Patriarcas e Profetas
O Primeiro Rei de Israel
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
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O governo de Israel era administrado em nome e pela autoridade de Deus. O trabalho de Moisés, o dos setenta anciãos, dos príncipes e juízes, era simplesmente pôr em execução as leis que Deus dera; não tinham eles autoridade para legislar para a nação. Esta foi, e continuou a ser a condição da existência de Israel como nação. De tempos em tempos homens inspirados por Deus eram enviados para instruírem o povo, e guiá-lo na execução das leis.
O Senhor previu que Israel desejaria um rei, mas não consentiu em uma mudança nos princípios sobre os quais foi fundado o Estado. O rei devia ser representante do Altíssimo. Deus devia ser reconhecido como o Líder da nação, e Sua lei executada como a lei suprema do país. Quando, inicialmente, os israelitas se estabeleceram em Canaã, reconheciam os princípios da teocracia, e a nação prosperou sob o governo de Josué. Mas o aumento da população e o intercâmbio com outras nações acarretaram uma mudança. O povo adotou muitos dos costumes dos seus vizinhos gentílicos, e assim sacrificou, em grande proporção, seu próprio caráter peculiar e santo. Gradualmente perderam sua reverência para com Deus, e deixaram de apreciar a honra de ser Seu povo escolhido. Atraídos pela pompa e ostentação dos reis gentílicos, cansaram-se de sua própria simplicidade. Rivalidades e inveja surgiram entre as tribos. Dissensões internas debilitaram-nas; estavam continuamente expostas à invasão de seus adversários gentios, e o povo começava a crer que, a fim de manter sua posição entre as nações, deveriam as tribos unir-se sob um forte governo central. Afastando-se da obediência à lei de Deus, desejaram libertar-se do governo de seu divino Soberano; e assim o pedido para terem um rei generalizou-se por todo o Israel. Desde os dias de Josué o governo nunca fora dirigido com tão grande sabedoria e êxito como sob a administração de Samuel.
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Investido divinamente com a tríplice função de juiz, profeta e sacerdote, trabalhara ele com incansável e desinteressado zelo pelo bem-estar de seu povo, e a nação prosperara sob sua sábia administração. A ordem havia sido restabelecida, promovida a piedade, e o espírito de descontentamento impedido durante aquele tempo. Mas, com o avançar dos anos, o profeta foi obrigado a repartir com outros os cuidados do governo, e ele designou seus dois filhos para agirem como seus auxiliares. Enquanto Samuel continuava com os deveres de seu ofício em Ramá, os moços se localizaram em Berseba para administrarem a justiça entre o povo, próximo da fronteira sul do país. Foi com inteiro apoio da nação que Samuel designara seus filhos para o ofício; mas eles não se mostraram dignos da escolha de seu pai. Havia o Senhor, por meio de Moisés, dado instruções especiais a Seu povo, a fim de que os príncipes de Israel julgassem retamente, tratassem com justiça da viúva e do órfão, e não recebessem suborno. Mas os filhos de Samuel "se inclinaram à avareza, e tomaram presentes, e perverteram o juízo". Os filhos do profeta não atenderam aos preceitos que ele procurara gravar em suas mentes. Não imitaram a vida pura e abnegada de seu pai. A advertência feita a Eli não exercera sobre a mente de Samuel a influência que deveria ter exercido. Ele fora até certo ponto demasiado condescendente com seus filhos, e o resultado foi visível no caráter e na vida deles. A injustiça desses juízes causava muito descontentamento, e forneceu-se assim um pretexto para se insistir na mudança que havia muito era secretamente desejada. "Todos os anciãos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá, e disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos. Constitui-nos, pois, agora um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações." I Sam. 8:3-5. Os casos de abusos praticados entre o povo não foram referidos a Samuel. Houvesse se tornado conhecida dele a má conduta de seus filhos, e ele os teria retirado sem demora; mas isto não era o que os suplicantes desejavam. Samuel viu que o seu objetivo real era o descontentamento e o orgulho, e que seu pedido era o resultado de um propósito deliberado e decidido. Nenhuma queixa fora feita contra Samuel. Todos reconheciam a integridade e sabedoria de sua administração; mas o idoso profeta considerou o pedido como uma censura a si, e um esforço direto para o pôr de parte. Não revelou, entretanto, os seus sentimentos; não Pág. 605
proferiu qualquer exprobração, mas levou a questão ao Senhor em oração, e apenas dEle procurou conselho.
E o Senhor disse a Samuel: "Ouve a voz do povo em tudo quanto te disserem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a Mim Me têm rejeitado para Eu não reinar sobre eles. Conforme a todas as obras que fizeram desde o dia em que os tirei do Egito até ao dia de hoje, pois a Mim Me deixaram, e a outros deuses serviram, assim também te fizeram a ti." I Sam. 8:7 e 8. O profeta foi reprovado por ofender-se com a conduta do povo em relação a si, individualmente. Não haviam manifestado desrespeito para com ele, mas para com a autoridade de Deus, que havia designado os príncipes de Seu povo. Aqueles que desprezam e rejeitam o fiel servo de Deus, mostram desdém, não meramente ao homem, mas ao Senhor que o enviou. São as palavras de Deus, Suas reprovações e conselhos, o que é anulado; é Sua autoridade que é rejeitada.
Os dias da máxima prosperidade de Israel foram aqueles em que reconheciam a Jeová como seu Rei - em que as leis e governo que tinham sido estabelecidos eram considerados como superiores aos de todas as outras nações. Moisés declarara a Israel com relação aos mandamentos de Deus: "Esta será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo só é gente sábia e entendida." Deut. 4:6. Mas, afastando-se da lei de Deus, os hebreus deixaram de se tornar o povo que Deus desejava fazer deles, e então todos os males que foram o resultado de seu próprio pecado e desatino atribuíram ao governo de Deus. Tão completamente cegos se haviam tornado pelo pecado. Tinha o Senhor, mediante os Seus profetas, predito que Israel seria governado por um rei; mas não se segue que esta forma de governo fosse a melhor para eles, ou de acordo com Sua vontade. Ele permitiu que o povo seguisse sua própria escolha, porque se recusaram a ser guiados por Seu conselho. Oséias declara que Deus lhes deu um rei em Sua ira. Osé. 13:11. Quando os homens preferem seguir o seu próprio caminho, sem buscar conselho de Deus, ou em oposição à Sua vontade revelada, muitas vezes Ele satisfaz seus desejos, a fim de que, por meio da amarga experiência que se segue, possam ser levados a compenetrar-se de sua loucura e a arrepender-se de seu pecado. O orgulho e
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a sabedoria humana demonstrar-se-ão um guia perigoso. Aquilo que o coração deseja contrário à vontade de Deus, verificar-se-á, no fim, que é uma maldição em vez de bênção. Deus desejava que Seu povo apenas olhasse para Ele como seu legislador e fonte de força. Sentindo sua dependência de Deus, seriam constantemente atraídos para mais perto dEle. Tornar-se-iam elevados e enobrecidos, adaptados ao alto destino a que Ele os chamara como Seu povo escolhido. Mas, quando fosse posto sobre o trono um homem, isto tenderia a desviar de Deus a mente do povo. Eles confiariam mais na força humana, e menos no poder divino, e os erros de seu rei levá-los-iam ao pecado, e separariam a nação de Deus.
