Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 7 de 9 · parte 1/3

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Patriarcas e Profetas

maior provisão para a sustentar do que…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

maior provisão para a sustentar do que era exigida antigamente; e isto torna agora a lei dos dízimos e ofertas de mais imperiosa necessidade mesmo do que sob a economia hebréia. Se o povo de Deus concorresse liberalmente para Sua causa pelas suas dádivas voluntárias, em vez de recorrer a métodos não cristãos e profanos a fim de encher o tesouro, Deus seria honrado, e muito mais almas seriam ganhas para Cristo.

O plano de Moisés para angariar meios para a construção do tabernáculo teve grande êxito. Nenhuma insistência foi necessária. Tampouco empregou qualquer dos expedientes a que as igrejas em nosso tempo tantas vezes recorrem. Não fez uma grande festa. Não convidou o povo para cenas de alegria, danças, diversões gerais; tampouco instituiu as loterias, nem qualquer coisa desta natureza profana, com o fim de obter meios para construir o tabernáculo de Deus. O Senhor ordenou a Moisés que convidasse os filhos de Israel a trazerem suas ofertas. Ele aceitava donativos de todos os que dessem voluntariamente, de coração. E as ofertas vieram em tão grande abundância que Moisés mandou o povo deixar de trazer, pois já haviam suprido mais do que poderia ser usado. Deus fez dos homens os Seus administradores. A propriedade que Ele pôs em suas mãos são os meios que Ele proveu para a propagação do evangelho. Àqueles que se mostrarem mordomos fiéis Ele confiará maiores bens. Diz o Senhor: "Aos que Me honram honrarei." I Sam. 2:30. "Deus ama ao que dá com alegria" (II Cor. 9:7), e, quando Seu povo, de coração grato, Lhe trazem seus dons e ofertas, "não com tristeza, ou por necessidade", Sua bênção os acompanhará, conforme Ele prometeu. "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro para que haja mantimento na Minha casa, e depois fazei prova de Mim, diz o Senhor dos exércitos, se Eu vos não abrir as janelas do Céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança." Mal. 3:10. 51

O Cuidado de Deus Para

com os Pobres

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A fim de promover a reunião do povo para serviço religioso, bem como para se fazerem provisões aos pobres, exigia-se um segundo dízimo de todo o lucro. Com relação ao primeiro dízimo, declarou o Senhor: "Aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel." Núm. 18:21. Mas em relação ao segundo Ele ordenou: "Perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o Seu nome, comereis os dízimos do teu grão, do teu mosto, e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus todos os dias." Deut. 14:23. Este dízimo, ou o seu equivalente em dinheiro, deviam por dois anos trazer ao lugar em que estava estabelecido o santuário. Depois de apresentarem uma oferta de agradecimento a Deus, e uma especificada porção ao sacerdote, os ofertantes deviam fazer uso do que restava para uma festa religiosa, da qual deviam participar os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Assim, tomavam-se providências para as ações de graças e festas, nas solenidades anuais, e o povo era trazido à associação com os sacerdotes e levitas, para que pudesse receber instrução e animação no serviço de Deus.

Em cada terceiro ano, entretanto, este segundo dízimo devia ser usado em casa, hospedando os levitas e os pobres, conforme Moisés dissera: "Para que comam dentro das tuas portas, e se fartem." Deut. 26:12. Este dízimo proveria um fundo para fins de caridade e hospitalidade. Outra providência, ainda, se tomou em favor dos pobres. Nada há, depois do reconhecimento dos direitos de Deus, que mais caracterize as leis dadas por Moisés do que o espírito liberal, afetuoso e hospitaleiro ordenado para com os pobres. Embora Deus houvesse prometido abençoar grandemente Seu povo, não era Seu desígnio que a pobreza fosse inteiramente desconhecida entre eles. Pág. 531

Ele declarou que os pobres nunca se acabariam na Terra. Sempre haveria entre Seu povo os que poriam em ação a simpatia, ternura e benevolência deles. Então, como agora, as pessoas estavam sujeitas a contratempos, enfermidade e perda de propriedade; todavia, enquanto seguiram as instruções dadas por Deus, não houve mendigos entre eles, nem qualquer que sofresse fome. A lei de Deus dava aos pobres direito a certa parte dos produtos do solo. Estando com fome, tinha um homem liberdade de ir ao campo de seu vizinho, ou ao pomar ou à vinha, e comer do grão ou do fruto, para matar a fome. Foi de acordo com esta permissão que os discípulos de Jesus, ao passarem num dia de sábado por um campo de trigo, arrancaram espigas e comeram do grão. Toda respiga dos campos, pomares e vinhas, pertencia aos pobres. "Quando no teu campo segares a tua sega", disse Moisés, "e esqueceres um molho no campo, não tornarás a tomá-lo. ... Quando sacudires a tua oliveira, não tornarás atrás de ti a sacudir os ramos. ... Quando vindimares a tua vinha, não tornarás atrás de ti a rebuscá-la; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será. E lembrar-te-ás de que foste servo na terra do Egito." Deut. 24:19-22; Lev. 19:9 e 10. Cada sétimo ano eram tomadas providências especiais em favor dos pobres. O ano sabático, como era o mesmo chamado, começava no fim da ceifa. Na ocasião da sementeira, que se seguia à colheita, o povo não devia semear; não deviam podar a vinha na primavera; e não deviam estar na expectativa quer de ceifa quer de vindima. Daquilo que a terra produzisse espontaneamente, podiam comer enquanto novo; mas não deviam armazenar qualquer porção do mesmo em seus depósitos. A produção deste ano devia estar franqueada ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, e mesmo aos animais do campo. Êxo. 23:10 e 11; Lev. 25:5.

Mas, se a terra produzia comumente apenas o bastante para suprir as necessidades do povo, como deveriam subsistir durante o ano em que nada colhessem? Para tal fim a promessa de Deus oferecia amplas provisões. "Mandarei Minha bênção sobre vós no sexto ano", disse Ele, "para que dê fruto por três anos. E no oitavo ano semeareis, e comereis da colheita velha até ao ano nono; até que venha a sua novidade comereis a velha." Lev. 25:21 e 22.

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A observância do ano sabático devia ser um benefício tanto para a terra como para o povo. O solo, ficando sem ser cultivado durante um ano, produzia mais abundantemente depois. O povo estava livre dos trabalhos apertados do campo; e, conquanto houvesse vários ramos de trabalhos que podiam ser efetuados durante este tempo, todos podiam se dedicar a maior lazer, o qual oferecia oportunidade para a restauração de suas capacidades físicas para os esforços dos anos seguintes. Tinham mais tempo para a meditação e oração, para se familiarizarem com os ensinos e mandados do Senhor, e para a instrução de sua casa.

