai fazê-lo.”

Enquanto pensava nisso, Ghanima ouviu um suave farfalhar atrás dela, à esquerda. Começou a se voltar e sentiu que mãos poderosas a agarravam. Um pano grosso, fedendo a drogas narcotizantes, cobriu-lhe o rosto antes que ela pudesse gritar. A consciência se apagou enquanto ela se sentia carregada em direção a uma porta no lado mais escuro do salão. Ela pensou: “Eu devia ter calculado. Devia estar preparada!” Mas as mãos que a seguravam eram adultas e fortes. Não podia desvencilhar-se delas.

A última impressão sensorial de Ghanima foi o ar frio e um vislumbre de estrelas. Uma face envolta em manto que olhava para ela e indagava:

— Ela não foi ferida, foi?

A resposta se perdeu enquanto as estrelas giravam e corriam através de sua visão, esvaindo-se num clarão de luz que era o núcleo da sua consciência.

O Muad'Dib nos forneceu um tipo muito particular de conhecimento a respeito da visão profética, do comportamento que circunda tal visão e de sua influência sobre eventos que só vimos como “álinhados”. Isto é, eventos estabelecidos para ocorrerem dentro de um sistema relacionado que o profeta revela e interpreta) Como já se observou em outras ocasiões, tal visão opera como uma armadilha particular para o profeta. Ele pode tornar-se uma vítima daquilo que ele sabe o que é uma falha humana bastante comum. O perigo é que aqueles que prevêem acontecimentos reais podem deixar de considerar o efeito polarizador produzido por uma confiança excessiva em sua própria verdade. Eles tendem a esquecer que nada pode existir, num universo polarizado, sem apresença de seu oposto.

- A Visão presciente por Harq al-Ada

A areia soprada pelo vento erguia-se como névoa no horizonte, obscurecendo o sol nascente. Ela estava fria nas sombras das dunas. Leto encontrava-se do lado de fora do anel de palmeiras, olhando para o deserto. Sentia o cheiro do pó e o aroma das plantas espinhosas, ouvindo os sons matinais de animais e pessoas. Os Fremen não mantinham nenhum qanat nesse lugar. Só possuíam um mínimo de plantações irrigadas pelas mulheres, que carregavam a água em bolsas de pele. Sua armadilha de vento era uma coisa frágil, facilmente destruída pelos ventos das tempestades, mas facilmente reconstruída também. Uma existência dura, os rigores do comércio de especiaria e a aventura eram o modo de vida no lugar. Esses Fremen ainda acreditavam que o céu era o som da água corrente, mas nutriam um antigo conceito de liberdade que Leto compartilhava.

“A liberdade é um estado solitário”, pensou ele.

Ajustou as dobras do manto branco que cobria seu traje-destilador vivo.

Podia sentir como a membrana de truta da areia o havia mudado e, sempre que vinha esse sentimento, era forçado a dominar uma profunda sensação de perda.

Não era mais totalmente humano. Coisas estranhas nadavam em seu sangue. Cílios de truta da areia haviam penetrado em cada órgão, ajustando-o, modificando-o. A própria truta também estava mudando, adaptando-se. E Leto, sabendo disso, sentia-se despedaçado pelas velhas linhas de sua humanidade perdida, sua vida apanhada numa angústia primal, com sua continuidade ancestral destruída. No entanto, conhecia a armadilha existente em permitir tal emoção. Conhecia muito bem.

“Deixe o futuro acontecer por si mesmo”, pensou. “A única regra que governa a criatividade está no próprio ato da criação.”

Era difícil afastar o olhar das areias, das dunas, do grande vazio. Ali, na extremidade do deserto, se encontravam algumas rochas, mas elas levavam a imaginação para fora, em direção aos ventos, à poeira, aos espaços e solitários animais e plantas, duna fundindo-se em duna, deserto em deserto.

De trás dele veio o som de uma flauta tocada para a prece matinal, o cântico da umidade que agora era uma serenata sutilmente adaptada ao novo ShaiHulud. Esse conhecimento na mente de Leto conferia à música um sentido de eterna solidão.

“Eu podia apenas caminhar para dentro daquele deserto”, pensou ele.

E tudo mudaria, então. Uma direção seria tão boa como qualquer outra. Já aprendera a viver uma vida livre de posses. Tinha afiado a mística Fremen até atingir um terrível gume: tudo que levava consigo era necessário, e isso era tudo que levava. Mas não levava coisa alguma, exceto o manto em suas costas, com o anel do falcão Atreides oculto em uma das dobras, e a pele que não era a sua.

Seria fácil ir embora dali.

Um movimento no céu captou-lhe a atenção: a fenda nas pontas das asas identificou um abutre. A visão encheu-lhe o peito de mágoa. Como os Fremen selvagens, os abutres também viviam nessa terra porque era ali que haviam nascido.

Não conheciam nada melhor e o deserto os moldara naquilo que eram.

