Patriarcas e Profetas
Poucos, sendo submetidos a tal prova, ter-se-iam…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Poucos, sendo submetidos a tal prova, ter-se-iam mostrado tão nobres como Abraão. Poucos teriam resistido à tentação de adquirir
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um despojo tão rico. Seu exemplo é uma reprovação aos espíritos egoístas e mercenários. Abraão tomava em consideração os direitos da justiça e humanidade. Sua conduta ilustra a máxima inspirada: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo". Lev. 19:18. "Levantei minha mão ao Senhor", disse ele, "o Deus altíssimo, o Possuidor dos Céus e da Terra, que desde um fio até à correia dum sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, para que não digas: Eu enriqueci a Abraão." Gên. 14:17-24. Ele não lhes daria ocasião para pensarem que se empenhara em guerra por amor ao ganho, ou para atribuírem sua prosperidade a dádivas ou favor deles. Deus prometera abençoar Abraão, e a Ele seria atribuída a glória.
Outro que viera para dar as boas-vindas ao patriarca vitorioso, foi Melquisedeque, rei de Salém, que trouxe pão e vinho para alimento de seu exército. Como "sacerdote do Deus altíssimo, pronunciou uma bênção sobre Abraão, e deu graças ao Senhor que operara um tão grande livramento por meio de Seu servo. E Abraão "deu-lhe o dízimo de tudo".
Abraão voltou com alegria para as suas tendas e rebanhos; mas seu espírito estava perturbado por pensamentos que o incomodavam. Tinha sido um homem de paz, excluindo tanto quanto possível a inimizade e a contenda; e com horror lembrava-se das cenas de carnificina que testemunhara. Mas as nações cujas forças ele havia derrotado, sem dúvida renovariam a invasão de Canaã, e dele fariam o objeto especial de sua vingança. Envolvendo-se desta maneira em questões nacionais, quebrar-se-ia a calma pacífica de sua vida. Demais, ele não havia entrado na posse de Canaã, tampouco poderia ter então esperança de um herdeiro, a quem pudesse cumprir-se a promessa. Em uma visão da noite ouviu de novo a voz divina. "Não temas, Abraão", foram as palavras do Príncipe dos príncipes; "Eu sou o teu escudo, o teu grandíssimo galardão." Gên. 15:1-5. Mas sua mente estava tão oprimida com sinais que ele não pôde então apreender a promessa com implícita confiança, como antes fazia. Orou pedindo alguma prova palpável de que ela se cumpriria. E como deveria cumprir-se a promessa do concerto, enquanto o dom de um filho lhe era recusado? "Que me hás de dar", disse ele, "pois ando sem filhos?" Gên. 15:2. "E eis que um nascido na minha casa será o meu herdeiro." Gên. 15:3. Propôs fazer de seu fiel servo Eliézer seu filho adotivo, e herdeiro de suas posses. Mas foi-lhe Pág. 137
assegurado que um filho dele mesmo seria o seu herdeiro. Levado para fora de sua tenda, foi-lhe dito que olhasse para as incontáveis estrelas a resplandecer nos céus; e, fazendo ele isto, foram proferidas estas palavras: "Assim será a tua semente." Gên. 15:5. "Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça." Rom. 4:3.
O patriarca pediu ainda algum sinal visível em confirmação de sua fé, e como prova para as gerações posteriores de que os propósitos de Deus, cheios de graça, para com elas, seriam cumpridos. O Senhor condescendeu em fazer um concerto com Seu servo, empregando as mesmas formas que eram usuais entre os homens para a ratificação de um contrato solene. Por determinação divina, Abraão sacrificou uma bezerra, uma cabra e um carneiro, cada um de três anos, dividindo os corpos, e pondo os pedaços a pequena distância entre si. A estes acrescentou ele uma rola e um pombinho, que, entretanto, não foram divididos. Isto feito, reverentemente passou entre as partes do sacrifício, fazendo a Deus um voto solene de perpétua obediência. Atento e perseverante permaneceu ao lado dos corpos mortos, até baixar-se o Sol, a fim de os guardar de serem contaminados ou comidos pelas aves de rapina. Aproximadamente ao pôr-do-sol, caiu em um profundo sono; "e eis que grande espanto e grande escuridão caiu sobre ele". Gên. 15:7-18. Ouvida a voz de Deus, ordenando-lhe que não esperasse a posse imediata da terra prometida, e indicando no futuro os sofrimentos de sua posteridade antes de seu estabelecimento em Canaã. O plano da redenção foi-lhe ali desvendado, na morte de Cristo, o grande sacrifício, e em Sua vinda em glória. Abraão viu também a Terra restabelecida à sua beleza edênica, para lhe ser dada em possessão eterna, como o cumprimento final e completo da promessa. Como garantia deste concerto de Deus com os homens, um forno de fumo e uma tocha de fogo, símbolos da presença divina, passaram por entre as vítimas repartidas, consumindo-as totalmente. E de novo foi ouvida por Abraão uma voz, confirmando a dádiva da terra de Canaã a seus descendentes, "desde o rio Egito até o grande rio Eufrates".
