Os Sofrimentos do Jovem Werther
Adendo ⠀䌀愀爀琀愀猀Ⰰ 昀漀渀琀攀猀 攀 搀愀琀愀猀 瀀愀爀愀 洀攀氀栀漀爀)
FIM
ADENDO
Cartas, fontes e datas para melhor
compreender Werther
(ESBOÇO)[90]
Elas passaram por suas mãos, ela tirou-lhes o pó. Eu vos beijo mil vezes, ela vos tocou.
E tu, espírito dos céus, protejes minha decisão. Ela deu-te as ferramentas, Ela, de cujas mãos eu desejava receber a morte e agora a recebo. Ela tremeu, disse meu criado, no momento em que lhe alcançou as pistolas. “Oh, senhor”, disse o bom rapaz, “vossos amigos lamentam tanto vossa viagem!” Alberto estava junto à escrivaninha, e sem se voltar disse à madame:
“Dê-lhe as pistolas”. Ela levantou-se e ele continuou: “Manda dizer que lhe desejo boa viagem”. Ela tomou as pistolas e tirou-lhes o pó com cuidado, e vacilou, e tremeu ao dá-las ao meu rapaz. E o Adeus ficou colado em seu polegar. Adeus! Adeus!
Ante mim está o laço encarnado, o mesmo que ela carregava junto ao seio no dia em que a conheci e que ela veio a me presentear com tanta amabilidade. Esse laço! Oh, outrora eu não pensava que o caminho poderia me levar tão longe.
Eu te peço, fique em silêncio.
ADVERTÊNCIA EM VERS OS [91]
Todo jovem se inclina a amar assim,
Toda moça deseja assim ser amada,
Ah, o mais santo dos nossos ímpetos, Por que brota dele dor tão alucinada?
Tu o choras, dizes amá-lo, alma querida,
E salvas da vergonha a sua memória;
Vê, seu espírito te acena da ermida:
Sê homem e não segue a mesma história.
FRAGMENTOS DO DIÁRIO DE KESTNER*
(os dados são de 1772, ano e m que Goe the convive u com o casal Johann Ke stne r-Charlotte Buff na cidade de We tzlar, na Ale manha)
Fim de julho: ...Depois disso e assim que havia terminado meu trabalho, vou à casa de minha menina e lá encontro o Dr. Goethe... Ele a ama e, embora seja um filósofo e sempre se mostre amável para comigo, não vê com bons olhos a minha chegada e a intenção de me divertir com minha menina. E eu, embora seja de todo bom para com ele, também não vejo com bons olhos o fato de ele ficar só com minha menina e conversar com ela por tanto tempo...
09 de agosto: Pela manhã fui ao encontro de Carlota junto com o Dr. Goethe. Ela nos
acompanhou até o outro lado de Garbenhein. Após o meio-dia, estávamos mais uma vez junto dela, líamos no jardim... conversávamos...
15 de agosto: Estive com Goethe à noite, até as 12 horas, passeando pela rua. Conversa estranha, pois ele estava dominado pelo mau humor e tendo todo o tipo de fantasias...
16 de agosto: Goethe levou um sermão de Carlota. Ela declarou-lhe que não deveria esperar dela mais do que amizade; ele estava pálido e completamente abatido. Fomos passear até os portões da cidade nova...
10 de setembro: Goethe almoçou comigo no jardim. Eu não sabia que era a última vez... À
noite, o Dr. Goethe foi até a Casa da Alemanha. Ele, Carlota e eu tivemos uma conversa estranha a respeito da situação pós-vida, sobre o partir e o voltar e assim por diante, que não foi iniciada por ele, mas por Carlota. Combinamos entre nós que o primeiro dos três que morresse teria de, assim que pudesse, dar notícias de sua vida no além aos que ficassem vivos. Goethe mostrava-se completamente abatido, pois sabia que iria partir no dia seguinte.
11 de setembro: Goethe partiu às onze horas sem se despedir... As crianças na Casa da Alemanha diziam umas às outras: “O Doutor Goethe se foi!”... Após o meio-dia eu trouxe o bilhete de Goethe a Carlota. Ela estava desolada com sua partida e lágrimas vieram-lhe aos olhos durante a leitura. Em todo caso, gostou que ele partisse, porque sabia não poder lhe dar o que ele desejava... Só falamos dele. Eu também não podia pensar em nada a não ser nele; defendi o modo como ele partiu, desaprovado por uma pessoa da roda, que não sabia nada de nada...
30 de outubro: (Escrito em francês no diário) Hoje aconteceu esta malfadada catástrofe envolvendo Monsieur Jerusalem. Toda a cidade lamenta sua morte.
FRAGMENTOS DE CARTAS
Carta de Kestner a seu amigo August von Hennings, meados tardios de 1772.
