Os Sofrimentos do Jovem Werther

Johann Wolfgang Goethe · Capítulo 4 de 8

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Os Sofrimentos do Jovem Werther

O Editor ao Leitor

tocar aquela antiga ária,[81] cuja doçura tem algo de celestial, assim de repente... e logo senti penetrar na minha alma um sentimento de consolação, e comecei a reviver a recordação do passado, do tempo em que ouvia aquela ária, dos intervalos sombrios de desgosto, das mágoas, das esperanças iludidas e depois... Andava no quarto de um lado para outro, o meu coração sufocava. “Pelo amor de Deus!”, disse-lhe eu explodindo e caminhando

ao encontro dela. “Pelo amor de Deus, acabe com isso!”

Ela cessou e olhou-me atentamente: “Werther!”, disse ela com um sorriso que me trespassou a alma. “Werther! Vós estais bem doente, repugnam-vos os vossos acepipes favoritos. Ora, vamos, faça o favor de sossegar.” Fugi de perto dela e... Deus meu! Tu vês o meu sofrer e haverás de extingui-lo.

06 de dezembro

Como aquela imagem me persegue! Quer eu vele, quer eu sonhe, ela enche a minha alma inteira. Aqui, quando cerro os olhos, aqui, na minha fronte, no lugar onde se concentra a força visual, encontro os seus olhos negros. Aqui! Não, não sei exprimir-te isso. Se fecho os meus olhos, eles permanecem ali, como um mar, como um abismo repousam diante de mim, alagam minha fronte.

O que é o homem, esse semideus louvado! Não lhe faltam as forças precisamente no momento em que mais precisa delas? E quando ele toma vôo na ventura, ou afunda na tristeza, não será ainda aí limitado à força e sempre reconduzido ao sentimento de si próprio, ao triste sentimento da sua pequenez, justo quando contava perder-se na imensidão do infinito?

O EDITOR AO LEITOR

Quanto eu desejei que nos restassem, sobre os últimos e notáveis dias do nosso amigo, informações escritas por sua própria mão em quantidade suficiente, para não me ver obrigado a interromper a seqüência das cartas que ele deixou através de minhas narrativas!

Procurei recolher os pormenores exatos da boca daqueles que poderiam estar melhor informados a respeito de sua história. Ela é simples, e todas as narrativas que colhi são uniformes e concordam entre si até às mínimas circunstâncias. Só achei as opiniões diferentes e os juízos divididos no que tange à maneira de proceder das pessoas que desempenharam um papel na história.

Resta-nos, pois, contar com fidelidade o que pudemos ajuntar em nossas múltiplas pesquisas, levadas a cabo com esforço, metendo no meio da narrativa as cartas que nos restam daquele que se despediu, sem desprezar o mais pequeno dos bilhetes encontrados, até porque é tão difícil desvendar a verdadeira causa, os verdadeiros fios de uma ação, inclusive em seus aspectos mais simples, quando esta emana de pessoas que estão longe de ser simplórias!

Desânimo e desgosto haviam lançado raízes cada vez mais profundas na alma de Werther, apoderando-se pouco a pouco de todo o seu ser. A harmonia de seu espírito estava de todo destruída, um fogo interno e violento, que lhe minava e confundia todas suas faculdades, causou os mais funestos efeitos e acabou por não lhe deixar senão um abatimento ainda mais penoso de sustentar do que todos os males contra os quais havia lutado até então.

As angústias do seu coração consumiram as últimas forças de seu espírito, sua vivacidade, sua sagacidade. Ele tornou-se uma companhia lamentável, cada dia mais infeliz e cada dia mais injusto à medida que aumentava sua infelicidade. Pelo menos era o que diziam os amigos de Alberto. Sustentavam que Werther não soubera apreciar um amigo reto e pacífico que, gozando uma felicidade ambicionada há tempo e tudo o que ela trazia de bom, não tinha outro fim que não o de garantir essa felicidade para o futuro. Ademais, continuavam, como é que ele poderia compreendê-lo, ele que dissipava todas suas posses durante o dia, guardando para a noite apenas os sofrimentos e as privações? Alberto, diziam eles, não havia mudado nada em tão pouco tempo, e continuava a ser o mesmo homem que Werther tanto elogiara, tanto honrara no princípio, a partir do dia em que o conhecera. Amava Carlota acima de tudo, tinha orgulho dela, e desejava que todos a considerassem o mais perfeito dos seres. Poderiam censurá-lo por desejar fugir a qualquer raio de suspeita e se recusar a partilhar com quem quer que fosse um bem tão precioso, mesmo que fosse da maneira mais inocente? Confessam que Alberto várias vezes deixava os aposentos de sua mulher quando Werther estava com ela, não por ódio ou aversão ao seu amigo, mas tão-somente por sentir que Werther se embaraçava ante a sua presença.

O pai de Carlota foi atingido por um mal que o reteve no quarto. Mandou o coche a sua

filha a fim de que ela fosse ter com ele. Era um belo dia de inverno, a primeira neve havia caído em abundância e cobria o chão das redondezas.

Werther foi procurar Carlota no dia seguinte para, caso Alberto não fosse buscá-la, fazer-lhe companhia durante a volta.

A claridade do dia causou pouco efeito em seu ânimo turbado, uma pressão surda lhe pesava sobre a alma, imagens lúgubres haviam se ancorado dentro dele e seu coração não conhecia outro movimento que não o de transitar de um pensamento doloroso a outro.

Como vivia eternamente descontente consigo mesmo, o estado dos seus amigos parecia-lhe tão agitado e tão crítico quanto o seu; julgava ter perturbado a boa intimidade entre Alberto e sua esposa e não cansava de fazer censuras a si mesmo, às quais se mesclava uma indisposição secreta contra o esposo.

Pelo caminho, os seus pensamentos voltaram a fixar-se na situação. “Sim, claro”, dizia ele para consigo, rangendo os dentes em segredo, “aí está, pois, essa união tão confiável, tão íntima, tão afável, tão completa, essa fidelidade calma e duradoura! É apenas saciedade e indiferença! O negócio mais mesquinho não o interessa mais do que sua adorável e cara esposa! Será que ele sabe apreciar sua sorte? Sabe ele dar a ela a atenção que merece? Ela lhe pertence, pois bem, ela lhe pertence... Sei disso, como sei também de outra coisa; julgava estar acostumado ao pensamento de que ela lhe pertence, mas ele vai acabar por me enlouquecer, por me matar... E a sua amizade a toda a prova continua viva? Não verá ele uma intromissão em seus direitos na minha afeição por Carlota, e nas minhas atenções por ela uma secreta suspeita? Percebo-o, sinto-o, olha para mim contrariado, deseja ver-me a distância, minha presença lhe causa desgosto.”

Por vezes estacava seu passo apressado, em outras chegava a parar em silêncio e parecia estar disposto a retornar. Continuava, entretanto, o seu caminho, sempre entregue àquelas idéias, àquelas conversas solitárias, até chegar enfim, meio que contra a vontade, ao pavilhão de caça.

Adentrou a porta e perguntou pelo velho e por Carlota. Achou toda a gente muito agitada.

O mais velho dos rapazes disse-lhe que tinha acontecido uma desgraça em Wahlheim, que um camponês acabava de ser assassinado. O fato não lhe chamou a atenção... Dirigiu-se à sala e encontrou Carlota ocupada em dissuadir o bailio que, sem dar tento a sua doença, queria ir direto ao local investigar o crime. Não se sabia ainda quem era o assassino. Haviam encontrado o cadáver, de manhã, diante da porta da herdade onde trabalhava. Havia suspeitas.

O morto era serviçal em casa de uma viúva que, pouco tempo antes, tivera outro a seus serviços, e este havia saído do emprego insatisfeito devido a uma questão grave.

Ao ouvir a informação, Werther levantou-se precipitadamente. “Será possível!”, exclamou. “Tenho que ir para lá, não há um só momento a perder...” Correu a Wahlheim. As recordações se desenhavam vivas em sua mente e não duvidou, sequer por um momento, que o autor do crime fora o rapaz com o qual ele havia falado um punhado de vezes e ao qual passara a estimar tanto.

Como tinha de cruzar sob as tílias para chegar à taverna onde haviam exposto o cadáver, Werther sentiu-se perturbado ao ver aquele lugar outrora tão adorado. A soleira onde as crianças da vizinhança haviam brincado tantas vezes estava manchada de sangue. O amor e a fidelidade, os mais belos sentimentos humanos, haviam degenerado em violência e

assassinato. As imponentes árvores estavam desfolhadas e cobertas de gelo, a sebe viva que cobria os muros baixos do cemitério, formando uma abóbada sobre ele, havia perdido a folhagem e viam-se as lajes dos túmulos cobertas de neve por entre as frestas da ramagem seca.

Quando se aproximava da taverna em frente à qual se juntara toda a aldeia, elevou-se de repente uma intensa gritaria. Via-se ao longe um bando de homens armados, e cada qual exclamava que trazia o assassino. Werther lançou-lhe os olhos e não teve mais nenhuma dúvida. É certo, tratava-se daquele empregado que tanto amava a viúva, e que, pouco tempo antes, havia encontrado imerso em calma ira, em secreto desespero.