No ano sabático, os escravos hebreus deviam ser postos em liberdade, e não deviam ser despedidos de mãos vazias. A instrução do Senhor foi: "Quando o despedires de ti forro, não o despedirás vazio. Liberalmente o fornecerás do teu rebanho, e da tua eira e do teu lagar; daquilo com que o Senhor teu Deus te tiver abençoado lhe darás." Deut. 15:13 e 14.

O salário do trabalhador devia ser pago prontamente: "Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado de teus irmãos, ou de teus estrangeiros, que estão na tua terra. ... No seu dia lhe darás o seu jornal, e o Sol se não porá sobre isso: porquanto pobre é, e sua alma se atém a isso." Deut. 24:14 e 15. Instruções especiais também foram dadas concernentes ao tratamento para com os que fugiam do serviço: "Não entregarás a seu senhor o servo que se acolher a ti de seu senhor; contigo ficará no meio de ti, no lugar que escolher em alguma das tuas portas, onde lhe estiver bem; não o oprimirás." Deut. 23:15 e 16.

Para os pobres, o sétimo ano era um ano de livramento de dívidas. Ordenava-se aos hebreus em todo o tempo auxiliar seus irmãos necessitados, emprestando-lhes dinheiro sem juro. Tomar usura de um pobre era expressamente proibido: "Quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino, para que viva contigo. Não tomarás dele usura nem ganho; mas do teu Deus terás temor, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem darás o teu manjar por interesse." Lev. 25:35-37. Se a dívida ficava sem ser paga até o ano da remissão, o próprio capital não podia ser recuperado. Expressamente advertia-se ao povo contra o privar os seus irmãos da necessária assistência, por

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causa disto: "Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, ... não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre. ... Guarda-te que não haja vil pensamento no teu coração, dizendo: Vai-se aproximando o sétimo ano, o ano da remissão; e que o teu olho seja maligno para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada; e que ele clame contra ti ao Senhor, e que haja em ti pecado." "Nunca cessará o pobre do meio da terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra", "livremente emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade." Deut. 15:7-9, 11 e 8. Ninguém devia temer que sua liberalidade o levasse à necessidade. Da obediência aos mandamentos de Deus resultaria certamente prosperidade. "Emprestarás a muitas nações", disse Ele; "mas não tomarás empréstimos; e dominarás sobre muitas nações, mas elas não dominarão sobre ti." Deut. 15:6. Depois de "sete semanas de anos", "sete vezes sete anos", vinha o grande ano da remissão - o jubileu. "Então... fareis passar a trombeta do jubileu... por toda a vossa terra. E santificareis o ano qüinqüagésimo, e apregoareis a liberdade na terra a todos os seus moradores; ano de jubileu vos será, e tornareis, cada um à sua possessão, e tornareis, cada um à sua família." Lev. 25:9 e 10. "No mês sétimo, aos dez do mês, ... no dia da expiação", soava a trombeta do jubileu. Por toda a terra, onde quer que morasse o povo judeu, ouvia-se o som, convidando a todos os filhos de Jacó a darem as boas-vindas ao ano da remissão. No grande dia da expiação, oferecia-se reparação pelos pecados de Israel, e com verdadeira alegria o povo recebia o jubileu. Como no ano sabático, não se devia semear nem colher, e tudo que a terra produzisse devia ser considerado como propriedade lícita dos pobres. Certas classes de escravos hebreus - todos os que não recebiam liberdade no ano sabático - ficavam agora livres. Mas aquilo que especialmente distinguia o ano do jubileu era a reversão de toda a propriedade territorial à família do possuidor original. Por determinação especial de Deus, a terra fora dividida por sorte. Depois que a divisão fora feita, ninguém tinha a liberdade de negociar sua terra. Tampouco devia vendê-la, a menos que a pobreza o compelisse a tal; e, então, quando quer

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que ele ou qualquer de seus parentes desejasse resgatá-la, o comprador não devia recusar-se a vendê-la; e, não sendo remida, reverteria ao seu primeiro possuidor ou seus herdeiros, no ano do jubileu. O Senhor declarou a Israel: "A terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é Minha; pois vós sois estrangeiros e peregrinos comigo." Lev. 25:23. O povo devia ser impressionado com o fato de que era a terra de Deus que se lhes permitia possuir por algum tempo; de que Ele era o legítimo possuidor, o proprietário original, e de que desejava se tivesse consideração especial pelos pobres e infelizes. A mente de todos devia ser impressionada com o fato de que os pobres têm tanto direito a um lugar no mundo de Deus como o têm os mais ricos.

Tais foram as disposições tomadas por nosso misericordioso Criador a fim de diminuir o sofrimento, trazer algum raio de esperança, lampejar uma réstia de luz na vida dos que são destituídos de bens e se acham angustiados.

O Senhor queria pôr obstáculo ao amor desordenado à propriedade e ao poderio. Grandes males resultariam da acumulação contínua da riqueza por uma classe, e da pobreza e degradação por outra. Sem alguma restrição, o poderio dos ricos se tornaria um monopólio, e os pobres, se bem que sob todos os aspectos perfeitamente tão dignos à vista de Deus, seriam considerados e tratados como inferiores aos seus irmãos mais prósperos. A consciência desta opressão despertaria as paixões das classes mais pobres. Haveria um sentimento de aflição e desespero que teria como tendência desmoralizar a sociedade e abrir as portas aos crimes de toda espécie. Os estatutos que Deus estabelecera destinavam-se a promover a igualdade social. As disposições do ano sabático e do jubileu em grande medida poriam em ordem aquilo que no intervalo anterior havia ido mal na economia social e política da nação.

Aqueles estatutos destinavam-se a abençoar os ricos não menos que os pobres. Restringiriam a avareza e a disposição para a exaltação própria, e cultivariam um espírito nobre e de beneficência; e, alimentando a boa vontade e a confiança entre todas as classes, promoveriam a ordem social, a estabilidade do governo. Nós nos achamos todos entretecidos na grande trama da humanidade, e o que quer que possamos fazer para beneficiar e elevar a outrem, refletirá em bênçãos a nós mesmos. A lei da dependência recíproca vigora em todas as classes da sociedade. Os Pág. 535

