Os Sofrimentos do Jovem Werther
Segunda Parte
Alberto atirou-se ao seu pescoço, beijou-a e exclamou: “E nós somos! Nós haveremos de ser felizes!” O fleumático Alberto estava fora de si e também eu havia perdido a noção de mim mesmo.
“Werther”, recomeçou ela, “uma mulher dessas Deus deveria deixar conosco! Meu Deus! Quando penso como deixamos escapar de nossas mãos o que há de mais querido na nossa vida me entristeço; mas os que mais sentem a perda são as crianças, que ainda muito tempo depois de sua morte choravam, dizendo que os homens negros haviam levado sua mãe!”
Ela levantou-se e eu me emocionei e estremeci; permaneci em meu assento e peguei sua mão: “Vamos para dentro”, disse ela, “que já são horas.”
Ela quis retirar a mão, mas eu segurei-a com firmeza. “Tornaremos a ver-nos”, exclamei,
“tornaremos a ver-nos. Qualquer que seja a forma que tivermos, nos reconheceremos. Vou-me embora”, prossegui, ”vou-me embora espontaneamente, mas se eu prometesse que era para sempre, não cumpriria a promessa. Adeus, Carlota! Adeus, Alberto! Tornaremos a ver-nos!”
“Amanhã, é claro!”, replicou ela, brincando. Eu senti fundo aquele amanhã! Ah, ela não sabia de nada quando retirou sua mão da minha... Desceram a alameda, eu fiquei parado.
Segui-os com os olhos ao fulgor da lua e logo me arrojei ao chão soluçando, levantando-me em seguida; e, correndo ao terraço, olhei para baixo e vi ainda, à porta do jardim, o seu vestido branquejar à sombra das tílias altaneiras; estendi meus braços à frente, e tudo sumiu.
SEGUNDA PARTE
Aos 20 de outubro de 1771.
Chegamos aqui ontem. O embaixador está indisposto e quer ficar por alguns dias. Se ele não fosse tão intratável, tudo estaria bem. Bem vejo, bem vejo que o destino me reservou rudes provações. Em todo caso, ânimo! Um senso leviano tudo suporta! Um senso leviano?
Chega a me fazer rir o fato de essas palavras terem chegado ao bico de minha pena! Oh, um tiquinho de leviandade no sangue me faria o mais feliz dos mortais. O quê! Ali onde outros, apresentando pouca força e talento, pavoneiam-se diante de mim, cheios de uma doce complacência para consigo mesmos, duvido eu mesmo de minhas forças e aptidões? Bom Deus que me concedeste todos esses dons, porque não ficaste com a metade deles para me dares em seu lugar a confiança própria e a auto-satisfação!
Paciência! Paciência! Tudo haverá de melhorar, pois te asseguro, meu amigo, tu tens razão. Desde que ando para cá e para lá entre o povo e vejo o que fazem e como o fazem, fico mais satisfeito comigo mesmo. Com certeza – visto que somos feitos de tal maneira que comparamos tudo conosco, e daí segue-se que a felicidade ou a desgraça jazem nos objetos com os quais nos relacionamos –, não há nada mais perigoso do que a solidão. A nossa imaginação, levada por natureza a sublevar-se e nutrida pelos fantásticos quadros da poesia, cria uma série de seres cuja superioridade nos esmaga, e quando lançamos o olhar para o mundo real qualquer outro nos parece mais perfeito do que nós mesmos. E isso é até bem natural. Sentimos tantas vezes que nos faltam algumas coisas, e por vezes nos parece que o que nos falta um outro possui. Quando isso acontece, a ele concedemos de bom grado tudo aquilo que temos, e ainda por cima um certo bem-estar ideal. E assim imaginamos nós mesmos as perfeições que criam o nosso suplício.
Pelo contrário, quando com toda a nossa fraqueza, com toda a nossa lástima caminhamos decididos e direitos a um fim, sentimos muitas vezes que, mesmo com nossos tombos e deslizes, vamos bem além do que os outros vão à força de suas velas e seus remos... E, ah, disso eu tenho certeza... O fato de caminhar tão ligeiro, ou até de ultrapassar os que andam conosco, proporciona tanta autoconfiança!
26 de novembro
Começo a me sentir, na medida do possível, razoavelmente bem por aqui. O melhor de tudo é que há muita coisa a fazer, e essa grande variedade de pessoas e as novas caras que encontro brindam minha alma com um espetáculo multicolorido. Conheci o conde C..., um homem que, a cada dia que passa, me inspira maior apreço; tem uma cabeça aberta e é homem
de larga visão, sem ser frio pelo fato de enxergar longe. Quantos sentimentos de amor e de amizade não fulguram em seu trato com as pessoas! Simpatizou comigo quando o consultei sobre certo aspecto de ordem prática, e já às primeiras palavras notou que havíamos nos entendido bem e que poderia falar comigo como não se fala com qualquer um.
Tampouco poderia eu gabar o suficiente a franqueza que ele adotou em relação a mim. E
não há alegria mais verdadeira e cálida neste mundo do que ver uma grande alma que se abre inteira para nós.
24 de dezembro
O embaixador causa-me muitos dissabores, eu já o previra. [49] É o tolo mais metódico que se pode imaginar; quer tudo passo a passo e é minucioso como uma comadre. É um homem que nunca está contente consigo mesmo e do qual ninguém é capaz de colher palavras de gratidão.
Trabalho sempre apressado e não gosto de retocar as coisas, e isso lhe dá ocasião para devolver-me qualquer escrito e dizer: “Não está mal, mas reveja-o, encontra-se sempre um termo melhor, uma partícula mais castiça”. Nesses momentos, de bom grado mandaria tudo ao diabo. Nem um “e”, nem a mínima conjunçãozinha pode ser omitida, e é inimigo mortal de toda ordem inversa, que às vezes me
escapa.[50] Se um período não for construído segundo a velha musiquinha de costume, ele não entende e não aceita nada. É um martírio ter de trabalhar com um homem assim.
A confiança do conde C... é a única coisa que compensa meu desagrado. Não faz muito, ele me disse francamente o quanto estava descontente com a lentidão, as minúcias e a irresolução do meu embaixador. “Pessoas assim são insuportáveis a si mesmas e aos outros, mas, de qualquer forma”, referiu ele, “há que resignar-se a esse tipo de coisa como o caminhante que tem de subir a montanha; claro que se a montanha não estivesse ali, o caminho resultaria mais cômodo e mais curto, mas ela está ali e nós temos de subi-la.”
Meu velho[51] percebeu bem a preferência que o conde me dava em relação a ele, o que o incomoda ainda mais, e aproveita todas as ocasiões para falar mal dele diante de mim. Como é natural, eu não fecho os ouvidos ao que ele diz, defendo o conde e a coisa fica cada vez pior. Ontem ele veio com uma indireta de que o conde até era bastante bom em questões mundanas, pois tinha facilidade para trabalhar e uma letra muito boa; mas carecia, como todos os juristas, de uma cultura básica. E acompanhava estas palavras com uma cara de quem estava dizendo: “Sentiu o golpe?” Mas aquilo não causou em mim o menor efeito e só fiz desprezar o homem, por ser capaz de pensar e proceder assim. Fiz-lhe frente, e respondi-lhe com boa dose de violência. Disse que o conde merecia toda a consideração não só pelo seu caráter, mas também pelos seus conhecimentos. “Não conheço ninguém”, disse eu, “a quem foi concedido alargar tanto seu espírito, abarcar tal infinidade de questões, e conservar, não obstante, o mesmo caráter ativo para as coisas simples da vida cotidiana.” Isso era grego puro para ele, e eu me despedi para não ter de engolir ainda mais bílis ouvindo declarações ainda mais irracionais e espalhafatosas.
E disto sois todos vós culpados, vós que me cantastes o ar benfazejo daquela canga e me gabastes tanto a atividade. A atividade! Se o camponês que planta batatas e cavalga à cidade
para vender seus cereais não é mais útil do que eu, quero seguir remando mais dez anos nesta galera à qual estou preso.
E que dizer desta brilhante miséria, o tédio que reina entre este povo sensaborão que se vê por aqui?! E a mania das categorias, que faz com que se observem e se espiem para se adiantarem aos outros ao mínimo passo em falso que derem! Nem procuram ocultar sob a saia do fingimento as paixões mais miseráveis e lamentáveis. Há uma mulher, por exemplo, que ocupa toda a gente com sua nobreza e seu país, de forma que faz qualquer forasteiro pensar:
“Essa tia é uma louca, que por uma dose de nobreza e a fama de seu país se imagina possuidora de bens de outro mundo...” Mas a coisa é ainda muito pior: a tal senhorita é apenas a filha de um escrivão da vizinhança... Vê, não consigo compreender a espécie humana, que tem tão pouco bom senso a ponto de se prostituir de maneira tão baixa.