“Que fizeste, desgraçado?”, exclamou Werther, caminhando para o prisioneiro. Este olhou para ele sossegadamente, calou-se e respondeu enfim tomado de frieza: “Ninguém a possuírá, ela não possuíra ninguém”. Levaram o prisioneiro para a taverna e Werther retirou-se precipitadamente.

Todo o seu ser estava agitado e confuso pela emoção terrível e violenta que acabara de vivenciar. Mas libertou-se num instante de sua melancolia, de seu desânimo, de sua negra apatia; apoderaram-se dele o mais irresistível interesse por aquele rapaz e o mais vivo desejo de o salvar. Considerava-o tão desgraçado, achava-o tão pouco culpado, apesar de seu crime, e penetrava de modo tão profundo na sua situação que julgava certo ser capaz de fazer os outros comungar da mesma opinião. Já ardia de vontade de falar em seu favor, já se formava em seus lábios o mais animado discurso; correu às pressas ao pavilhão de caça e, não logrando conter entusiasmo e excitação, repetiu a meia voz durante o caminho tudo o que iria comunicar ao bailio.

Quando entrou na sala deu com Alberto, cuja presença o perturbou no princípio, mas logo serenou e expôs com ardor sua inteção ao bailio. Este abanou a cabeça várias vezes e, posto Werther tivesse dado às suas palavras todo o fogo da convicção, toda a energia que um homem pode transmitir à defesa de um dos seus semelhantes, o bailio não se deixou abalar, como facilmente se compreenderá. Não chegou a deixar que nosso amigo acabasse, inclusive, e refutou com vivacidade seus argumentos, censurando-o por dar sua proteção a um assassino vil e traiçoeiro, mostrando-lhe que, seguindo aquele princípio, a lei acabaria por se ver sempre engambelada e a segurança pública aniquilada. Acrescentou que, de resto, numa questão tão grave, ele nada poderia fazer sem arcar com a maior responsabilidade, pois tudo iria e deveria seguir segundo a ordem e as formalidades legais previstas.

Werther não se deixou abater, mas limitou-se a pedir que o bailio fizesse vista grossa a uma eventual ajuda na evasão do rapaz. Mas também aí o bailio foi irredutível. Alberto, que enfim entrava na conversa, tomou também o lado do velho. Werther ficou em silêncio e foi-se embora acabrunhado de dor, não sem antes ouvir o bailio repetir um punhado de vezes: “Não, nada pode salvá-lo!”

Sabemos como essas palavras o abalaram por um bilhete encontrado entre os seus papéis, que certamente fora escrito naquele mesmo dia:

“Ninguém pode te salvar, desgraçado! Bem vejo, ninguém pode nos salvar!”

O que Alberto dissera na presença do bailio sobre o caso do prisioneiro incomodou a Werther de modo bem singular. Ele julgou perceber algumas insinuações dirigidas a si próprio e seus sentimentos. E, mesmo que, depois de refletir por algum tempo, sua argúcia o tivesse convencido de que aqueles dois homens poderiam ter razão, parecia-lhe que frustaria a mais íntima de suas convicções se concordasse com eles, se viesse a reconhecer que eram eles que estavam certos.

Achamos entre os seus papéis uma nota que diz respeito ao fato, e provavelmente exprima todos os seus sentimentos em relação a Alberto:

“De que me serve, dizer e repetir a mim mesmo, ele é honesto e bom, se isso me rasga as entranhas? Não posso ser justo!”

Como a noite estava serena e o tempo anunciava degelo, Carlota e Alberto regressaram a pé. Pelo caminho, Carlota olhava para os lados aqui e acolá como se a companhia de Werther lhe fizesse falta. Alberto pôs-se a falar dele. Censurou-o, mas não deixou de ser justo com ele.

Referiu-se à sua desgraçada paixão e considerou ser possível afastá-lo. “Desejo-o também por nós”, disse ele, “e peço-te, trata de dar outra direção às suas relações contigo e de tornar mais espaçadas as suas freqüentes visitas. As pessoas começam a reparar e sei que alguns e outros já falaram disso, inclusive.” Carlota ficou em silêncio e aquele silêncio parece ter tocado Alberto. Pelo menos ele não falou mais de Werther diante dela desde então, e se ela falava nele, Alberto só fazia calar ou procurava mudar de assunto.

A tentativa vã que Werther fizera para salvar o desgraçado campônio fora o derradeiro clarão de uma luz que se apaga; ela só fê-lo mergulhar tanto mais fundo na dor e no abatimento. E quase foi ao desespero quando soube que talvez o chamassem como testemunha contra o homem, que agora recorria às negativas, dizendo não ter cometido o crime.

Tudo o que tinha lhe acontecido de desagradável durante sua vida ativa, suas mágoas junto ao embaixador, tudo o que não dera certo em seus planos, as coisas que sempre o afligiram, voltavam à tona inquietando-o ainda mais. Por tudo isso, parecia considerar-se autorizado à inatividade; sentia estar privado de qualquer perspectiva, incapaz, por assim dizer, de agarrar a vida por qualquer de suas pontas. Foi assim que, entregue por completo a seus sentimentos e seu modo estranho de pensar, consumindo suas forças sem objetivo e gastando-as sem esperança, aterrado por uma paixão sem fim, abismado na eterna uniformidade de uma relação dolorosa com o ser amado e adorado – cuja tranqüilidade ele perturbava –, ele se familiarizava dia a dia com uma idéia atroz, aproximando-se do fim.

De sua imensa turvação, de seu intenso delírio, dos seus penosos tormentos e tendências, de seu cansaço em relação à vida, algumas cartas que ele deixou e aqui inserimos dão o mais irrefutável testemunho.

“12 de dezembro

Caro Guilherme! Encontro-me no estado em que deviam estar aqueles desgraçados que se supunha possessos de um espírito maligno. Isso dá-me, às vezes. Não é angústia nem desejo, é uma raiva interior, desconhecida, que ameaça dilacerar meu peito, que me aperta a garganta, que me sufoca! E dói! Como dói! Aí então procuro fugir de mim e desvairo porta afora, em meio ao palco noturno e terrível dessa estação inimiga dos homens.

Ontem à noite tive de sair. O degelo principiara subitamente e eu havia ouvido dizer que

o rio transbordava, que todas as lagoas até Wahlheim levavam cheia, inundando o meu querido vale. À noite, depois das onze, corri para lá. Era um espetáculo terrível ver de cima da rocha, à claridade da lua, as torrentes rolarem pelos campos e prados e sebes levando tudo de roldão e tranformando o vale num mar agitado, entregue ao sibilar agudo do vento! E

depois, quando a lua refulgiu rompendo as nuvens negras e voltou a desvelar a torrente aos meus pés, rolando e rugindo em clarões soberbos e terríveis, fui tomado por um arrepio sinistro e logo a seguir por um desejo intenso... Ah, de braços abertos encontrava-me à beira do abismo e ardia por me atirar abaixo... Abaixo! E me entregava à delícia de precipitar ali os meus tormentos, as minhas dores! Ali, num sussurro, como as ondas! Oh! E não tiveste força para levantar os pés do chão, dar um salto e acabar com todos os teus males... A minha ampulheta inda não chegou ao fim, sinto-o! Oh, Guilherme! Com que gosto eu teria dado a minha existência humana para, como o temporal, rasgar as nuvens, levantar as ondas! Ahá, e será possível que essa delícia nunca venha a ser partilhada por aquele que hoje definha em seu cárcere?

Quão grande foi a minha mágoa no momento em que baixei o olhar para um lugar onde tinha descansado com Carlota, debaixo de um salgueiro, depois de termos dado um passeio no calor da tarde! O lugar também estava inundado e mal reconheci o salgueiro... Guilherme! E

os seus campos, pensei, e os arredores, e o pavilhão de caça! A torrente devia ter arrancado, destruído o nosso caramanchão! E o reflexo dourado do pretérito espiou na minha alma...

assim como um sonho de rebanhos, de pradarias, de honras ilumina a esperança de um prisioneiro! Estava ali em pé... Não me quero mal, porque tenho a coragem de morrer...

Deveria, muito antes... E eis-me aqui como a velha que pede a lenha às sebes e o pão às portas, para amparar e prolongar por um instante ainda a sua triste e precária existência.”

“14 de dezembro

O que é isso meu amigo? Estou aterrado comigo mesmo! O amor que tenho por ela não será o amor mais sagrado, mais puro, mais fraterno? Por acaso senti algum dia em minha alma um desejo criminoso? Não quero jurar... E agora, devaneios! Oh, como tinham razão os que atribuíam efeitos tão diversos e opostos a forças tão estranhas! Esta noite... Tremo ao te dizê-lo... Esta noite segurei-a nos braços, apertada ao meu peito, e cobri sua boca balbuciante e amorosa com um milhão de beijos. Os meus olhos nadavam na embriaguês dos seus... Meu Deus! Será um crime a felicidade que ainda sinto ao recordar no íntimo todo aquele prazer ardoroso? Carlota! Carlota! É o fim para mim! Meus sentidos turvam-se, há oito dias que perdi a consciência, os meus olhos estão cheios de lágrimas. Não estou bem em parte alguma e estou bem em toda a parte... A nada aspiro, nada desejo. Seria melhor partir.”

