Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 7 de 9 · parte 3/3

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Patriarcas e Profetas

maior provisão para a sustentar do que…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Eli não dirigiu sua casa segundo as regras de Deus para o governo da família. Seguiu seu próprio juízo. O extremoso pai deixou de tomar em consideração as faltas e pecados dos filhos, em sua meninice, comprazendo-se com o pensamento de que após algum tempo eles perderiam suas más tendências. Muitos estão hoje a cometer erro semelhante. Julgam que conhecem um meio melhor para educar os filhos do que aquele que Deus deu em Sua Palavra. Alimentam neles más tendências, insistindo nesta Pág. 579

desculpa: "São muito novos para serem castigados. Esperemos que fiquem mais velhos, e possamos entender-nos com eles." Assim os maus hábitos são deixados a se fortalecerem até que se tornam uma segunda natureza. Os filhos crescem sem sujeição, com traços de caráter que são para eles uma maldição por toda a vida, e que podem reproduzir-se em outros. Não há maior desgraça para os lares do que permitir que os jovens sigam o seu próprio caminho. Quando os pais tomam em consideração todo desejo dos filhos, e com estes condescendem no que sabem não ser para o seu bem, os filhos logo perdem todo o respeito para com os pais, toda a consideração pela autoridade de Deus e do homem e são levados cativos à vontade de Satanás. A influência de uma família mal dirigida é dilatada, e desastrosa a toda a sociedade. Acumula uma onda de males que afeta famílias, comunidades e governos. Por causa da posição de Eli, sua influência era mais vasta do que se ele fora homem comum. Sua vida familiar era imitada em todo o Israel. Os funestos resultados de seu proceder negligente e amante da comodidade, eram vistos em milhares de lares que se modelaram pelo seu exemplo. Se se condescende com os filhos em práticas ruins, ao mesmo tempo em que os pais fazem profissão de religião, a verdade de Deus é levada ao opróbrio. A melhor prova de cristianismo de uma casa é o tipo de caráter gerado pela sua influência. As ações falam mais alto do que a mais positiva profissão de piedade. Se os que professam a religião, em vez de aplicarem esforços ardorosos, persistentes e diligentes para manter um lar bem dirigido em testemunho dos benefícios da fé em Deus, forem frouxos em seu governo, e condescendentes com os maus desejos de seus filhos, estarão a fazer como Eli, e trarão injúria à causa de Cristo e ruína sobre si e suas casas. Mas, por maiores que sejam os males da infidelidade paterna sob qualquer circunstância, são eles dez vezes maiores quando existentes nas famílias daqueles que são designados para ensinadores do povo. Quando estes deixam de governar sua casa, estão, pelo seu mau exemplo, transviando a muitos. Sua culpa é tanto maior do que a dos outros quanto sua posição é de maior responsabilidade. Fora feita a promessa de que a casa de Arão andaria diante de Deus para sempre; mas esta promessa fora dada sob a condição de que se dedicassem eles à obra do santuário com singeleza de coração, e honrassem a Deus em todos os seus caminhos, não servindo ao eu, nem seguindo suas próprias inclinações perversas. Eli e seus filhos tinham sido provados, e o Senhor os Pág. 580

encontrara inteiramente indignos da exaltada posição de sacerdotes ao Seu serviço. E Deus declarou: "Longe de Mim." I Sam. 2:30. Ele não pôde cumprir o bem que tencionara fazer-lhes, porque deixaram de desempenhar a sua parte.

O exemplo dos que administram em coisas santas deve ser de maneira que incuta no povo a reverência para com Deus, e o receio de O ofender. Quando os homens, servindo de embaixadores "da parte de Cristo" (II Cor. 5:20) para falar ao povo acerca da mensagem de misericórdia e reconciliação, enviada por Deus, fazem uso de sua vocação sagrada qual manto para encobrir a satisfação egoísta ou sensual, constituem-se eles os agentes mais eficazes de Satanás. Como Hofni e Finéias, fazem com que os homens desdenhem a oferta do Senhor. Podem prosseguir com sua má conduta, em segredo, por algum tempo; mas, quando finalmente é apresentado seu verdadeiro caráter, a fé do povo recebe um abalo de que muitas vezes resulta a destruição de sua confiança na religião. Fica na mente uma desconfiança contra todos os que professam ensinar a Palavra de Deus. A mensagem do verdadeiro servo de Cristo é recebida com dúvida. Surge constantemente a pergunta: "Não se mostrará este homem ser como aquele que julgávamos tão santo, e achamos tão corrupto?" Assim a Palavra de Deus perde o seu poder sobre a alma dos homens.

Na reprovação de Eli a seus filhos acham-se palavras de uma significação solene e terrível - palavras que todos os que ministram em coisas sagradas bem fariam em ponderar: "Pecando homem contra homem, os juízes o julgarão; pecando, porém, o homem contra o Senhor, quem rogará por ele?" I Sam. 2:25. Houvessem seus crimes lesado unicamente seus semelhantes, e poderia o juiz ter feito a reconciliação, indicando uma pena, e exigindo a devida restituição; e assim os transgressores poderiam ter sido perdoados. Ou, se não tivessem eles sido culpados de um pecado de presunção, uma oferta para o pecado poderia ter sido apresentada por eles. Mas seus pecados estavam de tal maneira entretecidos com seu ministério de, na qualidade de sacerdotes do Altíssimo, oferecerem sacrifício pelo pecado, e a obra de Deus foi de tal maneira profanada e desonrada perante o povo, que nenhuma expiação por eles poderia ser aceita. Seu próprio pai, embora fosse sumo sacerdote, não ousou interceder em favor deles; não os podia defender da ira de um Deus santo. De todos os pecadores, são os mais culpados os que lançam o desdém aos meios que o Céu proveu para a redenção do homem - pecadores estes que "de novo crucificam o Filho de Deus, e O expõem ao vitupério". Heb. 6:6. 57

A Arca Tomada Pelos Filisteus

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Outra advertência deveria ser dada à casa de Eli. Deus não podia comunicar-Se com o sumo sacerdote e seus filhos; os pecados deles, qual densa nuvem, haviam excluído a presença de Seu Espírito Santo. Mas, em meio do mal, o menino Samuel permanecia fiel ao Céu, e dar a mensagem de condenação à casa de Eli foi sua missão, como profeta do Altíssimo que era. "A palavra do Senhor era de muita valia naqueles dias; não havia visão manifesta. E sucedeu naquele dia que, estando Eli deitado em seu lugar (e os seus olhos se começavam já a escurecer, que não podia ver), e, estando também Samuel já deitado, antes que a lâmpada de Deus se apagasse no templo do Senhor, em que estava a arca de Deus, o Senhor chamou a Samuel." Supondo ser a voz de Eli, o menino foi apressadamente para junto do leito do sacerdote, dizendo: "Eis-me aqui, porque tu me chamaste." A resposta foi: "Não te chamei eu, filho meu, torna a deitar-te." I Sam. 3:1-5. Três vezes Samuel foi chamado, e três vezes respondeu de modo semelhante. E então Eli se convenceu de que o misterioso chamado era a voz de Deus. O Senhor preterira o Seu servo escolhido, o homem de cabelos brancos, para comunicar-Se com uma criança. Isto em si mesmo era uma repreensão amarga, porém merecida, a Eli e sua casa.