Samuel foi instruído a satisfazer o pedido do povo, mas adverti-los da desaprovação do Senhor, e também dar a conhecer qual seria o resultado de sua conduta. "E falou Samuel todas as palavras do Senhor ao povo, que lhe pedia um rei." Expôs-lhes fielmente os encargos que seriam postos sobre eles, e mostrou o contraste entre tal estado de opressão e sua condição presente, relativamente livre e próspera. Seu rei imitaria de outros a pompa e o luxo, para sustentar os quais seriam necessários pesados impostos sobre suas pessoas e propriedades. O que melhor havia de entre seus moços ele exigiria para o seu serviço. Tornar-se-iam cocheiros, cavaleiros e batedores diante dele. Deveriam preencher as fileiras de seu exército, e exigir-se-lhes-ia cultivar seus campos, ceifar suas plantações, e fabricar implementos de guerra para o seu serviço. As filhas de Israel seriam tomadas como confeiteiras e padeiras para a casa real. Para manter sua condição régia, apoderar-se-ia do melhor de suas terras, concedidas ao povo pelo próprio Jeová. Os mais valiosos de seus servos, igualmente, e de seu gado, ele tomaria e os empregaria "no seu trabalho". Além de tudo isto o rei exigiria um dízimo de toda a sua receita, dos lucros de seu trabalho, ou dos produtos do solo. "Vós lhe servireis de criados", concluiu o profeta. "Então naquele dia clamareis por causa de vosso rei, que vós houverdes escolhido; mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia." I Sam. 8:10-18. Por mais pesadas que se achassem suas exigências, uma vez estabelecida a monarquia, não a poderiam eles depor à vontade. Pág. 607
Mas o povo deu a resposta: "Não, mas haverá sobre nós um rei. E nós também seremos como todas as outras nações; e o nosso rei nos julgará, e sairá adiante de nós, e fará as nossas guerras."
"Como todas as outras nações." I Sam. 8:19 e 20. Os israelitas não compreendiam que serem neste sentido diferentes de outras nações era um privilégio e bênção especiais. Deus havia separado os israelitas de todos os outros povos, para deles fazer Seu tesouro peculiar. Eles, porém, não tomando em consideração esta alta honra, desejaram avidamente imitar o exemplo dos gentios! E ainda o anelo de conformar-se às práticas e costumes mundanos existe entre o povo professo de Deus. Afastando-se eles do Senhor, tornam-se ambiciosos dos proveitos e honras do mundo. Cristãos acham-se constantemente procurando imitar as práticas dos que adoram o deus deste mundo. Muitos insistem em que, unindo-se aos mundanos e conformando-se aos seus costumes, poderiam exercer uma influência mais forte sobre os ímpios. Mas todos os que adotam tal método de proceder, separam-se desta maneira da Fonte de sua força. Tornando-se amigos do mundo, são inimigos de Deus. Por amor à distinção terrestre, sacrificam a indizível honra a que Deus os chamou, honra esta de mostrarem os louvores dAquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz. I Ped. 2:9. Com profunda tristeza Samuel escutou as palavras do povo; mas o Senhor lhe disse: "Dá ouvidos à sua voz, e constitui-lhes rei." I Sam. 8:22. O profeta cumprira o seu dever. Apresentara fielmente o aviso, e este fora rejeitado. Com pesaroso coração despediu o povo, e retirou-se a fim de preparar a grande mudança no governo.
A vida de pureza e devoção abnegada de Samuel era uma repreensão perpétua tanto para os sacerdotes e anciãos que só cuidavam de si, como para a congregação de Israel, orgulhosa e sensual. Embora não exibisse pompa nem fizesse ostentação, seus labores traziam o cunho do Céu. Ele foi honrado pelo Redentor do mundo, sob cuja guia governou a nação hebréia. Mas o povo se cansara de sua piedade e devoção; desprezaram sua humilde autoridade, e o rejeitaram preferindo um homem que os governasse como rei.
No caráter de Samuel vemos refletida a semelhança de Cristo. Foi a pureza da vida do Salvador que provocou a ira de Satanás. Aquela vida era a luz do mundo, e revelava a depravação Pág. 608 oculta no coração dos homens. Foi a santidade de Cristo que suscitou contra Ele as mais cruéis paixões dos que com um coração falso professavam a piedade. Cristo não veio com a opulência e honras da Terra; contudo as obras que realizava mostravam possuir Ele poder maior do que de qualquer príncipe humano. Os judeus esperavam que o Messias viesse a quebrar o jugo do opressor; todavia, acariciavam os pecados que lhes haviam ligado esse jugo ao pescoço. Houvesse Cristo encoberto os pecados deles e aplaudido a sua piedade, e O teriam aceito como seu rei; mas não quiseram suportar Sua destemida repreensão aos seus vícios. A beleza de um caráter em que a benevolência, a pureza e a santidade reinavam supremas, que não alimentava ódio a não ser ao pecado, eles a desprezaram. Assim tem sido em todas as épocas do mundo. A luz do Céu traz condenação sobre todos os que se recusam a andar nela. Quando repreendidos pelo exemplo daqueles que odeiam ao pecado, tornam-se os hipócritas, agentes de Satanás para afligir e perseguir os fiéis. "Todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições." II Tim. 3:12. Se bem que tivesse sido predita na profecia a forma de governo monárquica para Israel, Deus Se reservara o direito de lhes escolher o rei. Os hebreus respeitaram a autoridade de Deus até ao ponto de deixarem a seleção inteiramente com Ele. A escolha recaiu sobre Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim.
