Patriarcas e Profetas
se esforçara por estabelecer no Céu, rejeitando…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
se esforçara por estabelecer no Céu, rejeitando a autoridade de Cristo, e pondo à parte a lei de Deus. Naqueles arrogantes pecadores do mundo antediluviano, viram os súditos sobre os quais Satanás exercia domínio. Os pensamentos do coração dos homens eram só maus continuamente. Gên. 6:5. Cada emoção, cada impulso e imaginação estava em conflito com os divinos princípios de pureza, paz e amor. Isto foi um exemplo da terrível depravação resultante da astúcia de Satanás, de remover das criaturas de Deus a restrição de Sua santa lei.
Pelos fatos manifestos no andamento do grande conflito, Deus demonstrará os princípios de Suas regras de governo, que foram falsificadas por Satanás e por todos os que ele enganou. Sua justiça será finalmente reconhecida pelo mundo inteiro, embora este reconhecimento haja de se fazer demasiado tarde para salvar os rebeldes. Deus tem consigo a simpatia e aprovação do Universo inteiro, enquanto passo a passo Seu grande plano avança para o completo cumprimento. Tê-la-á consigo na extirpação final da rebelião. Ver-se-á que todos os que abandonaram os preceitos divinos colocaram-se ao lado de Satanás, em luta contra Cristo. Quando o príncipe deste mundo for julgado, e todos os que com ele se uniram participarem de sua sorte, o Universo inteiro, como testemunha da sentença, declarará: "Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó Rei dos santos". Apoc. 15:3. 6
Sete e Enoque
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A Adão foi dado outro filho, para ser o herdeiro da promessa divina, herdeiro da primogenitura espiritual. O nome de Sete, dado a este filho, significava "designado", ou "compensação"; "porque", disse a mãe, "Deus me deu outra semente em lugar de Abel; porquanto Caim o matou". Gên. 4:25. Sete era de estatura mais nobre do que Caim ou Abel, e parecia-se muito mais com Adão do que os demais filhos. Tinha caráter digno, seguindo as pegadas de Abel. Contudo não herdou mais bondade natural do que Caim. Com referência à criação de Adão, acha-se dito: "À semelhança de Deus o fez"; mas o homem, depois da queda, "gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem." Gên. 5:1 e 3. Ao passo que Adão foi criado sem pecado, à semelhança de Deus, Sete, como Caim, herdou a natureza decaída de seus pais. Mas recebeu também conhecimento do Redentor, e instrução em justiça. Pela graça divina serviu e honrou a Deus; e trabalhou, como o teria feito Abel caso ele vivesse, para volver a mente dos homens pecadores à reverência e obediência a seu Criador. "E a Sete mesmo também nasceu um filho: e chamou o seu nome Enos; então se começou a invocar o nome do Senhor." Gên. 4:26. Os fiéis haviam antes adorado a Deus; mas, como aumentassem os homens, a distinção entre as duas classes se tornou mais assinalada. Havia uma franca profissão de fidelidade para com Deus por parte de uma, assim como de desdém e desobediência havia por parte da outra.
Antes da queda, nossos primeiros pais tinham guardado o sábado, que fora instituído no Éden; e depois de sua expulsão do Paraíso continuaram sua observância. Haviam provado os amargos frutos da desobediência, e aprenderam o que todos os que pisam os mandamentos de Deus mais cedo ou mais tarde aprenderão: que os preceitos divinos são sagrados e imutáveis e que a pena da transgressão certamente será infligida. O sábado foi
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honrado por todos os filhos de Adão que permaneceram fiéis para com Deus. Mas Caim e seus descendentes não respeitaram o dia em que Deus repousara. Escolheram o seu próprio tempo para o trabalho e para o descanso, sem consideração para com o mandado expresso de Jeová. Recebendo a maldição de Deus, Caim se retirou da casa do pai. Escolheu a princípio para si a ocupação de cultivador do solo, e então fundou uma cidade, chamando-a pelo nome de seu filho mais velho. Saíra da presença do Senhor, rejeitara a promessa do Éden restaurado, a fim de buscar suas posses e alegrias na Terra sob a maldição do pecado, ficando assim à frente daquela grande classe de homens que adoram o deus deste mundo. No que diz respeito aos meros progressos terrestres e materiais, distinguiram-se os seus descendentes. Não tomavam, porém, em consideração a Deus, e estavam em oposição aos Seus propósitos em relação ao homem. Ao crime de assassínio, para o qual Caim abrira o caminho, Lameque, o quinto descendente, acrescentou a poligamia e, desafiador jactancioso, reconhecia a Deus apenas para inferir da vingança sobre Caim a certeza para a sua própria segurança. Abel levara vida pastoral, habitando em tendas ou barracas, e os descendentes de Sete seguiram o mesmo método de vida, considerando-se "estrangeiros e peregrinos na Terra", a buscar uma pátria "melhor, isto é, a celestial". Heb. 11:13 e 16. Por algum tempo as duas classes permaneceram separadas. A descendência de Caim, espalhando-se do lugar em que a princípio se estabeleceu, dispersou-se pelas planícies e vales onde os filhos de Sete haviam habitado; e os últimos, para escaparem de sua influência contaminadora, retiraram-se para as montanhas, e ali fizeram sua morada. Enquanto durou esta separação, mantiveram em sua pureza o culto a Deus. Mas com o correr do tempo arriscaram-se pouco a pouco a misturar-se com os habitantes dos vales. Esta associação produziu os piores resultados. "Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas." Gên. 6:2. Os filhos de Sete, atraídos pela beleza das filhas dos descendentes de Caim, desagradaram ao Senhor casando-se com elas. Muitos dos adoradores de Deus foram seduzidos ao pecado pelos engodos que constantemente estavam agora diante deles, e perderam seu caráter peculiar e santo. Misturando-se com os depravados, tornaram-se semelhantes a eles, no espírito e nas ações; as restrições do sétimo mandamento eram desatendidas, "e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram". Os filhos
