Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 6 de 9 · parte 1/4

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Patriarcas e Profetas

Bíblia claramente posto diante deles, ou é…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Bíblia claramente posto diante deles, ou é evidentemente indicado pelas circunstâncias ou pela razão. Mas porque tais evidências são contrárias aos seus desejos e inclinações, freqüentemente as põem de lado, e ousam ir a Deus para saberem o seu dever. Aparentemente com grande consciência, oram demorada e fervorosamente rogando luz. Mas com Deus não se brinca. Ele muitas vezes permite que tais pessoas sigam seus desejos, e sofram o resultado. "O Meu povo não quis ouvir a Minha voz. ... Pelo que Eu os entreguei aos desejos dos seus corações, e andaram segundo os seus próprios conselhos." Sal. 81:11 e 12. Quando alguém vê claramente o dever, não tome a liberdade de ir a Deus com oração para que possa ser dispensado de o cumprir. Antes, deve com espírito humilde e submisso, rogar força e sabedoria divinas para satisfazer as exigências desse dever. Os moabitas eram um povo degradado, idólatra; todavia, conforme a luz que haviam recebido, sua culpa não era tão grande à vista do Céu como era a de Balaão. Entretanto, como este professava ser profeta de Deus, tudo o que dissesse supor-se-ia proferido por autoridade divina. Portanto não lhe foi permitido falar como quisesse, mas devia transmitir a mensagem que Deus lhe desse. "Farás o que Eu te disser" (Núm. 22:20), foi a ordem divina.

Balaão recebera permissão de ir com os mensageiros de Moabe, se viessem pela manhã chamá-lo. Mas, contrariados com sua demora, e esperando nova recusa, partiram em viagem para seu país sem mais consulta com ele. Toda a desculpa para condescender com o pedido de Balaque fora agora removida. Mas Balaão estava decidido a obter a recompensa; e, tomando o animal em que estava habituado a viajar, pôs-se a caminho. Temia que mesmo agora a permissão divina fosse retirada, e avançou ansiosamente, inquieto e receoso de que de alguma maneira deixasse de ganhar a cobiçada recompensa.

Mas "o anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho por adversário". Núm. 22:22.O animal viu o mensageiro divino, que não era percebido pelo homem, e desviou-se da estrada para o campo. Com pancadas cruéis Balaão o trouxe novamente para o caminho; mas, outra vez, em um lugar estreito entre duas paredes apareceu o anjo, e o animal, procurando evitar a figura ameaçadora, apertou o pé do seu dono contra a parede. Balaão estava cego à intervenção celestial, e não sabia que Deus lhe estava obstruindo o caminho. O homem

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exasperou-se, e, surrando a jumenta impiedosamente, obrigou-a a prosseguir.

De novo, "num lugar estreito, onde não havia caminho para se desviar nem para a direita nem para a esquerda" (Núm. 22:26), apareceu o anjo, como antes, em atitude ameaçadora; e o pobre animal, tremendo de terror, parou, e caiu em terra sob aquele que o cavalgava. A raiva de Balaão não teve limites, e com o bordão espancou mais cruelmente do que antes o animal. Deus abriu então a boca deste, e, pelo "mudo jumento, falando com voz humana", "impediu a loucura do profeta". II Ped. 2:16. "Que te fiz eu", disse o animal, "que me espancaste estas três vezes?" Núm. 22:28. Furioso por ser assim estorvado em sua viagem, Balaão respondeu ao animal como se teria dirigido a um ser racional: "Por que zombaste de mim; oxalá tivera eu uma espada na mão, porque agora te matara." Ali estava um mágico professo, a caminho para pronunciar uma maldição sobre um povo inteiro, com o intento de paralisar sua força, ao mesmo tempo em que não tinha poder mesmo para matar o animal que cavalgava!

Abrem-se agora os olhos de Balaão, e ele vê em pé o anjo de Deus com a espada desembainhada pronto para o matar. Aterrorizado, "inclinou a cabeça, e prostrou-se sobre a sua face". O anjo lhe disse: "Por que já três vezes espancaste a tua jumenta? Eis que eu saí para ser teu adversário, porquanto o teu caminho é perverso diante de mim. Porém a jumenta me viu, e já três vezes se desviou de diante de mim; se ela se não desviara de diante de mim, na verdade que eu agora te tivera matado, e a ela deixara com vida." Núm. 22:29-33.

Balaão devia a conservação de sua vida ao pobre animal que tratara tão cruelmente. O homem que pretendia ser profeta do Senhor, que declarou estar "de olhos abertos", e ver "a visão do Todo-poderoso" (Núm. 24:3 e 4), estava tão cego pela cobiça e ambição que não pôde divisar o anjo de Deus, visível para seu animal. "O deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos." II Cor. 4:4. Quantos não se acham assim cegos! Arremessam-se em trilhas vedadas, transgredindo a lei divina, e não podem discernir que Deus e Seus anjos estão contra eles. Semelhantes a Balaão zangam-se com aqueles que querem impedir sua ruína.

Balaão dera prova do espírito que o dirigia, pelo seu tratamento ao animal. "O justo olha pela vida dos seus animais, mas as misericórdias dos ímpios são cruéis." Prov. 12:10. Poucos Pág. 443

se compenetram, quanto deveriam, da pecaminosidade de maltratar os animais, ou deixá-los sofrer pela negligência. Aquele que criou o homem fez os animais irracionais também, "e as Suas misericórdias são sobre todas as Suas obras". Sal. 145:9. Os animais foram criados para servirem ao homem, mas este não tem direito de causar-lhes dor com tratamento rude, ou cruel exigência. É por causa do pecado do homem que "toda a criação geme e está juntamente com dores de parto". Rom. 8:22. O sofrimento e a morte foram assim impostos não somente ao gênero humano, mas aos animais. Certamente, pois, ao homem toca procurar aliviar o peso do sofrimento que sua transgressão acarretou sobre as criaturas de Deus, em vez de aumentá-lo. Aquele que maltrata os animais porque os tem em seu poder, é tão covarde quanto tirano. A disposição para causar dor, quer seja ao nosso semelhante quer aos seres irracionais, é satânica. Muitos não compreendem que sua crueldade haja de ser conhecida, porque os pobres animais mudos não a podem revelar. Mas, se os olhos desses homens pudessem abrir-se como os de Balaão, veriam um anjo de Deus, em pé, como testemunha, para atestar contra eles no tribunal celestial. Um relatório sobe ao Céu, e aproxima-se o dia em que se pronunciará juízo contra os que maltratam as criaturas de Deus.