Nenhum sentimento de inveja ou suspeita despertou-se no coração de Eli. Recomendou a Samuel que respondesse, se de novo fosse chamado: "Fala, Senhor, porque o Teu servo ouve." Mais uma vez foi ouvida a voz, e o menino respondeu: "Fala, porque o Teu servo ouve." I Sam. 3:9 e 10. Tão aterrado ficou com o pensamento de que o grande Deus lhe falaria, que não pôde lembrar-se das palavras exatas que Eli mandou dizer.

"E disse o Senhor a Samuel: Eis aqui vou Eu a fazer uma coisa em Israel, a qual todo o que ouvir lhe tinirão ambas as orelhas. Naquele mesmo dia suscitarei contra Eli tudo quanto tenho Pág. 582

falado contra a sua casa; começá-lo-ei e acabá-lo-ei. Porque já Eu lhe fiz saber que julgarei a sua casa para sempre, pela iniqüidade que ele bem conhecia, porque, fazendo-se os seus filhos abomináveis, não os repreendeu. Portanto, jurei à casa de Eli que nunca jamais será expiada a iniqüidade da casa de Eli com sacrifício nem com oferta de manjares." I Sam. 3:11-14. Antes de receber de Deus esta mensagem, "Samuel ainda não conhecia ao Senhor, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor"; isto é, ele não estava familiarizado com tais manifestações diretas da presença de Deus conforme eram concedidas aos profetas. Foi o propósito do Senhor revelar-Se de uma maneira inesperada, para que Eli viesse ouvir a tal respeito por meio da surpresa e indagação do jovem.

Samuel ficou cheio de temor e espanto, ante o pensamento de ter-lhe sido confiada uma mensagem tão terrível. Pela manhã se dirigiu aos seus deveres como de costume, mas com um grande peso em seu coração juvenil. O Senhor não o havia mandado revelar a terrível denúncia, donde o permanecer ele em silêncio, evitando, tanto quanto possível, a presença de Eli. Tremia, receoso de que alguma pergunta o compelisse a declarar os juízos divinos contra aquele a quem amava e reverenciava. Eli estava certo de que a mensagem predizia alguma grande calamidade, a ele e sua casa. Chamou Samuel, e ordenou-lhe que relatasse fielmente o que o Senhor revelara. O jovem obedeceu, e o idoso homem prostrou-se em humilde submissão à pavorosa sentença. "O Senhor é", disse ele; "faça o que bem parecer aos Seus olhos." I Sam. 3:7 e 18.

Todavia, Eli não manifestou os frutos do verdadeiro arrependimento. Confessou sua falta, mas deixou de renunciar ao pecado. Ano após ano o Senhor retardava os Seus ameaçados juízos. Muito se poderia ter feito naqueles anos para remir as faltas do passado; mas o idoso sacerdote não adotou medidas eficazes para corrigir os males que estavam a poluir o santuário do Senhor, e levando em Israel milhares à ruína. A paciência de Deus deu lugar a que Hofni e Finéias endurecessem o coração, e se tornassem ainda mais audazes na transgressão. As mensagens de advertência e reprovação à sua casa foram por Eli dadas a conhecer à nação toda. Por este meio ele esperava até certo ponto contrariar a má influência de sua passada negligência. Mas as advertências foram desatendidas pelo povo, assim como haviam sido pelos sacerdotes. O povo das nações circunvizinhas também, o qual não ignorava as iniqüidades abertamente praticadas em Israel, tornou-se ainda mais audaz em sua idolatria e crime. Não

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experimentavam a intuição de culpa pelos seus pecados, como o teriam feito caso houvessem os israelitas preservado a sua integridade. Aproximava-se, porém, o dia da retribuição. A autoridade de Deus havia sido posta de lado e Seu culto negligenciado e desprezado; e tornou-se necessário intervir Ele para que se mantivesse a honra de Seu nome.

"E Israel saiu ao encontro, à peleja, aos filisteus, e se acamparam junto a Ebenézer; e os filisteus se acamparam junto a Afeque." Esta expedição foi empreendida pelos israelitas sem o conselho do Senhor, sem o apoio de sumo sacerdote ou profeta. "E os filisteus se dispuseram em ordem de batalha, para sair ao encontro a Israel; e, estendendo-se a peleja, Israel foi ferido diante dos filisteus, porque feriram na batalha, no campo, uns quatro mil homens." Voltando para o acampamento a força fragmentada e desalentada, "disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu o Senhor hoje diante dos filisteus?" A nação estava madura para os juízos de Deus, e no entanto não viam que seus próprios pecados haviam sido a causa daquele terrível revés. E disseram: "Tragamos de Silo a arca do concerto do Senhor, e venha no meio de nós, para que nos livre da mão de nossos inimigos." O Senhor não dera ordem ou permissão para que a arca fosse ao exército; contudo os israelitas estavam confiantes em que deles seria a vitória, e proferiram uma grande aclamação quando ela foi, pelos filhos de Eli, levada ao arraial.

Os filisteus consideravam a arca como o deus de Israel. Todas as grandes obras que Jeová fizera em prol de Seu povo, eram por eles atribuídas ao poder da mesma. Ao ouvirem as aclamações de júbilo pela sua aproximação, disseram: "Que voz de tão grande júbilo, é esta no arraial dos hebreus? Então souberam que a arca do Senhor era vinda ao arraial. Pelo que os filisteus se atemorizaram; porque diziam: Deus veio ao arraial. E diziam mais: Ai de nós! que tal nunca jamais sucedeu antes. Ai de nós! quem nos livrará da mão destes grandiosos deuses? Estes são os deuses que feriram aos egípcios com todas as pragas junto ao deserto. Esforçai-vos, e sede homens, ó filisteus, para que porventura não venhais a servir aos hebreus, como eles serviram a vós; sede pois homens, e pelejai." I Sam. 4:2, 3 e 6-9.

Os filisteus deram um encarniçado assalto, de que resultou a derrota de Israel, com grande morticínio. Trinta mil homens jaziam mortos em campo, e a arca de Deus foi tomada, tendo os dois filhos de Eli tombado enquanto combatiam para defendê-la.