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de Sete "entraram pelo caminho de Caim" (Jud. 11); fixaram a mente na prosperidade e alegrias mundanas, e negligenciaram os mandamentos do Senhor. Os homens "se não importaram de ter conhecimento de Deus"; "em seus discursos se desvaneceram, e seu coração insensato se obscureceu". Por isso "Deus os entregou a um sentimento perverso". Rom. 1:21 e 28. O pecado propagou-se largamente na Terra como uma lepra mortal. Durante quase mil anos, Adão viveu entre os homens, como testemunha dos resultados do pecado. Procurou fielmente opor-se à onda do mal. Fora-lhe ordenado instruir sua posteridade no caminho do Senhor; e cuidadosamente guardou como um tesouro aquilo que o Senhor lhe revelou, e repetiu-o a sucessivas gerações. A seus filhos, e filhos de seus filhos, até a nona geração, descreveu a santa e feliz condição do homem, no Paraíso, e repetia a história de sua queda, falando-lhes dos sofrimentos pelos quais Deus lhe ensinara a necessidade de estrita adesão à Sua lei, e explicando-lhes as misericordiosas providências para a sua salvação. Todavia, poucos houve que deram atenção às suas palavras. Freqüentemente defrontava ele com amargas exprobrações pelo pecado que acarretara tal desgraça à sua posteridade.
A vida de Adão foi de tristeza, humildade e contrição. Quando deixou o Éden, o pensamento de que ele deveria morrer fazia-o estremecer de horror. Pela primeira vez teve ciência da realidade da morte na família humana, quando Caim, seu primogênito, se tornou o assassino de seu irmão. Cheio do mais profundo remorso pelo seu pecado, e duplamente despojado pela morte de Abel e rejeição de Caim, Adão prostrou-se com angústia. Testemunhou a corrupção que vastamente se propagava, a qual deveria finalmente determinar a destruição do mundo por um dilúvio; e, posto que a sentença de morte pronunciada contra ele por seu Criador tivesse a princípio parecido terrível, contudo, após contemplar durante quase mil anos os resultados do pecado, compreendeu que havia misericórdia da parte de Deus ao dar fim a uma vida de sofrimento e tristeza.
Apesar da impiedade do mundo antediluviano, aquela época não era, como freqüentemente tem sido suposto, de ignorância e barbárie. Ao povo concedeu-se a oportunidade de atingir uma elevada norma de moral e adiantamento intelectual. Possuíam grande força física e mental, e suas vantagens para adquirirem tanto conhecimento religioso como científico eram sem rival. É um erro supor que, porque vivessem até uma prolongada idade,
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seu espírito tardiamente amadurecia; suas faculdades intelectuais logo se desenvolviam, e os que acalentavam o temor de Deus e viviam em harmonia com a Sua vontade, continuavam a crescer em ciência e sabedoria durante toda a vida. Se se pudessem colocar em contraste os ilustres sábios de nosso tempo com os homens da mesma idade que viveram antes do dilúvio, mostrar-se-iam os primeiros grandemente inferiores não só em força intelectual como física. Assim como os anos do homem diminuíram, e diminuiu sua resistência física, assim suas capacidades mentais se reduziram. Há homens que hoje se aplicam ao estudo durante um período de vinte a cinqüenta anos, e o mundo se enche de admiração com as suas realizações. Mas quão limitadas são tais aquisições em comparação com as de homens cujas capacidades mentais e físicas estiveram a desenvolver-se durante séculos! É verdade que o povo dos tempos modernos tem o benefício das realizações de seus predecessores. Os homens dotados de mente superior, que planejaram, estudaram e escreveram, deixaram sua obra para aqueles que se seguiram. Mas mesmo sob este ponto de vista, e tanto quanto respeita aos meros conhecimentos humanos, quão maiores as vantagens dos homens daqueles antigos tempos! Tiveram entre si durante centenas de anos aquele que fora formado à imagem de Deus, a quem, o próprio Criador declarou "bom" (Gên. 1:31) - o homem que Deus instruíra em toda a sabedoria relativa ao mundo material. Adão aprendera do Criador a história da criação; ele mesmo testemunhara os acontecimentos de nove séculos; e comunicou seu saber aos seus descendentes. Os antediluvianos não tinham livros, não tinham registros escritos; mas com o seu grande vigor físico e mental possuíam forte memória, capaz de apreender e reter aquilo que lhes era comunicado, e por sua vez transmiti-lo intato à posteridade. E durante centenas de anos houve sete gerações vivendo na Terra contemporaneamente, tendo a oportunidade de consultarem entre si, e aproveitar cada uma dos conhecimentos e experiência de todas.