De resto, meu caro, dia a dia vejo com mais clareza quão estúpido é o ato de julgar os outros pelas nossas próprias faculdades. E como eu tenho muito o que fazer comigo mesmo, e este coração é tão tempestuoso, ah, de bom grado deixo os outros seguirem seu caminho, contanto que me deixem seguir o meu.
O que mais me vexa são essas fatais relações burguesas. Sei bem, como qualquer outro, que é necessária a distinção de classes e conheço as vantagens que ela traz para mim mesmo; mas não gostaria que essa mesma distinção atravancasse o meu caminho quando poderia conduzir-me a alcançar um pouco de alegria, ou
fazer-me gozar um vislumbre da felicidade deste mundo. [52] Quando andava a passeio há dias atrás, conheci uma certa senhorita de B..., uma criatura encantadora, que soube conservar muita naturalidade em meio aos ares empertigados daqueles com os quais vive.
A simpatia foi mútua durante a conversa e, ao despedirmo-nos, pedi permissão para visitá-la. Ela concedeu-me a visita com tanta cordialidade que esperei cheio de impaciência a hora aprazada para ir vê-la. Ela não é desta cidade e vive em casa de uma tia. A fisionomia da velha carcaça desde logo não me agradou. Mas dediquei-lhe todas as atenções deste mundo e por várias vezes lhe dirigi a palavra. Em menos de meia hora percebi o que a amável sobrinha me confessou depois. Que a querida tia estava, no fim de seus dias, na mais completa miséria; que apenas tinha, em matéria de espírito e bens, a imponente série de seus avós como recurso; como único abrigo, a categoria social atrás da qual ela se entrincheira; e como único recreio, o prazer de olhar com altivez para os cidadãos que passam sob a sacada de seu primeiro andar. Teria sido bela na juventude, e desperdiçou sua vida atormentando a mais de um pobre rapaz com seus caprichos. Já adulta, vergou humildemente a cabeça sob o jugo de um velho oficial que, em troca de sua absoluta submissão e de uma pensão mesquinha, passou com ela a idade de bronze até passar enfim desta para melhor.
Agora ela se vê sozinha na idade de ferro[53] e ninguém olharia por ela se sua sobrinha não fosse tão amável.
Aos 08 de janeiro de 1772.
Que homens são aqueles, cuja alma pende inteira do cerimonial e durante longos anos encaminham todos seus esforços no fito de poderem ocupar um lugar mais perto da cabeceira da mesa! Não quer dizer que não tenham ocupações, longe disso... Esses fúteis embates dão-
lhes muitas tarefas, impedindo-os de dar cabo a coisas bem mais importantes. Foi o que sucedeu semana passada numa partida de trenós e acabou estragando todo o prazer da festa.
Loucos que são! Se mostram incapazes de ver que o lugar é a coisa menos importante e que aquele que ocupa o primeiro, raras vezes desempenha o papel principal! Quantos reis são governados por seus ministros e quantos ministros são governados por seus secretários! E
qual deles é, ao fim das contas, o primeiro? Aquele que, penso eu, tiver mais conhecimentos sobre os outros e suficiente caráter ou finura para poder empregar suas forças e suas paixões na execução dos seus planos.
20 de janeiro
Tenho de vos escrever, querida Carlota, e da sala de uma taverna miserável onde acabo de me refugiar de um temporal. Enquanto eu permaneci no ninho triste de D..., entre estranhos, com meu coração vagando junto a um povo desconhecido, não tive sequer um momento, sequer um momento, em que meu coração tenha se dirigido a mim pedindo que vos escrevesse. E
agora, recolhido a esta palhoça, bebendo desta solidão, deste confrangimento, enquanto neve e granizo voltam a bater com fúria à janelinha, vós fostes o meu primeiro pensamento. Quando adentrei a porta, vossa feição se apossou de mim, vossa lembrança... Oh, Carlota! Tão santa, tão cálida! Bom Deus! Traz de volta aquele momento feliz.
E se vós me vísseis, caríssima, nesta torrente de dispersão! Como meus sentidos secam pouco a pouco! Em nenhum momento a
plenitude do coração,[54] nenhuma hora de bem-aventurança! Nada! Nada! Estou como que parado ante um caixote de
excentricidades, [55] vejo homenzinhos e cavalinhos patear diante de mim e não canso de me perguntar se não sou vítima de uma ilusão ótica. Eu participo da brincadeira ou, muito antes, brincam comigo como se eu fosse uma marionete. Por vezes chego a agarrar meu vizinho pela mão de madeira e volto a estremecer. À noite, decido que vou gozar o nascer do sol no dia seguinte, mas não consigo levantar da cama. De dia espero ficar alegre com o luar, mas à noite fico trancado em meu quarto. Já não sei mais por que levanto, já não sei mais por que vou dormir.
O fermento que pôs minha vida em movimento, falta; o estímulo que me encorajava à noite já não existe, aquele que me despertava pela manhã se foi.
Uma única criatura feminina digna de menção eu encontrei por aqui. É uma certa senhorita de B..., e ela parece convosco, querida Carlota, se é que alguém pode parecer convosco. “Opa!”, havereis de dizer. “Eis que o homem se joga à graça dos cumprimentos!”
Isso não é de todo falso. De uns tempos para cá ando bastante cortês, até porque não consigo agir diferente. Faço uso do gracejo e as camareiras dizem que ninguém sabe elogiar de modo tão fino quanto eu (e mentir, elas declaram, pois caso contrário a coisa não anda, vós me compreendeis?). Desejava falar-vos da senhorita de B.... Ela tem uma grande alma e essa alma transparece inteira através de seus olhos azuis. A sua categoria pesa-lhe, não satisfaz nenhum dos desejos do seu coração. Aspira a ver-se fora do tumulto e passamos às vezes horas inteiras a imaginar uma ventura sem máculas, no meio de cenas campestres, e Carlota sempre conosco. Ah, quantas vezes ela não se vê obrigada a prestar-vos homenagem! Fá-lo de tão boa vontade, tem tanto prazer em ouvir falar de vós! Sim, ela tem-vos amor.
Oh, estivesse eu sentado a vossos pés, em vosso amável aposento favorito, vendo as crianças saltarem ao redor de nós! Quando visse que faziam demasiado barulho a ponto de vos incomodar, juntava-os eu sossegados em volta de mim contando um terrível conto da carochinha.
O sol põe-se majestoso por detrás daquelas colinas resplandecentes de neve. A tempestade amainou. E eu... tenho de me recolher à gaiola. Adeus! Alberto está junto de vós?
E de que maneira?... Deus me perdoe esta pergunta.
08 de fevereiro
Há oito dias que faz um tempo medonho e isso me causa regozijo. Pois, desde que estou aqui, não se passou um só dia bonito sem que um importuno não viesse envenená-lo e deteriorá-lo. Pelo menos, visto que chove e faz vento e gela e o gelo derrete-se, não pode estar, digo a mim mesmo, pior em casa do que lá fora, nem melhor no campo do que na cidade, e fico contente... Se o sol nascente promete um belo dia, não posso deixar de exclamar: “Ora aí está um favor do céu que eles não podem arrebatar um ao outro!” Não há nada neste mundo que não se arrebatem uns aos outros: saúde, auto-estima, alegria, repouso! E na maior parte das vezes por imbecilidade, desinformação e estreiteza e – a gente o percebe quando os ouve atentos – apresentando a melhor das intenções. Tenho vontade às vezes de lhes pedir de joelhos que sejam piedosos uns com os outros e não se rasguem as entranhas com tanta fúria.
17 de fevereiro
Receio que o embaixador e eu não fiquemos por muito tempo de acordo. Esse homem é absolutamente insuportável. A sua maneira de trabalhar e dirigir os negócios é tão ridícula que não posso deixar de o contrariar resolvendo as coisas do meu modo e segundo me dá na telha, o que naturalmente não lhe agrada nem um pouquinho. Há pouco queixou-se disso na Corte, inclusive. O ministro deu-me uma reprimenda, branda em verdade, mas em todo caso uma reprimenda, e eu estava a ponto de pedir minha demissão, quando
recebi uma carta particular*[56] da parte dele, uma carta perante a qual me pus de joelhos para adorar o senso reto, firme e elevado que a ditou.
Nela, ele louvava as minhas idéias exasperadas de ação, de influência sobre todos os outros, de penetração nos negócios, coisa que ele considera um nobre ardor da mocidade; pedia para eu procurar não destruir esse ardor, mas moderá-lo e reduzi-lo a ponto de ser aceitável e dar bons resultados. Eis-me, pois, animado por oito dias e reconciliado comigo próprio. O repouso da alma é uma coisa soberba, meu amigo, eu diria que é a alegria em si...
Mas por que é que essa coisa tem de ser tão frágil quanto rara e preciosa?
20 de fevereiro Que Deus vos abençoe, meu amigo, e vos dê todos os dias de felicidade que a mim arrebata!