No começo do ano chegou por aqui um certo Goethe, de Frankfurt, jurista de profissão, 23 anos de idade, filho único de pai muito rico para – essa era a intenção de seu pai – trabalhar como advogado na cidade; segundo os seus propósitos, no entanto, dedicou-se a estudar Homero, Píndaro e assim por diante, mais tudo aquilo que seu gênio, seu modo de pensar e seu coração lhe ordenassem...
No dia 09 de junho de 1772, Goethe veio a tomar parte num baile no campo, onde também estávamos eu e minha menina. Eu tive de me atrasar e só pude cavalgar para lá mais tarde. Minha menina foi, portanto, na companhia de outras pessoas até o lugar onde viria a se realizar o baile. O Dr. Goethe foi no mesmo carro, e nele viu Carlotinha pela primeira vez...
Não sabia que ela já era comprometida. Eu cheguei algumas horas mais tarde. E tu sabes bem que não faz parte de nossos hábitos expressar mais do que amizade em relação ao outro em lugares públicos. Naquele dia ele estava desbragadamente bem-humorado – em outras ocasiões, ao contrário disso, mostrava-se muito melancólico –, Carlota conquistou-o por inteiro e tanto mais por não se dar ao serviço de fazê-lo, mas apenas se deixar levar pelo prazer de sua companhia. No outro dia, depois do baile, Goethe não pôde deixar de se informar melhor a respeito da situação de Carlota e foi até ela. Antes do encontro havia conhecido a moça agradável, que amava a dança e o prazer descompromissado; agora conhecia também seu outro lado, no qual reside sua maior força, seu lado caseiro...
Não poderia ficar desconhecendo por muito tempo que ela não lhe poderia dar mais do que amizade; e a conduta dela em relação a ele foi mais uma vez modelar. Os mesmos gostos, confirmados quando viemos a nos conhecer mais de perto,
ataram-nos, a mim e a ele, na mais firme das amizades, de modo que em meu coração ele vinha logo depois de meu querido Henning... Carlota sabia conduzir a relação de modo tão perfeito, que nenhuma esperança poderia nascer dentro dele, deixando-o numa situação em que já não sabia mais o que era direito fazer e obrigando-o, ao mesmo tempo, a admirá-la por sua conduta. Seu sossego pessoal penou muito sob as circunstâncias. Ocorreram algumas cenas notáveis entre nós, as quais só fizeram aumentar meu apreço por Carlota e tornar a amizade dele mais valiosa para mim. Algumas vezes, no entanto, eu ficava impressionado como o amor consegue forjar criaturas maravilhosas, mesmo dentre as pessoas mais fortes e normalmente estáveis e preocupadas apenas consigo mesmas... Depois de alguns meses ele passou a compreender que, para o seu sossego, necessitaria fazer uso da violência. Num momento em que estava determinado a respeito, viajou sem se despedir, depois de ter tentado em vão fugir algumas vezes. Ele está em Frankfurt, e nós nos comunicamos diligentemente através de cartas. Ora vejo que adquiriu domínio sobre si, depois volto a perceber que tudo voltou a ser como antes. Há alguns dias não pôde deixar de vir para cá, junto com um amigo que tinha negócios a resolver na cidade; e talvez ainda estivesse aqui se os negócios do amigo não fossem fechados em pouco tempo, dando-lhe motivos suficientes para voltar; pois ele sempre segue sua próxima idéia, sem se preocupar com as conseqüências; e esse modo de proceder flui de seu caráter, que é bem original.
Carta de Goethe a Kestner, princípio de novembro de 1772.
O infeliz Jerusalem! A notícia foi terrível e inesperada para mim; foi horrível: como prova de amor essa notícia em anexo... O pobre rapaz! Quando eu voltava de meus passeios e o encontrava lá fora, à luz da lua, dizia para mim mesmo: ele está apaixonado... Deus sabe, a solidão acabou por enterrar seu coração e... há sete anos o conheço, mas conversei pouco com ele; quando parti levei um livro dele junto comigo, quero ficar com ele e me recordar do moço até o fim de minha vida.
Carta de Goethe a Kestner, 11 de novembro de 1772.
...Com certeza, Kestner, era tempo de eu partir. Ontem à noite me ocupei de pensamentos bem “penduráveis” e dignos de serem “pendurados”... sobre o canapé...
Carta de Kestner a Goethe, escrita em novembro de 1772, e dando notícias a respeito da morte de Karl Jerusalem.
Durante todo o tempo em que permanceu por aqui, Jerusalem esteve aborrecido, e era tanto por causa do emprego que o trouxe até aqui (junto ao Conde Bassenheim) e lhe impediu desde logo, de um modo nem um pouco agradável, o acesso à alta sociedade, quanto devido ao embaixador de Brunsvique, com o qual teve, logo após sua chegada, alguns notórios e violentos desentendimentos...
