Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 6 de 8 · parte 1/3

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Os Filhos de Duna

Conhecia essa sensação! A pele que não…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Conhecia essa sensação! A pele que não era sua. Calor espalhando-se pelo corpo. E

tão abruptamente quanto na primeira visão, ele se encontrou de pé na escuridão.

Era noite. Estrelas, como uma chuva de brasas, caíam aos montes de um cosmo brilhante.

Parte dele sabia não haver escapatória, mas ainda assim tentou lutar até que a presença paterna interferiu:

— Eu o protegerei no transe. Os outros dentro de você não irão tomá-lo.

O vento derrubou Leto, fazendo-o rolar, assoviando, lançando pó e a areia sobre ele, cortando seus braços e seu rosto, puindo suas roupas e arrancando as extremidades rasgadas do tecido, agora inútil. Entretanto, ele não sentia dor e via os ferimentos cicatrizarem-se tão rapidamente quanto apareciam. Ainda assim, rolava no vento e sua pele não era mais a sua.

“Vai acontecer!”, pensou.

Mas o pensamento era distante e vinha como se não lhe pertencesse realmente, não mais do que aquela pele era sua.

A visão o absorveu. Evoluía numa memória estereológica que separava passado e presente, futuro e presente, futuro e passado. Cada separação reunia-se num foco triocular que ele sentia como um mapa de relevo multidimensional mostrando sua própria existência futura.

Pensou: “O Tempo é uma medida do espaço, tal como o é um medidor de distâncias, mas o ato de medir prende-nos ao lugar que medimos.”

Sentiu o transe aprofundar-se. Aquilo vinha como uma ampliação da consciência interior que sua auto-identidade absorvia e através da qual ele se sentia mudando. Era um Tempo vivo e ele não conseguia apoderar-se nem mesmo de um instante dele. Fragmentos de memória, futuro e passado o afogavam. Entretanto, eles existiam como uma montagem em movimento. Seus relacionamentos submetiam-se a uma dança contínua. Sua memória era uma lente, um holofote brilhante que captava fragmentos, isolando-os, mas sempre fracassando na tentativa de deter o movimento incessante, as modificações que fluíam para dentro de sua visão.

Aquilo que ele e Ghanima haviam planejado atravessava agora o foco do holofote, dominando tudo mais. Entretanto, agora essa visão o aterrorizava. Era uma realidade dolorosa e sua inevitabilidade não- crítica fazia com que seu ego se encolhesse.

E sua pele não era sua pele! Passado e presente rolaram através dele, avançando em ondas através das barreiras de seu horror. Era incapaz de separá-los.

Num momento, sentiu-se iniciando o Jihad Butleriano, ávido por destruir qualquer máquina que simulasse a consciência humana. Isso tinha de ser o passado terminado, acabado. E no entanto seus sentidos se lançavam através dessa experiência, absorvendo os mais insignificantes detalhes. Ele ouvia um colega sacerdote falando de um púlpito: “Devemos negar as máquinas-que-pensam. Os humanos devem estabelecer suas próprias linhas de orientação. Isso não é algo que as máquinas possam fazer. O raciocínio depende da programação, não do equipamento, e nós somos o derradeiro programa!”

Ele ouvia a voz claramente, conhecia esse ambiente um amplo salão forrado em madeira com janelas escuras. A luz provinha de chamas crepitantes. E o colega sacerdote dizia: “Nosso Jihad é um 'programa de eliminação'. Eliminamos as coisas que destroem nossa humanidade!”

Em sua mente, Leto sabia que o orador fora um servo dos computadores, alguém que os conhecia e consertava. Mas a cena desapareceu e agora Ghanima se encontrava diante dele, dizendo: “Gurney sabe, ele me contou. São as palavras de Duncan, e Duncan estava falando como mentat. “Ao fazer o bem, evite a notoriedade, ao fazer o mal, evite a autoconsciência.”

Isso tinha de ser o futuro um futuro distante. Mas ele sentia sua realidade.

Algo tão intenso quanto qualquer passado de suas múltiplas vidas. E ele sussurrou:

— Não é verdade, pai?

Mas a presença paterna dentro dele advertiu: “Não atraia o desastre! Agora você está aprendendo sobre a consciência estroboscópica. Sem ela você poderia atropelar-se, perder seu marco-lugar no Tempo.”

E as imagens em baixo-relevo persistiram, intrusões martelando-lhe a consciência. Passado-presente-agora. Não havia uma verdadeira separação.

Sabia que precisava fluir com essa coisa, mas a corrente o aterrorizava.

Como poderia retornar a qualquer lugar reconhecível? No entanto, sentia-se forçado a eliminar toda resistência. Não podia perceber seu novo universo imobilizado, transformado em elementos rotulados. Nenhum fragmento se detinha.

Nem sempre as coisas podiam ser ordenadas e formuladas. Precisava encontrar o ritmo da mudança e enxergar, entre as mudanças, o próprio processo de mudança.

Sem saber onde aquilo começava, sentiu que se movia dentro de um gigantesco momento bienheureux, capaz de ver o passado no futuro, o presente no passado e o agora dentro de ambos, passado e futuro. Era a acumulação dos séculos sendo vivenciada entre uma batida do coração e a batida seguinte.

A consciência de Leto flutuou livre, sem uma psique objetiva para compensar a consciência, sem barreiras. O “futuro provisório” de Namri permanecia ligeiramente em sua memória, mas compartilhava a percepção de

muitos outros futuros. E, nessa consciência demolidora, todo o seu passado, cada vida interior, tornava-se sua própria vida. Com a ajuda do maior de todos dentro dele, Leto as dominou. Elas eram suas.