pobres não dependem dos ricos mais do que estes dependem daqueles. Enquanto uma classe pede participação nas bênçãos que Deus conferiu aos seus vizinhos mais ricos, a outra necessita do serviço fiel, e da força do cérebro, ossos e músculos, coisas que são o capital do pobre. Grandes bênçãos foram prometidas a Israel sob condição de obediência às instruções do Senhor. "Eu vos darei as vossas chuvas a seu tempo", declarou Ele; "e a terra dará a sua novidade, e a árvore do campo dará o seu fruto; e a debulha se vos chegará à vindima, e a vindima se chegará à sementeira; e comereis o vosso pão a fartar, e habitareis seguros na vossa terra. Também darei paz na terra, e dormireis seguros, e não haverá quem vos espante; e farei cessar os animais nocivos da terra, e pela vossa terra não passará espada. ... Andarei no meio de vós, e Eu vos serei por Deus, e vós Me sereis por povo. ... Mas, se Me não ouvirdes, e não fizerdes todos estes mandamentos, ... para invalidar o Meu concerto, ... semeareis debalde a vossa semente, e os vossos inimigos a comerão. E porei a Minha face contra vós, e sereis feridos diante de vossos inimigos; e os que vos aborrecerem de vós se assenhorearão, e fugireis, sem ninguém vos perseguir." Lev. 26:4-17. Muitos há que insistem com grande entusiasmo que todos os homens deviam ter participação igual nas bênçãos temporais de Deus. Mas isto não foi o propósito do Criador. A diversidade de condições é um dos meios pelos quais é desígnio de Deus provar e desenvolver o caráter. Contudo, é Seu intuito que aqueles que têm haveres terrestres se considerem simplesmente como mordomos de Seus bens, estando-lhes confiados os meios a serem empregados para o benefício dos sofredores e necessitados. Cristo disse que teremos os pobres sempre conosco; e Ele une Seu interesse com o de Seu povo sofredor. O coração de nosso Redentor compadece-se dos mais pobres e humildes de Seus filhos terrestres. Ele nos diz que são Seus representantes na Terra. Pô-los entre nós para despertar em nosso coração o amor que Ele sente pelos que sofrem e são oprimidos. A piedade e a benevolência a eles mostradas são aceitas por Cristo como se o

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fossem para com Ele mesmo. Um ato de crueldade ou negligência para com eles, é considerado como se fosse praticado a Ele.

Se a lei dada por Deus para o benefício dos pobres houvesse continuado a ser executada, quão diferente seria a condição presente do mundo, moralmente, espiritualmente e materialmente! O egoísmo e a importância atribuída a si próprio não se manifestariam como hoje, antes cada qual alimentaria uma consideração benévola pela felicidade e bem-estar de outros; e não existiria tão extensa falta do necessário como se vê hoje em muitas terras. Os princípios que Deus ordenou impediriam os terríveis males que em todos os séculos têm resultado da opressão do rico ao pobre, e da suspeita e ódio do pobre para com o rico. Ao mesmo tempo em que poderiam impedir a acumulação de grandes riquezas, e a satisfação do luxo ilimitado, impediriam a conseqüente ignorância e degradação de dezenas de milhares, cuja servidão mal paga é exigida para acumular essas fortunas colossais. Trariam uma solução pacífica àqueles problemas que hoje ameaçam encher o mundo de anarquia e morticínio.

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As Festas Anuais

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Havia três assembléias anuais de todo o Israel para adoração no santuário. Êxo. 23:14-16. Silo foi por algum tempo o local para essas reuniões; mas Jerusalém se tornou mais tarde o centro do culto da nação, e ali se congregavam as tribos para as festas solenes. O povo estava rodeado de tribos ferozes, aguerridas, que se achavam ávidas por tomarem suas terras; contudo, três vezes ao ano, a todos os homens robustos, a toda a gente em condições de poder fazer viagem, ordenava-se que deixassem seus lares e se dirigissem ao lugar da assembléia, próximo do centro daquela terra. O que impediria seus inimigos de se lançarem sobre essas casas desprotegidas, e devastá-las pelo fogo e pela espada? O que impediria a invasão do país, a qual levaria Israel em cativeiro a algum adversário estrangeiro? - Deus prometera ser o protetor de Seu povo. "O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que O temem, e os livra." Sal. 34:7. Enquanto os israelitas subiam para adorar, o poder divino imporia uma restrição aos seus inimigos. A promessa de Deus era: "Eu lançarei fora as nações de diante de ti, e alargarei o teu termo; ninguém cobiçará a tua terra, quando subires para aparecer três vezes no ano diante do Senhor teu Deus." Êxo. 34:24. As primeiras destas solenidades, a Páscoa e a festa dos pães asmos, ocorriam em Abibe, o primeiro mês do ano judaico, correspondente ao fim de março e princípio de abril. Era passado o frio do inverno, terminara a chuva serôdia, e toda a Natureza se regozijava no frescor e beleza da primavera. A relva era verde nas colinas e vales, e flores silvestres por toda parte adornavam os campos. A Lua, já quase cheia, tornava deleitosas as noites. Era a estação tão belamente descrita pelo cantor sagrado: Pág. 538

"Eis que passou o inverno;

A chuva cessou, e se foi;

Aparecem as flores na terra,

O tempo de cantar chega,

E a voz da rola ouve-se em nossa terra;

A figueira já deu os seus figuinhos,

E as vides em flor exalam o seu aroma." Cant. 2:11-13. Por toda a terra bandos de peregrinos estavam a caminho para Jerusalém. Todos dirigiam os passos para o lugar em que se revelava a presença de Deus: os pastores deixavam seus rebanhos, os guardas do gado as suas montanhas, pescadores o Mar de Galiléia, os lavradores os seus campos, e os filhos dos profetas as escolas sagradas. Jornadeavam em pequenas etapas, pois que muitos iam a pé. As caravanas estavam constantemente a receber acréscimos, e freqüentemente se tornavam muito grandes antes de chegarem à santa cidade.

A alegria da Natureza despertava nos corações de Israel júbilo e gratidão para com o Doador de todos os bens. Cantavam-se os grandiosos salmos hebreus, exaltando a glória e majestade de Jeová. Ao som da trombeta que dava os sinais, juntamente com a música dos címbalos, erguia-se o coro de ações de graças, avolumado por centenas de vozes:

"Alegrei-me quando me disseram:

Vamos à casa do Senhor.

Os nossos pés estão dentro das tuas portas, ó Jerusalém... Onde sobem as tribos do Senhor, ...

Para darem graças ao nome do Senhor. ...

Orai pela paz de Jerusalém;

Prosperarão aqueles que te amam." Sal. 122:1-6.

E ao verem em redor de si as colinas onde os gentios costumavam acender os fogos de seus altares, cantavam os filhos de Israel:

"Elevo os meus olhos para os montes;

De onde me virá o socorro?

O meu socorro vem do Senhor,

Que fez o céu e a Terra." Sal. 121:1 e 2.

"Os que confiam no Senhor

Serão como o monte de Sião,

Que não se abala, mas permanece para sempre.

Como estão os montes à roda de Jerusalém,

Assim o Senhor está em volta do Seu povo,

Desde agora e para sempre." Sal. 125:1 e 2.