Quando Abraão tinha estado quase vinte e cinco anos em Canaã, o Senhor lhe apareceu e disse-lhe: "Eu sou o Deus todo-poderoso, anda em Minha presença e sê perfeito." Gên. 17:1-16. Com temor reverente, o patriarca prostrou-se, rosto em terra, e a mensagem continuou: "Eis o Meu concerto contigo é, e serás o pai de uma multidão de nações". Gên. 17:4. Em sinal do cumprimento deste Pág. 138
concerto, seu nome, que até ali era Abrão, foi mudado para Abraão, que significa: "pai de uma multidão". Gên. 17:5. O nome de Sarai tornou-se Sara - "princesa", "porque", disse a voz divina, "será mãe das nações; reis de povos sairão dela". Gên. 17:16. Nesta ocasião o rito da circuncisão foi dado a Abraão como "selo da justiça da fé quando estava na incircuncisão". Rom. 4:11. Deveria ser observado pelo patriarca e seus descendentes como sinal de que eram dedicados ao serviço de Deus e assim separados dos idólatras, e de que Deus os aceitava como Seu tesouro peculiar. Por meio deste rito comprometiam-se a satisfazer, por sua parte, as condições do concerto feito com Abraão. Não deveriam contrair matrimônio com os gentios; pois, assim fazendo, perderiam sua reverência para com Deus e Sua santa lei; seriam tentados a entregar-se às práticas pecaminosas de outras nações, e seduzidos à idolatria. Deus conferiu grande honra a Abraão. Anjos do Céu andavam e falavam com ele como faz um amigo a outro. Quando juízos estavam para cair sobre Sodoma, este fato não lhe foi oculto e ele se tornou intercessor junto a Deus pelos pecadores. Sua entrevista com os anjos apresenta também um belo exemplo de hospitalidade.
Na hora de maior calor de um dia de verão, o patriarca estava assentado à porta de sua tenda, olhando para a silenciosa paisagem, quando viu a distância três viajantes aproximando-se. Antes que chegassem à sua tenda, os estranhos pararam, como que consultando a respeito de seu caminho. Sem esperar que pedissem qualquer favor, Abraão levantou-se rápido e, quando aparentemente estavam a tomar outra direção, foi apressado após eles, e com a maior cortesia insistiu que o honrassem, detendo-se um pouco para uma merenda. Com as próprias mãos trouxe água para que lavassem de seus pés o pó da viagem. "Ele mesmo escolheu o alimento, e, enquanto estavam a descansar à fresca sombra, preparou-se a refeição, e respeitosamente permaneceu-lhes ao lado enquanto participavam de sua hospitalidade. Este ato de cortesia Deus considerou de importância suficiente para registrar-se em Sua Palavra; e, mil anos mais tarde, foi-lhe feita referência por um apóstolo inspirado: "Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos". Heb. 13:2. Abraão vira em seus hóspedes apenas três viajantes cansados, Pág. 139
mal supondo que entre eles estava Um, a quem poderia adorar sem pecado. Mas o verdadeiro caráter dos mensageiros celestiais foi agora revelado. Se bem que estivessem a caminho como ministros da ira, contudo a Abraão, o homem da fé, falaram a princípio de bênçãos. Posto que Deus seja estrito em notar a iniqüidade, e em punir a transgressão, não tem prazer na vingança. A obra de destruição é uma "estranha obra" (Isa. 25:28) para Aquele que é infinito no amor. "O segredo do Senhor é para os que O temem." Sal. 25:14. Abraão tinha honrado a Deus, e o Senhor o honrou, dando-lhe parte em Seus conselhos e revelando-lhe Seus propósitos. "Ocultarei Eu a Abraão o que faço?" disse o Senhor. "O clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito, descerei agora, e verei se com efeito tem praticado segundo este clamor, que é vindo até Mim; e, se não, sabê-lo-ei." Gên. 18:17-33. O Senhor bem sabia a medida do delito de Sodoma; exprimiu-Se, porém, segundo a maneira dos homens, para que a justiça de Seu trato pudesse ser compreendida. Antes de trazer o juízo sobre os transgressores, Ele próprio iria proceder a um exame de sua conduta; se não houvessem passado os limites da misericórdia divina, conceder-lhes-ia tempo para se arrependerem.
Dois dos mensageiros celestes partiram, deixando Abraão só com Aquele que agora soube ser o Filho de Deus. E o homem de fé pleiteou pelos habitantes de Sodoma. Uma vez ele os salvara com a espada; agora se esforçava por salvá-los pela oração. Ló e sua casa ainda eram moradores ali; e o abnegado amor que prontificara Abraão para os livrar dos elamitas, procurava agora salvá-los da calamidade dos juízos divinos, se tal fosse a vontade de Deus. Com profunda reverência e humildade insistiu em seu rogo: "Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza". Gên. 18:27. Não havia qualquer confiança em si próprio, nem jactância pela sua justiça. Não pretendia graça pelo motivo de sua obediência, ou dos sacrifícios que fizera ao cumprir a vontade de Deus. Sendo ele próprio pecador, rogava em prol do pecador. Tal espírito devem possuir todos os que se aproximam de Deus. Abraão manifestava contudo a confiança de uma criança a rogar a seu amado pai. Achegou-se ao mensageiro celeste, e instou fervorosamente com a sua petição. Conquanto Ló se tornasse morador em Sodoma, não participava da iniqüidade de seus habitantes. Abraão julgava que naquela populosa cidade deveria haver Pág. 140 outros adoradores do verdadeiro Deus. E em vista disto rogou ele: "Longe de Ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; ... longe de Ti seja. Não faria justiça o Juiz de toda a Terra?" Gên. 18:25. Abraão não pediu simplesmente uma vez, mas muitas vezes. Tornando-se mais ousado, ao serem satisfeitos os seus pedidos, continuou até obter certeza de que, se mesmo dez pessoas justas pudessem achar-se nela, a cidade seria poupada.