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Deixou-se assim, novamente, nas páginas da História um testemunho para todos os séculos futuros, de que a iniqüidade do povo professo de Deus não ficará impune. Quanto maior for o conhecimento da vontade de Deus, tanto maior o pecado daqueles que a desatendem. A mais espantosa calamidade que poderia ocorrer, recaíra a Israel. A arca de Deus fora apreendida, e estava em poder do inimigo. A glória havia verdadeiramente se afastado de Israel quando o símbolo da presença e poder contínuos de Jeová foi removido do meio deles. Com aquele escrínio sagrado associavam-se as mais maravilhosas revelações da verdade e poder de Deus. Em tempos anteriores, vitórias miraculosas haviam sido conseguidas quando quer que o mesmo aparecia. Faziam-lhe sombras as asas dos querubins de ouro, e a glória indescritível do shekinah, símbolo visível do altíssimo Deus, repousara sobre ela no lugar santíssimo. Mas agora não trouxera vitória alguma. Não se mostrara ser uma defesa nesta ocasião, e havia pranto por todo o Israel.

Não se haviam compenetrado de que sua fé era simplesmente uma fé nominal, e perderam o poder da mesma para prevalecerem com Deus. A lei de Deus, contida na arca, era também um símbolo de Sua presença; mas haviam lançado o desprezo aos mandamentos, desdenharam suas reivindicações e contristaram o Espírito do Senhor de modo que Se retirou do meio deles. Quando o povo obedecia aos santos preceitos, o Senhor estava com eles, para agir em prol deles, com Seu poder infinito; mas, quando olharam para a arca, e não a puseram em relação com Deus, e tampouco honraram Sua vontade revelada pela obediência à Sua lei, serviu-lhes ela de pouco mais que uma caixa comum. Olhavam para a arca como as nações idólatras olhavam para os seus deuses, como se ela possuísse em si os elementos de poder e salvação. Transgrediam a lei que nela se continha; pois o seu mesmo culto à arca determinou a formalidade, a hipocrisia e a idolatria. Seu pecado os separara de Deus, e Ele não lhes poderia dar a vitória antes que se arrependessem e abandonassem sua iniqüidade. Não bastava que a arca e o santuário estivessem no meio de Israel. Não bastava que os sacerdotes oferecessem sacrifícios, e que o povo fosse chamado filhos de Deus. O Senhor não toma em consideração o pedido daqueles que acariciam a iniqüidade no coração; está escrito que "o que desvia os seus ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável". Prov. 28:9. Pág. 585

Quando o exército saiu para a batalha, Eli, cego e velho, havia ficado em Silo. Foi com inquietadores pressentimentos que ele aguardou o resultado do conflito, "porquanto o seu coração estava tremendo pela arca de Deus". Tomando lugar fora da porta do tabernáculo, assentava-se todos os dias ao lado do caminho, esperando ansiosamente a chegada de um mensageiro do campo de batalha. Finalmente, um benjaminita do exército, "com os vestidos rotos e com terra sobre a cabeça", veio correndo pela subida que dava para a cidade. Passando descuidadamente pelo ancião, ao lado do caminho, arremessou-se à cidade, e referiu às multidões ansiosas as notícias da derrota e das perdas. O ruído de choro e lamentação chegou àquele que ao lado do tabernáculo vigiava. O mensageiro foi-lhe trazido. E o homem disse a Eli: "Israel fugiu de diante dos filisteus, e houve também grande destroço entre o povo; e, demais disto, também teus dois filhos, Hofni e Finéias, morreram." Eli pôde suportar tudo isto, por terrível que fosse, pois ele o esperava. Mas quando o mensageiro acrescentou: "A arca de Deus é tomada", uma expressão de indizível angústia lhe passou pelo semblante. O pensamento de que seu pecado de tal maneira desonrara a Deus, e fizera com que Ele retirasse Sua presença de Israel, era mais do que podia suportar; deixaram-no suas forças, ele caiu, "e quebrou-se-lhe o pescoço, e morreu".

A mulher de Finéias, apesar da impiedade de seu marido, temia ao Senhor. A morte de seu sogro e de seu esposo, e, acima de tudo, a terrível notícia de que a arca de Deus fora tomada, causaram-lhe a morte. Compenetrou-se de que a última esperança de Israel havia desaparecido; e deu à criança nascida nesta hora de adversidade o nome de Icabode, ou "Inglório", dizendo, chorosa, com sua respiração moribunda, as palavras: "Foi-se a glória de Israel. Porquanto a arca de Deus foi levada presa." I Sam. 4:12, 11 e 17-22.

Mas o Senhor não havia rejeitado o Seu povo inteiramente, tampouco toleraria por muito tempo a exultação dos gentios. Usara os filisteus como instrumento para punir Israel, e empregou a arca para castigar os filisteus. Nos tempos passados a presença divina a acompanhara, a fim de ser ela a força e glória de Seu povo obediente. Aquela Presença invisível ainda a acompanharia para levar o terror e a destruição aos transgressores de Sua santa lei. O Senhor muitas vezes emprega Seus piores inimigos para punir a infidelidade de Seu povo professo. Os ímpios podem Pág. 586

triunfar por algum tempo, vendo Israel sofrer o castigo; mas virá o tempo em que eles também deverão defrontar-se com a sentença de um Deus santo, que odeia o pecado. Onde quer que a iniqüidade seja acalentada, seguir-se-ão, rápidos e infalíveis, os juízos de Deus. Os filisteus levaram a arca, triunfalmente, para Asdode, uma de suas cinco cidades principais, e a colocaram na casa de seu deus Dagom. Pensaram que o poder que até ali havia acompanhado a arca seria deles, e que este, unido com o poder de Dagom, torná-los-ia invencíveis. Mas, ao entrar no templo no dia seguinte, viram um quadro que os encheu de consternação. Dagom tinha caído sobre seu rosto em terra, diante da arca de Jeová. Os sacerdotes reverentemente ergueram o ídolo, e o repuseram em seu lugar. Mas, na manhã seguinte, encontraram-no mutilado de maneira singular, jazendo de novo sobre a terra, diante da arca. A parte superior deste ídolo era semelhante à de um homem, e a inferior tinha a semelhança de peixe. Todas as partes que se assemelhavam à forma humana tinham sido agora separadas, e apenas permanecia o corpo de peixe. Sacerdotes e povo ficaram tomados de terror; consideraram este misterioso acontecimento como um mau agouro, anunciando destruição para eles e seus ídolos, diante do Deus dos hebreus. Mudaram então a arca de seu templo, e a colocaram em um edifício à parte.