As qualidades pessoais do futuro líder eram de maneira que satisfaziam aquele orgulho íntimo que inspira o desejo de terem um rei. "Entre os filhos de Israel não havia outro homem mais belo do que ele." I Sam. 9:2. De porte nobre e digno, na flor da idade, garboso e alto, tinha ele a aparência de alguém que nascera para governar. No entanto, com tais atrações externas, Saul era desprovido daquelas qualidades mais elevadas que constituem a verdadeira sabedoria. Não tinha aprendido em sua mocidade a dominar suas paixões temerárias e impetuosas; nunca sentira o poder renovador da graça divina.
Saul era filho de um poderoso e rico chefe; todavia em conformidade com a simplicidade daqueles tempos, estava empenhado com seu pai nos humildes deveres de lavrador. Tendo-se alguns dos animais de seu pai extraviado nas montanhas, Saul foi com um servo à busca deles. Durante três dias fizeram infrutíferas buscas, quando, não estando eles longe de Ramá, a residência de Samuel, o servo propôs que indagassem
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do profeta a respeito dos animais que faltavam. "Ainda se acha na minha mão um quarto dum siclo de prata", disse ele, "o qual darei ao homem de Deus, para que nos mostre o caminho." I Sam. 9:8. Isto estava de acordo com o costume daqueles tempos. Uma pessoa que se aproximasse de um superior em posição social ou função, dava-lhe um pequeno presente, em sinal de respeito. Aproximando-se eles da cidade, encontraram-se com algumas moças que tinham vindo tirar água, e indagaram delas acerca do vidente. Em resposta souberam que uma cerimônia religiosa estava para ocorrer, que o profeta já havia chegado, que deveria haver uma oferta no "lugar alto", e depois daquilo um sacrifício. Uma grande mudança se havia realizado durante a administração de Samuel. Quando o chamado de Deus veio a princípio a ele, os serviços do santuário eram tidos em desdém. "Os homens desprezavam a oferta do Senhor." I Sam. 2:17. Agora, porém, o culto de Deus era mantido por todo o país, e o povo manifestava interesse nos serviços religiosos. Não havendo trabalhos ministeriais no tabernáculo, os sacrifícios eram naquele tempo oferecidos em outra parte; e as cidades dos sacerdotes e levitas, aonde o povo acorria a receber instrução, foram escolhidas para este fim. Os pontos mais altos nessas cidades eram usualmente escolhidos como o lugar do sacrifício, e daí o serem chamados lugares altos.
À porta da cidade, Saul foi defrontado pelo próprio profeta. Deus tinha revelado a Samuel que naquela ocasião o escolhido rei de Israel se apresentaria diante dele. Estando em face um do outro, disse o Senhor a Samuel: "Eis aqui o homem de quem já te tenho dito. Este dominará sobre o Meu povo." Ao pedido de Saul - "Mostra-me, peço-te, onde está aqui a casa do vidente", Samuel replicou: "Eu sou o vidente." Assegurando-lhe também que os animais perdidos tinham sido encontrados, insistiu com ele para que ficasse e assistisse à festa, dando ao mesmo tempo alguma indicação do grande destino que o esperava: "Para quem é todo o desejo de Israel? porventura não é para ti, e para toda a casa de teu pai?" O coração daquele que ouvia fremiu com as palavras do profeta. Não podia perceber senão algo da significação das mesmas; pois o pedido de um rei se tornara o assunto de absorvente interesse à nação inteira. Todavia, depreciando-se modestamente, Saul replicou: "Porventura não sou eu filho de Benjamim, da mais pequena das tribos de Israel? E a minha família a mais pequena de todas as famílias da tribo de Benjamim? Por que, pois, me falas com semelhantes palavras?" I Sam. 9:18-21. Samuel conduziu o estranho ao local da assembléia, onde
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estavam reunidos os homens principais da cidade. Entre eles, por determinação do profeta, o lugar de honra foi dado a Saul, e no festim o quinhão mais escolhido foi posto diante dele. Terminadas as cerimônias, Samuel levou o hóspede à sua casa, e ali, no eirado, conversou com ele, apresentando os grandes princípios sobre os quais o governo de Israel fora estabelecido, e procurando assim prepará-lo até certo ponto para o seu elevado cargo.
Quando Saul partiu, cedo na manhã seguinte, o profeta saiu com ele. Tendo atravessado a cidade, mandou que o servo passasse adiante. Então ordenou a Saul que parasse a fim de receber uma mensagem a ele enviada por Deus. "Então tomou Samuel um vaso de azeite, e lho derramou sobre a cabeça, e o beijou, e disse: Porventura te não tem ungido o Senhor por capitão sobre a Sua herdade?" Como prova de que isto era feito por autorização divina, predisse os incidentes que ocorreriam em sua viagem para casa, e afirmou a Saul que ele seria habilitado pelo Espírito de Deus para o cargo que o esperava. "O Espírito do Senhor se apoderará de ti", disse o profeta, "e te mudarás em outro homem. E há de ser que, quando estes sinais te vierem, faze o que achar a tua mão, porque Deus é contigo." Tendo seguido Saul o seu caminho, tudo aconteceu conforme dissera o profeta. Perto dos termos de Benjamim foi informado de que os animais perdidos tinham sido achados. Na planície de Tabor encontrou três homens que iam adorar a Deus em Betel. Um deles levava três cabritos para o sacrifício, outro três pães, e o terceiro um odre de vinho, para a festa sacrifical. Fizeram a Saul a saudação usual, e também o presentearam com dois dos três pães. Em Gibeá, sua cidade, um grupo de profetas, voltando do "lugar alto", cantavam o louvor de Deus, com música de flautas e harpas, saltérios e tambores. Aproximando-se Saul deles, sobreveio-lhe o Espírito do Senhor e ele também tomou parte em seu cântico de louvor, e com eles profetizou. Falou com tão grande influência e sabedoria, e com tanto fervor se uniu ao culto, que aqueles que o conheciam exclamaram com espanto: "Que é o que sucedeu ao filho de Quis? Está também Saul entre os profetas?" I Sam. 10:1-11. Tendo-se unido Saul com os profetas em seu culto, uma grande mudança operou-se nele pelo Espírito Santo. A luz da pureza e santidade divinas resplandeceu nas trevas do coração natural. Ele viu a si mesmo como estava diante de Deus. Viu a beleza da santidade. Foi agora chamado para começar a luta contra o pecado e Satanás, e fez-se-lhe compreender que neste conflito sua Pág. 611
força deveria vir inteiramente de Deus. O plano da salvação que antes parecera obscuro e incerto, desvendou-se-lhe ao entendimento. O Senhor dotou-o de coragem e sabedoria para o seu elevado cargo. Revelou-lhe a fonte de força e graça, iluminando-lhe o entendimento quanto às exigências divinas e ao seu próprio dever.