A decisão de deixar o mundo adquiriu cada vez mais força na alma de Werther durante esse tempo e em meio a essas circunstâncias. Desde o seu regresso para junto de Carlota, a decisão passou a ser o seu último recurso, a sua derradeira esperança. Mas prometera a si mesmo não precipitar-se, não proceder com violência na consumação do ato, e não dar o passo caso não estivesse definitivamente convencido, tranqüilamente resoluto.

A sua incerteza, a sua luta consigo próprio espiam convincentes de um bilhetinho, que

por certo era o começo de uma carta a Guilherme, e foi achado entre seus papéis, sem a data no cabeçalho:

“A sua presença, o seu destino, o interesse que ela tem na minha sorte, espremem ainda as últimas lágrimas do meu cérebro calcinado.

Levantar a cortina e dar um passo para trás dela! Eis tudo! E por que tremer? Por que hesitar? É por se ignorar como é por detrás dela? Por que não há volta? E é esta a característica mais evidente do nosso espírito, supor que é tudo confusão e trevas aquilo sobre o que não sabemos nada ao certo.”

Habituou-se cada vez mais àqueles funestos pensamentos e a cada dia eles lhe pareciam mais familiares. Até que, ao final, o seu projeto passou a definido e irrevogável, e a prova está na seguinte carta de duplo sentido que ele escreveu ao seu amigo.

20 de dezembro

Caro Guilherme, agradeço ao teu amor o fato de teres compreendido tão bem o que eu queria dizer. Sim, tens razão, seria melhor para mim ter partido. A proposta que me fazes de voltar a ir ter convosco não me é de todo simpática, quereria ao menos dar uma volta, sobretudo no momento em que podemos contar com a interrupção da geada e um caminho sem problemas. Também estou muito feliz com a intenção expressa de vires me buscar, mas concede-me apenas quinze dias e espera por uma carta minha que te dê novas ulteriores. Não se deve colher o fruto antes de estar maduro. E quinze dias a mais, quinze dias a menos, fazem muita diferença. Dirás a minha mãe que reze pelo seu filho, e que lhe peço perdão por todas as mágoas que tenho lhe causado. Era meu destino atormentar as pessoas às quais só devo alegria. Adeus, meu caro! Que o céu derrame sobre ti todas as suas bençãos! Adeus!”

O que se passou por esta época na alma de Carlota, e o que ela sentia em relação a seu marido e a seu infeliz amigo, não achamos confiança para relatar com precisão, mesmo que no fundo façamos idéia disso, dado o conhecimento do seu caráter e o fato de que toda a mulher dotada de uma alma limpa e honesta se identificará com ela e compreenderá o quanto ela sofria. O que é certo é que ela estava decidida a fazer de tudo para afastar Werther. E, se contemporizava, era apenas para poupar cordial e amigavelmente o amante, uma vez que sabia quanto tal esforço lhe custaria, e que o mesmo esforço se localizava nas fronteiras do possível para ele. Contudo, em breve se viu forçada a tomar uma resolução séria; seu esposo continuava calado a respeito do relacionamento, conservando o mesmo silêncio que ela tinha guardado, e tanto mais lhe importava provar, através de sua ação, o quanto seus sentimentos eram dignos dos do seu marido.

No mesmo dia em que Werther escreveu ao amigo a carta a que acabamos de aludir –

isso acontecera no domingo antes do Natal –, foi à noite à casa de Carlota e encontrou-a só.

Estava ocupada em arrumar os brinquedos que destinaria aos irmãos e irmãs como presente natalino. Werther falou da alegria que as crianças iriam sentir e do tempo em que a abertura inesperada de uma porta e a aparição da árvore cheia de velas de cera, de gulodices e de maçãs nos levavam a um encantamento paradisíaco.

[82] “Tambem vós”, disse Carlota, encobrindo o seu embaraço num sorriso amável, “também vós tereis os vossos presentes, se

vos portardes bem. Uma velinha e alguma outra coisa mais.”

“E o que chamais de portar-me bem?”, interrogou ele. “Como devou eu estar? Como posso estar, caríssima Carlota?”

“Na quinta-feira à noite”, disse ela, “é véspera de Natal, aí virão os pequenos e o meu pai com eles e cada qual terá o seu presente. Vinde também... Mas não antes...” Werther ficou perplexo.

“Peço-vos”, continuou ela, “que seja assim, e peço-o para o meu próprio sossego. Isso não pode continuar assim, não, não pode.”

Ele desviou os olhos dela e pôs-se a caminhar pela sala, a murmurar: “Isso não pode continuar assim!”

Carlota, que sentiu o estado terrível em que o puseram aquelas palavras, procurou, através de mil perguntas, distraí-lo de seus pensamentos, mas em vão.

“Não, Carlota!”, exclamou ele. “Nunca mais vos tornarei a ver!”

“Por que isso, Werther?”, replicou ela. “Podeis, deveis tornar a ver-nos, apenas tendes de vos controlar um pouco! Oh, por que é que nascestes com esses ímpetos, com esses arrebatamentos indomáveis e ardentes que dedicais a tudo o que vos toca! Peço-vos”, acrescentou ela pegando-lhe na mão, “dominai-vos! Vosso espírito, vosso talento, vossos conhecimentos, quantos prazeres eles não vos garantem! Sede homem, quebrai essa fatal afeição que tendes por uma criatura que não pode fazer mais que vos lamentar!”

Ele rangeu os dentes e olhou para ela com ar sombrio. Ela pegou-lhe na mão mais uma vez. “Um só instante de calma, Werther!”, disse ela. “Não sentireis por acaso que vos iludis, que caminhais voluntariamente para a vossa perda? Por que eu, Werther? Justamente eu, que pertenço a outro? Precisamente eu? Chego a recear, sim, chego a recear que seja a própria impossibilidade de me possuir que torna os vossos desejos tão ardentes!”

Ele retirou a sua mão das mãos dela e, olhando-a com ar fixo e desgostoso, exclamou.

“Sábio! Mas isso é muito sábio! Não foi talvez Alberto que fez essa observação? Ela é política! Bastante política!”

“Qualquer um poderia fazê-la!”, replicou ela, quase a interrompê-lo. “Não haverá, pois, no mundo inteiro, nenhuma moça capaz de satisfazer aos desejos do vosso coração? Fazei esforços por a encontrar e juro-vos que a encontrareis; pois já há tempo que, por vós e por nós, me aflijo com o isolamento em que vós vos pondes. Dominai-vos! Uma viagem vos faria, sim, teria de vos fazer bem. Procurai um objeto digno do vosso amor, e voltai... Então, então poderemos gozar todos juntos a ventura de uma amizade sincera.”

“Poder-se-ia imprimir isso”, disse Werther com um sorriso amargo, “e recomendá-lo a todos os educadores. Querida Carlota! Deixai-me ainda um momento em paz e tudo haverá de se arranjar!”

“Está bem, Werther! Mas não volteis antes da véspera de Natal!”

Ele quis responder, Alberto entrou. Deram-se as boas-noites num clima gelado e puseram-se a andar lado a lado pelo quarto, para cá e para lá, com ar constrangido. Werther principiou um discurso pouco significante, que em breve acabou, e Alberto fez o mesmo, perguntando à mulher sobre algumas coisas que haviam ficado ao encargo dela. Quando ouviu que elas ainda não haviam sido encaminhadas, disse-lhe algumas palavras que Werther achou frias e até mesmo duras. Ele queria ir-se embora e não podia. Hesitou até as oito horas e,

vendo que seu mau humor e seu desgosto apenas aumentavam, pegou na bengala e no chapéu decidido a partir, quando a empregada principiou a pôr a mesa. Alberto convidou-o a ficar, mas ele, que não viu na atitude mais do que uma insignificante delicadeza, agradeceu com frieza e saiu.

Chegou em casa, arrancou a luz das mãos do criado que queria iluminar-lhe o caminho, e subiu desacompanhado ao quarto. Soluçava alto, gritava consigo mesmo de maneira agitada e percorria o cômodo em largas passadas, até acabar enfim por se atirar vestido à cama, onde o criado o encontrou às onze, depois de ousar entrar para lhe perguntar se não queria que lhe tirasse as botas. Werther permitiu que o fizesse, proibindo-o de entrar ao quarto na manhã seguinte antes que ele o chamasse.

Na segunda-feira de manhã, 21 de dezembro, escreveu a Carlota a seguinte carta, que foi encontrada lacrada sobre a escrivaninha depois da sua morte e entregue à destinatária. Expô-la-ei aqui em fragmentos, exatamente como parece ter sido escrita.

“Está decidido, Carlota, quero morrer, e escrevo-te sem nenhuma exaltação romanesca, sossegado, na manhã do dia em que te verei pela última vez. Quando leres esta, minha querida, o túmulo gelado já estará cobrindo os despojos rijos do inquieto, do desgraçado que não conheceu prazer mais doce para os derradeiros momentos da sua vida do que o de se ocupar contigo. Tive uma noite terrível e, por que não dizer, uma noite benéfica. Ela definiu, radicou a minha resolução... Quero morrer! Quando me arranquei ontem de perto de ti, que convulsão sentia na alma, que horrível aperto no coração, ao notar o modo brutal como o meu ser se consumia junto de ti, sem alegria, sem esperança, numa frialdade tenebrosa... Mal pude chegar ao meu quarto. Lancei-me de joelhos, sentindo-me fora de mim, e, oh Deus! Concedeste-me pela última vez o alívio das lágrimas mais amargas. Mil projetos, mil perspectivas lutaram em fúria na minha alma, e por fim ficou ali, firme e inteiriço, o último, o único pensamento...