Os habitantes de Asdode foram feridos de uma doença aflitiva e fatal. Lembrando-se das pragas que foram infligidas ao Egito pelo Deus de Israel, o povo atribuiu suas aflições à presença da arca entre eles. Foi resolvido transportá-la a Gate. Mas a praga seguiu de perto a sua mudança, e os homens daquela cidade a enviaram para Ecrom. Ali o povo a recebeu aterrorizado, exclamando: "Transportaram para mim a arca do Deus de Israel, para me matarem, a mim e ao meu povo." Volveram aos seus deuses em busca de proteção, como o povo de Gate e Asdode haviam feito; porém a obra do destruidor continuou até que em sua angústia "o clamor da cidade subia até o Céu". I Sam. 5:10 e 12. Receando conservar por mais tempo a arca entre as casas dos homens, o povo em seguida colocou-a em pleno campo. Seguiu-se então uma praga de ratos, que infestou a terra, destruindo os produtos do solo, tanto nos celeiros como no campo. Completa destruição, pela doença e pela fome, ameaçava agora a nação. Durante sete meses, a arca permaneceu na Filístia, e durante este tempo os israelitas não fizeram esforços para a recuperarem.

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Mas estavam agora os filisteus tão ansiosos para se livrarem de sua presença como haviam estado para a obterem. Em vez de ser uma fonte de força para eles, foi um grande peso e grave maldição. Contudo não sabiam o que fazer; pois aonde quer que ela ia, seguiam-se os juízos de Deus. O povo chamou os príncipes da nação, juntamente com os sacerdotes e adivinhos, e ansiosamente indagou: "Que faremos nós da arca do Senhor? Fazei-nos saber como a tornaremos a enviar ao seu lugar." Foram aconselhados a devolvê-la com uma valiosa oferta para expiação da culpa. "Então", disseram os sacerdotes, "sereis curados, e se vos fará saber porque a Sua mão se não tira de vós." Para desviar ou remover uma praga, era antigamente costume entre os gentios fazer-se uma imagem de ouro, prata, ou outro material, daquilo que causava destruição, ou do objeto ou parte do corpo especialmente atacada. Isso era colocado sobre alguma coluna, ou em algum ponto bem visível, e supunha-se ser uma proteção eficaz contra os males assim representados. Costume semelhante ainda existe entre alguns povos gentílicos. Quando uma pessoa que sofre de alguma doença vai ao templo de seu ídolo em busca de cura, leva consigo uma figura da parte atacada, que apresenta como uma oferta ao seu deus.

Foi de acordo com esta superstição dominante, que os principais dos filisteus recomendaram ao povo fazer representações das pragas pelas quais tinham sido afligidos: "cinco hemorróidas de ouro e cinco ratos de ouro", "segundo o número dos príncipes dos filisteus"; "porquanto", disseram eles, "a praga é uma mesma sobre todos vós e sobre todos os vossos príncipes". I Sam. 6:2-4. Aqueles magos reconheciam que um poder misterioso acompanhava a arca, poder este que eles não tinham sabedoria para enfrentar. Contudo não aconselhavam o povo a desviar-se de sua idolatria para servirem ao Senhor. Odiavam ainda ao Deus de Israel, embora compelidos pelos juízos esmagadores a submeter-se à Sua autoridade. Assim os pecadores podem convencer-se pelos juízos de Deus de que é inútil contender contra Ele. Podem ser obrigados a sujeitar-se ao Seu poder, enquanto no coração se rebelam contra o Seu domínio. Tal submissão não pode salvar o pecador. O coração deve render-se a Deus - deve ser subjugado pela graça divina - antes que o arrependimento do homem possa ser aceito. Quão grande é a longanimidade de Deus para com os ímpios! Os filisteus idólatras e o relapso Israel haviam semelhantemente

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desfrutado dos dons de Sua providência. Dez milhares de bênçãos, sem que fossem notadas, estiveram a cair silenciosamente no caminho de homens ingratos e rebeldes. Cada bênção lhes falava do Doador, mas eles eram indiferentes ao Seu amor. A paciência de Deus era muito grande para com os filhos dos homens; mas, quando persistiam contumazes em sua impenitência, Ele removia deles Sua mão protetora. Recusaram-se a escutar a voz de Deus nas obras criadas, e nas advertências, conselhos e reprovações de Sua Palavra; e assim Ele foi obrigado a falar-lhes por meio de juízos. Alguns houve entre os filisteus que estavam prontos a opor-se à volta da arca à sua própria terra. Tal reconhecimento do poder do Deus de Israel seria humilhante ao orgulho da Filístia. Mas "os sacerdotes e os adivinhadores" (I Sam. 6:2) aconselharam o povo a não imitar a teimosia de Faraó e dos egípcios, e assim trazer sobre si ainda maiores aflições. Propuseram então um plano que ganhou o assentimento de todos, e imediatamente foi posto em execução. A arca, juntamente com a oferta feita de ouro, para a expiação da culpa, foi posta em um carro novo, prevenindo assim todo o perigo de contaminação; a este carro foram ligadas duas vacas sobre cujo pescoço nunca havia sido posto jugo. Seus bezerros foram presos em casa, e as vacas foram deixadas livres para irem onde quisessem. Se a arca fosse assim devolvida aos israelitas pelo caminho de Bete-Semes, a cidade mais próxima dos levitas, os filisteus aceitariam isto como prova de que o Deus de Israel lhes fizera aquele grande mal; "e, se não", disseram eles, "saberemos que não nos tocou a Sua mão, e que isto nos sucedeu por acaso". Sendo deixadas à vontade, as vacas afastaram-se de seus bezerros, e, mugindo enquanto iam, tomaram a estrada direta para Bete-Semes. Sem serem guiados por mão humana, os pacientes animais se conservaram a caminho. A presença divina acompanhou a arca, e ela passou em segurança exatamente para o lugar designado.