Pensou: “Quando se estuda um objeto a distância, apenas seu princípio pode ser visto.” Havia conseguido essa distância e agora podia ver sua própria vida: o multipassado, com suas memórias, era o seu fardo, sua alegria e sua necessidade.

Mas a viagem do verme adicionara outra dimensão, e o pai não mais montava guarda em seu interior porque tal necessidade não mais existia. Leto via claramente através das distâncias passado e presente. E o passado apresentava-lhe um derradeiro ancestral, alguém chamado Harum, sem o qual o futuro distante não existiria. Essas distâncias nítidas forneciam novos princípios, novas dimensões no compartilhar. Qualquer que fosse a vida que agora escolhesse, ele a viveria numa esfera autônoma de experiência de massa, um rastro de existências tão intrincado que nenhum tempo de vida único poderia contar as gerações nele contidas.

Despertada, essa experiência de massa tinha o poder de dominar sua personalidade.

Aquilo poderia influenciar uma pessoa, uma nação, uma sociedade ou uma civilização inteira. Fora por isso, é claro, que Gurney aprendera a temê-lo, que a faca de Namri o aguardava. Eles não podiam ver esse poder dentro dele. Ninguém poderia vê-lo em sua totalidade... Nem mesmo Ghanima.

Daí a pouco Leto se sentou e viu que apenas Namri permanecia vigiando.

Com voz cansada, Leto disse:

— Não existe um conjunto único de limites para todos os homens. A presciência universal é um mito vazio. Somente as mais poderosas correntes locais do Tempo podem ser previstas. Mas, num universo infinito, local, pode abranger algo tão gigantesco que sua mente se encolhe diante dele.

Namri sacudiu a cabeça sem compreender.

— Onde está Gurney? — indagou Leto.

— Saiu para que não tivesse de me ver matá-lo.

— Você vai me matar, Namri? — Era quase uma súplica para que o homem o fizesse.

Namri afastou a mão da faca.

— Como me pede para fazê-lo, não o farei. Se fosse indiferente, entretanto...

— A doença da indiferença destrói muitas coisas — disse Leto, assentindo para si mesmo. — Sim... até mesmo civilizações morrem de indiferença. É como se esse fosse o preço cobrado para se conquistar novos níveis de complexidade ou consciência. — Olhou para Namri. — Assim, eles lhe disseram para buscar em mim sinais de indiferença? — E percebeu que Namri era mais que um assassino: Namri era maquiavélico.

— Como sinal de poder desenfreado — disse Namri, mas estava mentindo.

— Poder indiferente, sim — disse Leto, sentando-se e respirando profundamente. — Não havia grandeza moral na vida de meu pai, Namri, apenas uma armadilha local que ele armou para si mesmo.

Oh Paul, teu Muad'Dib, Mahdi de todos os homens, Teu hálito exalado Lançou o furacão.

- Canções do Muad'Dib

— Nunca! — disse Ghanima. — Eu o mataria em nossa noite de núpcias.

Falava com uma teimosia que até agora resistira a todos os apelos. Alia e suas assessoras haviam passado metade da noite tentando, com isso mantendo os alojamentos reais em estado de agitação, mandando vir novas assessoras, pedindo comida e bebida. Todo o Templo e o Castelo adjacente fervilhavam com as frustrações causadas por decisões ainda não tomadas.

Ghanima sentava-se muito calma numa cadeira flutuadora verde, dentro de seus próprios aposentos, uma sala grande com ásperas paredes cor de bronze para simular a rocha de um sietch. O teto, entretanto, era um cristal imbar que tremulava com luz azul, e o piso era de azulejo negro.

A mobília era escassa: uma pequena mesa para escrever, cinco cadeiras flutuadoras e o estreito leito colocado numa alcova à maneira Fremen.

Ghanima usava o manto amarelo do luto.

— Você não é uma pessoa livre que possa decidir cada aspecto de sua vida — disse Alia, talvez pela centésima vez. “A pequena tola deve conscientizar-se disso, cedo ou tarde! Deve aprovar o noivado com Faradin. Ela deve! Que o mate depois, mas o noivado exige uma aceitação aberta daquela que é comprometida pelos Fremen.”

— Ele matou meu irmão — disse Ghanima, agarrando-se à única coisa que a sustentava. — Todos sabem disso. Os Fremen cuspiriam à menção de meu nome se eu consentisse nesse noivado.

“E essa é uma das razões pelas quais deve consentir”, pensou Alia. Ela disse:

— Foi a mãe dele que o fez. Ele a baniu por isso. Que mais você deseja dele?

— Seu sangue — respondeu Ghanima. — Ele é um Corrino.

— Mas denunciou a própria mãe — protestou Alia. — E por que você deveria preocupar-se com a ralé Fremen? Eles aceitarão o que quer que eu lhes diga que aceitem. Gham, a paz do Império exige que...

— Não consentirei — disse Ghanima. — Você não pode anunciar o noivado sem mim.

Irulan, entrando na sala enquanto Ghanima falava, olhou de modo indagador para Alia e as duas assessoras, que permaneciam desanimadas ao lado dela.

Alia ergueu os braços para o alto, em desalento, e deixou-se cair numa cadeira de frente para Ghanima.

— Fale você com ela, Irulan — pediu Alia.

Irulan puxou uma flutuadora e sentou-se ao lado de Alia.

— Você é uma Corrino, Irulan — advertiu Ghanima. — Não abuse de sua sorte comigo.