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Transpondo as colinas que ficavam à vista da santa cidade, olhavam com temor reverente para as multidões de adoradores que caminhavam para o templo. Viam o fumo do incenso a ascender, e, ao ouvirem as trombetas dos levitas anunciando o serviço sagrado, tomavam-se da inspiração do momento, e cantavam:

"Grande é o Senhor e mui digno de louvor,

Na cidade do nosso Deus, no Seu monte santo.

Formoso de sítio, e alegria de toda a Terra

É o monte de Sião sobre os lados do norte,

A cidade do grande Rei." Sal. 48:1 e 2.

"Haja paz dentro de teus muros,

E prosperidade dentro dos teus palácios."

"Abri-me as portas da justiça;

Entrarei por elas, e louvarei ao Senhor."

"Pagarei os meus votos ao Senhor;

Que eu possa fazê-lo na presença de todo o meu povo, Nos átrios da casa do Senhor,

No meio de ti, ó Jerusalém!

Louvai ao Senhor." Sal. 122:7; Sal. 118:19; Sal. 116:18 e 19. Todas as casas em Jerusalém eram amplamente abertas aos peregrinos, e forneciam-se aposentos gratuitamente; mas isto não era suficiente para a vasta assembléia, e armavam-se tendas em todo o espaço disponível na cidade e nas colinas adjacentes. No décimo quarto dia do mês, à tarde, celebrava-se a Páscoa, comemorando as suas cerimônias solenes e impressionantes o livramento do cativeiro do Egito, e apontando ao futuro sacrifício que libertaria do cativeiro do pecado. Quando o Salvador rendeu Sua vida no Calvário, cessou a significação da Páscoa, e a ordenança da Ceia do Senhor foi instituída como memorial do mesmo acontecimento de que a Páscoa fora tipo.

A Páscoa era seguida pelos sete dias da festa dos pães asmos. O primeiro e sétimo dia eram dias de santa convocação, nos quais nenhum trabalho servil devia ser feito. No segundo dia da festa, as primícias da ceifa do ano eram apresentadas perante Deus. A cevada era o primeiro cereal a produzir-se na Palestina, e no início da festa estava começando a amadurecer. Um molho deste cereal era movido pelo sacerdote diante do altar de Deus, em reconhecimento de que todas as coisas eram dEle. Antes que esta cerimônia se realizasse não se devia fazer a colheita. Pág. 540

Cinqüenta dias depois, a partir da oferta das primícias, vinha o Pentecoste, também chamado a festa da ceifa, e festa das semanas. Como expressão de gratidão pelo cereal preparado como alimento, dois pães assados com fermento eram apresentados diante de Deus. O Pentecoste ocupava apenas um dia, que era dedicado ao culto religioso.

No sétimo mês vinha a festa dos tabernáculos, ou da colheita. Esta festa reconhecia a generosidade de Deus nos produtos do pomar, do olival e da vinha. Era a reunião festiva encerradora do ano. A terra havia outorgado o seu produto, as colheitas estavam guardadas nos celeiros; os frutos, o azeite e o vinho estavam armazenados, as primícias reservadas, e agora o povo vinha com seus tributos de ações de graças a Deus, que os havia assim abençoado ricamente. A festa devia ser eminentemente uma ocasião para regozijo. Ocorria precisamente depois do grande dia da expiação, quando haviam obtido a certeza de que sua iniqüidade não mais seria lembrada. Em paz com Deus vinham agora diante dEle para reconhecer Sua bondade e louvá-Lo pela Sua misericórdia. Estando terminados os labores da ceifa, e ainda não iniciadas as labutas do novo ano, o povo estava livre de cuidados, e podia entregar-se às influências sagradas e jubilosas do momento. Embora unicamente aos pais e aos filhos fosse ordenado comparecer às festas, todavia, tanto quanto possível, a casa toda devia a elas assistir, e à hospitalidade daqueles eram bem-vindos os servos, os levitas, o estrangeiro, e os pobres.

Como a Páscoa, a Festa dos Tabernáculos era comemorativa. Em memória de sua vida peregrina no deserto, o povo devia agora deixar suas casas, e habitar em cabanas, ou em caramanchéis, formados dos ramos verdes "das formosas árvores, ramos de palmas, ramos de árvores espessas, e salgueiros de ribeiros". Lev. 23:40, 42 e 43.

O primeiro dia era uma santa convocação, e aos sete dias da festa acrescentava-se um oitavo, que era observado de modo semelhante.

Nestas assembléias anuais o coração de velhos e jovens se animava no serviço de Deus, ao mesmo tempo em que a associação da gente das várias regiões do país fortalecia os laços que os ligavam a Deus e uns aos outros. Bom seria que o povo de Deus na atualidade tivesse uma Festa dos Tabernáculos - uma jubilosa comemoração das bênçãos de Deus a eles. Assim como os Pág. 541

filhos de Israel celebravam o livramento que Deus operara a seus pais, e sua miraculosa preservação por parte dEle durante suas jornadas depois de saírem do Egito, devemos nós com gratidão recordar-nos dos vários meios que Ele ideou para nos tirar do mundo, e das trevas do erro, para a luz preciosa de Sua graça e verdade.

Para os que moravam distantes do tabernáculo, mais de um mês em cada ano deve ter sido ocupado com a assistência às festas anuais. Este exemplo de devoção a Deus deve dar ênfase à importância do culto religioso, e à necessidade de subordinar nossos interesses egoístas, mundanos, aos que são espirituais e eternos. Incorremos em perda quando negligenciamos o privilégio de nos associarmos, a fim de fortalecer-nos e encorajar-nos uns aos outros no serviço de Deus. As verdades de Sua Palavra perdem sua vivacidade e importância em nossa mente. Nosso coração deixa de iluminar-se e despertar-se pela influência santificadora, e nós decaímos em espiritualidade. Em nossas relações mútuas como cristãos, perdemos muito pela falta de simpatia de uns para com os outros. Aquele que se encerra dentro de si mesmo, não está preenchendo a posição que era desígnio de Deus ele ocupasse. Todos nós somos filhos de um mesmo Pai, dependentes uns dos outros para alcançar a felicidade. As reivindicações de Deus e da humanidade tocam a nós. É o cultivo apropriado dos elementos sociais de nossa natureza o que nos une intimamente com nossos irmãos, e nos proporciona felicidade em nossos esforços para sermos bênçãos aos outros.