Era então o tempo da ceifa do trigo, e os homens de Bete-Semes estavam a fazer a colheita no vale. "E, levantando os seus olhos, viram a arca, e vendo-a, se alegraram. E o carro veio ao campo de Josué, o bete-semita, e parou ali; e ali estava uma grande pedra; e fenderam a madeira do carro, e ofereceram as vacas ao Senhor em holocausto." Os príncipes dos filisteus, que haviam acompanhado a arca "até o termo de Bete-Semes" (I Sam. 6:9, 13, 14 e 12), e foram Pág. 589

testemunhas da recepção à mesma, voltaram então a Ecrom. A praga cessou, e ficaram convencidos de que suas calamidades foram um juízo do Deus de Israel. Os homens de Bete-Semes rapidamente espalharam a notícia de que a arca estava em seu poder, e o povo do território circunvizinho reuniu-se para festejar a sua volta. A arca fora posta sobre a pedra que a princípio servira de altar, e diante dela sacrifícios adicionais foram oferecidos ao Senhor. Houvessem os adoradores se arrependido de seus pecados, e a bênção de Deus os teria acompanhado. Mas não estavam a obedecer fielmente à Sua lei; e, ao mesmo tempo que se regozijavam com a volta da arca como um precursor do bem, não tinham uma intuição verdadeira de sua santidade. Em vez de prepararem um local conveniente para sua recepção, permitiram que ela ficasse no campo da ceifa. Como continuassem a olhar para o receptáculo sagrado, e falar acerca da maneira maravilhosa por que havia sido recuperado, começaram a conjeturar sobre onde jazia o seu poder peculiar. Finalmente, vencidos pela curiosidade, removeram a cobertura, e arriscaram-se a abri-la. Todo o Israel havia sido ensinado a olhar para a arca com temor e reverência. Quando se exigia mudá-la de um lugar para outro, os levitas nem sequer deveriam olhar para ela. Apenas uma vez ao ano permitia-se ao sumo sacerdote ver a arca de Deus. Mesmo os filisteus gentios não haviam ousado remover a sua cobertura. Anjos do Céu, invisíveis, sempre a acompanhavam em todas as suas viagens. A irreverente ousadia do povo de Bete-Semes foi prontamente punida. Muitos foram feridos de morte instantânea.

Os sobreviventes não foram levados por este juízo a arrepender-se de seu pecado, mas apenas a olhar para a arca com um temor supersticioso. Ansiosos por se livrarem de sua presença, e não ousando contudo afastá-la, os bete-semitas enviaram uma mensagem aos habitantes de Quiriate-Jearim, convidando-os a levá-la. Com grande alegria os homens deste lugar receberam o sagrado receptáculo. Sabiam que ele era o penhor do favor divino aos obedientes e fiéis. Com solene alegria levaram-na à sua cidade, e a colocaram na casa de Abinadabe, levita. Este homem designou seu filho Eleazar para cuidar da mesma, e ela ali ficou durante muitos anos.

Durante os anos que se passaram desde que o Senhor Se manifestara pela primeira vez ao filho de Ana, viera a vocação de

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Samuel ao ofício profético a ser reconhecida por toda a nação. Transmitindo fielmente a advertência divina à casa de Eli, por penoso e probante que tivesse sido este dever, Samuel dera prova de sua fidelidade como mensageiro de Jeová; "e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. E todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado por profeta do Senhor".

Os israelitas, como uma nação, continuavam ainda em estado de irreligião e idolatria, e como castigo permaneceram sujeitos aos filisteus. Durante este tempo Samuel visitou as cidades e aldeias por todo o país, procurando volver o coração do povo ao Deus de seus pais; e seus esforços não ficaram sem bons resultados. Depois de sofrerem a opressão de seus inimigos durante vinte anos, os israelitas lamentavam "após o Senhor". Aconselhou-os Samuel: "Se com todo o vosso coração vos converterdes ao Senhor, tirai dentre vós os deuses estranhos e os astarotes, e preparai o vosso coração ao Senhor, e servi a Ele só" (I Sam. 7:3); aqui vemos que a piedade prática, a religião do coração, era ensinada nos dias de Samuel como o foi por Cristo quando Ele esteve na Terra. Sem a graça de Cristo, as formas exteriores da religião eram destituídas de valor para o antigo Israel. Elas são o mesmo para o Israel moderno.

Há hoje necessidade de um tal reavivamento da verdadeira religião do coração como o que foi experimentado pelo antigo Israel. O arrependimento é o primeiro passo que deve ser dado por todos os que desejam voltar a Deus. Ninguém pode efetuar isto por outrem. Devemos individualmente humilhar nossa alma perante Deus, e lançar fora nossos ídolos. Quando houvermos feito tudo o que pudermos, o Senhor nos manifestará a Sua salvação.

Com a cooperação dos cabeças das tribos, reuniu-se uma grande assembléia em Mispa. Ali teve lugar um jejum solene. Com profunda humilhação o povo confessou os seus pecados; e, como prova de sua resolução de obedecer às instruções que tinham ouvido, investiram a Samuel com a autoridade de juiz. Os filisteus interpretaram essa reunião como um conselho de guerra, e com uma grande força saíram para dispersar os israelitas, antes que chegassem seus planos à maturidade. A notícia de sua aproximação causou grande terror em Israel. O povo rogou a Samuel: "Não cesses de clamar ao Senhor nosso Deus por nós, para que nos livre da mão dos filisteus." I Sam. 7:2, 3 e 8. Quando Samuel estava no ato de apresentar um cordeiro como Pág. 591

holocausto, os filisteus se aproximaram para a batalha. Então o Ser poderoso que descera sobre o Sinai por entre fogo, fumo e trovões; que dividira o Mar Vermelho, e abrira caminho através do Jordão para os filhos de Israel, manifestou novamente o Seu poder. Uma terrível tempestade irrompeu sobre a hoste que avançava, e a terra ficou juncada dos cadáveres dos grandes guerreiros. Os israelitas tinham ficado em silencioso pavor, a tremer, com esperança e medo. Quando viram a matança de seus inimigos, souberam que Deus havia aceito o seu arrependimento. Embora não estivessem preparados para a batalha, tomaram as armas dos filisteus mortos e perseguiram o exército fugitivo a Bete-Car. Esta assinalada vitória foi ganha no mesmo campo em que, vinte anos antes, Israel fora ferido diante dos filisteus, tendo sido mortos os sacerdotes, e tomada a arca de Deus. Para as nações bem como para os indivíduos, o caminho da obediência a Deus é o caminho da segurança e da felicidade, enquanto o da transgressão apenas leva ao revés e à derrota. Os filisteus foram agora subjugados de maneira tão completa que entregaram as fortalezas que haviam tomado a Israel, e abstiveram-se de atos de hostilidade por muitos anos. Outras nações seguiram este exemplo, e os israelitas desfrutaram paz até o fim da administração unipessoal de Samuel. A fim de que essa ocasião não fosse jamais esquecida, Samuel ergueu, entre Mispa e Sem, uma grande pedra como memorial. Chamou o seu nome Ebenézer, "a pedra da ajuda", dizendo ao povo: "Até aqui nos ajudou o Senhor." I Sam. 7:12.

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As Escolas dos Profetas

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O Senhor mesmo dirigia a educação de Israel. Seus cuidados não se limitavam aos interesses religiosos deles; o que quer que afetava seu bem-estar mental ou físico era também objeto da divina providência, e incluía-se na esfera da lei divina.