Quando viu o mensageiro de Deus, Balaão exclamou aterrorizado: "Pequei, porque não soube que estavas neste caminho para te opores a mim; e agora, se parece mal aos teus olhos, tornar-me-ei." Núm. 22:34. O Senhor permitiu-lhe prosseguir em sua viagem, mas deu-lhe a entender que suas palavras seriam dirigidas pelo poder divino. Deus queria dar prova a Moabe que os hebreus estavam sob a guarda do Céu; e isto Ele fez de modo eficaz quando lhes mostrou quão impotente era Balaão mesmo para proferir uma maldição contra eles, sem permissão divina. O rei de Moabe, sendo informado da aproximação de Balaão, saiu com grande acompanhamento às fronteiras do reino, para o receber. Quando se mostrou admirado com a demora de Balaão, em vista das ricas recompensas que o esperavam, a resposta do profeta foi: "Eis que eu tenho vindo a ti; porventura poderei eu agora de alguma forma falar alguma coisa? a palavra que Deus puser na minha boca essa falarei." Núm. 22:38. Balaão lamentava grandemente esta restrição; temia que seu propósito não pudesse efetuar-se, porque o poder dirigente do Senhor estava sobre ele. Com grande pompa, o rei com os principais dignitários de seu Pág. 444

reino, acompanharam Balaão "aos altos de Baal" Núm. 22:41), donde ele podia avistar as hostes hebréias. Eis o profeta em pé sobre o elevado monte, olhando por sobre o acampamento do povo escolhido de Deus. Mal sabem os israelitas do que está a acontecer tão perto deles! Quão pouco conhecem o cuidado de Deus, sobre eles estendido de dia e de noite! Quão embotadas são as percepções do povo de Deus! Quão vagarosos são, em todos os tempos, para compreenderem Seu grande Amor e misericórdia! Se pudessem divisar o maravilhoso poder de Deus constantemente exercido em favor deles, não se lhes encheria o coração de gratidão pelo Seu amor, e de temor ao pensamento de Sua majestade e poder?

Balaão tinha algum conhecimento das ofertas sacrificais dos hebreus, e esperava que, sobrepujando-os em custosas dádivas, pudesse conseguir a bênção de Deus, e conseguir a realização de seus projetos pecaminosos. Assim, os sentimentos dos moabitas idólatras estavam a obter domínio sobre sua mente. Sua sabedoria se tornara em loucura; nublara-se-lhe a visão espiritual; trouxera sobre si a cegueira, rendendo-se ao poder de Satanás.

Por indicação de Balaão, foram construídos sete altares, e ele ofereceu um sacrifício em cada um deles. Então se retirou a um "lugar alto" Núm. 23:3., para encontrar-se com Deus, prometendo tornar conhecido a Balaque o que quer que o Senhor revelasse. Com os nobres e príncipes de Moabe, o rei ficou ao lado do sacrifício, enquanto em redor deles se reuniu a ansiosa multidão, aguardando a volta do profeta. Ele veio finalmente, e o povo esperou as palavras que para sempre paralisariam aquele estranho poder exercido a favor dos odiados israelitas. Disse Balaão:

"De Arã me mandou trazer Balaque, rei dos moabitas,

Das montanhas do Oriente,

Dizendo: Vem, amaldiçoa-me a Jacó;

E vem, detesta Israel.

Como amaldiçoarei o que Deus não amaldiçoa?

E como detestarei, quando o Senhor não detesta?

Porque do cume das penhas o vejo,

E dos outeiros o contemplo:

E eis que este povo habitará só,

E entre as gentes não será contado.

Quem contará o pó de Jacó,

E o número da quarta parte de Israel?

A minha alma morra da morte dos justos,

E seja o meu fim como o seu." Núm. 23:7-10. Pág. 447

Balaão confessou que viera com o propósito de amaldiçoar Israel; mas as palavras que proferiu foram diretamente contrárias aos sentimentos de seu coração. Foi constrangido a pronunciar bênçãos, enquanto sua alma estava cheia de maldições.

Olhando Balaão para o acampamento de Israel, viu com espanto as provas de sua prosperidade. A ele haviam sido representados como uma multidão rude, desorganizada, que infestava o país em bandos errantes, os quais eram uma peste e terror às nações circunvizinhas; mas sua aparência era o inverso de tudo isto. Viu a grande extensão e o perfeito arranjo de seu acampamento, apresentando tudo os indícios de uma disciplina e ordem completas. Foi-lhe mostrado o favor com que Deus olhava a Israel, e o caráter distintivo de povo escolhido Seu. Não deveriam ficar no mesmo nível das outras nações, mas ser exaltados acima delas todas. "Este povo habitará só, e entre as gentes não será contado." Núm. 23:9. Na ocasião em que estas palavras foram faladas, os israelitas não tinham localização permanente, e seu caráter peculiar, usos e costumes, não eram familiares a Balaão. Mas quão notavelmente foi cumprida esta profecia na história posterior de Israel! Por todos os anos de seu cativeiro, através de todos os séculos desde que foram dispersos entre as nações têm eles permanecido como um povo distinto. Assim o povo de Deus - o verdadeiro Israel - embora disperso por todas as nações, não são na Terra senão peregrinos, cuja cidadania está nos Céus. Não somente foi mostrada a Balaão a história do povo hebreu como nação, mas ele viu o crescimento e prosperidade do verdadeiro Israel de Deus até o final do tempo. Viu o favor especial do Altíssimo acompanhando aqueles que O amam e temem. Viu-os amparados pelo Seu braço, ao entrarem no escuro vale da sombra da morte. E viu-os saírem de seus túmulos, coroados de glória, honra e imortalidade. Contemplou os resgatados regozijando-se nas glórias imarcescíveis da Terra renovada. Olhando para esta cena, exclamou: "Quem contará o pó de Jacó, e o número da quarta parte de Israel?" E, ao ver a coroa de glória em cada fronte, a alegria irradiando de cada semblante, e olhando para aquela vida intérmina de pura felicidade, proferiu a solene oração: "A minha alma morra a morte do justo, e seja o meu fim como o seu." Núm. 23:10.