A unção de Saul como rei não fora levada ao conhecimento da nação. A escolha de Deus deveria ser publicamente manifesta por meio de sorte. Para tal fim Samuel convocou o povo de Mispa. Foi feita oração rogando-se guia divina; então seguiu-se a solene cerimônia de lançar a sorte. Em silêncio a multidão congregada aguardava o resultado. A tribo, a família e a casa foram sucessivamente designadas, e então Saul, o filho de Quis, foi indicado como o indivíduo escolhido. Mas Saul não estava na assembléia. Oprimido com uma intuição da grande responsabilidade prestes a cair sobre ele, retirara-se secretamente. Foi de novo trazido à congregação, que observou com orgulho e satisfação ter ele porte real e formas nobres, sendo "mais alto do que todo o povo desde o ombro para cima". Mesmo Samuel, quando o apresentou à assembléia, exclamou: "Vedes já a quem o Senhor tem elegido? pois em todo o povo não há nenhum semelhante a ele." E em resposta surgiu da vasta multidão uma demorada e ruidosa aclamação de alegria: "Viva o rei!" Samuel então expôs ao povo "o direito do reino" (I Sam. 10:23-25), declarando os princípios sobre os quais o governo monárquico se baseava, e pelos quais cumpria ser dirigido. O rei não deveria agir de forma absoluta, mas conservar seu poder em sujeição à vontade do Altíssimo. Este discurso foi registrado em um livro, no qual se estabeleciam as prerrogativas do príncipe e os direitos e privilégios do povo. Embora a nação houvesse desprezado a advertência de Samuel, o fiel profeta - conquanto forçado a ceder aos seus desejos - ainda se esforçou tanto quanto possível para acautelar as suas liberdades.
Ao mesmo tempo em que o povo em geral estava pronto para reconhecer a Saul como seu rei, havia um grande partido em oposição. Ser escolhido um rei de Benjamim, a menor das tribos de Israel, e isto em detrimento tanto de Judá como de Efraim, as maiores e mais poderosas - era uma indiferença que não podiam tolerar. Recusaram-se a declarar submissão a Saul, ou trazer-lhe os presentes costumeiros. Os que foram os mais insistentes em seu pedido para terem um rei, eram os mesmos que se recusavam
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aceitar com gratidão o homem indicado por Deus. Os membros de cada facção tinham seu favorito, que desejavam ver colocado sobre o trono; e vários dentre os chefes haviam desejado a honra para si. A inveja e a desconfiança ardiam no coração de muitos. Os esforços do orgulho e da ambição haviam resultado na decepção e no desencanto.
Neste estado de coisas, Saul não achou conveniente assumir a dignidade real. Deixando que Samuel administrasse o governo, como anteriormente, voltou a Gibeá. Foi honrosamente escoltado para ali por uma multidão, que, vendo a escolha divina em sua seleção, estava decidida a apoiá-lo. Mas ele não fez tentativas para manter pela força seu direito ao trono. Em seu lar, entre as terras altas de Benjamim, pacificamente ocupou-se com os deveres de lavrador, deixando inteiramente a Deus o estabelecimento de sua autoridade.
Logo depois da designação de Saul, os amonitas sob a administração de seu rei, Naás, invadiram o território das tribos ao oriente do Jordão, e ameaçaram a cidade de Jabes-Gileade. Os habitantes procuraram negociar a paz, oferecendo-se para se fazerem tributários dos amonitas. Com isto o cruel rei não quis consentir a não ser sob condição de poder arrancar o olho direito de cada um deles, tornando-os assim testemunhas duradouras de seu poder. O povo da cidade sitiada pediu um prazo de sete dias. Com isto consentiram os amonitas, julgando assim aumentar a honra de seu esperado triunfo. Imediatamente foram expedidos de Jabes mensageiros, em busca de auxílio das tribos ao oeste do Jordão. Levaram a notícia a Gibeá, suscitando terror em vasta região. Saul, voltando à noite de acompanhar os bois no campo, ouviu o alto pranto que falava de alguma grande calamidade. Perguntou: "Que tem o povo, que chora?" Quando lhe foi repetida a vergonhosa história, despertaram-se todas as suas forças dormentes. "O Espírito de Deus Se apoderou de Saul. ... E tomou um par de bois, e cortou-os em pedaços, e os enviou a todos os termos de Israel pelas mãos dos mensageiros, dizendo: Qualquer que não sair atrás de Saul e atrás de Samuel, assim se fará aos seus bois." I Sam. 11:5-7.
Trezentos e trinta mil homens se reuniram na planície de Bezeque, sob o comando de Saul. Imediatamente foram enviados mensageiros à cidade sitiada, com a afirmação de que poderiam esperar auxílio no dia seguinte, que era o próprio dia em que
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deveriam submeter-se aos amonitas. Por meio de uma rápida marcha noturna, Saul e seu exército atravessaram o Jordão, e chegaram diante de Jabes "pela vigília da manhã". Como Gideão, dividindo sua força em três companhias, caiu sobre o arraial dos amonitas naquela hora matutina, quando, não suspeitando perigo, estavam menos prevenidos. No pânico que se seguiu foram derrotados, com grande mortandade. E "os restantes se espalharam, que não ficaram dois deles juntos". I Sam. 11:11. A prontidão e bravura de Saul, bem como suas aptidões de general ostentadas ao conduzir com êxito uma força tão grande, eram qualidades que o povo de Israel desejara em um rei, a fim de que pudessem competir com outras nações. Saudaram-no agora como seu rei atribuindo a honra da vitória a forças humanas, e esquecendo-se de que, sem a bênção especial de Deus, todos os seus esforços teriam sido nulos. Em seu entusiasmo propuseram alguns matar os que se tinham a princípio recusado a reconhecer a autoridade de Saul. Mas o rei interveio, dizendo: "Hoje não morrerá nenhum, pois hoje tem obrado o Senhor um livramento em Israel." Aqui deu Saul prova da mudança que se tinha operado em seu caráter. Em vez de tomar para si a honra, deu glória a Deus. Em vez de mostrar desejo de vingança, manifestou um espírito de compaixão e perdão. Isto é prova inequívoca de que a graça de Deus habita no coração.