Agradeço-te, Alberto, o fato de teres me enganado. Esperava a participação que devia informar-me o dia do vosso casamento, e prometera a mim mesmo arrancar da parede com solenidade o retrato de Carlota quando isso acontecesse e enterrá-lo no meio de outros papéis.
Eis-vos unidos e a imagem dela ainda aqui! Aqui ficará! E por que não? Não está o meu retrato também em vossa casa? Não estou eu também, sem te fazer mal, no coração de Carlota? Ocupo ali, sim, ocupo ali o segundo lugar, e quero... e preciso conservá-lo. Oh, ficaria furioso se ela fosse capaz de esquecer tudo... Alberto, esta idéia contém o inferno.
Alberto! Adeus! Adeus, anjo do céu, adeus, Carlota!
15 de março
Tive uma arrelia que vai me pôr para fora daqui. Ranjo os dentes!
Diabo! É coisa feita, e é de vós[57] mais uma vez que me queixo, a vós que me aguilhoastes, impelistes, atormentastes para me fazer ocupar um emprego que eu não queria e também não me convinha. Pois bem! Eis a minha situação, ficai contentes. E para que não digas mais uma vez que as minhas idéias exaltadas aumentam tudo, vou, meu senhor, expor-te o caso com toda a precisão e clareza de um cronista.
O conde de C... gosta de mim, distingue-me, sabe-se e já to disse cem vezes. Estava ontem a jantar em sua casa, dia de grande reunião, pois recebe nesses dias toda a alta nobreza dos arredores. Jamais havia pensado a respeito disso e, sobretudo, nunca me veio à cabeça a idéia de que nós, os subalternos, não faríamos bem se para ali fôssemos. Pois bem. Eis que janto com o conde e, depois de jantar, passamos todos ao salão, sempre a conversar. Eu papeio com ele, com o coronel B..., que se mete na conversa, quando, sem que eu o note, chega a hora da reunião. Deus sabe se eu pensei ou não em alguma coisa. Mas eis que aparece a mui digníssima e soberba senhora de S..., com seu amantíssimo esposo e a lambisgóia frita da filha – que tem um peito chato e um corpo todo esgrouviado –, passeiam diante de mim seus olhos altaneiros, seus narizes empinados e toda a sua bazófia de grão-senhores. Como detesto do fundo de meu coração semelhante raça, queria fazer a minha vênia esperando apenas que o conde se libertasse da comadrice palreira com que o atormentavam, quando a minha senhorita de B... entrou. Eu sinto o meu coração expandir-se um pouco sempre que a vejo, mas permaneci tranqüilo e coloquei-me por trás de sua poltrona, mas só ao fim de algum tempo reparei que ela me falava em tom menos aberto que dantes e inclusive com uma espécie de embaraço. Fiquei surpreendido. “Será ela igual àquela gente?”, disse para comigo. “Que a leve o Diabo!” Eu estava picado de fúria, queria retirar-me, e todavia fiquei, na tentativa impertinente de iluminar a situação. Nisso, o salão foi se enchendo, chegou o barão de F..., coberto de uma vestimenta do tempo da coroação de
Francisco I, [58] o conselheiro R..., aqui anunciado com o título de excelência, acompanhado pela sua esposa surda, etcétera e tal. Sem esquecer o ridículo e mal fornido J..., que mistura em seu vestuário o gótico da antiga francônia com a moda rompante do ano vindouro. Dirijo a palavra a algumas pessoas do meu conhecimento, que me pareceram de repente assaz lacônicas... Então passo a dar atenção única e exclusivamente à senhorita de B... . Não reparava que as mulheres grunhiam umas aos ouvidos das outras na extremidade da sala, que algo circulava entre os homens, que madame
de S... se entretinha com o conde (tudo isso a senhorita de B... me contou depois) até que enfim o anfitrião foi ter comigo e me levou até o pé de uma janela. “Vós conheceis”, disse-me o conde, “a nossa esquipática etiqueta. A sociedade, segundo me parece, não vos vê aqui com prazer, e eu não queria por nada neste mundo...”
“Vossa Excelência”, disse-lhe eu, interrompendo-o, “peço-vos mil perdões. Devia ter pensado nisso mais cedo, perdoar-me-eis esta inconseqüência. Já havia planejado retirar-me, mas um gênio mau acabou por reter-me aqui.” Acrescentei eu num sorriso e fazendo uma vênia. O conde apertou-me a mão com uma expressão que dizia tudo. Saudei a ilustre companhia, saí, subi num cabriolé e fui a M... para ver da montanha o pôr-do-sol e ler no meu Homero aquele belo canto em que o autor narra como Ulisses foi abrigado pelo
digníssimo criador de porcos. [59] E tudo isso me fez um bem danado.
Voltei à noite para cear. No nosso hotel havia apenas algumas pessoas a jogar os dados no canto de uma mesa, do qual haviam afastado uma ponta da toalha. Naquele momento eis que entra o honesto A..., depõe o chapéu olhando-me, vai ter comigo e me diz baixinho: “Tiveste algum contratempo?”
“Eu?”
“O conde deu-te a entender que tinhas de sair do salão.”
“Qual salão! Eu tinha necessidade de tomar ar...”
“Muito bem”, disse ele, “tens razão de rir disso. Apenas estou magoado porque se fala disso por toda parte.” Foi então que me senti picado. Todos os que iam pôr-se à mesa e que olhavam para mim, pareciam estar a par do meu caso, e o sangue fervia em minhas veias.
E agora que, a toda a parte onde vou, as pessoas têm pena de mim... Agora que ouço que os que me invejam triunfam, dizendo que semelhante coisa é merecida por um tolo que, por uns grãozinhos de espírito, julga poder afrontar toda a civilidade e tomar parte em todas as rodas, e outras cachorradas do tipo... Ah, de bom grado enterrar-me-ia uma faca no coração num momento desses. Digam o que quiserem da firmeza, mas eu sempre quis conhecer o homem capaz de consentir que patifes murmurem a seu respeito, só porque exercem sobre ele alguma espécie de autoridade. Mas quando as suas palrices não têm o menor fundamento, ah, aí a gente pode deixá-las de lado com a maior facilidade.
16 de março
Tudo conspira contra mim! Hoje eu encontrei a senhorita de B... na aléia. Não pude deixar de falar-lhe e logo que nos encontramos um pouco afastados dos outros testemunhei-lhe o quanto fora sensível à extraordinária conduta que ela tinha tido no outro dia em relação a mim. “Oh, Werther”, disse-me ela com calor, “pudestes, conhecendo o meu coração, interpretar assim o meu embaraço? Quanto não sofri por vós desde o instante em que entrei no salão! Previ tudo, cem vezes abri a boca para vô-lo dizer. Sei que os G... e os T... prefeririam deixar o lugar a ficar em vossa companhia, sabia que o Conde não podia malquistar-se com eles, e hoje fazeis essa barulheira toda!”
“Como, senhorita?”, exclamei, procurando ocultar a minha perturbação, porque tudo o que Adelin me tinha dito anteontem me corria nesse momento pelas veias como água a ferver.
“Quanto isso já me custou!”, acrescentou aquela doce criatura com lágrimas nos olhos.
Eu já não era senhor de mim mesmo e estava a ponto de me lançar a seus pés. “Explicai-vos”, disse-lhe eu. As lágrimas correram-lhe pelas faces. Enxugou-as sem querer ocultá-las.
“Minha tia, vós a conheceis”, continuou ela, “estava presente, e viu, ah, com que olhos viu essa cena! Werther, levei ontem à noite e hoje pela manhã um sermão a respeito das minhas relações convosco, e tive de vos deprimir e humilhar, não podendo, e nem me atrevendo, a defender-vos senão pela metade.”
Cada palavra que ela pronunciava era uma punhalada no meu coração. Ela não tinha noção de como poderia ser compassiva se tivesse deixado de me contar tudo aquilo. Mas acrescentou em detalhes tudo o que se cacarejou a respeito da minha falta de tato e do triunfo daqueles maledicentes sobre a minha expulsão. Não ocultou sequer a pretensa glória das pessoas que proclamariam aos quatro ventos que o meu orgulho, o desdém que diziam ver em mim e há tempo censuravam, finalmente fora punido de maneira justa. Ouvir tudo isso da sua boca, Guilherme, e pronunciado por uma voz que tomou parte na realidade dos fatos! Eu estava desesperado e ainda sinto a cólera no coração. Desejava que alguém se lembrasse de me vexar, para poder atravessar-lhe o peito com a minha espada! Se eu visse sangue, haveria de me sentir melhor. Ah, já peguei cem vezes numa faca para acabar enfim com o sufoco deste coração. Fala-se de uma pobre raça de cavalos que, quando estão afogueados e cansados, abrem eles mesmos, por instinto, uma veia com os dentes para facilitar a respiração. É o que acontece comigo tantas vezes... Quereria abrir-me uma veia que me alcançasse a liberdade eterna.