Deus ordenara aos hebreus que ensinassem a seus filhos os Seus requisitos, e os tornassem familiares com todo o Seu trato com seus pais. Este era um dos deveres especiais de cada pai, dever que não seria delegado a um outro. Em lugar de lábios estranhos, o amante coração de pais e mães devia dar instrução a seus filhos. Pensamentos acerca de Deus deviam associar-se com todos os fatos da vida diária. As obras poderosas de Deus no livramento de Seu povo, e as promessas do Redentor vindouro, deviam ser muitas vezes contadas de novo nos lares de Israel; e o uso de figuras e símbolos fazia com que as lições dadas se fixassem mais firmemente na memória. As grandes verdades da providência de Deus e da vida futura gravavam-se na mente juvenil. Esta era ensinada a ver a Deus tanto nas cenas da Natureza como nas palavras da revelação. As estrelas do céu, as árvores e flores do campo, as altas montanhas, as águas frisadas dos ribeiros - tudo falava do Criador. A oferta solene do sacrifício e culto no santuário, e as palavras proferidas pelos profetas, eram uma revelação de Deus. Tal foi a educação recebida por Moisés na humilde cabana que era o seu lar em Gósen; por Samuel, ministrada pela fiel Ana; por Davi, na sua morada nas colinas de Belém; por Daniel, antes que as cenas do cativeiro o separassem do lar de seus pais. Tal foi também o princípio da vida de Cristo, em Nazaré; tal o ensino pelo qual o menino Timóteo, dos lábios de sua "avó Lóide" (II Tim. 1:5), e sua "mãe Eunice" (II Tim. 3:15), aprendeu as verdades das Santas Escrituras. Pág. 593

Mais recursos foram providos para a instrução dos jovens pelo estabelecimento das escolas dos profetas. Se um jovem desejava examinar mais profundamente as verdades da Palavra de Deus, e buscar sabedoria de cima, a fim de que pudesse tornar-se um mestre em Israel, tais escolas lhe estavam abertas. As escolas dos profetas foram fundadas por Samuel, a fim de servirem como uma barreira contra a espalhada corrupção, proverem o bem-estar moral e espiritual da mocidade, e promoverem a futura prosperidade da nação, fornecendo-lhe homens habilitados para agirem no temor de Deus como dirigentes e conselheiros. Na realização deste objetivo, Samuel reuniu grupos de moços que eram pios, inteligentes e estudiosos. Estes eram chamados filhos dos profetas. Entretendo eles comunhão com Deus, e estudando Sua Palavra e Suas obras, acrescentava-se sabedoria do alto aos seus dotes naturais. Os instrutores eram homens não somente bastante versados na verdade divina, mas que haviam por sua vez desfrutado comunhão com Deus, e recebido a concessão especial de Seu Espírito. Possuíam o respeito e confiança do povo, tanto pelo saber como pela piedade. No tempo de Samuel havia duas destas escolas: uma em Ramá, residência do profeta, e a outra em Quiriate-Jearim, onde a arca então se achava. Outras foram estabelecidas em tempos posteriores. Os alunos destas escolas mantinham-se com o próprio trabalho, cultivando o solo ou ocupando-se em algum trabalho manual. Em Israel, isto não era considerado coisa estranha ou degradante; efetivamente, considerava-se um crime permitir que as crianças crescessem na ignorância do trabalho útil. Por ordem de Deus, a toda criança se ensinava algum ofício, mesmo que devesse ser educada para as funções sagradas. Muitos dos ensinadores religiosos mantinham-se pelo trabalho manual. Até mesmo nos tempos dos apóstolos, Paulo e Áquila não eram menos honrados porque ganhassem a subsistência pelo seu ofício de fazer tendas.

Os principais assuntos de estudo nessas escolas eram a lei de Deus, juntamente com as instruções dadas a Moisés, história sagrada, música sacra e poesia. O método de instruir era muito diverso do que há nas escolas teológicas da atualidade, onde muitos estudantes se formam com menos conhecimento real de Deus e verdade religiosa do que possuíam quando entraram. Naquelas escolas do passado o grandioso objetivo de todo estudo era aprender

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a vontade de Deus e o dever do homem para com Ele. Nos registros da História Sagrada acham-se traçadas as pegadas de Jeová. Referiam-se as grandes verdades apresentadas pelos tipos, e a fé apreendia o objetivo central de todo aquele conjunto cerimonial, a saber, o Cordeiro de Deus que deveria tirar o pecado do mundo.

Acariciava-se um espírito de devoção. Não somente se ensinava aos estudantes o dever de orar, mas ensinava-se-lhes como orar, como aproximar-se de seu Criador, como exercer a fé nEle, e como compreender os ensinos de Seu Espírito e obedecer-lhes. Intelectos santificados tiravam do tesouro de Deus coisas novas e velhas, e o Espírito de Deus Se manifestava na profecia e no cântico sagrado. Fazia-se com que a música servisse a um santo propósito, a fim de erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante, e despertar na alma devoção e gratidão para com Deus. Que contraste entre o antigo costume, e os usos a que muitas vezes é a música hoje dedicada! Quantos empregam este dom para exaltar o eu, em vez de usá-lo para glorificar a Deus! O amor pela música leva os incautos a unir-se com os amantes do mundo nas reuniões de diversões aonde Deus proibiu a Seus filhos irem. Assim aquilo que é uma grande bênção quando devidamente usado, torna-se um dos mais bem-sucedidos fatores pelos quais Satanás distrai a mente, do dever e da contemplação das coisas eternas. A música faz parte do culto de Deus, nas cortes celestiais, e devemos esforçar-nos, em nossos cânticos de louvor, por nos aproximar tanto quanto possível da harmonia dos coros celestiais. O devido cultivo da voz é um aspecto importante da educação, e não deve ser negligenciado. O cântico, como parte do culto religioso, é um ato de adoração, tanto como a prece. O coração deve sentir o espírito do cântico, a fim de dar a este a expressão correta.

Quão grande é a diferença entre aquelas escolas onde os profetas de Deus ensinavam, e as nossas modernas instituições de ensino! Quão poucas escolas há que não sejam governadas pelas máximas e costumes do mundo! Há uma falta deplorável da devida repressão e disciplina judiciosa. A ignorância que existe da Palavra de Deus, entre um povo que se professa cristão, é assustadora. Conversas superficiais, mero sentimentalismo, passam por instrução moral e religiosa. A justiça e a misericórdia de Deus,

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a beleza da santidade e a recompensa certa da conduta correta, o hediondo caráter do pecado e a certeza de seus terríveis resultados, não são gravados na mente dos jovens. Maus companheiros acham-se a instruir os jovens no caminho do crime, dissipação e licenciosidade.

