Pêro da Covilhã: Episódio Romântico do Século XV
Capítulo VII
EM RHODES
Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona, passaram a Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se logo á casa commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi dado seu caminho, em vista da carta de credito, que levavam, como fica dito.
Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de Rhodes uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes. Proseguiram n'ella, pois.
Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu, tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por uma natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas tentadoras bellezas do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia pungindo{116} a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a náu, que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde o destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para ficar com Thereza.
Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez mais da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que desejava chegar ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela impressão viva da saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o coração.
A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e, proejando para Rhodes, surge n'este porto.
Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.
Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha propria para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do Egypto e da Syria, bem como para reprimir e rebater os assaltos e insultos dos turcos, que, com galeras armadas em guerra, infestavam aquelles mares, vexando os christãos, roubando e fazendo captivos muitos d'elles.
Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras, com que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não só{117} davam passagem segura e pousada franca aos peregrinos, que visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos e furias dos mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até ao coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir ás virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o não terem os infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.
Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta e frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e brilhante defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em 1480, no mestrado de frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era, receberam os dois viajantes fidalga hospedagem de seus compatricios. A breve trecho estabeleceu-se entre todos aquella confiança e lhaneza de trato peculiarissimas do nosso caracter nacional, que não só se conserva intemerato em quaesquer circumstancias de tempo e lugar, mas ainda mais o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando se topam em terra alheia.
Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este; reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem situadas perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao inimigo; e restabelecer finalmente o importante commercio{118} dos rhodios, que tão notavel incremento havia já tomado; aos intrepidos viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das mais florescentes cidades da Asia.
Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o fazia, foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações. Depois de haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau, que demorava sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre alcantilado fraguedo, que se erguia do seio das ondas.
Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que d'ahi podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe não entrassem soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a bravura com que n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da Covilhan escutava com interesse e assombro a narrativa, e não poude occultar a commoção de jubilo, que sentiu ao ouvir as referencias feitas á galhardia dos nossos.
Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da guerra, por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então os triumphos gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do Omnipotente, do que ao esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr. Fernão de memorar um caso milagroso, que contribuiu principalmente para a derrota dos turcos.
—Depois de assalto á cidade fugiram para ella{119} grande numero de turcos. Attestaram estes com juramento, que, tendo o grão-mestre acudido ao combate, e feito arvorar de novo as bandeiras, em que se divisavam pintadas as imagens de Christo, da Virgem e de S. João Baptista, alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo instante viram os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da côr de ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um homem vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e logo um luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas, correndo em tal ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta visão—diziam os desertores—ficaram os turcos tão assustados e attonitos, que os que iam em marcha ao assalto, não se atreveram passar adeante; e os que já estavam interessados na lucta, conceberam tanto medo e terror, que voltaram as costas, e para fugirem com menos embaraço se mataram uns aos outros.
—Vencemos!—concluiu frei Fernão—. Mas sem aquelle celeste auxilio não podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas forças dos inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com grande gloria dos christãos e a mór affronta dos infieis!... E a proposito deixai-me lamentar, que o senhor D. João II, sendo tão catholico, tenha a sua attenção distrahida{120} para Africa, e não nos auxilie em nossa empreza!...
—Estou certo—retorquiu Pero da Covilhan—de que el-rei, meu Senhor, admira os vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento da sagrada milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias do reino, não podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais porventura, que sua alteza deve consentir á sua porta, a vexar a christandade, o agareno insolito e maldito?...
—Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem duvida obra emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se tivessemos seguro o nosso dominio na Asia...
—Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta podésse ir á India!... O resultado seria a propagação da fé catholica n'essas regiões remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...
—Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um tal proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...
—Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O que vós não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos aventureiros por indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma barreira constante, posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar; por isso natural é, que estejamos sempre{121} anciosos de vencer esse obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo, para virmos a ser um dia os primeiros navegadores do mundo?!...
—Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas... Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em Alexandria fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos mares, sem que ninguem póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura ella sonhasse, que por mar se podia ir á India, já lá tinha surgido a sua grande fróta...
—Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...
—Assim é...
—Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no movimento diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do Oriente partisse um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do ouro. Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os não deixou ir mais além, uns retrocederam, outros ficaram...
—Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é acredita-lo—interrompeu fr. Fernão.
—Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia sempre no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento não se transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu coração?...{122}
—Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio aventureiro razão sobeja me dá.
—Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará ao Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o Sol!...
—Prouvéra a Deus, que assim fosse!...—exclamou com enthusiasmo fr. Fernão.
—Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva, é procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me informações, que me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem, muito ganharia a nossa religião santa, se com elle el-rei contraisse alliança...
—Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias d'esse afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal fundadas.
—Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?
—Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais de um seculo, e até hoje—que eu saiba!—não tem constado cá, haver-se descoberto o reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.
—Informação de pêso é essa...
—Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome commum a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do Egypto, o de Dario aos reis persas, o de Cesar{123} aos imperadores romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa ottomana. Esse nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus em Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão da cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E esse imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de Babilonia, de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem na India se chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha muito que desappareceu.