24 de março
Pedi a minha demissão à Corte, espero que ela seja aceita. Perdoai-me se não perguntei previamente pela vossa autorização. Tinha de partir de uma vez por todas e já sei o que me diríeis para me persuadir a ficar... Por isso tratai de dourar a pílula à minha mãe. Eu não posso ajudar a mim mesmo, de modo que espero que ela entenda o fato de eu não poder ajudar a ela. Sei que isto virá a lhe causar pena. Ver o filho acabar assim, tão de repente, com uma carreira que se afigurava boa e terminaria por levá-lo ao conselho privado e às embaixadas; vê-lo voltar afrontosamente atrás e recolher a montaria ao estábulo... Fazei tudo o que quiserdes, calculai todos os casos possíveis em que, na vossa opinião, deveria me manter firme no posto e ficar. Basta, parto. E para que vós saibais aonde vou, dir-vos-ei que está por aqui o Príncipe de ..., que gosta de conversar comigo e, logo que ouviu falar da minha resolução, pediu-me que o acompanhasse às suas propriedades a fim de por lá passar a primavera. Prometeu-me liberdade total e irrestrita, e como nos entendemos até certo ponto, vou tentar a sorte e parto com ele.
Notícia
19 de abril Agradeço-te as tuas duas cartas. Não as respondi porque tinha adiado a remessa desta para o momento em que recebesse a demissão da Corte, receando que minha mãe se dirigisse ao Ministro e me prejudicasse a resolução. Mas é coisa feita, a demissão chegou. É inútil dizer-te com que desgosto aceitaram a minha saída, e tudo o que o Ministro me escreveu: romperíeis em
novas lamentações.[60] O Príncipe hereditário me mandou uma gratificação de vinte e cinco ducados, acompanhados por palavras que me impressionaram até as lágrimas.
De modo que minha mãe não precisa enviar-me o dinheiro que pedi na última carta que lhe escrevi.
05 de maio
Parto amanhã, e como a minha terra natal fica afastada do caminho apenas seis milhas, quero tornar a vê-la e recordar os antigos e felizes dias que se desvaneceram como um sonho.
Quero entrar pela mesma porta, através da qual minha mãe saiu comigo na carruagem, depois da morte do meu pai, no dia em que ela decidiu deixar para trás aquela querida morada para ir meter-se na vossa insuportável cidade. Adeus, Guilherme, terás novas da minha viagem.
09 de maio
Fiz a viagem aos lugares que me viram nascer[61] com a devoção de um peregrino, e fui tocado por um punhado de sensações inesperadas. Ao pé de uma grande tília, que fica a um quarto de légua da cidade, mandei parar, desci da carruagem e disse ao cocheiro que continuasse, a fim de seguir a pé e gozar sozinho a frescura e a vivacidade de cada reminiscência. Parei ali, debaixo da tília, lugar que era o termo dos meus passeios durante a infância. Que mudança! Naquela época eu me lançava com feliz ignorância ao mundo desconhecido, e contava dar ao meu coração todo o alimento, todo os prazeres, cuja carência eu senti por tantas vezes tocar o meu seio. E agora regressava desse vasto mundo... Oh, meu amigo, quantas esperanças desapontadas! Quantos planos destruídos!
Tinha diante da vista a cadeia de montanhas que em criança tantas vezes contemplei com olhar de inveja. Eu ficava ali sentado durante horas, transportava-me para longe na imaginação, toda minha alma se perdia nas florestas, nos vales que pareciam sorrir-me de longe, envoltos em seus véus vaporosos... E quando tinha de me retirar, que pena não sentia ao ter de abandonar aquele lugar querido! Aproximei-me da cidade, saudei os jardins e as casinhas que reconhecia; as novas não me agradavam, assim como todas as alterações que haviam feito em qualquer outra parte. Cheguei à porta e logo voltei a encontrar-me inteiramente, reconhecendo onde estava. Meu caro, não me agrada entrar em detalhes...
Qualquer que seja o encanto de tudo aquilo que vi, não te faria mais do que uma monótona narrativa. Havia resolvido tomar alojamento na praça, exatamente ao lado de nossa antiga casa. Ao caminhar adiante reparei que a escola, onde uma velha e honrada mulher nos reunia na infância, era uma loja de merceeiro. Lembrei-me das inquietações, das lágrimas, da melancolia e dos apertos de coração que senti naquela toca... Não dava um passo que não trouxesse uma recordação. Um peregrino da Terra Santa não encontraria tantos lugares de
religiosa lembrança, e sua alma não estaria tão cheia de afetos sagrados... Mais uma dentre mil. Desci o rio até um certo quintal para onde também ia muitas vezes outrora; era um cantinho em que nós, as crianças, treinávamos para ver quem fazia saltar mais vezes as pedras jogadas rentes à água. Lembro-me tão bem como parava a ver a água, com que singulares conjecturas lhe seguia a corrente, as maravilhas que eu imaginava das regiões para onde ela ia e como a minha fantasia, embora achasse limites, não podia se deter, contudo, e forçava-me a ir mais longe ainda, até fazer com que eu me perdesse enfim na contemplação de uma distância infinita. Vê, meu caro, tão limitados e tão felizes foram os nossos velhos e primorosos antepassados! Tão infantis seus sentimentos, sua poesia! Quando Ulisses fala do mar imenso e da terra infinita, isso parece tão verdadeiro, tão humano, tão interior, tão estreito e tão
cheio de mistério![62] De que me adianta poder dizer, junto com qualquer colegial, que ela é redonda?
A Terra... Bastam ao homem alguns torrões para sustentar a vida e menos ainda para aí repousar seus restos.
Estou agora na casa de caça do príncipe. E pode conviver-se até bem com este homem; é franco e simples, mas está cercado de personagens singulares que eu não logro compreender.
Não têm ar de larápios, mas também não têm cara de gente de bem. Por vezes me parecem dignos de confiança, mas não me atrevo a fiar-me neles. O que também me importuna é o fato de o príncipe falar muitas vezes de coisas que não sabe senão de oitiva ou por tê-las lido, e sempre sob o ponto de vista em que lhe foram ministradas.
E outra coisa ainda. Ele faz mais caso do meu espírito e do meu talento do que deste coração que é meu único orgulho, a única e solitária fonte de tudo, de toda a energia, de toda a ventura e de toda a desgraça. Ah, o que eu sei, toda a gente o pode saber! Mas o meu coração só a mim pertence...
25 de maio
Eu tinha uma coisa na cabeça da qual não queria vos falar antes de encaminhá-la definitivamente. Agora que é certo que ela vai dar em nada, posso contar-te tudo. Quis ir à Guerra. Alimentei este projeto muito tempo aqui, dentro de mim. Foi esse o principal motivo que
me levou a seguir o príncipe, que é general a serviço da ...ia. [63] Manifestei-lhe o meu desejo em um passeio, ele conseguiu dissuadir-me do propósito, e seria mais obstinação do que capricho de minha parte não aceitar suas razões.
11 de junho Digas o que disseres, não posso permanecer aqui por mais tempo. Que fazer aqui?
Começo a aborrecer-me... O príncipe me trata da melhor maneira possível, tudo bem, mas não me sinto à vontade. No fundo, nada temos em comum. Ele é um homem de espírito, mas de um espírito completamente vulgar, a sua conversa não entretém mais do que a leitura de um romance bem escrito. Ficarei ainda oito dias e depois recomeço minhas correrias por aí. O
que fiz de melhor durante este tempo todo foi desenhar. O príncipe tem algum sentido para a arte, e o teria ainda melhor não estivesse tão limitado pelo palavreado científico e pela baixa
terminologia de costume. Às vezes ranjo os dentes com impaciência, quando me entusiasmo a fazê-lo sentir de fato o calor da natureza e elevá-lo à arte, e ele crê mostrar-se sábio espetando
na conversa um termo usado e alinhado, de cunho científico.[64]
16 de junho
É certo, não passo de um viajeiro, um peregrino sobre a terra! Mas e vós, sereis mais?
18 de junho
Para onde pretendo ir? Dir-to-ei confidencialmente. Sou obrigado a passar ainda quinze dias por aqui. Pensei em ir visitar depois as minas de ... mas, bem no fundo, não é nada disso.
Quero apenas aproximar-me de Carlota, e isso é tudo. Rio do meu próprio coração... e faço-lhe todas as vontades.
29 de julho
Não, está bem! Tudo corre pelo melhor... Eu, seu esposo! Oh, Deus que me deste o ser, tivésseis me preparado esta felicidade e toda a minha vida não passaria de uma adoração contínua! Mas não quero advogar contra a tua vontade. Perdoa-me estas lágrimas, perdoa-me os meus inúteis anseios... Ela, minha mulher! Se eu tivesse estreitado em meus braços a mais doce criatura da face da terra... Corre-me um arrepio pelo corpo todo, Guilherme, quando Alberto abraça o seu corpo esbelto.