[92] Ao lado dessa insatisfação, juntava-se o fato de estar apaixonado pela mulher do Secretário H.
(Secretário Herd) , que representava o Palatinado na cidade. Eu não acredito que ela estivesse aberta a esse tipo de galanterias; ajuntando a isso o fato de que seu marido era ciumento ao extremo, esse amor tinha de acabar dando um golpe definitivo em sua paz e seu sossego... Ele se retirou de todo, abandonando a companhia humana e abriu mão das distrações e passatempos característicos dela; gostava de passeios solitários à luz da lua e andava várias milhas apoiando nestes mesmos passeios seu desgosto e seu amor sem esperança... Alguns dias antes do dia fatal conversávamos a respeito do suicídio e ele disse a Schleunitz que deveria ser um troço estranho o ato de falhar no tiro... Naquela tarde (quarta-feira) Jerusalém esteve sozinho na casa de H. E o que se passou ali ninguém sabe; talvez esteja ali a razão do que veio a suceder... Quinta-feira... ele almoçou em casa e, à uma hora, mandou-me um bilhete... Eu cheguei em casa depois disso e seriam por volta de quatro horas menos um quarto quando eu recebi o bilhete: “Poderia eu ter a honra de pedir obedientemente vossas pistolas à Vossa Excelência para uma viagem que conto fazer? J.”... Como eu não sabia de nada daquilo que contei há pouco, nem de seus princípios a respeito do malfadado assunto, por não ter tido com ele nenhumas relações especiais... não tive a menor dúvida em lhe mandar as pistolas de imediato... Durante a tarde inteira Jerusalem esteve ocupado de seus assuntos, revirou seus papéis, escreveu e, por várias vezes, segundo ouviram as pessoas, caminhou precipitadamente em seu quarto, de um lado para outro.
Saiu de casa um punhado de vezes e pagou suas pequenas contas... Por volta das sete horas veio seu professor de língua italiana... Antes das nove chegou em casa e disse ao criado que teria de ser colocada mais lenha ao fogo porque ele não iria tão cedo à cama, e que o mesmo deveria deixar tudo preparado para o dia seguinte bem cedo, as seis da manhã; pediu também que lhe trouxessem um quartilho de vinho... E quando enfim Jerusalem passou a estar só, parece ter arranjado tudo para levar a cabo sua terrível decisão... Escreveu duas cartas, uma a seus parentes, outra a H. ... Depois destes preparativos, por volta da uma da madrugada, atravessou a cabeça, sobre o olho direito, com um tiro. A bala não foi achada em lugar nenhum. Ninguém na casa ouviu o estampido, a não ser o franciscano Peter Guardian, que também vira o clarão da pólvora, mas, posto tudo ficara em silêncio depois disso, não dera atenção ao fato. O criado havia dormido pouco à noite, mas seu quarto ficava bem longe, nos fundos da casa, assim como o das outras pessoas da casa, que também dormiam distantes, na parte traseira da moradia... Tudo parece ter acontecido com ele sentado à cadeira, em frente à escrivaninha... A cadeira estava suja de sangue no encosto, assim como nos apoios dos braços... Depois disso ele escorregou da cadeira, pois no chão também havia muito sangue... Estava completamente vestido, de botas, casaca azul e colete amarelo. Pela manhã, às seis horas, o criado foi ao quarto de seu senhor
para despertá-lo. A luz havia se extinguido, estava escuro, e ele viu Jerusalém deitado ao chão... Chamou: “Meu Deus, Senhor Assessor, o que é que vós fizestes?” Sacudiu-o, ele não deu nenhuma resposta e apenas estertorava. Ele correu em busca de médicos e curandeiros... Dr. Held, o médico, me contou que ao chegar até ele, ainda o encontrou deitado sobre o chão; o pulso ainda batia, mas não havia mais nada a fazer... Para fazer alguma coisa, abriu-lhe uma veia do braço... O rumor do acontecimento se espalhou rápido; a cidade inteira estava assustada e em tumulto. Ouvi a respeito apenas às nove horas, e logo lembrei-me de minhas pistolas e, não sei por que, me assustei muito com o fato. Me vesti e fui até lá. Ele estava deitado sobre a cama, a testa coberta, o rosto semelhante ao de um morto... Do vinho, bebera apenas um copo. Aqui e ali encontravam-se alguns livros e trechos escritos por sua própria mão. Emília Galotti jazia aberta sobre a secretária, junto à janela; ao lado dela um manuscrito, de mais ou menos um dedo de grossura, conteúdo científico, e a primeira parte ou carta era intitulada: “Da liberdade”... Faleceu por volta das doze. À noite, às dez e quinze, foi sepultado no cemitério comum... em silêncio, acompanhado por doze lanternas e algumas pessoas; um grupo de trabalhadores o carregou; a cruz foi carregada a sua frente; nenhum sacerdote o acompanhou... É extraordinária a impressão que este acontecimento causou sobre o ânimo de todas as pessoas...