A festa dos tabernáculos não era apenas comemorativa, mas também típica. Não somente apontava para a peregrinação no deserto, mas, como festa da ceifa, celebrava a colheita dos frutos da terra, e indicava, no futuro, o grande dia da colheita final, em que o Senhor da seara enviará os Seus ceifeiros para ajuntar o joio em feixes para o fogo, e colher o trigo para o Seu celeiro. Naquele tempo os ímpios todos serão destruídos. Eles se tornarão "como se nunca tivessem sido". Obadias 16. E toda voz, no Universo inteiro, unir-se-á em jubiloso louvor a Deus. Diz o escritor do Apocalipse: "Ouvi a toda a criatura que está no céu, e na Terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre." Apoc. 5:13.

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O povo de Israel louvava a Deus na Festa dos Tabernáculos, ao evocarem à mente a Sua misericórdia pelo seu livramento da escravidão no Egito, e o Seu terno cuidado para com eles durante sua vida peregrina pelo deserto. Regozijavam-se também pela consciência que tinham do perdão e aceitação, mediante o serviço do dia da expiação, apenas terminado. Mas, quando os resgatados do Senhor houverem sido com segurança recolhidos na Canaã celestial - livres para sempre do cativeiro da maldição, sob o qual "toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora" (Rom. 8:22) - regozijar-se-ão com indizível alegria e plenos de glória. A grande obra expiatória de Cristo em prol do homem ter-se-á então completado, e seus pecados terão sido para sempre eliminados. "O deserto e os lugares secos se alegrarão disto;

E o ermo exultará e florescerá como a rosa.

Abundantemente florescerá, e também regurgitará de alegria e exultará; A glória do Líbano se lhe deu,

A excelência do Carmelo e Sarom;

Eles verão a glória do Senhor, a excelência do nosso Deus. "Então os olhos dos cegos serão abertos,

E os ouvidos dos surdos se abrirão.

Então os coxos saltarão como cervos,

E a língua dos mudos cantará;

"Porque águas arrebentarão no deserto

E ribeiros no ermo.

E a terra seca se transformará em tanques,

E a terra sedenta em mananciais de águas;

"E ali haverá um alto caminho, um caminho

Que se chamará o caminho santo;

O imundo não passará por ele,

Mas será para aqueles:

Os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão.

"Ali não haverá leão,

Nem animal feroz subirá a ele,

Nem se achará nele;

Mas os remidos andarão por ele.

"E os resgatados do Senhor voltarão,

E virão a Sião com júbilo,

E alegria eterna haverá sobre as suas cabeças;

Gozo e alegria alcançarão,

E deles fugirá a tristeza e o gemido." Isa. 35:1, 2 e 5-10. VI. O Período dos Juízes

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Os Primeiros Juízes

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Depois de seu estabelecimento em Canaã, nenhum esforço vigoroso fizeram as tribos para completar a conquista da terra. Satisfeitas com o território já ganho, seu zelo se debilitou logo, e a guerra interrompeu-se. "Quando Israel cobrou mais forças, fez dos cananeus tributários; porém não os expeliu de todo." Juí. 1:28.

O Senhor havia cumprido fielmente, de Sua parte, as promessas feitas a Israel; Josué quebrara o poder dos cananeus, e distribuíra a terra às tribos. Apenas lhes restava, confiando na certeza do auxílio divino, completar a obra de desapossar os habitantes da terra. Mas isto eles deixaram de fazer. Entrando em aliança com os cananeus, transgrediram diretamente a ordem de Deus, e assim deixaram de cumprir a condição sob a qual Ele prometera colocá-los de posse de Canaã. Desde a primeira comunicação da parte de Deus a eles no Sinai, haviam sido advertidos contra a idolatria. Imediatamente depois da proclamação da lei, foi-lhes enviada esta mensagem por intermédio de Moisés, concernente às nações de Canaã: "Não te inclinarás diante dos seus deuses, nem os servirás, nem farás conforme às suas obras; antes os destruirás totalmente, e quebrarás de todo as suas estátuas. E servireis ao Senhor vosso Deus, e Ele abençoará o vosso pão e a vossa água; e Eu tirarei do meio de ti as enfermidades." Êxo. 23:24 e 25. Deu-se-lhes a certeza de que enquanto permanecessem obedientes, Deus subjugaria seus inimigos diante deles: "Enviarei o Meu terror diante de ti, desconcertando a todo o povo aonde entrares, e farei que todos os teus inimigos te virem as costas. Também enviarei vespões diante de ti, que lancem fora os heveus, os cananeus, os heteus, diante de ti. Num só ano os não lançarei fora diante de ti para que a terra se não torne em deserto, e as feras do campo se não multipliquem contra ti. Pouco a pouco os lançarei de diante de ti, até Pág. 544

que sejas multiplicado, e possuas a terra por herança. ... Darei nas tuas mãos os moradores da terra, para que os lances fora de diante de ti. Não farás concerto algum com eles, ou com os seus deuses. Na tua terra não habitarão, para que não te façam pecar contra Mim; se servires aos seus deuses, certamente será um laço para ti." Êxo. 23:27-33. Estas instruções foram reiteradas da maneira mais solene por Moisés, antes de sua morte, e foram repetidas por Josué. Deus colocara Seu povo em Canaã como poderoso parapeito, para deter a onda do mal moral, a fim de que este não inundasse o mundo. Sendo fiel a Ele, era o intuito de Deus que Israel prosseguisse de vitória em vitória. Ele daria em suas mãos nações maiores e mais poderosas do que os cananeus. A promessa era: "Se diligentemente guardardes todos estes mandamentos que vos ordeno... também o Senhor de diante de vós lançará fora todas as nações, e possuireis nações maiores e mais poderosas do que vós. Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé será vosso; desde o deserto, e desde o Líbano, desde o rio, o rio Eufrates, até o mar ocidental, será o vosso termo. Ninguém subsistirá diante de vós; o Senhor vosso Deus porá sobre toda a terra que pisardes o vosso terror e o vosso temor, como já vos tem dito." Deut. 11:22-25.

Mas, sem consideração para com seu alto destino, preferiram o caminho da comodidade e da condescendência própria; deixaram escapar sua oportunidade para completarem a conquista da terra; e por muitas gerações foram afligidos pelos remanescentes desses povos idólatras, que, conforme predissera o profeta, eram como "espinhos nos vossos olhos", e como "aguilhões nas vossas ilhargas". Núm. 33:55.