As vantagens dos homens daquela época para adquirirem conhecimento de Deus mediante Suas obras, nunca foram desde então igualadas. E, assim, longe de ser uma era de trevas religiosas, foi ela de grande luz. Todo o mundo teve oportunidade de receber instrução de Adão, e os que temiam ao Senhor tinham também a Cristo e os anjos como seus instrutores. E tiveram uma testemunha silenciosa da verdade, no jardim de Deus, que durante tantos séculos permaneceu entre os homens. Na porta do Paraíso, guardada pelos querubins, revelava-se a glória Pág. 84
de Deus, e para ali vinham os primeiros adoradores. Ali erguiam os seus altares, e apresentavam suas ofertas. Foi ali que Caim e Abel trouxeram seus sacrifícios, e Deus condescendeu em comunicar-Se com eles.
O ceticismo não podia negar a existência do Éden enquanto este permanecesse precisamente à vista, com sua entrada vedada pelos anjos vigilantes. A ordem na criação, o objetivo do jardim, a história de suas duas árvores tão intimamente unidas com o destino do homem, eram fatos indiscutíveis. E a existência e suprema autoridade de Deus, a obrigação imposta por Sua lei, eram verdades que os homens foram tardios em pôr em dúvida enquanto Adão esteve entre eles.
Apesar da iniqüidade que prevalecia, havia uma linhagem de homens santos que, elevados e enobrecidos pela comunhão com Deus, viviam como que na companhia do Céu. Eram homens de sólido intelecto, de maravilhosas realizações. Tinham uma grande e santa missão: desenvolver um caráter de justiça, ensinar a lição da piedade, não somente para os homens de seu tempo, mas para as gerações futuras. Poucos apenas dos mais preeminentes são mencionados nas Escrituras, mas durante todos os séculos Deus teve fiéis testemunhas, adoradores dotados de corações sinceros. De Enoque está escrito que ele viveu sessenta e cinco anos, e gerou um filho. Depois disso andou com Deus trezentos anos. Durante aqueles primeiros anos, Enoque amara e temera a Deus, e guardara os Seus mandamentos. Fora um dos da linhagem santa, dos preservadores da verdadeira fé, pais da semente prometida. Dos lábios de Adão aprendera ele a triste narrativa da queda, e a história animadora da graça de Deus, conforme se vê na promessa; e confiou no Redentor vindouro. Mas depois do nascimento de seu primeiro filho, Enoque alcançou uma experiência mais elevada; foi levado a uma relação mais íntima com Deus. Compreendeu mais amplamente suas obrigações e responsabilidade como filho de Deus. E, quando viu o amor do filho para com o pai, sua confiança singela em sua proteção; quando sentiu a ternura profunda e compassiva de seu próprio coração por aquele filho primogênito, aprendeu uma lição preciosa do maravilhoso amor de Deus para com os homens no dom de Seu Filho, e a confiança que os filhos de Deus podem depositar em seu Pai celestial. O infinito, insondável amor de Deus, mediante Cristo, tornou-se o assunto de suas meditações dia e noite; e com todo o fervor de sua alma procurou revelar aquele amor ao povo entre o qual vivia. Pág. 85
O andar de Enoque com Deus não foi em arrebatamento de sentidos ou visão, mas em todos os deveres da vida diária. Não se tornou um eremita, excluindo-se inteiramente do mundo; pois que tinha uma obra a fazer para Deus no mundo. Na família e em suas relações com os homens, como esposo e como pai, como amigo, cidadão, foi ele um servo do Senhor, constante, inabalável. Seu coração estava em harmonia com a vontade de Deus; pois "andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?" Amós 3:3. E este andar santo continuou durante trezentos anos. Poucos cristãos há que não seriam muito mais fervorosos e dedicados se soubessem que tinham apenas pouco tempo para viver, ou que a vinda de Cristo estava prestes a ocorrer. A fé de Enoque, porém, tornou-se mais forte, o seu amor mais ardente, com o perpassar dos séculos. Enoque era homem de espírito forte e altamente cultivado, e de extenso saber; era honrado com revelações especiais de Deus; todavia, estando em constante comunhão com o Céu, achando-se sempre diante dele a intuição da grandeza e perfeição divina, foi um dos homens mais humildes. Quanto mais íntima a ligação com Deus, mais profunda era a intuição de sua própria fraqueza e imperfeição.
Angustiado pela crescente iniqüidade dos ímpios, e temendo que a deslealdade deles pudesse diminuir sua reverência para com Deus, Enoque evitava a associação constante com os mesmos, e passava muito tempo na solidão, entregando-se à meditação e oração. Assim permanecia ele perante o Senhor, buscando um conhecimento mais claro de Sua vontade, para que a pudesse fazer. Para ele a oração era como a respiração da alma; vivia na própria atmosfera do Céu. Por meio de santos anjos Deus revelou a Enoque Seu propósito de destruir o mundo por um dilúvio, e também lhe revelou amplamente o plano da redenção. Pelo Espírito de Profecia levou-o através das gerações que viveriam após o dilúvio, e mostrou-lhe os grandes acontecimentos ligados à segunda vinda de Cristo e ao fim do mundo.