Samuel propôs então que uma assembléia nacional fosse convocada em Gilgal, a fim de que o reino pudesse ali ser publicamente confirmado a Saul. Isto foi feito; "e ofereceram ali ofertas pacíficas perante o Senhor; e Saul se alegrou muito ali com todos os homens de Israel". I Sam. 11:13 e 15. Gilgal tinha sido o local do primeiro acampamento de Israel na Terra Prometida. Foi ali que Josué, por determinação divina, construiu uma coluna de doze pedras para comemorar a miraculosa passagem do Jordão. Ali fora renovada a circuncisão. Ali celebraram a primeira Páscoa, depois do pecado de Cades, e da peregrinação no deserto. Ali cessou o maná. Ali o Capitão do exército do Senhor Se revelou como comandante-em-chefe das tropas de Israel. Daquele ponto marcharam para a subversão de Jericó e conquista de Ai. Ali Acã recebeu a pena de seu pecado, e ali foi feito com os gibeonitas aquele tratado que puniu a negligência de Israel de aconselhar-se com Deus. Nessa planície, Pág. 614 ligada com tantas lembranças comoventes, estavam em pé Samuel e Saul; e, quando cessaram as aclamações de boas-vindas ao rei, o idoso profeta proferiu suas palavras de despedida como governador da nação.
"Eis que ouvi a vossa voz", disse ele, "em tudo quanto me dissestes, e pus sobre vós um rei. Agora, pois, eis que o rei vai diante de vós, e já envelheci e encaneci, ... e eu tenho andado diante de vós desde a minha mocidade até ao dia de hoje. Eis-me aqui, testificai contra mim, perante o Senhor, e perante o Seu ungido, a quem tomei o boi, a quem tomei o jumento, e a quem defraudei, a quem tenho oprimido, e de cuja mão tenho tomado presente e com ele encobri os meus olhos, e vo-lo restituirei." A uma voz o povo respondeu: "Em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem tomaste coisa alguma da mão de ninguém." I Sam. 12:1-4.
Samuel não estava procurando meramente justificar sua conduta. Tinha previamente apresentado os princípios que deveriam governar tanto o rei como o povo, e desejava acrescentar às suas palavras o peso de seu exemplo. Desde a meninice havia estado ligado com a obra de Deus, e durante sua longa vida tivera sempre um único objetivo diante de si - a glória de Deus e o máximo bem de Israel. Antes que pudesse haver qualquer esperança de prosperidade para Israel, deveriam eles ser levados ao arrependimento diante de Deus. Em conseqüência do pecado, tinham perdido a fé em Deus e o discernimento acerca de Seu poder e sabedoria para governar a nação - perderam a confiança em Sua habilidade para reivindicar Sua causa. Antes de poderem encontrar a verdadeira paz, deveriam ser levados a ver e confessar o próprio pecado de que haviam sido culpados. Tinham declarado ser este o objetivo no pedido de um rei: "O nosso rei nos julgará, e sairá diante de nós, e fará as nossas guerras." I Sam. 8:20. Samuel contou novamente a história de Israel, desde o dia em que Deus os tirou do Egito. Jeová, o Rei dos reis, tinha ido diante deles, e pelejara suas guerras. Muitas vezes seus pecados os haviam entregue em poder de seus inimigos, mas apenas se desviavam de seus maus caminhos e a misericórdia de Deus suscitava um libertador. O Senhor enviou Gideão e Baraque, "e a Jefté, e a Samuel; e livrou-vos da mão de vossos inimigos, em redor, e habitastes seguros". Contudo, Pág. 615
quando ameaçados de perigo, declararam: "Reinará sobre nós um rei", sendo, disse o profeta, "o Senhor vosso Deus o vosso Rei".
"Agora, pois", continuou Samuel, "ponde-vos também agora aqui, vede esta grande coisa que o Senhor vai fazer diante dos vossos olhos. Não é hoje a sega dos trigos? clamarei, pois, ao Senhor, e dará trovões e chuva; e sabereis e vereis que é grande a vossa maldade que tendes feito perante o Senhor, pedindo para vós um rei. Então invocou Samuel ao Senhor, e o Senhor deu trovões e chuva naquele dia." No tempo da colheita do trigo, em maio e junho, não caía chuva no Oriente. O céu estava sem nuvens, e o ar sereno e agradável. Uma tempestade tão violenta naquela ocasião encheu de temor todos os corações. Com humilhação o povo confessou agora o seu pecado, o próprio pecado de que haviam sido culpados: "Roga pelos teus servos ao Senhor teu Deus, para que não venhamos a morrer; porque a todos os nossos pecados temos acrescentado este mal, de pedirmos para nós um rei." I Sam. 12:11-19.
Samuel não deixou o povo em estado de desânimo, pois isto teria impedido todo o esforço para uma vida melhor. Satanás levá-los-ia a considerar Deus como severo e implacável, e assim estariam expostos a muitas tentações. Deus é misericordioso e perdoador, desejando sempre mostrar favor para com Seu povo, quando este obedece à Sua voz. "Não temais", foi a mensagem de Deus pelo Seu servo; "vós tendes cometido todo este mal; porém não vos desvieis de seguir ao Senhor, mas servi ao Senhor com todo o vosso coração. E não vos desvieis; pois seguiríeis as vaidades, que nada aproveitam, e tampouco vos livrarão, porque vaidades são. Pois o Senhor não desamparará o Seu povo."
Samuel nada disse quanto à indiferença que havia sido mostrada para com ele; não proferiu exprobração pela ingratidão com que Israel havia pago sua longa vida de dedicação; antes, assegurou-lhes seu incessante interesse por eles: "Longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós; antes vos ensinarei o caminho bom e direito. Tão-somente temei ao Senhor, e servi-O fielmente com todo o vosso coração; porque vede quão grandiosas coisas vos fez. Porém, se perseverardes em fazer mal, perecereis, assim vós como o vosso rei." I Sam. 12:20-25. 60
A Presunção de Saul
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Depois da assembléia em Gilgal, Saul dispensou o exército que se havia levantado ao seu chamado para subverter os amonitas, reservando apenas dois mil homens para ficarem localizados sob o seu comando em Micmas, e mil para auxiliar seu filho Jônatas em Gibeá. Nisto houve um grave erro. Seu exército estava cheio de esperança e coragem pela vitória recente; e, caso ele houvesse imediatamente prosseguido contra outros inimigos de Israel, poderia ter sido desferido um golpe eficaz em prol da liberdade da nação.