Não há algumas lições que os educadores de nosso tempo possam com proveito aprender das antigas escolas dos hebreus? Aquele que criou o homem proveu as coisas necessárias para o seu desenvolvimento no corpo, no espírito e na alma. Daí, o êxito real na educação depende da fidelidade com que os homens executam o plano do Criador.

O verdadeiro objetivo da educação é restaurar a imagem de Deus na alma. No princípio Deus criou o homem à Sua semelhança. Dotou-o de nobres qualidades. Sua mente era bem equilibrada, e todas as faculdades de seu ser estavam em harmonia entre si. Mas a queda e seus efeitos perverteram estes dons. O pecado mareou e quase obliterou a imagem de Deus no homem. Foi para restaurar a mesma que se concebera o plano da salvação, e se concedera ao homem um tempo de graça. Levá-lo novamente à perfeição em que a princípio fora criado - é o grande objetivo da vida, objetivo este que constitui a base de todos os outros. É o trabalho dos pais e professores, na educação da juventude, cooperar com o propósito divino; e, assim fazendo, são "cooperadores de Deus". I Cor. 3:9. Todas as variadas aptidões que os homens possuem - de espírito, alma e corpo - são-lhes por Deus dadas a fim de serem empregadas de tal maneira que atinjam o mais elevado grau possível de perfeição. Mas esta não pode ser uma cultura egoísta e exclusiva; pois o caráter de Deus, cuja semelhança devemos receber, é benevolência e amor. Cada faculdade, cada atributo de que o Criador nos dotou, deve ser empregado para a Sua glória, e para o reerguimento de nossos semelhantes. E neste emprego encontra-se o seu exercício mais puro, mais nobre e mais feliz. Se a este princípio fosse dada a atenção que a importância do mesmo reclama, haveria uma modificação radical em alguns dos métodos usuais de educação. Em vez de apelar para o orgulho e para a ambição egoísta, acendendo um espírito de rivalidade, esforçar-se-iam os professores por despertar o amor pela bondade, verdade e beleza - por suscitar o desejo de perfeição. O estudante procuraria o desenvolvimento em si dos dons de Deus, não para sobrepujar aos outros, mas para cumprir o propósito

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do Criador e receber a Sua semelhança. Em lugar de ser encaminhada às meras normas terrestres, ou ser movida pelo desejo de exaltação própria, que em si mesmo atrofia e deteriora, a mente se encaminharia ao Criador, a fim de O conhecer e tornar-se semelhante a Ele. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e a ciência do Santo a prudência." Prov. 9:10. A grande obra da vida é a formação do caráter; e o conhecimento de Deus é o fundamento de toda a verdadeira educação. Comunicar este conhecimento, e modelar o caráter em harmonia com o mesmo, deve ser o objetivo do trabalho do professor. A lei de Deus é o reflexo de Seu caráter. Daí o dizer o salmista: "Todos os Teus mandamentos são justiça"; "pelos Teus mandamentos alcancei entendimento." Sal. 119:172 e 104. Deus Se nos revelou, em Sua Palavra e nas obras da criação. Mediante o inspirado volume e o livro da Natureza, devemos obter o conhecimento de Deus. É lei do espírito adaptar-se ele gradualmente aos assuntos de que é ensinado a ocupar-se. Se ele se ocupa apenas com coisas comuns, tornar-se-á definhado e enfraquecido. Se nunca lhe é exigido atracar-se com problemas difíceis, quase perderá depois de algum tempo a faculdade de crescimento. Como uma força educativa, a Bíblia é sem rival. Na Palavra de Deus a mente encontra assunto para os mais profundos pensamentos, para as mais elevadas aspirações. A Bíblia é a história mais instrutiva que os homens possuem. Ela proveio em seu frescor da fonte da verdade eterna, e uma mão divina tem preservado sua pureza através de todos os séculos. Ela aclara o mais remoto passado onde a pesquisa humana em vão procura penetrar. Na Palavra de Deus vemos o poder que depôs os fundamentos da Terra e que estendeu os céus. Unicamente ali podemos encontrar uma história de nossa espécie, não contaminada pelo preconceito ou orgulho humano. Ali estão registradas as lutas, as derrotas e as vitórias dos maiores homens que este mundo já conheceu. Ali se desvendam os grandes problemas do dever e do destino. O véu que separa o mundo visível do invisível, ergue-se, e contemplamos o conflito das forças opostas do bem e do mal, desde a entrada do pecado, a princípio, até o triunfo final da justiça e da verdade; e tudo não é senão uma revelação do caráter de Deus. Na contemplação reverente das verdades apresentadas em Sua Palavra, a mente do estudante é levada em comunhão com a mente infinita. Tal estudo

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não somente purificará e enobrecerá o caráter, mas também não poderá deixar de expandir e vigorar as faculdades mentais.

O ensino da Bíblia tem um papel de importância vital na prosperidade do homem em todas as relações da presente vida. Desvenda os princípios que são a pedra angular da prosperidade de uma nação - princípios esses que se prendem ao bem-estar da sociedade, e que são a salvaguarda da família, princípios sem os quais ninguém pode chegar a ser útil, feliz e honrado nesta vida, ou esperar conseguir a vida futura e imortal. Não há posição alguma na vida, nem ramo da experiência humana, para os quais o ensino da Bíblia não seja um preparo essencial. Estudada e obedecida, a Palavra de Deus daria ao mundo homens de intelecto mais potente e ativo do que o fará a mais apurada aplicação aos assuntos todos que a filosofia humana abrange. Daria homens dotados de fortaleza e solidez de caráter, de fina percepção e juízo são - homens que seriam uma honra a Deus e uma bênção ao mundo.

No estudo das ciências, também, devemos obter conhecimento do Criador. Toda verdadeira ciência não é senão uma interpretação da escrita de Deus no mundo material. A ciência traz de suas pesquisas apenas novas provas da sabedoria e poder de Deus. Corretamente entendidos, tanto o livro da Natureza como a Palavra escrita nos familiarizam com Deus, ensinando-nos algo das sábias e benfazejas leis mediante as quais Ele opera.