Ghanima levantou-se, atravessou a sala em direção ao leito e nele se sentou com as pernas cruzadas, olhando para as duas mulheres. Irulan, ela via, tinha se vestido com o manto aba negro, para igualar o de Alia, o capuz jogado para trás a revelar os cabelos dourados. Era um cabelo cor de luto sob a luz amarela dos globos flutuantes que iluminavam o aposento.

Irulan olhou para Alia, levantou-se e caminhou até ficar de frente para Ghanima.

— Ghani, eu me mataria se esse fosse o modo de resolver esta questão. E

Faradin é do meu sangue, como você tão gentilmente enfatizou. Mas você tem obrigações muito maiores do que sua dedicação aos Fremen...

— Isso não soa melhor partindo de você do que da parte de minha preciosa tia — respondeu Ghanima. — O sangue de um irmão não pode ser esquecido. Isso é muito mais que um pequeno aforismo Fremen.

Irulan comprimiu os lábios e disse:

— Faradin mantém sua avó prisioneira. Duncan também é seu prisioneiro e se nós...

— Não estou satisfeita com suas histórias a respeito de como tudo isso aconteceu — disse Ghanima, olhando para Alia por sobre Irulan. — Uma vez, Duncan morreu para evitar que inimigos alcançassem meu pai. Talvez essa nova carne- ghola não seja mais a mesma que...

— Duncan foi encarregado de proteger a vida de sua avó! — disse Alia, girando em sua cadeira. — Confio em que ele escolheu o único modo de fazê-lo.

— E pensou: “Duncan! Duncan! Não devia tê-lo feito desse modo.” Ghanima, percebendo o tom de falsidade na voz de Alia, olhou diretamente para a tia.

— Você está mentindo, Ventre Celestial! Ouvi a respeito de sua discussão com minha avó. Que é que você tem medo de nos contar a respeito dela e de seu precioso Duncan?

— Você já ouviu tudo — respondeu Alia, sentindo o golpe do medo ante essa acusação aberta e tudo que ela implicava. A fadiga tornara-a descuidada, percebia agora. Levantou-se, dizendo: — Tudo que eu sei você sabe. — Voltou-se para Irulan. — Fale com ela. Ela deve ser levada a...

Ghanima interrompeu com um rude palavrão Fremen que parecia chocante partindo de lábios tão imaturos. No rápido silêncio que se seguiu, ela disse:

— Você pensa em mim como sendo apenas uma criança, você tem anos de maturidade em relação a mim e no final me fará aceitar. Pense novamente, ó Regente Celestial! Você conhece melhor que ninguém os anos de experiência que tenho dentro de mim. Ouvirei a eles, não a você.

A custo Alia suprimiu uma resposta furiosa, e olhou duramente para Ghanima. Abominação? Quem era essa criança? Um novo temor com relação a

Ghanima começou a crescer dentro de Alia. Teria ela feito seu próprio acordo com as vidas contidas numa pré-nascida? Alia disse apenas:

— Ainda há tempo para que raciocine.

— Pode ainda haver tempo para que eu veja o sangue de Faradin esguichar em torno de rainha faca — disse Ghanima. — Acredite nisso. Se algum dia eu for deixada sozinha com ele, um de nós morrerá com certeza.

— Você pensa que amava seu irmão mais do que eu? — disse Irulan. —

Você faz o jogo dos tolos! Eu era mãe para ele como fui para você. Eu era...

— Você nunca o conheceu — respondeu Ghanima. — Todos vocês, exceto, às vezes, minha amada tia, persistem em pensar em nós como crianças.

Vocês são tolos! Alia sabe! Olhe como ela foge de...

— Eu não fujo de nada — disse Alia, mas voltou as costas para Irulan e Ghanima, olhando para as duas amazonas, que fingiam não estar ouvindo a discussão. Elas obviamente haviam desistido de convencer Ghanima e talvez até simpatizassem com ela. Com raiva, Alia as mandou embora da sala, e o alivio era óbvio em seus rostos ao obedecerem.

— Você foge — insistiu Ghanima.

— Escolhi um modo de vida que me é adequado — disse Alia, voltando-se a fim de olhar para Ghanima, sentada de pernas cruzadas sobre a cama.

Seria possível que ela tivesse feito aquele terrível acordo interior?

Alia tentou ver-lhe os sinais em Ghanima, mas foi incapaz de enxergar um único indício. E pensou: “Será que ela o viu em mim? Mas como poderia?”

— Você teve medo de ser uma janela para uma multidão — acusou Ghanima. — Mas somos pré-nascidas e sabemos. Você será a janela deles, consciente ou inconscientemente. Não pode negá-los.

E Ghanima pensou: “Sim, eu a conheço, Abominação. E talvez acabe como você, mas por hora só posso ter pena de você e desprezá-la.”

Fez-se o silêncio entre Ghanima e Alia, algo quase palpável que alertou o treinamento Bene Gesserit de Irulan. Ela olhou primeiro para uma, depois para a outra, e perguntou:

— Por que ficaram tão quietas subitamente?

— Acabo de pensar numa coisa que exige considerável reflexão — disse Alia.

— Reflita à vontade, querida tia — zombou Ghanima. Alia, dominando a raiva estimulada pela fadiga, disse:

— Basta por hora! Deixe que ela pense. Talvez tome juizo.

Irulan levantou-se, dizendo:

— Está quase amanhecendo, de qualquer modo. Gham, antes de sairmos se importaria de ouvir a última mensagem de Faradin? Ele...

— Eu não quero — respondeu Ghanima. — E daqui para a frente pare de me chamar por esse ridículo diminutivo. Gham! Ele apenas reforça o ridículo preconceito de que sou uma criança que vocês podem...