Enoque estivera perturbado com respeito aos mortos. Parecia-lhe que os justos e os ímpios iriam para o pó juntamente, e que este seria o seu fim. Não podia ver a vida do justo além da sepultura. Em visão profética foi instruído com relação à morte de Cristo, e foi-lhe mostrada a Sua vinda em glória, acompanhado por todos os santos anjos, para, da sepultura, resgatar o Seu povo. Viu também o estado corrupto do mundo, no tempo em que Cristo
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aparecesse pela segunda vez, ou seja, que haveria uma geração jactanciosa, presumida, voluntariosa, negando o único Deus e o Senhor Jesus Cristo, pisando a lei, e desprezando a obra expiatória. Viu os justos coroados de glória e honra, e os ímpios banidos da presença do Senhor, e destruídos pelo fogo. Enoque se tornou um pregador da justiça, tornando conhecido do povo o que Deus lhe revelara. Aqueles que temiam ao Senhor procuravam este santo homem, para partilharem de sua instrução e orações. Trabalhavam publicamente também, apregoando a mensagem de Deus a todos os que desejavam ouvir as palavras de advertência. Seus labores não se restringiam aos setitas. Na terra em que Caim procurara fugir da presença divina, o profeta de Deus tornou conhecidas as maravilhosas cenas que haviam passado ante a sua visão. "Eis", declarou ele, "que é vindo o Senhor com milhares de Seus santos; para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade." Jud. 14 e 15.
Ele foi destemido reprovador do pecado. Enquanto pregava ao povo de seu tempo o amor de Deus em Cristo, e insistia com eles para abandonarem seus maus caminhos, censurava a iniqüidade prevalecente, e advertia os homens de sua geração de que o juízo cairia sobre o transgressor. Era o Espírito de Cristo que falava por meio de Enoque; aquele Espírito se manifesta não somente em expressões de amor, compaixão e rogos; não são somente coisas agradáveis que são faladas pelos homens santos. Deus põe no coração e lábios de Seus mensageiros verdades penetrantes, incisivas como a espada de dois gumes.
O poder de Deus que operava em Seu servo era sentido pelos que o ouviam. Alguns atenderam à advertência, e renunciaram a seus pecados; mas as multidões zombaram da solene mensagem, e continuaram com mais ousadia em seus maus caminhos. Os servos de Deus devem levar uma mensagem semelhante ao mundo nos últimos dias, e esta também será recebida com incredulidade e zombaria. O mundo antediluviano rejeitou as palavras de advertência daquele que andava com Deus. Assim a última geração escarnecerá das advertências dos mensageiros do Senhor. Em meio de uma vida de trabalhos ativos, Enoque perseverantemente manteve comunhão com Deus. Quanto maiores e mais insistentes eram os seus trabalhos, mais constantes e fervorosas eram as suas orações. Ele continuava a segregar-se em certos
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períodos, de toda a sociedade. Depois de permanecer por algum tempo entre o povo, trabalhando para os beneficiar pela instrução e exemplo, retirava-se para passar algum tempo em solidão, tendo fome e sede daquele conhecimento divino que somente Deus pode comunicar. Tendo desta maneira comunhão com Deus, Enoque vinha a refletir cada vez mais a imagem divina. Seu rosto estava radiante de uma santa luz, da própria luz que resplandece no semblante de Jesus. Saindo ele dessas comunhões divinas, mesmo os ímpios contemplavam com admiração a impressão celestial em seu rosto.
A impiedade dos homens atingira tal ponto que foi pronunciada destruição contra eles. À medida em que se iam passando os anos, cada vez mais profunda se tornava a onda da culpabilidade humana, cada vez mais negras se acumulavam as nuvens do juízo divino. Enoque, todavia, a testemunha da fé, mantinha-se em seu posto, advertindo, apelando, rogando, esforçando-se para fazer retroceder a onda de culpabilidade, para deter os dardos da vingança. Posto que suas advertências fossem desatendidas por um povo pecador e amante de prazeres, tinha ele o testemunho da aprovação de Deus, e continuou a batalhar fielmente contra o mal prevalecente, até que Deus o removeu de um mundo de pecado para as puras alegrias do Céu.
Os homens daquela geração zombaram da loucura daquele que não procurara juntar ouro ou prata, ou adquirir posses neste mundo. Mas o coração de Enoque estava nos tesouros eternos. Ele olhara para a cidade celestial. Vira o Rei em Sua glória no meio de Sião. Seu espírito, seu coração, sua conversação, eram sobre coisas celestiais. Quanto maior era a iniqüidade existente, mais ardente era o seu anelo pelo lar de Deus. Enquanto ainda se encontrava na Terra, habitou pela fé no reino da luz. "Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus." Mat. 5:8. Durante trezentos anos Enoque estivera procurando pureza de alma, para que pudesse estar em harmonia com o Céu. Durante três séculos andara com Deus. Dia após dia, almejara uma união mais íntima; cada vez mais estreita se tornara a comunhão até que Deus o tomou para Si. Estivera no limiar do mundo eterno, havendo apenas um passo entre ele e o país da bem-aventurança; e, agora, abriram-se os portais; o andar com Deus durante tanto tempo praticado em terra continuou, e ele passou pelas portas da santa cidade - o primeiro dentre os homens a entrar ali.