O amor pelas almas que pereciam, inspirava a oração de Abraão. Ao mesmo tempo em que lhe repugnavam os pecados daquela cidade corrupta, desejava que os pecadores pudessem salvar-se. Seu profundo interesse por Sodoma mostra a ansiedade que devemos experimentar pelos impenitentes. Devemos alimentar ódio ao pecado, mas piedade e amor para com o pecador. Em redor de nós existem almas que descem à ruína, tão irremediável, tão terrível, como aquela que recaiu sobre Sodoma. Cada dia o tempo de graça de alguém se encerra. Cada hora alguns passam para além do alcance da misericórdia. E onde estão as vozes de aviso e rogo, mandando o pecador fugir desta condenação terrível? Onde estão as mãos estendidas para o fazer retroceder do caminho da morte? Onde estão os que com humildade e fé perseverante intercedem junto a Deus por ele? O espírito de Abraão era o espírito de Cristo. O Filho de Deus é o grande intercessor em favor do pecador. Aquele que pagou o preço pela redenção da alma humana, sabe o valor de uma alma. Com tal antagonismo ao mal, que unicamente pode existir em uma natureza imaculadamente pura, Cristo manifestou para com o pecador um amor que apenas a infinita bondade poderia conceder. Nas agonias da crucifixão, Ele próprio sobrecarregado com o peso medonho dos pecados do mundo inteiro, orou por aqueles que O aviltavam e assassinavam: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". Luc. 23:34.
De Abraão está escrito que "foi chamado o amigo de Deus" (Tia. 2:23), "pai de todos os que crêem". Rom. 4:11. O testemunho de Deus com relação a este fiel patriarca, é: "Abraão obedeceu à Minha voz, e guardou o Meu mandado, os Meus preceitos, os Meus estatutos, e as Minhas leis". Gên. 26:5. E outra vez: "Eu o tenho conhecido, que ele há de ordenar a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para obrarem com justiça e juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado". Gên. 18:19. Alta honra aquela a que Abraão foi chamado, para ser o pai do povo que durante séculos foram os guardas e preservadores da verdade Pág. 141
de Deus para o mundo, sim, daquele povo por meio do qual todas as nações da Terra seriam benditas no advento do Messias prometido. Mas Aquele que chamou o patriarca julgou-o digno. É Deus quem fala. Aquele que de longe compreende os pensamentos, e dos homens faz justa apreciação, diz: "Eu o tenho conhecido". Não haveria por parte de Abraão qualquer traição à verdade por intuitos egoístas. Ele guardaria a lei, e procederia justa e retamente. E não somente temeria ele próprio o Senhor, mas cultivaria em seu lar a religião. Instruiria a família na justiça. A lei de Deus seria a regra em sua casa. A casa de Abraão compreendia mais de mil pessoas. Aqueles que eram levados pelos seus ensinos a adorar o único Deus, encontravam um lar em seu acampamento; e ali, como em uma escola, recebiam a instrução que os habilitaria a serem representantes da verdadeira fé. Assim, grande responsabilidade repousava sobre ele. Estava a educar chefes de famílias, e seus métodos de governo seriam levados para as casas a que eles presidiriam.
Nos tempos primitivos o pai era o governador e sacerdote de sua família, e exercia autoridade sobre os filhos, mesmo depois que estes tinham suas próprias famílias. Os descendentes eram ensinados a considerá-lo como seu chefe, tanto em assuntos religiosos como seculares. Este sistema de governo patriarcal Abraão esforçou-se por perpetuar, sendo que o mesmo favorecia a conservar o conhecimento de Deus. Era necessário ligar os membros da casa conjuntamente, para edificar-se uma barreira contra a idolatria, que se havia tornado tão espalhada e profundamente estabelecida. Abraão procurou por todos os meios ao seu alcance guardar os domésticos de seu acampamento de se misturarem com os gentios e de testemunharem suas práticas idólatras; pois sabia que a familiaridade com os maus corromperia insensivelmente os princípios. O máximo cuidado foi exercido para excluir toda a forma de religião falsa, e impressionar o espírito com a majestade e glória do Deus vivo como o verdadeiro objeto de culto.
Foi uma sábia disposição, que o próprio Deus tomara, a de separar Seu povo, tanto quanto possível, da ligação com os gentios, fazendo do mesmo um povo que habitasse só, e que não fosse contado entre as nações. Ele havia separado Abraão de sua parentela idólatra, para que o patriarca pudesse ensinar e educar a família, afastados das influências sedutoras que os cercariam Pág. 142 na Mesopotâmia, e para que a verdadeira fé pudesse ser preservada em sua pureza pelos descendentes, de geração em geração.
A afeição de Abraão para com seus filhos e sua casa, levou-o a guardar a fé religiosa dos mesmos, a comunicar-lhes o conhecimento dos estatutos divinos, como o legado mais precioso que ele lhes poderia transmitir, e por meio deles ao mundo. A todos se ensinava que estavam sob o governo do Deus do Céu. Não deveria haver opressão por parte dos pais, nem desobediência por parte dos filhos. A lei de Deus havia indicado a cada um os seus deveres, e apenas na obediência a ela poderia alguém conseguir felicidade e prosperidade.
Seu próprio exemplo, a influência silenciosa de sua vida diária, eram uma lição constante. A persistente integridade, a beneficência e cortesia abnegada, que haviam conquistado a admiração dos reis, eram ostentadas em seu lar. Havia uma fragrância em torno de sua vida, uma nobreza e formosura de caráter, que revelavam a todos que ele estava em ligação com o Céu. Ele não negligenciava a alma do mais humilde servo. Em sua casa não havia uma lei para o senhor e outra para o servo; um régio caminho para o rico, e outro para o pobre. Todos eram tratados com justiça e compaixão, como herdeiros com ele da graça da vida.