— Por que você e Alia ficaram tão subitamente caladas? — perguntou Irulan, de volta à primeira questão, mas agora formulando-a num delicado tom da Voz.

Ghanima lançou a cabeça para trás numa gargalhada.

— Irulan! Você tenta usar a Voz em mim?

— O quê? — Irulan estava perplexa.

— Você ensinaria sua avó a fritar ovos — disse Ghanima.

— Eu o quê?

— O fato de eu me lembrar dessa expressão e você nunca a ter ouvido antes devia fazê-la pensar — advertiu Ghanima. — Era uma velha expressão de desdém quando a sua Bene Gesserit ainda era jovem. Mas se isso não lhe serve de lição, pergunte a si mesma o que seus pais reais não deviam estar pensando quando a chamaram de Irulan? Ou seria Ruinan?

A despeito de seu treinamento, Irulan corou.

— Está tentando me provocar, Ghanima?

— E você tentou usar a Voz contra mim! Lembro-me das primeiras tentativas humanas nesse sentido. Lembro-me dessa época, ruinosa Irulan. Agora, saiam daqui todas vocês.

Mas Alia agora estava intrigada, presa por uma sugestão interior que lhe abafara a fadiga.

— Talvez eu tenha uma sugestão que possa mudar sua opinião, Gham.

— Ainda insiste nesse nome! — Ghanima deixou escapar uma risadinha e depois disse: — Reflita por um momento: se eu desejo matar Faradin, tudo que tenho a fazer é concordar com seus planos. Presumo que já pensou nisso. Tenha cuidado quando Chani se comporta com muita docilidade. Vêem, estou sendo totalmente sincera com vocês.

— Isso é o que eu esperava disse Alia. Se você...

— O sangue de um irmão não pode ser esquecido. Não me colocarei diante de meus amados Fremen como uma traidora, fazendo isso. “jamais perdoar, jamais esquecer.” Não é esse o nosso lema? Aviso-as aqui, e direi isto publicamente: vocês não podem me fazer aceitar o noivado com Faradin. Quem, me conhecendo, acreditaria nisso? O próprio Faradin não acreditaria. Ouvindo falar em tal noivado, os Fremen iriam rir e dizer: “Estão vendo? Ela o atrai para a armadilha.” Se vocês...

— Compreendo isso — disse Alia, caminhando para ficar ao lado de Irulan.

Esta, ela notara, estava ouvindo em silêncio, chocada, já consciente do rumo que tomava a conversa.

— E assim eu o estaria atraindo para uma armadilha. Se isso é o que você deseja, eu concordo, mas pode ser que ele não caia. Se deseja esse falso noivado como uma moeda oca para comprar de volta minha avó e seu precioso Duncan, então assim seja. Mas está em sua consciência. Traga-os de volta, mas Faradin é meu. Eu o matarei.

Irulan girou para encarar Alia antes que pudesse falar:

— Alia! Se faltarmos com nossa palavra...

Não terminou a frase, deixando as coisas no ar, enquanto Alia, sorrindo, refletia sobre a cólera potencial entre as Grandes Casas, nas Faufreluches em Assembléia, as consequências destrutivas para a crença na honra dos Atreides, a perda da confiança religiosa, todos os tijolos, grandes e pequenos, de uma construção que desabaria.

— O resultado nos seria contrário — protestou Irulan. — Toda a crença na profecia de Paul seria destruída. E... o Império...

— Quem se atreveria a questionar nosso direito de decidir o que é errado e o que é certo? — perguntou Alia, a voz branda. — Nós mediamos entre o bem e o mal. Só preciso proclamar...

— Você não pode fazer isso! — protestou novamente Irulan. — A memória de Paul...

— É apenas outro instrumento da Igreja e do Estado — disse Ghanima.

— Não diga tolices, Irulan. — Ghanima tocou a faca cristalina em sua cintura e olhou para Alia. — Subestimei a sagacidade de minha tia, Regente de tudo o que é sagrado no Império do Muad'Dib. De fato a subestimei. Atraia Faradin para nossa sala de visitas, se quiser.

— Isso é uma temeridade — queixou-se Irulan.

— Você concorda com esse noivado, Ghanima? — indagou Alia, ignorando Irulan.

— Nos meus termos — disse Ghanima, a mão ainda sobre a faca cristalina.

— Eu lavo minhas mãos — disse Irulan, na verdade apertando as mãos.

— Desejava argumentar em benefício de um verdadeiro noivado que serviria para curar...

— Nós lhe daremos uma ferida muito mais difícil de curar, Alia e eu —

respondeu Ghanima.

— Traga-o rapidamente, se é que ele vem. E talvez venha. Quem suspeitaria de uma criança tão nova? Vamos planejar uma cerimônia formal de noivado que exija a presença dele. Haverá oportunidade para que eu fique a sós com ele... apenas um minuto ou dois...

Irulan estremeceu ante essa evidência de que Ghanima era, afinal de contas, inteiramente Fremen, uma criança que não se diferenciava dos adultos nessa terrível sangreira. Afinal, as crianças Fremen se acostumavam a matar os feridos nos campos de batalha, poupando as mulheres dessa tarefa para que elas pudessem coletar os corpos e levá-los para os alambiques da morte. E Ghanima, falando com a voz de uma criança Fremen, empilhava horror sobre horror na estudada maturidade de suas palavras, no antigo senso de dever, a que flutuava suspenso como uma aura em torno dela.