O estudante deve ser levado a ver a Deus em todas as obras da criação. Os professores devem imitar o exemplo do grande Mestre, que, das cenas familiares da Natureza, tirava ilustrações que simplificavam seus ensinos, e os gravavam mais fundamente no espírito de seus ouvintes. Os pássaros gorjeando nos ramos frondosos, as flores do vale, as excelsas árvores, as terras férteis, o cereal que germina, o solo árido, o sol poente dourando os céus com seus áureos raios - tudo servia de meios para instrução. Ele ligava as obras visíveis do Criador com as palavras de vida que proferia, para que, onde quer que tais objetos fossem apresentados aos olhos de Seus ouvintes, pudessem seus pensamentos voltar-se às lições de verdade que com os mesmos Ele enlaçara. Os indícios da Divindade, manifestos nas páginas da Revelação, são visíveis nas sobranceiras montanhas, nos fecundos vales, no vasto e profundo oceano. As coisas da Natureza falam ao homem do amor de seu Criador. Ele nos prendeu a Si por meio Pág. 600

de inúmeros sinais do céu e da Terra. Este mundo não é todo tristezas e misérias. "Deus é amor" - acha-se escrito em cada botão que se desabrocha, nas pétalas de cada flor, em cada haste da relva. Embora a maldição do pecado tenha feito a terra produzir espinhos e cardos, há flores sobre os cardos, e os espinhos estão ocultos pelas rosas. Todas as coisas na Natureza testificam do cuidado terno e paternal de nosso Deus, e de Seu desejo de tornar felizes os Seus filhos. Suas proibições e ordens terminantes não se destinam simplesmente a ostentar Sua autoridade; antes, em tudo que Ele faz, tem em vista o bem-estar de Seus filhos. Ele não exige que estes abandonem coisa alguma que seria de seu máximo interesse conservar.

A opinião que prevalece entre algumas classes da sociedade, de que a religião não promove a saúde ou a felicidade, nesta vida, é um dos erros mais nocivos. Dizem as Escrituras: "O temor do Senhor encaminha para a vida; aquele que o tem ficará satisfeito." Prov. 19:23. "Quem é o homem que deseja a vida, que quer largos dias para ver o bem? Guarda a tua língua do mal, e os teus lábios de falarem enganosamente. Aparta-te do mal, e faze o bem; procura a paz, e segue-a." Sal. 34:12-14. As palavras da sabedoria "são vida para os que as acham, e saúde para o seu corpo". Prov. 4:22. A verdadeira religião leva o homem à harmonia com as leis de Deus - físicas, mentais e morais. Ensina o domínio de si mesmo, a serenidade, a temperança. A religião enobrece o espírito, apura o gosto e santifica o juízo. Faz a alma participante da pureza celestial. A fé no amor de Deus e em Sua providência que todas as coisas dirige, alivia o fardo da ansiedade e cuidados. Enche o coração de alegria e contentamento, seja na mais elevada condição ou na mais humilde. A religião tende, diretamente, a promover a saúde, a prolongar a vida, e a aumentar a alegria que experimentamos em todas as suas bênçãos. Abre à alma uma fonte de felicidade que nunca cessa. Oxalá todos os que não escolheram a Cristo pudessem compenetrar-se de que Ele tem algo imensamente melhor para lhes oferecer do que aquilo que se acham eles a procurar para si. O homem se encontra a fazer o maior dano e injustiça à sua própria alma quando pensa e age contrariamente à vontade de Deus. Nenhuma verdadeira alegria pode ser encontrada no caminho proibido por Aquele que conhece o que é melhor, e que planeja o bem de Suas criaturas. A senda da transgressão conduz à miséria e à destruição; mas os caminhos da sabedoria "são caminhos de delícias, e todas as suas veredas paz". Prov. 3:17. Pág. 601

A educação física bem como religiosa, praticada nas escolas dos hebreus, pode com proveito ser estudada. O valor de tal educação não é apreciado. Há uma íntima relação entre a mente e o corpo, e, a fim de atingir-se uma elevada norma de alcance moral e intelectual, devem ser atendidas as leis que governam o nosso ser físico. Para se conseguir um caráter forte e bem equilibrado, tanto as faculdades mentais como as físicas devem ser exercitadas e desenvolvidas. Que estudo pode ser mais importante para o jovem do que aquele que trata deste maravilhoso organismo que Deus nos confiou, e das leis pelas quais ele pode ser preservado em saúde?

E hoje, como foi nos dias de Israel, cada jovem deve ser instruído nos deveres da vida prática. Cada um deve adquirir conhecimento de algum ramo de trabalho manual, pelo qual, sendo necessário, possa obter subsistência. Isto é essencial, não somente como salvaguarda contra as vicissitudes da vida, mas pela relação que tem com o desenvolvimento físico, mental e moral. Mesmo que fosse certo que alguém jamais necessitasse recorrer ao trabalho manual para a sua manutenção, deveria ainda ser ensinado a trabalhar. Sem o exercício físico, ninguém pode ter uma boa compleição e vigorosa saúde; e a disciplina do trabalho bem regulado não é menos essencial para se conseguir uma mente forte e ativa e um nobre caráter.

Cada estudante deve dedicar parte de cada dia ao trabalho ativo. Assim se formariam hábitos de indústria, e alentar-se-ia um espírito de confiança em si, ao mesmo tempo em que o jovem estaria protegido de muitos males e práticas degradantes que tantas vezes são o resultado da ociosidade. E tudo isto está de acordo com o objetivo primordial da educação; pois que incentivando a atividade, a diligência e a pureza, estamos nos pondo em harmonia com o Criador. Que os jovens sejam levados a compreender o objetivo de sua criação: honrar a Deus, e abençoar seus semelhantes; que vejam o terno amor que o Pai celestial manifestou para com eles, e o elevado destino para o qual a disciplina desta vida os deve preparar - a dignidade e honra a que são chamados, mesmo a se tornarem filhos de Deus; e milhares voltar-se-iam com desdém e repugnância dos alvos baixos e egoístas e dos prazeres frívolos que até então os preocuparam. Aprenderiam a odiar o pecado, e a excluí-lo, não meramente pela esperança de recompensa ou receio de castigo, mas por uma intuição da vileza inerente ao

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mesmo - porque seria uma degradação de suas aptidões dadas por Deus, uma mácula em sua varonilidade à semelhança de Deus.

Deus não manda aos jovens terem menores aspirações. Os elementos de caráter que tornam um homem bem-sucedido e honrado entre os homens - o desejo irreprimível de algum bem maior, a vontade indomável, o esforço tenaz, a incansável perseverança - não devem ser esmagados. Pela graça de Deus devem ser encaminhados a objetivos tanto mais altos do que os meros interesses egoístas e temporais quanto os céus estão mais altos do que a Terra, a educação iniciada nesta vida continuará na vida vindoura. Dia após dia, as obras maravilhosas de Deus, as provas de Sua sabedoria e poder ao criar e manter o Universo, o mistério infinito do amor e sabedoria no plano da redenção, patentear-se-ão à mente com novas belezas. "As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que O amam." I Cor. 2:9. Mesmo nesta vida podemos apreender vislumbres de Sua presença, e provar a alegria da comunhão com o Céu; porém, a plenitude dessa alegria e bênçãos será alcançada no além. Unicamente a eternidade poderá revelar o destino glorioso a que o homem, restabelecido à imagem de Deus, pode atingir. VII. O Reino Unido

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