Ele "há de ordenar a sua casa". Gên. 26:5. Não haveria uma negligência pecaminosa em restringir as más propensões de seus filhos, tampouco qualquer favoritismo fraco, imprudente, condescendente; nem renúncia à sua convicção do dever ante as exigências de uma afeição mal-entendida. Abraão não somente dava a instrução exata, mas mantinha a autoridade de leis justas e retas. Quão poucos há em nossos dias que seguem este exemplo! Por parte de muitos pais há um sentimentalismo cego e egoísta, impropriamente chamado amor, que se manifesta deixando-se as crianças, com o juízo ainda por formar-se e as paixões indisciplinadas, à direção de sua própria vontade. Isto é a máxima crueldade para com a juventude, e grande mal ao mundo. A condescendência por parte dos pais ocasiona desordem nas famílias e na sociedade. Confirma no jovem o desejo de seguir a inclinação, em vez de se submeter aos mandamentos divinos. Assim crescem com um coração adverso a fazer a vontade de Deus, e transmitem o espírito irreligioso e insubordinado a seus filhos, e filhos de seus filhos. Como Abraão, devem os pais ordenar as suas casas depois deles. Que a obediência à autoridade paterna seja
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ensinada e imposta como o primeiro passo na obediência à autoridade de Deus. A pouca estima em que a lei de Deus é tida, mesmo pelos dirigentes religiosos, tem sido causa de grandes males. O ensino que se tornou tão espalhado, de que os estatutos divinos não mais vigoram para os homens, é o mesmo que a idolatria em seu efeito sobre a moral do povo. Aqueles que procuram diminuir as reivindicações da santa lei de Deus, estão ferindo diretamente o fundamento do governo das famílias e nações. Pais religiosos, que deixam de andar em Seus estatutos, não ordenam sua casa de modo a observarem o caminho do Senhor. Não se faz da lei de Deus a regra da vida. Os filhos, ao constituírem lar, não se sentem na obrigação de ensinar a seus filhos aquilo em que eles mesmos nunca foram ensinados. E esta é a razão por que há tantas famílias sem Deus; é a razão por que a depravação é tão profunda e espalhada.
Antes que os próprios pais andem na lei do Senhor com coração perfeito, não estarão preparados para ordenar a seus filhos depois deles. Necessita-se de uma reforma neste sentido, reforma que seja profunda e extensa. Os pais necessitam de reformar-se; pastores o necessitam; necessitam de Deus em suas casas. Se desejam ver um estado de coisas diverso, devem proporcionar a Palavra de Deus a suas famílias, e dela fazer seu conselheiro. Devem ensinar aos filhos que ela é a voz de Deus a eles dirigida e que lhe devem obedecer implicitamente. Devem pacientemente instruir seus filhos, amável e incansavelmente ensinar-lhes como viver de modo a agradar a Deus. Os filhos de tal casa estão preparados para enfrentar os sofismas da incredulidade. Aceitaram a Bíblia como a base de sua fé, e têm um fundamento que não pode ser varrido pela maré invasora do ceticismo. Em muitos lares a oração é negligenciada. Os pais entendem que não possuem tempo para o culto da manhã e da noite. Não podem economizar alguns momentos para serem dispendidos em ações de graças a Deus pelas Suas abundantes misericórdias - pela bendita luz do Sol e pela chuva, as quais fazem com que a vegetação floresça, e pela guarda dos santos anjos. Não têm tempo para fazerem oração pedindo auxílio e guia divinos, e rogando a contínua presença de Jesus na casa. Saem para o trabalho como o boi ou o cavalo, sem um pensamento de Deus ou do Céu. Têm almas tão preciosas que, em vez de consentir o Filho do homem ficassem elas perdidas, deu Ele a vida para Pág. 144 resgatá-las; eles, porém, têm pouco mais apreciação de Sua grande bondade do que a têm os animais que perecem.
Semelhantes aos patriarcas da antiguidade, os que professam amar a Deus devem construir um altar ao Senhor onde quer que armem sua tenda. Se houve um tempo em que cada casa deve ser uma casa de oração, é hoje. Pais e mães devem muitas vezes erguer o coração a Deus em humilde súplica por si e por seus filhos. Que o pai, como o sacerdote da casa, deponha sobre o altar de Deus o sacrifício da manhã e da tarde, enquanto a esposa e filhos se unem em oração e louvor. Em uma casa tal, Jesus gostará de demorar-Se.
De todo lar cristão deve resplandecer uma santa luz. O amor deve revelar-se nas ações. Deve promanar de toda a relação doméstica, mostrando-se em uma bondade meditada, em uma cortesia gentil, abnegada. Há lares em que este princípio é levado a efeito, lares em que Deus é adorado, e em que reina o mais verdadeiro amor. Destes lares as orações matutinas e vespertinas sobem a Deus como incenso suave, e Suas misericórdias e bênçãos descem sobre os suplicantes como o orvalho da manhã.
Uma casa cristã bem ordenada é um poderoso argumento em favor da realidade da religião cristã, argumento que o incrédulo não pode contradizer. Todos podem ver que há na família uma influência em atividade, a qual afeta os filhos, e que o Deus de Abraão está com eles. Se os lares dos professos cristãos tivessem um molde religioso correto, exerceriam uma poderosa influência para o bem. Seriam na verdade "a luz do mundo". Mat. 5:14. O Deus do Céu fala a todo o pai fiel, nas palavras dirigidas a Abraão: "Eu o tenho conhecido, que ele há de ordenar a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para obrarem com justiça e juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado". Gên. 18:19.