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Foi sentida a sua falta na Terra. Notava-se a ausência daquela voz que fora ouvida dia após dia em advertência e instrução. Alguns houve, tanto dos justos como dos ímpios, que testemunharam sua partida; e, esperando que pudesse ter sido transportado para algum de seus lugares de retiro, aqueles que o amavam fizeram diligentes pesquisas para o encontrar, como mais tarde procuraram os filhos dos profetas a Elias, mas sem resultado. Referiram que não mais era encontrado, pois que Deus o tomara. Por meio da trasladação de Enoque, o Senhor tencionava ensinar uma lição importante. Havia perigo que os homens se entregassem ao desânimo, por causa dos terríveis resultados dos pecados de Adão. Muitos estavam prontos para exclamar: "Que proveito há que tenhamos temido ao Senhor, e observado Suas leis, visto que uma pesada maldição repousa sobre o gênero humano, e a morte é o quinhão de todos nós?" Mas as instruções que Deus dera a Adão, e que foram repetidas por Sete e exemplificadas por Enoque, extinguiram as sombras e as trevas, e deram esperança ao homem, de que, assim como por Adão veio a morte, viriam por meio do Redentor prometido vida e imortalidade. Satanás estava impondo aos homens a crença de que não há recompensa para os justos ou castigo para os ímpios, e de que era impossível ao homem obedecer aos estatutos divinos. Mas no caso de Enoque, Deus declara que "Ele existe, e que é galardoador dos que O buscam". Heb. 11:6. Ele mostra o que fará pelos que guardam os Seus mandamentos. Ensinava-se aos homens que é possível obedecer à lei de Deus; que, vivendo embora em meio dos pecadores e corruptos, eram capazes, pela graça de Deus, de resistir à tentação, e tornar-se puros e santos. Viram em seu exemplo a bênção de uma vida tal; e sua trasladação foi uma evidência da verdade de sua profecia relativa ao além, com sua recompensa de alegria, glória e vida eterna aos obedientes, e condenação, miséria e morte ao transgressor. Pela fé Enoque "foi trasladado para não ver a morte, ... visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus". Heb. 11:5. Em meio de um mundo condenado à destruição por sua iniqüidade, viveu Enoque uma vida de tão íntima comunhão com Deus que não lhe foi permitido cair sob o poder da morte. O caráter piedoso deste profeta representa o estado de santidade que deve ser alcançado por aqueles que hão de ser "comprados da Terra" (Apoc. 14:3), por ocasião do Pág. 89
segundo advento de Cristo. Então, como no mundo antes do dilúvio, a iniqüidade prevalecerá. Seguindo os impulsos de seu coração corrompido e os ensinos de uma filosofia enganadora, os homens rebelar-se-ão contra a autoridade do Céu. Mas, como Enoque, o povo de Deus procurará pureza de coração, e conformidade com Sua vontade, até que reflitam a semelhança de Cristo. Como Enoque, advertirão o mundo da segunda vinda do Senhor, e dos juízos que cairão sobre os transgressores; e pela sua santa conversação e exemplo condenarão os pecados dos ímpios. Assim como Enoque foi trasladado para o Céu antes da destruição do mundo pela água, assim os justos vivos serão trasladados da Terra antes da destruição desta pelo fogo. Diz o apóstolo: "Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta." I Cor. 15:51 e 52. "Porque o mesmo Senhor descerá do Céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus"; "a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados." "Os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras." I Tess. 4:16-18. 7
O Dilúvio
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Nos dias de Noé uma dupla maldição repousava sobre a Terra, em conseqüência da transgressão de Adão e do homicídio cometido por Caim. Isto, contudo, não havia grandemente modificado a face da Natureza. Existiam indícios evidentes de decadência, mas a Terra ainda era rica e bela com os dons da providência de Deus. As colinas estavam coroadas de árvores majestosas, que sustentavam os ramos carregados de frutos das trepadeiras. As planícies vastas e semelhantes a jardins estavam revestidas de verdor, e exalavam a fragrância de milhares de flores. Os frutos da Terra eram de grande variedade, e quase sem limites. As árvores sobrepujavam em tamanho, beleza e proporção perfeita, a qualquer que hoje exista; sua madeira era de belo veio e dura substância, assemelhando-se em muito à pedra, e quase tão durável como esta. Ouro, prata e pedras preciosas existiam em abundância. A raça humana conservava ainda muito do seu primitivo vigor. Apenas poucas gerações se passaram desde que Adão tivera acesso à árvore que devia prolongar a vida; e a existência do homem ainda se media por séculos. Houvesse aquele povo de longa vida, com suas raras capacidades para planejar e executar, se dedicado ao serviço de Deus, e teriam feito do nome de seu Criador um louvor na Terra, e correspondido ao propósito por que Ele lhes dera a vida. Eles, porém, deixaram de fazer isto. Havia muitos gigantes, homens de grande estatura e força, afamados por sua sabedoria, hábeis ao imaginar as mais artificiosas e maravilhosas obras; sua culpa, porém, ao dar rédeas soltas à iniqüidade, estava em proporção com sua perícia e habilidade mental.