Uma outra raça de Fremen, contudo, estava surgindo no rastro do Muad'Dib e de Alia. Eles eram a razão pela qual não podia permitir-se caminhar deserto adentro, como seu pai havia feito. Leto relembrou as palavras de Idaho nos primeiros dias:

— Estes Fremen são magníficos. Nunca encontrei um Fremen ganancioso.

Havia uma grande quantidade de Fremen gananciosos agora.

Uma onda de tristeza fluiu sobre Leto. Estava comprometido num curso de ação que mudaria isso tudo, mas a um preço terrível. E o controle desse rumo tornava-se cada vez mais difícil, à medida que se aproximavam do vértice.

Kralizec, a Luta do Tufão, encontrava-se adiante... mas Kralizec ou o pior seria o preço de um passo em falso.

Vozes soaram atrás de Leto, e então o som claro de uma criança falando:

— Aqui está ele.

Leto voltou-se.

O Pregador saía do palmeiral, conduzido por uma criança.

“Por que ainda penso nele como o Pregador?”, perguntou-se Leto.

A resposta estava lá, num nítido bloco de sua mente: “Porque ele não é mais o Muad'Dib, não é mais Paul Atreides.” O deserto o transformara no que ele era agora. O deserto e os chacais de Jacurutu, com suas superdoses de melange e suas constantes traições. O Pregador envelhecera antes do tempo, não a despeito da especiaria, mas por causa dela.

— Disseram que queria me ver agora — disse o Pregador, falando enquanto a criança que o guiava se detinha.

Leto olhou para a criança dos palmeirais, uma pessoa quase tão alta quanto ele próprio, dotada de uma admiração temperada pela curiosidade ávida. Os olhos jovens cintilavam, escuros, acima da máscara infantil do traje-destilador.

Leto acenou com a mão.

— Deixe-nos a sós.

Por um momento, houve um sinal de rebelião nos ombros da criança, então, a admiração e o respeito dos Fremen pela privacidade predominaram.

A criança partiu.

— Sabe que Faradin está aqui em Arrakis? — indagou Leto.

— Gurney me contou quando voamos para cá na noite passada.

E o Pregador pensou: “Como suas palavras são friamente calculadas. Ele é como eu era nos velhos dias.”

— Eu enfrento uma escolha difícil — disse Leto.

— Pensei que já tivesse feito todas as escolhas.

— Conhecemos muito bem esta armadilha, pai.

O Pregador pigarreou. As tensões revelavam-lhe como estavam perto da crise demolidora. Agora, Leto não estaria mais dependendo da visão pura e sim da administração dessa visão.

— Precisa de minha ajuda? — perguntou o Pregador.

— Sim, estou voltando para Arrakeen e gostaria de ir como seu guia.

— Com que finalidade?

— Pregaria uma vez mais em Arrakeen?

— Talvez, existem coisas que eu não disse a eles.

— Não voltará para o deserto, pai.

— Se eu for com você?

— Sim.

— Farei o que quer que você decida.

— Já pensou em tudo? Faradin estará lá, e sua mãe estará com ele.

— Sem dúvida.

Uma vez mais, o Pregador pigarreou. Era um indício de nervosismo que o Muad'Dib nunca teria permitido escapar. Essa carne estivera por muito tempo afastada do velho regime de auto-disciplina, sua mente com muita frequência arrastada à loucura por Jacurutu. E o Pregador pensou que talvez não fosse sábio retornar a Arrakeen.

— Não precisa voltar lá comigo — disse Leto. — Mas minha irmã está lá e eu preciso voltar. Você pode ir com o Gurney.

— E você iria para Arrakeen sozinho?

— Sim, preciso encontrar Faradin.

— Eu irei com você — suspirou o Pregador.

E Leto sentiu um indício da velha loucura da visão nos modos do Pregador, pensando: “Será que ele esteve fazendo o jogo da presciência?” Não.

Nunca faria isso de novo. Conhecia a armadilha de um comprometimento parcial.

Cada palavra do Pregador era uma confirmação de que ele havia entregue as visões ao filho, sabendo que tudo nesse universo fora previsto.

Eram as velhas polaridades que assombravam o Pregador agora. Ele tinha fugido de paradoxo em paradoxo.

— Vamos partir dentro de alguns minutos, então — disse Leto. — Vai dizer a Gurney?

— Gurney não vai conosco?

— Quero que Gurney sobreviva.

O Pregador então se abriu para as tensões. Elas estavam no ar à sua volta, no solo sob seus pés, uma coisa móvel que se focalizava sobre essa falsa criança

que era seu filho. O grito abrupto das velhas visões aguardava na garganta do Pregador.

“Esta maldita santidade!”

O sumo arenoso de seus temores não podia ser evitado. Ele sabia o que iam enfrentar em Arrakeen. Iriam jogar uma vez mais contra forças mortais, aterrorizantes, que nunca mais os deixariam ter paz.