E, todavia, posso dizê-lo? Por que não dizê-lo, Guilherme? Ela teria sido mais feliz comigo do que com ele! Oh, ele não é o homem capaz de satisfazer melhor os desejos daquele coração. Uma certa falta de sensibilidade, uma falta... toma-o como quiseres... Oh, o fato de o coração dele não bater com mais ansiedade à leitura de um livro amado, ante o qual o meu coração e o de Carlota se encontram de pronto num só, as mil circunstâncias diversas em que nossos sentimentos se encontram através da ação de um terceiro... Querido Guilherme! É
verdade que ele a ama com toda a sua alma, e o que é que não merecerá um amor assim?
Um importuno interrompeu-me. Secaram-me as lágrimas. Estou distraído. Adeus, meu caro.
04 de agosto
Não sou eu o único a lamentar. Todos os homens são ludibriados em suas esperanças, iludidos em suas expectativas. Fui ver a minha boa mulher sob as tílias. O mais velho dos filhos correu ao meu encontro e seu alarido de felicidade acabou por chamar a mãe, que me pareceu muito abatida. As suas primeiras palavras foram: “Meu bom senhor! Ah! O meu João morreu!” João era o mais novo dos filhos. Fiquei calado. “E meu marido”, disse ela, “voltou da Suíça e nada trouxe. Não tivesse encontrado algumas boas almas, ver-se-ia obrigado a
mendigar: a febre atacou-o no caminho.” Nada pude dizer-lhe e dei alguma coisa ao pequeno.
Ela pediu-me que aceitasse algumas maçãs, aceitei, e deixei aquele lugar de tristes recordações.
21 de agosto
Num piscar de olhos tudo se modifica em mim. Por vezes um doce clarão de vida que voltara a surgir e iluminar-me com uma vaga claridade, mas ah... ele dura apenas um momento! Quando me perco assim em sonhos, não posso expulsar esta idéia: ora, e se Alberto morresse! Tu virias... sim, ela viria a ser... E eu sigo a alucinação, até que ela me conduza ao abismo, à beira do qual me detenho e recuo a tremer.
Se desço em direção às portas da cidade, e me encontro naquele caminho que percorri de carruagem da primeira vez em que fui buscar Carlota para acompanhá-la ao baile, que transformação! Tudo, tudo desapareceu. Nenhum sinal do mundo que passou, e se foi... Até mesmo meu coração já não pulsa mais como pulsava antes. Sou como um espírito que volta ao seu castelo queimado e demolido, o mesmo que mandara construir e ornamentar com toda pompa e circunstância quando era um poderoso príncipe e depois deixou, cheio de esperança, ao filho muito amado quando estavas prestes a morrer.
03 de setembro
Às vezes não posso compreender como um outro pode amá-la, permite-se amá-la, ousa amá-la, quando eu a amo de maneira única, tão profunda, tão plena; quando nada conheço, nada sei, nada tenho senão a ela!
04 de setembro
Sim, é bem assim. Do mesmo modo que a Natureza se inclina ao outono, o outono principia em mim e ao redor de mim. As minhas folhas amarelam, e as folhas das árvores vizinhas já caíram. Não te escrevi certa vez de um jovem criado do campo que eu vi quando tinha acabado de chegar por aqui? Pedi notícias dele há pouco, em Wahlheim. Disseram-me que tinha sido expulso da casa onde estava, e ninguém quis dizer-me mais nada a respeito.
Ontem encontrei-o por acaso no caminho de uma aldeia vizinha. Falei-lhe e ele contou-me a sua história, que me impressionou dupla e até triplamente, a um ponto que tu compreenderás com facilidade quando eu te escrever o que aconteceu. Mas por quê? Por que não conservar em mim o que me aflige e me adoece? Por que entristecer-te também? Por que dou-te sempre motivo de lamentares o que se passa comigo e me ralhares? Que seja! Quem sabe se isso não faz parte do meu destino...
Com uma tristeza sombria, na qual julguei descortinar mesmo uma certa vergonha, o rapaz principiou apenas respondendo às minhas perguntas; mas em breve se fez mais expansivo, como se de repente nos tivesse reconhecido a ambos, e enfim confessou-me seu erro e lamentou sua desventura. Pudesse eu, meu amigo, referir-te cada uma das suas palavras
exatamente como ele as disse! Confessou, contou tudo, até mesmo com uma espécie de satisfação, e como que sentindo gosto nas recordações... Disse que a sua paixão pela dona da casa tinha aumentado de dia para dia, que por fim já não sabia mais o que fazer, que não sabia, segundo a sua expressão, onde estava com a cabeça. Já não podia mais comer, nem beber, nem dormir, sentia um nó na garganta e um aperto no peito e fazia o que não devia, esquecendo-se de fazer o que lhe ordenavam; parecia possesso de algum demônio, até que, certo dia, subindo ela a um celeiro e sabendo ele disso, foi-lhe ao encalço, ou melhor, foi atraído por ela até lá.
Como ela não aceitou seus rogos, quis possuí-la à força; disse não ter percebido como fora capaz de chegar a isso e, Deus era testemunha, que os seus desígnios em relação a ela haviam sido sempre honestos, que nunca teve desejo mais ardente do que o de casar com ela e passar com ela a vida inteira. Depois de ter falado durante longo tempo, passou a gaguejar, detendo-se como alguém que ainda tem alguma coisa a dizer, mas não ousa fazê-lo. Confessou-me enfim, com toda a timidez do mundo, as confiançazinhas que ela lhe consentia às vezes, os pequenos favores que lhe concedia, e, ao dizer isto, interrompeu-se duas ou três vezes, repetindo com vívidos protestos que não o dizia para difamá-la, que a amava e a estimava como antes, que semelhante coisa nunca lhe passaria pela boca, e que apenas me falava para me convencer de que não era um homem de todo pervertido e insensato... E agora, meu caro, recomeço a minha velha cantiga, o meu eterno estribilho. Pudesse eu te apresentar aquele homem exatamente como estava diante de mim, exatamente como ainda o tenho ante os olhos!
Pudesse eu dizer-te tudo com precisão, para te fazer saber o quanto me envolvo em sua sorte, o quanto devo envolver-me nela! Mas basta! Como conheces também a minha sorte, como também me conheces, ficas sabendo demasiado bem o que me atrai para todos os desgraçados, e sobretudo para o desgraçado do qual acabo de te falar.
Relendo a folha que acabo de escrever, verifico que esqueci de te contar o final da história, que é, em todo caso, fácil de adivinhar. A dona da casa defendeu-se até surgir o irmão, que há muito odiava o rapaz e há tempo queria vê-lo longe da casa, porque receava que um novo casamento da irmã privasse os seus filhos de uma herança que, agora que ela não tinha herdeiros, era até bastante considerável e alimentava suas esperanças fraternais e gananciosas. Esse irmão expulsou-o imediatamente, e fez tanto barulho com a questão que a dona da casa, mesmo que quisesse, não poderia se atrever a voltar a tomá-lo por empregado.
O moço terminou dizendo que hoje em dia ela tem outro criado, e o irmão mais uma vez está às arrelias com ela por causa deste; no mais, ele tem como certo que ela há de se casar com o substituto, mas declarou estar resolvido e firme no propósito de não deixar que isso aconteça enquanto estiver vivo.
O que te conto não é exagerado nem alindado. Posso dizer, pelo contrário, que te contei tudo debilmente, bem debilmente, e que até enrudeci um pouco a história com nossas expressões demasiado usadas e circunspectas.
Esse amor, essa fidelidade, essa paixão não é, pois, uma ficção do poeta! Ela vive, ela existe, e em seu estado mais puro, entre a classe de homens que denominamos incultos e nos parecem tão brutos às vezes. E nós somos instruídos... instruídos para nada! Lê esta história com devoção, eu te peço. Hoje estou calmo ao escrever-te. Bem vês que não faço espirrar a tinta e não encho o papel de borrões como de costume. Lê, meu querido, e considera que esta é também a história do teu amigo! Sim, eis o que me aconteceu, eis o que me espera, e não tenho
a metade da bravura, a metade da coragem deste pobre desgraçado, com o qual quase não me atrevo a comparar-me.
05 de setembro
Ela havia escrito um bilhetinho ao marido, que está no campo, onde o prendem alguns negócios. Começava assim: “Caríssimo, meu querido, vem o mais cedo que puderes, espero-te com mil alegrias”. Um amigo que apareceu disse-lhe que, por vários motivos, o regresso de Alberto teria de ser um pouco retardado. O bilhete ficou ali e caiu-me nas mãos à noite. Li-o e sorri, ela perguntou-me por quê. “Como a imaginação”, exclamei, “é um presente dos céus!
Pude supor, por um momento, que esse bilhete era dirigido a mim.” Ela nada respondeu, pareceu-me desgostosa e eu calei.
06 de setembro
Custei muito a enfim me decidir por deixar de lado a simples casaca azul que usava quando dancei pela primeira vez com Carlota. Mas, enfim, ela já estava bastante surrada.
