Os Sofrimentos do Jovem Werther

Johann Wolfgang Goethe · Capítulo 1 de 8

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Os Sofrimentos do Jovem Werther

Prefácio

Marcelo Backes A literatura alemã divide-se em antes e depois de Werther. Se na lírica a Alemanha setecentista tinha Klopstock e no drama tinha

Lessing, *[1] no romance ainda não havia produzido nenhuma obra viva, moderna, verdadeiramente atual. Se Klopstock dignificava a literatura com seus versos nobres e bem talhados, no teatro Lessing tornara-se um nome universal, conduzindo a dramaturgia alemã a alturas jamais vistas. No romance, contudo, ainda faltava o grande autor e, com ele, a grande obra. Antes de Werther, de Goethe...

Ao escrever Werther, em 1774, Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) alcançava sua primeira obra de sucesso e, de quebra, dava início à prosa moderna na Alemanha e antecipava a entrada da Europa no romance oitocentista e burguês. Foi logo depois do Werther, também, que os alemães deram à Literatura Universal algumas de suas maiores obras, talvez o maior número delas, tornando-se uma das literaturas mais imponentes do mundo.

Werther não é, simplesmente, um romance em cartas assim como A nova Heloísa de Rousseau ou Pamela de Richardson, modelos deste tipo de romance antes da empreitada goetheana. Nessas obras, embora haja uma personagem principal nítida, são as missivas de vários correspondentes que forjam a narrativa. A obra de Goethe é – no entanto e muito antes

– o romance de uma alma, uma história interior, que antecipa, inclusive, a opulência psicológica de Afinidades eletivas, uma das obras-primas do autor. O “eu” mostra-se tão forte, o sujeito se evidencia tão vigoroso no romance, que não permite a aparição escrita dos correspondentes e se assegura tão somente na sua própria opinião. Em Werther todas as cartas são escritas pelo herói e apenas emendadas por um suposto editor.

Guilherme, o destinatário das cartas, faz o papel do leitor, e Goethe conduz o romance de maneira magistral. Se Werther se dirige de maneira indireta ao leitor através de Guilherme, o editor-personagem – que intervém no início do livro para explicar a compilação das cartas, um punhado de vezes nas notas de rodapé e ao final, para arredondar a história – o faz de maneira direta. Ele interrompe para estipular fatos, esclarecer dúvidas e o faz de maneira objetiva – embora ame o personagem –, opondo-se à subjetividade fogosa da narração de Werther.

Tudo no romance é construído para afirmar o sujeito. As cartas de Werther o fazem –

desta vez – de maneira direta. O amor do “editor” ao personagem, assim como a natureza em todo seu fulgor – a natureza ajusta-se, em sua beleza e fúria, à alma de Werther – o fazem de maneira indireta. E Werther torna-se, assim, o primeiro romance da História da Literatura Univeral em que um personagem vai em busca do absoluto através de suas próprias experiências e vivências íntimas neste mundo, através do amor ao próximo e do amor à natureza.

Em Os sofrimentos do jovem Werther há muito de autobiografia e uma boa dose de estranhas relações entre o romance e a vida real de seu autor e um círculo de amigos de

Wetzlar, cidade alemã que Goethe habitava à época em que escreveu o livro. Goethe estava de fato apaixonado por Carlota (Charlotte) Buff, mulher de Johann Kestner. O autor manteve correspondência assídua com o casal, mesmo depois de publicado o livro, e chegava a afrontar a união dos dois com declarações – nem tão sutis – de amor, endereçadas a Charlotte.

A primeira parte do romance é a história dessa paixão, o que é reconhecido pelo próprio Kestner (ver Adendo, ao final).

A segunda parte – e o desenlace – é a história e a tragédia de Karl Wilhelm Jerusalem.