Quero morrer! Deitei-me e pela manhã, no sossego do despertar, ainda encontrei o mesmo pensamento, firme, inteiriço, ancorado em meu coração. Quero morrer! Não é desespero, é a certeza inabalável de que termino minha carreira e me sacrifico por ti. Sim, Carlota! Por que eu haveria de ocultá-lo? Um de nós três tem de morrer, e quero ser eu! Oh, minha querida!

Uma idéia furiosa insinuou-se no meu coração lacerado por várias vezes... Matar o teu esposo! Ou a ti! Não, a mim... Seja assim, pois! Quando, na tarde de um belo dia de verão, subires à montanha, pensa em mim e lembra-te de quantas vezes eu percorri esse vale. Olha depois para o cemitério e vê como o vento embala o capim alto sobre o meu túmulo, aos últimos raios do sol poente... Eu estava calmo quando comecei... e agora... agora choro como uma criança ao sentir que tudo me afeta de maneira tão viva...”

Pelas dez horas, Werther chamou o criado e, enquanto se vestia, disse-lhe que iria viajar durante alguns dias, de modo que ele devia arrumar suas roupas e preparar tudo para fazer as malas. Ordenou-lhe também que fosse pedir as contas junto aos credores, que buscasse alguns livros que havia emprestado e pagasse dois meses adiantados a alguns pobres que recebiam dele uma esmola semanal.

Mandou que lhe levassem a comida ao quarto e depois do jantar cavalgou em busca do bailio. Ele não estava em casa. Passeou pelo jardim com ar pensativo, parecendo querer ajuntar em quantidade todas as recordações e melancolias capazes de lhe aumentar a tristeza.

As crianças não o deixaram muito tempo sossegado. Correram para ele, perseguiram-no, e lhe contaram que, depois que passasse amanhã, e depois de amanhã, e ainda mais um dia depois de depois de amanhã, haveriam de receber de Carlotinha os seus presentes de Natal, e desenrolavam todas as maravilhas prometidas pela sua imaginação... “Amanhã”, exclamou ele, “e ainda depois de amanhã, e ainda mais um dia!” E beijou-os a todos com ternura, disposto a deixá-los, quando o mais novo quis dizer-lhe ainda uma coisa ao ouvido. Revelou-lhe que os seus irmãos mais velhos haviam escritos belas saudações ao ano vindouro, assim grandonas, ó! E uma para o papá, uma para Alberto e Carlota e uma também para o senhor Werther; elas seriam entregues bem cedo, no dia do Ano Novo. Aquilo o subjugou definitivamente, deu a todos alguma coisa, montou a cavalo, encarregou-os de darem os seus cumprimentos ao velho e partiu com os olhos marejados de lágrimas.

Voltou por volta das cinco e ordenou à criada que tivesse cuidado com o fogo e o conservasse aceso até a noite. Disse ao criado que enfardelasse seus livros e sua roupa e envolvesse toda sua

vestimenta em sacos protetores.[83] Foi por certo então que ele escreveu o parágrafo seguinte, parte de sua última carta a Carlota.

“Tu não me esperas! Pensas que te obedeço e que apenas voltarei a ver-te na véspera do Natal. Oh, Carlota! Hoje ou nunca. Na véspera de Natal terás este papel nas mãos, estremecerás e molhá-lo-ás com as tuas lágrimas. Eu quero ir, eu tenho de ir! Oh, como estou bem depois que me decidi!”

Carlota não estava em situação muito melhor naquele momento. No seu último encontro com Werther sentira tanto mais de perto o quanto seria difícil para ela afastá-lo de si, compreendendo que não o havia feito até então para evitar os tormentos que ele sentiria ao separar-se dela.

Dissera de modo distraído, diante de seu marido, que Werther não voltaria antes da véspera do Natal, e Alberto montara a cavalo para ir à casa do bailio da vizinhança fechar um negócio que o reteria até o dia seguinte.

Carlota estava só, nenhum dos seus irmãos ao seu redor. Ela entregou-se por inteiro aos seus pensamentos, que iam da sua situação presente ao futuro.Via-se unida por toda a vida a um homem, cujo amor e cuja fidelidade ela conhecia e a quem amava de todo o coração; um homem cuja tranqüilidade, cuja solidez pareciam ter sido ajustadas pelo céu para garantir a felicidade de uma mulher honesta; sentia bem o que um esposo como ele seria para si e para seus filhos. Por outro lado, Werther havia se tornado tão caro a ela e desde o primeiro instante a simpatia entre os dois tinha se manifestado de modo tão forte! A longa convivência com ele, algumas situações que viveram juntos haviam causado impressões indeléveis no coração dela.

Acostumara-se a partilhar com ele tudo o que achava interessante, todos os seus sentimentos e todos os seus pensamentos, e a partida do jovem ameaçava abrir-lhe um vácuo que ela nunca mais conseguiria preencher. Oh! Se ela pudesse transformá-lo em um irmão naquele instante, como teria sido feliz! Se tivesse achado um meio de casá-lo com uma das suas amigas! Se lograsse reatar de modo definitivo a boa harmonia entre ele e Alberto!

Passou em revista, na sua imaginação, todas as suas amigas e a cada qual achava sempre algum defeito, e nenhuma lhe pareceu digna dele.

Em meio a todas estas reflexões, acabou por sentir profundamente, sem ousar confessá-

lo a si mesma, que o desejo secreto de sua alma era conservá-lo para si, mesmo se logo a seguir repetiu que não podia, não devia conservá-lo. A sua alma pura, bela e sempre tão invulnerável à tristeza, recebeu nesse instante a pressão dura da melancolia que lhe interditava as perspectivas futuras de felicidade. Seu coração estava opresso e uma nuvem escura embaciava-lhe os olhos.

Eram seis e meia da tarde quando ouviu Werther subir a escada, reconhecendo de imediato os seus passos e a sua voz a perguntar por ela. Como o seu coração bateu descompassado, e podemos dizer que pela primeira vez, ao sentir que ele se aproximava!

Teve vontade de dizer que não estava e quando ele entrou exclamou, numa espécie de turvação apaixonada: “Não cumpristes a vossa palavra!”

“Nada prometi!”, foi a resposta dele.

“Pelo menos deveríeis ter dado atenção ao meu pedido”, replicou ela, “de que respeitásseis a nossa tranqüilidade comum.”

Carlota não sabia bem o que dizer, muito menos o que fazer, quando pensou em mandar convidar algumas das suas amigas para não ficar só com Werther. Este deitou sobre a mesa alguns livros que havia trazido e pediu outros. Ora ela desejava ver suas amigas chegando, ora que não aparecessem. A criada entrou anunciando-lhe que as amigas haviam pedido desculpas por não poderem vir.

Pensou primeiro em fazer ficar a moça, recomendando que continuasse o trabalho no quarto ao lado, depois mudou de idéia. Werther dava largas passadas pela sala e ela pôs-se ao piano, começando um minueto, mas os dedos se negavam a tocar. Concentrou-se e foi sentar-se com tranqüilidade ao pé de Werther, que tinha ocupado seu lugar costumeiro junto ao canapé.

“Não tendes nada para ler?”, ela perguntou. Ele não tinha nada.

“Aqui, na minha gaveta”, continuou ela, “está a vossa tradução de

alguns dos cantos de Ossian;[84] ainda não os li, porque estava a esperar que vós mesmo os lêsseis para mim, mas lamentavelmente não tivemos oportunidade de fazê-lo.”

Ele sorriu, pegou as canções, sentiu um arrepio ao tê-las nas mãos e seus olhos encheram-se de lágrimas quando abriu o caderno. Sentou-se e leu.

“Estrela da noite nascente, eis-te a resplandecer no Ocidente, ergues a tua cabeça fulgurante sobre a nuvem e caminhas majestosa ao longo da colina. Que estás a ver na charneca? Os ventos tempestuosos amainaram, ouve-se o marulho da torrente ao longe, as vagas turbulentas vêm espiar ao pé do rochedo e os insetos noturnos zumbem sobre o campo.

Para onde olhas, bela claridade? Mas sorris e partes, jovialmente envolta pelas ondas, que beijam teu cabelo amado. Adeus, clarão tranqüilo. Apareça, tu, a soberba luz da alma de Ossian!

E ela aparece em todo o seu fulgor. Vejo os meus amigos mortos; eles reúnem-se em Lora, como nos passados dias. Fíngal vem, semelhante a uma coluna de névoa úmida. Em volta dele estão seus heróis; e eis que vejo os bardos da canção! Ullin, de cabelos grisalhos!

O majestoso Ryno! Alpin, cantor amável! E tu, suave e lamentosa Minona! Como estais mudados, meus amigos, desde os dias da festa em Selma, quando disputávamos entre nós as honras do canto, como se fôssemos zéfiros da primavera a vergar, uma após outra, as ervas fracas e ciciantes da colina!