Mandei fazer outra perfeitamente igual à primeira, gola e adornos, além de um colete e calções amarelos do mesmo pano dos que
havia usado naquele dia.[65]
Isso não me satisfez inteiramente... Cuido, todavia, que com o tempo o traje me será tão estimado quanto o outro.
12 de setembro
Ela esteve ausente por alguns dias a fim de ir buscar Alberto no campo. Entrei hoje em seu quarto, ela foi ao meu encontro e eu beijei-lhe a mão mil vezes jubiloso.
Um canário voou do espelho e pousou-lhe sobre o ombro. “Um novo amigo”, disse ela, e acariciou-o. “É para os meus filhos. É tão lindo! Olhe para ele. Quando lhe dou pão, põe-se a bater as asas e a picar com tanta graça! Também me dá beijos, olhe.”
Quando ela chegou a boca ao pequenino animal, este picou-a nos delicados lábios apertando-os com tanta delicadeza que parecia querer demonstrar a satisfação que sentia.
“Ele tem de vos beijar também”, disse ela, e aproximou o pássaro da minha boca... O
biquinho passou dos lábios de Carlota aos meus, e o toque das bicadinhas foi como que um hausto, um núncio de prazer amoroso.
“O seu beijo”, disse-lhe eu, “não é completamente desinteressado. Procura alimento e vai-se embora pouco satisfeito com uma carícia vazia.”
“Também come na minha boca”, disse ela, e deu-lhe um pouco de miolo de pão com os lábios, nos quais eu via sorrir todas as inocentes alegrias, todos os prazeres, todo o ardor de um mútuo amor.
Voltei a face. Ela não devia ter feito aquilo, não devia incendiar a minha imaginação com aqueles quadros de inocência e de felicidade celeste; não devia despertar o meu coração do sono em que a indiferença da vida algumas vezes o embala... Mas por que não haveria de fazê-lo? Tem tanta confiança em mim! Ela sabe o quanto a amo!
15 de setembro
Às vezes parece que vou enlouquecer, Guilherme, ao constatar que há tantos homens suficientemente desprovidos de alma e de sentimento para não gozarem o pouco que vale a pena nesta vida. Lembras-te daquelas nogueiras à sombra das quais me sentei com Carlota em casa do bom Pastor de Santo ...? Aquelas belas nogueiras que me davam sempre um não sei que de contentamento à alma? Como tornavam o adro do presbitério agradável e hospitaleiro!
Como as suas frondes eram frescas e magníficas! E mesmo as recordações dos honestos ministros, que as tinham plantado havia tantos anos, que coisa extraordinária! O mestre-escola disse-nos, com efeito, muitas vezes o nome de um deles, que ele sabia pelo seu avô. Deve ter sido um homem amável, e a sua santa memória estava para sempre presente debaixo daquelas árvores. Te garanto, o mestre-escola ficou de olhos marejados no dia de ontem, quando lamentávamos juntos o fato de as terem abatido... Abatido... Fico furioso e juro que seria capaz de matar o cão que lhe deu a primeira machadada... eu, que era homem capaz de me afligir com seriedade se, havendo no meu pátio duas árvores como aquelas, as visse morrer de velhice... E ter de ver aquilo! Querido amigo, mas há nisso uma coisa que me consola. O que não é o sentimento nos homens! Toda a aldeia murmura, e espero que a senhora mulher do pastor sinta na manteiga, nos ovos e outras provas de amizade do povo do lugar, a ferida que lhes inculcou. Porque foi ela, a mulher do pastor novo (o nosso velho morreu também), uma criatura seca, rabujenta e enfermiça, com razões bastantes para não se interessar por nada
neste mundo, porque ninguém se interessa por ela;[66] uma parva que quer passar por sabichona, se mete a examinar os cânones e trabalha na reforma crítico-moral do cristianismo, que agora se
tornou o último grito em termos de moda;[67] a quem os devaneios de Lavater fazem encolher os ombros, cuja saúde está arruinada por inteiro, e que não tem, por conseqüência, nenhuma alegria neste mundo... Só uma criatura dessas seria capaz de abater as minhas nogueiras. Vê, ainda estou fora de mim! Imagina o seguinte: as folhas caindo sujavam o pátio e tornavam-no úmido, as árvores interceptavam-lhe a luz e, quando as nozes amadureciam, os rapazes jogavam pedras para deitá-las abaixo. E isso bulia com os nervos da mulher, perturbando-a nas suas profundas meditações,
ao pesar e comparar Kennikot, Semler e Michaelis[68] entre si.
Quando vi as pessoas da aldeia, sobretudo os velhos, tão descontentes, disse-lhes: “Por que é que o consentistes?”
Eles responderam-me: “Quando cá o regedor quer, que fazer?” Mas uma coisa me deu prazer: o regedor e o ministro – porque este contava também tirar algum proveito das maluquices da mulher, que ademais não lhe salgam a sopa em demasia – convencionaram dividir tudo entre eles, mas a Intendência da Fazenda Pública interveio e lhes disse:
“Devagar!” Ela tinha velhas pretensões em relação à parte do presbitério em que estavam as árvores e vendeu-as ao que mais desse. Elas jazem por terra! Oh, se eu fosse príncipe! Fazia com que a mulher do pastor, o regedor e a Intendência da Fazenda Pública, todos eles...
Príncipe... Ah, sim, se eu fosse príncipe, como eu me importaria pelas árvores do meu país!
10 de outubro
Basta-me ver os seus olhos negros para que logo me sinta bem! Vê, e o que me magoa é que Alberto não parece estar tão feliz, quando ele... esperava... se estivesse comigo...
acreditava estar... Se... Não gosto de usar reticências, mas aqui e agora não posso exprimir-me de outra maneira... Ademais parece-me que sou claro o suficiente.
12 de outubro
Ossian suplantou Homero no meu coração. [69] Que mundos aqueles aos quais ele, o magnífico, me conduz! Errar pelas charnecas acossadas pelo temporal, que transporta, por entre as nuvens flutuantes, o espírito dos antepassados em direção à pálida claridade da lua; ouvir na montanha os gemidos dos gênios das cavernas, meio afogados pelo rugido da torrente da floresta e os suspiros da jovem agonizante junto às quatro pedras cobertas de musgo que cobrem o túmulo do herói honrado e morto que foi o seu bem-amado... E quando me deparo com o bardo vagante e sombrio, que procura pela vasta charneca o rastro de seus pais, e, ah, só encontra a pedra de seus túmulos e então geme e volta os olhos para a amada estrela da tarde, que vai tombando no mar encapelado... E quando o passado revive na alma do herói, trazendo de volta os tempos em que aquela estrela ainda iluminava com seus raios propícios o perigo dos bravos e a lua concedia sua claridade iluminando seu barco que regressava coroado e vitorioso... E quando leio em sua fronte a sua profunda dor, e o vejo, a ele, o último dos magníficos, a ele, que deixou-se ficar na terra, cambalear pálido e esgotado para o túmulo... Quando o vejo sugar ainda prazeres novos, doloridos e brilhantes na presença das sombras esgotadas de seus pais, olhando abaixo para a terra fria e a erva espessa e batida pelo vento para ao fim ouvi-lo exclamar: “O viajante há de voltar, há de voltar aquele que me conheceu belo,
[70] e dirá: ‘Onde está o bardo, o mais digno dos filhos de
Fíngal?’[71] Os seus pés calcam o meu túmulo e é em vão que pergunta por mim sobre a terra...” Oh, então, meu amigo, nesse momento seria homem capaz de arrancar a espada a qualquer nobre escudeiro, libertar num repente o meu príncipe do tormento de uma vida que não passa de uma morte lenta e transportar a minha alma para junto desse semideus libertado.
19 de outubro
Ah, esse vácuo medonho que sinto no meu seio! Muitas vezes penso... Se pudesses uma vez, uma só vez, apertá-la ao peito, todo esse vácuo haveria de se encher.
26 de outubro
Sim, é claro para mim, meu querido, é claro e cada vez mais claro que é pouca coisa, bem pouca coisa a existência de uma criatura. Uma amiga de Carlota foi vê-la, eu entrei no quarto ao lado, peguei um livro na estante, e, não conseguindo ler, pus-me a escrever. Ouvi-as a falar baixinho, diziam uma à outra coisas bastante insignificantes, novas da cidade, como
esta havia se casado e aquela estava doente, muito doente. “Tem uma tosse seca”, dizia uma,
“as faces encavadas e sói desmaiar, não lhe dava um cruzado pela vida.”
“O senhor N. N... não se encontra em melhor estado”, dizia Carlota.