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A Prova da Fé
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Abraão aceitara sem pôr em dúvida a promessa de um filho, mas não esperou que Deus cumprisse a palavra no tempo e maneira que Ele o entendia. Foi permitida uma demora para provar sua fé no poder de Deus; mas ele não pôde suportar a prova. Achando impossível que lhe fosse dado um filho em sua avançada idade, Sara sugeriu, como um plano pelo qual o propósito divino poderia cumprir-se, que uma de suas servas fosse tomada por Abraão como segunda mulher. A poligamia se tornara tão espalhada que deixara de ser considerada como pecado; mas nem por isso deixava de ser uma violação da lei de Deus, e era de resultado fatal à santidade e paz na relação da família. Do casamento de Abraão com Hagar resultaram males, não somente para a sua própria casa, mas para as gerações futuras. Lisonjeada pela honra de sua nova posição como esposa de Abraão, e esperando ser a mãe da grande nação que dele descenderia, Hagar se tornou orgulhosa, jactanciosa, e tratou sua senhora com desprezo. Ciúmes recíprocos perturbavam a paz do lar que fora feliz. Obrigado a escutar as queixas de ambas, Abraão inutilmente se esforçou por estabelecer de novo a harmonia. Se bem que fosse pelos rogos encarecidos de Sara que ele desposara Hagar, ela o censurava agora como o faltoso. Desejava banir sua rival; mas Abraão recusou-se a consentir nisto; pois Hagar seria mãe de seu filho, como ele ansiosamente esperava, o filho da promessa. Ela era serva de Sara, contudo; e ele a deixou ainda sob o domínio de sua senhora. O espírito altivo de Hagar não tolerava a aspereza que sua própria insolência provocara. "E afligiu-a Sarai, e ela fugiu da sua face." Gên. 16:6-13. Hagar se encaminhou para o deserto, e, quando repousava ao lado de uma fonte, sozinha e sem amigos, apareceu-lhe um anjo do Senhor, sob a forma humana. Dirigindo-se a ela como "Hagar, serva de Sarai" (Gên. 16:8), para a fazer lembrar de sua posição e deveres, Pág. 146
ordenou-lhe: "Torna-te para a tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos". Gên. 16:9. Todavia, com a repreensão houve, de mistura, palavras de consolação. "O Senhor ouviu a tua aflição."
"Multiplicarei sobremaneira a tua semente, que não será contada, por numerosa que será." Gên. 16:9. E, como uma lembrança perpétua de Sua misericórdia, foi-lhe ordenado chamar a seu filho, Ismael - "Deus ouvirá".
Quando Abraão tinha quase cem anos de idade, a promessa de um filho foi-lhe repetida, com a informação de que o futuro herdeiro seria filho de Sara. Mas Abraão ainda não compreendeu a promessa. Sua mente de pronto volveu para Ismael, apegando-se à crença de que por meio dele os propósitos graciosos de Deus deveriam cumprir-se. Em sua afeição para com o filho, exclamou: "Oxalá que viva Ismael diante de Teu rosto". Gên. 17:18-20. De novo foi feita a promessa, com palavras que não poderiam ser malcompreendidas: "Na verdade, Sara tua mulher te dará um filho, e chamarás o seu nome Isaque, e com ele estabelecerei o Meu concerto." Deus, contudo, não Se esqueceu da oração do pai. "E quanto a Ismael", disse Ele, "também te tenho ouvido; eis aqui o tenho abençoado, ... e dele farei uma grande nação."
O nascimento de Isaque, trazendo a realização de suas mais caras esperanças, após uma espera da duração de uma vida, encheu de alegria as tendas de Abraão e Sara. Mas para Hagar este acontecimento foi a destruição de suas aspirações enternecidamente acalentadas. Ismael, agora um rapaz, fora considerado por todos no acampamento como o herdeiro da riqueza de Abraão, e das bênçãos prometidas a seus descendentes. Agora foi subitamente posto de lado; e, em seu desapontamento, mãe e filho odiaram o filho de Sara. O regozijo geral aumentou a sua inveja, até que Ismael ousou zombar abertamente do herdeiro da promessa de Deus. Sara viu na disposição turbulenta de Ismael uma fonte perpétua de discórdias, e apelou para Abraão, insistindo que Hagar e Ismael fossem despedidos do acampamento. O patriarca foi lançado em grande angústia. Como poderia banir a Ismael, seu filho, ainda ternamente amado? Em sua perplexidade rogou a direção divina. O Senhor, por meio de um santo anjo, determinou-lhe satisfazer o desejo de Sara; seu amor por Ismael ou Hagar não lho deveria impedir pois apenas assim poderia ele restabelecer a harmonia e a felicidade à sua família. E o anjo lhe fez a promessa consoladora de que, ainda que separado do lar de seu pai, Ismael não seria abandonado por Deus; sua vida seria preservada, e ele se tornaria o pai de uma grande nação. Abraão
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obedeceu à palavra do anjo, mas não sem uma dor aguda. O coração do pai estava oprimido por mágoa indizível, quando despediu Hagar e seu filho.
A instrução proporcionada a Abraão, no tocante à santidade da relação matrimonial, deve ser uma lição para todos os tempos. Declara que os direitos e a felicidade desta relação devem ser cuidadosamente zelados, mesmo com grande sacrifício. Sara era a única esposa legítima de Abraão. Seus direitos como esposa e mãe, nenhuma outra pessoa tinha a prerrogativa de partilhar. Reverenciava seu marido, e nisto é apresentada no Novo Testamento como um digno exemplo. Mas não queria que as afeições de Abraão fossem dadas a outra; e o Senhor não a reprovou por exigir o banimento de sua rival. Tanto Abraão como Sara não confiaram no poder de Deus, e foi este erro que determinou o casamento com Hagar.