Os israelitas "se misturaram com as nações, e aprenderam as suas obras". Ligaram-se matrimonialmente com os cananeus, e a idolatria espalhou-se como uma praga por toda a terra. "Serviram os seus ídolos, que vieram a ser-lhes um laço. Demais disso, sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios. ... E a terra foi manchada com sangue." "Pelo que se acendeu a ira do Senhor contra Seu povo, de modo que abominou a Sua herança." Sal. 106:34, 38 e 40. Antes que se extinguisse a geração que recebera instruções Pág. 545

de Josué, a idolatria fez pequeno avanço; mas os pais haviam preparado o caminho para a apostasia de seus filhos. O desacato às restrições do Senhor por parte daqueles que entraram na posse de Canaã, disseminou sementes de males, as quais continuaram a produzir amargos frutos por muitas gerações. Os hábitos simples dos hebreus lhes haviam assegurado saúde física; mas a associação com os gentios determinou a condescendência com o apetite e paixão, o que diminuiu gradualmente a força física e enfraqueceu as capacidades mentais e morais. Pelos seus pecados os israelitas foram separados de Deus; Sua força foi removida deles, e não mais podiam prevalecer contra seus inimigos. Assim foram levados sob a sujeição das mesmas nações que por intermédio de Deus haviam subjugado.

"Deixaram ao Senhor Deus de seus pais, que os tirara da terra do Egito" (Juí. 2:12), "e os guiou pelo deserto como a um rebanho (Sal. 78:52)." "Pois Lhe provocaram a ira com os seus altos, e despertaram-Lhe o zelo com as suas imagens de escultura." Sal. 78:58. Portanto o Senhor "desamparou o tabernáculo em Silo, a tenda que estabelecera como Sua morada entre os homens. E deu a Sua força em cativeiro; e a Sua glória à mão do inimigo". Sal. 78:60 e 61. Todavia Ele não desamparou completamente o Seu povo. Houve sempre uns remanescentes que eram fiéis a Jeová; e de tempos em tempos o Senhor suscitava homens fiéis e valentes para derribar a idolatria e livrar os israelitas de seus inimigos. Mas quando morria o libertador, e o povo ficava livre de sua autoridade, voltavam gradualmente aos seus ídolos. E assim a história de apostasias e castigos, de confissão e livramento, repetia-se reiteradas vezes.

O rei da Mesopotâmia, o rei de Moabe, e depois destes os filisteus e os cananeus de Hazor, guiados por Sísera, tornaram-se por seu turno os opressores de Israel. Otniel, Sangar, Eúde, Débora e Baraque foram levantados como libertadores de seu povo. Mas, de novo, "os filhos de Israel fizeram o que parecia mal aos olhos do Senhor, e o Senhor os deu na mão dos midianitas". Até ali a mão do opressor não havia caído senão levemente sobre as tribos que moravam ao este do Jordão; mas na presente calamidade foram os primeiros a sofrer.

Os amalequitas ao sul de Canaã, bem como os midianitas na sua fronteira oriental e nos desertos além, eram ainda os implacáveis inimigos de Israel. Esta última nação havia sido quase destruída pelos israelitas nos dias de Moisés; mas desde então

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aumentaram grandemente, e se tornaram numerosos e poderosos. Tinham tido sede de vingança; e agora que a mão protetora de Deus se retirara de Israel, chegara a oportunidade. Não somente as tribos ao este do Jordão, mas todo o país sofreu com suas devastações. Os habitantes selvagens e cruéis do deserto, numerosos "como gafanhotos" (Juí. 6:5), vinham como enxame sobre a terra, com seus rebanhos e gado. Como uma praga devoradora, espalhavam-se pelo país, desde o rio Jordão até à planície filistéia. Vinham logo que as searas começavam a amadurecer e ficavam até que os últimos frutos da terra fossem colhidos. Despojavam os campos de seus produtos, e roubavam e maltratavam os habitantes; e então voltavam aos desertos. Assim os israelitas que moravam em território aberto eram obrigados a abandonar suas casas, e a congregar-se nas cidades muradas, a fim de procurar refúgio nas fortalezas, e mesmo a encontrar abrigo nas cavernas e no recesso das rochas, entre as montanhas. Por sete anos continuou esta opressão, e então, como o povo em sua angústia atendesse à reprovação do Senhor, e confessasse seus pecados, Deus levantou de novo um auxiliador para eles. Gideão era filho de Joás, da tribo de Manassés. A divisão a que esta família pertencia não mantinha posição de destaque, mas a casa de Joás distinguia-se pela coragem e integridade. Quanto a seus valorosos filhos é dito: "Cada um ao parecer, como filhos de um rei." Juí. 8:18. Todos, com exceção de um, haviam tombado nas lutas contra os midianitas, e ele fizera com que seu nome fosse temido pelos invasores. A Gideão veio o chamado divino para libertar seu povo. Estava ocupado na ocasião a trilhar o trigo. Uma pequena quantidade deste cereal fora escondida, e, não ousando ele batê-lo na eira comum, recorrera a um local próximo do lagar; pois, estando ainda longe o tempo do amadurecimento das uvas, pouca observação se dava agora às vinhas. Enquanto Gideão trabalhava em segredo e silêncio, meditava com tristeza na condição de Israel, e considerava como o jugo do opressor poderia ser quebrado de seu povo.

Subitamente o "anjo do Senhor" apareceu, e a ele se dirigiu com estas palavras: "O Senhor é contigo, varão valoroso."

"Ai, Senhor meu", foi a resposta, "se o Senhor é conosco, por que tudo isto nos sobreveio? e que é feito de todas as Suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Pág. 547

Senhor subir do Egito? Porém agora o Senhor nos desamparou, e nos deu na mão dos midianitas." O mensageiro do Céu replicou: "Vai nesta tua força, e livrarás Israel da mão dos midianitas; porventura não te enviei Eu?"

Gideão desejou algum sinal de que Aquele que agora Se lhe dirigia era o Anjo do Concerto, que, nos tempos passados, havia agido em prol de Israel. Anjos de Deus, que tiveram comunhão com Abraão, demoraram-se certa vez em sua casa a fim de participar de sua hospitalidade; e Gideão agora roga ao Mensageiro divino que fique como o seu hóspede. Indo apressadamente à sua tenda, preparou de seu escasso suprimento um cabrito e bolos asmos, que trouxe e pôs diante dEle. Mas o Anjo ordenou-lhe: "Toma a carne e os bolos asmos, e põe-os sobre esta penha e verte o caldo." Assim fez Gideão, e então foi dado o sinal que ele desejara: com o cajado que tinha na mão o Anjo tocou a carne e os bolos asmos, e uma chama que irrompeu da pedra consumiu o sacrifício. Então o Anjo desapareceu de sua vista.