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Se Balaão tivesse tido disposição para aceitar a luz que Deus dera, teria então tornado verdadeiras para si as Suas palavras; teria de pronto cortado toda a conexão com Moabe. Não mais teria abusado da misericórdia de Deus, mas a Ele teria voltado com profundo arrependimento. Mas Balaão amava o salário da injustiça, e estava decidido a consegui-lo.

Balaque tinha confiantemente esperado uma maldição que caísse como uma praga definhadora sobre Israel; e, às palavras do profeta, exclamou com paixão: "Que me fizeste? Chamei-te para amaldiçoar os meus inimigos, mas eis que inteiramente os abençoaste." Balaão, procurando fazer da necessidade virtude, diz haver falado, em atenção conscienciosa para com a vontade de Deus, as palavras que foram forçadas aos seus lábios pelo poder divino. Sua resposta foi: "Porventura não terei cuidado de falar o que o Senhor pôs na minha boca?" Núm. 23:11 e 12. Balaque não pôde mesmo então abandonar o seu intento. Julgou que o espetáculo imponente apresentado pelo vasto acampamento dos hebreus, houvesse intimidado de tal maneira a Balaão que este não ousasse praticar suas adivinhações contra eles. Resolveu o rei levar o profeta a algum ponto onde visse apenas uma pequena parte das hostes. Se pudesse ser induzido a amaldiçoá-los em partes destacadas, todo o arraial logo seria votado à destruição. No cimo de uma elevação chamada Pisga, fez-se outra prova. Construíram-se novamente sete altares, sobre os quais foram colocadas as mesmas ofertas que ao princípio. O rei e seus príncipes permaneceram ao lado dos sacrifícios, enquanto Balaão se retirou para encontrar-se com Deus. Foi outra vez confiada ao profeta uma mensagem divina, que ele foi impotente para alterar ou reter.

Quando ele apareceu à multidão ansiosa e expectante, foi-lhe feita a pergunta: "Que coisa falou o Senhor?" A resposta, como antes, lançou o terror no coração do rei e dos príncipes: "Deus não é homem, para que minta;

Nem filho do homem, para que Se arrependa.

Porventura diria Ele, e não o faria?

Ou falaria, e não o confirmaria?

Eis que recebi mandado de abençoar;

Pois Ele tem abençoado, e eu não o posso revogar.

Não viu iniqüidade em Israel,

Nem contemplou maldade em Jacó;

O Senhor seu Deus é com ele, e nele,

E entre eles se ouve o alarido dum rei." Núm. 23:19-21. Pág. 449

Aterrado com tais revelações, Balaão exclamou: "Pois contra Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel." O grande mágico tinha experimentado o seu poder de encantamentos, de acordo com o desejo dos moabitas; mas, com relação a esta mesma ocasião, dir-se-ia de Israel: "Que coisa Deus tem obrado!" Enquanto estavam sob a proteção divina, nenhum povo ou nação, embora auxiliado por todo o poder de Satanás, seria capaz de prevalecer contra eles. O mundo todo se maravilharia ante a obra admirável de Deus em prol de Seu povo - de que um homem decidido a seguir uma conduta pecaminosa fosse de tal maneira dirigido pelo poder divino, que proferisse em vez de imprecações as mais ricas e preciosas promessas, na expressão da poesia sublime e exaltada. E o favor de Deus, manifesto a Israel nesta ocasião, deveria ser uma segurança de Seu cuidado protetor aos Seus filhos obedientes e fiéis, em todos os tempos. Quando Satanás inspirasse homens maus a caluniar, a perseguir e destruir o povo de Deus, esta mesma ocorrência lhes seria trazida à lembrança, e lhes fortaleceria o ânimo e a fé em Deus.

O rei de Moabe, desanimado e angustiado, exclamou: "Nem totalmente o amaldiçoarás, nem totalmente o abençoarás." Núm. 23:23 e 25. Contudo uma vaga esperança ainda ficou em seu coração, e resolveu-se a fazer outra tentativa. Conduziu então Balaão ao Monte Peor, onde havia um templo dedicado ao culto licencioso de Baal, o deus deles. Ali foi construído o mesmo número de altares que antes, e ofereceu-se o mesmo número de sacrifícios; mas Balaão não foi só, como das outras vezes, para conhecer a vontade de Deus. Ele não tinha pretensões a feitiçaria, mas, em pé ao lado dos altares, olhava ao longe sobre as tendas de Israel. De novo o Espírito de Deus repousou sobre ele, e veio de seus lábios a mensagem divina:

"Que boas são as tuas tendas, ó Jacó!

Que boas são as tuas moradas, ó Israel!

Como vales que se estendem, como jardins à beira dos rios, Como árvores de sândalo que o Senhor plantou,

Como cedros junto às águas.

Águas manarão de seus baldes, e as suas sementeiras terão águas abundantes; E o seu rei se levantará mais do que Agague,

E o seu reino será exaltado. ...

Abaixou-se, deitou-se como leão e como leoa; quem o despertará? Benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem." Núm. 24:5-7 e 9.