Deus havia chamado Abraão para ser o pai dos fiéis, e sua vida devia ser um exemplo de fé para as gerações subseqüentes. Mas sua fé não tinha sido perfeita. Mostrara falta de confiança em Deus, ocultando o fato de que Sara era sua esposa, e novamente com o seu casamento com Hagar. Para que atingisse a mais elevada norma, Deus o sujeitou a outra prova, a mais severa que o homem jamais foi chamado a suportar. Em uma visão da noite foi-lhe determinado que se dirigisse à terra de Moriá, e ali oferecesse seu filho em holocausto sobre um monte que lhe seria mostrado. No tempo em que recebeu esta ordem, havia Abraão atingido a idade de cento e vinte anos. Era considerado como homem idoso, mesmo em sua geração. Em seus anos anteriores fora forte para suportar dificuldades e enfrentar o perigo; mas agora passara o ardor da juventude. Qualquer, no vigor da varonilidade, pode com coragem enfrentar dificuldades e aflições que lhe fariam desfalecer o coração em sua vida posterior, quando os pés estiverem vacilantes a caminhar para a sepultura. Mas Deus guardara Sua última e mais rigorosa prova a Abraão, até que o fardo dos anos fosse pesado sobre ele, e ele almejasse o repouso das ansiedades e trabalhos. O patriarca estava morando em Berseba, rodeado de prosperidade e honra. Era muito rico, e acatado pelos governadores da Terra como príncipe poderoso. Milhares de ovelhas e cabeças de gado cobriam as planícies que se estendiam para além de seu acampamento. De todos os lados estavam as tendas de seus dependentes, os lares, de centenas de servos fiéis. O filho da promessa havia crescido até à idade adulta ao seu lado. O Céu parecia ter coroado
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com sua bênção uma vida de sacrifício, ao suportar pacientemente o adiamento das esperanças. Na obediência da fé, Abraão havia abandonado o país natal: afastara-se dos túmulos de seus pais, e do lar de sua parentela. Vagueara como um estrangeiro na terra de sua herança. Tinha esperado por muito tempo pelo nascimento do herdeiro prometido. Por ordem de Deus despedira seu filho Ismael. E agora, quando o filho que fora desejado durante tanto tempo chegava à varonilidade, e o patriarca parecia poder divisar os frutos de suas esperanças, uma prova maior do que todas as outras estava diante dele. A ordem foi expressa em palavras que deveriam ter contorcido angustiosamente aquele coração de pai: "Toma agora o teu filho, o teu único filho Isaque, a quem amas, ... e oferece-o ali em holocausto." Gên. 22:2. Isaque era-lhe a luz do lar, a consolação da velhice, e acima de tudo o herdeiro da bênção prometida. A perda de tal filho por desastre, ou moléstia, teria despedaçado o coração do pai extremoso; teria curvado sua encanecida cabeça pela dor; entretanto, foi-lhe ordenado derramar o sangue daquele filho, com sua própria mão. Pareceu-lhe uma terrível impossibilidade. Satanás estava a postos para sugerir que ele devia estar enganado, pois que a lei divina ordena: "Não matarás" (Êxo. 20:13), e Deus não exigiria o que uma vez proibira. Saindo ao lado de sua tenda, Abraão olhou para o calmo resplendor do céu sem nuvens, e lembrou-se da promessa feita quase cinqüenta anos antes, de que sua semente seria numerosa como as estrelas. Se esta promessa devia cumprir-se por meio de Isaque, como poderia ele ser morto? Abraão foi tentado a crer que poderia estar iludido. Em sua dúvida e angústia prostrou-se em terra e orou, como nunca antes orara, pedindo alguma confirmação da ordem quanto a dever ele cumprir essa terrível incumbência. Lembrou-se dos anjos enviados para revelar-lhe o propósito de Deus de destruir Sodoma, e que lhe trouxeram a promessa deste mesmo filho Isaque, e foi para o lugar em que várias vezes encontrara os mensageiros celestiais, esperando encontrá-los outra vez, e receber algumas instruções mais; mas nenhum veio em seu socorro. As trevas pareciam envolvê-lo; mas a ordem de Deus estava a soar-lhe aos ouvidos: "Toma agora o teu filho, o teu único filho Isaque, a quem tu amas." Gên. 22:2. Aquela ordem devia ser obedecida, e não ousou demorar-se. O dia se aproximava, e ele devia estar a caminho. Voltando à sua tenda, foi ao lugar em que Isaque, deitado, dormia o sono profundo, calmo, da juventude e inocência. Por um
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momento o pai olhou para o rosto querido do filho; voltou então a tremer. Foi ao lado de Sara, que também estava a dormir. Deveria despertá-la, para que mais uma vez pudesse abraçar o filho? Deveria falar-lhe do mandado de Deus? Anelava aliviar o coração, falando a ela, e partilhar juntamente com ela desta terrível responsabilidade; mas se conteve pelo temor de que o pudesse impedir. Isaque era a alegria e o orgulho dela; sua vida estava ligada a ele, e o amor de mãe poderia recusar-se ao sacrifício. Finalmente Abraão chamou o filho, falando-lhe da ordem de oferecer sacrifício em uma montanha distante. Isaque tinha freqüentes vezes ido com o pai a adorar em algum dos vários altares que assinalavam suas peregrinações, e esta chamada não provocou surpresa. Fizeram-se rapidamente os preparativos para a viagem. Preparou-se a lenha, puseram-na sobre o jumento, e com dois servos partiram.