Então Minona avança em sua beleza, de olhar baixo e olhos marejados, o cabelo flutuante, resistindo ao vento vagabundo que soprava do alto da colina. A alma dos guerreiros entenebreceu-se quando ela elevou sua doce voz; porque eles haviam visto muitas vezes o túmulo de Salgar, muitas vezes haviam descortinado a sombria habitação da branca Colma.

Colma estava abandonada na colina, com sua voz melodiosa; Salgar prometera vir, mas a noite descia sobre ela. Escutai a voz de Colma, agora que ela está solitária na colina.

Colma

É noite... Estou só, perdida na tempestuosa colina. O vento sopra nos montes, a torrente despenha com fragor rochedo abaixo. Nenhuma cabana me defende da chuva, esquecida que estou na colina tempestuosa.

Oh, lua! Sai de detrás das nuvens! Aparecei, estrelas da noite! Que um raio qualquer me conduza ao lugar onde o meu amor repousa das fadigas da caça, com o arco distendido ao seu lado e os cães ofegantes em volta de si! Terei eu de permanecer sentada aqui, só sobre a rocha e sujeita à torrente? A torrente cresceu e a tempestade brame. Não ouço a voz do meu amante!

Por que é que tarda o meu Salgar? Por acaso esqueceu sua promessa? Aqui estão o rochedo e a árvore, e logo ali a ruidosa torrente. Prometeste estar aqui assim que a noite chegasse. Ah, onde terá se perdido o meu Salgar? Queria fugir contigo, abandonar pai e irmão!

Os soberbos! Há muito nossas estirpes são inimigas, mas nós não somos inimigos, oh, Salgar!

Cala-te um instante, oh, vento! Silencia um pouco, oh, temporal, a fim de que minha voz seja ouvida no vale e o meu viajeiro me ouça. Salgar! Salgar! Sou eu quem chama. Aqui estão a árvore e o rochedo. Salgar, meu amor, estou aqui! Por que demoras a chegar?

Olha, a lua apareceu... A torrente refulge no vale. O rochedo é uma mancha sombria no alto da colina. Mas eu não o vejo subindo. Os cães que vão sempre à frente dele não me anunciam sua chegada. Tenho de ficar só aqui!

Mas quem serão aqueles lá embaixo, deitados na charneca... Meu amante? Meu irmão?

Falai, oh, meus amigos! Eles não respondem. Como a minha alma está aflita... Ah, eles estão mortos! Suas espadas jazem vermelhas do combate. Oh, meu irmão! Meu irmão! Por que mataste o meu Salgar? Oh, meu Salgar, por que mataste o meu irmão? Vós me éreis ambos tão queridos! Oh! Tu eras belo entre mil na colina; ele era terrível no combate. Respondei-me!

Escutai a minha voz, meus bem-amados! Mas, ah! Eles estão mudos. Mudos para sempre. E

seus peitos frios como a terra...

Oh! Do alto do rochedo sobre a colina, do mais alto cume da tempestuosa montanha, falai, espíritos dos mortos! Falai, que eu não haverei de horrorrizar-me... Onde fostes repousar? Em que caverna das montanhas poderei encontrar-vos? Não colho a mais débil voz no seio do vento, o temporal desce uivando da colina e não me traz respostas.

Estou sentada em meus lamentos, aguardo a manhã em minhas lágrimas. Abri o túmulo, vós, os amigos dos mortos, mas não o fecheis até que eu chegue! A minha vida desvaneceu-se como um sonho, como poderia ficar pra trás... Quero morar aqui, com meus amigos, junto à torrente que brota do rochedo... Quando a noite chegar à colina, e o vento soprar na charneca, o meu espírito irá com ele, a lamentar a morte dos meus amigos. O caçador ouvir-me-á de seu

esconderijo, receará a minha voz e haverá de amá-la, porque ela será doce ao chorar os meus amigos; eu gostava tanto de ambos!

Era este o teu canto, oh, Minona, terna e corada filha de Thormann! As nossas lágrimas correram por Colma e a nossa alma estava sombria... Ullin apareceu com a harpa nos trazendo o canto de Alpin... A voz de Alpin era amável, a alma de Ryno, uma labareda! Mas ambos já habitavam a casa dos mortos e a sua voz já fenecera em Selma... Um dia Ullin, voltando da caça, antes de os dois heróis terem tombado, ouviu seus cantos de desafio na colina. Os seus cantos eram doces, mas tristes, lamentavam a queda de Morar, o primeiro dos heróis. Sua alma era como a alma de Fíngal; sua espada como a espada de Oskar... Mas ele caiu morto e o seu pai lamentou e os olhos de sua irmã se encheram de lágrimas... Os olhos de Minona se encheram de lágrimas, Minona, a irmã do valente Morar. Ante os acordes de Ullin, ela retirou-se, como a lua no Ocidente, quando prevê a tempestade e esconde a sua bela cabeça atrás de uma nuvem... Eu dedilhei a harpa com Ullin, anunciando o canto das lamentações.

Ryno

O vento e a chuva cessaram, a tarde está serena e as nuvens se dissipam. Os derradeiros raios do sol iluminam a colina, fugidios. A torrente corre rubra da montanha ao vale. Doce é teu murmurar, oh, torrente, mas ainda mais doce é a voz que ouço. É a voz de Alpin, e ele lamenta os mortos. A sua cabeça pende com a idade e os seus olhos estão vermelhos de chorar. Alpin, cantor magnífico, por que gemes como uma rajada de vento na floresta, como uma vaga na praia remota?

Alpin

As minhas lágrimas, Ryno, são dedicadas aos mortos, minha voz aos habitantes do túmulo. Tu és esbelto sobre a colina, belo entre os filhos da charneca! Mas tu haverás de cair como Morar e o aflito sentará sobre o teu sepulcro. As colinas haverão de te esquecer e o teu arco quedar frouxo junto à muralha.

Tu eras ágil, oh, Morar, como um corça na colina, terrível como o meteoro a rasgar o céu. Tua cólera era uma tempestade, tua espada na batalha como um relâmpago na charneca.

Tua voz assemelhava-se à torrente na floresta depois da chuva, ao trovão ribombando nas colinas distantes. Muitos caíram sob o teu braço, a chama da tua ira os consumia. Mas quando regressavas da guerra, como era pacífica a tua voz! A tua face era semelhante ao sol depois da borrasca, semelhante à lua na noite silenciosa. O teu peito era tranqüilo como o lago, quando o fragor do vento adormeceu.

Estreita é agora tua morada, sombria tua cidadela. Com três passos meço a tua cova, oh, tu, que antes eras tão grande! Quatro pedras cobertas de musgo são teu único monumento. Uma árvore desfolhada, as altas ervas que o vento inclina, indicam ao olhar do caçador o túmulo do poderoso Morar. Não tens mãe que chore por ti, nem amante que derrame lágrimas de amor por tua causa. Morta está aquela que te deu a vida. Tombou a filha de Morglan.

Quem é que vem ali, caído sobre o cajado? Quem é ele, esse homem cuja cabeça é

branca de velhice e cujos olhos estão vermelhos de lágrimas? É teu pai, oh, Morar! O pai de nenhum filho, exceto de ti. Ele ouviu falar da tua valentia no combate, dos inimigos caídos sob teus golpes. Ele soube da glória de Morar! Ah! Mas nada a respeito de sua ferida! Chora, pai de Morar! Chora! Mas o teu filho não te escuta. Profundo é o sono dos mortos, fundo seu travesseiro de pó. Nunca mais ouvirá a tua voz, não despertará ao teu chamado. Oh! Quando chegará a manhã ao túmulo, para enfim dizer àquele que dorme: Acorda!

Adeus, oh, mais nobre dos homens, conquistador das batalhas! Mas nunca mais te verá o campo de guerra, nunca mais a floresta sombria resplandecerá ao reflexo do teu aço. Não deixaste nenhum filho, mas os cantos manterão vivo o teu nome. Tempos futuros ouvirão falar de ti, conhecerão a glória e a queda de Morar!

Alto era o luto dos heróis, e mais altos os supiros dolorosos de Armin. Aquele canto recordava-lhe a morte de seu filho, tombado quando ainda era jovem. Carmor estava perto do herói, Carmor, príncipe da retumbante Galmal! “Por que soluça Armin, o suspiroso?”, disse ele. “O que há a lamentar nisso? A música e os cantos não serão destinados a derreter a alma e depois reanimá-la? Eles são como a névoa suave que se levanta do lago e cai no vale orvalhando as flores; mas o sol aparece de repente com força e dissipa o nevoeiro. Por que é que estás tão pleno de lamentos, oh, Armin, senhor de Gorma circundada de lagos?”

Armin

Sim, pleno de lamentos! Assim estou e não é pouco o motivo da minha dor... Carmor, tu não perdeste filhos, não perdeste uma filha de radiante beleza! O bravo Colgar vive, e Amira também, a mais bela das moçoilas. Os ramos da tua casa florescem, oh, Carmor, mas Armin é o último do seu tronco! O teu leito é negro, oh, Daura! Surdo é o teu sono no túmulo... Quando despertarás com teus cantos, com tua voz melodiosa? Erguei-vos, ventos do outono, erguei-vos! Soprai na charneca sombria! Espumai, torrentes da floresta! Uivai, furacões, no cimo dos carvalhos! Viaja através das nuvens laceradas, oh lua! Mostra e depois oculta o teu pálido rosto! Lembra-me da noite terrível em que meus filhos morreram, em que Arindal, o forte, tombou, e Daura, a bela, desapareceu!