— Está feito — disse Alia, e tentou evitar que sua voz ou seu rosto revelasse a satisfação que sentia. — Prepararemos a carta formal do noivado e faremos com que as assinaturas sejam testemunhadas pelos representantes adequados das Grandes Casas. Faradin não poderá duvidar...

— Ele vai desconfiar, mas virá — disse Ghanima. — E terá guardas. Mas eles não pensarão em protegê-lo de mim.

— Pelo amor de tudo que Paul tentou fazer — protestou Irulan. —

Vamos pelo menos fazer com que a morte de Faradin pareça um acidente, ou resultado de malícia da parte de alguém de fora...

— Terei prazer em exibir minha faca ensanguentada ao meu povo — disse Ghanima.

— Alia, eu lhe imploro — pediu Irulan. — Abandone essa insanidade.

Declare kanly contra Faradin, qualquer coisa que não...

— Não precisamos de uma declaração formal de vendetta contra ele —

respondeu Ghanima. — Todo o Império sabe como nos devemos sentir. — E

apontou para a manga de seu manto. — Nós usamos o amarelo do luto. E quando eu o trocar pelo negro do noivado Fremen, será que isso vai enganar alguém?

— Reze para que engane Faradin — disse Alia. — E os delegados das Grandes Casas que vamos convidar para testemunhar a...

— Cada um desses delegados se voltará contra você — disse Irulan. —

Você sabe disso.

— Ótima lembrança — respondeu Ghanima. — Escolha os delegados com cuidado, Alia. Devem ser do tipo que não nos importaremos em eliminar posteriormente.

Irulan ergueu os braços em desespero, virou-se e saiu.

— Coloque-a sob severa vigilância para o caso de tentar avisar o sobrinho

— disse Ghanima.

— Não tente me ensinar a conduzir uma trama — disse Alia. Ela virou-se e seguiu Irulan, mas a um passo mais lento. As guardas do lado de fora e os criados à espera foram sugados em seu rastro como partículas de areia atraídas para o redemoinho causado por um verme se erguendo.

Ghanima sacudiu tristemente a cabeça, enquanto a porta se fechava, pensando: “É como o pobre Leto e eu pensamos. Deus! Queria que o tigre tivesse me matado em vez dele.”

Muitas forças lutaram para controlar os gêmeos Atreides e quando a morte de Leto foi anunciada, esse movimento de tramas e contra-tramas se ampliou. Notem-se as motivações relativas: a Irmandade temia Alia, uma Abominação adulta, mas ainda de, fracas características genéticas transportadas pelos Atreides.

A hierarquia da Igreja do Auqaf e do Hajj via somente o poder implícito no controle dos herdeiros do Muad'Dib. A CHOAM queria uma porta aberta para as riquezas de Duna.

Faradin e seus Sardaukar buscavam um retorno às glórias da Casa Corino. Os membros da Corporação Espacial temiam o resultado da equação Arrakis=melange, já que sem a melange eles não poderiam navegar. Jessica desejava reparar aquilo que sua desobediência à Bene Gesserit havia causado. Poucos pensaram em indagar aos gêmeos quais poderiam ser os seus planos, até que já era muito tarde.

- O Livro de Kreos

Pouco após a refeição da tarde, Leto viu um homem passar diante do portal em arco de seu aposento, e sua mente acompanhou esse homem. A passagem fora deixada aberta e Leto podia ver alguma atividade lá fora: cestos de especiaria sendo transportados, três mulheres com a sofisticação no vestir característica de estrangeiras, que as marcava como contrabandistas. Esse homem, que levou a mente de Leto a vaguear, podia não ter sido diferente, exceto por caminhar como Stilgar, um Stilgar muito mais jovem.

E foi uma caminhada peculiar aquela seguida pela mente de Leto. O

Tempo preenchia sua consciência como um globo estelar. Ele podia ver infinitos espaços-tempos, mas tinha de se lançar em seu próprio futuro antes de saber em que momento se encontrava sua carne. Suas vidas-memórias multifacetadas avançavam e recuavam, mas eram suas agora. Como ondas numa praia, exceto que, caso se erguessem muito, ele poderia controlá-las e elas recuariam, deixando apenas o nobre Harum para trás.

Agora e novamente, ele ouviria essas vidas-memórias. Uma delas se ergueria, como o responsável pelo ponto num teatro, colocando a cabeça para fora de uma abertura no palco e dando as deixas para seu comportamento. Seu pai apareceu durante essa caminhada mental e disse:

— Você é uma criança querendo ser um homem. Quando for um homem, vai procurar em vão pela criança que um dia foi.

Durante todo o tempo, ele sentia o corpo sendo incomodado pelas pulgas e piolhos de um velho sietch cuja manutenção era deficiente. Nenhum dos criados que traziam essa comida cheia de especiaria parecia incomodado por essas criaturas.

Será que essa gente teria imunidade contra tais coisas ou apenas vivia com elas há tanto tempo que havia aprendido a ignorar o desconforto?

Quem seriam essas pessoas reunidas em torno do Gurney? Como tinham chegado a esse lugar? Isso seria Jacurutu? Suas multi-memórias produziam respostas de que ele não gostava. Eram pessoas feias e Gurney era a mais feia de todas. A perfeição flutuava ali, embora dormente e aguardando por baixo de uma feia superfície.

Parte dele sabia permanecer ligada à especiaria, mantida sob seu domínio pelas fortes doses de melange em cada refeição. Seu corpo de criança queria rebelar-se, enquanto sua persona delirava com a presença imediata de memórias vindas de milhares de vidas.

Sua mente retornou da caminhada e ele não teve certeza se seu corpo havia realmente ficado para trás. A especiaria confundia-lhe os sentidos.