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A prosperidade do povo de Deus é aqui representada por algumas das mais belas figuras que se encontram na Natureza. O profeta assemelha Israel com vales férteis cobertos de abundantes plantações; com jardins florescentes regados por fontes inesgotáveis; com o aromático sândalo e o imponente cedro. A última figura mencionada é uma das mais notavelmente belas e apropriadas que se encontram na Palavra inspirada. O cedro do Líbano era honrado por todos os povos do Oriente. A espécie de árvores a que ele pertence é encontrada onde quer que o homem haja ido, por toda a Terra. Desde as regiões árticas até a zona tropical, florescem, regozijando-se no calor, e ao mesmo tempo afrontando o frio; surgindo com grande pujança ao lado do rio, e ao mesmo tempo sobressaindo pelos ares por sobre a terra inculta, ressequida e sedenta. Penetram suas raízes profundamente por entre as pedras das montanhas, e erguem-se com ousadia em desafio à tempestade. Suas folhas estão frescas e verdes, quando tudo mais pereceu com o sopro do inverno. Acima de todas as outras árvores, distingue-se o cedro do Líbano pela sua força, firmeza, seu imperecível vigor; e isto é usado como símbolo daqueles cuja vida "está escondida com Cristo em Deus". Col. 3:3. Diz a Escritura: "O justo... crescerá como o cedro." Sal. 92:12. A mão divina exaltou o cedro como o rei da floresta. "As faias não igualavam os seus ramos, e os castanheiros não eram como os seus renovos; nenhuma árvore no jardim de Deus se assemelhou a ele." Ezeq. 31:8. O cedro é repetidas vezes empregado como emblema da realeza; e seu uso nas Escrituras para representar os justos mostra como o Céu considera aqueles que fazem a vontade de Deus.

Balaão profetizou que o rei de Israel seria maior e mais poderoso do que Agague. Este era o nome dado aos reis dos amalequitas, que naquele tempo eram uma nação muito poderosa; mas Israel, sendo fiel a Deus, subjugaria todos os seus inimigos. O Rei de Israel era o Filho de Deus; e Seu trono seria um dia estabelecido na Terra, e Seu poder seria exaltado acima de todos os reinos terrestres. Ouvindo as palavras do profeta, Balaque ficou dominado pela decepcionada esperança, pelo temor e raiva. Ficou indignado de que Balaão lhe tivesse dado uma mínima esperança de uma resposta favorável, quando tudo estava decidido contra ele. Considerou com escárnio a conduta transigente e enganadora do profeta. O rei exclamou iradamente: "Agora pois foge para o teu Pág. 451

lugar; eu tinha dito que te honraria grandemente; mas eis que o Senhor te privou desta honra." Núm. 24:11. Balaão respondeu que o rei tinha sido advertido previamente de que ele apenas poderia falar a mensagem que lhe fora dada da parte de Deus.

Antes de voltar a seu povo, Balaão proferiu uma belíssima, sublime profecia acerca do Redentor do mundo, e a final destruição dos inimigos de Deus:

"Vê-Lo-ei, mas não agora;

Contemplá-Lo-ei, mas não de perto;

Uma estrela procederá de Jacó,

E um cetro subirá de Israel,

Que ferirá os termos dos moabitas,

E destruirá todos os filhos de Sete." Núm. 24:17.

E finalizou predizendo a completa destruição de Moabe e Edom, de Amaleque e dos quenitas, não deixando assim ao rei moabita nenhum raio de esperança. Decepcionado em suas esperanças de riqueza e honras, achando-se no desagrado do rei e estando cônscio de que incorrera no desprazer de Deus, Balaão voltou da missão que ele próprio desejara. Depois de chegar em casa, o poder dirigente do Espírito de Deus o deixou, e sua cobiça, que apenas estivera contida, prevaleceu. Estava disposto a recorrer a qualquer meio para ganhar a recompensa prometida por Balaque. Balaão sabia que a prosperidade de Israel dependia de sua obediência a Deus, e que não havia meio para ocasionar seu transtorno senão induzindo-os ao pecado. Resolveu conseguir agora o favor de Balaque, aconselhando aos moabitas o caminho a seguir a fim de acarretar maldição sobre Israel.

Voltou imediatamente à terra de Moabe, e expôs seus planos ao rei. Os próprios moabitas estavam convencidos de que, enquanto Israel permanecesse fiel a Deus, Ele seria o seu escudo. O plano proposto por Balaão era separá-los de Deus, induzindo-os à idolatria. Se pudessem ser levados a tomar parte no culto licencioso de Baal e Astarote, seu Protetor onipotente tornar-Se-ia seu inimigo, e eles logo seriam presa das nações cruéis e aguerridas em redor deles. Este plano foi prontamente aceito pelo rei, e o próprio Balaão ficou para ajudar a levá-lo a efeito. Balaão testemunhou o êxito de seu plano diabólico. Viu a maldição de Deus sobrevir a Seu povo, e milhares caindo sob Seus juízos; mas a justiça divina que puniu o pecado em Israel não permitiu que os tentadores escapassem. Na guerra de Israel contra

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os midianitas, Balaão foi morto. Tivera um pressentimento de que seu fim estivesse perto, quando exclamou: "A minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu." Núm. 23:10. Mas não preferira viver a vida dos justos, e seu destino fixou-se com os inimigos de Deus. A sorte de Balaão foi semelhante à de Judas, e o caráter deles tem pronunciada semelhança entre si. Ambos estes homens experimentaram unir-se ao serviço de Deus e de Mamom, e defrontaram com malogro completo. Balaão reconhecia o verdadeiro Deus, e professava servi-Lo; Judas cria em Jesus como o Messias, e uniu-se com Seus seguidores. Mas Balaão esperava fazer do serviço de Jeová a escada pela qual adquirisse riquezas e honras mundanas; e, fracassando nisto, tropeçou, caiu, e foi quebrado. Judas esperava pela sua ligação com Cristo conseguir riqueza e posição naquele reino terrestre que, como acreditava, o Messias estava prestes a estabelecer. O malogro de suas esperanças impeliu-o à apostasia e ruína. Tanto Balaão como Judas haviam recebido grande luz e desfrutado privilégios especiais; mas um simples pecado que era acalentado lhes envenenou todo o caráter, e ocasionou a destruição de ambos.