Carta de Goethe a Kestner, 28 de novembro de 1772.
Eu vos agradeço, caro Kestner, pela notícia da morte do pobre Jerusalem, ela nos interessou profundamente. Vós havereis de tê-la de volta, assim que estiver reescrita... Ontem me ocorreu escrever a Carlota. Todavia pensei que todas suas respostas se restringem a: nós queremos que tudo fique bem. E não estou pensando em dar-me um tiro no momento...
Carta de Goethe a Carlota Kestner, março de 1774.
...Talvez estejas, depois deste tempo todo... mais perto de mim do que nunca. Haverei de imprimir-te tudo o mais cedo possível... E tudo ficará bem, caríssima. Pois não haveria eu de estar bem, no momento em que penso em vós?
Carta de Goethe a Carlota Kestner, 16 de junho de 1774.
Adeus, querida Carlota, mando-vos um amigo o mais cedo possível. Ele tem muitas semelhanças comigo e espero que o recebais bem... ele se chama Werther...
Carta de Kestner a Goethe, fim de setembro ou início de outubro de 1774.
Vosso Werther haveria de me dar muito prazer, pelo fato de me fazer recordar de tantas cenas e acontecimentos interessantes. Mas assim como ele se apresenta, foi bem pouco edificante para mim em certos aspectos. Vós sabeis, eu gosto de falar exatamente aquilo que sinto... Vós teceste em cada pessoa alguma coisa estranha, ou fundistes várias pessoas em uma só... Mas se vós, no ato de tecer e fundir, tivésseis deixado vosso coração dizer o que pensava, as pessoas reais, as quais vossos rasgos plagiam, não pareceriam assim tão prostituídas...
Carta de Goethe ao casal Kestner, outubro de 1774.
Tenho de escrever-vos imediatamente, meus queridos, meus zangados, que tudo isso vem do meu coração. Está feito, está dado... Perdoai-me, se pudéreis... Não quero nada... eu vos peço... não quero ouvir nada de vós, até que ao final fique enfim confirmado que vossas preocupações eram demasiado altas e distendidas, até que vós mesmos sejais capazes de sentir em vosso coração a inocente mistura de verdade e mentira que há no livro...
Carta de Kestner a seu amigo August von Hennings, 07 de novembro de 1774.
Na primeira parte do Werther, Werther é Goethe mesmo. A Carlota e Alberto, emprestou alguns rasgos nossos, meus e de minha mulher. Muitas das cenas são totalmente verdadeiras, mas, em todo caso, um pouco alteradas; outras são, pelo menos em nossa história, estranhas. Para encaminhar melhor a segunda parte e preparar a morte de Werther de maneira antecipada, ele acrescentou à primeira vários trechos, inclusive poéticos, que não dizem nada a nosso respeito. Carlota, por exemplo, jamais esteve, nem com Goethe nem com mais ninguém, numa relação mais ou menos estabelecida e exata como a que aparece descrita no livro. E isso nos deixa bem insatisfeitos com ele, na medida em que várias circunstâncias paralelas são por demais verdadeiras e conhecidas, de modo que não deveria fazer com que acabem desconfiando da gente... No mais, há em Werther muito do caráter e do modo de pensar de Goethe. O retrato físico de Carlota é, em sua totalidade, o de minha mulher. Já Alberto deveria ser um pouco mais caloroso. E isso é tudo acerca da primeira parte. Com a segunda não temos absolutamente nada a ver. Ali Werther é o jovem Jerusalem, Alberto o Secretário do Palatinado, e Carlota a esposa do último, no que diz respeito à história; mas o caráter destas três pessoas me parece ser, em sua maior parte, criado poeticamente... Não cheguei a conhecer Jerusalem de perto, e minha mulher o conheceu menos ainda; até porque ele se afastava das pessoas na maior parte do tempo... Só esteve em minha casa duas vezes... De fato escreveu-me o bilhete que o autor menciona e por gentileza lhe mandei as pistolas, sem refletir; elas não estavam carregadas, jamais havia dado um tiro com elas... Essa história jerusalemiana, que eu tentei investigar da melhor maneira possível, porque me parecia sumamente notável, escrevi-a com todos seus detalhes e mandei-a a Goethe, em Frankfurt; ele fez uso dela na segunda parte de seu Werther e acrescentou algumas