Daura, minha filha, tu eras bela! Bela como a lua nas colinas de Fura, branca como a neve sobre o chão, doce como a aura da manhã. Arindal, o teu arco era forte, a tua lança rápida no ar, o teu olhar como a névoa que preme as ondas, o teu escudo uma nuvem de fogo no temporal.

Armar, famoso na guerra, chegou e solicitou o amor de Daura; ela não resisitiu por muito tempo e belas eram as esperanças de seus amigos.

Erath, o filho de Odgal, estremecia de fúria porque seu irmão havia sido morto por Armar. Chegou disfarçado de barqueiro e sua barca era airosa sobre as ondas, brancos da velhice os cachos do seu cabelo, tranqüilo o seu rosto sério. “Oh, mais bela das moçoilas!”, disse ele. “Amável filha de Armin, lá embaixo no rochedo, não longe da praia, onde a fruta madura pende da árvore, Armar espera por sua Daura. Eu venho para conduzir seu amor sobre as ondas movediças.”

Ela o seguiu, chamando por Armar. Ninguém lhe respondeu, a não ser a voz do rochedo.

“Armar, meu querido, meu amor, por que me afliges tanto assim? Ouve-me, filho de Arnath!

Ouve-me. É Daura que chama por ti.”

Erath, o traidor, fugia rindo pelos campos. Ela levantou sua voz, chamando por seu pai e seu irmão: “Arindal! Armin! Não há nenhum aqui para salvar sua Daura?”

A sua voz atravessou o mar. Arindal, meu filho, desceu da colina carregado dos despojos da caça. Suas flechas retiniam a seu lado. Seu arco, ele carregava na mão. Cinco molossos cinzentos o rodeavam. Avistou o impávido Erath na praia, agarrou-o e atou-o ao carvalho. Apertou a corda com firmeza, cingindo-lhe os braços e a cintura. Erath, assim amarrado, encheu o ar de gemidos.

E Arindal empurra o barco às ondas, a fim de trazer Daura à praia. Armar surge irado e solta a flecha de penas acinzentadas, ela sibila e afunda em teu coração, oh Arindal, meu filho!

Ao invés de Erath, o traidor, foste tu quem morreste! O barco atingiu os rochedos, enquanto Arindal caía e expirava. Quão grande foi o teu lamento, oh, Daura, quando viste o sangue de teu irmão correr aos teus pés!

As ondas estilhaçaram o barco. Armar atirou-se à água para salvar a sua Daura ou morrer. Uma rajada de vento caiu ligeira da colina sobre as ondas, ele submergiu e nunca mais voltou a aparecer.

Sozinho sobre o rochedo batido pelas vagas, ouvi o lamento de minha filha. Altos e contínuos eram os seus gritos, mas seu pai não pôde ir salvá-la. Fiquei na praia a noite inteira, via-a aos débeis raios da lua, a noite toda ouvi os seus gritos. O vento soprava forte e a chuva era torrencial. A sua voz enfraqueceu antes de a aurora surgir e acabou por se extinguir como a aragem do entardecer entre a erva das rochas. Esgotada pela dor, morreu e deixou Armin só!

A minha força na guerra acabou, sumiu-se o meu orgulho de pai.

Quando os temporais descem da montanha, quando o vento norte eleva as ondas, sento-me na praia rumorosa e olho em direção ao terrível rochedo. Muitas vezes, quando a lua principia a aparecer no céu, descubro os espíritos dos meus filhos caminhando juntos e semi-encobertos, em triste concórdia.”

Uma torrente de lágrimas, que correu dos olhos de Carlota e aliviou

seu coração opresso, interrompeu a leitura de Werther. [85] Ele atirou o manuscrito à mesa, pegou-a por uma de suas mãos e verteu as mais amargas lágrimas. Carlota estava apoiada à outra mão e escondia os olhos no lenço. A agitação de ambos era terrível. Sentiam seu próprio infortúnio no destino dos heróis de Ossian e sentiam-no juntos, confundindo suas lágrimas. Os lábios e os olhos de Werther queimavam o braço de Carlota, um tremor percorreu seu corpo e ela quis afastar-se, mas a dor e a compaixão reteram-na como uma massa de chumbo a pesar sobre ela.

Buscou ar, suspirando e tentando se recompor, e, soluçando, implorou-lhe que continuasse, implorou-lhe com a voz tomada de ternura celestial. Werther tremia, seu coração parecia prestes a dilacerar-se, mas ele voltou a pegar o manuscrito e leu com voz entrecortada.

“Por que é que me despertas, hálito da primavera? Fazes-me carícias e dizes: Eu te orvalho com gotas do céu. Mas o meu tempo de murchar vai próximo, está próxima a tempestade que há de arrancar minhas folhas. Amanhã chegará o viajeiro, chegará aquele que me viu em meu esplendor, os seus olhos me buscarão olhando

em volta na campina, e não me encontrarão.” [86]

Toda a violência destas palavras caiu sobre o desgraçado, e ele lançou-se aos pés de

Carlota. Dominado pelo desespero, pegou as mãos dela, apertou-as aos seus próprios olhos, depois à testa, enquanto Carlota pareceu sentir fundo a atravessar-lhe a alma o pressentimento do horroroso projeto que ele havia concebido. Os sentidos da moça turvaram-se, ela apertou-lhe as mãos, voltando a segurá-las depois junto ao seio, inclinou-se para ele num movimento doloroso e as faces ardentes de ambos se tocaram. O universo desvaneceu-se para eles.

Werther envolveu-a nos braços apertando-a ao peito e cobriu seus lábios trêmulos e balbuciantes com beijos furiosos. “Werther!” disse ela com voz abafada e tentando desviar-se.

“Werther!” E com débil mão procurava afastá-lo do seu seio.

“Werther!”, ela exclamou enfim, em tom mais imperativo e mais nobre. Werther não pôde resistir, deixou-a desprender-se de seus braços e lançou-se ao chão diante dela como um desesperado. Ela levantou-se bruscamente e, cheia de perturbação, tremendo entre o amor e a cólera, disse-lhe: “É a última vez, Werther! Nunca mais me vereis”. E em seguida, lançando ao miserável um olhar cheio de amor, correu para o quarto ao lado e trancou-se dentro dele.

Werther estendeu os braços em sua direção, mas não se atreveu a retê-la. Estava prostrado ao chão, com a cabeça recostada ao canapé e ficou mais de meia hora naquela posição até que um rumor o chamou à realidade. Era a criada querendo pôr a mesa. Ele ia e vinha pela sala e, quando voltou a se ver só, aproximou-se da porta do gabinete e chamou em voz baixa:

“Carlota! Carlota! Só mais uma palavra, um adeus”. Ela manteve-se em silêncio. Ele aguardou... e rogou... e tornou a aguardar, até enfim arrancar-se da porta exclamando: “Adeus, Carlota, adeus para sempre!”

Chegou aos portões da cidade. Os guardas, já acostumados a vê-lo, deixaram-no entrar sem nada lhe dizer. Chovia e caía neve ao mesmo tempo e ele só foi se recolher às onze. O

criado percebeu, assim que Werther chegou em casa, que ele não trazia o chapéu, mas não se atreveu a dizer qualquer coisa, despiu-o, e viu também que a roupa de seu senhor estava totalmente molhada. Encontraram seu chapéu mais tarde, sobre um rochedo, que se destaca no alto da montanha e avança sobre o vale, e ninguém compreendeu como o jovem pôde, numa noite tão escura e tão chuvosa, subir para lá sem precipitar-se abaixo.

Werther deitou-se e dormiu por muito tempo. O criado encontrou-o escrevendo, quando ele o chamou de manhã para trazer o café. Acrescentava a seguinte passagem à sua carta a Carlota:

“É pela última vez, pois, pela última vez que eu abro os olhos! Ah, eles não mais verão o sol, um dia sombrio e enevoado os encobrirá por inteiro. Sim, veste luto, oh, Natureza! O teu filho, o teu amigo, o teu bem-amado se aproxima do fim. Carlota, este é um sentimento sem igual e todavia tão parecido ao torpor de um sonho... Ter de dizer a si próprio: esta manhã é a última! A última, Carlota! Não consigo alcançar o significado desta palavra: a última! Não me encontro eu na plenitude de minhas forças? E amanhã, deitado, estendido sem vida sobre a terra! Morrer! O que é que isso significa? Vê, nós sonhamos quando falamos na morte. Vi morrer muitas pessoas, mas o homem é tão limitado que não faz nenhuma idéia do começo e do fim de sua própria existência. E agora ainda é a minha, a tua! A tua, oh, amada! E só mais um momento, querida... separados... desunidos... Talvez para sempre! Não, Carlota, não...