A criança que se recusa a andar no colo do pai, esse é o símbolo da capacidade mais singular do ser humano. “Eu não tenho de ser o que meu pai era. Não tenho de obedecer às regras de meu pai ou mesmo acreditar em tudo que ele acreditara. É minha hora como ser humano que eu possa escolher por mim mesmo aquilo em que acreditar, ou o que ser e o que não ser.”

- A Biografia de Leto Atreides II por Harq al-Ada Peregrinas dançavam ao som de flautas e tambores na praça do Templo, sem nada a lhes cobrir as cabeças, braceletes nos pescoços, vestidos finos e reveladores. Seus cabelos longos e negros eram lançados ao redor, envolvendo-lhes os rostos enquanto elas giravam.

Alia olhou para a cena do alto de seu nicho no Templo, sentindo-se a um tempo atraída e repelida. Era o meio da manhã, hora em que o aroma do café de especiaria começava a flutuar através da praça, a partir dos vendedores abrigados nas sombras dos arcos. Logo ela teria de sair para saudar Faradin, apresentar-lhe os presentes formais e supervisionar o primeiro encontro com Ghanima.

Tudo estava funcionando de acordo com o plano. Ghanima o mataria e, no choque resultante, somente uma pessoa estaria preparada para juntar os pedaços. As marionetes dançavam quando se puxavam os cordões. Stilgar tinha morto Agarves, exatamente como ela esperava que fizesse. E Agarves tinha levado os raptores à djedida sem saber, com um transmissor secreto escondido nas novas botas que ela lhe dera. Agora, Stilgar e Irulan aguardavam nas masmorras do Templo. Talvez devessem morrer, mas poderia haver outros usos para eles. Não havia mal em esperar.

Reparou no modo como os Fremen da cidade observavam as dançarinas-peregrinas lá embaixo, seus olhos atentos, sem se desviarem. Uma básica igualdade sexual viera do deserto e persistira na cidade dos Fremen, mas as diferenças sociais entre masculino e feminino já se estavam fazendo sentir. Isso também seguia de acordo com o plano. Dividir e enfraquecer.

Alia podia sentir as mudanças sutis no modo como os Fremen observavam aquelas mulheres estrangeiras em sua dança exótica.

“Deixe que olhem. Deixe que encham suas mentes com ghafla.”

As venezianas da janela de Alia tinham sido abertas e ela podia sentir o forte aumento do calor que, nessa estação, começava com o nascer do sol e chegava ao pico no meio da tarde. A temperatura no calçamento de pedra da praça ficaria muito elevada. Seria desconfortável para aquelas dançarinas, mas elas ainda rodopiavam e se curvavam, sacudindo os braços e o cabelo no frenesi de sua homenagem. Haviam dedicado sua dança a Alia, o Ventre Celestial. Uma auxiliar viera sussurrar isso para Alia, olhando com desprezo para essas mulheres estrangeiras e seus costumes peculiares.

E a ajudante explicara que as mulheres eram de Ix, onde remanescentes da ciência e da tecnologia proibidas ainda permaneciam.

Alia cheirou o ar. Aquelas mulheres eram tão ignorantes, tão supersticiosas e atrasadas quanto os Fremen do deserto... como aquela ajudante zombeteira tinha dito, tentando lisonjeá-la ao relatar a quem dedicavam a dança. E nem a ajudante nem as ixianas sabiam que Ix era meramente um número de uma linguagem esquecida.

Rindo baixinho para si mesma, Alia pensou: “Deixe que elas dancem.” A dança consumia energias que poderiam ser voltadas para ações mais destrutivas. E

a música era agradável, um agudo lamento tocado contra a batida de tambores e palmas.

Subitamente, a música se afogou debaixo de um rugido de muitas vozes, do outro lado da praça. As dançarinas perderam o passo, recobrando-se numa breve confusão, mas perdendo a singela sensualidade, e mesmo a atenção delas se voltava para o portão mais afastado da praça, onde uma multidão podia ser vista espalhando-se sobre as pedras como se fosse água correndo através da válvula aberta de um qanat.

Alia olhou para a onda que se aproximava.

Agora ouvia palavras, uma delas elevando-se acima de todas as outras:

— Pregador! Pregador!

Então ela o viu, caminhando na frente da onda, uma das mãos sobre o ombro de seu jovem guia.

As dançarinas peregrinas desistiram de seus rodopios e se retiraram para os degraus dos terraços abaixo de Alia. A elas se juntou a audiência, e Alia sentia a admiração nos observadores. Sua própria emoção era o medo.

“Como ele se atreve!”

Chegou a se virar para chamar a guarda, mas outros pensamentos a detiveram. A multidão já enchia a praça. Podia tornar-se violenta se fosse frustrada em seu desejo de ouvir esse visionário cego.

Alia cerrou as mãos.

“O Pregador!” Por que Paul estava fazendo isso? Metade da população o considerava “o louco do deserto” e, portanto, sagrado. Outros sussurravam nos bazares e lojas que ele devia ser o Muad'Dib. Por que outro motivo o Mahdinato permitiria que ele proferisse tão violentas heresias?

Continuar: parte 2 de 2