É coisa perigosa permitir que uma característica infiel viva no coração. Um pecado acariciado pouco a pouco aviltará o caráter, levando todas as suas faculdades mais nobres em sujeição ao ruim desejo. A remoção de uma única salvaguarda da consciência, a condescendência com um mau hábito sequer, o descuido das elevadas exigências do dever, derribam as defesas da alma, e abrem o caminho para entrar Satanás e transviar-nos. O único meio seguro é fazer nossas orações subirem diariamente, de um coração sincero, como fazia Davi: "Dirige os meus passos nos Teus caminhos, para que as minhas pegadas não vacilem." Sal. 17:5.

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Apostasia no Jordão

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Com alegre coração e fé renovada em Deus, os exércitos vitoriosos de Israel haviam voltado de Basã. Já haviam ganho posse de valioso território, e estavam confiantes na conquista imediata de Canaã. Apenas o rio Jordão se achava entre eles e a Terra Prometida. Do outro lado do rio, precisamente, havia uma fértil planície, coberta de verdor, regada de torrentes oriundas de copiosas fontes, e sombreada de palmeiras luxuriantes. Na extremidade ocidental da planície erguiam-se as torres e palácios de Jericó, tão abrigada em seus bosques de palmeiras que era chamada "a cidade das palmeiras".Deut. 34:3.

Do lado oriental do Jordão, entre o rio e o elevado planalto que estiveram a atravessar, havia também uma planície, com vários quilômetros de largura, e que se estendia a alguma distância ao longo do rio. Este vale abrigado tinha o clima dos trópicos; ali florescia o sitim, ou acácia, dando à planície o nome de "vale de Sitim". Núm. 25:1. Foi ali que os israelitas se acamparam, e nos bosques de acácia ao lado do rio encontraram um agradável retiro.

Mas, por entre aquele atrativo ambiente encontraram um mal mais cruel do que poderosos exércitos de homens armados, e animais ferozes do deserto. Aquele território, tão rico em vantagens naturais, tinha sido contaminado por seus habitantes. No culto público de Baal, a principal divindade, levavam-se constantemente a efeito as cenas mais degradantes e iníquas. De todos os lados havia lugares que eram notados pela idolatria e licenciosidade, oferecendo seus próprios nomes a sugestão da vileza e corrupção do povo.

Tal ambiente exercia uma influência corruptora sobre os israelitas. Suas mentes se tornaram familiares com os vis pensamentos constantemente sugeridos; sua vida de comodidade e inação produzia os seus efeitos desmoralizadores; e quase

Pág. 454 inconscientemente estavam a afastar-se de Deus e chegando a uma condição em que seriam fáceis presas da tentação.

Durante o tempo de seu acampamento ao lado do Jordão, Moisés esteve fazendo preparativos para a ocupação de Canaã. Neste trabalho o grande chefe esteve inteiramente empenhado; mas para o povo este tempo de trégua e expectação foi mais probante, e antes que se passassem muitas semanas sua história foi mareada pelos mais medonhos desvios da virtude e integridade. A princípio pouca comunicação houve entre os israelitas e seus vizinhos gentios; mas, depois de algum tempo, mulheres midianitas começaram a entrar furtivamente no acampamento. Sua aparência não provocara alarma, e tão silenciosamente eram executados os seus planos que a atenção de Moisés não foi chamada para o caso. Era o objetivo dessas mulheres, em sua associação com os hebreus, seduzi-los a transgredir a lei de Deus, atrair sua atenção para os ritos e costumes pagãos, e levá-los à idolatria. Tais intuitos eram cuidadosamente ocultos sob o aspecto de amizade, de modo que não houve suspeita dos mesmos, até para os guardas do povo.

Por sugestão de Balaão, foi pelo rei de Moabe designada uma grande festa em honra a seus deuses, e arranjou-se secretamente que Balaão induzisse os israelitas a assistirem à mesma. Ele era considerado por estes como um profeta de Deus, e por isso teve pouca dificuldade em realizar seu propósito. Grande número de pessoas uniram-se a ele, testemunhando as festas. Aventuraram-se a ir ao terreno proibido, e foram enredados na cilada de Satanás. Iludidos pela música e dança, e seduzidos pela beleza das vestais gentílicas, romperam sua fidelidade para com Jeová. Unindo-se-lhes nos folguedos e festins, a condescendência com o vinho enuviou-lhes os sentidos e derribou as barreiras do domínio próprio. A paixão teve pleno domínio; e, havendo contaminado a consciência pela depravação, foram persuadidos a curvar-se aos ídolos. Ofereceram sacrifícios sobre os altares gentílicos, e participaram dos mais degradantes ritos.

Não demorou muito tempo para que o veneno se espalhasse, como uma infecção mortal, pelo acampamento de Israel. Aqueles que teriam conquistado seus inimigos na batalha, foram vencidos pelos ardis das mulheres gentílicas. O povo parecia ter endoidecido. Os príncipes e principais homens estavam entre os primeiros a transgredir, e eram tantos os culpados dentre o povo, que a apostasia se tornou nacional. Juntou-se pois "Israel a

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Baal-Peor". Núm. 25:3. Quando Moisés se apercebeu do mal, as tramas de seus inimigos tinham sido tão bem-sucedidas que não somente se achavam os israelitas a participar do culto licencioso do Monte Peor, mas os ritos pagãos estavam vindo a ser observados no acampamento de Israel. O idoso chefe encheu-se de indignação, e acendeu-se a ira de Deus. As suas práticas iníquas fizeram para Israel aquilo que todos os encantamentos de Balaão não poderiam fazer - separaram-nos de Deus. Por meio de juízos que se não fizeram esperar, o povo foi despertado para a enormidade de seu pecado. Uma pestilência terrível irrompeu no arraial, da qual dezenas de milhares de pronto foram presa. Deus ordenou que os líderes desta apostasia fossem mortos pelos magistrados. Esta ordem foi prontamente obedecida. Os transgressores foram mortos; então seus corpos foram suspensos à vista de todo o Israel, para que a congregação, vendo os dirigentes tão severamente tratados, pudesse ter uma intuição profunda da aversão de Deus ao seu pecado, e do terror de Sua ira contra eles.