Sentia as pressões de suas autolimitações acumulando-se contra ele, tal como as longas dunas baracan de um bled lentamente construíam uma rampa em direção a um penhasco do deserto. Um dia, alguns punhados de areia fluiriam sobre o penhasco, depois mais e mais... até que somente a areia permaneceria sob o céu.

Mas o penhasco ainda existiria lá embaixo.

“Ainda estou dentro do transe”, pensou ele.

Sabia que logo atingiria uma ramificação de vida e morte. Seus captores continuavam a mandá-lo de volta ao delírio da especiaria, insatisfeitos com suas respostas após cada retorno. Sempre o traiçoeiro Namri estava lá com sua faca.

Leto conhecia incontáveis passados e futuros, mas ainda lhe restava descobrir qual deles satisfaria a Namri... ou a Gurney Halleck. Eles queriam alguma coisa fora de suas visões. A ramificação entre a vida e a morte atraía Leto. Sua vida, sabia, teria de possuir algum significado interior que a elevasse acima das circunstâncias e pormenores da visão. Pensando nessa exigência, sentia que sua consciência interior era sua verdadeira existência, e que a existência exterior era o transe. Isso o aterrorizava. Não queria voltar para esse sietch com suas pulgas, seu Namri e seu Gurney Halleck.

“Sou um covarde”, pensou.

Mas um covarde, mesmo um covarde, poderia morrer bravamente com apenas um gesto. Onde estaria esse gesto que o tornaria uno uma vez mais? Como poderia acordar do transe e da visão para o universo que Gurney exigia?

Sem essa volta, sem um despertar de visões sem objetivo, sabia que poderia morrer numa prisão de sua própria escolha. E nisso, afinal, chegara a cooperar com seus captores. Em algum lugar, precisava encontrar sabedoria, um equilíbrio interior que se refletiria sobre o universo e retornaria a ele numa imagem de calma e força. Somente então poderia buscar o Caminho Dourado e sobreviver à pele que não era a sua.

Alguém estava tocando baliset lá fora no sietch. Leto sentia que seu corpo provavelmente ouvia a música no presente. Sentia o leito sob suas costas. Podia ouvir a música. Era Gurney tocando o baliset. Outros dedos não poderiam igualar esse domínio do mais difícil dos instrumentos. Ele tocava uma velha canção Fremen, do tipo chamado hadz'th em razão da narrativa que encerrava e da voz que evocava os padrões necessários à sobrevivência em Arrakis. A canção falava das ocupações humanas dentro de um sietch.

Leto sentiu a música transportá-lo através de uma caverna maravilhosa e ancestral. Via mulheres pisando sobre resíduos de especiaria para produzir combustível, coalhando especiaria para fermentação, trançando tecidos de especiaria. A melange estava em toda parte no sietch.

Havia momentos em que Leto não era capaz de distinguir entre a música e as pessoas na caverna-visão. O gemido e a batida de um tear eram o gemido e a batida do baliset. Entretanto, seus olhos interiores viram tecidos de cabelo humano, as longas peles de ratos mutantes, fios de algodão do deserto e tiras enroladas da pele de pássaros. Viu uma escola de sietch.

A eco-linguagem de Duna lançou-se furiosamente em sua consciência sobre suas asas musicais. E ele viu uma cozinha a energia solar, uma longa câmara onde trajes-destiladores eram feitos e recebiam manutenção. Viu os previsores do tempo lendo os bastões que haviam trazido das areias.

Em algum ponto ao longo dessa jornada, alguém lhe trouxe comida e a colocou em sua boca, colherada por colherada, enquanto segurava sua cabeça com braço forte. Ele percebia isso numa sensação de tempo real, mas o maravilhoso jogo de movimentos continuava dentro dele.

É como se ocorresse no instante seguinte à refeição carregada de especiaria, viu cair uma tempestade de areia. Imagens móveis em seu hálito de areia tornaram-se reflexões douradas nos olhos de uma mariposa, e toda a sua vida, não mais que a .trilha viscosa de um inseto rastejante.

Palavras da Panóplia Profética passaram por sua mente: “Diz-se que não existe nada firme, nada equilibrado, nada permanente em todo o universo que nada permanece em sua condição. A cada dia, por vezes a cada hora, ocorre uma mudança.”

“A velha Missionária Protetora sabia o que estava fazendo”, pensou. “Elas sabiam a respeito dos Terríveis Propósitos. Sabiam como manipular pessoas e religiões. Nem mesmo meu pai lhes escapou, não no final.”

Ali se encontrava o indício que estivera buscando. Leto o estudou. Sentia a força retornando à sua carne. Todo o seu ser multifacetado virou-se e olhou para o universo. Ele se sentiu e se viu sozinho numa cela sombria, iluminada apenas pela luz da passagem exterior, por onde um homem passara carregando sua mente uma era atrás.

— Boa sorte para todos nós! — exclamou ele, à maneira Fremen tradicional.

Gurney Halleck apareceu na passagem arqueada, sua cabeça formando uma silhueta negra contra a luz exterior.

— Traga luz — pediu Leto.

— Deseja ser testado ainda mais?

Leto riu.

— Não, é minha vez de testar vocês.

— Veremos.

Halleck virou-se e retornou instantes após com um brilhante globo luminoso azul preso debaixo do braço. Soltou-o na cela, deixando que flutuasse acima de suas cabeças.

— Onde está Namri? — perguntou Leto.

— Bem aí fora, onde posso chamá-lo.

— Ahh, o Velho Pai Eternidade sempre espera com paciência.