O pai de Gideão, Joás, que partilhava da apostasia de seus patrícios, construíra em Ofra, onde morava, um grande altar a Baal, junto ao qual o povo da cidade adorava. Foi ordenado a Gideão destruir este altar, e erguer um altar a Jeová, sobre a rocha em que a oferta fora consumida, e ali apresentar um sacrifício ao Senhor. A oferta de sacrifício a Deus fora confiada aos sacerdotes, e se restringira ao altar em Silo; mas Aquele que estabelecera o culto ritual e para quem todas as ofertas daquele culto apontavam, tinha poder para mudar as estipulações do mesmo. O livramento de Israel deveria ser precedido por um protesto solene contra o culto de Baal. Gideão devia declarar guerra contra a idolatria, antes de sair para batalhar com os inimigos de seu povo. A determinação divina foi fielmente posta em prática. Sabendo Gideão que encontraria oposição se aquilo fosse tentado abertamente, levou a efeito o trabalho em segredo; com auxílio de seus servos, fez tudo em uma noite. Grande foi a raiva dos homens de Ofra ao virem eles, na manhã seguinte, a prestar suas devoções a Baal. Teriam tirado a vida de Gideão, caso não houvesse Joás (a quem havia sido referida a visita do Anjo) tomado a defesa de seu filho. "Contendereis vós por Baal?" disse Joás. "Livrá-lo-eis vós? Qualquer que por ele contender ainda esta manhã será morto; se é deus, por si mesmo contenda; pois derribaram o

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seu altar." Se Baal não podia defender seu próprio altar, como se poderia confiar que ele protegesse seus adoradores?

Todos os pensamentos de violência para com Gideão se dissiparam; e, quando ele fez soar a trombeta de guerra, os homens de Ofra acharam-se entre os primeiros a reunir-se sob sua bandeira. Arautos foram expedidos à sua própria tribo de Manassés e também para Aser, Zebulom e Naftali, e todos corresponderam ao chamado.

Gideão não ousou colocar-se à frente do exército sem ainda novas provas de que Deus o chamara para este trabalho, e de que seria com ele. Ele orou: "Se hás de livrar a Israel por minha mão, como tens dito, eis que eu porei um velo de lã na eira; se o orvalho estiver somente no velo, e secura sobre toda a terra, então conhecerei que hás de livrar a Israel por minha mão como tens dito." Pela manhã, o velo estava úmido, enquanto a terra estava seca. Mas então surgiu uma dúvida, visto que a lã naturalmente absorve a umidade quando há alguma no ar; a prova não poderia ser decisiva. Daí o pedir ele que o sinal fosse invertido, rogando que sua extrema precaução não desagradasse ao Senhor. Seu pedido foi satisfeito.

Assim encorajado, Gideão guiou suas forças a dar combate aos invasores. "Todos os midianitas e amalequitas, e os filhos do oriente se ajuntaram num corpo, e passaram, e puseram o seu campo no vale de Jezreel." A força total sob o comando de Gideão contava apenas trinta e dois mil homens; mas, com o vasto exército dos inimigos estendendo-se diante dele, veio-lhe a palavra do Senhor: "Muito é o povo que está contigo, para Eu dar aos midianitas em sua mão; a fim de que Israel se não glorie contra Mim, dizendo: A minha mão me livrou. Agora pois apregoa aos ouvidos do povo, dizendo: Quem for covarde e medroso, volte, e vá-se apressadamente das montanhas de Gileade." Aqueles que não estavam dispostos a enfrentar perigos e dificuldades, ou cujos interesses mundanos atraíam da obra de Deus seu coração, não acrescentariam força aos exércitos de Israel. Sua presença mostrar-se-ia apenas uma causa de fraqueza.

Estabelecera-se como lei de Israel que, antes de irem à guerra, se fizesse a seguinte proclamação em todo o exército: "Qual é o homem que edificou casa nova e ainda a não consagrou? vá, e torne-se à sua casa, para que porventura não morra na peleja e algum outro a consagre. E qual é o homem que plantou uma vinha e ainda não logrou fruto dela? vá, e torne-se à sua casa, Pág. 549

para que porventura não morra na peleja e algum outro o logre. E qual é o homem que está desposado com alguma mulher e ainda a não recebeu? vá, e torne-se à sua casa, para que porventura não morra na peleja e algum outro homem a receba." E os oficiais deviam falar ainda ao povo, dizendo: "Qual é o homem medroso, e de coração tímido? vá, e torne-se à sua casa, para que o coração de seus irmãos se não derreta como o seu coração." Deut. 20:5-8.

Pelo fato de seu exército ser tão pequeno em comparação com o do inimigo, Gideão se abstivera de fazer a proclamação usual. Ficou surpreso com a declaração de que seu exército era por demais grande. Mas o Senhor via o orgulho e a incredulidade que existiam no coração de Seu povo. Despertos pelos apelos estimulantes de Gideão, alistaram-se com prontidão; mas muitos ficaram cheios de medo quando viram as multidões dos midianitas. Entretanto, caso houvesse Israel triunfado, esses mesmos teriam tomado a glória para si próprios, em vez de atribuírem a vitória a Deus. Gideão obedeceu à determinação do Senhor, e com coração pesaroso viu vinte e dois mil, ou mais de dois terços de sua força total, partirem para casa. De novo veio a ele a palavra do Senhor: "Ainda muito povo há; faze-os descer às águas, e ali tos provarei; e será que, aquele de que Eu te disser: Este irá contigo, esse contigo irá; porém todo aquele, de que Eu te disser: Esse não irá contigo, esse não irá." O povo foi levado ao lado da água, na expectativa de fazer um avanço imediato ao inimigo. Alguns apressadamente tomaram um pouco de água na mão e a beberam enquanto andavam; mas quase todos se curvaram sobre os joelhos e comodamente beberam da superfície da corrente. Os que tomaram água com as mãos foram apenas trezentos dentre os dez mil; todavia estes foram escolhidos; a todo o resto foi permitido voltar para casa.

O caráter muitas vezes é provado pelo meio mais simples. Aqueles que em tempo de perigo estavam preocupados com suprir suas necessidades, não eram os homens em quem se poderia confiar em uma emergência. O Senhor não tem lugar em Sua obra para os indolentes e condescendentes consigo mesmos. Os homens de Sua escolha foram os poucos que não permitiram que suas necessidades os detivessem no desempenho do dever. Os trezentos homens escolhidos não somente possuíam coragem e domínio próprio, mas eram homens de fé. Não se haviam contaminado com Pág. 550