Como posso eu desaparecer? Como podes tu desaparecer, assim no mais? Nós estamos assim, sim... Desaparecer... O que é que isto significa? É mais uma daquelas palavras, um som oco

que o meu coração não compreende... Morto, Carlota! Sepultado num pedaço de terra fria, tão estreito, tão escuro! Tive uma amiga que foi tudo para a minha juventude privada de amparo e de consolação. Ela morreu, acompanhei seu enterro e fiquei ao pé da cova quando desceram o esquife. Ouvi o ranger das cordas que o largavam ao fundo e depois voltavam, e a seguir a primeira pazada de terra rolar abaixo, enquanto o fúnebre caixão devolvia um rumor surdo, e sempre mais surdo, cada vez mais surdo, até ficar de todo coberto, enfim! Caí sobre a cova...

Acorrentado, agitado, opresso, com as entranhas dilaceradas... Mas não fazia idéia de como seria quando acontecesse comigo... quando acontecesse... Morrer! Cova! Não compreendo estas palavras!

Oh, perdoa-me! Perdoa-me! Ontem... Aquele deveria ter sido o derradeiro momento da minha vida. Oh, meu anjo! Foi pela primeira vez, sim, pela primeira vez sem dúvida que o sentimento de uma alegria sem limites penetrou na minha alma: Ela me ama! Ela me ama!

Ainda queima em meus lábios o fogo sagrado que brotou em torrentes dos teus, essa delícia ardente e nova que tomou conta do meu coração. Perdoa-me! Perdoa-me!

Ah, eu bem sabia que me amavas. Sabia-o desde o primeiro olhar, esse olhar cheio de alma; desde o primeiro aperto de mão, e todavia quando te deixava, quando via Alberto ao teu lado, tornava a cair em dúvidas febris.

Lembras-te das flores que me mandaste no dia daquela enfadonha reunião em que não pudeste dizer-me uma única palavra, nem estender-me a mão? Oh, fiquei metade da noite de joelhos diante delas e elas selaram teu amor em mim. Mas, ah! Estas impressões desvaneciam-se, como se desvanece aos poucos no coração do crente o sentimento da graça do seu Deus Todo-poderoso, que lhe fora alcançado com celeste profusão através de sinais sagrados e visíveis.

Tudo isso é perecível, mas nem a própria eternidade poderá destruir a vida incandescente que eu gozei ontem nos teus lábios e agora sinto dentro de mim! Ela me ama!

Estes braços a envolveram, estes lábios vibraram sobre seus lábios! Esta boca balbuciou sobre a sua! Ela é minha! Tu és minha! Sim, Carlota, para sempre!

Que importa que Alberto seja teu esposo? Esposo! O título seria, pois, apenas para este mundo... como para este mundo é pecado o amor que sinto por ti, o fato de eu querer arrancar-te dos seus braços para os meus! Pecado? Pois bem, seja, e eu me puno por causa dele.

Saboreei-o em toda sua celestial delícia, esse pecado, suguei o bálsamo da vida e derramei sua força em meu coração. Desse momento em diante, tu foste e serás minha! Minha, oh, Carlota! Sigo

adiante![87] Vou ter com meu Pai, com teu Pai. Queixar-me-ei a ele, e ele haverá de me consolar até a tua chegada, quando voarei ao teu encontro, cingir-te-ei, ficando unido a ti em presença do Eterno, num abraço infinito.

Não estou sonhando, nem delirando! Perto do túmulo vejo com mais clareza. Nós haveremos de ser! Nós tornaremos a ver-nos! Encontrar tua mãe! Eu haverei de encontrá-la, ah, e então derramarei perante ela todo o meu coração! Tua mãe! Tua perfeita imagem!”

Por volta das onze horas Werther perguntou ao criado se Alberto não estaria de volta. O

criado respondeu que sim, que havia visto passar seu cavalo. Ouvindo isso, o patrão entregou-lhe um bilhetinho aberto que continha estas palavras:

“Poderíeis fazer a gentileza de emprestar-me as vossas pistolas para uma viagem que conto fazer? Adeus!”

A pobre Carlota pouco havia dormido na noite antecedente. O que ela receava estava decidido, decidido de um modo que ela não podia nem prever nem recear. O seu sangue desde sempre tão puro e tão fluido, estava agora numa perturbação febril, e mil sentimentos diferentes destroçavam seu coração. Seria o fogo dos abraços de Werther que ela sentia em seu seio? Seria indignação pela sua temeridade? Seria uma comparação desencorajada entre o seu estado atual e os dias de sua calma e livre inocência, em que confiava absolutamente em si mesma? Como haveria de se apresentar a seu marido? Como confessar-lhe uma cena que ela deveria confessar sem criar problemas e que no entanto não se atrevia a confessar a si própria? Eles haviam se calado tanto tempo a respeito, e agora ela seria a primeira a quebrar o silêncio, e no preciso momento em que teria de fazer ao seu marido uma comunicação tão inesperada? Já receava que tão-só a notícia da visita de Werther haveria de lhe provocar uma impressão desagradável! E que dizer então de uma catástrofe daquelas! Poderia ela esperar que seu marido avaliasse a cena de maneira clara e transparente, considerando-a sem nenhum preconceito? E, por outro lado, conseguiria ela ocultar algo do homem para o qual sempre se mostrara clara e transparente como um cristal polido, para o qual jamais escondera, ou sequer obscurecera, o mais íntimo e ínfimo de seus sentimentos? Uma e outra possibilidade a encheram de cuidados, lançando-a num embaraço cruel. E os seus pensamentos sempre voltavam a Werther, que estava perdido para ela e que ela não podia abandonar, que ela...

lamentavelmente... não devia entregar ao seu próprio destino, pois, perdendo-a, nada mais lhe restaria.

Como pesava sobre ela aquilo mesmo que ela não podia avaliar com clareza naquele momento, a interrupção das relações entre os dois homens! Ambos eram pessoas tão boas, tão cordatas e por causa de um punhado de secretas diferenças haviam principiado um silêncio mútuo, cada qual pensando nos seus direitos e nos agravos do outro, tendo o azedume de tal maneira aumentado pouco a pouco, que se tornou impossível desfazer o nó no momento crítico em que tudo começou. Se uma ditosa confiança os tivesse aproximado mais cedo, se a amizade e a indulgência se robustecessem e abrissem os corações de ambos a efusões amáveis, talvez o nosso desgraçado amigo ainda pudesse ser salvo.

Uma circunstância particular veio a complicar ainda mais as coisas. Werther, conforme o sabemos através de suas cartas, jamais fizera mistério quanto ao fato de querer deixar este mundo. Alberto não se cansara de contrariar o amigo nesse assunto, e também entre Carlota e seu marido o tema veio à baila algumas vezes. Este, em conseqüência de sua decidida aversão pelo suicídio, manifestara com muita freqüência, com uma espécie de acrimônia completamente estranha ao seu caráter, que pouco acreditava em semelhante resolução, permitindo-se, inclusive, alguns gracejos a respeito e comunicando a sua incredulidade a Carlota. Esta reflexão tranqüilizava-a por alguns instantes, quando lhe acudiam ao espírito imagens tão tristes, mas por outro lado impedia-a de participar ao seu marido as inquietações que a torturavam no momento.

Alberto chegou e Carlota foi ao seu encontro, num misto de solicitude e de embaraço.

Ele não vinha de bom humor, não fechara o negócio, e encontrara no bailio da cidade vizinha um homem inflexível e mesquinho. O mau caminho acabara por impacientá-lo ainda mais.

Perguntou se não havia nenhuma novidade e ela apressou-se em responder que Werther

havia estado lá na véspera, à noite. Ele perguntou se havia cartas e ela respondeu que havia posto cartas e pacotes em seu quarto. Ele foi para lá e Carlota ficou só. A presença do homem que amava e estimava deitara uma nova impressão em seu coração. A lembrança da sua generosidade, do seu amor, da sua bondade, fizera o sossego voltar-lhe à alma. Sentiu um desejo secreto de ir atrás dele, pegou seu trabalho e foi ter com ele ao seu quarto como de costume fazia. Alberto estava ocupado em abrir e ler suas cartas. Algumas pareciam não conter coisas especialmente agradáveis. Carlota fez algumas perguntas, às quais ele respondeu de modo sumário, sentando-se à escrivaninha para escrever.

E assim ficaram, um ao lado do outro, durante uma hora, e o ânimo de Carlota cada vez mais sombrio. Ela sentia quão difícil seria confessar ao marido o que lhe pesava no coração, ainda que ele estivesse com o melhor dos humores. Caiu numa melancolia tanto mais penosa por ter de ocultá-lo e engolir em silêncio suas lágrimas.

A aparição do criado de Werther aumentou ainda mais a inquietação de Carlota. Ele entregou o bilhetinho a Alberto, que se voltou com frieza à mulher, dizendo-lhe: “Dá-lhe as pistolas”... “Desejo-lhe boa viagem!”, acrescentou, dirigindo-se ao criado. Aquilo caiu sobre ela como um raio, procurou levantar-se e faltavam-lhe as pernas; não sabia mais o que estava acontecendo. Dirigiu-se com lentidão até a parede, pegou as pistolas com mão trêmula, tirou-lhes o pó e hesitou, e teria demorado muito mais a entregá-las se Alberto não a tivesse forçado a isso com um olhar interrogativo. Deu então as funestas armas ao rapaz sem poder pronunciar uma palavra e, quando este foi embora, juntou seu trabalho e foi ao seu quarto, entregue a uma incerteza macabra e inexprimível. O seu coração pressagiava-lhe o que há de mais sinistro.

