Os Sofrimentos do Jovem Werther
Comentário Final
coisas que lhe pareciam bem... Goethe com certeza não pensou estar fazendo mal, pois nos tinha, tanto a mim quanto a minha mulher, em alta conta. Suas cartas e seus outros procedimentos provam-no com clareza. E ele se prejudica tanto mais, na medida em que se descreve no Werther em parte. Ademais, a história não pode nos prejudicar junto àqueles que não nos conhecem, ou nos conhecem apenas medianamente. As aparências são demasiado visíveis para que nos causem mal, pois é sabido por todos que nos entendemos muito bem.
COMENTÁRIO FINAL
Os filhos de We rthe r
A força de Werther na Literatura Universal é conhecida e sabida. É raro o escritor, no mundo inteiro, que se aventura ao romance sem passar, de um jeito ou de outro, pelo Werther de Goethe.
Na Alemanha – e aí estamos falando de influência direta e visível – o livro foi amado e odiado, louvado e escarnecido.
Mas jamais houve alguém que passasse de lado por ele, desconhecendo sua importância.
Menos de um ano depois da publicação de Werther, e apesar de todo seu sucesso ou por causa dele, Friedrich Nicolai (1733-1811), escritor berlinense, conhecido pelo sarcasmo e por um humor típico de Berlim, cheio de graça e espírito, incisivo, belicoso, pleno de sátira e crítica, fez imprimir As Alegrias do Jovem Werther, uma paródia satírica do Werther de Goethe. No final do livro de Nicolai, Alberto manda as pistolas que Werther lhe pedira, mas as carrega com bexigas cheias do sangue de um frango que ele e Carlota comeriam no jantar. Pensando ter se arrebentado o crânio, Werther jaz na cama agonizante.
Alberto visita-o e conta-lhe a verdade, brincando com a estupidez do romântico. Werther dá-se conta de que não está ferido, exulta e ainda recebe caminho aberto para se casar com a Carlota amada logo depois e, após dez meses de plenitude meio sarcástica, receber dela o primeiro filho.
Heinrich von Kleist (1777-1811), escritor de calibre e à frente de seu tempo, também brincou com Werther. Escreveu o conto “O novo (mais afortunado) Werther”. No conto, Charles C., empregado na casa de um velho comerciante, apaixona-se por sua jovem esposa. Quando tenta o suicídio, o tiro atravessa-lhe o pulmão, sem ser fatal, e vai acertar – fatalmente – o rival, que estava no quarto ao lado. Cinco dias depois, o jovem vai ao quarto da mulher, e se atira, ainda à beira da morte, em seus braços. O narrador interrompe, com a ironia característica do conto de Kleist – que sói terminar numa machadada –, para dizer que um ano depois estão casados e, em 1801, segundo alguém contou, já têm 13 filhos.
Recentemente, em 1973, Ulrich Plenzdorf escreveu Os novos sofrimentos do jovem Werther, atualizando, na Alemanha socialista, o romance de Goethe. O livro já é um clássico da literatura alemã. Edgar, o novo Werther, um outsider, trabalhador eventual da construção, que vive a citar – sem ser entendido – o Werther de Goethe, conta a história, depois de já estar “do outro lado”, numa montagem complicada (não tanto para quem já teve, e muito antes, umas Memórias póstumas... ) que vê o passado a partir do presente do narrador já morto. Esse mesmo passado – não narrado cronologicamente – é visto como o presente dos fatos. Carlota é “Charlie”, professora num jardim de infância. Distante da inocência quase submissa da antiga Carlota, ela é a noiva de Dieter (ex-Alberto), que está no serviço militar. Edgar morre quando, depois da cena do abraço com Charlie – similar à do antigo Werther; a diferença reside no fato de que a mulher aqui é muito mais “ativa” –, vai testar seu invento, um aparelho de pintura, feito para contentar o seu chefe de obras. Descuidado, na pressa de querer fugir de Berlim e do amor de Charlie, deixa alta demais a corrente da voltagem. O lapso é fatal. Edgar sabia do perigo, mas não tomou as precauções necessárias. Ademais, “a coisa até que se passou ligeira” e ele nem notou muito o que lhe estava acontecendo.