Todos entendiam que o castigo era justo; e o povo foi apressadamente ao tabernáculo, e com lágrimas e profunda humilhação confessou seu pecado. Enquanto assim estavam a chorar diante de Deus, à porta do tabernáculo, ao mesmo tempo em que a praga ainda estava a fazer a sua obra de morte, e os magistrados cumpriam sua terrível missão, Zinri, um dos nobres de Israel, veio ousadamente ao acampamento, em companhia de uma meretriz midianita, princesa de importante casa de Midiã, a quem ele levara para a sua tenda. Nunca o vício foi mais ousado ou pertinaz. Inflamado pelo vinho, Zinri publicava seu pecado "como Sodoma"; gloriava-se em sua vergonha. Os sacerdotes e chefes haviam-se prostrado com pesar e humilhação, chorando "entre o alpendre e o altar" (Joel 2:17), e rogando ao Senhor que poupasse Seu povo, e não desse Sua herança ao opróbrio, enquanto esse príncipe de Israel fazia ostentação de seu pecado à vista da congregação, como que a desafiar a vingança de Deus, e zombar dos juízes da nação. Finéias, filho de Eleazar, sumo sacerdote, levantou-se dentre a congregação, e tomando uma lança "foi após do varão israelita até à tenda" (Núm. 25:8), e matou a ambos. Assim a praga cessou, enquanto o sacerdote que executara o juízo divino foi honrado perante todo o Israel, e o sacerdócio foi confirmado a ele e sua casa para sempre. Finéias "desviou a Minha ira de sobre os filhos de Israel", foi Pág. 456 a mensagem divina; "portanto dize: Eis que lhe dou o Meu concerto de paz, e ele, e a sua semente depois dele, terá o concerto do sacerdócio perpétuo; porquanto teve zelo pelo seu Deus, e fez propiciação pelos filhos de Israel". Núm. 25:11-13.

Os juízos que visitaram Israel, por causa de seu pecado, em Sitim, destruíram os sobreviventes daquela vasta multidão, que, quase quarenta anos antes, incorrera nesta sentença: "Certamente morrerão no deserto." A contagem do povo feita por determinação divina, durante seu acampamento nas planícies do Jordão, mostrou que "dos que foram contados por Moisés e Arão, o sacerdote, quando contaram aos filhos de Israel no deserto de Sinai, ... nenhum deles ficou senão Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num." Núm. 26:64 e 65.

Deus enviara juízos sobre Israel por haverem cedido às seduções dos midianitas; mas os tentadores não deveriam escapar da ira da justiça divina. Os amalequitas, que haviam atacado Israel em Refidim, caindo sobre aqueles que estavam desfalecidos e cansados na retaguarda das hostes, só muito tempo depois é que foram punidos; mas os midianitas, que os seduziram ao pecado, tiveram de sentir prontamente os juízos de Deus, como sendo os inimigos mais perigosos. "Vinga os filhos de Israel dos midianitas", foi a ordem de Deus a Moisés; "depois recolhido serás aos teus povos." Núm. 31:2. Esta ordem foi imediatamente obedecida. Mil homens foram escolhidos de cada tribo, e enviados sob a chefia de Finéias. "E pelejaram contra os midianitas, como o Senhor ordenara a Moisés. ... Mataram mais, além dos que já foram mortos, os reis dos midianitas; ... cinco reis dos midianitas; também a Balaão filho de Beor mataram à espada". Núm. 31:7 e 8. As mulheres também, que foram feitas prisioneiras, pelo exército atacante, foram mortas por ordem de Moisés, como os mais culpados e perigosos dos adversários de Israel.

Tal foi o fim daqueles que imaginaram malefício contra o povo de Deus. Diz o salmista: "As gentes precipitaram-se na cova que abriram; na rede que ocultaram ficou preso o seu pé." Sal. 9:15. "Pois o Senhor não rejeitará o Seu povo, nem desamparará a Sua herança. Mas o juízo voltará a ser justiça." Quando os homens "acorrem em tropel contra a vida do justo", o Senhor "fará recair sobre eles a sua própria iniqüidade; e os destruirá na sua própria malícia". Sal. 94:14, 15, 21 e 23. Pág. 457

Quando Balaão foi chamado para amaldiçoar os hebreus, não pôde com todos os seus encantamentos trazer mal sobre eles; pois o Senhor "não viu iniqüidade em Israel, nem contemplou maldade em Jacó". Mas, quando em virtude de cederem à tentação transgrediram a lei de Deus, Sua defesa se afastou deles. Quando o povo de Deus é fiel aos Seus mandamentos, "contra Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel". Núm. 23:21 e 23. Daí exercer Satanás todo o seu poder e seus ardis para os seduzir ao pecado. Se aqueles que professam ser depositários da lei de Deus se tornam transgressores de seus preceitos, separam-se de Deus, e serão incapazes de subsistirem perante seus inimigos.

Os israelitas, que não puderam ser vencidos pelas armas ou pelos encantamentos de Midiã, foram presa de suas meretrizes. Tal é o poder que a mulher, alistada ao serviço de Satanás, tem exercido para prender e destruir as almas. "A muitos feridos derribou, e são muitíssimos os que por ela foram mortos." Prov. 7:26. Foi assim que os filhos de Sete foram desviados de sua integridade, e a semente santa se tornou corrupta. Assim foi José tentado. Assim traiu Sansão a sua força, a defesa de Israel, nas mãos dos filisteus. Nisto Davi tropeçou. E Salomão, o mais sábio dos reis, que três vezes fora chamado o amado de seu Deus, tornou-se escravo da paixão, e sacrificou sua integridade ao mesmo poder fascinante.