Deus outorgara a esses antediluvianos muitas e ricas dádivas; mas usaram a Sua generosidade para se glorificarem, e as tornaram em maldição, fixando suas afeições nos dons em vez de no Doador. Empregaram o ouro e a prata, as pedras preciosas e as madeiras finas, na construção de habitações para si, e se esforçaram por sobrepujar uns aos outros no embelezamento de suas Pág. 91 moradas, com a mais destra mão-de-obra. Procuravam tão-somente satisfazer os desejos de seu orgulhoso coração, e folgavam em cenas de prazer e impiedade. Não desejando conservar a Deus em seu conhecimento, logo vieram a negar a Sua existência. Adoravam a Natureza em lugar do Deus da Natureza. Glorificavam o gênio humano, adoravam as obras de suas próprias mãos, e ensinavam seus filhos a curvar-se ante imagens de escultura.
Nos campos verdejantes, e à sombra das esplêndidas árvores, construíram os altares de seus ídolos. Bosques extensos, que conservavam a folhagem durante o ano todo, eram dedicados ao culto dos deuses falsos. A estes bosques ligavam-se belos jardins, sobrepondo-se, às suas longas e serpeantes ruas, árvores frutíferas de todos os tipos, sendo essas alamedas adornadas com estátuas, e dotadas de todas as coisas que poderiam deleitar os sentidos ou servir aos desejos pecaminosos do povo, e assim induzi-los a participar do culto idólatra.
Os homens excluíram a Deus de seu conhecimento, e adoraram as criaturas de sua própria imaginação; e, como resultado, se tornaram mais e mais aviltados. O salmista descreve o efeito que sobre o adorador de ídolos é produzido por tal culto. Diz ele: "Tornam-se semelhantes a eles os que os fazem, e todos os que neles confiam." Sal. 115:8. É uma lei do espírito humano que, pelo contemplar, somos transformados. O homem não se elevará acima de suas concepções sobre a verdade, pureza e santidade. Se o espírito nunca é exaltado acima do nível da humanidade, se não é pela fé elevado a contemplar a sabedoria e o amor infinitos, o homem estará constantemente a submergir mais e mais. Os adoradores de deuses falsos vestiram suas divindades com atributos e paixões humanas, e assim sua norma de caráter se degradou à semelhança da humanidade pecadora. Corromperam-se conseqüentemente. "Viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a Terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente." "A Terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a Terra de violência." Gên. 6:5 e 11. Deus dera ao homem os Seus mandamentos, como regra da vida; mas Sua lei era transgredida, e todos os pecados imagináveis foram o resultado. A impiedade do homem era franca e ousada, a justiça pisada no pó, e os clamores dos opressos chegava até o Céu.
A poligamia fora logo introduzida, contrária às disposições divinas dadas ao princípio. O Senhor dera a Adão uma só esposa,
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mostrando Sua ordem a tal respeito. Mas, depois da queda, os homens preferiram seguir os seus próprios desejos pecaminosos; e, como resultado, o crime e a miséria aumentaram rapidamente. Nem a relação do casamento nem os direitos de propriedade eram respeitados. Quem quer que cobiçasse as mulheres ou as posses de seu próximo, tomava-as pela força, e os homens exultavam com suas ações de violência. Deleitavam-se na destruição da vida de animais; e o uso da carne como alimento tornava-os ainda mais cruéis e sanguinolentos, até que vieram a considerar a vida humana com espantosa indiferença.
O mundo estava em sua infância; todavia a iniqüidade se tornara tão aprofundada e esparsa que Deus não mais a podia suportar; e Ele disse: "Destruirei, de sobre a face da Terra, o homem que criei". Gên. 6:7. Declarou que Seu Espírito não contenderia para sempre com a raça decaída. Se não cessassem de poluir com seus pecados o mundo e os seus ricos tesouros, Ele os eliminaria de Sua criação, e destruiria as coisas com que Se deleitara em abençoá-los; devastaria os animais do campo, e a vegetação que fornecia tão abundante provisão de alimento, e transformaria a formosa Terra em um vasto cenário de desolação e ruína.
Por entre a corrupção prevalecente, Matusalém, Noé, e muitos outros, trabalhavam para conservar vivo o conhecimento do verdadeiro Deus, e conter a onda dos males morais. Cento e vinte anos antes do dilúvio, o Senhor, por meio de um santo anjo declarou a Noé o Seu propósito, e ordenou-lhe construir uma arca. Enquanto construía a arca, deveria ele pregar que Deus traria um dilúvio de água sobre a Terra para destruir os ímpios. Os que cressem na mensagem, e se preparassem para aquele acontecimento pelo arrependimento e reforma de vida, encontrariam perdão, e seriam salvos. Enoque repetiu a seus filhos o que Deus lhe mostrara com relação ao dilúvio, e Matusalém e seus filhos, que viveram até alcançar a pregação de Noé, ajudaram na construção da arca. Deus deu a Noé as dimensões exatas da arca, e instruções explícitas com relação à sua construção em todos os pormenores. A sabedoria humana não poderia ter concebido uma estrutura de tão grande resistência e durabilidade. Fora Deus que fizera a planta da mesma, e Noé o construtor-chefe. Foi construída semelhante ao casco de um navio, para que pudesse flutuar sobre a água; mas nalguns sentidos muito mais se parecia com uma casa. Tinha uma Pág. 95 altura de três andares, com apenas uma porta, que ficava ao lado. A luz entrava por cima, e os diversos compartimentos eram de tal maneira arranjados que todos eram iluminados. O material empregado na construção da arca era o cipreste, ou madeira de Gofer, a qual estaria isenta de apodrecimento durante centenas de anos. A edificação desta imensa arca foi uma operação lenta, trabalhosa. Devido ao grande tamanho das árvores, e a natureza da madeira, muito mais trabalho era então exigido do que hoje para preparar a madeira, mesmo com a força maior que possuíam os homens. Tudo o que o homem podia fazer, se fazia, para tornar perfeito o trabalho; contudo, a arca não podia por si ter resistido à tempestade que deveria sobrevir à Terra. Unicamente Deus podia preservar Seus servos das águas tempestuosas.