Lado a lado, pai e filho viajavam silenciosamente. O patriarca, ponderando seu cruel segredo, não tinha ânimo para falar. Seus pensamentos estavam naquela mãe ufana e extremosa, e considerava o dia em que sozinho deveria voltar a ela. Bem sabia que a faca lhe cortaria o coração, quando tirasse a vida de seu filho.
Aquele dia - o mais comprido que jamais Abraão experimentara - arrastava-se vagarosamente ao seu termo. Enquanto seu filho e os moços dormiam, passou ele a noite em oração, esperando ainda que algum mensageiro celestial pudesse vir dizer que a prova já era suficiente, que o jovem poderia voltar ileso para sua mãe. Nenhum alívio, porém, lhe veio à alma torturada. Outro longo dia, outra noite de humilhação e oração, enquanto a ordem que o deveria deixar desfilhado lhe repercutia sempre no ouvido. Perto estava Satanás para insinuar dúvidas e incredulidade; mas Abraão resistiu a suas sugestões. Quando estavam a ponto de iniciar a viagem do terceiro dia, o patriarca, olhando para o Norte, viu o sinal prometido, uma nuvem de glória pairando sobre o Monte Moriá, e compreendeu que a voz que lhe falara era do Céu.
Mesmo agora não murmurou contra Deus, mas fortaleceu a alma pensando nas provas da bondade e fidelidade do Senhor. Este filho fora dado inesperadamente; e não tinha Aquele que conferira a preciosa dádiva o direito de reclamar o que era Seu? Então a fé repetiu a promessa: "Em Isaque será chamada a tua semente" (Gên. 21:12) - semente numerosa como os grãos de areia na praia. Isaque fora filho de um milagre, e não poderia
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o poder que lhe dera vida restaurá-lo? Olhando para além daquilo que era visível, Abraão apreendeu a palavra divina, considerando "que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar". Heb. 11:19. Todavia, ninguém senão Deus poderia compreender quão grande era o sacrifício do pai, ao entregar seu filho à morte; Abraão não quis que ninguém, a não ser Deus, testemunhasse a cena da separação. Mandou a seus servos que ficassem atrás, dizendo: "Eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, tornaremos a vós". Gên. 22:5-8. A lenha foi posta sobre Isaque, aquele que seria oferecido; o pai tomou a faca e o fogo, e, juntos, subiram para o cume da montanha, considerando o jovem em silêncio de onde deveria vir a oferta, tão longe de apriscos e rebanhos. Finalmente falou: "Meu pai", "eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?" Oh, que prova foi esta! Quanto as carinhosas palavras - "meu pai", feriram o coração de Abraão! Ele não lhe poderia dizer por enquanto. "Deus proverá para Si o cordeiro para o holocausto, meu filho" (Gên. 22:8), disse ele. No lugar indicado construíram o altar, e sobre o mesmo colocaram a lenha. Então, com voz trêmula, Abraão desvendou a seu filho a mensagem divina. Foi com terror e espanto que Isaque soube de sua sorte; mas não opôs resistência. Poderia escapar deste destino, se o houvesse preferido fazer; o ancião, ferido de pesares, exausto com as lutas daqueles três dias terríveis, não poderia ter-se oposto à vontade do vigoroso jovem. Isaque, porém, tinha sido educado desde a meninice a uma obediência pronta e confiante, e, ao ser o propósito de Deus manifesto perante ele, entregou-se com voluntária submissão. Era participante da fé de Abraão, e sentia-se honrado sendo chamado a dar a vida em oferta a Deus. Com ternura procura aliviar a dor do pai, e auxilia-lhe as mãos desfalecidas a amarrarem as cordas que o prendem ao altar.
E agora as últimas palavras de amor são proferidas, as últimas lágrimas derramadas, o último abraço dado. O pai levanta o cutelo para matar o filho, quando o braço subitamente lhe é detido. Um anjo de Deus chama do Céu o patriarca: "Abraão, Abraão!" Ele rapidamente responde: "Eis-me aqui." E de novo se ouve a voz: "Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não Me negaste o teu filho, o teu único". Gên. 22:11-18. Pág. 153
Então Abraão viu "um carneiro detrás dele, travado pelas suas pontas num mato", e prontamente trazendo a nova vítima, ofereceu-a "em lugar de seu filho". Em sua alegria e gratidão, Abraão deu um novo nome ao lugar sagrado - "Jeová-jire", "o Senhor proverá". Gên. 22:14. No Monte Moriá Deus outra vez renovou Seu concerto, confirmando com juramento solene a bênção a Abraão e sua semente, por todas as gerações vindouras: "Por Mim mesmo, jurei, diz o Senhor: Porquanto fizeste esta ação, e não Me negaste o teu filho, o teu único, que deveras te abençoarei, e grandissimamente multiplicarei a tua semente como as estrelas dos céus, e como a areia que está na praia do mar; e a tua semente possuirá a porta dos seus inimigos; e em tua semente serão benditas todas as nações da Terra; porquanto obedeceste à Minha voz." O grande ato de fé, de Abraão, permanece como uma coluna de luz, iluminando o caminho dos servos de Deus em todos os séculos subseqüentes. Abraão não procurou esquivar-se de fazer a vontade de Deus. Durante aquela viagem de três dias, ele teve tempo suficiente para raciocinar, e para duvidar de Deus se estivesse disposto a isto. Poderia ter raciocinado que o tirar a vida a seu filho fá-lo-ia ser considerado como um homicida, um segundo Caim; que isto faria com que seu ensino fosse rejeitado e desprezado, e assim destruiria o seu poder para fazer bem a seus semelhantes. Poderia ter alegado que a idade o dispensaria da obediência. Mas o patriarca não procurou refúgio em qualquer dessas desculpas. Abraão era humano; suas paixões e afeições eram semelhantes às nossas; mas não se deteve a discutir como a promessa poderia cumprir-se caso Isaque fosse morto. Não se deteve a arrazoar com o seu coração dolorido. Sabia que Deus é justo e reto em todas as Suas reivindicações, e à risca obedeceu à ordem.