Sentia-se curiosamente livre, erguendo-se à beira de uma descoberta.

— Você Chama Namri pelo nome reservado ao Shai-Hulud? — Sua faca é um dente de verme. Assim, ele é o Velho Pai Eternidade.

Halleck sorriu amargamente, mas não disse nada.

— Você ainda espera para me julgar — disse Leto. — E não existe meio de se trocar informação, admito, sem fazer julgamentos. Mas você não pode pedir ao universo que seja exato.

Um som de tecidos roçando atrás de Halleck alertou Leto da aproximação de Namri. Ele parou meio passo à esquerda de Halleck.

— Ahh, a mão esquerda dos malditos — disse Leto.

— Não é sábio brincar com o Infinito e o Absoluto — resmungou Namri.

Ele olhou de lado para Halleck.

— Por acaso você é Deus, Namri, que pode invocar absolutos? —

perguntou Leto. Mas mantinha a atenção voltada para Halleck. O julgamento viria dali.

Ambos os homens meramente o fitaram, sem responder.

— Cada julgamento oscila à beira do erro — explicou Leto. — Afirmar-se na posse do conhecimento absoluto é se tornar monstruoso. O conhecimento é uma aventura sem fim nas fronteiras da incerteza.

— Que jogo de palavras é esse? — quis saber Halleck.

— Deixe-o falar — disse Namri.

— É um jogo no qual Namri me iniciou — disse Leto, e viu a cabeça do velho Fremen acenar em concordância. — Certamente reconhecera o jogo de enigmas. Nossos sentidos sempre funcionam em dois níveis.

— Trivialidade e mensagem — disse Namri.

— Excelente! — disse Leto. — Você me fornece trivialidade, eu lhe forneço mensagens. Eu vejo, ouço, sinto odores, toco, sinto mudanças na temperatura, no paladar. Sinto a passagem do tempo. Posso captar amostras de emoções. Ahhh! Eu sou feliz. Estão vendo? Gurney? Namri? Não existe mistério quanto à vida humana. Ela não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser vivenciada.

— Você abusa de nossa paciência, garoto — disse Namri. — Este é o lugar onde deseja morrer?

Mas Halleck estendeu a mão para contê-lo.

— Primeiro, não sou um garoto — disse Leto. Ele fez o sinal em seu ouvido direito. — E você não vai me matar. Coloquei uma dívida de água sobre você.

Namri sacou a faca cristalina meio para fora da bainha.

— Não lhe devo nada!

— Mas Deus criou Arrakis para treinar os fiéis. Eu não apenas lhe mostrei minha fé — disse Leto, — mas o tornei consciente de sua própria existência. A vida exige a disputa. Você foi levado ao conhecimento por mim! de que sua realidade difere de todas as outras, é assim que você sabe que está vivo.

— A irreverência é um jogo perigoso para se fazer comigo — advertiu Namri, mantendo a faca cristalina meio desembainhada.

— A irreverência é o ingrediente mais necessário em uma religião —

replicou Leto. — Para não falar em sua importância na filosofia. A irreverência é o único meio que nos resta para testar nosso universo.

— Assim, você pensa que compreende o universo? — indagou Halleck, abrindo um espaço entre ele e Namri.

— Sssim — disse Namri, e havia morte em sua voz.

— O universo pode ser compreendido apenas pelo vento — disse Leto.

— Não existe um poderoso trono da razão dentro do cérebro. Criação é descoberta. Deus descobriu-nos no Vazio porque nos movíamos contra um fundo que Ele já conhecia. A parede estava branca. Então, havia movimento.

— Você brinca de esconder com a morte — advertiu Halleck.

— Mas vocês dois são meus amigos — disse Leto, e encarou Namri. —

Quando você apresenta um candidato a Amigo de seu Sietch, não sacrifica um falcão e uma águia como oferendas? E não é esta a resposta: “Deus envia cada homem a seu destino, e assim acontece com os falcões, as águias e os amigos”?

A mão de Namri soltou a faca e a lâmina escorregou de volta em sua bainha. Olhou para Leto de olhos arregalados. Cada sietch mantinha secreto o seu ritual de amizade, e no entanto ali estava uma parte exclusiva do rito.

Halleck, entretanto, indagou:

— Este lugar é o seu destino?

— Eu sei o que você precisa ouvir de mim, Gurney — respondeu Leto, observando a passagem da esperança e da suspeita no rosto feio. Tocou seu próprio peito e disse: — Esta criança nunca foi criança. Meu pai vive dentro de mim, mas eu não sou ele. Você o amou e ele era um ser humano galante, com objetivos elevados e honrados. Sua intenção era terminar com o ciclo das guerras, mas ele agiu sem levar em conta o movimento infinito, tal como expresso pela vida.

Isso é Rhajia! Namri sabe. Seu movimento pode ser percebido por qualquer mortal.

Cuidado com os caminhos que levam à possibilidade de futuros estreitos. Tais trilhas o afastam da infinidade e o levam a armadilhas letais.

— E o que é que eu preciso ouvir de você? — perguntou Halleck.

— Ele está apenas jogando com as palavras — avisou Namri, mas sua voz revelava profunda hesitação e dúvida.

— Eu me aliarei a Namri, contra meu pai — disse Leto. — E meu pai dentro de mim se alia conosco contra o que foi feito dele.

— Por quê? — quis saber Halleck.

— Porque é o amor fati que eu trago para a humanidade, o ato final de auto-exame. Neste universo, escolho me unir contra qualquer força que traga a humilhação para a humanidade. Gurney, Gurney! Você não nasceu e cresceu no deserto. Sua carne não conhece a verdade do que falo. Mas Namri conhece. Em terreno aberto, uma direção é tão boa quanto outra.