O moço também fazia parte do círculo de amigos e, apaixonado pela mulher dum outro membro do grupo (secretário Herd), teve a mesma sorte – sem tirar nem pôr quase nada – do Werther de Goethe. O interessante é que Goethe ficou sabendo da história do desgraçado através de uma carta do próprio Kestner – o marido de sua Charlotte –, que, por fatalidade, emprestara as pistolas a Jerusalem, a quem só tinha visto um par de vezes. Assim, Werther, que era Goethe, incorporou Jerusalem, para morrer como este e deixar o autor – também em transe de paixão – vivo. As pistolas, na realidade e na ficção, foram dadas por Kestner-Alberto. A história é intrincada e o escritor Theodor Fontane, um dos maiores romancistas alemães do século XIX, manifestou seu pasmo e sua admiração pelo fato de Goethe ter alcançado, com a junção de tantos elementos diferentes – da vida e da arte –, uma obra com tanta unidade e vigor.

Werther foi um testemunho de como a literatura tinha poder de agir na sociedade. Não foram poucos os suicídios atribuídos ao romance. O bispo, Lorde Bristol, chegou a acusar Werther de ser uma obra imoral, que levava os jovens a se suicidarem. Goethe respondeu-lhe, na lata, que se ele falava nesse tom do seu pobre Werther, com que tom deveria falar dos poderosos da terra. Com um traço de sua pena, eles mandam milhares de pessoas à guerra –

onde estas se matam e se trucidam –, enquanto a própria Igreja agradece aos céus por isso e lhes entoa um Te Deum em louvor.

Goethe escreveu o romance em quatro semanas. Sempre se gabou de que Napoleão havia lido “seu livrinho” sete vezes e o carregava consigo em sua Biblioteca de Campanha. Quando o imperador francês encontrou o grande escritor alemão em 02 de outubro de 1808, disse:

“Eis um homem” e o louvou por seus escritos, ao que Goethe, meio descontente pela invasão exitosa da França na Alemanha, respondeu de maneira lacônica, desconversando. Ao fim do colóquio, Napoleão convidou-o para visitá-lo em Paris. O reencontro jamais aconteceu.

O romance de Goethe é inusitadamente curto para os padrões da época – A nova Heloísa, por exemplo, tem oitocentas páginas. Werther é um fulgor, um raio atravessando o horizonte da Literatura Universal. Construído sobre um arcabouço quase dramático, os acontecimentos sucedem-se num crescendo quase martirizante, anunciando e preparando a catástrofe. Todos os acontecimentos que rodeiam o núcleo do romance entre Werther e Carlota – caracterizado pela sua unilateralidade trágica – são simbólicos e antecipam ou indiciam o comportamento do próprio Werther, justificando seu passo final. Altissonante na forma e dolorido na exposição de sua tragédia, o personagem ata o nó da nossa garganta por várias vezes, dói fundo no peito e invoca a solidariedade do sofrimento.

De sobra no romance, a beleza sintética de uma metáfora, que fez de um personagem secundário a “pedra de Bolonha”, o fulcro irradiante de um amor que toca mesmo sem estar presente. O trecho é aquele em que Werther manda seu criado à casa da amada Carlota apenas

para, diz: “ter junto de mim alguém que tivesse estado em sua presença”. E continua: “Com que impaciência o esperei, com que alegria tornei a vê-lo! Não tivesse vergonha e teria me atirado ao seu pescoço e coberto seu rosto de beijos”. Logo vem a metáfora e a beleza é muita: “Falam que a pedra de Bolonha, quando exposta ao sol, absorve os seus raios e reluz por algum tempo durante a noite. Dava-se o mesmo comigo e aquele rapaz. A lembrança de que os olhos de Carlota haviam pousado em seu rosto, em suas faces, nos botões de sua casaca e na gola de seu sobretudo, tornava-no tão querido, tão sagrado para mim! Naquele momento não daria aquele rapaz nem por mil táleres! Me sentia tão bem em sua presença...”

Em sua intensidade plena de dor, o Werther jamais deixará de fazer-nos sentir o sobressalto diante daquilo que é irremediável. Exatamente como a “pedra de Bolonha”, Werther parece ter absorvido a paixão do mundo na dor criativa de um gênio, voltando a refleti-la, de novo e sempre, no instante da leitura. A obra corresponde, em sublime plenitude, ao mesmo amor que todos – pelo menos os que de fato o entendem: amor e Werther – um dia sentiram, sentem e sentirão.