Entrementes, seus belicosos vizinhos, os filisteus, estavam em atividade. Depois da derrota em Ebenézer, tinham ainda conservado a posse de algumas fortalezas nas colinas, na terra de Israel; e agora estabeleceram-se no centro mesmo do país. Em recursos, armamentos e aparato militar, os filisteus tinham grande vantagem sobre Israel. Durante o longo período de seu domínio opressivo, esforçaram-se eles por fortalecer o seu poder, proibindo aos israelitas praticar o ofício de ferreiro, com o receio de que fizessem armas de guerra. Depois da conclusão da paz, os hebreus ainda haviam recorrido às guarnições filistéias para obter tais trabalhos conforme eram necessários. Dirigidos pelo amor à comodidade, e pelo espírito vil causado pela longa opressão, os homens de Israel tinham em grande parte negligenciado prover-se de armas de guerra. Arcos e fundas eram usados na guerra e estes podiam os israelitas obter; mas nenhum havia entre eles, com exceção de Saul e seu filho Jônatas, que possuísse lança ou espada. I Sam. 13:22. Não foi senão no segundo ano do reinado de Saul que se fez uma tentativa para submeter os filisteus. O primeiro golpe foi desferido por Jônatas, o filho do rei, que atacou e venceu a guarnição deles em Geba. Os filisteus, exasperados por esta derrota,
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aprontaram-se para um ataque imediato a Israel. Saul fez agora proclamar a guerra pelo som da trombeta, por toda a terra, chamando a todos os homens de guerra, incluindo as tribos de além do Jordão, para se reunirem em Gilgal. Esta convocação foi atendida. Os filisteus tinham reunido uma imensa força em Micmas - "trinta mil carros, e seis mil cavaleiros, e povo em multidão como a areia que está à borda do mar". I Sam. 13:5. Quando a notícia chegou a Saul e seu exército, em Gilgal, o povo ficou assombrado ao ter idéia das forças poderosas que teriam de enfrentar em batalha. Não estavam preparados para defrontar-se com o inimigo, e muitos ficaram tão aterrorizados que não ousaram ir à prova de um encontro. Alguns atravessaram o Jordão, enquanto outros se esconderam em cavernas e covas, e entre as rochas que eram comuns naquela região. Aproximando-se o tempo do encontro, o número das deserções aumentou rapidamente, e aqueles que se não retiraram das fileiras estavam cheios de terror.
Quando Saul foi ungido rei de Israel, recebera de Samuel instruções explícitas concernentes à conduta a ser adotada no tempo em questão. "Tu porém descerás diante de mim a Gilgal", disse o profeta; "e eis que eu descerei a ti, para sacrificar holocaustos, e para oferecer ofertas pacíficas; ali sete dias esperarás, até que eu venha a ti, e te declare o que hás de fazer." I Sam. 10:8. Dia após dia Saul esperou, mas sem fazer decididos esforços para animar o povo e inspirar confiança em Deus. Antes que o tempo designado pelo profeta houvesse expirado completamente, ele se tornou impaciente com a demora, e deixou-se desanimar pelas circunstâncias probantes que o cercavam. Em vez de procurar fielmente preparar o povo para a cerimônia que Samuel vinha realizar, alimentou incredulidade e maus pressentimentos. Buscar a Deus pelo sacrifício, era uma obra soleníssima e importante; e Deus exigia que Seu povo examinasse o coração e se arrependesse de seus pecados, a fim de que se pudesse fazer a oferta com aceitação perante Ele, e a bênção divina acompanhasse seus esforços para vencer o inimigo. Mas Saul se tornara inquieto; e o povo, em vez de confiar em Deus para obter auxílio, olhava para o rei a quem tinham escolhido, para que os guiasse e dirigisse. Pág. 618
Contudo o Senhor ainda cuidava deles, e os não abandonou aos reveses que lhes teriam sobrevindo se o frágil braço da carne houvesse sido o seu único apoio. Ele os levou a situações angustiosas, para que pudessem convencer-se da loucura de confiar no homem, e a Ele se voltassem como seu único auxílio. Havia chegado o tempo para a prova de Saul. Ele deveria agora mostrar se confiaria ou não em Deus, e se esperaria pacientemente conforme à Sua ordem, mostrando-se assim ser aquele com quem Deus poderia contar em situações difíceis, na qualidade de governador de Seu povo, ou se seria vacilante e indigno da responsabilidade sagrada que lhe fora entregue. O rei a quem Israel escolhera, ouviria ao Rei de todos os reis? Volveria ele a atenção de seus soldados esmorecidos para Aquele em quem estão a força e o livramento eternos?
Com impaciência crescente esperava a chegada de Samuel, e atribuiu a confusão, angústia e deserção de seu exército à ausência do profeta. Veio o tempo aprazado, mas o homem de Deus não apareceu imediatamente. A providência de Deus havia detido o Seu servo. O espírito inquieto e impulsivo de Saul, porém, não se restringiria por mais tempo. Entendendo que se deveria fazer algo para acalmar os temores do povo, decidiu-se a convocar uma assembléia para serviço religioso, e mediante sacrifício rogar o auxílio divino. Deus tinha determinado que unicamente os que eram consagrados ao ofício deviam apresentar sacrifícios diante dEle. Mas ordenou Saul "trazei-me aqui um holocausto"; e, cingido como estava de armaduras e armas de guerra, aproximou-se do altar, e ofereceu sacrifício diante de Deus.
"E sucedeu que, acabando ele de oferecer o holocausto, eis que Samuel chegou; e Saul lhe saiu ao encontro, para o saudar." I Sam. 13:9 e 10. Samuel viu de pronto que Saul tinha procedido contrariamente à expressa instrução que lhe havia sido dada. O Senhor tinha falado pelo Seu profeta que nesta ocasião Ele revelaria o que Israel deveria fazer em tal crítica situação. Se Saul tivesse satisfeito as condições sob as quais fora prometido auxílio divino, o Senhor teria operado um maravilhoso livramento para Israel, com os poucos que eram fiéis ao rei. Mas Saul estava tão satisfeito consigo mesmo e com sua obra, que saiu ao encontro do profeta como alguém que devesse ser elogiado em vez de reprovado.
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O semblante de Samuel estava cheio de ansiedade e angústia; mas, à sua pergunta - "Que fizeste?" - Saul apresentou desculpas de seu ato presunçoso. Disse ele: "Porquanto via que o povo se espalhava de mim, e tu não vinhas nos dias aprazados, e os filisteus já se tinham ajuntado em Micmas, eu disse: Agora descerão os filisteus sobre mim a Gilgal, e ainda à face do Senhor não orei. E violentei-me, e ofereci holocausto.