"Pela fé Noé, divinamente avisado das coisas que ainda se não viam, temeu, e, para salvação de sua família, preparou a arca, pela qual condenou o mundo, e foi feito herdeiro da justiça que é segundo a fé." Heb. 11:7. Enquanto Noé estava a apregoar sua mensagem de advertência ao mundo, suas obras testificavam de sua sinceridade. Assim foi que sua fé se aperfeiçoou, e se evidenciou. Ele deu ao mundo o exemplo de crer precisamente o que Deus diz. Tudo quanto possuía, empregou na arca. Ao começar a construir aquele imenso barco em terra seca, vinham de todos os lados multidões para verem a estranha cena, e ouvir as palavras sinceras, fervorosas, do pregador original. Cada pancada desferida na arca era um testemunho para o povo.
Muitos a princípio pareceram receber a advertência; não se voltaram, todavia, para Deus, com verdadeiro arrependimento. Não estavam dispostos a renunciar seus pecados. Durante o tempo que se passou antes da vinda do dilúvio, sua fé foi provada, e não conseguiram suportar a prova. Vencidos pela incredulidade prevalecente, uniram-se afinal a seus companheiros anteriores, rejeitando a solene mensagem. Alguns ficaram profundamente convencidos, e teriam atendido às palavras de aviso; mas tantos havia para zombar e ridicularizar, que eles partilharam do mesmo espírito, resistiram aos convites da misericórdia, e logo se acharam entre os mais ousados e arrogantes escarnecedores; pois ninguém é tão descuidado e tão longe vai no pecado como aqueles que tiveram uma vez a luz, mas resistiram ao convincente Espírito de Deus.
Os homens daquela geração não eram todos, na mais ampla acepção do termo, idólatras. Muitos professavam ser adoradores
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de Deus. Pretendiam que seus ídolos eram representações da divindade, e que por meio deles o povo poderia obter uma concepção mais clara do Ser divino. Esta classe estava entre as principais a rejeitarem a pregação de Noé. Esforçando-se eles para representarem a Deus por meio de objetos materiais, cegavam a mente à Sua majestade e poder; deixavam de compenetrar-se da santidade de Seu caráter, ou da natureza sagrada e imutável de Seus mandamentos. Generalizando-se o pecado, pareceu cada vez menos maligno, e declararam finalmente que a lei divina não mais estava em vigor; que era contrário ao caráter de Deus castigar a transgressão; e negaram que Seus juízos viessem a cair sobre a Terra. Houvessem os homens daquela geração obedecido à lei divina, e teriam reconhecido a voz de Deus na advertência de Seu servo; sua mente, porém, se havia tornado tão cega pela rejeição da luz, que realmente criam ser a mensagem de Noé uma ilusão. Não eram as multidões, ou a maioria, os que se encontravam do lado direito. O mundo se achava arregimentado contra a justiça de Deus e Suas leis, e Noé era considerado um fanático. Satanás, quando tentou Eva a desobedecer a Deus, disse-lhe: "Certamente não morrereis". Gên. 3:4. Grandes homens, mundanos e honrados, e homens sábios, repetiam o mesmo. "As ameaças de Deus", diziam eles, "têm por fim intimidar, e nunca se cumprirão. Não necessitais de estar alarmados. Tal acontecimento como a destruição do mundo por Deus, que o fez, e o castigo dos seres que Ele criou, nunca sucederá. Estai em paz; não temais. Noé é um fanático extravagante." O mundo divertia-se com a loucura do velho iludido. Em vez de humilhar o coração perante Deus, continuaram na desobediência e impiedade, como se Deus não lhes houvera falado por meio de Seu servo. Mas Noé permanecia semelhante a uma rocha em meio da tempestade. Rodeado pelo desdém e ridículo popular, distinguia-se por sua santa integridade e fidelidade inabalável. Um poder assistia a suas palavras; pois era a voz de Deus ao homem por meio de Seu servo. A ligação com Deus tornava-o forte, na força do poder infinito, enquanto durante cento e vinte anos sua voz solene soou aos ouvidos daquela geração, com referência a acontecimentos que, tanto quanto poderia julgar a sabedoria humana, eram impossíveis.