"Ora tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. Aquele pois que cuida estar em pé, olhe não caia." I Cor. 10:11 e 12. Satanás bem conhece o material com que tem a lidar no coração humano. Ele sabe - pois tem estudado com diabólica intensidade durante milhares de anos - quais os pontos que mais facilmente podem ser assaltados no caráter de cada um; e durante gerações sucessivas tem ele operado a fim de subverter os homens mais fortes, os príncipes de Israel, pelas mesmas tentações que tiveram tanto êxito em Baal-Peor. Todos os períodos da História se acham repletos de caracteres que naufragaram de encontro aos recifes da condescendência sensual. Aproximando-nos do final do tempo, ao achar-se o povo de Deus nas fronteiras da Canaã celestial, Satanás redobrará, como fez antigamente, os seus esforços para os impedir de entrar na boa terra. Arma as suas ciladas a toda a alma. Não é simplesmente o ignorante ou sem letras que necessita de ser guardado; ele preparará suas Pág. 458

tentações para os que se encontram nas mais elevadas posições, no mais santo mister; se ele os puder levar a poluir a alma, poderá por meio deles destruir a muitos. E ele agora emprega os mesmos fatores que empregou há três mil anos atrás. Por meio de amizades mundanas, pelos encantos da beleza, pela procura de prazeres, folguedos, festins ou bebidas, tenta ele à violação do sétimo mandamento. Satanás seduziu Israel à depravação antes de os levar à idolatria. Aqueles que desonrarem a imagem de Deus e macularem Seu templo em suas próprias pessoas, não terão escrúpulos para praticarem qualquer desonra a Deus que satisfaça o desejo de seus depravados corações. A condescendência sensual enfraquece o espírito e avilta a alma. As faculdades morais e intelectuais ficam embotadas e paralisadas pela satisfação das inclinações animais; e é impossível ao escravo da paixão compenetrar-se da obrigação sagrada imposta pela lei de Deus, apreciar a obra expiatória, ou dar o devido valor à alma. Bondade, pureza e verdade, reverência para com Deus e amor pelas coisas sagradas - e tudo isto são afeições santas e nobres desejos que ligam os homens ao mundo celestial - são consumidos nos fogos da lascívia. A alma se torna um deserto enegrecido e desolado, habitação de espíritos maus, e "guarida de toda a ave hedionda e abominável". Seres formados à imagem de Deus são arrastados ao nível dos irracionais.

Foi associando-se com os idólatras e unindo-se às suas festas que os hebreus foram levados a transgredir a lei de Deus, e trazer Seus juízos sobre a nação. Assim, agora, é levando os seguidores de Cristo a associar-se com os ímpios e unir-se às suas diversões que Satanás é mais bem-sucedido ao induzi-los ao pecado. "Saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis nada imundo." II Cor. 6:17. Deus requer hoje de Seu povo uma distinção tão grande do mundo, nos costumes, hábitos e princípios, como exigia de Israel antigamente. Se fielmente seguirem os ensinos de Sua Palavra, existirá esta distinção; não poderá ser de outra maneira. As advertências feitas aos hebreus contra o identificarem-se com os gentios, não eram mais diretas ou explícitas do que as que vedam aos cristãos adaptar-se ao espírito e costumes dos ímpios. Cristo nos fala: "Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele." I João 2:15. "A amizade do mundo é inimizade contra Deus"; "portanto qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se Pág. 459

inimigo de Deus." Tia. 4:4. Os seguidores de Cristo devem separar-se dos pecadores, procurando sua companhia apenas quando há oportunidade de fazer-lhes bem. Nunca seríamos demasiado decididos em evitar a companhia daqueles que exercem influência para desviar-nos de Deus. Ao mesmo tempo em que oramos: "Não nos deixes cair em tentação" (Mat. 6:13), devemos excluir a tentação tanto quanto possível.

Foi quando os israelitas se achavam em uma condição de comodidade e segurança exterior que foram levados ao pecado. Deixaram de conservar a Deus sempre diante de si, negligenciaram a oração, e acariciaram um espírito de confiança em si próprios. A comodidade e condescendência consigo mesmos, deixaram desguarnecida a cidadela da alma, dando entrada a pensamentos aviltantes. Foram os traidores dentro dos muros que subverteram as fortalezas do princípio e traíram Israel ao poder de Satanás. É assim que Satanás ainda procura conseguir a ruína da alma. Uma longa operação preparatória desconhecida ao mundo, tem lugar no coração, antes que o cristão cometa francamente o pecado. A alma não desce de pronto da pureza e santidade à depravação, corrupção e crime. Leva tempo para que se degradem aqueles que foram formados à imagem de Deus, ao estado brutal e satânico. Pelo contemplar nos transformamos. Alimentando pensamentos impuros, o homem pode de tal maneira conduzir a mente que o pecado que uma vez lhe repugnava tornar-se-lhe-á agradável. Satanás está empregando todos os meios para tornar populares o crime e o vício aviltante. Não podemos andar pelas ruas de nossas cidades sem encontrar notícias inflamantes de crimes, apresentadas em algum romance, ou a serem representados em algum teatro. A mente é educada de maneira a familiarizar-se com o pecado. A conduta seguida pelos que são baixos e vis é posta perante o povo nos jornais do dia, e tudo que pode provocar a paixão é trazido perante eles em histórias excitantes. Ouvem e lêem tanto acerca de crimes aviltantes que a consciência, que já fora delicada, e que teria recuado com horror de tais cenas, se torna endurecida, e ocupam-se com tais coisas com ávido interesse.

Muitos dos divertimentos populares do mundo hoje, mesmo entre aqueles que pretendem ser cristãos, propendem para os mesmos fins que os dos gentios, outrora. Poucos há na verdade entre eles, que Satanás não torne responsáveis pela destruição de almas. Por meio do teatro ele tem operado durante séculos para despertar a paixão e glorificar o vício. A ópera com sua fascinadora Pág. 460

ostentação e música sedutora, o baile de máscaras, a dança, o jogo, Satanás emprega para derribar as barreiras do princípio e abrir a porta à satisfação sensual. Em todo ajuntamento onde é alimentado o orgulho e satisfeito o apetite, onde a pessoa é levada a esquecer-se de Deus e perder de vista os interesses eternos, está Satanás atando suas correntes em redor da alma. "Guarda o teu coração", é o conselho do sábio, "porque dele procedem as saídas da vida." Prov. 4:23. Conforme o homem "imaginou na sua alma, assim é". Prov. 23:7. O coração deve ser renovado pela graça divina, ou será em vão procurar pureza de vida. Aquele que tenta edificar um caráter nobre, virtuoso, independente da graça de Cristo, está edificando sua casa sobre areia movediça. Nas cruéis tempestades da tentação certamente será ela derribada. A oração de Davi deve ser a petição de toda alma: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto." Sal. 51:10. E, tendo-nos tornado participantes do dom celestial, devemos prosseguir até à perfeição, sendo "mediante a fé"

"guardados na virtude de Deus". I Ped. 1:5.