— Ainda não ouvi o que devo ouvir — resmungou Halleck.

— Ele fala de guerra e contra a paz — disse Namri.

— Não — disse Leto. — E nem meu pai falou contra a guerra. Mas olhe no que ele foi transformado. A paz só tem um significado neste Império. Ela é a manutenção de um único modo de vida. Você é dirigido a se sentir satisfeito. A vida deve ser uniformizada em todos os planetas do modo como ela é no Governo Imperial. O maior objetivo de estudo dos sacerdotes é encontrar as formas corretas de comportamento humano. Para isso eles buscam as palavras do Muad'Dib! Diga-me, Namri, você está satisfeito?

— Não. — A resposta veio franca, numa rejeição espontânea.

— Então você blasfema?

— Claro que não!

— Mas você não está satisfeito. Está vendo, Gurney? Namri prova isso para nós. Cada pergunta, cada problema, não possui uma única resposta correta.

Deve-se permitir a diversidade. Um monólito é algo instável. Então, por que você exige de mim uma única declaração correta? Será essa a medida para seu monstruoso julgamento?

— Vai me forçar a mandar matá-lo? — perguntou Halleck, e havia agonia em sua voz.

— Não, eu terei pena de você — respondeu Leto. — Mande dizer a minha avó que eu vou cooperar. A Irmandade pode vir a lamentar essa minha cooperação, mas um Atreides deu sua palavra.

— Uma Reveladora da Verdade deverá verificar isso — disse Namri. —

Esses Atreides...

— Ele terá sua chance de dizer à avó o que deve ser dito — disse Halleck, e acenou com a cabeça em direção à saída.

Namri parou antes de sair e olhou para Halleck.

— Eu rezo para que tenhamos feito a coisa certa deixando-o vivo.

— Vão, amigos — disse Leto. — vão e reflitam. — Enquanto os dois homens partiam, Leto se jogava de costas sobre o catre, sentindo o frio do leito sobre a espinha. O movimento fez sua cabeça girar sobre a borda de uma consciência carregada pela especiaria. E naquele instante ele viu o planeta inteiro: cada vila, cada cidade, cada metrópole, os lugares desertos e os lugares plantados.

Todas as formas que se chocavam em sua visão traziam relacionamentos específicos de elementos interiores e exteriores. Ele via as estruturas da sociedade imperial refletidas nas estruturas físicas de seus planetas e de suas comunidades.

Como um gigantesco desdobramento dentro dele, Leto via nessa revelação o que ela devia ser: uma janela para as partes invisíveis da sociedade. Percebendo isso, notou que todo sistema devia possuir tal janela. Mesmo o sistema representado por ele mesmo e o universo. Começou a perscrutar as janelas, um voyeur cósmico.

Era isso que sua avó e a Irmandade buscavam! Ele sabia. Sua consciência fluía num nível novo e mais elevado. Sentia o passado carregado em suas células, em suas memórias, nos arquétipos que assombravam suas conjecturas, nos mitos que o envolviam, em suas linguagens e seus detritos pré-históricos. Tudo eram formas saídas de seu passado humano e não-humano, todas as vidas que agora comandava, todas elas nele integradas, afinal. E se sentia uma coisa num fluir e

refluir de nucleotídeos. Contra o pano de fundo do infinito, ele era uma criatura protozoária, cujo nascimento e morte eram virtualmente simultâneos. Mas ele era tanto infinito quanto protozoário, uma criatura de memórias moleculares.

“Nós humanos somos uma espécie de colônia de organismos!”, pensou.

Eles queriam sua cooperação. Ao lhe prometer cooperar, conquistara outra prorrogação da morte pela faca de Namri. Buscando a cooperação, eles buscavam reconhecer uma cura.

Mas ele pensou: “Entretanto, eu não lhes trarei a ordem social do modo como a esperam!”

Uma careta contorceu a boca de Leto. Sabia que não seria tão inconscientemente malévolo quanto seu pai o fora despotismo em uma extremidade e escravidão na outra, mas esse universo poderia orar por aqueles

“bons e velhos tempos”.

Seu pai, em seu interior, falou-lhe então, sondando cautelosamente, incapaz de exigir atenção, mas suplicando por uma audiência.

E Leto respondeu:

— Não. Daremos a eles complexidades que ocupem suas mentes. Há muitos modos de se fugir do perigo. Como eles saberão que sou perigoso, a não ser que me conheçam durante milhares de anos? Sim, pai interior, nós lhes daremos pontos de interrogação.

Não existe culpa ou inocência em vocês. Tudo isso é passado. A culpa espanca o morto, e eu não sou o Martelo de ferro. Vocês, multidão de mortos, são meramente pessoas que fizeram certas coisas, e a memória dessas coisas ilumina meu caminho.

- Leto II a suas Vidas-Memórias de acordo com Harq al-Ada

— Ele se move por si mesmo! — disse Faradin, a voz não mais que um sussurro.

Encontrava-se junto à cama de Lady Jessica, um grupo de guardas logo atrás dele. Lady Jessica se erguera da cama. Estava usando um vestido de parasseda branco, brilhante, com uma fita da mesma cor sobre os cabelos cor de cobre.

Faradin avançara correndo sobre ela, momentos antes. Usava a malha cinza e seu rosto estava suado com a excitação e o esforço de sua corrida através dos corredores do palácio.

— Que horas são? — perguntou Jessica.

Continuar: parte 2 de 3