a idolatria. Deus os poderia dirigir, e por meio deles operar o livramento para Israel. O êxito não depende do número. Deus pode livrar tanto com poucos como com muitos. Ele é honrado nem tanto pelo grande número como pelo caráter daqueles que O servem. Os israelitas estavam estacionados no cume de uma colina sobranceira ao vale em que se acampavam as hostes dos invasores. "E os midianitas, e amalequitas, e todos os filhos do oriente jaziam no vale como gafanhotos em multidão; e eram inumeráveis os seus camelos, como a areia que há na praia do mar em multidão." Juí. 7:12. Gideão tremeu ao pensar no conflito do dia seguinte. Mas o Senhor falou-lhe à noite, e ordenou-lhe que, juntamente com Pura, seu auxiliar, descesse ao acampamento dos midianitas, dando a entender que ali ele ouviria algo para a sua animação. Ele foi, e esperando nas trevas e silêncio, ouviu um soldado relatar um sonho a seu companheiro: "Eis que um pão de cevada torrado rodava pelo arraial dos midianitas, e chegava até às tendas, e as feriu, e caíram, e as transtornou de cima para baixo; e ficaram abatidas." O outro respondeu com palavras que agitaram o coração do ouvinte invisível: "Não é isto outra coisa, senão a espada de Gideão, filho de Joás, varão israelita. Deus tem dado na sua mão aos midianitas, e a todo este arraial." Gideão reconheceu a voz de Deus falando-lhe por meio desses estrangeiros midianitas. Voltando aos poucos homens ao seu comando, disse: "Levantai-vos, porque o Senhor tem dado o arraial dos midianitas nas vossas mãos." Por direção divina foi-lhe sugerido um plano de ataque, o qual imediatamente ele se pôs a executar. Os trezentos homens foram divididos em três companhias. A cada homem foi dada uma trombeta, e um archote escondido em um cântaro de barro. Os homens foram estacionados de tal maneira que se aproximassem do arraial midianita de diferentes direções. Tarde da noite, a um sinal da corneta de guerra de Gideão, as três companhias soaram suas trombetas; então, quebrando os cântaros, e ostentando os fachos luzentes, precipitaram-se sobre o inimigo com o terrível grito de guerra: "Espada do Senhor, e de Gideão."

O exército, que dormia, despertou subitamente. De todos os lados via-se a luz dos archotes em chamas. Em todas as direções ouvia-se o som das trombetas, com o clamor dos assaltantes. Julgando-se sob o ataque de uma força esmagadora, os midianitas ficaram tomados de pânico. Com gritos selvagens de espanto

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fugiram para salvar a vida, e, tomando seus próprios companheiros como inimigos, mataram-se uns aos outros. Espalhando-se a notícia da vitória, milhares de homens de Israel que haviam sido despedidos para suas casas, voltaram, e uniram-se em perseguição do inimigo que fugia. Os midianitas se encaminhavam para o Jordão, esperando atingir seu próprio território além do rio. Gideão enviou mensageiros à tribo de Efraim, incitando-os a interceptarem aos fugitivos a passagem para os vaus do sul. Nesse ínterim, com seus trezentos, "cansados, mas ainda perseguindo", Gideão atravessou o rio, logo após aqueles que já haviam ganho a margem oposta. Os dois príncipes, Zeba e Salmuna, que haviam estado no comando de todo o exército, e que escaparam com uma força de quinze mil homens, foram surpreendidos por Gideão, sendo essa força completamente dispersa, e os chefes capturados e mortos.

Nesta formidável derrota, pereceram nada menos de cento e vinte mil dos invasores. Quebrou-se o poder dos midianitas, de modo que nunca mais puderam fazer guerra contra Israel. As notícias espalharam-se rapidamente por longe e perto, de que o Deus de Israel de novo combatera por Seu povo. Palavra alguma pode descrever o terror das nações circunvizinhas, quando souberam quão simples meio prevalecera contra o poder de um povo ousado e guerreiro. O dirigente a quem Deus escolhera para subverter os midianitas, não ocupava posição preeminente em Israel. Não era príncipe, sacerdote, nem levita. Julgava-se o menor na casa de seu pai. Mas Deus viu nele um homem de coragem e integridade. Não confiava em si próprio, e queria seguir a direção do Senhor. Deus nem sempre escolhe para a Sua obra homens dos maiores talentos; antes escolhe os que melhor pode usar. "Diante da honra vai a humildade." Prov. 15:33. O Senhor pode operar com mais eficácia por meio daqueles que se acham mais cônscios de sua própria insuficiência, e que confiarão nEle como seu dirigente e fonte de poder. Ele os tornará fortes, unindo sua fraqueza ao Seu poder, e sábios ligando sua ignorância à Sua sabedoria.

O Senhor poderia fazer muito mais por Seu povo, se este acalentasse a verdadeira humildade; mas poucos há a quem possa ser confiada grande medida de responsabilidade ou êxito, sem que se tornem confiantes em si mesmos e esquecidos de sua dependência de Deus. É por isto que, ao escolher os instrumentos

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para Sua obra, o Senhor despreza aqueles que o mundo honra como grandes, talentosos e brilhantes. Estes muitas vezes são orgulhosos e confiantes em sua própria competência. Acham-se capazes de agir sem o conselho de Deus.

O simples ato de fazer soar a trombeta, pelo exército de Josué, à roda de Jericó, bem como pelo pequeno grupo de Gideão, em redor das hostes de Midiã, foi eficaz pelo poder de Deus para transtornar a força de seus inimigos. O plano mais completo que tenham os homens imaginado, independente do poder e sabedoria de Deus, mostrar-se-á um fracasso, ao passo que os métodos menos promissores terão êxito se forem divinamente indicados, e executados com humildade e fé. A confiança em Deus e a obediência à Sua vontade são tão necessárias ao cristão na luta espiritual como a Gideão e a Josué nos seus combates com os cananeus. Pelas repetidas manifestações de Seu poder em prol de Israel, queria Deus levá-los a ter fé nEle - a fim de buscarem Seu auxílio, com toda a confiança, em todas as emergências. Ele está precisamente tão disposto a agir pelos esforços de Seu povo, hoje, e realizar grandes coisas por meio de fracas instrumentalidades. O Céu todo aguarda o nosso pedido de Sua sabedoria e força. Deus é "poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos". Efés. 3:20.

Gideão voltou da perseguição aos inimigos da nação para encontrar censura e acusação por parte de seus próprios compatriotas. Quando ao seu chamado os homens de Israel foram arregimentados contra os midianitas, a tribo de Efraim ficara atrás. Consideravam aquele esforço como uma ação perigosa; e, como Gideão não lhes fizesse uma convocação especial, aproveitaram-se desta desculpa para não se unirem a seus irmãos. Mas, quando a notícia da vitória de Israel chegou a eles, os efraimitas ficaram com ciúmes, porque não haviam participado da mesma. Depois da derrota dos midianitas, os homens de Efraim haviam por determinação de Gideão se apoderado dos vaus do Jordão, impedindo assim a escapada dos fugitivos. Por este meio grande número de inimigos foram mortos, entre os quais estavam dois príncipes, Orebe e Zeebe. Assim, os homens de Efraim acompanharam o combate e auxiliaram na completa vitória. Não obstante, ficaram com inveja e irados, como se Gideão fora levado pela sua própria vontade e juízo. Não discerniram a mão de Deus na vitória de Israel, não apreciaram Seu poder e misericórdia no

Continuar: parte 2 de 3