Temos todavia uma obra a fazer a fim de resistirmos à tentação. Aqueles que não querem ser presa dos ardis de Satanás devem bem guardar as entradas da alma; devem evitar ler, ver, ou ouvir aquilo que sugira pensamentos impuros. A mente não deve ser deixada a divagar ao acaso em todo o assunto que o adversário das almas possa sugerir. "Cingindo os lombos do vosso entendimento", diz o apóstolo Pedro, "sede sóbrios, ... não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; mas, como é santo Aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver." I Ped. 1:13-15. Diz Paulo: "Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai." Filip. 4:8. Isto exigirá oração fervorosa e incessante vigiar. Devemos ser auxiliados pela influência permanente do Espírito Santo, que atrairá a mente para cima, e habituá-la-á a ocupar-se com coisas puras e santas. E devemos fazer estudo diligente da Palavra de Deus. "Como purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a Tua Palavra. Escondi a Tua Palavra no meu coração",

diz o salmista, "para eu não pecar contra Ti." Sal. 119:9 e 11. Pág. 461

O pecado de Israel em Bete-Peor acarretou os juízos de Deus sobre a nação, e, embora os mesmos pecados hoje não sejam punidos tão prontamente, de um modo tão certo terão eles a sua paga. "Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá." I Cor. 3:17. A natureza determinou penas terríveis a estes crimes, penas estas que, mais cedo ou mais tarde, serão infligidas a todo o transgressor. São estes pecados mais do que outros quaisquer os que têm causado a terrível degeneração de nossa espécie, e o cortejo de moléstias e miséria que faz a desgraça do mundo. Os homens podem ter êxito ao esconder de seus semelhantes as suas transgressões, mas nem por isso deixarão de ceifar infalivelmente os resultados, em sofrimentos, moléstias, imbecilidade ou morte. E além desta vida encontra-se o tribunal do Juízo, com sentenças de eterna punição. "Os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus" (Gál. 5:21), mas com Satanás e os anjos maus terão parte naquele "lago de fogo", que é a "segunda morte". Apoc. 20:14.

"Os lábios da mulher estranha destilam favos de mel, e o seu paladar é mais macio do que o azeite; mas o seu fim é amargoso como o absinto, agudo como a espada de dois fios. Afasta dela o teu caminho e não te aproximes da porta da sua casa; para que não dês a outro a tua honra, nem os teus anos a cruéis. Para que não se fartem os estranhos do teu poder, e todos os teus trabalhos entrem na casa do estrangeiro; e gemas no teu fim, quando se consumirem a tua carne e o teu corpo." Prov. 5:3, 4, 8-11. "Sua casa se inclina para a morte." "Todos os que se dirigem a ela não voltarão." Prov. 2:18 e 19. "Seus convidados estão nas profundezas do inferno." Prov. 9:18. 42

A Repetição da Lei

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O Senhor anunciou a Moisés que o tempo designado para a posse de Canaã estava às portas; e, achando-se o idoso profeta em pé sobre as elevações sobranceiras ao rio Jordão e a Terra Prometida, contemplou com profundo interesse a herança de seu povo. Seria possível que a sentença pronunciada contra ele, por causa de seu pecado em Cades, pudesse ser revogada? Com grande ardor rogou: "Senhor Jeová! Já começaste a mostrar ao Teu servo a Tua grandeza, e a Tua forte mão; porque, que deus há nos céus e na Terra, que possa obrar segundo as Tuas obras, e segundo a Tua fortaleza? Rogo-Te que me deixes passar, para que veja esta boa terra que está de além do Jordão; esta boa montanha, e o Líbano." Deut. 3:24-27.

A resposta foi: "Basta; não Me fales mais nesse negócio. Sobe ao cume de Pisga, e levanta teus olhos ao ocidente e ao norte, e ao sul, e ao oriente, e vê com os teus olhos; porque não passarás este Jordão."

Sem murmurar Moisés sujeitou-se ao decreto de Deus. E agora sua grande ansiedade era por Israel. Quem sentiria pelo bem-estar deles o interesse que ele sentira? De um coração repleto ele derramou esta oração: "O Senhor, Deus dos espíritos de toda a carne, ponha um homem sobre esta congregação, que saia diante deles, e que entre diante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar; para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor." Núm. 27:16-23. O Senhor ouviu a oração de Seu servo; e a resposta veio: "Toma para ti a Josué, filho de Num, homem em quem há o Espírito, e põe a tua mão sobre ele. E apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação, e dá-lhe mandamentos aos olhos deles; e põe sobre ele da tua glória, para que obedeça

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toda a congregação dos filhos de Israel." Josué havia durante muito tempo auxiliado a Moisés; e, sendo homem de sabedoria, habilidade e fé, foi escolhido para suceder-lhe. Mediante a imposição das mãos por Moisés, acompanhada de impressionante conjuração, Josué foi solenemente separado como chefe de Israel. Foi também admitido a participar desde então no governo. As palavras do Senhor concernentes a Josué vieram por meio de Moisés à congregação: "E se porá perante Eleazar, o sacerdote, o qual por ele consultará, segundo o juízo de Urim, perante o Senhor; conforme ao seu dito sairão, e conforme ao seu dito entrarão, ele e todos os filhos de Israel com ele, e toda a congregação." Núm. 27:18, 19 e 21.

Continuar: parte 2 de 4