"Então disse Samuel a Saul: Obraste nesciamente, e não guardaste o mandamento que o Senhor teu Deus te ordenou; porque agora o Senhor teria confirmado o teu reino sobre Israel para sempre. Porém agora não subsistirá o teu reino; já tem buscado o Senhor para Si um homem segundo o Seu coração, e já lhe tem ordenado o Senhor, que seja chefe sobre o Seu povo. ... Então se levantou Samuel, e subiu de Gilgal a Gibeá de Benjamim." I Sam. 13:11, 13-15.
Ou Israel deixaria de ser o povo de Deus, ou deveria ser mantido o princípio sobre o qual fora fundada a monarquia, e a nação seria governada por um poder divino. ... Se Israel quisesse ser inteiramente do Senhor, se a vontade do que é humano e terrestre se mantivesse em sujeição à vontade de Deus, Ele continuaria a ser o governador de Israel. Enquanto o rei e o povo se conduzissem subordinados a Deus, poderia Ele ser a sua defesa. Mas monarquia alguma poderia prosperar em Israel se não reconhecesse em todas as coisas a autoridade suprema de Deus.
Se Saul tivesse mostrado consideração para com as ordens de Deus nesse tempo de provação, Deus poderia ter cumprido Sua vontade por meio dele. Seu fracasso provou agora que ele não era apto para ser o representante de Deus ao Seu povo. Ele transviaria Israel. Sua vontade, em vez da de Deus, seria força dominante. Se Saul tivesse sido fiel, seu reino teria sido estabelecido para sempre; mas, visto que fracassara, o propósito de Deus deveria cumprir-se por meio de um outro. O governo de Israel deveria ser confiado a alguém que governasse o povo segundo a vontade do Céu. Não sabemos que grandes interesses podem estar em jogo em provarmos a Deus. Não há segurança alguma a não ser na obediência estrita à Palavra de Deus. Todas as Suas promessas são feitas sob condição de fé e obediência, e uma falta de conformação com as Suas ordens elimina de nós a plena utilização dos abundantes recursos providos nas Escrituras. Não devemos seguir Pág. 622
nossos impulsos, tampouco confiar nos juízos dos homens; devemos olhar para a vontade revelada de Deus, e andar em conformidade com o Seu definido mandamento, sejam quais forem as circunstâncias que nos rodeiem. Deus cuidará dos resultados; pela fidelidade à Sua Palavra podemos em tempo de provações demonstrar perante os homens e os anjos que o Senhor pode depositar confiança em nós nas situações difíceis a fim de executar a Sua vontade, honrar o Seu nome, e abençoar o Seu povo. Saul estava no desagrado de Deus, e no entanto indisposto a humilhar o coração em arrependimento. O que lhe faltava em piedade verdadeira, experimentava realizar pelo seu zelo nas formas de religião. Saul não ignorava a derrota de Israel quando a arca de Deus foi levada ao acampamento, por Hofni e Finéias; entretanto, sabendo de tudo isto, resolveu mandar buscar a sagrada arca e seu sacerdote assistente. Se ele pudesse por este meio inspirar confiança no povo, esperava reunir de novo seu exército esparso, e dar batalha aos filisteus. Dispensaria então a presença e o apoio de Samuel, e assim se livraria da crítica e das importunas reprovações do profeta. O Espírito Santo havia sido concedido a Saul para lhe iluminar o entendimento e abrandar o coração. Recebera fiel instrução e reprovação do profeta de Deus. E no entanto quão grande era a sua perversidade! A história do primeiro rei de Israel apresenta um triste exemplo do poder dos maus hábitos nos verdes anos. Em sua mocidade Saul não amou nem temeu a Deus; e aquele espírito impetuoso, não adestrado à submissão em seus primeiros anos, estava sempre pronto para rebelar-se contra a autoridade divina. Aqueles que em sua juventude acalentam uma santa consideração pela vontade de Deus, e que fielmente cumprem os deveres de seu cargo, estarão preparados para o serviço mais elevado na vida posterior. Mas não podem os homens durante anos perverter as faculdades que Deus lhes deu, e então, quando quiserem efetuar uma mudança em si, encontrar tais faculdades frescas e desembaraçadas para seguirem um caminho inteiramente oposto. Os esforços de Saul para despertar o povo mostraram-se inúteis. Encontrando sua força reduzida a seiscentos homens, ele partiu de Gilgal, e retirou-se para a fortaleza de Geba, tomada recentemente dos filisteus. Esta fortaleza estava do lado do sul de um vale profundo e escabroso, ou garganta, alguns quilômetros ao norte do local de Jerusalém. Ao lado do norte do mesmo vale, em Micmas, estava acampada a força filistéia, ao mesmo tempo em que tropas destacadas saíam em diferentes direções a fim de devastar o país.
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Deus permitira que as coisas fossem assim levadas a uma situação crítica, a fim de poder repreender a perversidade de Saul, e ensinar a Seu povo uma lição de humildade e fé. Por causa do pecado de Saul em sua oferta presunçosa, o Senhor não lhe daria a honra de vencer aos filisteus. Jônatas, o filho do rei, homem que temia o Senhor, foi escolhido como instrumento para libertar Israel. Movido por um impulso divino, propôs ao seu pajem de armas que fizessem um ataque secreto ao arraial do inimigo. "Porventura", disse ele, "obrará o Senhor por nós, porque para com o Senhor nenhum impedimento há de livrar com muitos ou com poucos."
O pajem de armas, que também era homem de fé e oração, incentivou este plano, e juntos retiraram-se do acampamento, secretamente, para que não acontecesse encontrar oposição o seu propósito. Com oração fervorosa ao Guia de seus pais, convieram em um sinal pelo qual poderiam determinar o que fazer. Descendo então para a garganta que separava os dois exércitos, silenciosamente seguiram seu caminho, à sombra do rochedo, e ocultos parcialmente pelas pedras e saliências do vale. Aproximando-se da fortaleza filistéia, ficaram à vista de seus inimigos, que, sarcasticamente, disseram: "Eis que já os hebreus saíram das cavernas em que se tinham escondido"; então os desafiaram: "Subi a nós, e nós vo-lo ensinaremos" (I Sam. 14:11 e 12), querendo dizer que puniriam os dois israelitas pela sua audácia. Este desafio era o sinal que Jônatas e seu companheiro tinham concordado aceitar como prova de que o Senhor favorecia seu empreendimento. Saindo agora das vistas dos filisteus, e escolhendo um caminho secreto e difícil, os guerreiros se dirigiram ao cume de uma rocha que tinha sido considerada inacessível, e não estava mui fortemente guarnecida. Assim penetraram no arraial do inimigo, e mataram as sentinelas, que, dominadas pela surpresa e temor, não ofereceram resistência.