“Já está até inchado”, continuava a outra... E a minha viva imaginação punha-me logo à beira dos leitos daqueles desgraçados, via com que repugnância voltavam as costas à vida, como eles... Guilherme! E aquelas mulherzinhas falavam disso... como se fala em geral da morte de um estranho... Quando olho ao redor de mim, examino este quarto e vejo os vestidos de Carlota, os papéis de Alberto e aqueles móveis com os quais estou agora tão familiarizado, inclusive o tinteiro aqui pertinho, digo para comigo:
“Eis o que tu és nesta casa! Tudo em todos. [72] Os teus amigos têm consideração por ti! Muitas vezes lhes dás alegrias e o teu coração supõe que não poderias existir sem eles. Todavia, se tu partisses, se te afastasses dessa roda, sentiriam eles o vácuo que a tua ausência causaria ao seu destino? E por quanto tempo? Ah, o homem é tão efêmero que, mesmo ali onde tem certeza da sua existência, onde pode deixar a única e verdadeira impressão da sua presença, ou seja, na memória, na alma dos seus amigos, mesmo ali deve apagar-se e desaparecer, e isto tão logo!”
27 de outubro Por vezes sinto vontade de rasgar-me o peito, de partir-me o crânio, ao ver de quão pouco somos capazes uns em relação aos outros. Ah, o amor, a alegria, o ardor, as delícias que não alcanço por mim, não mas dará outro, e, com o coração a transbordar de venturas, não poderia tornar feliz a este mesmo outro ao vê-lo frio e sem forças diante de mim.
27 de outubro, à noite
Tenho tanta coisa e a lembrança dela tudo devora! Eu tenho tanta coisa e sem ela tudo se reduz a nada.
30 de outubro
Se eu já não tivesse estado um cento de vezes a ponto de saltar-lhe ao pescoço! Deus sabe quanto custa ver passar, e tornar a passar, tanto encanto diante de alguém sem que eu me atreva a pôr-lhes a mão! E todavia a tendência mais natural da humanidade é agarrar... Não agarram as crianças tudo aquilo que lhes cai aos olhos?... E eu?
03 de novembro
Deus sabe quantas são as ocasiões em que me deito na cama com o desejo, e às vezes a esperança, de não tornar a acordar. E de manhã abro os olhos, revejo o sol e me sinto miserável! Oh, não ser eu caprichoso a ponto de acusar o tempo, ou a um terceiro, uma empresa falhada, talvez, para que o insuportável fardo das mágoas não pese inteiro sobre mim! Desgraçado que sou! Sinto, e bem no fundo, que toda a culpa é minha... Não, a culpa
não! Basta que eu traga hoje oculta em meu peito a fonte de todas as misérias, do mesmo modo que trazia outrora a fonte de todas as venturas. Não sou eu o mesmo homem que dantes bracejava numa inesgotável sensibilidade, que via surgir o paraíso a cada passo e tinha um coração capaz de estreitar dentro de si o amor do mundo inteiro? Mas agora este coração está morto, já não brota dele nenhum encanto, os meus olhos estão secos e os meus sentidos, que já não são mais aliviados por lágrimas refrescantes, também estão secos e rasgam sulcos de medo em minha testa. Eu sofro muito, pois perdi tudo o que me causava delícia à vida, essa força divina, vital, com a qual criava mundos ao redor de mim. Ela passou... Quando olho da janela para a remota colina, é em vão que vejo acima dela o sol da manhã atravessar o nevoeiro e brilhar no fundo pacífico do prado, e o brando ribeirão serpentear à minha busca por entre os salgueiros despidos de folhas... Oh, toda essa magnífica natureza é fria para mim, inanimada como uma estampa colorida, e todo esse espetáculo já não consegue bombear do coração à cabeça a menor gota de um sentimento venturoso, e o homem total está ali, em pé diante de Deus como um poço seco, como um balde furado. Muitas vezes me prostrei ao chão implorando lágrimas a Deus, como um lavrador clama por chuva
quando vê um céu de bronze[73] sobre sua cabeça e a terra ao redor de si a morrer de sede.
Mas, ah, sinto-o, Deus não concede a chuva e o sol às nossas importunas súplicas... E
esses tempos cuja recordação me atormenta, por que eram eles tão felizes, senão pelo fato de que eu esperava os seus desígnios com paciência? E por que recebia de coração inteira e intimamente agradecido as delícias que ele derramava sobre mim?
08 de novembro
Ela censurou-me os exageros, mas de modo tão amável! Os meus exageros que, de um copo de vinho, me levavam a beber a garrafa toda... “Evitai isso”, dizia-me ela, “pensai em Carlota!”
“Pensar!”, respondi eu. “Tereis precisão de mo ordenar? Quer pense, quer não pense, estais sempre presente em minha alma. Estive hoje sentado precisamente no lugar onde vós descestes da carruagem...” Ela pôs-se a falar de outra coisa, para me obrigar a não ir demasiado fundo no assunto. E eu me fui, caríssimo! Ela faz de mim o que quiser.
15 de novembro
Agradeço-te, Guilherme, o terno interesse que me consagras, as boas intenções que emanam dos teus conselhos, mas peço-te que fiques calmo. Deixa-me suportar a crise toda.
Apesar do abatimento vital em que me encontro, ainda me resta força suficiente para ir até o fim. Respeito a religião, bem o sabes, sei que é o cajado para quem cai de fadiga, o refresco para aquele que a sede consome. Mas será que... Poderá ela, deverá ela ser assim para todos?
Considera este vasto universo, vês milhões de homens para quem ela não o foi, outros para quem ela jamais o será, quer lhe fosse anunciada, quer não. Tem pois ela de o ser para mim?
O próprio Filho de Deus, não foi ele quem disse que estarão em volta dele aqueles que o Pai
lhe enviar? [74] E se eu, pois, não lhe fui concedido? Se o Pai me quer reservar para si, como mo diz o coração... Por favor, não vás dar a isto uma interpretação falsa, e talvez inventar motejo nestas inocentes palavras; é toda minha alma que exponho diante de ti; doutra maneira preferiria calar-me, porque me aborrece gastar o verbo em assuntos dos quais os outros entendem tão pouco quanto eu. Qual será o destino do homem, se não o de suportar todos os
seus males, e beber o cálice até o fim? [75] E se o cálice se afigurou ao Deus dos Céus demasiado amargo quando o levou aos seus lábios de homem, irei eu me fazer de forte e fingir que o acho doce? E por que teria eu pejo de o confessar, no terrível momento em que
todo o meu íntimo vacila tremebundo entre o ser e o não-ser, [76] em que o passado reluz como um relâmpago sobre o lúgubre abismo do futuro, em que tudo que me rodeia afunda e até o mundo fenece comigo? Não será a voz da criatura opressa, desfalecida, abismando-se solitária e sem auxílio em meio a esforços vãos, que
geme: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” [77] E logo eu deveria corar ante esta expressão? Logo eu deveria temer o momento ao qual nem mesmo Aquele que dobra os céus como se
dobra um manto[78] conseguiu escapar?
21 de novembro
Ela não vê, não sente que está a preparar o veneno que nos há de matar a ambos... E eu degusto com toda a volúpia a taça em que ela me oferece a morte! O que significa aquele ar de bondade com que tantas vezes olha para mim... Tantas vezes... Não, não são tantas vezes, algumas apenas... Mas e a complacência com que aceita as expressões produzidas por um sentimento do qual já não sou mais senhor, a compaixão que sente por tudo aquilo que tenho de suportar e se pinta de rugas em sua fronte?
Ontem, quando me retirei, ela estendeu-me a mão e disse: “Adeus, querido Werther!”
Querido Werther! Foi a primeira vez que me chamou de querido, e a alegria que senti penetrou-me até a medula dos ossos. Repeti a palavra cem vezes e, à noite, quando fui para a cama, palrava com meus botões e me peguei a dizer de repente: “Boa-noite, querido Werther!”
E tive de rir de mim mesmo depois disso.
22 de novembro
Não posso rogar a Deus dizendo: “Conservai-ma!” E todavia parece que é minha tantas vezes! Não posso rogar a Deus dizendo: “Dê-ma!” Ela pertence a outro. Brinco e gracejo com as minhas dores e, se não me contivesse, faria uma ladainha inteira de antíteses.
24 de novembro
Ela sente que sofro. Hoje, o seu olhar penetrou-me até o âmago do coração. Achei-a só.
Eu nada dizia, ela olhava para mim, fixamente. E eu já não via aquela sedutora beleza, aqueles clarões espirituais que lhe cingem a fronte; tudo havia desaparecido à minha vista. Um olhar bem mais potente atuava em mim, um olhar cheio do mais terno cuidado, da mais doce
piedade. Por que não me atrevi a lançar-me a seus pés? Por que não me atrevi a abraçá-la, respondendo-lhe com mil beijos? Ela recorreu ao piano e pôs-se a acompanhar a música com uma voz tão doce, tão suave! Jamais os seus lábios me pareceram tão encantadores. Era como se se abrissem, lânguidos, para absorverem em si aqueles sons suaves que brotavam do instrumento, e apenas fazer vibrar o eco celeste da música em sua boca... Ah, se eu pudesse contar-te isso como o senti! Não pude conter-me por mais tempo. Baixei a cabeça e disse jurando: “Nunca me aventurarei a dar-vos um beijo, lábios sobre os quais adejam os espíritos do céu... E, todavia... Quero... Ah! Vê, foi como que um muro de vedação que se ergueu diante da minha alma... Aquela ventura, aquela pureza do céu... E aí naufragar... Expiar esse pecado... Pecado?”