"E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus." Tia. 2:23. E Paulo diz: "Os que são da fé são filhos de Abraão". Gálatas 3:7. Mas a fé de Abraão foi manifesta pelas suas obras. "O nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada." Tia. 2:21 e 22. Há muitos que não podem compreender a relação da fé com as obras. Dizem eles: "Crê apenas em Cristo, e estás salvo. Nada tens que ver com a guarda da lei." Mas a fé genuína se manifestará pela
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obediência. Disse Cristo aos judeus incrédulos: "Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão." João 8:39. E, com relação ao pai dos fiéis, declara o Senhor: "Abraão obedeceu à Minha voz, e guardou o Meu mandado, os Meus preceitos, os Meus estatutos, e as Minhas leis". Gên. 26:5. Diz o apóstolo Tiago: "A fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma." Tia. 2:17. E João, que tão amplamente se ocupa com o amor, diz-nos: "Este é o amor de Deus: que guardemos os Seus mandamentos." I João 5:3.
Por símbolos e por promessas, Deus "anunciou primeiro o evangelho a Abraão". Gál. 3:8. E a fé do patriarca fixou-se no Redentor vindouro. Disse Cristo aos judeus: "Abraão, vosso pai, exultou por ver o Meu dia, e viu-o, e alegrou-se". João 8:56. O carneiro oferecido em lugar de Isaque representava o Filho de Deus, que seria sacrificado em nosso lugar. Quando o homem foi condenado à morte pela transgressão da lei de Deus, o Pai, olhando para o Filho, disse ao pecador: "Vive, Eu achei um resgate". Foi para impressionar o espírito de Abraão com a realidade do evangelho, bem como para lhe provar a fé, que Deus o mandou matar seu filho. A angústia que ele sofreu durante os dias tenebrosos daquela terrível prova, foi permitida para que compreendesse por sua própria experiência algo da grandeza do sacrifício feito pelo infinito Deus para a redenção do homem. Nenhuma outra prova poderia ter causado a Abraão tal tortura de alma, como fez a oferta de seu filho. Deus deu Seu Filho a uma morte de angústia e ignomínia. Aos anjos que testemunharam a humilhação e angústia de alma do Filho de Deus, não foi permitido intervirem, como no caso de Isaque. Não houve nenhuma voz a clamar: "Basta." A fim de salvar a raça decaída, o Rei da glória rendeu a vida. Que prova mais forte se pode dar da infinita compaixão e amor de Deus? "Aquele que nem mesmo a Seu próprio Filho poupou, antes O entregou por todos nós, como nos não dará também com Ele todas as coisas?" Rom. 8:32. O sacrifício exigido de Abraão não foi somente para seu próprio bem, nem apenas para o benefício das gerações que se seguiram; mas também foi para instrução dos seres destituídos de pecado, no Céu e em outros mundos. O campo do conflito entre Cristo e Satanás - campo este em que o plano da salvação se encontra formulado - é o compêndio do Universo. Porquanto Pág. 155
Abraão mostrara falta de fé nas promessas de Deus, Satanás o acusara perante os anjos e perante Deus de ter deixado de satisfazer as condições do concerto, e de ser indigno das bênçãos do mesmo concerto. Deus desejou provar a lealdade de Seu servo perante o Céu todo, para demonstrar que nada menos que perfeita obediência pode ser aceito, e para patentear de maneira mais ampla, perante eles, o plano da salvação.
Seres celestiais foram testemunhas daquela cena em que a fé de Abraão e a submissão de Isaque foram provadas. A prova foi muito mais severa do que aquela a que Adão havia sido submetido. A conformação com a proibição imposta a nossos primeiros pais, não envolvia sofrimentos; mas a ordem dada a Abraão exigia o mais angustioso sacrifício. O Céu inteiro contemplava com espanto e admiração a estrita obediência de Abraão. O Céu todo aplaudiu sua fidelidade. As acusações de Satanás demonstraram-se falsas. Deus declarou a Seu servo: "Agora sei que temes a Deus [a despeito das acusações de Satanás], e não Me negaste o teu filho, o teu único." O concerto de Deus, confirmado a Abraão por um juramento perante os seres de outros mundos, testificou que a obediência será recompensada.
Tinha sido difícil, mesmo para os anjos, apreender o mistério da redenção, isto é, compreender que o Comandante do Céu, o Filho de Deus, devia morrer pelo homem culposo. Quando foi dada a Abraão a ordem para oferecer seu filho, isto assegurou o interesse de todos os entes celestiais. Com ânsia intensa, observavam cada passo no cumprimento daquela ordem. Quando à pergunta de Isaque - "Onde está o cordeiro para o holocausto?" Abraão respondeu: "Deus proverá para Si o cordeiro" (Gên. 22:7 e 8), e quando a mão do pai foi detida estando a ponto de matar seu filho, e fora oferecido o cordeiro que Deus provera em lugar de Isaque, derramou-se então luz sobre o mistério da redenção, e mesmo os anjos compreenderam mais claramente a maravilhosa providência que Deus tomara para a salvação do homem. I Ped. 1:12.