Ora pensava em jogar-se aos pés do marido, revelar-lhe tudo, a cena da véspera, sua culpa e seus pressentimentos. Ora deixava de ver qualquer sentido na atitude, não contando ser possível convencer o marido a ir até a casa de Werther. A mesa estava posta, e uma amiga, que apenas fora pedir uma coisa qualquer, quis ir-se embora... mas acabou ficando aos seus pedidos, tornando a conversa suportável durante a refeição: foram sentidos os costrangimentos, foram ditas coisas, foram contadas histórias, foram esquecendo de tudo.

O criado chegou com as pistolas à casa de Werther, que tirou-lhas das mãos encantado quando soube que fora Carlota quem as havia dado. Mandou que trouxessem pão e vinho, disse ao criado que fosse jantar e pôs-se a escrever:

“Passaram por tuas mãos e tu lhes tiraste o pó, beijo-as mil vezes, tocaste nelas! E tu, espírito dos céus, favoreces a minha resolução! E tu, Carlota, me apresentas o instrumento, tu, de cujas mãos eu desejava receber a morte e, ah... agora a recebo. Oh, como eu interroguei o meu criado! Tu tremias ao entregar-lhas, não disseste adeus! Ai! Ai! Nem um adeus! Fechar-me-ias tu o teu coração, apenas por causa daquele momento que me uniu a ti por toda a eternidade? Carlota, séculos e séculos não lograrão apagar esta impressão! E eu sinto que não poderias odiar aquele que se abrasa tanto por ti.”

Depois de jantar, ordenou ao criado que acabasse de enfardelar tudo, rasgou muitos papéis, saiu e pôs algumas pequenas contas em ordem. Voltou para casa e, apesar da chuva, tornou a sair para fora da cidade, ao jardim do Conde, passeou adiante pelos arredores e, ao cair da noite, entrou em casa e escreveu:

“Guilherme, vi pela derradeira vez os campos, as florestas, o céu. Adeus também a ti, querida e boa mãe. Perdoa-me! Consola-a, Guilherme. Que Deus vos encha de bençãos!

Todos os meus negócios estão em ordem. Adeus! Tornaremos a ver-nos, e mais felizes.”

“Paguei mal a tua amizade, Alberto, mas tu haverás de me perdoar. Perturbei a paz da tua casa e trouxe a desconfiança entre vós. Adeus! Vou terminar com isso. Oh, possa a minha morte tornar-vos felizes! Alberto! Alberto! Torna feliz esse anjo! E assim caia sobre ti a benção do céu!”

Voltou a revirar seus papéis por longo tempo durante a noite, rasgou muitos deles, deitando-os ao fogo, lacrou vários pacotes endereçados a Guilherme. Eles continham breves estudos, pensamentos soltos, dos quais cheguei a ver alguns. Pelas dez horas, pediu que botassem mais lenha ao fogo e, depois de solicitar uma garrafa de vinho, mandou seu criado –

cujo quarto, assim como o das outras pessoas da casa, ficava bem distante, na parte traseira da casa – à cama. Este deitou-se vestido, para estar à disposição bem cedo, uma vez que seu patrão havia dito que os cavalos da mala-posta estariam à porta antes das seis horas.

“Depois das onze

Tudo está tão calmo a minha volta, e tão tranqüila a minha alma.

Agradeço-te, meu Deus, teres me presenteado este ardor, esta força nestes instantes derradeiros.

Aproximo-me da janela, minha querida... e vejo através das nuvens tempestuosas e vagantes algumas estrelas no céu eterno! Não, vós não caireis! O Eterno vos traz em seu coração, como a mim. Vejo as estrelas da Ursa, a mais querida das constelações. Quando te deixava à noite, mal saía pelo teu portão, lá estava ela, no alto, à minha frente. Com que embriaguez a contemplei por tantas vezes! Em muitas delas, com as mãos elevadas para o alto, tomei-a por testemunha, fazendo dela um monumento sagrado da ventura de então! E até... oh, Carlota, o que é que não me faz lembrar de ti! Não me envolves, por acaso? Não arranquei para mim, imoderado qual uma criança, todo o tipo de bagatelas que tu santificaste com o toque de tuas mãos?

Querido retrato! Eu lego-to de volta, pedindo que o veneres. Mil, mil beijos imprimi nele, mil vezes o saudei quando saía do quarto ou voltava a entrar nele.

Pedi a teu pai, num bilhetinho, que salvaguardasse o meu corpo. No cemitério há duas tílias, bem ao fundo, no canto que dá para as campinas; é lá que eu desejo repousar. Ele pode, ele haverá de fazer isso por seu amigo. Peça-lhe também. Não quero exigir de pios cristãos que o corpo de um pobre infeliz deite ao lado deles. Ah, quereria que me enterrásseis à beira de um caminho, ou num

vale solitário, a fim de que pastores e levitas,[88] passando junto a meu túmulo, levantassem as mãos ao céu abençoando, e o Samaritano vertesse uma lágrima por mim.

Deixa estar, Carlota! Não tremo ao pegar nas mãos o cálice frio e terrível ao qual beberei a vertigem da morte! Tu mo alcanças e eu não hesito. Assim, pois, estão realizados todos os desejos e esperanças da minha vida. Todos! Todinhos! Bater tão frio, tão rígido nas portas de bronze da morte... Ah, se eu tivesse tido a felicidade de morrer por ti! De me sacrificar por ti, Carlota! Eu morreria feliz e ditoso se pudesse dar-te o sossego, as delícias da vida! Mas, ah! Isso foi concedido a apenas uns poucos privilegiados... derramarem seu

sangue pelos seus e através de sua morte fazer despontar no seio daqueles que amavam uma vida nova e cem vezes renovada.

Quero ser enterrado nestas roupas, Carlota, tu as tocaste, santificaste-as.

Também isso pedi a teu pai. Minha alma paira sobre o féretro. Que não se mexa em meus bolsos. Aquele laço vermelho-pálido que tu levavas ao peito na primeira vez em que te encontrei no meio das crianças – oh, beija-os mil vezes e conta-lhes o destino de seu desgraçado amigo. Oh, os queridos! Eles formigavam ao meu redor. Como me acorrentei a ti!

Desde o primeiro instante não podia deixar-te mais! – ... aquele laço deve ser enterrado comigo, tu mo presenteaste no dia de meu aniversário! Como eu devorava tudo isso! Ah, eu não pensava que o caminho me levaria até aqui... Sossega, eu te peço, sossega!

Elas estão carregadas... Dá meia-noite! Que seja assim! Carlota! Adeus Carlota!

Adeus!”

*****

Um vizinho viu o clarão da pólvora e ouviu o tiro, mas como tudo ficou em silêncio depois disso, não deu maior atenção ao caso.

De manhã, por volta das seis, o criado entrou no quarto com a lamparina nas mãos.

Encontrou seu senhor prostrado ao chão, a pistola e sangue. Chamou-o, levantou-o, e nada de resposta, ele apenas estertorava. Correu ao médico, a Alberto.

Carlota ouve o toque na campainha, um tremor envolve todos seus membros. Acorda seu marido e levantam-se. O criado, chorando e balbuciando, traz a notícia, e Carlota cai desmaiada ante Alberto.

Quando o médico chegou até onde estava o infeliz, achou-o prostrado ao chão, sem salvação. O pulso ainda batia, os membros estavam todos paralisados. Por sobre o olho direito, a bala lhe atravessara a cabeça, arrancando os miolos. De mais a mais, aplicou-se-lhe uma sangria, o sangue correu, ele ainda buscava ar.

Pelo sangue no espaldar da poltrona podia-se deduzir que efetivou o ato sentado à escrivaninha, deslizando ao chão em seguida e rolando convulsivamente em volta da cadeira.

Estava estendido perto da janela, imóvel e de costas, todo vestido e calçado, de casaca azul e colete amarelo.

A casa, a vizinhança, a cidade veio em tumulto. Alberto entrou. Haviam deitado Werther sobre a cama, com a fronte amarrada. Seu rosto mostrava a palidez da morte, ele não movia nenhum membro. O pulmão estertorava ainda mais terrivelmente, ora mais fraco, ora mais forte. Apenas esperavam seu fim.

Do vinho bebera apenas um copo. Emília Galotti[89] jazia aberta sobre a secretária.

Da comoção de Alberto, do desespero de Carlota não consigo dizer nada. O velho bailio veio correndo com a notícia e beijou o moribundo debaixo das mais sentidas lágrimas. Seus filhos mais velhos vieram logo atrás dele, a pé. Caíram junto ao leito, expressando a mais incontida das dores e beijaram as mãos e a boca do amigo; e o mais velho, aquele que ele sempre amara mais, ficou pendurado a seus lábios até ele expirar, e só à força foi tirado dali.

Morreu ao meio-dia. A presença do bailio e as providências que ele tomou evitaram uma aglomeração maior de pessoas. À noite, às onze, fê-lo enterrar no lugar que ele havia

escolhido. O velho e os filhos seguiram o corpo, Alberto não teve forças. Temia-se pela vida de Carlota. Foi carregado por operários.

Nenhum sacerdote o acompanhou.