Anjos celestiais escudavam a Jônatas e seu auxiliar, anjos combatiam ao seu lado, e os filisteus caíam diante deles. A terra tremia como se uma grande multidão com cavaleiros e carros se estivesse aproximando. Jônatas reconheceu os sinais do auxílio divino, e mesmo os filisteus viram que Deus estava agindo para o livramento de Israel. Grande temor apoderou-se do exército, tanto no campo como na guarnição. Na confusão, tomando seus próprios soldados por inimigos, os filisteus começaram a matar-se uns aos outros.
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Logo se ouviu o rumor da batalha no acampamento de Israel. As sentinelas do rei referiram que havia grande confusão entre os filisteus, e que seu número estava decrescendo. Não se sabia, entretanto, que qualquer parte do exército hebreu houvesse deixado o acampamento. Feita a busca, verificou-se que ninguém estava ausente a não ser Jônatas e seu pajem de armas. Mas, vendo que os filisteus estavam sendo repelidos, Saul levou seu exército a unir-se ao assalto. Os hebreus que tinham desertado para o inimigo voltaram agora contra eles; grande número também saiu de seus esconderijos; e, fugindo os filisteus, destroçados, o exército de Saul infligiu terrível estrago nos fugitivos. Decidido a tirar para si as maiores vantagens, o rei temerariamente proibiu a seus soldados tomarem alimento durante o dia todo, impondo a ordem por meio de uma solene imprecação: "Maldito o homem que comer pão até à tarde, para que me vingue de meus inimigos." I Sam. 14:24. A vitória já havia sido ganha, sem o conhecimento ou a cooperação de Saul; mas ele esperava distinguir-se pela completa destruição do exército vencido. A ordem para abstinência de alimento foi motivada pela ambição egoísta, e mostrou ser o rei indiferente às necessidades de seu povo quando estas estavam em conflito com seus desejos de exaltação própria. Confirmando esta proibição com um juramento solene, Saul se mostrou não somente temerário como também profano. As próprias palavras da imprecação dão prova de que o zelo de Saul era por si mesmo, e não pela honra de Deus. Ele declarou seu objetivo não ser que o Senhor fosse vingado de Seus inimigos, mas "que me vingue de meus inimigos". A proibição teve como resultado levar o povo a transgredir o mandado de Deus. Eles tinham estado empenhados em guerra o dia todo, e desfaleciam pela falta de alimento; e apenas se passaram as horas da restrição, caíram sobre o despojo, e devoraram a carne com sangue, violando desta maneira a lei que proibia comer sangue.
Durante o dia de batalha, Jônatas, que não tinha ouvido acerca da ordem do rei, ignorantemente transgrediu comendo um pouco de mel quando passava através de um bosque. Saul teve conhecimento disto à tarde. Havia declarado que a violação deste edito seria punida com a morte; e, embora Jônatas não tivesse sido culpado de pecado voluntário, embora Deus lhe tivesse miraculosamente preservado a vida, e houvesse operado por meio dele, o rei declarou que a sentença devia ser executada. Poupar Pág. 625
a vida de seu filho teria sido um reconhecimento da parte de Saul de que ele pecara fazendo um voto tão precipitado. Isto seria humilhante ao seu orgulho. "Assim me faça Deus, e outro tanto", foi a sua terrível sentença; "que com certeza morrerá, Jônatas." Saul não podia pretender a honra da vitória, mas esperava ser honrado pelo seu zelo ao manter a santidade de seu voto. Mesmo com sacrifício de seu filho, queria impressionar seus súditos com o fato de que a autoridade real tinha de ser mantida. Em Gilgal, pouco tempo antes, Saul tomara a ousadia de oficiar como sacerdote, contrariamente ao mandado de Deus. Sendo reprovado por Samuel, obstinadamente justificou-se. Agora, quando sua própria ordem foi desobedecida - embora esta ordem não fosse razoável, e tivesse sido violada por ignorância - o rei e pai sentenciou o filho à morte. O povo recusou-se a permitir que a sentença de morte fosse executada. Afrontando a ira do rei, declararam: "Morrerá Jônatas, que obrou tão grande salvação em Israel? nunca tal suceda; vive o Senhor, que não lhe há de cair no chão um só cabelo da sua cabeça! pois com Deus fez isso hoje." I Sam. 14:45. O orgulhoso rei não ousou desrespeitar este unânime veredicto, e a vida de Jônatas foi preservada.
Saul não pôde deixar de sentir que seu filho era preferido a ele, tanto pelo povo como pelo Senhor. O livramento de Jônatas foi uma severa exprobração à precipitação do rei. Teve um pressentimento de que suas maldições cairiam sobre sua cabeça. Não mais continuou a guerra com os filisteus, mas voltou para casa mal-humorado e descontente.
Aqueles que mais prontos estão para desculpar-se ou justificar-se no pecado, são muitas vezes os mais severos ao julgar e condenar os outros. Muitos, como Saul, trazem sobre si o desagrado de Deus, mas rejeitam o conselho e desprezam a reprovação. Mesmo quando convictos de que o Senhor não está com eles, recusam-se a ver em si a causa da perturbação. Alimentam um espírito orgulhoso, jactancioso, ao mesmo tempo em que condescendem em fazer um juízo cruel ou severa censura em relação a outros que são melhores do que eles. Bom seria que tais juízes, que a si mesmos se constituem, ponderassem estas palavras de Cristo: "Com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós." Mat. 7:2. Freqüentemente aqueles que estão procurando exaltar-se são levados a posições em que se revela seu verdadeiro caráter.
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Assim foi no caso de Saul. Sua conduta convenceu o povo de que a honra e autoridade real eram para ele mais caras do que a justiça, misericórdia, ou benevolência. Assim o povo foi levado a ver o seu erro, por terem rejeitado o governo que Deus lhes havia dado. Tinham trocado o profeta piedoso, cujas orações haviam feito descer bênçãos, por um rei que em seu zelo cego tinha orado rogando uma maldição sobre eles.
Se os homens de Israel não se houvessem interposto a fim de salvar a vida de Jônatas, seu libertador teria perecido pelo decreto do rei. Com que pressentimentos deveria aquele povo posteriormente ter seguido a guia de Saul! Quão amargo lhes seria o pensamento de que ele havia sido posto no trono pelo seu próprio ato! O Senhor suporta por muito tempo os desvarios dos homens, e a todos Ele concede oportunidade para verem e abandonarem seus pecados; mas, conquanto possa parecer que Ele faz prosperar os que desrespeitam a Sua vontade e desprezam Suas advertências, ao Seu tempo certamente tornará manifesta a loucura deles.