26 de novembro
Às vezes digo para mim mesmo: “O teu destino é único, podes considerar todos os outros felizes... nenhum mortal foi tão martirizado quanto tu...” E depois disso leio qualquer poeta antigo, e é como se lesse no meu próprio coração. Tenho de suportar tanto! Ah, terá havido antes de mim homem tão miserável?
30 de novembro
Não, nunca, nunca mais poderei voltar a mim! Por toda a parte aonde vou, encontro uma aparição que me põe fora de mim. E hoje! Oh, destino! Oh, humanidade!
Eis que vou à beira do rio à tarde, não tinha nenhuma vontade de me alimentar. Estava tudo deserto, um vento de oeste, frio e úmido, soprava da montanha, e nuvens cinzentas cobriam o vale. Descortinei ao longe um homem vestindo um casaco verde e surrado, que caminhava encurvado entre as rochas e parecia procurar ervas. Aproximei-me dele e o rumor que fiz ao chegar fê-lo voltar-se e eu vi uma fisionomia bem interessante, envolta em profunda tristeza, mas que não deixava de revelar, contudo, uma alma totalmente honesta. Os seus cabelos negros estavam levantados em dois anéis por um alfinete e os restantes caíam pelas costas formando uma trança farta. Como o seu trajo indicava um homem das classes inferiores, pareceu-me que não levaria a mal o fato de eu dar atenção ao que ele fazia, e, por conseguinte, perguntei-lhe o que andava a procurar. “Procuro flores!”, respondeu ele, suspirando profundamente. “E não as encontro.”
“Mas não é a estação delas”, disse-lhe eu, sorrindo.
“Há tantas flores!”, continuou ele, descendo até onde eu estava. “No meu jardim há rosas e duas espécies de madressilvas, uma das quais foi meu pai quem me deu. Elas crescem tão depressa quanto a erva daninha, e há dois dias que as procuro sem poder encontrá-las. E, mesmo aqui fora, há sempre flores, amarelas, azuis e vermelhas; até a centáurea possui uma florzinha bonita, mas não consigo encontrar nenhuma.” Notei nele um ar sinistro e, apanhando um pretexto, perguntei-lhe o que é que queria fazer dessas flores... Um sorriso singular e convulso contraiu-lhe as feições.
“Se prometeis não me trair”, disse ele pondo um dedo nos lábios, “dir-vos-ei que
prometi um buquê à minha namorada.”
“Muito bem!”, disse eu.
“Oh!”, continuou ele. “Ela tem tantas outras coisas! É rica!”
“E contudo aprecia muito o vosso buquê?”, repliquei eu.
“Oh!”, prosseguiu ele. “Ela tem jóias e uma coroa!”
“Qual é o nome dela, então?”
“Se os Estados Gerais[79] tivessem me pago o que deviam”, replicou ele, “eu seria outro homem! Sim, houve um tempo em que eu estava tão bem! Hoje, acabou-se tudo para mim, sou...”
Um olhar úmido lançado ao céu tudo revelou... “Quer dizer que fostes feliz?”, perguntei eu.
“Ah! Bem que eu queria sê-lo agora como fui outrora!”, disse ele. “Andava tão bem, alegre e folgazão como um peixe na água...”
“Henrique!”, exclamou uma velha que vinha pelo caminho. “Henrique! Onde te meteste?
Andamos a tua procura a tarde inteira. Vem jantar!”
“É vosso filho?”, perguntei-lhe eu, caminhando até ela.
“Sim, é o meu pobre filho!”, ela respondeu. “Deus pôs-me uma cruz bem pesada às costas.”
“Há quanto tempo se encontra nesse estado?”, perguntei.
“Assim sossegado”, disse ela, “há apenas seis meses. Dou graças a Deus por isso não ter ido mais longe. Antes andou louco durante um ano inteiro e teve de ser recolhido ao hospício, onde jazia algemado. Agora não faz mal a ninguém e apenas se ocupa sempre de reis e imperadores. E era um homem tão afável e tranqüilo, que me ajudava no sustento e tinha uma bela letra. De repente pôs-se a devanear, caiu doente de febre, depois veio o delírio, e agora acha-se no estado em que o vedes. Se vos contasse, meu senhor...”
Interrompi sua torrente de palavras perguntando-lhe: “Que tempo era aquele do qual ele fala tanto, no qual se dizia tão feliz, tão contente?”
“O pobre insensato!”, exclamou ela com um sorriso de piedade. “Refere-se ao tempo em que estava fora de si, uma época que ele não cessa de elogiar. Foi o tempo que passou no hospício, e não tinha conhecimento de si mesmo.” Aquilo caiu sobre mim como um trovão.
Meti uma moeda de prata na mão dela e afastei-me em largas passadas.
“Sim, aí eras feliz!”, exclamei eu caminhando precipitadamente em direção à cidade.
“Aí poderias te sentir bem como um peixe na água! Deus do céu! Arranjaste o destino dos homens de sorte que apenas possam ser felizes antes de alcançarem a razão ou depois de perdê-la! Pobre miserável! E contudo invejo-te a loucura, esse desarranjo dos sentidos em que te consomes! Sais cheio de esperanças a colher flores para a tua rainha... em pleno inverno... e afliges-te por não as encontrares, sem atinar por que não as encontras. E eu... Eu saio sem esperança, sem objetivo, e volto à casa como saí... Imaginas que homem serias se os Estados Gerais tivessem te pagado o que te deviam; feliz criatura, que podes atribuir a falta de felicidade a um obstáculo terreno! Não sentes, não sentes que é em teu coração destroçado, em teu cérebro arruinado, que jaz tua miséria, da qual nem todos os reis da terra poderiam te libertar!”
Morra desesperado aquele que se rir de um doente, que viaja às fontes mais distantes para buscar águas que, ao invés de diminuir, lhe aumentam a enfermidade e lhe tornam o fim da vida ainda mais doloroso! E o mesmo aconteça àquele que fizer pouco do coração opresso que, para se libertar dos remorsos, para acalmar sua inquietação e o sofrimento de sua alma, faz a peregrinação ao Santo Sepulcro! Cada passo que lacerar a sola de seus pés explorando caminhos não trilhados, é uma gota de bálsamo na sua alma aflita, e a cada dia que sua marcha durar, seu coração deitará aliviado de uma porção do fardo que o subjuga... E vós ousais chamar a isso de loucura, vós, os mercadores de palavras, acomodados em vossas almofadas!
Loucura... Oh, Deus! Tu vês as minhas lágrimas! Seria preciso, depois de teres feito o homem tão pobre, dar-lhe irmãos que lhe roubam sua pobreza pouca, lhe subtraem o resto de confiança que ele tem em ti? Em ti, o Todo-amado! Pois a confiança numa raiz curativa, nas lágrimas da vinha, o que será senão a confiança em ti, que puseste em tudo que nos rodeia a cura e o alívio de que precisamos a todo instante? Ó pai que eu não conheço... Pai que outrora enchias toda a minha alma, e que agora desviaste a face de mim, chama-me para ti! Não emudeças mais tempo! O teu silêncio não deterá a minha alma sedenta... E um homem, um pai, poderia
irritar-se ao ver o filho que volta inesperadamente[80] e se joga em seus braços exclamando: “Eis-me de volta, meu pai, não vos zangueis se interrompo uma viagem que, segundo vossas ordens, eu devia agüentar mais tempo. O mundo é igual por toda parte e por toda parte vive de penas e trabalhos, recompensa e prazer. Mas que me importa tudo isso? Só estou bem onde tu estás, e quero sofrer e gozar na tua presença!”
E tu, Pai celeste e misericordioso, serias capaz de não dar ouvidos ao teu filho?
1o de dezembro
Guilherme! Aquele homem de quem te falei, o feliz infeliz, era secretário em casa do pai de Carlota, e uma paixão que lhe nasceu por ela e que ele nutriu, manteve secreta e por fim revelou, fez com que o despedissem do emprego e tornou-o louco. Imagina, se puderes, imagina através destas palavras cheias de secura o quanto essa história me perturbou quando Alberto ma contou tão friamente como tu talvez a lerás!
04 de dezembro
Suplico-te... Vês que para mim acabou-se tudo... Não poderei suportar tudo isso mais tempo. Estava sentado hoje ao lado dela... Estava sentado e ela tocava diferentes árias ao piano, com uma expressividade! Que expressividade... Que queres que eu diga? A sua irmãzinha vestia a boneca sobre meus joelhos. As lágrimas vieram-me aos olhos. Inclinei-me e eis que dou com sua aliança de casamento... minhas lágrimas jorraram... E de repente ela passou a