O mundo antediluviano raciocinava que durante séculos as leis da Natureza tinham estado fixas. As estações, periódicas, tinham vindo em sua ordem. Até ali nunca havia caído a chuva; a terra Pág. 97
era regada por uma neblina ou orvalho. Os rios jamais haviam passado os seus limites, mas com segurança tinham levado suas águas para o mar. Imutáveis decretos tinham impedido as águas de transbordarem. Mas tais raciocinadores não reconheceram a mão dAquele que conteve as águas dizendo: "Até aqui virás, e não mais adiante". Jó 38:11. Passando-se o tempo, sem qualquer mudança aparente na Natureza, os homens cujo coração tinha por vezes tremido pelo receio, começaram a refazer-se. Raciocinavam, como muitos fazem hoje, que a Natureza está acima do Deus da Natureza, e que suas leis são tão firmemente estabelecidas que o próprio Deus não as pode mudar. Raciocinando que a Natureza se desviaria de seu curso, se a mensagem de Noé fosse correta, tornavam aquela mensagem, na mente do povo uma ilusão, um grande engano. Manifestavam seu desprezo pela advertência de Deus, fazendo exatamente como haviam feito antes que fosse apregoada. Continuaram com suas festas e banquetes de glutonaria; comiam e bebiam, plantavam e edificavam, fazendo seus planos com referência às vantagens que esperavam adquirir no futuro; e mais longe foram eles em impiedade, em desatenção arrogante às ordens de Deus, a fim de testemunharem que não tinham medo do Ser infinito. Afirmavam que, se havia alguma verdade no que Noé dissera, os homens de fama - os sábios, os prudentes, os grandes homens - compreenderiam essa questão.
Se os antediluvianos tivessem acreditado na advertência, e se houvessem arrependido de suas más ações, o Senhor teria desviado Sua ira, como mais tarde fez em relação a Nínive. Entretanto, pela sua obstinada resistência às reprovações da consciência e advertências do profeta de Deus, aquela geração encheu a medida de sua iniqüidade, e se tornou madura para a destruição. O seu tempo de graça estava prestes a expirar. Noé tinha fielmente seguido as instruções que recebera de Deus. A arca estava concluída em todas as suas partes, conforme o Senhor determinara, e estava provida de alimento para o homem e os animais. E agora o servo de Deus fez o seu último e solene apelo ao povo. Com um desejo angustioso, que as palavras não podem exprimir, solicitou que buscassem refúgio enquanto ainda se poderia achar. De novo rejeitaram suas palavras, e levantaram a voz em zombaria e escárnio. Subitamente veio silêncio sobre a turba zombadora. Animais de toda a espécie, os mais ferozes bem como os mais mansos, foram vistos vindo das montanhas e florestas, e encaminhando-se silenciosamente para a arca. Ouviu-se o rumor de um vento impetuoso, e eis que aves estavam a ajuntar-se de todos os lados,
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escurecendo-se o céu pela sua quantidade; e em perfeita ordem passaram para a arca. Os animais obedeciam ao mandado de Deus, enquanto os homens eram desobedientes. Guiados por santos anjos, "entraram de dois em dois para Noé na arca" (Gên. 7:9), e os animais limpos em porções de sete. O mundo olhava com admiração, e alguns com medo. Foram chamados filósofos para explicarem a singular ocorrência, mas em vão. Era um mistério que eles não podiam penetrar. Mas os homens se haviam tornado tão endurecidos pela sua persistente rejeição da luz, que mesmo esta cena não produziu senão uma impressão momentânea. Ao contemplar a raça condenada, o Sol a resplandecer em sua glória, e a Terra vestida quase em edênica beleza, baniram seus temores crescentes com divertimento ruidoso, e, com suas ações de violência, pareciam convidar sobre si o castigo da ira de Deus já despertada.
Deus ordenou a Noé: "Entra tu e toda a tua casa na arca, porque te hei visto justo diante de Mim, nesta geração." Gên. 7:1. A advertência de Noé tinha sido rejeitada pelo mundo, mas de sua influência e exemplo resultaram bênçãos para a sua família. Como recompensa de sua fidelidade e integridade, Deus salvou com ele todos os membros de sua família. Que animação para a fidelidade paternal! A misericórdia havia cessado os seus rogos pela raça culpada. Os animais do campo e as aves do céu tinham entrado no lugar de refúgio. Noé e sua casa estavam dentro da arca; "e o Senhor os fechou por fora". Gên. 7:16. Viu-se um lampejo de luz deslumbrante, e uma nuvem de glória, mais vívida que o relâmpago, desceu do céu e pairou diante da entrada da arca. A porta maciça, que era impossível àqueles que dentro estavam fechar, girou vagarosamente ao seu lugar por meio de mãos invisíveis. Noé ficou encerrado, e os que rejeitaram a misericórdia de Deus, excluídos. O selo do Céu estava naquela porta; Deus a havia fechado, e somente Deus a poderia abrir. Assim, quando Cristo terminar Sua intercessão pelo homem culpado, antes de Sua vinda nas nuvens do céu, fechar-se-á a porta da misericórdia. A graça divina não mais restringirá os ímpios, e Satanás terá pleno domínio sobre aqueles que rejeitaram a misericórdia. Esforçar-se-ão por destruir o povo de Deus, mas como Noé estava abrigado na arca, assim os justos estarão protegido pelo poder divino.